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CAPA


Para as mulheres, que me ensinaram a essĂŞncia do que sei.


Agradecimentos Agradeço a Deus, que me deu a oportunidade de viver para contar essas histórias. Minha mãe, que sempre confiou em mim. Meu pai, que sempre duvidou de todas narrativas existentes. Ayla Lourenço, que me introduziu ao mundo dos bordados. Sara Lourenço que sempre me impulsiona a ser uma pessoa mais criativa. Bernardo Lima, que sempre me apoia e permanece ao meu lado. Mirella Souza, por acreditar em mim e ser uma inspiração. Agradeço à Andreia Lopes, Celeste Franceschi, Elaine Silva, Isabela Lamego, Susana Loureiro e Wanessa Scardua por doarem um tempo na correria diária e partilharem suas trajetórias de vida comigo. Sem vocês a realização deste livro não seria possível.

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Sumário

Apresentação 1 ....................................................................................................................... 1 Apresentação 2 ....................................................................................................................... 4 Elaine Silva ............................................................................................................................. 6 Andreia Lopes ....................................................................................................................... 14 Celeste Franceschi ................................................................................................................. 22 Wanessa Scardua .................................................................................................................. 36 Susana Loureiro .................................................................................................................... 46 Isabela Lamego ...................................................................................................................... 51 Narrando os relatos em retalhos .......................................................................................... 68


Apresentação 1 Sempre gostei de ouvir histórias. Tanto da minha avó e da minha mãe, quanto aquelas que a igreja contava. Fui questionada sobre quando comecei a me interessar pela leitura e pela escrita e puxando na memória consegui escrever as páginas a seguir. Sei que tinha 13 anos quando comecei a escrever e isso era feito nas aulas de matemática, e junto com os nós, os nomes dos monstros das histórias se clareavam a cada palavra dita pela professora.

Lembro que era costume observar as histórias das pessoas. Me mudei para o bairro da minha avó quando era bem pequena, com 7 anos, e a igreja era nosso ponto de encontro todos os domingos. A igreja era enorme e minha avó também. Hoje estou maior que ela e minha mente ainda fica confusa com isso. Ela passou mais tempo maior do que eu do que ao contrário. E foi nesta igreja que conheci a primeira personagem que quis narrar. Uma senhora, bem mais idosa que a minha avó, sentava na terceira fileira sempre. Constantemente eu escrevia bilhetes para ela, com a letra torta, de quem tinha acabado de aprender as primeiras palavras. O conteúdo variava entre: eu te amo, vó Olga; e: você é linda. Avó Olga era a mãe do pastor. Postura de respeito.

Lembro de ser curiosa e querer conversar sobre a vida dela durante o culto, ela sorria e olhava para frente como quem: depois a gente conversa. Depois de grande, inventei de querer escrever um livro sobre a vida dela. Ela me intrigava. Em julho de 2016 fui até a casa dela, que é na mesma rua que a minha avó mora até hoje, e coletei diversos dados. Conversamos por horas a fio. Ela me mostrava fotos e contava do talento nato que ela não tinha para cozinhar. Me encantei com ela pela história que transcendia as roupas antigas e o cabelo branco sempre bem penteado. O livro não saiu do pensamento. Mas o pensamento ficou marcado por ela. Avó Olga se foi dia 10 de março de 2017, com mais de 90 anos.

Aos 13 anos morava no Rio de Janeiro, com minha mãe e irmãs, e lia muito pela internet. Existiam comunidades no Orkut para quem gostava de ler e escrever histórias, e lá eu escrevia algo que não sei nomear… Contos, talvez? Muita gente dava continuidade às histórias e outras criavam novas. A escrita era mantida, também, em diários com cadeados. Todos os dias chegava da escola e narrava em primeira pessoa os acontecimentos mais importantes. Aos 15 anos voltei para o Espírito Santo, minha terra natal, e inventei que estava velha, na 1


minha visão, para começar a ler, mas antes tarde do que nunca. Pedi o livro Crônicas de Nárnia para meu pai de presente de aniversário, se não me engano, e li o livro todo (752 páginas) em uma semana. Fiquei fascinada por C.S Lewis, o escritor, e pelo livro ser escrito em 1949 e, ao mesmo tempo, ser tão real, como se tivesse sido escrito naquele dia. Pesquisei por livros de fantasia e encontrei clássicos, como Alice no País das Maravilhas e Peter Pan. Inclusive, Peter Pan é o meu livro favorito até hoje.

Nessa época, meu gosto por escrita aumentou. Até porque não tinha somente a aula de matemática para escrever. Como estava no ensino médio, tinha também física e química. Risos. Escrevia poemas, crônicas, contos, pedaços de histórias, tudo e qualquer coisa e colocava em um blog que se chama Green Piece, a tradução literal é: Pedaço Verde. Por tanto ir atrás do que quero, pesquiso por premiações e participo de todas que vejo. Coleciono declassificações no meio de três prêmios de crônicas jornalísticas. Depois de escrever sempre de aula em aula, chegou o ENEM1 e com ele a decisão mais importante da minha vida: que curso fazer? Na segunda tentativa, em 2014/1 entrei na FAESA2 no curso de Jornalismo; e em 2015/2 entrei na UFES 3 no curso de Letras-português. Em Jornalismo descobri o desejo em me aperfeiçoar na escrita e nas histórias. Conheci a escrita de Eliane Brum e li todos os livros dela em um semestre. Que escrita! Letras sempre foi minha primeira opção, mas passei em Jornalismo e vi que posso ser uma mescla dos dois, e de muitos outros. A temática “mulheres no jornalismo” nasceu de uma curiosidade sobre a redação. No meu segundo ano de faculdade, uma professora de Redação Jornalística afirmou que eu tinha jeito para ser editora, porque corrigi bem o texto de fulano de tal na atividade. Meu sorriso foi lá em cima. Mas o que é ser uma editora de redação do impresso? O que elas fazem? Como é a atuação delas em Vitória? O machismo na Redação, que li tanto em artigos, é real? Essas perguntas nortearam este Trabalho. Como sou apaixonada por crônicas, elas se encaixaram bem no cenário.

A narrativa das mulheres estava criada, eu não inventei nada. Isso foi primordial. Ouvia pela primeira vez a história na entrevista fazendo anotações, depois ouvia novamente em casa

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Exame Nacional do Ensino Médio. Faculdades Integradas Espírito-Santenses. 3 Universidade Federal do Espírito Santo. 2

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escrevendo os pontos principais e o próximo passo foi escrever as crônicas. Outra parte fundamental na produção do livro foi o bordado. Comecei a bordar em janeiro de 2017, no papel. Minha irmã, Ayla Lourenço, é formada em Artes e desenvolveu a técnica de bordar mapas astrais sob o papel. Sempre admirei o trabalho dela e pensei que poderia ser mais do que um mapa astral. Com isso, criei moldes de desenhos e bordo com frequência. Em agosto de 2017 abri minha loja virtual de bordados no Instagram, Anuviar Bordados, e incluo neste livro algumas criações.

A capa feita com bordados trata-se de uma representação do fio orientador, em que as histórias são contadas e os relatos viram retalhos bordados para que cada um fique ainda mais próximo do anterior. Mantendo a ideia de fio orientador como uma linha de bordado que segue o pontilhado no papel. De ponto em ponto a linha na agulha cria um desenho, como o fio que liga palavras, costura frases, prende sentidos e tece textos.

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Apresentação 2

Este livro reúne crônicas jornalísticas que narram as trajetórias da vida profissional de seis mulheres jornalistas que trabalham, ou já trabalharam, nas Redações dos jornais impressos A Gazeta e A Tribuna, localizados em Vitória, Espírito Santo, Brasil.

A linguagem das crônicas é coloquial, devido ao desejo da autora em manter a essência do gênero crônica. São narradas de forma espontânea, para que o leitor se aproxime ao máximo da realidade do que aconteceu na entrevista. Para uma melhor compreensão entre os gestos e os dizeres das jornalistas, com intuito de que não haja ruído na comunicação.

Cada capítulo é composto por uma crônica. Além das narrativas sobre as jornalistas, foram escritas, também, crônicas relatando como foi o processo de escrita; o sentimento da autora; as expectativas de cada momento; e o encontrar com as jornalistas, de quem havia ouvido falar, mas nunca visto pessoalmente. É narrado de forma detalhada para que o leitor se sinta incluído no diálogo.

Na capa de cada capítulo sobre as trajetórias das jornalistas, há um desenho bordado escolhido por elas, com símbolos que as representam. Os bordados são feitos à mão pela autora do livro. Eles foram introduzidos para haver conexão entre a linha dos bordados, escolhidos por elas, e o tecer das palavras que foram ditas por elas e transcritas pela autora. Segue o livro de crônicas jornalísticas, sendo três profissionais da Redação do jornal impresso A Gazeta, e três da Redação do jornal impresso A Tribuna. A narrativa ocorre de forma cronológica de acordo com as datas em que ocorreram os encontros com as jornalistas.

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"Quero que meu desenho seja uma lua. Porque representa as fases da nossa vida. O quanto podemos crescer, regredir e voltar a crescer" - Elaine Silva

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Dia 24 de agosto de 2017.

A entrevista com Elaine Silva está marcada na rede Gazeta, às 16 horas. Chego adiantada na empresa. Me pedem para subir. Chego e espero em pé meio sem saber o que fazer. Encontro a redação em movimento. Em constante processo de criação. Finalmente jornalista na redação. Sinto um frio duplamente atenuado, na barriga e no corpo. Procurei por Elaine com os olhos e a avistei rápido. Ansiedade. Mãos suando frio. O barulho que meus passos fazem ao caminhar ecoa no lugar. Barulho diferente. Sinto o sussurrar de notícias como se fossem segredos que ninguém pode descobrir antes de estar no jornal impresso ou no online. Elaine me vê e sorri. Me chama com sinais, para me aconchegar a eles no centro do lugar. Eles. Duas editoras executivas e três editores executivos. Editores. O que sempre quis ser. Me levou para o meio da Redação, onde ficam os chefes. Fui direto para o meio dos editores. Estranho para mim, uma foca, estar entre eles. O olhar deles para mim, me fazia sentir ser a notícia. Uma notícia viva. "O que ela está fazendo aqui?", perguntavam uns aos outros. Porque eles estão perguntando isso pra mim? Eu era o diferente na Redação. Falei brevemente com o rosto enrubescido que estava ali para entrevistar Elaine. Ela fez uma pose com o braço, como uma modelo de capa de revista; e comentou algo com os colegas jornalistas sobre a capa do jornal do feriado de sete de setembro. Esperei por dois minutos e fomos para uma sala em que ela me contou sua trajetória até aqui. Os cantores sertanejos, Victor e Leo, estavam no prédio. A história que você lê a seguir fluiu entre gritos e palmas para a dupla.

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Elaine Silva, Editora Executiva do jornal impresso A Gazeta.

Em uma sala de reuniões, de dentro da Redação, Elaine senta em uma das cadeiras da mesa larga comprida, na cabeceira. Lugar em que senta o chefe. Ligo o gravador do celular e a história corre. Elaine queria ser arquiteta. Sempre gostou do visual, de desenhar, de ter noção de como é feito isto e aquilo. Pensou que poderia ser uma boa arquiteta. Depois do ensino médio fez o IFES4. Escola Técnica: Edificações. No meio do curso, percebeu que tinha colegas muito talentosos e que ela, apesar de gostar muito, não se sentia realizada. Achava que era normal, não se destacava. Não por notas, porque conseguia ter notas boas. Mas por não ter, às vezes, visão de algumas coisas, que muitas pessoas tinham. Pensou em fazer Engenharia. Mas depois, decidiu que não queria fazer isso pelo resto de sua vida. Quis deixar o curso na metade, mas sua mãe a encorajou a terminar e depois mudou.

No último ano da Escola Técnica, ela fez cursinho pré-vestibular, mas como havia feito somente quatro meses de estudo, não passou. Fez o ano seguinte todo de cursinho e conseguiu passar em Jornalismo na UFES5, na turma de 1994/1. Escolheu Jornalismo porque sempre gostou muito de escrever. Com um pé na Engenharia, foi para Comunicação. Sempre gostou muito de ler, admirava e se identificava muito com jornal impresso.

Entrou na Redação do jornal impresso A Gazeta na primeira residência, um curso que a empresa oferece para os recém-formados. Fez a prova para entrar no segundo semestre de 1998 e passou. Em 1999 houve uma grande demissão na equipe do jornal e contrataram dez residentes, incluindo ela. Demorou um pouco para os colegas de profissão digerirem o que acontecera, mas entenderam.

Na residência, ela passou por todos os setores da empresa de comunicação: a televisão, o rádio e o jornal impresso. Existia o online, mas não era como hoje. Entrou no impresso. Sempre achou o texto de tevê mais raso. Gostava de escrever mesmo. Colocar a mão na

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Instituto Federal do Espírito Santo. Universidade Federal do Espírito Santo.

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massa. Reclamava que não tinha espaço para escrever. Entrou como repórter de Cidades e ficou por um tempo.

Além do texto gosta também da diagramação, de ver como a matéria se encaixa na página; se teria infográfico, imagens e onde caberia cada um. Às vezes ficava até às 23 horas na Redação acompanhando como seria a diagramação. Na época, surgiu uma vaga de editora adjunta de Economia. A editora de Cidades a indicou para a vaga. Por ser boa em diagramação e em números, o editor a contratou. “Essa contratação foi meio polêmica”, conta. Porque eles disseram que ela era muito nova. Tinha 25 anos e foi editora adjunta de Economia. Editora de pessoas que amava ler quando fazia faculdade. De pessoas antigas na Redação. Elaine explica que existe uma hierarquia entre os jornalistas na Redação. Apesar disso, foi super bem recebida. Aprendeu que deve acreditar na pauta para ela deslanchar.

No final de 2013, houve uma consultoria que dividiu a Redação em Redação Estrela. Transformação implantada em janeiro de 2014. Unindo Política, Economia e Mundo, conhecidos como “hard news”; e Cidades, Polícia, Caderno 2, Entretenimento e Esporte. Nisso, Elaine assumiu o hard news, e era, também, editora de Economia. Elaine ficou no cargo por um ano, até que em fevereiro de 2015 se tornou editora-executiva e permanece até os dias de hoje. Quando entrou no jornal não imaginava que seria chefe tão rápido. “Já passaram quase 20 anos e não parece”, reflete. Quando chegou já tinham editoras na chefia, no Caderno 2, por exemplo, mas Economia foi a primeira vez. A ascensão era algo que ela não esperava, não por ser mulher, mas por ser muito nova.

As mulheres sempre estiveram na Redação. Hoje, explica que existem dois editores executivos e editoras de Economia, Cidades e subs-editoras. O que mais enfrentou na questão de ser mulher foi que as fontes e os eventos eram predominantemente masculinos. Como em eventos da FINDES6, os chefes de sindicatos de empresas eram homens. Só homens no eventos. Às vezes só ela de mulher, bem nova. O máximo que aconteceu foram piadinhas sem graça, mas nada que chegasse a constrangê-la. Como mulher, se deparou com um mundo masculino.

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Federação das Indústrias do Espírito Santo.

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Elaine conta que sendo mulher percebe que a gente se coloca mais no lugar do outro. Explica que é muito mais fácil entender a situação de alguém que tem um filho pequeno e que vai se atrasar por isso, do que um chefe homem. Ela não acha que é questão de preconceito. “Tem homem, que, claro, é mais sensível, mas têm outros que tem a natureza assim”, ressalta.

Já teve muita dificuldade de chamar atenção dos outros. Elaine acredita que isso seja mais de sua personalidade e não do fato de ser mulher. Mulher é multitarefa. “O homem não é incompetente, mas a visão da mulher é muito mais ampliada do que a do homem”, avalia. Acrescenta que a mulher se preocupa desde o mínimo até o macro. O homem é mais prático, pragmático. Na mulher tem mais coração envolvido. A mulher é mais sensível com temas. Ela se preocupa com a história de vida de cada um. Elaine se expressa por gestos e seu olhar descreve o que as palavras não conseguem transmitir.

O impacto de estar na posição de chefia foi quando logo que virou chefe, com menos de dois meses com a conquista, teve que demitir uma pessoa. “Foi um teste”, confessa. A pessoa tinha que ser demitida, mas pensou que fosse fazer isso em conjunto com editores-chefes, mas fez sozinha. A pessoa tinha muito tempo de casa e chorou muito. Assim, Elaine começou a criar uma casca em torno dela. Teve que entender a situação pela qual a empresa passava. “O coração fica pequenininho”, descreve. Foi a primeira coisa que aprendeu e na marra. Para Elaine, lidar com a burocracia é normal: “O que você não sabe, aprende”. Lidar com pessoas é difícil. O chefe precisa ser psicólogo também. Não é ser amigo. Mas deve saber o perfil de cada pessoa: reclamão, estourado, gente boa, puxa saco… e que por trás de cada um deles têm um talento. É importante conhecer cada pessoa para saber lidar com o que vai vir. Assim como a cobrança do subordinado, que muitas vezes pode ter razão, mas quer te atropelar com aquilo.

A arte de liderar é muito mais você lidar com seu chefe do que você liderar o seu subordinado. Foi assim que a jornalista começou explicando que é importante não lidar somente com o grupo que pode te ajudar, mas também lidar com a pessoa que te cobra. Elaine acha ruim o chefe que não defende sua equipe. “Se você conhece cada repórter e vê que você está deixando alguém errar; seu chefe vai falar com você e você precisa ser a defesa do seu 11


repórter”, explica. O chefe precisa ter uma equipe boa, de referência, mas se tiver que ter uma demissão um dia, terá. E no dia a dia é preciso defender seu repórter. Elaine já teve chefe de todos os jeitos. Também teve que entender o seu chefe. “Jornalismo é isso, dar furo, ser capa de jornal”, conta. Olhar no outro dia e ver que a equipe conseguiu contar uma história que ninguém contou é maravilhoso, mas têm dias ruins também. Os jornalistas precisam aceitar as críticas e tentar melhorar porque o ramo está mudando. “É bom ser chefe, eu gosto”, diz.

O perfil do jornalista hoje é de uma pessoa totalmente multimídia. Não pode ter vergonha da tevê, tem que saber a voz do rádio. Precisa estar preparado para tudo, escrever um texto curto, olhar a rede social. Na época que ela entrou, não tinha nada disso. Elaine veio na Redação para contar boas histórias. O que continua sendo a base de tudo isso, mas antes apurava uma pauta, voltava, tinha um tempo para escrever e só entregava no outro dia. Hoje, até a pessoa fazer tudo o que ela fazia antes, já entrou no rádio e já fez um vídeo live no Facebook. Elaine acha isso muito mais legal, muito mais movimentado. Se tivesse entrado hoje, como se considera criativa, se daria bem na Redação. O olhar feminino dela influencia de forma significativa no jornal. “Quando estou de férias, as capas ficam mais masculinas”, brinca entre risos. Até mesmo nas questões mais humanas. Explica que A Gazeta tem muito de Política e Economia, mas preza pelo visual, pelas fotos de impacto. Elaine passa para o repórter que sempre a melhor história é a que ele traz, não a que o editor lhe entrega. Sempre falava: se você quer fazer algo legal, traz para mim. Tem o instinto materno. “É aquilo, parece que falo com o repórter, como uma mãe que deixa fazer o que o pai não deixou; traz algo bom para mim depois a gente vê o que faz”, explica. Elaine acredita muito nos repórteres. O bem maior que a gente pode oferecer para as pessoas é a história. Isso eu ouço ela dizer com os olhos de uma sonhadora.

Em 1999, já tinha muita mulher na redação, mas não em cargos de direção. A Gazeta nunca teve uma editora chefe, sempre chefia de reportagem e editora executiva. Mas em cargos altos de redação, em cargos máximos, sempre foi homem. Elaine comenta que se não for metade homem e metade mulher hoje na Redação do impresso da A Gazeta, capaz de ter mais mulher.

Para Elaine, Jornalismo é informar para as pessoas aquilo que elas não sabem ou aquilo que 12


ninguém, até hoje, teve coragem de contar. É jogar a luz sobre algo que ninguém mostra. É cumprir o papel de ajudar o cidadão, a enfrentar alguma situação, dar a mão e falar que ele pode contar com você. Notícia é o fato. Alguma coisa que acontece e ninguém sabe, algo novo. Virtudes de um bom jornalista: curiosidade, perseverança, não pode ter preguiça e precisa saber escrever.

Pela manhã, desde 6 horas, Elaine já sabe o que a Redação está produzindo. Às 7 horas, entra na Redação. Organiza o fluxo de informações e conteúdos que estão em andamento durante o dia para que alimente o Gazeta Online, a rádio CBN 7 e os dois jornais impressos até o dia seguinte. Representa a Redação multimídia - os dois telejornais, a rádio e o Gazeta Online na reunião de 11 horas. Nesta, são definidas as manchetes e fotos dos jornais impressos, depois são pré-definidas as tarefas que cada editoria fará. Por fim, Elaine se encontra com o chefe e passa a bola para ele. Vai para casa 18 horas, cuidar da filha, Aline e do marido, Marcos Correa.

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Rede de rádio afiliada à Central Brasileira de Notícias.

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"Quero que meu desenho seja uma mão com o símbolo da paz. Porque hoje sou mais leve. Entendo mais as coisas e levo na esportiva” - Andreia Lopes

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Dia 25 de agosto de 2017.

Dia ensolarado. Liguei pela manhã e mandei mensagens para confirmar a entrevista. Confirmada, procurei o endereço da Secom8 e anotei em um papel. Espero não me perder. Andar sozinha no Centro de Vitória não é a minha praia. Capaz de nem a praia ser a minha praia, se é que me entendem.

Cheguei 20 minutos adiantada, como de costume. Por isso esperei por 20 minutos. Sala de espera silenciosa. Si len ci o sa. É possível ouvir o respirar de Juliana, assistente de Andreia. Deu o horário e Andreia apareceu. Sorridente. O barulho do salto quebrou o silêncio. Simpática tanto quanto na ligação telefônica que aconteceu no processo da apuração deste livro.

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Secretaria Especial de Comunicação Social.

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Andreia Lopes, Assessora de Comunicação do Governo do Estado do Espírito Santo. A jornalista olhou para mim e, com gestos, me convidou para segui-la até seu ambiente de trabalho. 

Boa tarde.

Boa tarde!

Tudo bom?

Tudo!

Logo liguei o gravador do celular. Ansiosa.

Andreia Lopes sempre quis fazer Jornalismo. No início achava que queria ser médica e tentava diagnosticar as doenças das pessoas, já que lia muito sobre isso. Mas depois, no ginásio, uma professora incentivou que ela participasse de um concurso de crônicas, em Cachoeiro de Itapemirim, cidade do sul do Estado. Crônica, logo crônica. Participou e ganhou em quarto lugar na Academia Cachoeirense de Letras. Começou a escrever e participou de outros concursos. Chegou em casa e disse: quero escrever. Então, seu irmão respondeu: você tem que ser jornalista. Não tinha faculdade de Comunicação em Cachoeiro. Percebeu que a curiosidade era uma característica nata e que não tinha a ver com a Medicina em si.

O barulho, e o frio, do ar condicionado estavam sempre presentes. Andreia fez um jornal na escola, com ilustração e críticas. Veio de Cachoeiro para Vitória. Começou o curso de Jornalismo na UFES9, no segundo semestre de 1994. Fez estágios e em 1997 entrou no curso de residência da A Gazeta, na segunda turma. Aquilo, para ela, era igual o vestibular. Aprendeu tanto quanto aprendeu na faculdade. Conseguiu uma vaga na rádio CBN 10, ainda antes de ter concluído o curso de Jornalismo. Conseguiu um registro de radialista e ficou onde nunca imaginou estar: na rádio. Mas o sonho era o jornal impresso. “Eu me imaginava no Caderno 2”, conta. Abriu uma vaga na editoria de Política, e, além da faculdade de Jornalismo, Andreia se viu no plantão na CBN e no plantão do jornal impresso. Não demorou muito, pediu demissão da rádio e ficou apenas no impresso. 9

Universidade Federal do Espírito Santo. Rede de rádio afiliada à Central Brasileira de Notícias.

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Entrou no Jornalismo Político por acaso. Sempre pensou em entrar em Cidades, mas entrou em um momento de crise política do Estado cobrindo o TRE11, na última eleição da urna de papel. Depois, cobriu a primeira eleição 100% informatizada.

Todos eram bons jornalistas. Andreia sentiu que deveria ser uma boa jornalista porque estava entre grandes. Conta que foi bom ter começado no judiciário, porque isso contribuiu para ela entender o assunto e as fontes da editoria, nos relacionamentos com os outros poderes e no cuidado de apuração.

Trabalhava para ser a melhor no que fazia. Andreia nunca imaginou que seria chefe. Queria ser a melhor repórter por ela. Ganhou dois prêmios de Jornalismo e virou colunista na Praça Oito12. Queria sempre melhorar. Não queria ser colunista porque queria ser uma boa repórter e escrever melhor. Mesmo sendo editora, escrevia para a Praça Oito esporadicamente. Depois conseguiu uma coluna semanal com o próprio nome, aos domingos, no jornal impresso. Foi a forma de não perder o vínculo com as fontes. Tudo aconteceu por acaso. Abriu vaga de editora executiva e foi. Todas as vezes que foi convidada para outros cargos, ficou triste por ter que largar o que tanto se apegou.

De todos os lugares que passou, o que mais sente falta é a Praça Oito. Por dar furos, por se relacionar diferente com as fontes. “Esta coluna foi capa duas vezes do jornal impresso”, conta empolgada. Pensava em fazer bem feito, mais do que pensava em virar chefe. Já havia atingido o topo, na concepção dela. Isso porque não queria a última posição de cargo acima dela, assumido pelo colega jornalista.

Os detalhes do escritório me intrigam. Há um mapa colorido enorme do Estado do Espírito Santo do meu lado direito, pregado na parede. Além dos nomes dos municípios e cidades, vejo os nomes dos rios que circundam a região. As cores combinam com o ambiente neutro e traz leveza para a conversa.

Foi movida pelo desafio em cada etapa. Em 2015, surgiu o convite para ser Assessora do Estado, e pensou, mais uma vez: já cheguei no topo aqui na Gazeta. O primeiro impacto de estar na posição de chefia era o de planejar. Sempre foi muito disciplinada. É preciso montar uma equipe muito boa. Era preciso ter a continuidade de perfil, do jornalista certo, para a equipe de Política. A liderança não foi um desafio para ela, porque ela já estava ali. O fato de 11 12

Tribunal Regional Eleitoral. Coluna do jornal A Gazeta.

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dar ordem, cobrar horário e corrigir texto não foram difíceis, o maior desafio foi organizar as pautas. Ter escrito uma coluna ajudou porque tinha furos e ideias de pautas. “É preciso fazer um jornalismo conectado com a realidade”, revela. Andreia comenta que os fatos políticos são interpretados e cada equipe precisa entender isso. Ser chefe é ser como qualquer outro jornalista. Sempre tentou se integrar muito com a equipe porque via outros profissionais com a mesma posição dando certo. Ela era muito exigente. “O pessoal brincava falando que quando eu dava um toque, empurrava ladeira abaixo”, relata. Para servir de disciplina para as pessoas, é preciso ser dura com elas. Não há a diferença hierárquica para ela. Mas sempre foi dura e chamou atenção. Sempre foi a mesma, nunca se ponderou porque sua atitude era muito feminina para uma chefe. Nunca passou por situações constrangedoras por ser mulher, mas via acontecer com outras colegas. Tudo depende da posição que a pessoa se encontra.

Nunca teve chefes mulheres, mas acredita que a mulher tem mais jogo de cintura de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Tanto que ela fazia a redação, a rádio, escrevia na coluna e era editora. Hoje, vê que isso é do perfil dela, desde que cada atividade não atrapalhe as outras. Acredita que a mulher consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo. “Somos mais versáteis”, comenta.

Quando entrou o impresso, a Redação era maior. As editorias tinham mais repórteres. Podia ficar com uma matéria especial por uma semana. “Podia lamber aquele texto que estava escrevendo”, defende. Depois o jornal mudou de formato, os textos sofreram redução. No início, ela tinha mais tempo de preparar as pautas. Sempre teve a pressão do furo, mas a história era mais trabalhada e o texto também. Passou a ter os primeiros feedbacks do blog de Política, da Praço Oito, e achava incrível receber os comentários dos leitores online. Para ela, com a interação, o processo de produção de Jornalismo mudou.

Usando um anel com uma rosa esverdeada da cor do cordão, fala que passou a usar roupas mais sérias por causa da Redação. Percebi que isso era real porque usava preto da cabeça aos pés. Andreia gostava de observar os detalhes no cenário da notícia, o que acredita ser mais feminino na Redação. Como chefe, falava para os repórteres fazerem isso. Hoje a maioria dos jornalistas na Redação é feminina, mas nos cargos de chefia são homens.

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 Quando saí do cargo de editora executiva, uma mulher: Elaine, foi para meu cargo e fiquei feliz porque ela estava preparada para exercer a posição.

Jornalismo é trabalhar para mostrar a verdade, contar boas histórias, informar com cidadania e ética. “Jornalismo, sinceramente, é a minha vida”, diz. Ela não deixou de ser jornalista, porque Jornalismo é Jornalismo em qualquer lugar. Sempre teve fome de furo. Nos cargos em que passou, queria dar o furo. Ficou desanimada quando entrou no Governo, pensando que isso a impossibilitaria de dar o furo, mas, pelo o contrário, ela consegue todos os fatos em primeira mão. Para ela, notícia é aquilo que está acontecendo e que alguém quer esconder. É a novidade, é tudo o que é relevante. Hoje tudo virou notícia. É preciso que se traduza a notícia para os interesses das pessoas. As virtudes principais de um bom jornalista são a ética e a seriedade.  Eu achava que trabalhava muito na Redação, mas vim pra cá e vi que trabalho muito mais aqui.

Trabalha o tempo inteiro. Comenta que trabalhar com o governador é como trabalhar com um executivo todos os dias. A jornalista acorda cedo e vê as notícias locais, nacionais e internacionais. Às vezes tem evento a noite para marcar presença e também nos finais de semana. É uma rotina agitada e imprevisível. A agenda? Pode mudar toda durante o dia.

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"Quero que meu desenho seja este coador de café. Porque eu amo café", - Celeste Franceschi

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Dia 17 de agosto de 2017.

Celeste tem uma voz alegre, que transmite confiança. Logo na primeira ligação telefônica, a jornalista mostrou interesse neste projeto e logo se prontificou em escolher um lugar de sua preferência.  Na quarta, às 16 horas, depois do meu pilates, pode ser? Eu amo o Café do Horto Mercado, que tal?

Com a animação intrínseca de Celeste, o não nem passou perto de ser uma possível resposta de minha parte.

Dia 23 de agosto de 2017.

Liguei mais cedo na quarta-feira para confirmar a entrevista, mas ela já havia saído da Redação. Fui para o encontro e liguei para ela do Café. Ela tinha esquecido. Falei que não tinha problema e que a gente poderia marcar para a próxima quarta, dia 30. Prometi ligar mais cedo para confirmar. Dito e feito.

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Celeste Franceschi, Repórter do jornal impresso A Tribuna. O cheiro de café coado na hora e a alegria seguem em todos os minutos do áudio que serviu para escrever o texto a seguir. Chega Celeste conversando com todos no Café. Senta no balcão e pede um “café da vovó”, que vem com um coador e um pequenino bule de café para que o próprio cliente coe o café na hora que for beber. O mesmo que ilustra a capa deste capítulo. A jornalista acena e nos encontramos. Celeste sorri de fechar os olhos. A cada palavra, os olhos brilham por cada memória revelada.

Os brincos brilhavam combinando, como que de caso pensado, com o cordão. Que, grandes, dançavam de forma delicada a cada gesto produzido por ela. Entre uma pergunta e outra, Celeste colocava a água no café e bebia. Dizendo: eu amo coador de café.  Não perco o sono.

Nossa conversa é entrelaçada pelo tilintar da colher misturando o açúcar no café recém-feito.

Celeste sempre quis ser atriz. Inicialmente entrou no Jornalismo por acidente. A jornalista era muito nova e no Estado não tinha curso de Artes Dramáticas. O único que tinha por perto era no Rio de Janeiro, mas sua mãe não a deixou ir. O pai faleceu quando tinha 11 anos, e a mãe não queria que a filha morasse longe. Na casa, era a mãe e duas filhas. O sonho da mãe era que Celeste fizesse o curso de Direito. “Como eu gostava de falar muito, ela dizia que eu ia me dar bem como advogada”, conta.

Fez o primeiro vestibular para Direito, e no que estava olhando o currículo do curso, bateu o olho no de Comunicação, que tinha uma disciplina de teatro. Ficou atenta. Então tentou para Direito, sendo a segunda opção Economia. Não passou. No próximo ano, em 1976, fez Comunicação e passou com 20 anos.

Quando estudante, conseguiu um estágio no Departamento de Jornalismo da Rádio Capixaba. A rádio foi vendida e ela foi a última a ser despedida. Fala da rádio como uma boa lembrança.

Da Rádio foi para Guarapari, para casa da mãe, e ficou dois anos trabalhando no jornal da cidade. Nisso, surgiu uma proposta para fazer um jornal em Anchieta, junto com um colega, mas não aceitou devido a oportunidade que chegou no mesmo ano: 1983. Quando recebeu um 25


convite para inaugurar a rádio Tribuna AM. A proposta era uma rádio com interação, com o ouvinte ao vivo. Com o carro “Xereta”, os jornalistas passavam o dia na rua procurando notícias. Saíam da Redação, às 8 horas, com uma pauta básica e o resto, a rua fazia. Voltavam às 18 horas.

Ficou dois anos e meio na rádio, no programa Cidade Aberta. Foi inaugurada a TV Tribuna, na televisão o programa tinha o mesmo nome. Era ao vivo. Começou com 30 minutos de duração e quando saiu do ar, depois de três anos, tinha quase 3 horas e meia. “Tudo ao vivo”, enfatiza.

Eles não tinham unidade externa. Tudo era feito ao vivo de dentro do estúdio. Não tinha roteiro. Uma lista de convidados do dia para passar para o gerador de caracteres e, de mais, tudo era improviso. Celeste demonstra uma alegria fora do normal para explicar como o programa a fez bem. Porque pode juntar a questão do teatro, do improviso, com o Jornalismo. “Foi um programa que marcou época no Espírito Santo”, conta. Até hoje as pessoas a encontram na rua perguntando quando ela voltará com o programa televisivo.

Houve uma mudança na grade da televisão da A Tribuna, e os programas regionais perderam espaço. O programa saiu do ar. Celeste foi para a produção de textos para a rádio FM, porque ela tinha conhecimento na AM. Nisso, a Redação do impresso precisava de jornalistas e a chamaram. Celeste aceitou e está lá até hoje.  Eu odiava papel (jornal impresso), na época. Nossa, tinha uma bronca de jornal danada. Mas me colocaram na editoria de Cidades e gostei porque fiz matérias criativas.

Ela tinha que entrar em lojas, fingir que estava roubando algum produto e ver a reação das pessoas. Fazia matérias sobre brincadeiras que existiam e que não existem mais. Depois cobriu a área da Saúde, que também amou. Conseguiu muitas manchetes dentro da Secretaria de Saúde, porque conhecia todo mundo. Desde a senhora do café, até o motorista do secretário fulano de tal.

Próxima editoria: Economia. Cargo que ocupou por nove anos. Depois foi um desafio. O jornal estava mudando o perfil. Para uma popularização. Com isso, foram criadas seções fixas 26


dentro dos jornais, que eram: o Tribuna nos Bairros, que existe até hoje; o Tribuna com Você e o Qual a Bronca, coluna da Celeste.  O diretor de jornalismo me chamou e disse que tinha um desafio para mim, para eu cuidar da coluna Qual a bronca. Eu disse: eu cuido.

Entre risos, Celeste conta como era estar na Redação.  Você ficava rodando que nem peru na Redação, de tanto telefone que tocava para o Qual é a Bronca.

O jornal aumentou dois centímetros e com isso aumentou também o número de reclamações publicadas em sua coluna. Quatro reclamações. Depois, o diretor pediu por foto e fotos foram acrescentadas. “O retorno foi tão bom que minha coluna foi aumentada para uma página”, comenta. Neste momento, Celeste pediu ajuda. Nisso, foi contratada a primeira estagiária de sua coluna: Fabiana Tostes. Estagiária administrativa. Trabalhava por oito horas. Cogitaram duas páginas para sua coluna, mas desistiram. Surgiu a lei do estagiário e os chefes perceberam que o estagiário podia trabalhar por quatro horas, e não por oito. Passou a ter dois estagiários, escolhidos por ela em entrevistas. Na Coluna, chefiava os estagiários e conta que o papel de chefe é comandar, orientar, ensinar, cobrar e puxar a orelha. Celeste revela que não quer assinar a coluna. “Quero continuar fazendo o que faço ‘anonimamente’”, conta. “Anonimamente” com aspas, porque assinar a coluna, para Celeste, significa ter uma responsabilidade muito maior e ter que endossar tudo o que ali é escrito. Nem sempre concorda com as reclamações, mas é seu dever ouvir e buscar a resposta para a pessoa. Por esta razão não quer assinar. “É a página em que o leitor fala o que ele quer e a gente responde para ele. Ponto”, explica.  É um espaço que o jornal disponibilizou para o leitor. Quem faz a reclamação é o leitor e não o jornal. Então por que eu vou assinar aquilo?

Já a coluna de religião, por exemplo, é um lugar em que a pessoa coloca o posicionamento dela. Então, neste caso, vale a assinatura. Não imaginava que iria chegar onde está. Até hoje, 27


nunca parou para pensar no primeiro impacto que teve ao chegar na sua posição como jornalista. Afinal, Celeste tem 33 anos de trabalho em A Tribuna.

Ela explica que há situações que acontecem na vida e que as pessoas aprendem a conviver com elas. A Redação não é um lugar que se valoriza o trabalho do jornalista. Mas, Celeste conta que o retorno que os jornalistas têm na rua e o respeito profissional são as melhores valorizações. Por exemplo, quando ouve: olha aqui, se não é a grande jornalista! O reconhecimento das pessoas que a encontram na rua vale mais do que qualquer outro tipo de coisa. É sinal de que o trabalho dela marcou a vida daquela pessoa.  Eu nunca imaginei que fosse trabalhar em televisão, que teria um trabalho na rádio que eu comandava, nunca imaginei chegar nesse patamar. Capaz de eu terminar minha carreira ainda sem imaginar...

Hoje, a coluna tem um telefone exclusivo e um número de Whatsapp. Só não tem página no Facebook, porque Celeste acha que não vale a pena uma vez que “as pessoas escrevem besteiras demais”, diz. O trabalho é feito conectado com o computador em que o Whatsapp está vinculado. Para que a pessoa escreva, o que quer, e mande a foto. Para que haja uma interação.

Celeste cita mais de 10 jornalistas mulheres que trabalharam com ela em A Tribuna como exemplos de boas profissionais. Nisso, são revelados nomes de jornalistas que são personagens neste livro.  Uma ótima jornalista é a Wanessa Scardua, que trabalha hoje como chefe de reportagem em A Gazeta. Ela trabalhou no Bronca comigo, ficou uns seis meses como estagiária… Ihh ainda tem um monte mais, só que é muita gente, não consigo lembrar de todas.

Nunca se ponderou em suas atitudes. Explica que as relações entre os profissionais em A Tribuna sempre foi muito aberta. De vez em quando, conta que se deparou com chefes machistas, mas ela dava a volta. Não ficava presa nisso.

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Quebrando paradigmas. Conta que foi a primeira jornalista a entrar num submarino, usando vestido. Conseguiu autorização para entrar e ver como era por dentro. Nunca houve dificuldade para trabalhar por ser mulher.

Conta sobre uma situação que aconteceu na Rádio Capixaba.  Uma vez estávamos fazendo um programa para o dia do trabalhador e, além de falar sobre os problemas do tema de um modo geral, eu precisava entrar em uma obra de uma construtora, entrevistar trabalhadores e perguntar qual música eles gostariam de ouvir no dia deles. A música seria dedicada a eles na rádio, no feriado, no momento de descanso de cada um.

Tinha um prédio na Gama Rosa, que estava em construção, ela entrou na construção e pediu para conversar com o pessoal da obra. Ouviu que eles estavam no último pavimento. Ela subiu com carona no bondinho que carregava o carrinho de massa. Conversou com quatro trabalhadores, mas precisava de seis.

Foi quando chegou o engenheiro perguntando: o que essa mulher tá fazendo aqui? Celeste explicou que era jornalista e falou mais sobre o projeto do dia do trabalho. Em resposta, ela ouviu: fora daqui, você está atrapalhando minha equipe. Ele colocou a jornalista para descer oito andares de escada, sem tijolos ao lado, só com as estruturas do prédio. Atrás dela, estava o engenheiro com um pedaço de madeira dizendo: aqui não é lugar de mulher, lugar de mulher é na beira do fogão!

Foi a única atitude machista que passou e valeu por todas. Por ele ter sido muito mal-educado, Celeste fez questão de agradecê-lo. Conseguiu o seu nome e agradeceu pela gentileza no programa. O desfecho para a matéria ir ao ar foi que Celeste foi para a rua, esperou os trabalhadores saírem da obra e os entrevistou no meio da rua.

A jornalista contou outro caso marcante em sua vida profissional. Também na época da rádio, em 1979, quando estavam construindo o Palace Center, ela colocava em linha aberta o microfone da rádio para os trabalhadores, ao vivo. O programa era sobre o movimento grevista da construção civil e o posicionamento deles era primordial. Quando acabou a 29


entrevista e chegou na Redação, a jornalista ouviu dizer: Celeste, o diretor está te esperando na sala dele. Ao entrar na sala, tinham dois policiais federais atrás do diretor. O diálogo foi o seguinte:  É essa mocinha que estava lá na greve da construção civil?  Sim.  Então ou o senhor tira essa mocinha do ar, ou nós fechamos a rádio amanhã.

1979: ditadura militar.

Nisso, ela voltou com o gravador e o material que havia coletado e os entregou para a chefe de reportagem. Foi suspensa por três dias pela Polícia Federal. Foi embora para casa. Os policiais só saíram de lá, depois que ela saiu. “Pelo menos eu não fui presa”, pensa em voz alta. Foram as duas situações mais perigosas por quais passou. Ela categoriza como “menores” outras como estar no meio de uma troca de tiros na Avenida Vitória.  Coisas que viram rotina na vida de todo jornalista.

Para Celeste, existem diferenças marcantes entre chefe homem e chefe mulher. A mulher é muito mais organizada, já o homem é mais desorganizado e totalmente destrambelhado. Porque ele pede uma coisa depois ele não lembra mais o que pediu. Então ele acaba cobrando o que não pediu e a jornalista enfrenta o bicho no fim. A mulher não, ela tem o espírito maternal, conversa mais. Quando é chefe da editoria, ela a transforma.

Ela nunca trabalhou com uma chefe mulher, seus editores sempre foram homens. Mas ela vê na Redação que todas as jornalistas possuem união, gostam de interagir entre si. Lembra da Isabela Lamego, personagem com a qual nos encontraremos em duas crônicas a frente.  Isabela Lamego quando era editora… nossa, ela era a mãezona da editoria. Ensinava tudo para todo mundo. Quando tinha que cobrar, também cobrava.

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Há diferença. Celeste conta que trabalhar com homens é muito difícil e na sua carreira trabalhou com dois chefes homens que eram terríveis. Dois. Terríveis. “Até hoje se me chamarem para trabalhar com os dois vou falar que não”, conta entre risos.

Até no comportamento é diferente. Porque na hora de dar a bronca e de cobrar a mulher é mais educada. O homem não. Ele é o chefe. Ele manda. Ele determina. Ele não tem papas na língua. Hoje Celeste tem um chefe que é muito mais amigo dela do que seu chefe. “Nesses 33 anos, ele é o meu melhor chefe! Que dá liberdade de trabalho, ação e decisão”, explica.

Quando ela entrou no jornalismo impresso era muito difícil fazer Jornalismo. Conta que o principal motivo eram as condições de trabalho. “Era pouca gente, muito trabalho. Dois carros, três fotógrafos e dois telefones que faziam ligação interurbana”, relata.

Hoje está muito fácil para trabalhar. Existem todas as facilidades. Celeste conta que quando entrou, cansou de andar a pé e de carona em carros de polícia, porque a Redação não tinha carro para buscá-la; isso quando não pegava carona com o concorrente. “Foi muito legal trabalhar naquela época porque existia mais facilidade de contato com fontes”, conta. Mas em compensação, a estrutura era lastimável.  A gente tinha uma kombi que largava a gente nos lugares, mas na hora de voltar, cada um se virava como podia.

Antigamente, a questão do respeito para com o jornalista da Redação do impresso era complicada. Celeste conta que quando a TV Gazeta entrou no mercado, todos queriam dar entrevista para aquela empresa. Enquanto a TV Gazeta não chegasse, as coletivas não começavam. Todas as outras emissoras esperavam os jornalistas chegarem. Quando chegavam, entravam primeiro para depois entrar os outros. Gancho para outra trama de Celeste.  Estávamos esperando no gabinete do prefeito para uma coletiva e os colegas da TV Gazeta demoraram 40 minutos. O prefeito mandou os jornalistas da Gazeta entrarem primeiro. Nisso, levantei e fui embora. Disse para os jornalistas: vocês vão ficar aqui que nem idiotas e deixar ele falar só para a TV Gazeta? Ele não quer divulgar? Vai se ferrar porque no meu jornal não vai sair matéria dele. 31


Com o ato de Celeste, os jornalistas se levantaram e seguiram seus passos. Ele deu entrevista só para TV Gazeta. Ela chegou na Redação e contou o que aconteceu para o editor. O chefe respondeu: bem feito! Até porque não era interesse do jornal, e sim da prefeitura em fazer o comunicado. Depois desse momento, o prefeito mudou a forma de tratar os jornalistas.

Ela acredita que pelo fato de ser mulher tem mais preocupação com o social. Talvez pela sua formação, por ter sido criada em igreja, possui um visual humanista. Colocando-se no lugar das outras pessoas. Explica que têm pessoas com problemas seríssimos e outras com problemas bobos que querem ser tratadas como iguais.  Teve um engenheiro que mandou uma reclamação no Qual é a Bronca porque ele foi no cinema do Shopping Vitória e quando comprou a pipoca, ela veio salgada demais e se negaram a trocar a pipoca dele.

A jornalista enviou a reclamação para o cinema, porque é a pessoa que está reclamando e não ela. Publicaram na página do jornal impresso com a resposta do cinema, que explicou que da próxima vez que ele comprasse lá, a pipoca estaria sem sal para ele colocar a quantidade que quiser. Inutilidade.

Despertando a consciência dos leitores. Celeste colocou na página o ocorrido da pipoca “que é totalmente idiota”, nas palavras dela. Mas faz questão da pessoa sentir vergonha pelo papel que está se submetendo. Como publicar na coluna uma foto de um canteiro na Praia do Canto que encheu de água e estava com um pouco de lama. A reclamação existiu porque uma mulher falou que empregada saía para comprar pão e voltava com o pé sujo de lama por causa do trajeto. Ao lado desta foto, colocou outra reclamação: de uma mulher do interior de Cariacica, do bairro chamado Santa Bárbara, que não era asfaltado na época, e tinha uma rua que era lama pura.

A equipe tirou fotos da lama e colocou ao lado da foto do canteiro. Celeste não precisou falar nada. Choque de realidade. As pessoas quando lêem pensam no absurdo que é uma pessoa reclamando da laminha em Praia do Canto e uma outra pessoa em Cariacica morando em uma rua inteira cheia de lama.

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Celeste conta que hoje, a maioria dos jornalistas na Redação é mulher. Antes tinha muito homem e o relacionamento com os colegas sempre foi bom.  Na época existiam muitas pessoas do terceiro sexo, diz. Com meu rosto de exclamação, Celeste explica que “pessoas do terceiro sexo” são homossexuais. “Um pessoal mais alegre que era maioria na redação”, explica. Alguns assumidíssimos e outros mais guardados. Celeste explica que tanto na editoria de Cidades, quanto no AT2 e Polícia a maioria dos jornalistas é mulher. Os colegas repórteres sempre diziam: aqui a gente trabalha muito, ganha pouco, mas é divertido.

O Jornalismo é a arte de comunicar, informar e mostrar os fatos reais que acontecem no dia a dia da sociedade. Para ela, notícia é tudo o que é importante, que você pode divulgar de forma clara, limpa, honesta e com base na veracidade. Existem muitos fatos que não são notícias e outros, que, às vezes, são importantes mas nem sempre recebem a atenção necessária.

As principais virtudes de um bom jornalista: ser ético, fiel a sua fonte, respeitar as pessoas com quem lida diariamente, e o trabalho do colega que está ao lado; ser verdadeiro em tudo o que faz. Nunca mentir. Mentira, para ela, é o maior pecado que um jornalista pode cometer. Assim como inventar informações.

Para Celeste, o Jornalismo feito por mulher é baseado na visão humanitária. Uma vez que as mulheres têm uma visão humanitária mais acentuada do que o homem, entendendo, assim, o lado do relacionamento humano melhor. A mulher tem mais sensibilidade, é mais organizada, verdadeira, determinada, não desiste fácil diante do primeiro obstáculo, é mais direta e não fica nos meios termos.  Ontem, ouvi um colega falando para o editor assim: mas se estou escrevendo e conversei com a fonte, eu tenho o direito de colocar a minha opinião. E pensei: então ele não vai se preocupar com o que está por trás do que ele está vendo.

O dia de trabalho de Celeste começa às 7 horas da manhã. Sua primeira atividade é olhar os emails e as mensagens que chegaram e separar o que é de opinião, como cartas e artigos, para o editor. Verifica o que chegou de reclamação, o que chegou de resposta das assessorias 33


depois do horário que a Redação foi fechada, e começa a fechar as páginas. O termo “fechar” refere-se ao momento em que a página é completada com fotos e textos da coluna. Como não há a preocupação com o factual, ela consegue organizar as páginas futuras. Depois ela começa a interagir gradativamente com o pessoal do Whatsapp, que manda mensagem o dia inteiro. Durante as interações, a página do impresso é feita. Às 14 horas, Celeste passa a coluna para outra jornalista, que também alimenta e organiza o espaço. A página é fechada pela manhã, por Celeste. A jornalista conta que já havia fechado a edição de quinta e sexta, nesta entrevista, que foi feita na quarta-feira.

A entrevista não acabou por aí, Celeste me ajudou com nomes de várias jornalistas e telefones para eu conseguir entrar em contato para acrescentar neste livro. Destas, consegui o telefone da Susana Loureiro e da Isabela Lamego, personagens que encontraremos mais a frente. A conversa durou mais de duas horas.

Ela me mostrou um aplicativo em que são disponibilizados vários filmes coreanos e revelou ser fã do cantor coreano Kim Jong-hyun. Questionando: ele tem 27 anos, como pode não nascer um pelo neste queixo? Risos. Me mostra a tela brilhante do celular com um cantor que parece ter, no máximo, 17 anos. Divertida. Eu falava: nunca imaginei que você gostaria deles e ela me mostrava o Facebook do cantor com várias montagens. “Até participo de um grupo de Whatsapp de fãs dele, mas elas não param de falar!”, conta. O encontro foi muito mais do que somente um conversa em uma cafeteria. Celeste me surpreendeu de todas as formas possíveis.

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"Quero que meu desenho seja um cachorro. Porque eu amo animais e tenho dois shih-tzu� - Wanessa Scardua

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Dia 31 de agosto de 2017.

Cheguei 10 minutos antes. Adiantada, como de costume. Wanessa estava bebendo água, por isso na recepção ninguém conseguia falar com ela. Uma colega desceu da Redação da A Gazeta e me deu acesso. Obrigada! Subi e pude ouvir meus passos novamente. A Redação parecia mais calma do que da vez passada. Sorri para Wanessa quando ela caminhou em minha direção. Um sorriso de batom rosa me aconchegou e fomos para um corredor com pouco tráfego para conversarmos.

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Wanessa Scardua, Chefe de Pauta do jornal impresso A Gazeta.

Logo falei da entrevista que tive no dia anterior com a Celeste e como ela citou tão bem a colega de trabalho. Assim, Wanessa me contou que estagiou com a Celeste por seis meses. Depois ficou em dois estágios na Rádio Espírito Santo. O primeiro emprego foi em A Tribuna, onde trabalhou por oito anos. Wanessa sempre quis fazer Jornalismo.

Pela paixão que tem por animais, pendeu para o lado de Biomédicas. Queria ser bióloga, depois zootecnista. Reparou que era algo pessoal e não levaria para profissão. Sempre gostou muito de escrever e ler. Foi depois de um estalo, que ela não se recorda quando, que decidiu cursar Jornalismo.

Se formou em 2008, no final de agosto. Fez a inscrição no curso de residência em A Gazeta, mas foi convidada para entrar em A Tribuna e, por esse motivo, não fez o curso e aceitou o convite.

Estagiou na pauta em A Tribuna e foi contratada pela empresa dia 2 de janeiro de 2009 como repórter de Polícia. A partir do segundo mês foi para Economia, depois de quatro meses foi para o plantão, ficou um ano no plantão. Foi para editoria de Cidades onde ficou por dois meses e virou auxiliar de pauta, cargo que ocupou por um ano e meio, e conseguiu a chefia de pauta. Colocaram outra pessoa para fazer a chefia de pauta e ela foi para edição. Foi editora do caderno Família, e editou regional. Substituía as pautas de alguém que ficava de férias.

Com esta trajetória, ficou na empresa até setembro de 2016. Quase oito anos em A Tribuna. Duas semanas depois, foi para A Gazeta substituir Paula Stange, no período de licença maternidade, na chefia de pauta. Paula retornou e a empresa não sabia se poderia fazer uma nova contratação até que Wanessa foi contratada. Paula ficou na editoria Vida produzindo reportagens. Foi assim que Wanessa assumiu a chefia de pauta, cargo que ocupa hoje.

A jornalista sempre teve um interesse maior no jornalismo impresso e por isso observava como a Redação era organizada. Wanessa explica que em A Gazeta há a oportunidade de

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fazer outras coisas. É onde ela escreve no online, consegue entrar na rádio CBN 13, de vez em quando, já gravou algumas coisas para a televisão e fez testes de vídeo.  Vejo que aqui é onde tenho a oportunidade de experimentar todas as mídias.

Wanessa entrou no jornal com intuito de aproveitar ao máximo de informação e crescer enquanto repórter. Pensava ser algo inatingível chegar na função de chefia. porque observava as mulheres que estavam há muito tempo na Redação. “Antes tinha muita mulher na chefia na Redação em A Tribuna, hoje elas estão em maior número como repórter”, conta.  Na minha época, era Giovana Rangel, como editora de Cidades; Susana Loureiro, como editora de Polícia; Alelvi Carneiro no AT2 (até hoje); e Isabela Lamego em Economia. De dez editorias, tinham nas principais (Economia, Cidades e Polícia) mulheres no comando. Isso é muito bacana, algo que sempre admirei.

A jornalista almejava o cargo de chefe de pauta, sentia que estava preparada para assumir a função de chefia. Sabia como funcionava, mas não imaginava que fosse acontecer. Quando aconteceu, ficou com medo do desafio, inicialmente. Mas logo sentiu que se não abraçasse a oportunidade, estaria fechando uma porta para seu crescimento. Assumiu o desafio e foi a partir disso que ganhou muita experiência. Wanessa explica que apesar do nome “chefe de pauta”, a decisão é definida em conjunto com o editor chefe. Sentiu um impacto grande em estar na posição de chefia em A Tribuna porque as pessoas ligavam oferecendo pautas. Porque viam que ela estava na posição, no poder, de sugerir aquele tema aos cabeças do jornal, que decidem como será a capa de amanhã. No Jornalismo, como um todo, o interessante é ter acesso em primeira mão a tudo que está sendo veiculado, porque A Gazeta e A Tribuna acabam direcionando para o mesmo lado, o factual.

O impacto que sentiu na função de chefia foi saber que tem poder de uma parcela na decisão do que sairia no jornal. Para chegar na pauta, o repórter precisa exercer ao máximo a busca pelo o que é mais importante na notícia. Como: se a matéria factual é importante e se vai atingir um número de público interessante.

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Rede de rádio afiliada à Central Brasileira de Notícias.

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Ser chefe para ela é normal. Não sente o poder da chefia. Pensa para onde poderia crescer dentro da empresa e onde estão os desafios. Procura não focar apenas no trabalho dela, mas como colaborar com outras coisas. Como aprender a mexer no online, colaborar com outros setores e ajudar a fechar o Notícia Agora, outro jornal impresso produzido em A Gazeta.

No final de semana exerce outros cargos. "Ontem saiu uma matéria minha no jornal impresso", conta. O legal é não focar apenas no seu trabalho e continuar exercendo o seu cargo de chefia, como fazer menos reportagem e delegar mais o que quer que seja feito. E produzir, às vezes, para não perder o repórter que existe dentro de cada um de nós. "Todo o jornalista tem que ser um pouco repórter e um pouco curioso", diz.

O que busca hoje é não somente delegar, levantar as informações, marcar entrevistas, adiantar o trabalho do repórter pela manhã, e, sim, continuar escrevendo. Para exercer a função de quando ela começou.

Como um todo, sempre se ponderou na forma de lidar com as pessoas. Brinca com todos, mas profissionalmente separa as situações. Sabe se impor na hora que precisa, mas não é preciso agir com grosseria. Ser objetivo e firme é importante. Falar tudo o que você quer para ter uma condição de cobrar as tarefas. Saber demandar. Há diferença na forma de tratamento pessoal com todos, mas não se contém ao ser feminina, ou não, porque está na posição de chefia.

Não vê diferença entre chefe homem ou chefe mulher. Não em relação aos gêneros, mas vê em relação de chefe para chefe. Talvez, algumas mulheres busquem se impor mais por estarem na função de chefia, serem mulheres, e saberem os desafios que muitas enfrentaram para chegar até ali. Em um mercado que antigamente tinham mais homens, sentem necessidade de serem mais firmes, mais duras. Ela enxerga isso, às vezes, em mulher que trabalha no Jornalismo. De uma forma geral, tem diferença de pessoa para pessoa.

Desde que começou a atuar como jornalista, Wanessa explica que há diferenças de como o Jornalismo é feito hoje em comparação de quando entrou na Redação. As principais

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diferenças citadas são o tratamento com a fonte, como as novas ferramentas de aplicativos, como o Whatsapp, por meio do quais muitas entrevistas e fotos são enviadas.  Quando eu entrei era Orkut, mas agora é o Facebook e o Whatsapp que colaboram na procura de personagens para fontes. As redes sociais são fontes de pesquisa. A maior diferença é a internet, que ajuda muito o jornalista.

Quando ela entrou, a busca era feita pelo Telelistas e Orkut. A popularização dos meios de redes sociais facilitou o contato com a fonte porque até a pessoa mais simples possui Whatsapp para enviar alguma informação para os jornalistas.

Para ela, as mulheres que ocupam a posição de chefia têm a preocupação de serem mais detalhistas na pauta. Em ter um cuidado maior na hora de colocar as informações e se preocupam mais em ajudar o repórter, até nas pautas que selecionam.

Olhos verdes. Blusa avermelhada. Sorriso. Silêncio para formular as respostas. O silêncio que ela leva para pensar em cada pergunta é fundamental. É quase possível enxergar as engrenagens em sua mente pensando em cada palavra que será dita.

Entre risadas e silêncios explica que o Jornalismo é saber transmitir a mensagem e ter a noção de que a pessoa vai receber a mensagem do que jeito que você passou. Compreensão. Não é aquilo que você escreve, e sim o que o leitor vai entender. Da forma mais imparcial possível, ouvindo todos os lados. “Não é fácil fazer Jornalismo, levar a informação sem receber uma crítica, sem que alguém se incomode com algo que está escrito ali”, conta. Com maior riqueza de detalhes, já que é no impresso e não o imediatismo do online. Dá o máximo de informações para que não haja dúvidas naquela pessoa que recebe a notícia.  Qualquer coisa é notícia. Eu estar dando uma entrevista para você é uma notícia.

Tudo é notícia. Um galho de árvore que caiu é notícia. Se ele fizer barulho, se ele acordar alguém que tem problema de insônia, e por aí em diante. Para ela, Jornalismo feito por mulher não tem diferença do feito por homem. Cada pessoa escreve de um jeito e tem um perfil diferente do outro. Tem homem e mulher que são parecidos exercendo a mesma função.

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Características de um bom jornalista: ser ético, respeitar a fonte, ter o gás que o jornalista tem que ter, a empolgação de ir a fundo em uma notícia, de buscar saber todas as informações sobre, de se cercar de todos os lados, saber fazer o texto sem colocar sua opinião e enxergar a notícia em tudo. Conta que não é porque a pessoa está de folga que não irá escrever sobre nada. Wanessa fica atenta. Anota tudo. "Se estou de férias e acontece um acidente, dou um jeito de aquilo sair. É um espírito investigativo, uma necessidade de ir atrás do fato”, esclarece.  Um dia no shopping vi uma cena: um segurança espancando um rapaz. Ele havia pedido ajuda e alguém o ajudou para comprar um pacote de fraldas, depois ele foi para a fila do sorvete e nisso o segurança pediu para ver a nota fiscal das fraldas, questionando se ele havia pagado por elas. As pessoas começaram a filmar e falar que o segurança estava sendo racista e preconceituoso. Na hora que eu e meu amigo entramos no shopping estava acontecendo a muvuca.

Tem um ditado que diz que a notícia procura o bom jornalista. As coisas sempre acontecem no entorno de Wanessa. Viu que a mulher estava filmando e a convenceu para enviar o conteúdo para o Gazeta Online. Coletou as informações. Na pressão, o segurança acabou soltando o rapaz. Mas a jornalista estava de folga. Era um domingo. Passou as informações para os colegas do Gazeta Online e a notícia saiu no jornal. Não conseguiu ignorar. Teve que dar o furo.

O bom jornalista é isso. É ter uma visão e mesmo sem obrigação nenhuma de fazer o que ela fez, ter a preocupação de anotar a notícia e enviar para a Redação ou para quem está fechando o jornal.

Sua rotina começa pela manhã. Quando vai de ônibus para A Gazeta, lê no celular o jornal impresso e faz uma agenda do que saiu e do que não saiu. Além das possíveis pautas e cobranças que deve fazer. Chegando na Redação, ela abre o jornal A Tribuna. "Tem que ler também o concorrente", diz. Vê onde acertou e errou. Faz agenda de A Tribuna também. Vê o que eles deram e ela não. Também abre o Metro e observa.

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Abre todos os sites de notícias, vê as principais manchetes da área que atua: Cidades, Trânsito, Saúde, Educação e Comportamento. Vê o que tem de demanda na agenda, para cobrar dos pauteiros, repórteres que produzem as pautas; vê o que demandou no dia anterior. Responde emails que obteve retorno e lista as manchetes que deram naquele dia, que são factuais, que deram foto. Até porque nem tudo que sai no dia é manchete. É preciso pensar no que tem um apelo popular, como assaltos. Também fica ligada no telefone que toca. Que toca até por causa da xícara que caiu. Porque a partir daquela ligação telefônica a pessoa pode falar de um problema no esgoto na casa dela. É preciso dar atenção para anotar isso, para quando for feita uma super-reportagem sobre esgoto, lembrar da pessoa que ligou e reclamou sobre.

A partir das 10 horas, ela coloca no documento as pautas que devem ser postadas. Discute com o chefe se a demanda está boa ou se precisa acrescentar algo. 12h30 passa a pauta, expressão que refere-se ao momento em que a jornalista entrega sua pauta para outro repórter. Volta, mais ou menos, 13h30 e escreve algo que precisa escrever. Geralmente sai depois das 15 horas. "Meu trabalho é assim", finaliza com um sorriso no rosto.

Na entrevista, Wanessa foi uma jornalista ideal. Sucinta. Objetiva. Sem rodeios. Pensava antes de responder. Eu olhava para ela tentando perceber nos olhos o que as palavras não revelaram.

Fui para o ponto de ônibus esperar qualquer um que me levasse até à UFES 14. Depois de 15 minutos, Wanessa e um colega me encontram. Eles comentaram sobre o tempo. Assunto que foi sugerido por mim porque as nuvens estavam revoltosas, rígidas e quase caindo inteiras sob nossas cabeças.

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Universidade Federal do Espírito Santo.

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"Quero que meu desenho seja um gato. Porque eu tenho quatro gatos me esperando em casa� - Susana Loureiro

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Dia 20 de setembro de 2017.

Por indicação de Celeste Franceschi, personagem com a qual nos encontramos a uma crônica atrás, consegui o contato de Susana. O número do telefone que Celeste tinha era antigo e, por isso, procurei pela jornalista na internet. Encontrei vários telefones, de várias empresas por onde trabalhou. Tentei uma Assessoria de Comunicação, que me passou o email dela. Por email, expliquei o objetivo da entrevista. Ela me respondeu imediatamente, no mesmo minuto, falando que eu poderia mandar as perguntas por email. No final de seu texto havia um número de telefone e sua assinatura. O número era o suficiente. Liguei e expliquei que pessoalmente seria bem mais interessante. Susana pediu para marcar após o feriado de sete de setembro. Marcamos na quarta-feira no Café do Shopping Jardins. Perto de casa, pensei.

Susana mostrou interesse no meu trabalho e no livro. Não tive dúvidas de quem era ela logo que cheguei ao Café. Um sorriso a acompanhava. Pediu um café expresso médio e um pedaço de bolo de maçã. Extrovertida. Alto astral.

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Susana Loureiro, Assessora de Comunicação.

A jornalista nasceu em Brasília, morava em Minas Gerais. Tem 25 anos de profissão. Se formou com 21 anos, em 1991. Nem pensou em Publicidade e Marketing, sempre quis Jornalismo. Por conta do mercado e porque acredita que tenha ficado “velha”, nas palavras dela, para o ritmo de Redação, migrou um pouco para Marketing e Publicidade quando resolveu fazer Assessoria de Imprensa.

Susana trabalhava no setor de Comunicação da arquidiocese de Vitória e tinha contato com jornalistas. Um colega a chamou para uma vaga em A Tribuna e deixou mensagem na secretária eletrônica. Ela não tinha nem pegado o diploma ainda e aceitou a proposta. Graças ao colega, conseguiu o emprego. Ficou no jornal A Tribuna até 1993, depois conseguiu um emprego na Rádio Espírito Santo e ficou de manhã na rádio e a tarde no jornal, como repórter de Economia. Por dois anos trabalhou nos dois ao mesmo tempo. Foi quando uma colega a convidou para trabalhar na TV Gazeta, onde ficou até 1995, como repórter do Bom dia ES. Entrava às 6 horas da manhã. Foi quando engravidou da filha e como não tinha com quem deixá-la cedo. Resolveu fazer uma pausa.  Tudo é relacionamento na vida. Vale mais que currículo, dinheiro. Ninguém nunca pediu meu diploma. As pessoas confiam no meu trabalho e gostam de mim e isso me atrai pelas oportunidades.

Quando a filha estava com dois meses de idade, estava de licença maternidade e montou um escritório de Assessoria de Imprensa. Trabalhou como assessora até a filha ter 4 anos, em 1999. Quando voltou para A Tribuna. Conta que ficou alguns anos como redatora e depois como editora de Polícia durante 12 anos. Saiu em 2014 e desse tempo para cá trabalhou um ano na TV Capixaba como chefe de pauta e dois anos em escritório de Assessoria de Imprensa.

Faz um ano que está trabalhando por conta própria, na SL Comunicação, empresa que leva suas iniciais.  Voltei para o ponto de partida (Assessoria) quando Luiza, minha filha, nasceu.

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A Redação não é para todo mundo. Ela conhece vários jornalistas que não conseguem se manter por conta própria, se valorizar. Não conseguem fazer o cliente entender o seu potencial sem falar, necessariamente, o seu valor. Entre risos, conta que os 25 anos de carreira têm que servir para algo, além de envelhecer.

Nunca imaginou que chegaria onde chegou. Porque diz ela que existe uma crença no Jornalismo que o jornalista ganha mal. Teve muitos sonhos na faculdade, mas nunca quis trabalhar em Polícia, ainda mais por 12 anos. Mesmo assim, foi a editoria de Polícia que a escolheu.

Susana saiu da Redação com síndrome do pânico e tomando remédios fortes para dormir.  Casei de novo e meu marido me incentivou para largar a Redação porque não dava mais. É muito aprendizado trabalhar lá, para quem é jovem. Não é para quem quer constituir uma família. Eu trabalhava quatro sábados e três domingos por mês. A jornalista explica que a Redação de um jornal é mais louca que um CTI 15 de hospital, e que também é maravilhoso. Acredita que todo mundo tem que passar pela Redação de um jornal para ser alguém na vida na área de Comunicação. A dica é: se quiser ser um bom assessor, seja um repórter primeiro.  O esquema é cruel. É igual ao exército. Aprende da pior forma. O ritmo é alucinante. As coisas mudam a todo o momento. Já aconteceu de eu estar com a bolsa no ombro para ir embora e ter que voltar porque um ônibus bateu na terceira ponte e morreram quatro pessoas. Você respira aquilo.

Susana sempre substituiu o editor que ocupava a posição de chefia antes dela. O impacto de estar na posição de chefia veio quando estava de folga, tomando café com a filha, quando ela tinha quatro anos de idade, e recebeu uma ligação telefônica de seu chefe falando para ela trabalhar porque o editor estava doente. Ela precisava trabalhar. Isso marcou a vida dela porque a filha chorou muito.

A filha cresceu dentro do jornal. Quando Susana deixou definitivamente o jornal, a filha tinha 15

Centro de Terapia Intensiva.

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15 anos de idade. Conta que criou a filha pelo telefone da Redação. Perguntava se ela tinha almoçado, feito dever de casa e escovado os dentes. Isso foi preciso porque ela precisava disso para crescer, para ter uma carreira. É uma responsabilidade muito grande. Não é fácil e não é para todo mundo. Todo mundo deve passar pela Redação, mas nem todo mundo precisa ficar lá.

Conta que sempre teve problema em ser chefe porque é preciso separar o ser amigo do ser chefe. Teve um repórter que a chamava de Miranda Prisley, uma editora carrasca de uma grande revista de sucesso, personagem do filme O Diabo Veste Prada. “Eu era assim: queria o rascunho do Harry Potter”, diz. Comentou um dos casos que aconteceu com este repórter:  Você precisa entrar no hospital e conversar com o cara.  Mas ele está internado e... eu não sou visita.  Se vira. Por conta disso ele foi preso. “Mas tudo bem”, comenta entre gargalhadas.

Susana é um livro aberto. A cada pergunta ela respira fundo e fala mais do que eu esperava ouvir. A grande expectativa que sempre está do lado de cá. “Meu compromisso fundamental é com o leitor”, conta.

Ser chefe é ser amado. Explica que o livro O Monge Executivo fala isso: você deve ser amado pelo o que você é, e não impor a sua liderança. Seu liderado precisa ver você como um ídolo. Ele precisa querer ser você. Por isso, acredita que não teve problema com ninguém porque estava junto da equipe. Se acontecesse algum problema, ela estava com eles. Uma equipe.

Para ela, a mulher na Redação se veste muito mal. Hoje ela entende isso, mas conta que já usou minissaia e salto alto no trabalho. Mas falava com as colegas de profissão no caminho a delegacia: cuidado, você vai ser presa! Vai conversar com os presos com essa roupa? Com decotes?  Ser mulher é muito complicado porque você tem que enfrentar vários preconceitos. Como: se eu fui promovida é porque “dei” para meu chefe; e se continuo no cargo é porque continuo “dando” para ele.

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Conta que existem esses estereótipos da mulher que é gostosa, comunicativa e cordial; que conversa com todos. Acredita que a mulher não deve mudar a essência pelo lugar que está, mas tem que se preservar por ser mulher e por estar num ambiente hostil para uma mulher, como a delegacia. Isso serve tanto para homem quanto para mulher.

Susana é alto astral. Mesmo falando de assuntos delicados, ela sorri. Porque aquilo já passou, não está vivendo mais. Não presentifica o passado.

Fala que a mulher se veste mal porque é preciso um código de vestimenta para quem trabalha no Jornalismo. “Falo para as colegas: tira esse moletom, esse chinelo do pé (a gente vai para manicure com isso!), tire a UFES16 de dentro de você!”, conta rindo.

Para ela, existe diferença entre chefe homem e chefe mulher porque a mulher é mais sensível. Explica que teve um chefe homem, que mandou ela cobrir um homicídio de uma criança no bairro dela, quando ela estava grávida de sete meses. Na volta, ela entrou em trabalho de parto. Entregou a fita para a Redação e foi para o hospital. O chefe ainda alfinetou: como assim você não vai trabalhar na parte da tarde? Logo hoje que estou com cinco equipes?

O médico concedeu 15 dias de licença e um relato explicando que ela só poderia trabalhar em lugares fechados. “Uma mulher não faria isso. Ela iria entender”, conta. O homem não tem nada a perder, não tem que chegar em casa e lavar a roupa, cuidar do filho… ele pode se dedicar mais para o trabalho. Ele pode. Um chefe homem é sempre mais disposto a tudo ou nada. A mulher pondera mais as coisas.

Fazer Jornalismo quando ela entrou no impresso era muito diferente. Não tinha internet. Existia a notícia instantânea, mas não da forma de hoje. “Tudo era mais conversado”, relata. Por exemplo, mês passado uma cliente dela deu uma entrevista pelo Whatsapp.  É por isso que o jornal está com a qualidade ruim. Porque não tem olho no olho. Até pelo telefone a gente pode entender errado algo. Isso que você fez comigo, forçar um tête-à-tête, vale muito a pena para melhorar a qualidade de vida da informação.

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Universidade Federal do Espírito Santo.

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Susana se encontra com os clientes todos os meses. Explica que a fonte precisa confiar nela, vê-la. Conta que hoje, na Redação, o jornalista é telemarketing porque não sai da cadeira.  Os jornais estão morrendo e não é à toa. Carece de informações analíticas. Tem que surgir algo a mais na internet, além da morte da pessoa. Quem furava o impresso, eram a rádio e a televisão. Agora é a internet.

Susana explica que não é só culpa do repórter, porque as tecnologias existem para ajudar, e não para limitar. Quando ela começou, todos fumavam na Redação e as matérias eram escritas com máquina de escrever.

Acredita que seu olhar feminino contribui para um olhar mais humano na notícia. Que o olhar da mulher valoriza a história, porque o jornalista nada mais é do que um contador de histórias. “Histórias tristes, mas boas histórias”, explica. Quando era chefe, conta que o mundo era feminino. Trabalhou com muitos repórteres homens e não teve nenhum problema. “Tem mais problema a gente ser liderado por um homem do que liderar um. Parece que eles odeiam ter chefe mulher, mas um chefe homem é mais abusador do que uma mulher. A mulher tem mais cuidado ao falar”, comenta.

Embora acredite que a Redação animalize um pouco as pessoas. A Redação é uma guerra. Você tem um prazo muito curto para pensar nas ideias. O fechamento é 22h15 e não meia noite. Como chefe, sempre foi muito firme com os repórteres. “Eu tinha 35 anos e eles tinham 25”, relata. A mulher tem que ser boa duas vezes: ser uma boa profissional e falar para os chefes que aqui existe uma pessoa que pensa.

Jornalismo é informar para o leitor todos os lados da notícia da forma mais isenta possível. É ser um bom relator daquilo que está acontecendo para que ele chegue nas próprias conclusões. Não manipular as informações, mas dar elementos para o leitor julgar e não o repórter. Notícia é aquilo que você quer esconder. “Porque o que você quer contar é propaganda”, diz entre risadas.

Para ela, um bom jornalista tenta ver com os olhos da fonte, para poder transmitir da melhor forma a notícia; precisa ser informado, ler, pesquisar, ter conhecimento do que está falando.

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“Digo que sou especialista em generalidades, porque converso sobre tudo com as pessoas; não me aprofundei, mas eu sei o rumo da conversa”, conta.

O jornalista precisa ter senso de humor se não vai morrer neurótico, porque a Redação deixa a pessoa doente. Tem que saber respeitar a fonte e acreditar muito no seu feeling e se fazer respeitar tanto pelo seu editor quanto pela fonte. Não se vender, não se comprometer. Não fazer amizade com a fonte. “Por isso que o jornalista roda tanto em várias editorias, para não ficar preso com fontes. É bom para oxigenar. Para não criar fonte viciada”, ressalta.

Ela tem um home office e brinca que não trabalha em casa e sim dorme no emprego. Explica que ter um escritório em casa é difícil. Sem muita disciplina existem dois riscos: ou visitar a geladeira de cinco em cinco minutos e não trabalhar; ou se distrair com os gatos. A propósito, ela tem quatro felinos. “Deixa eu te mostrar uma foto deles”, disse. Nisso, me mostrou a foto de cada um deles. Vontade de apertar cada bola de pelo que aparecia na tela do celular. Ela fica no meio deles nas fotos.

A rotina de Susana é a seguinte. De manhã faz uma vistoria nas mídias sociais e na Assessoria de Imprensa. Hoje, Susana tem quinze clientes. Muitas páginas para olhar. Trabalha com quatro pessoas, três mulheres e um homem que está a frente dos códigos de HTML17. Faz atualização desses sites e das mídias sociais. Fica mais no atendimento e na supervisão da gestão. As três colegas colaboram com as atividades também. “Me esforço para não trabalhar de pijama”, conta. Atende demandas, responde as mensagens no celular e no e-mail. Depois lê o jornal para ficar por dentro. Explica que mantêm o Jornalismo quando faz um texto da palestra do cliente, tira fotos do momento e coloca no site. Mas acredita que trabalha mais com o Marketing do que com o Jornalismo. A Comunicação engloba isso tudo. É importante ir atrás do que quer. Ficar experiente e não velha, brinca.  Assim como fui chefe na redação, sou chefe hoje.

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HTML é a sigla de HyperText Markup Language, que significa Linguagem de Marcação de Hipertexto. É utilizada para a produção de páginas na internet.

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"Quero que meu desenho seja um coração. Igual a esse que me mostrou. Dentro, escreva qualquer coisa que, pela conversa, percebeu que me representa” - Isabela Lamego

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Dia 26 de setembro de 2017.

Expectativa lá em cima. Perto das nuvens. Encontro Isabela Lamego em instantes. Tamanha dificuldade foi marcar esse encontro. Foi desmarcado uma vez. Depois de muito tentar, consegui. Isabela foi colega de faculdade de Mirella, professora orientadora deste Trabalho de Conclusão de Curso. Nervosismo. Serra Sede. O GPS 18 do celular sempre na mão. Consegui carona para ir. Obrigada! Encontrei a Prefeitura da Serra. Para entrar é preciso fazer o cadastro. Sorri para a foto e peguei o cartão de visitante. Aguardei por alguns minutos e conheci pessoalmente Isabela.

GPS é a sigla para Global Positioning System, que em significa “Sistema de Posicionamento Global”, uma tecnologia de localização por satélite. 18

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Isabela Lamego, Secretária Municipal de Comunicação da Serra.

Até seus 12 anos não tinha muita definição de qual profissão seguir. O sonho era fazer Engenharia ou Arquitetura, porque gostava muito de matemática. Com 13 anos se apaixonou pelo Jornalismo e desde então estava decidida do que queria: cursar Comunicação Social, Jornalismo.

A trajetória de Isabela é curiosa. Tinha um emprego na área de produção de eventos e decidiu largar para começar a ter mais experiência na área de Jornalismo. Apareceu a vaga de estágio em A Tribuna, no sexto período de faculdade e aceitou. Ela fazia o jornal interno: Fala Tribuna. Ficava dividida entre o Marketing e Recursos Humanos. Na época não tinha estagiário formado em Comunicação. No sétimo período, abriu uma vaga na Redação e Isabela fez o processo seletivo para concorrer. Foi selecionada para a vaga.

Junto com a felicidade de se formar já atuando no mercado de trabalho, sentiu calafrios porque foi direcionada para editoria de Economia. Embora números fossem familiares para ela, foi com medo. Em sua época da faculdade não existia o Jornalismo focado em Economia. Mas como ela estava ali para aprender, não hesitou.

Desde então, ficou por muito tempo em Economia e se apaixonou pela área. Mesmo depois de ter se formado, em 2000. Para essa paixão acontecer, Isabela acredita que tenha buscado algo da adolescência, quando adorava os números, então pensou que daria tudo certo.

O aprendizado foi gradativo. Diversas vezes se questionou se estava na profissão certa, no caminho certo. “No início, na Redação, quando você não tem experiência é sempre muito puxado, mas sempre olhei o desafio com bons olhos”, conta. Se alguém perguntar para ela hoje qual é a melhor área do Jornalismo, ela não pensa duas vezes e fala com um sorriso: Economia! Não foi uma escolha. Ela foi colocada lá. “Redação de jornal é para quem ama, é para os fortes”, ressalta.

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Ficou 15 anos na área de Economia, a trajetória foi a seguinte: repórter de Economia; repórter especial de Economia; redatora de Economia; Chefia de Reportagem na pauta da área de Cidades, editora de Economia. Enquanto isso, teve outros empregos. Trabalhou como freelancer19 na Editora Abril, na coluna Maurício Prates, enquanto repórter, e redatora, escrevendo e editando durante quatro anos. Também trabalhou na Prefeitura de Vila Velha como Coordenadora de Comunicação, por um ano e meio, até virar editora, momento que exigiu exclusividade.

Todo mundo espera crescer profissionalmente, ser bem sucedido naquilo que escolheu. Mas Isabela não almejava a posição de Editora. Como o jornal tem espaço para crescer, ela, involuntariamente, aceitou certos desafios, como produzir pautas que ninguém queria.

Aceitou mais como um desafio e nisso a empresa a enxergou, como nas pautas investigativas. Percebeu que toda vez que realizava uma reportagem especial de uma pauta investigativa que era trabalhosa, a empresa a enxergava diferente e, assim, Isabela ganhou confiança e credibilidade. Com isso, seu trabalho teve relevância e destaque. O crescimento foi uma consequência do trabalho que ela fez. “Como fiz um trabalho bem feito, foi natural o convite para eu ser editora”, explica.  Não existe uma pessoa que se dedique, se esforce, trabalhe bastante que não tenha como consequência o sucesso profissional, ressalta.

Isabela conta que é necessário ter autocrítica para você ver se está fazendo um trabalho bem feito. Ela é crítica. Sempre tentou fazer o melhor no momento. É grata por todas as oportunidades que lhe foram oferecidas. Pela janela abertas, as nuvens desfilavam no céu. O adesivo “Eu Amo Serra” roubava destaque na decoração. Entre o suave som do movimento das persianas, Isabela comentou que seu primeiro impacto de estar na posição de chefia foi uma mistura de sensações. “Foi uma oportunidade única para mim, isso significa que meu superior está apostando muito no meu trabalho”, explica. 19

Pessoa que presta serviços profissionais autônomos.

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A jornalista teve ansiedade em querer apresentar resultados e, ao mesmo tempo, colocar as coisas no trilho, no eixo. Ao colocarem Isabela na posição de chefia, ela pensava que “alguém ocupava o cargo antes, então se a pessoa saiu do cargo e me colocaram aqui, estão esperando algo além, melhor, diferente do que o que a outra pessoa fazia”, conta.

Também teve tranquilidade e serenidade para tatear e entender a equipe. Entender quais são as falhas e o que precisava ser mudado. “Lidar com o ser humano não é fácil, ainda mais jornalistas”, afirma. É preciso ter zelo e carinho, nas palavras dela.

Lembra que sempre teve como filosofia o diálogo. Sempre jogar aberto. Ser transparente e conversar muito. Ocupou o cargo de chefia quando já havia passado por todos os cargos: de estagiária à editora. Em todas as funções entendia como o chefe estava falhando, e queria dar o alento que sempre buscou ou achava que deveria ter. Ser editora nunca foi um fardo, um peso. Isabela sempre foi bem mãezona. “Eu chamava os repórteres na salinha para conversar sobre atitudes e textos... eu era uma leoa, defendendo minha equipe até debaixo d’água”, comenta.

Ser chefe é ter um duplo desafio:

1. Apresentar resultados do seu trabalho e da sua equipe. Às vezes cobrando mais e às vezes muito mais.

Isabela não gosta de trabalhar com a meta pré-estabelecida, se a meta é dez, quer trabalhar com a meta doze. Sendo o mínimo atingir a meta. Sempre esclareceu isso com sua equipe.

2.

Lidar com a equipe como um todo. A equipe dela era de dez pessoas. Lidava com a pessoa que estava mal humorada, com problemas de doença na família, que o marido ficou desempregado, o noivo que terminou o noivado, dentre outros. Precisava ser conselheira.

O bom resultado é uma consequência de uma boa equipe, integrada, unida e coesa. Um ajudando o outro. A jornalista acredita que o pilar e o porto seguro é o chefe. O chefe deve 61


olhar o ser humano que está trabalhando, além do profissional. Deve entender como estão os repórteres e qual pauta vai entregar para cada um.

Isabela explica que ser chefe tem os dois lados e é preciso ter muita sabedoria e maestria para separar o lado profissional e o lado humano. “Porque minha equipe não é um robô, é um ser humano”, evidencia. Para ela, estar na Redação é uma delícia. “Não tem rotina, e quando eu digo isso não é clichê”, enfatiza. De fato, cada dia é um acontecimento novo, uma busca nova e incessante por matérias positivas. Ela explica que é um efeito cascata: a matéria positiva leva esperança e otimismo para o leitor. Sempre têm coisas ruins, mas lidar com adrenalina e com a falta de rotina são fatores marcantes.  Quem é jornalista gosta de Redação pelo ambiente que é em si: a busca incessante por notícia. A Redação é para os fortes! Fato!

Isabela acredita que o lado feminino ajuda muito no cargo de chefia. O homem é mais razão e, alguns, um pouco de coração. Já a mulher é bem razão e, também, é bem coração.

Ela nunca se controlou em relação a falar, ou fazer algo pela atitude ser muito feminina. Sempre teve o zelo e o cuidado de não extrapolar em nada, um policiamento pessoal.  Na Redação do jornal todos os meses alguém fazia aniversário na nossa equipe, então todos os meses tinha bolo. Uma atitude que às vezes o homem não tem. Ou até mesmo o dia que alguém está com muita TPM... é preciso entender o lado da outra pessoa também.

Isabela acredita que o lado feminino agrega na Redação. Os homens são bons como gestores. “A mulher só coloca uma cereja no bolo”, ressalta. Por ter mais de coração, emoção e zelo, é mãezona e isso só agrega quando leva a coisa por uma posição correta. Correta para ela significa: sem fazer algo ilegal ou imoral, por estar no cargo.

Para Isabela, existem diferenças entre chefe homem e chefe mulher. A mulher é mais paciente e tolerante. “Mais coração e mais mãe”, diz. Sempre cobrou muito da equipe, mesmo sendo

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mulher. Exigia e era bastante crítica, mas sabia também dar colo, entender o outro lado e ouvir. “Era comum alguém me chamar na salinha para desabafar um problema pessoal”, conta. O repórter, a pessoa que há nele, às vezes queria explicar para a chefe o motivo de ela estar mais calada naquele dia.

Isabela sempre perguntava o que podia fazer pela pessoa. Se ela precisava de um horário flexível, ou entrar mais tarde, ou se era problema financeiro. Queria saber se tinha como ela resolver. Às vezes a pessoa só quer saber que tem um porto seguro, que ela tem com quem contar. Então várias vezes ela ia para salinha ouvir desabafos de problemas pessoais de todos os níveis. Por isso, é preciso ser, como chefe, um para-raio, saber como manter a pessoa na equipe bem.

E é para isso que o chefe está ali. Até porque ela sabe que o problema da vida pessoal é uma fase, vai passar. O repórter está ali para ajudar e o chefe deve saber que a pessoa é competente, mesmo passando por situações difíceis. “Meus chefes sempre foram homens. A gente é fruto do que a gente planta. Um chefe me disse que eu era muito resiliente”, conta. Explica que sempre foi muito durona e sempre quis ser cuidar de todo mundo. Sempre que precisou, foi muito bem acolhida pelos chefes e tem uma relação boa com eles até hoje.

A decisão em sair da Redação foi dela. Pensando mais em uma qualidade de vida, porque, embora na prefeitura ela trabalhe muito, não precisa estar fisicamente no lugar. Então de segunda a sexta, está lá. Ou em final de semana aparece em algum evento. Caso tenha um feriado, vai para a terra natal do marido, em Minas Gerais. Se acontecer qualquer problema, é só ter celular e internet e ela resolve tudo. Na Redação era diferente, precisava estar lá. Podia não estar acontecendo nada, mas ela tinha que estar lá até nos finais de semana. “Chega uma hora que a pessoa fica mais velha e começa a priorizar a qualidade de vida”, diz.

Comentou de Susana, personagem com a qual nos encontramos na crônica anterior, que também saiu da Redação visando uma qualidade de vida melhor. Tem muita diferença de quando entrou no impresso. Foi em 2000. São só dezessete anos. Curto espaço de tempo. 63


Isabela divaga sobre o tempo e comenta que a estrutura que hoje o repórter e o jornalista tem é surreal. Na época dela, em 2000, cada editoria tinha um ramal: 9030. Que era utilizado pelo editor e pelos sete jornalistas.

Era um rodízio. Como só tinha um telefone na editoria, não tinha como ficar esperando o telefone para fazer algo. “Então, os jornalistas saíam muito mais para rua do que hoje em dia”, diz. Também acontecia para conversar com as fontes. O repórter não pegava o telefone para falar com o presidente da CDL20, o repórter ia até o local.

O repórter tinha muito de ir aos lugares. Não existia a estrutura de hoje. Isabela conta que hoje as redações têm 10 carros e quando ela era repórter era um carro para editoria de Polícia, um para Reportagem Especial e um que atendia Cidades, Economia e Política. Se um carro estivesse indo para o Centro, os jornalistas corriam para conseguir um assento. O normal era ir de ônibus. Tanto que para voltar para a Redação era sempre de ônibus.

Na Redação em 2000 só tinha internet em um computador, no do editor. Então os repórteres queriam muito que o editor ficasse um pouco longe do computador para que eles pudessem pesquisar. O editor às vezes deixava o repórter usar, mas ele ficava ao lado olhando o que a pessoa estava fazendo. Não existia Google e redes sociais para ajudar a encontrar fontes e personagens. Somente 17 anos separam o mundo que Isabela descreve para o que acontece hoje.

O processo de escrever a matéria, não era diretamente na página. Ela explica que o repórter escrevia no Word; e o editor fazia o título e o olho no Word e mandava para o diagramador montar a página. Hoje é escrito direto na página.

Por outro lado, Isabela acredita que hoje perdeu, um pouco, o interesse do repórter querer ir para a rua. Acaba sendo comum ouvir o jornalista dizer que conversa com fulano a mais de dois anos, mas não sabe quem é. Não conhece pessoalmente. Essa perda de contato não é interessante entre o jornalista e a fonte.

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Câmara de Dirigentes Lojistas.

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O olhar feminino influencia até no desenho das páginas. Assim como na postura da equipe, também. Ela conta que mulher gosta de fotos recortadas, com a foto mais detalhada e uma página com aspas, por exemplo. Isabela pega um jornal A Tribuna, que estava perto de nós, sobre a mesa, e diz que se estivesse no comando da editoria, pediria para recortar a foto dando mais ênfase nos detalhes da mão da personagem que esconde algo com um pano. “Ampliaria essa foto e nesse branco aqui colocaria uma citação”, diz. Homem é mais quadrado. Mostra na editoria de polícia, em que o chefe é um homem. Explica que a página fica diagramada mais quadrada. São mais informações colocadas e não espalhadas com carinho. Isabela ressalta que é bem clara essa diferença. Mas ressalta que existem homens que possuem esse olhar, ou a diagramadora que inventa de cortar a foto e dá certo.

Ser chefe numa Redação em que a maioria era homem era um desafio. A relação sempre foi muito cordial, de muito respeito. Mas são sempre vários homens no comando. Às vezes eles falam “é muito cara de mulher isso”, mas as ideias das editoras sempre foram muito bem aceitas. Isso foi melhorando gradativamente. Aumentou muito o número de mulheres editoras. Foi um processo. Degrau por degrau. As opiniões eram sempre recebidas e acatadas. “Daqui um tempo acho que só terão mulheres comandando lá na diretoria”, diz.

Isabela evidencia que a maioria das jornalistas é mulher em A Tribuna. De 2000 até 2015, talvez o percentual fosse 70% mulher, hoje deve ser 60% mulher. Mas ela conta que deixou a Redação em fevereiro de 2017 e até janeiro a sua equipe era composta 90% por mulher.

Para ela, Jornalismo é o ato de você coletar, apurar e investigar dados, mas principalmente ouvir os dois lados e analisar. Acredita que um ponto crucial no Jornalismo é o repórter poder ter um senso, fazer uma análise da informação que recebeu e apurou. O que só é feito quando apura bem os dois lados.

Dando exemplos de Economia, diz que quando qualquer índice econômico é positivo, é positivo, ou é negativo, é negativo. Só que essa visão é errada. O índice positivo tem um viés negativo e vice-versa.

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A notícia é a consequência de um bom jornalismo, que deve ser imparcial. A notícia é tudo o que é entregue ao leitor todos os dias. A notícia é um marco. Muda vidas. Muda o mundo. A história. Tem a capacidade de conquistar e de destruir e por isso/e para isso é preciso ser bem apurada, ter senso na publicação, ter a necessidade do furo e correr atrás. Para Isabela, uma análise crítica e o bom senso são sempre fundamentais. É preciso muito zelo e cuidado com a informação jornalística que se transforma numa notícia.

Um bom Jornalismo pode ser feito tanto por homem e mulher, assim como um jornalismo ruim. Ela acha que a sexualidade não vai impactar o resultado de um produto jornalístico. Independe do sexo. Existem mulheres muito mais detalhistas, mas ela conhece homens que também são.

Virtudes de um bom jornalista: a curiosidade, o desejo de querer buscar uma informação, o sangue correndo na veia, a imparcialidade, a vontade de querer buscar sempre o melhor, ser fiel à informação e às fontes. Sempre receber a pauta e pensar que aquela é a pauta da sua vida. Ser incansável e conseguir sempre o detalhe primordial do conteúdo.

Para contar sobre seu dia, Isabela explica sobre a Secom. A Secom é responsável por levar para a população tudo o que está acontecendo no município da Serra. São 23 pastas. A equipe é bem unida. Eles respondem as demandas que vêm da imprensa, mas também têm a obrigação de produzir informação, notícia, conteúdo para redes sociais e para o portal; além de atender às secretarias com convites e Comunicações Internas. Tudo ligado à Comunicação passa pela Secom. É um trabalho que começa às 7 horas da manhã e não tem hora para acabar. “Fisicamente acaba às 19 horas”, diz.

São estabelecidas metas. De produzir X matérias para o portal e atender as demandas. Faz reuniões com equipes de marketing e redes sociais, e atende aos secretários e ao prefeito. Conta que está sendo um desafio para ela, pela confiança que o prefeito colocou em seu trabalho. Ainda mais que a Serra é maior município do Espírito Santo. “Somos em 502 mil habitantes e contando…”, comenta.

Por isso, tudo na Serra é macro. Há o desafio de produzir notícias boas todos os dias. Embora seja serviço público, aqui é muito parecido com a Redação. Ela tem uma agenda que pode cair a qualquer hora porque o prefeito precisou da jornalista para outra coisa. Não tem rotina como 66


a Redação do jornal. Ela faz questão de que a Redação da Prefeitura se pareça com a Redação do jornal. Foi para o cargo com essa filosofia. Todos que estão ali já passaram por redação, então fica mais fácil de trabalhar. A equipe faz de tudo para que o serviço seja bem feito. “Não tem essa de ‘ahh é serviço público, não deu para hoje, fica para amanhã’”, diz. Não. Se a meta é para hoje, todo mundo tem que dar conta de resolver.

Seu cargo é focado na área jornalística, publicitária e administrativa. Para ela está sendo ótimo. Depois de 17 anos de Redação, trabalha hoje muito pouco com o ritmo e a adrenalina da Redação jornalística. “É saudável”, conta

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Narrando os relatos em retalhos Não imaginava que o livro se construiria como se construiu. A cada ligação telefônica e encontro marcado, pegava meu caderno e seguia em frente. Sempre ansiosa pela próxima história a ser ouvida, para ser, então, narrada. Os relatos deste livro juntaram, como em retalhos, as trajetórias das jornalistas mulheres da Redação dos dois jornais impressos selecionados.

O papel da mulher nas Redações dos jornais é como editora, é na chefia, é na posição de autoridade. A partir das entrevistas, foi possível ver a mulher como um ser intrínseco à Redação. Houve questionamentos a todo o momento, por exemplo: como isto ou aquilo eram feitos quando a mulher não estava na Redação? A presença delas no ambiente jornalístico atribui delicadeza; riqueza de detalhes; mais humanidade, organização e coração para o fazer diário.

A mudança no fazer jornalístico mais observada foi o advento da internet como propagadora de informação, havendo uma maior preocupação sobre o imediatismo e a veracidade das notícias vinculadas no meio digital. As jornalistas não estagnaram no tempo; atualizavam-se sempre que tinham oportunidade; caso não houvesse uma, ela era criada.

Elas conversaram tendo um referencial para seguir. Perceptível no diálogo. De acordo com suas posições na sociedade, o discurso era alterado. Houve seis discursos. A jornalista mãe, a jornalista amiga, a jornalista que dedicou sua vida inteira ao trabalho, a jornalista família, a jornalista determinada e a jornalista escritora. Se o leitor não conseguiu identificar quem é cada uma nas crônicas, a confusão foi proposital. Porque uma pode ter todas as características citadas. Uma pode ser mãe, amiga, trabalhadora, possuir forte relação com a família, ser determinada e escritora.

Entrevistei seis mulheres que me ensinaram como é estar no ambiente de trabalho que um dia a maioria era do sexo masculino. Elas podem, e devem, ser o que quiser. Seis mulheres jornalistas que não desistem da matéria, da fonte, da notícia; que são inspirações para todas as focas que, um dia, desejam estar na Redação. A cada entrevista um livro era aberto e um capítulo dele, era contado. O lado profissional, que embarca, também, todos os âmbitos da vida delas.

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FIM AQUI!!!!!!!!!!!!!!!!

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Relatos em Retalhos  

O livro reúne crônicas que narram as trajetórias de seis jornalistas mulheres que trabalham, ou já trabalharam, nas Redações dos jornais imp...

Relatos em Retalhos  

O livro reúne crônicas que narram as trajetórias de seis jornalistas mulheres que trabalham, ou já trabalharam, nas Redações dos jornais imp...

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