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SANATIVO A PREFEITURA FEZ O FILHO MAS NÃO CUIDA Futebol - Um dos pontos fortes da programação mento ainda esteja subutilizado. Com essa estrutu-

por: Rafael Eduardo| Fotos: Osvaldo Morais

Também estão entre as ações promovidas as atividades do Programa de Esporte e Lazer da cidade emorou, mas, aos poucos, a Praça da Juven- do Recife - Pelc. Além de incentivar a pratica de tude do bairro do Jiquiá já começa a ser utili- esportes e exercícios físicos, o programa leva oficizada. A ideia desse espaço, que começou a ser nas com o objetivo de incentivar a consciência dos construído em 2010, é levar atividades de esporte, participantes em relação ao meio ambiente. lazer e conhecimento, favorecendo a integração so- Acontecem, então, atividades sobre reciclagem e social das comunidades do entorno. bre o descarte correto do lixo, de artesanato, e oficinas e que ensinam as crianças e jovens do entorno sobre A estrutura conta, para isso, com quadra poliesportiva como plantar arvores no cenário urbano. “Ainda estae campo de futebol, pista de skate, além de sala de mos muito no início, mas a comunidade já percebeu conferência e anfiteatro para apresentações culturais. que o espaço é deles e pode ser utilizado em prol da cidadania”, explica o educador do Pelc, Flavio Reis. Entre as atividades que já são oferecidas estão escolinhas de futebol e eventos voltados Segundo ele, a secretaria de Turismo, Esporte e Lapara a música, como o Reggae. Além disso, zer da Prefeitura do Recife está se preparando para as comunidades do entorno podem utilizar o aprimorar a gestão do local. “A população deve esperar local para peladas de futebol, que acontecem algo positivo, pois haverá novidades”, assegura Flavio. diariamente no horário da manhã e partidas de As atividades do Pelc acontecem de segunda a quinta, queimado, nas sextas feiras. com destaque também para a prática de atletismo.

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oferecida na praça vem através das escolinha de futsal, que acontecem durante os sábados. Essa iniciativa vem de cidadãos conscientes, que querem contribuir com o futuro das crianças e jovens. A escolinha do professor Gilmar ocorre no horário da manhã e a escolinha de Futsal Fortaleza no horário da tarde. “Aqui passamos os fundamentos do futsal, alem disso, noções de respeito, disciplina, interação e autonomia”, explica o educador da escolinha Fortaleza, Eliseu Espíndola. De acordo com Espíndola, o espaço oferece uma estrutura ótima para esporte e lazer. “A gente passava e via o local, pensando na possibilidade de trabalhar aqui. A estrutura é ótima”, destaca. As mães e pais do entorno fazem elogio ao equipamento. “É muito bom. Tem atividades de brincadeiras, festas para crianças, dança e esportes”, comenta Edmilson Lira, morador da comunidade do Zepellin.“Gosto das atividades de educação fisica e minha filha participa das oficinas de meio ambiente e artesanato”, relata Rafaela Albuquerque, que mora próximo à praça.

Crítica - Os moradores entrevistados, no entanto,

fazem uma crítica que deve ser levada em conta. “As atividades são boas, mas, pela estrutura que tem aqui, deveria haver bem mais. Acho que faltam professores, por exemplo”, afirma Edimilson Lira. “Da forma como ainda está, acredito que o equipa-

ra é possível mais”, reforça Eliseu Espíndola.

Essa é também a opinião do rappere agitadorcultural Vicente, o MC Atitude. Vicente tem um projeto que forma jovens para o rap e outras vertentes do hip hop. Já pensou em fazer atividades na Praça da Juventude, mas, segundo ele, ainda não houve a contrapartida dos gestores públicos. “Temos varias ações que podem ser feitas ali para formar jovens conscientes. Aquela é uma região carente, que se beneficiaria muito com isso. Já apresentamos propostas, mas até agora não sinalizaram nenhum apoio. Outras críticas de alguns moradores vem em relação à limpeza (nesse ponto, os entrevistados culpam não só a gestão, como os próprios moradores da àrea) e também em relação a segurança. Sobre isso, vale fazer uma comparação com o Compaz, equipamento localizado no cruzamento das avenidas General San Martin e Abdias de Carvalho, inaugurado esse ano também com objetivo de promover esporte, lazer e cultura. Em sua estrutura, o Compaz possui uma boa quantidade de seguranças patrimoniais e parece estar bem servido em relação à limpeza. Pode ser que fatores complexos da gestão pública tenham peso nesse caso, mas de qualquer forma, essa desproporção no tratamento dos dois equipamentos sugere que a Prefeitura do Recife não da a mesma prioridade a equipamentos que tem a mesma proposta social.


INICIATIVA TEM SEMPRE ALGUÉM FAZENDO A DIFERENÇA

por: Marly Morais| Divulgação: Forte Gás e para o corpo e com a motivação para mons e o estabelecimento era um pit do. Foi recebendo doações de livros, Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares alimentar a alma através da leitura. stop para recarga dos Pokemons.” e ela afirma que “muitas amizades

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á cidadãos que por razões particulares decidem melhorar a vida de outras pessoas de maneira desinteressada e altruísta, quer seja em trabalhos voluntários ou de caridade em instituições já estabelecidas, quer seja distribuindo alimentos e vestimentas a moradores de rua.

Patrícia nos conta que “não gosta de leitura tanto quanto deveria, mas tem dentro dela a vontade de incentivar. Conta que gosta muito de leituras do segmento filosófico, que trata das questões da existência.” Ela diz que essa ideia surgiu “na época em que criaram o aplicativo de Poke-

Entretanto, há aqueles que dedicam seus dias a encantar crianças, adolescentes e adultos a ver o mundo através da leitura. São estas pessoas que organizam pontos de leitura ou bibliotecas comunitárias que contribuem de maneira efetiva para a democratização do acesso à leitura no país. Vamos conhecer um pouco dessas iniciativas desenvolvidas pela sociedade civil na zona oeste de Recife, infelizmente desconhecidas da Bibliotecas Públicas. Tratar-se-á da maioria da população. Leitura como um direito humano, proO tema aqui abordado não será rela- porcionado voluntariamente por seres cionado a programas governamentais gentis e comuns, que acreditam no de iniciativa a leitura que ao longo desenvolvimento de seus semelhandos anos vem sendo implantados nas tes através da educação e tomam escolas públicas através de ações do para si essa missão. Ministério da Cultura, do PNLL- Programa Nacional do Livro e Leitura Muito gratificante é entrarmos em ou do SNBP- Sistema Nacional de uma distribuidora de gás na Aveni-

Na área há muitas escolas particulares, estaduais e municipais, muitos estudantes passaram a frequentar habitualmente. Ela lembra que eles ficavam lá sentados e brincando com os Pokemons e ela pensou que eles poderiam passar a buscar livros, em lugar de ficarem somente brincan-

da do Forte Arraial do Bom Jesus, nº 780, no bairro de Torrões e nos surpreendermos com a visão de uma minibiblioteca no seu interior. Além disso, somos recepcionados gentilmente por uma moça chamada Patrícia Bernardo Bezerra, que além de cuidar do seu negócio, disponibiliza livros para seus clientes. Ou seja, todos saem de lá com o gás para cozinhar alimentos

boas ocorreram com esse projeto. O Projeto é para contribuir com o gosto pela leitura, não tem nenhuma regra, é uma biblioteca comunitária livre, o acesso é livre e você passa e pega quantos livros quiser. Eu gosto muito de poder contribuir com alguma coisa. Não custa nada”. Vê-se no conjunto da fala de Patrícia a capacidade de transformação do seu espaço de convivência e a generosidade de promover o bem do outro sem nenhum outro interesse. Uma cidadã que faz uma enorme diferença no seu bairro. Outra história apaixonante foi contada ao Jornal Infornativo por Cleonice da Silva. Esta senhora poderia ter vivido como uma simples trabalhadora e moradora de uma comunidade pobre, e como a maioria, poderia apenas cuidar da sua própria subsistência e de sua família. Mas, não foi o que ocorreu. Sem nenhum vínculo com a área de educação, tornou-se fundadora da Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares, situada na Rua Campo Tabaiares, nº92, na Ilha do Retiro. As duas comunidades Caranguejo e Tabaiares são vizinhas e tem em comum a pobreza, mas tam-


bém tem a força de parcela da sua comunidade que se organiza para dar solução aos problemas de carência e de violência que enfrentam. Em visita à Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares fomos gentilmente recebidos pela fundadora do local, D. Cleonice. Havia também algumas estudantes universitárias que trabalham voluntariamente no espaço e crianças da comunidade no local. Cleonice nos revelou sua história de doação e amor pelo povo de sua comunidade. Moradora a 40 anos em Tabaiares, ela conta que participava de um grupo de adultos e idosos da comunidade liderados por uma líder da comunidade que já faleceu. Cleonice disse que buscava parcerias com profissionais de hospitais e de faculdades para levar palestrantes até eles. Mas, com os idosos iam os netos e filhos que ficavam sem ocupação. Foi desse fato que ela e uma professora de uma faculdade próxima pensaram na biblioteca como solução para ocupar aquelas crianças. A professora propôs que ela conseguisse um espaço na comunidade de Tabaiares para alugar e ela disse que não sabia nem como começar. Convidou um jovem chamado Reginaldo para ajudá-la.

Com o apoio do grupo de professores, no dia 11 de outubro de 2005 foi inaugurada com apenas 800 livros. Foi imprescindível o apoio da Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco (FCAP), da Associação Cultura Planeta, além de outras organizações como ETAPAS, Centro Josué de Castro, FASE, Escola Maria Goretti, incluindo moradores da comunidade. Ainda, segundo conta-nos Cleonice: “Receberam doações de mobiliário, de computadores, de forro de gesso, de ventiladores, de cerâmica de um banco e dos comerciantes a quem pediu apoio.” Ela recorda emocionada: “Botava a pasta debaixo do braço e ia atrás com nosso projeto. Pedi ajuda a Reginaldo que era um jovem que já nos ajudava e disse a ele: - A gente não sabe de nada, mas a gente vai aprender. Reginaldo fez formação com uma professora chamada Vilma para organizar a Biblioteca.” Ficaram 11 anos e 7 meses num espaço alugado, mudaram para a casa atual também alugada e esta última casa foi colocada à venda. Ela não tinha o dinheiro, mas conseguiu adquiri-la com ajuda de pessoas que cuidavam de outros projetos na comunidade. Sua luta não foi vã, comprou o espaço que foi reformado com doações. Estão a pouco mais de um

ano na nova sede. Ela diz: “A gente só não tem dinheiro, mas tem amor e vontade de fazer um trabalho com crianças, adolescentes e idosos.”

bicicleta que temos aqui na biblioteca... tiramos da rua adolescente que usava drogas... adolescente que hoje trabalha, casou e tem uma vida tranquila com sua família... E, conseguir Reportando-se ao que significa o pro- isso é muito gratificante. Isso pra mim jeto da biblioteca, D. Cleonice fala não tem preço... recuperar um pra emocionada: “O meu sentimento... mim é uma vitória“. minha preocupação com a comunidade é ocupar essa geração... essa A Biblioteca Comunitária Caranguecomunidade já foi muito violenta... a jo Tabaiares conseguiu formar uma Folha (referindo-se ao jornal local) só rede de colaboradores e apoiadores entrava aqui para fazer reportagem das atividades desenvolvidas. Quem de morto, agora não, a Folha só entra desejar conhecer melhor o projeto aqui para fazer entrevista conosco so- pode acessar o seu blog e as páginas bre a biblioteca, sobre o projeto com e perfis nas redes sociais.


OPINATIVO O ESTADO DE INSEGURANÇA ROUBA NOSSOS DIREITOS A repressão do criminoso pobre segue um rito diferente. As pessoas das favelas conhecem de perto quem vai para parede quando a força policial chega a procurar armas e drogas. Assim disse “Nêga” moradora da Roda de Fogo: “ Eu tava dormindo quando os homi entraram gritando. Disseram que tinha uma arma escondida na minha casa. Só porque minha filha às vezes se junta com a turma para fumar, alguém deu a ideia e eu que não tinha nada haver, levei bacolejo quase dormindo.” Para aqueles há mandados expedidos por juízes, mas para estes, o mandado de busca e apreensão já é uma bota que derruba a porta do barraco.

por: Peixe / Ilustração: Ribs

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ara os trabalhadores assalariados e desempregados, pouco há para comemorar neste final de ano, pois vivemos uma crise que ultrapassa a econômica. Sejam ideologicamente de esquerda ou direita, sejam conscientes ou não de alguma posição ideológica, cresce nas pessoas o sentimento de descrença nos representantes e no sistema político como um todo. Perceber que o destino dos recursos públicos normalmente favorece os interesses das elites e dos políticos que estão obstinados a se manter no poder frustra a todos. A deliberação de obras sem planejamento transformando as ruas dos bairros, só por que “é ano de eleição”. Assistir diariamente nas mídias que políticos e ricos empresários se consorciaram durante anos retirando recursos públicos que fazem muita falta no atendimento das necessidades básicas da população (educação, saúde, moradia e segurança), parecem minar os bons sentimentos e a esperança de um mundo melhor para as crianças e jovens.

Mais do que frustrante, é preocupante sentir os efeitos que esse clima de não ter perspectivas estão causando nos mais jovens. A desconfiança generalizada nas instituições públicas, a sensação social de desamparo e de falta de boas perspectivas parecem ter sido alguns dos gatilhos para a ampliação da violência urbana. A população se divide entre uma minoria dos que se entregaram ao banditismo e uma maioria assustada e perplexa com a insegurança. As autoridades, por sua vez, parecem não saber qual trajetória seguir para resolver tamanho problema, num dilema entre a valorização dos humanos direitos e a repressão dos que promovem episódios lamentáveis de crimes diversos. Ricos empresários e políticos começam a ser presos no Brasil pelos seus crimes, mas este fato parece não estancar a violência aqui no andar de baixo. Eles pagam altos honorários aos melhores escritórios de advocacia com o dinheiro que tiraram da população, para que utilizem as brechas da lei a fim de ficarem impunes ou para que paguem suas penas suavemente, através de prisão domiciliar.

O sistema gera a guerra e é o cidadão quem paga. Por sua vez, o policial segue as ordens de quem o governa. Quando os moradores de uma favela são invadidos em suas residências, alguém deu o comando. Algumas vezes o policial não sabe nem o porquê de estar dando uma tapa na cara do usuário de drogas, mas assim faz por falta de capacitação ou por pressão da equipe em serviço. Vem se tornando rotineiro cenas de fugas, tiros desgovernados e apreensões de meninos(as) que nos finais de semana se reúnem nas principais praças dos bairros da região para escutar música, conversar, paquerar e usar drogas. As praças que deviam ser equipamentos públicos para incentivo, principalmente do lazer, no momento se assemelham a campos de batalha entre a policiais e jovens que saem das favelas para ocupar os espaços. O Jornal Infornativo ouviu Neto, um jovem frequentador da praça Noel Pereira de San Martin, que nos disse como acontece: - “Eu venho lá da Mustardinha com minha turma. Gosto dessa praça da lombada porque é central, mas bom mesmo é dar um rolé e sempre tá num lugar diferente. Violência em todo canto tem, eu chego aqui pra dar uma olhada no movimento e conhecer gente. Venho em busca de paz, mas os homi chega botando todo mundo pra

correr e quem fica vai pra parede. Né só aqui não, todo canto tem isso, não vou negar, fumo uma “coisinha”, mas não mexo com ninguém por causa disso.” Também procuramos os moradores do entorno, que mesmo sem querer revelar sua identidade, nos surpreenderam com seus depoimentos: - “Essa situação nos finais de semana é bem complicada, essas crianças ficam na minha calçada fumando maconha e bebendo bebida alcoólica. Se tivesse algo pra eles fazerem, tenho certeza que eles não estariam fazendo só isso. Imagina essa praça sempre com eventos que pudesse incentivar esses meninos a fazer alguma coisa útil. E se fossem eles mesmos os responsáveis pelo evento, tudo seria diferente. A bronca toda é que ficam na calçada da gente, às vezes quero descansar e não posso. Mas quem devia tomar conta dessa situação era a prefeitura e não a polícia, que deviam cuidar deles e não bater ou prendê-los”. Em 2018, nós eleitores seremos obrigados a eleger mais um grupo de políticos ao governo. Elegeremos um governo conservador e autoritário ou um governo que tenha políticas públicas inclusivas? Será que conseguiremos eleger quem permita ao cidadão a ocupação livre dos espaços, com incentivo governamental para que organizem eventos que valorizem sua cultura, por mais que pareçam desorganizadas? Afinal, cada grupo tem sua linguagem, um jeito de compartilhar suas experiências e devem ser respeitados, caso não estejam tirando o sossego dos que não desejam participar, como na problemática dos moradores do entorno das praças. Se os órgãos públicos se fizessem presentes sem truculência e proibicionismo, muitos avanços sociais já haveriam trazido de volta a tranquilidade que os moradores precisam para conviver. A participação do estado devia ser de cooperação no lugar da repressão, pra que a casa de Nêga não seja invadida de madrugada ou para que Neto e seus colegas se divertirem na praça, sem incomodar a vizinhança.

Infornativo 61ª Edição  
Infornativo 61ª Edição  

Jornal Comunitário da Região Oeste do Recife - PE

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