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VENDA PROI B IDA

Feverei ro / 201 3

ANO IV − Numero 45

5.000 Exemplares

C o m p o r t a m e n to S o ci e d a d e Cu l tu ra e sam ba n o p é !

ilustração: Roger Neves //imagens: divulgação

Francisco Morato - São Paulo Brasil

Di stri bu i ção G ratu i ta g raças ao apoi o do com érci o l ocal

A atual efervescência cultural nas periferias do Brasil e como nosso jeito de fazer cultura pode influenciar o mundo Realização:

Be Linux, Be Free!

Na confecção deste material gráfico foram utilizados apenas softwares que atendem a licença GNU/GPL.


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O informativo Ôxe! é uma iniciativa da ::. Diga, Ôxe! Moisés Mato, fundador do "Teatro de la Escucha" (Teatro da Escuta) - via e-mail Ôxe! Produtora Comunitária que visa Ôxe: Para quem não conhece, quem é Moi- precisam perdoar. O perdão é uma experiên- fora do teatro. Incorporá-las ao nosso trabapropiciar à população de Francisco Mocia da humanidade da qual não se fala apenas lho desatou muitos dos nossos nós. rato e região, um veículo de jornalismo sés Mato? Moisés: Minha vida profissional está vin- com sentido político e portanto é de senso Ôxe: Como acredita que o Teatro da Escuta cidadão e produção, difusão e divulgaculada ao compromisso com uma cultura on- comum. Um teatro comprometido com a re- pode, efetivamente, contribuir para a consção de ideias e informações na área culde a pessoa seja o centro, um fim em si alidade deve entrar também nesses temas. De trução de um mundo mais justo? tural. Todas as informações, ilustrações mesmo, não uma mercadoria, nem um meio que serve denunciar uma injustiça se isso ge- Moisés: Creio que tem algumas contrie imagens são de responsabilidade de à serviço de um sistema selvagem como o rar mais ressentimento e impotência? seus respectivos autores e obedecem a que governa o mundo atual. Entre outras ini- Existem outras técnicas que também pre- buições que podem ser bem significativas... licença Creative Commons 2.5 Brasil - Une sensibilidade e política. Atribuição-Uso Não-Comercial-Com- ciativas, com alguns amigos, temos tocado o tendem ajudar-nos a apurar o olhar como são Teatro da Escuta que pretende ser uma res- Evidencia que técnica e filosofia deO Motor do Ambiente ou Palavras Abraço partilhamento pela mesma Licença posta a um teatro comercial e narcisista que que também pertencem a esse aparato. vem andar juntas. (acesse o blog para maiores detalhes), - Possibilita iniciar processos de transsalvo indicações do(a) autor(a) em con- domina a cena teatral mundial e que em últi- Um segundo capítulo forma um conjunto trário. Para ver uma cópia desta licença, ma análise, serve para legitimar o sistema de técnicas que recebem o nome de Teatro formação que começam pelos próprios que o financia. Sou responsável por uma esatores e atrizes. visite http://creativecommons.org/licola em Madrid, a Sala Metáforas, dedicada Diálogo, que pretender avançar numa cultura - Coloca ferramentas de comunicação censes/by-nc-sa/2.5/br/ ou envie uma a formar profissionais de diversas áreas no de diálogo que nos permita compreender a teatral em mãos de profissionais muito dicarta para Creative Commons, 171 SeTeatro da Escuta. Milito em plataformas po- raiz dos problemas que queremos enfrentar e cond Street, Suite 300, San Francisco, líticas e sociais que querem colocar a solida- todas as implicações que tem em nossas vi- versos. California 94105, USA. São metodologias dinâmicas que estão riedade no centro da vida política. Sou pai de das. Aqui utilizamos técnicas como o Teatro em- constante diálogo com a realidade. três filhos. Escrevo livros à noite. Desejo se- Fórum que herdamos do Teatro do Oprimido Nos permite lutar contra nós mesmos. de Augusto Boal e que temos atualizado filoguir lutando por um mundo mais justo. soficamente e tecnicamente a medida que a Já que nos mostra que a medida da justiça Ôxe: Pode nos falar um pouco sobre o Tea- realidade assim exige. Existe também neste não pode ser baseada em nossas necessiBe Linux, Be Free! tro da Escuta? grupo de propostas uma experiência que está dades individuais e sim nas necessidades Na confecção deste material Moisés: O Teatro da Escuta é um método, sendo desenvolvida, o Teatrozero, que se reade todos os demais. gráfico foram utilizados um caminho, que hoje é formado por 14 sisteÔxe: Como é a relação do Teatro da Escuta liza nas casas das pessoas e inverte a lógica apenas softwares que atendem mas de trabalho diferentes. São diferentes téccom os demais movimentos que estão surdo teatro comercial, já que uma casa particua licença GNU/GPL. nicas que dividimos em três formas de teatro: lar se transforma em teatro onde as pessoas gindo na Europa? assistem o espetáculo em sua maioria se Moisés: Eu diria que é uma relação tensa O Teatro Pesquisa, que aglutina sistemas que conhecem estão dispostas a incorporar em e de diálogo. Na Europa existem muitos mo::. O que a gente usou nessa edição que nos ajudam a olhar para a realidade, algo suas vidas ee suas os temas propostos vimentos que evidenciam que não querem cada vez mais difícil. Hoje todos podemos pelo Teatrozero e relações Programas que frequentemente geram mais as coisas do jeito que estão. Em alguter acesso a muitos dados da realidade mas Ubuntu 10.10 (ubuntu.com) para além das representações. Existem mas questões se tem produzido um grande isso não quer dizer que necessariamente ações de Microteatro, com objetos, de despertar, mas é preciso dar um passo difícil: BrOffice.org 3.2.1 (broffice.org) compreendemos essa realidade. Acessar in- experiências é preciso romper com a cultura em que foGimp 2.6.10 (gimp.org) formação não implica necessariamente em Contradiscurso e outras técnicas. Scribus 1.3.3.13 (scribus.net) conhecimento. As técnicas do Teatro Pesqui- Um terceiro capítulo engloba uma série de mos educados. Agora se trata não só de ir sa pretendem descobrir as dinâmicas de fun- técnicas que denominamos Teatro Grito e contra as coisas do sistema das quais não InkScape 0.48 (inkscape.org) do da violência estrutural a que todos são técnicas que já confluem diretamente gostamos e sim de ir contra a cultura que o Mozilla Firefox 3.6.13 (br.mozdev.org) estamos submetidos. Ver implica compro- para ações de não violência como são o gerou. Não adianta correr ou improvisar. Banshee 1.8.0 (banshee-project.org) meter o olhar, tomar uma posição. Ninguém Contra Golias ou as Poéticas para a desobe- Precisamos nos organizar a longo prazo. Do pode pretender ser neutro em pleno século diência que nos permitem exercitar um com- contrário pode-se produzir o efeito de dissidência tolerada, que não muda nada, porque XXI, vemos a partir de um determinado promisso com a ação. não chega a raiz do problema. Temos um ::. Colaboraram nesta edição: ponto de vista e devemos ser conscientes disgrande desafio coletivo. Ôxe: Quais são as principais influências so. O melhor ponto de vista no momento Betto Souza atual, dizemos no Teatro da Escuta, é a dos (pensadores, experiências, pessoas...) do seu Ôxe: Quais são as suas expectativas refe(subjetividadeematividade.blogspot.com.br) últimos da terra, dos que nada tem, dos que trabalho? ao Teatro da Escuta na América LaDanilo Góes mais sofrem com as consequências da injus- Moisés: São múltiplas e muito variadas: rentes tina? (surtopsicoticoo@hotmail.com) tiça. Partindo de seu ponto de vista é mais Desde pessoas vinculadas ao teatro como Moisés: Cada vez mais esperançoso com difícil enganar-se. O Teatro Pesquisa tem Augusto Boal, Brecht, Piscator ou a receptividade que está tendo em lugares Eduardo Nunes técnicas como Itinerários Descalços, onde Meyerhold, até referências educacionais co- como o Brasil. Acredito que as experiências (edununesfr@gmail.com) tanto as pessoas que atuam como os que as- mo Lorenzo Milani e Paulo Freire, passando de luta de muitos desses países não será perMessias Silva sistem seguem descalços os itinerários que por grandes lutadores como Gandhi, Luther dida, mas sempre existe o risco de serem (messiassilva0810@gmail.com) percorrem instituições que representam a vi- King e César Chávez ou místicos como distorcidas nesses tempos de globalização. Remisson Aniceto olência ante um determinado tema, durante o Guillermo Rovirosa. Constantemente inte- Gostaríamos de contribuir nessa direção de (www.nossomundo.bligoo.com.br) caminho se evidenciam as cumplicidades gramos novas influências com essas citadas. conhecê-las, difundi-las e comprometermodessas instituições. Normalmente os que atu- Nos interessam todas as influências que te- nos com elas. am tem suas vias comprometidas com esses nham avançado no compromisso da promoA Equipe Ôxe! é: Fabia Pierangeli, temas e uma parte do público também assu- ção integral das pessoas e grupos. São muitas Ôxe: Na sua opinião, qual é o maior probleGilberto Araújo, Mari Moura e Roger e muito valiosas embora as universidades ma que deve ser superado no mundo atual? me esse compromisso. Neves (digaoxe@gmail.com) essas referências. Certamente isso Moisés: Há um problema político que poOutra técnica deste primeiro capítu- dispensem não é por acaso. de e deve ser superado se uns 10% da populo é Metáforas do Corpo, que é um trabalho mundial se empenhar seriamente de energia que explora o ritual e que apro- Ôxe: Quando surgiu a questão da não vio- lação nisso: A fome que afeta a maioria da humafunda as experiências positivas da humanida- lência como eixo do seu trabalho? nidade num com capacidade para de. Cada vez nos parece mais necessário que Moisés: Desde o início nos demos conta alimentar maismundo que o dobro da população o teatro social ou político vá além da denún- de que se queríamos fazer um teatro radical- atual. E um segundo problema que é moral: cia, também deve iluminar e gerar esperança. mente novo não bastava fazer adaptações A falta de esperança, a impotência que este mais ou menos bem intencionadas do que já Com esta técnica, um dos nossos grupos insistema nos impõe sem nos darmos vestiga as histórias de perdão da humanida- sabíamos fazer. Era necessário reconstruir a Uma grande tarefa é gerar esperança.conta. 9 Só de, que em meio a tudo o que vivemos são as técnica, porque toda técnica carrega em si gente com esperança é capaz de lutar. Eles respostas mais lógicas, sensatas e humanas uma filosofia. Nesse sentido descobrimos podem ser esses 10% que podem dizer sobre Saiba: blogduoxe.blogspot.com para a roda da violência. Existem processos que a cultura da não violência era muito di- o tema da fome: Isso é uma injustiça e deve Siga: @informativo_oxe de perdão em muitos lugares, mas são muito nâmica e unia perfeitamente a ação e a refle- terminar!!! Curta: Produtora Ôxe! desconhecidos para o grande público. O sur- xão, nos permitindo fazer descobertas muito preendente é que o espetáculo faz com que elementares, que os mais pobres já haviam Para saber mais acesse: www.teatroycommuitos espectadores descubram que também descoberto muitas vezes, mas que estavam promiso.com


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Por: Fabia Pierangeli e Meire Ramos

::. Núcleo de vivências cênicas em Francisco Morato

O ator e arte educador Eduardo Bartolomeu está coordenando a criação de um núcleo de estudos do fazer teatral em Francisco Morato, que valorizará o processo de desenvolvimento do ator e suas potencialidades físicas, vocais e seu imaginário. Quem quiser fazer parte desse núcleo, precisa ter idade mínima de 15 anos e pode se inscrever GRATUITAMENTE até o final de fevereiro na Casa de Cultura Vinícius de Moraes (Rua Virgílio Martins de Oliveira, 519, Centro, Francisco Morato, SP) de segunda a sexta-feira, das 9 às 17h. Os encontros terão início no mês de março e acontecerão aos sábados das 9 às 12h. Interessou? Então corre pra fazer sua inscrição que são só 28 vagas. Essa iniciativa conta com o apoio da Superintendência de Cultura de Francisco Morato. Mais informações: (11) 4488-2145

::. Sarau CONPOEMA

No próximo sábado, dia 16 de fevereiro, a partir das 19h, acontece mais uma edição do Sarau CONPOEMA. Um espaço aberto, onde todos podem se expressar, seja cantando, dançando, declamando uma poesia, contando uma história, tocando um instrumento musical, apresentando uma cena teatral, ou fazendo o que quer que seja pra trocar ideias e ideais com aqueles que estão presentes. O Sarau CONPOEMA acontece desde outubro do ano passado na Casa de Cultura de Franco da Rocha (antiga

Sarau ConPoeMa se consolida como opção de livre expressão e experimentação artística

Hip Hop, como grupo revelação! Que as palavras e as meninas voem cada vez mais longe! biblioteca, bem em frente a estação) e é Quer conferir o lançamento do CD? uma iniciativa da AsNo dia 23 de fevereiro o grupo estará na Comunidade sociação Confraria Cultural Quilombaque, a partir das 22h, a entrada é Poética Marginal, R$10,00, e as 100 primeiras pessoas que chegarem ao locom apoio da Direimagem: Mari Moura cal ainda levam o CD de graça! toria de Cultura de Franco da Rocha. E não é só, a noite vai contar com discotecagem, grafite, Pra entrar é GRÁTIS e pra participar também. Aparece lá!!! beaks, roda de capoeira e também com a participação das Mais informações: conpoema.blogspot.com.br ou bandas O Mandruvá e Audiozumb! (11) 4488-8524 Vale muito à pena, assim fica quase na faixa! A Quilombaque fica na Travessa Cambaratiba, 05, em ::. Lançamento do primeiro CD do grupo frente a estação de trem de Perus. Odisseia das Flores Depois de muita ralação em 5 anos de trabalho, as meniMais informações: (11)3917-3012 nas do Odisseia das Flores lançam seu primeiro album, entitulado “AS PALAVRAS VOAM”, e como voam! ::. Oficina de Produção Musical e Produção As vozes Odisseianas estão cada vez mais conhecidas, Cultural em Caieiras Durante os dias 25 e 28 de fevereiro, das 14 às 18h, elas estão ganhando acontece em Caieiras as oficinas de Produção Musical e de seu espaço, estão viProdução Cultural. Para participar basta fazer a inscrição vendo um momento por e-mail acdc.arte@gmail.com ou pelo telefone 95309muito importante e 3655. frutuoso de suas carreiras. Além do lanAs oficinas são GRATUITAS e são uma realização da çamento do CD, Associação Cultural de Caieiras e Associação de Mídia recentemente elas Comunitária de Caieiras, com apoio do Ponto de Culganharam o prêmio tura , da Secretaria de Estado da Cultura e do MinistéMundo da Rua de Meninas do Odisséia das Flores em rio da Cultura . .:: apresentação na Associação Cultural do Véio imagem: Roger Neves

::. Na Faixa

Confira as imagens do intercâmbio BRASIL ARGENTINA ESPANHA Y MÉXICO, com Sarau CONPOEMA, o Sarau da Cooperifa, monólogo de Geraldine Guerrero, apresentação do Ara Pyau e a oficina sobre o Teatro de La Escucha.

“O Carnaval mudou, os desfiles privilegiam o espetáculo visual em detrimento do samba, do ritmo e do povo cantando”

Paulinho da Viola


ilustração: Roger Neves

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DAS QU E BRADAS PARA O MU NDO

No fundo, coletânea de imagens da visita de nosso intercambio que buscou estabelecer trocas com algumas iniciativas culturais das periferias paulistanas

Por: Roger Neves

imagem: Fabia Pierangeli

Desde que aportaram em terras brasileiras (até antes), nos- Ainda que alguém possa pensar que lá a coisa é mais “sésas amigas Chusa Pérez e Geraldine Guerrero já começaram, ria”, que assim é que tá “certo”, que lá é “mais desenvolvisem saber, a mexer em nosso cotidiano e proporcionar refle- do”; prefiro pensar (ainda que me chamem de relativista) que xões que provavelmente de outro modo não teria sido possí- é apenas diferente e, nas sábias palavras da nossa querida vel. De questões triviais como "será que elas vão gostar de mentora Dra. Andréa Amorim: “ (…) acredito que esses mofeijoada?" até as mais complexas como entender o que apro- vimentos culturais no Brasil tem algo a ensinar à Europa nesxima o trabalho do Teatro de la Escucha e do Teatro Giran- se momento que eles estão passando”. Aqui a cultura é algo dolá; o repertório de reflexões, questionamentos, novas e vivo e do qual todas as pessoas merecidamente podem se variadas experiências é vasto. Certaapropriar. Mesmo sem perceberem, faz mente levaremos um bom tempo para parte do dia a dia e não tem centro, aconconseguir processar isso tudo em nossa tece aqui tanto quanto em outros estados. cabeça. Por outro lado, levar nossas É sempre bom estudar e conhecer mais amigas de além-mar para um tour pelas sobre algo que você gosta, mas hoje há o diferentes iniciativas culturais nas queentendimento de que o conhecimento bradas da Sul, Leste, Norte e Oeste de acadêmico e o fazer artístico-cultural são São Paulo foi uma experiência igualcoisas bem diferentes; de modo que o mente rica e importante. De vez em vendedor de tapioca faz tão boa poesia Bar do Zé Batidão lotado em dia de sarau. quando, é preciso algo assim para nós Iniciativa quanto o ilustrado professor e o marceda Cooperifa é exemplo, até lá fora. percebermos o quanto de coisas bacaneiro toca viola e rabeca como ninguém. nas e importantes temos aqui mesmo em nosso quintal e co- Nossos mestres não estão apenas nas universidades e, às vemo isso tudo que acontece atualmente no Brasil é único e zes, trombamos com eles na esquina. Graças a nossa história, inovador. Você não tinha se atinado para isso? Pois é, pra ser chegamos no ponto, hoje em dia, em que entendemos a culsincero, a gente também não. tura de uma maneira mais orgânica, humana até. E por nos os meios para conhecermos mais sobre isso, decidiEm um desses sábados de Janeiro (quase domingo), “des- negarem mos fazer do nosso jeito mesmo, sem nos preocupar com o montávamos” mais um delicioso e intenso sarau ConPoeMa, que os outros acham certo ou errado. Aqui, Arte e Cultura é repleto de participações emocionantes e significativas para de todo mundo que quiser tomar parte dela, cada qual do seu todos nós. E, como de costume, tivemos de tudo um pouco: jeito, com o melhor que cada um possa dar. poesias, reflexões, música, gente que se emocionou, diversão, idosos, jovens, crianças e adultos. Entre uma caixa e outra, E foi assim, com nossa história e com muito do que nos enquanto arrumava a mochila, perguntei a uma delas se havia empurraram, que criamos esse nosso jeito próprio de fazer gostado do sarau. Qual não foi a minha surpresa com a res- arte e cultura, um jeito coletivo que só se realiza com a partiposta: estava maravilhada e, segundo ela, algo assim é impen- cipação de todos e para todos. Onde importa mais o todo do sável na Espanha. Primeiro que lá, um sarau aconteceria que os nomes individuais, de modo que, em cada sarau realiapenas em um local muito reservado e quase escondido; se- zado na periferia é possível ouvir o eco vindo das senzalas, gundo que somente as pessoas que se “prepararam intensa- há centenas de anos; e mesmo em nosso gosto pelo chuchu e mente” se arriscariam a recitar ou tocar alguma coisa; e, por quiabo carregamos também gerações e gerações de nossos último, somente as pessoas com mais instrução, que domi- ancestrais anônimos na história oficial, mas que deram forma nassem essa ou aquela área (poesia, literatura, música, etc.) ao que chamamos hoje cultura brasileira. Nosso jeito de fazer, participariam. Fazer algo no improviso? Ler algum poema coloca as pessoas e suas histórias no centro do palco. E lempego de algum livro na hora? Trazer um poema de casa, feito brando do mestre Darcy Ribeiro, acredito que é justamente no mesmo dia? Ler algo escrito no momento mesmo em que com isso que o Brasil pode “ensinar” o mundo hoje em dia: acontece o sarau? Juntar três músicos de momento e se apre- esse jeito peculiar de se manifestar culturalmente, que na versentar? Nem pensar! Quem dirá pintar um quadro durante o dade é uma grande mistura, um caldo vindo da mistura de evento na frente de todos... Ao que entendi, um certo indivi- várias culturas, ao mesmo tempo ferramenta de mobilização, dualismo também atrapalharia: nunca que alguém da Espa- identidade, ação política, estética e que cresceu e se desenvolnha se arriscaria ou permitiria que entrasse no meio da veu longe das elites (culturais ou não) do país. O Brasil, denapresentação e acompanhasse na percussão sua performance, tre outras coisas, pode mostrar ao mundo como as muito menos as pessoas cantariam e bateriam palmas na mú- populações pobres também tem uma identidade cultural e sica que você está cantando. A participação do público se li- como são capazes de produzir seus próprios modos e meios mita a bater palmas, no final, se gostarem. de expressão.

Agora que manifestações pipocam mundo afora e as pessoas vão descobrindo que a parte mais importante de qualquer sistema ou estado são elas mesmas, agora que vão resolvendo tomar em suas próprias mãos e fazer do seu jeito, agora que ficou claro que é necessário um jeito diferente de se fazer as coisas; eles voltam seus olhos para nós aqui abaixo do equador. Afinal, o terceiro mundo todo é perito em se reinventar e inventar soluções para seus problemas e, generosos que somos, certamente contribuímos e contribuiremos para a construção de um mundo melhor. Mas a diferença agora é que não estamos exportando a morte, por conta da opressão econômica da qual somos vítima, nem ninguém está vindo nos tomar estas coisas; as enviamos de bom grado, afim de assim contribuirmos com nossa parte na construção de um mundo melhor e assim influenciá-la. Mas sem prepotência também. Como é nossa cara, com humildade, pois do mesmo modo temos muito a aprender. Porem, é muito bom saber que pessoas como Sérgio Vaz são convidadas para irem lá fora e contarem sua experiência, que o Grito Rock do Fora do Eixo agora é mundial e que as pessoas olham com interesse para o que se produz no Brasil. Nos enche de orgulho (e acredito que você também) saber que somos tidos como exemplo positivo de algo, nem melhor nem pior, diferente e que por isso mesmo tem a contribuir com outras experiências. Temos certeza que iniciativas como a Quilombaque, CICAS, a maravilhosa história dos Queixadas, o Sarau da Cooperifa, o Clariô, Pandora, Buraco D'Oráculo, MST, Teatro União e Olho Vivo, Escola Livre de Teatro, assim como a Comunidade Guarani M'Bya da Tekoa Pyau, dentre ouimagem: Luciene Costa tras, tem importantes e positivas lições para contribuir com o mundo, por isso mesmo nos orgulhamos muito de, ainda que minimamente, poder contribuir com Oficina com Chusa Pérez: intercambio possibilieste processo. tou diversas trocas entre os grupos daqui e de lá. É curioso como acaba sendo necessário que passemos por algumas situações ou que nos privem de algo para percebermos sua importância. Talvez por sermos nascidos e criados no meio disso, ou ainda que este processo se deu enquanto a gente crescia e tomava consciência, a gente acha tudo muito normal. Acabamos não percebendo como isso é raro e importante. No final das contas, ainda bem! Afinal não precisamos do outro jeito para nos tocarmos, né. .::

"Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval."

Vinícius de Moraes


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imagem: Fabia Pierangeli

imagem: Mari Moura

Visita à antiga fábrica de cimento em Perus. Intercâmbio pode Mari Moura mostrar um pouco das lutas e atuação de coletivos paulistas. O ano já começou agitado para o Teatro Giran- Também festejamos com elas, realizando o 4º Sadolá, que no final de janeiro e começo desse mês, re- rau CONPOEMA, evento que resultou em mais de cebeu duas ativistas culturais, Chusa Pérez, espanhola quatro horas de música, poesia, performances, desaque vive na Argentina e Geraldine Guerrero, mexi- bafos e até um leilão improvisado para a diversão de cana que mora da Espanha. Elas vieram para o Brasil todos; Conferimos a apresentação de Chusa Pérez, realizar um intercâmbio com o grupo e explicar atra- com o provocativo “Escribo sobre ti para vencerte”, vés de vivências e oficinas um pouco sobre o Teatro que trouxe um longo bate papo no Espaço Girandolá, de La Escucha, ferramenta criada por Moisés Mato, e com muitas inquietações e questionamentos; O Gique hoje é disseminada no centro de formação Sala randolá ministrou duas oficinas no seu espaço, uma de Metáforas, com sede em Madri, na Espanha. Conhe- Brinquedos Cantados, brincadeiras e danças tradiciocemos o Teatro de La Escucha através da nossa par- nais do nosso Brasil, como ciranda e cacuriá, e outra ceira Andréa Amorim, que é brasileira, mas que de socialização do processo de criação do espetáculo atualmente está estudando e vivendo na Espanha. “Ara Pyau – Liturgia para o povo invisível”, numa de intensas trocas e lembranças, contando um Nós, do Informativo Ôxe, estávamos juntos com o tarde pouco foi a pesquisa nas aldeias Tekoa Pyau e Girandolá para receber as estrangeiras e foi preciso Tekoa como Ytu , que no Jaraguá, local que os giranmuito fôlego para aproveitar tantos dias de atividades, dolescos visitaramficam semanalmente por oito meses; Vimas antes de começar com tudo, é sempre bom estar sitamos a galera do Grupo Clariô , na de barriga cheia, né?! Já no primeiro dia fizemos a fa- zona sul, e já demos um pulo no SaraudedaTeatro Cooperimosa feijoada para as gringas experimentarem, depois fa, que tem mais de 10 anos de existência e resistêndo rango com direito a todos os tradicionais acompa- cia na periferia de São Paulo; O Girandolá apresentou nhamentos, era hora de trabalhar, apresentamos pra “Ara Pyau – Liturgia para o povo invisível” em elas nossos trabalhos, mostrando alguns eventos que Franco da Rocha; E pra fechar a programação, Geralrealizamos e a importância de Ato em frente a estação de trens lembrou as dine Guerrero apresentou, com muita realizar atividades culturais mortes injustas e violentas no mundo todo. delicadeza, seu monólogo “Outro nessas terras, Chusa ministrou trabajo cliché sobre la violência en uma oficina sobre Teatro de La México”, falando da violência que Escucha, com muitos jogos e acontece em seu país e trazendo um reflexões, e aos poucos fomos longo debate sobre todos os tipos de descobrindo afinidades entre violência, no final da conversa, todos Brasil, Argentina, Espanha e os presentes foram para o centro de México. Francisco Morato, com papéis, giz de cera, flores e velas para um ato conVieram outros grupos participar desses momentos com a gente, integrantes tra a violência, que acontece de várias maneiras na redo Teatro em Carne & Osso e a Má Cia de Tea- gião que vivemos e em outros países, muitos curiosos tro, de Franco da Rocha, o Núcleo Água Fria, de que passavam também deixaram suas palavras na Cajamar, o Grupo Salada de Frutas, de Perus, e frente da estação de trem da cidade. da Cia Teatro da Investigação, de São Paulo, pu- Pra todos nós, esses dias de intercâmbio foi uma deram conhecer um pouco sobre a filosofia e práti- grande aprendizagem, pudemos conhecer duas muca utilizadas no Teatro de La Escucha. Nos outros lheres que vivem em países diferentes, com realidades dias, visitamos outros parceiros, fomos pra Perus vi- diferentes, mas com alguns desejos parecidos com os sitar o Sr. Sidnei Fernandes, que nos contou a his- nossos, foram momentos de compartilhamento que tória da “greve-guerra” de 1962, organizada por ficarão rondando as nossas mentes por um bom temtrabalhadores da Companhia Brasileira de Cimento po. A cada passo que damos nessa caminhada, vamos Portland Perus, demos um pulinho na Comunidade percebendo a importância dessas vivências, momentos Quilombaque para elas conhecerem e ainda em que não irão acontecer mais, mas que desejamos Perus, fomos assistir o ensaio aberto do novo espe- sempre tê-los, com diferentes pessoas de diferentes táculo do Grupo Pandora; Fomos no CICAS - lugares do mundo, já que agora podemos dizer que Centro Independente de Cultura Alternativa e somos internacionais, certo?! Brincadeiras a parte, esSocial, um projeto cultural realizado em um espaço peramos mais crescimento, conhecimento e que mais abandonado que a partir de março de 2007 foi ocu- novidades como essa apareçam nas páginas desse inpado para a realização de atividades culturais na zo- formativo, tão importante pra gente. Afinal de contas, na norte de São Paulo. tem até espanhol falando Ôxe! .::

"Do apartamento de Dora Ouve-se o ruído láfora Do carnavalque jávem. Osamba do morro desce Ea gente do morro esquece Do gosto que a vida tem."

Cruz e Sousa

Fol i a e m i séri a

imagem: stock.xchng - www.sxc.hu - ilustração: Roger Neves

D E R O LÊ C O M AS G R IN G AS N A QU E BRADA Por:

im agem : Laila Santana / Pref. de Olinda (via Agência Brasil)

Por: Dan ilo Góes

É Folia! É Alegria! É Carnaval. Lucro Privado com investimento Estatal. É Samba! É batuque! É Fantasia. Os gringos desfilando pela avenida. É comunidade! É povo! É festa popular. Trabalham o ano todo pra top model brilhar. É pacote CVC ! É Rio! Bahia! ÉÉ turismo turismo rio! ÉÉ Bahia! A maioria do povo pela tela assistindo. É curtição! É sexo! É bebedeira. Acidente de trânsito e violência de várias maneiras. É lentidão! É burocracia! É corrupção. Felicidade que não passa de ilusão. É marchinha! É hits! É o som do verão. Baboseira vira hino aclamado pela multidão. O povo sofre, mas se diverte. A burguesia não precisa temer nossa plebe. Temos fome e jamais teremos guerra, Pois nosso país mistura folia e miséria. .::


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J o yc e V i tó r i a

Herança

imagens: Jacques-Louis David (via Wikimedia)

Por: Remisson Aniceto

E eu morro a cada dia quando cada coisa morre. Outrora Deus me socorria; agora já não socorre...

Por: Messias Silva Com o filho e a nora vovó Janete dá carinhos e nina sua neta, Aos primos o pai a apresentar Larah Gabriele a encantar, Neste lar mais anjos à ela Luan, Pâm, Évelin, O grau de parentesco não termina amados por Leandrinho e Carolina, Meu sobrinho, mais pela vida, estudará um filósofo se tornará, Um professor de contação de histórias prometeu aos deuses e à Joyce Vitória... .::

Vai um pássaro, coitadinho, de hirtas e opacas asas. Vai com ele um bocadinho da minha alegria tão rasa. Vão-se o amigo, o cão, o gato, o boi, tudo vai nesta infalível jornada. Só fica a angústia do que foi na minha memória cansada. Até um jovem filho se vai sem mesmo saber pra onde, na vã liberdade que atrai e mil armadilhas esconde.

ima gem :

Wi kim edi a

Nenhuma alegria perdura e todo gozo é passageiro. Só de tristeza há fartura todo dia, o ano inteiro...

OFERECIMENTOS: DÉCIO, MÔNICA, ELI, TATI, LETICIA, DONA FRANCISCA, MARIA, LUIZ E JOSÉ

Quando eu me for [e será breve!] levarei comigo esta carga. Não quero que alguém herde tanta lembrança amarga. .::

imagens: William-Adolphe Bouguereau ilustração: Roger Neves

Leandro contou a história que foi à Vênus conceber Joyce Vitória, Com Caroline foi às estrelas convencer Afrodite para tê-la, Que no Universo constelações por Joyce entram em ação, O caminho de volta estrelaram a rota dos cometas desviaram, Joyce com anjinhos brincava com Caroline seu pai falava, Às vezes, à Joyce, fazia acenos ao falar na deusa Vênus, Prometeu cultuar seu glamour pelo presente da deusa do amor, Sobre Vênus Joyce também ouvia os anjinhos com Joyce ouviam, Passavam longe cometas e asteróides aos deuses do amor cumpriam ordens, Lá de Olimpo decolou Apolo à iluminar a Terra e seu solo, À mãe obedecia cegamente o Cupido, à ela, era temente, À todos Afrodite ao Cupido deixava por sua ordem ele ia e flechava, Aos enamorados emanava emoções certeiro em seus corações, Para Afrodite não há meandros a seta do Cupido acertou Leandro, Carol à carregar sua semente Joyce se alojou em sua mente, Vênus a deusa da fertilidade deu aos pais a responsabilidade, À deusa prometeram também cuidar de Joyce como ninguém, A chegada de Joyce com o sol surgindo na sua espera vem a todos sorrindo, Sua nova família a conhecer vovó Edna provedora do seu ser, Gabriel o tio menino curte a sobrinha com mimos,

9 Em 201 3 estamos novamente oferecendo o que há de melhor para você que deseja adquirir sua habilitação. Venha conhecer nossas instalações e conferir nossos preços!

Saiba: blogduoxe.blogspot.com Siga: @informativo_oxe Curta: Produtora Ôxe!


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::. BETTO SOUZA

im agem : stock. xchng - www. sxc. hu

AAQUECIMENTO QU ECIMEN TO GGLOBAL LO B A L Todos os dias somos bombardeados com um volume enorme de informações sobre o aquecimento global. Derretimento de geleiras e o consequente aumento dos níveis dos oceanos. Efeito estufa com secas de proporções bíblicas, mudanças climáticas nunca vistas onde mal sabemos em que estação estamos. Calor infernal no inverno e chuvas intensas quando não se espera. Enfim, vivemos tempos de mudança. Muito se atribui a ação do homem. Aparecemos como principal vilão de toda essa história. Com nossas fábricas, carros, aviões e navios. Com nossa agricultura, pecuária e enfim, com nosso modo de vida. Não pretendo iniciar uma discussão técnica sobre a causa do aquecimento do planeta, mas vale lembrar algumas opiniões divergentes. Com maior penetração na mídia temos o discurso catastrófico e apocalíptico daqueles que apontam o homem como o algoz do nosso planeta. Não há a possibilidade de citar nomes, esse artigo não comporta tanto, fica para registro o Greenpeace, histórico grupo de defesa do meio ambiente. Do outro lado, céticos como o professor de climatologia Ricardo Augusto Felício, da USP, que vem ganhando espaço na mídia dando como “mito” muitas das afirmações e previsões feitas por ecologistas. Aqui quero fazer uma observação: acompanhei por um período o emérito professor Aziz Ab'Saber, reconhecido mundialmente como um brilhante geógrafo e crítico voraz dos estudos divulgados pelo IPCC - Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. O professor Aziz

Por: Eduardo Nunes afirmava que tais estudos não observaram o Optimum Climático – período ocorrido há 5 ou 6 mil anos em que houve grande aquecimento do globo. Mas, como disse no início, não vou levantar uma discussão técnica sobre o tema. O objetivo é levantar um debate sobre o modo de vida que adotamos. Esse sim responsável pela agressão ao meio ambiente. Somos responsáveis sim, pela enorme quantidade de lixo acumulado nas ruas e cidades. Somos responsáveis sim, pelo consumo desmedido apenas pelo consumo. Somos responsáveis sim, pela cultura da quantidade em detrimento da qualidade. Observem que essas questões estão ligadas a cultura que fomos criados. As relações de poder são calcadas no consumo. No quanto você pode comprar. Não usamos mais a força física para caçar ou subjulgar. Usamos a força econômica para isso, com grandes índices de consumo de futilidades que nos projetam “poder”. Enfim, mito ou verdade as questões que nos afligem em relação ao meio ambiente estão relacionadas à educação. Discutir, entender, opinar e levar o tema a todos os meios é uma forma de chegarmos a um conceito comum. E não há dúvida que precisamos discutir sobre o tema. Sobre nosso futuro. .:: Eduardo Nunes (professor, músico, ambientalista atento às alterações e interações humanas).

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Oxe! - Fevereiro de 2013  

Nesta edição, uma reflexão sobre o fazer cultural nas periferias do Brasil e sua relação com os diversos movimentos no mundo, provocada pelo...

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