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Di stri bu i ção G ratu i ta - Ven d a proi bi d a

Ab ri l / 2 0 1 2

C o m p o r t a m e n to S o ci e d a d e Cu l tu ra

ANO III − Numero 35

5. 000 Exem pl ares

ilustração: Roger Neves // imagem: stock. xchng - www. sxc. hu

Fran ci sco Morato - São Pau l o Brasi l

dos juruá

ÍN DIO?

imagem: Mari Moura

REGISTRO Do mês da mulher e da água você pode curtir e rever aqui a feijoada e samba na Quilombaque, peça do Pandora no CEU Perus, Bate papo e Sarau da AECA em Franco, Girandolá recebe... Cia. Arthur-Arnaldo (foto) e Oficina de Artesanato no Espaço Girandolá

Preparem suas poesias, O CONCURSO ABRIU!

Pelo segundo ano consecutivo a Ôxe! Produtora Comunitária realiza o Concurso de Poesias que tem como patrono e homenageado o saudoso Profº. Aparecido Roberto Tonellotti. Confira o regulamento aí do outro lado.

Tumultuando mais ainda...

… no Drama Crônico, João Cabral confronta o pastor na praça; a fé de Danilo Góes e Silmara Cavalcante; a segunda parte da saga dos hermanos que vieram da Espanha e aportaram em Morato, a bronca de Eduardo Bartolomeu com a edição passada, mais cinco super dicas Na Faixa, quebraquebra, trens atrasados e a TPM do transporte público. Não perca o bonde nem o trem e confira agora! Realização:

Comemorando a feminilidade As reflexões de Marco Nogueira e Tião Simpatia (colaboração do Messias Silva) sobre o Dia da Mulher e a lei Maria da Penha (foto) na pág. 4.

Atenção Prefeito!

imagem: Elza Fiúza/ABr

ISSO NÓ ECXISTE!

Entre promessas não cumpridas e falta de respeito, segue correspondência especial de Ivanildo Cavalcante para nosso querido Prefeito, com o desabafo de um morador indignado com a política e os rumos de nosso município. Nós também, “queremo nosos dereitos”!


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O informativo Ôxe! é uma iniciativa da Ôxe! Produtora Comunitária que visa propiciar à população de Francisco Morato e região, um veículo de jornalismo cidadão e produção, difusão e divulgação de ideias e informações na área cultural. Todas as informações, ilustrações e imagens são de responsabilidade de seus respectivos autores e obedecem a licença Creative Commons 2.5 Brasil Atribuição-Uso Não-ComercialCompartilhamento pela mesma Licença (acesse o blog para maiores detalhes), salvo indicações do(a) autor(a) em contrário. Para ver uma cópia desta licença, visite http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.5/br/ ou envie uma carta para Creative Commons, 171 Second Street, Suite 300, San Francisco, California 94105, USA.

Be Linux, Be Free!

Na confecção deste material gráfico foram utilizados apenas softwares que atendem a licença GNU/GPL.

::. O que a gente usou nessa edição

Programas Ubuntu 10.10 (ubuntu.com) BrOffice.org 3.2.1 (broffice.org) Gimp 2.6.10 (gimp.org) Scribus 1.3.3.13 (scribus.net) InkScape 0.48 (inkscape.org) Mozilla Firefox 3.6.13 (br.mozdev.org) Banshee 1.8.0 (banshee-project.org)

REGULAMENTO 1. Dos Objetivos A Ôxe! Produtora Comunitária institui o II Concurso de Poesias “Professor Aparecido Roberto Tonellotti” com o objetivo de incentivar e divulgar novos talentos na arte da poesia, bem como mapear a produção poética em Francisco Morato e Região. 2. Das Participações Poderão concorrer autores brasileiros natos ou naturalizados, com obras obrigatoriamente inéditas (sem publicação), com temáticas e gênero livres, escritas em Língua Portuguesa, sob pseudônimo, desde que observem as particularidades de cada categoria. Fica vetada a participação de membros das Comissões Organizadora e Julgadora. 3. Das Categorias Infantil (até 12 anos de idade); Juvenil (de 13 a 18 anos de idade); Adulta (a partir de 19 anos). 4. Das Inscrições e Apresentação das Obras As inscrições encontram-se abertas no período de 26 de Março a 11 de Maio de 2012 (valendo a data da postagem ou entrega). Poderá ser inscrito apenas 01 (um) poema por autor. A obra deverá ser apresentada em 05 vias, digitadas ou datilografadas em uma só face do papel A4. As cinco vias da obra deverão ser inseridas

em envelope grande, informando externamente o nome do concurso, a categoria pretendida e o pseudônimo do autor. Dentro do mesmo deverá vir outro envelope, pequeno, contendo uma via do poema e a identificação do poeta (nome completo, pseudônimo utilizado, endereço, data de nascimento, telefone para contato e e-mail, se houver), conforme ficha de inscrição. O regulamento e ficha de inscrição serão disponibilizados no sítio: www.blogduoxe.blogspot.com. Endereçar para: II CONCURSO DE POESI-

AS “PROFESSOR APARECIDO ROBERTO TONELLOTTI/2011” – Ôxe Produtora Comunitária – Av. São Paulo nº 965 – Vila Suíça – Francisco Morato – SP – CEP 07904-000.

Também poderá ser entregue na Ôxe Produtora Comunitária – Av. São Paulo nº 965 – Vila Suíça – Francisco Morato – SP – CEP 07904000, até a data limite das inscrições. 5. Do julgamento e da Premiação Os trabalhos serão apreciados por uma Comissão Julgadora composta por cinco profissionais ligados à Língua Portuguesa e Literatura, e esta, terá plena autonomia de julgamento, não cabendo recurso às suas decisões. Será oferecida uma premiação com troféus e certificados de participação aos 3 (três) primeiros colocados de cada categoria. As escolas que tiverem algum aluno entre os

Por: Ivanildo Cavalcante Carta ao prefeito Excelentíssimo senhor prefeito “Zézinho Bressane” venho por apodrecer e se decompor por falta de médicos.

meio desta, falar-lhe algo que sempre tive vontade, mas como não sei se poderia me atender, e não sei como é sua agenda, e espero que seja cheia. Escrevo-lhe por meio desse jornal que até hoje tem dado espaço para a comunidade. ::. Colaboraram nesta edição: Não quero desperdiçar minhas palavras, quero aproveitar essa oportunidade e lhe faço um desabafo. Gostaria de deixar todas essas Eduardo Bartolomeu formalidades e falar-lhe não como uma pessoa que tem poder, mas (dubarto@yahoo.com.br) sim um representante do povo, povo que sofre com essas promessas, Danilo Góes pois estamos cansados de retóricas, promissão que com linguajar ul(surtopsicoticoo@hotmail.com) Ivanildo Cavalcante trarrefinado não só apenas mostra intelectualidade, mas também con(ss.cavalcante@yahoo.com.br) funde o povo, que pouco entende, portanto estamos fartos. Marco Nogueira Quem dera todas as palavras ditas por vocês políticos fossem real(marco-nogueira2012@bol.com.br) mente cumpridas, ou pelo menos, entendidas por esse povo que geMessias Silva por um terço dessas expressões. Quem dera nossa política não (messiasaparecido123@gmail.com) me fosse partidária e fosse realmente política de verdade, onde todo queSilmara Cavalcante rer fosse do povo, não de uma classe como é hoje. Quem dera os (silmara_a7x@hotmail.com) olhos não refletissem apenas cifrão. Quem dera os olhos fossem voltados para uma educação de verdade, onde o povo visse a carnificina A Equipe Ôxe! é: Fabia Pierangeli, George como é feita e a indignação viesse à tona e toda gota de sangue fosse de Paula, Gilberto Araújo, Mari Moura e vingada. Quem dera ver esse mesmo povo revoltado quebrando tuRoger Neves (digaoxe@gmail.com) do, arrancando orelhas desses políticos abutres e depois mandando eles se tratar no interior do Acre em um hospital do SUS, vendo-os

Saiba: blogduoxe.blogspot.com Siga: @informativo_oxe Curta: Produtora Ôxe!

classificados também receberão troféus e certificados de participação. 6. Das Comissões e Disposições Gerais A Comissão Julgadora poderá conceder Menção Honrosa para um ou mais trabalhos, se assim julgar necessário, que receberão certificados. Todos os participantes receberão certificado de participação digital via e-mail. Fica também a critério da Comissão Julgadora uma seleção de trabalhos que, juntamente dos premiados, serão publicados no Informativo Ôxe!. As premiações acontecerão no dia da solenidade comemorativa ao 3º aniversário do Informativo Ôxe!, no mês de junho de 2012 (em local, data e horário a serem posteriormente divulgados). Os resultados serão divulgados através do sítio: www.blogduoxe.blogspot.com, bem como, através do Informativo Õxe! em sua publicação impressa. Os trabalhos vencedores poderão ser declamados ou encenados, no todo ou em parte, na noite de premiação, por artista ou grupo teatral previamente contratado pela Ôxe! Produtora Comunitária. Os trabalhos inscritos não serão devolvidos, sendo incinerados 30 dias após a data da divulgação dos resultados. A inscrição implica automaticamente a aceitação das condições desse regulamento, bem como a autorização para a publicação das obras inscritas em quaisquer mídias que a comissão organizadora julgar conveniente. O não cumprimento de qualquer item do regulamento implicará na desclassificação automática das obras inscritas. Os casos omissos serão resolvidos pela Comissão Organizadora. .::

Excelentíssimo prefeito, quem dera o seu PT de hoje fosse o mesmo de outra hora que tinha um engajamento com o povo, era enraizado no sindicalismo por interesse do trabalhador. Acho que saúde, escola, moradia só vão existir verdadeiramente quando começarem a encontrar corpos enforcados no parque Vila Lobos com um colar escrito com o nosso português totalmente errado, mas certo de suas ideias “queremo nosos dereitos”, quando o canibalismo ao abastado for efetivado, quando a fome bater e o povo, como “ratos” famintos, começar a entrar pelas menores frestas e como uma praga detonarem tudo e a anarquia no pejorativo da palavra se implantar. Hoje eu rezo, oro para Deus e todos os orixás, para que um dia o povo venha se rebelar, virar a mesa. Um dia não ser preso e sim livre para viver e desfrutar de uma vida como ser humano de verdade. Pois hoje nós não somos, somos sim máquinas cada dia mais sugadas por sanguessugas com seus olhos só voltados para o cifrão. Sim excelentíssimo prefeito, essa é a palavra: morte a essa política!!! Atenciosamente, Ivanildo Cavalcante uma pobre vítima sedenta por isso.


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::. Na Faixa

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Por: Fabia Pierangeli indígenas brasileiros e a educação e preservação da identida- e se forem comprados antecipadamente custam R$ 8,00. de dentro da cultura Guarani. A atividade é LIVRE para to- Não fique de fora dessa! ::. Teatro Girandolá Recebe... Grupo Pandora de Teatro das as idades e GRATUITA. O Rei da Pizza fica na rua 21 de março, 49, no centro de Todo último final de semana do mês tem teatro de graça, Centro Cultural Newton Gomes de Sá fica na Av. Sete Francisco Morato. Tel: 4609-1492 no Centro Cultural Newton Gomes de Sá (Av. Sete de Se- deOSetembro, s/n°, Centro, Franco da Rocha. Outras informatembro, s/n°, Centro, Franco da Rocha), dentro do projeto ções: 4488-8524 ou www.teatrogirandola.com.br ::. Oficina de Leitura Dramática em Cajamar “Teatro Girandolá Recebe...”. Em abril, o grupo convidado é de Perus e traz o espetáculo “Canibais vegetarianos devoEsse projeto conta com o apoio do ProAC – Programa Estão abertas, até o dia 26 de abril, as inscrições para a ram planta carnívora”, que traz à tona uma série de questio- de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de oficina de leitura dramática que acontecerá na Biblioteca namentos acerca da sobrevivência no mundo capitalista. O São Paulo e da Prefeitura Municipal de Franco da Rocha. Pref. Juvenal Ferreira dos Santos, em Cajamar, ministrada espetáculo, do Grupo Pandora de Teatro é resultado de um por Elizabete Araújo, agente cultural especializanda em Liprojeto de pesquisa apoiado pelo ProAC – Programa de ::. Cia Quanta de Teatro e Banda Esttaca Zero no teratura e também atriz do Núcleo Teatral Água Fria. A Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura e será Rei da Pizza oficina é GRATUITA, terá quatro encontros e acontecerá apresentado nos dias 28 e 29 de abril às 20h. A ENTRAo mês de maio. Inscrições e informações: 4446No mês de abril o Rei da Pizza abre as portas para receber durante DA É FRANCA e os ingressos devem ser retirados no local, 5153 ou bibliotecadecajamar@gmail.com com 1h de antecedência. duas atrações culturais que prometem... Mais informações: 4488-8524, www.teatrogirandoNo dia 12 às 21h, a Cia Quanta Odisséia das Flores comemora 4 ::. 4 anos de Odisseia das Flores la.com.br ou grupopandora.blogspot.com de Teatro, grupo de Jundiaí, apre- anos na ACV em Franco Em comemoração aos 4 anos do grupo de rap Odiso espetáculo “Navalha na carseia das Flores, a Associação Cultural do Véio apreEsse projeto é uma iniciativa do Teatro Girandolá e conta senta , uma das obras mais encenadas senta mais uma edição do evento “A Cultura está nos com o apoio da Divisão de Cultura de Franco da Rocha. ne” do grande Plínio Marcos, com os atomorros”, que acontecerá no dia 15 de abril a partir das res Alyne Arins, Jefferson Primmo e 10h, na sede da Associação (Rua Escócia, 41, Vila Be::. (De) Bate Papo - “Serindígena na sociedade moEduardo Bartolomeu. Os ingressos já la, Franco da Rocha, SP). O evento começa com um derna” estão sendo vendidos no próprio local encontro de capoeira e a partir das 15h recebe A FaDesde outubro do ano passado o Teatro Girandolá desen- e custam R$10,00. Garanta já o seu, vel, Bananas Crew, Craly, Dê Loná, Dionatan e volve o projeto “Ara Pyau – contando histórias, trocando sa- são poucos lugares. Reservas: 7584Banda, Dj Clevinho, Israel Espiritual, Kuka D'Saberes” em parceria com as comunidades Guarani Mbya, 0963. Informações: www.ciaquanbre, Leandro Rasta, Mahins, Rapper Pirata e Tiago Tekoa Pyau e Tekoa Ytu, que ficam no bairro do Jaraguá. ta.blogspot.com imagem: Roger Neves Rás do Gueto. A Associação, mantida pelo Véio, é No dia 19 de abril às 19h30 acontece, no Centro Cultural uma espaço alternativo de cultura que oferece aulas de Já no dia 21, vai rolar a maior sonzeira. A partir das 22h capoeira Newton Gomes de Sá, a segunda ação do projeto aberta à coe sempre abre as portas para os artistas da nossa remunidade com um (De)Bate Papo com as lideranças da al- tem muito Rock and Roll com a Banda Esttaca Zero tocan- gião. Se você ainda não colou por lá, não perca essa oportunideia Tekoa Pyau, que abordarão a atual situação dos povos do Barão Vermelho. Os ingressos serão vendidos a R$ 10,00 dade. Muita coisa boa e gente interessante. GRATUITO! .::

Tem feijoada na Quilombaque (foto: divulgação), Canibais no CEU Perus, Bate papo e Sarau da AECA em Franco da Rocha, pra ilustrar o nosso Registro. Não perca tempo, confira as imagens!

"Antes de tudo, o índio precisa de terras. Índio é dono da terra. Então, o branco deve respeitar a terra do índio".

Mário Juruna


ÍNDIO?

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Liderança indígena faz manifestação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados em Brasília

imagem: JoséCruz/ABr

ta, fala tupi, vive da caça, do plantio e da pesca, acredita em Tupã, tem um filho curumim, anda pelado e pinta o corpo, não existe, é um esteriótipo. E pra continuarmos essa conversa e acabar de vez com esPor: Fabia Pierangeli se esteriótipo, apelo pro dicionário... Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, índio é: Elemento químico Quando eu era pequena, pensava que índio não existia, era metálico (símbolo In), de número atómico 49 = ÍNDIUM. E personagem do Folclore Brasileiro. Que até já tinha existido, indígena: 1. Que ou aquele que é natural da região em que mas como não existia mais, precisava ser homenageado no habita. = ABORÍGENE = AUTÓCTONE, NATIVO; 2. Que dia 19 de abril. E durante todo o período que frequentei a es- ou quem pertence a um povo que habitava originalmente cola, sempre que chegava o mês de abril lá vinham as ativida- um local ou uma região antes da chegada dos europeus = des pra homenagear o índio brasileiro: cocar de cartolina, ABORÍGENE; 3. Natural de um país ou localidade. desenho pra pintar de indiozinho pelado com pena na cabeça e folha de bananeira pra esconder as partes íntimas, dan- Portanto, a partir de agora, continuo esse texto me refeças com saia de papel crepom embaladas por música da rindo aos povos indígenas brasileiros. Segundo dados do Xuxa ou da Mara Maravilha, guache na cara e por aí vai... IBGE, atualmente existem em nosso país mais de 200 poTerminei o ensino médio em 1997 e dentro da escola, nunca vos indígenas, que falam mais de 180 línguas diferentes e ouvi uma palavra que desmistificasse esse meu pensamento. vivem de forma completamente diferente um do outro, espalhados por todo o Brasil. A maior concentração desses Alguns anos se passaram e quis o destino que eu me tornas- povos está nas regiões Norte e Nordeste, mas eles também se educadora. Já na universidade vi cair por terra inúmeras vivem nas outras regiões, em aldeias ou nas cidades. “verdades” que tinham me ensinado, dentre elas que o Brasil foi descoberto por acaso por Pedro Álvares Cabral, que pen- Por incrível que pareça, na cidade de São Paulo, grande censando ter chegado às Índias, chamou as pessoas que aqui vivi- tro econômico do nosso país, existem 3 terras indígenas e uma am de índios. E não é que até hoje nossas crianças continuam delas fica no bairro do Jaraguá, há menos de 30 km de Francisaprendendo a História do Brasil assim? Não, o Brasil não foi co Morato. Uma comunidade Guarani Mbya, com cerca de descoberto, ele foi invadido, colonizado. Os povos que aqui vi- 600 pessoas, que resiste, com seus cultos e tradições em frente viam foram violentamente subjugados e essa simples inversão ao Parque Estadual do Jaraguá. Quem passa em frente às aldeide fatos se reflete numa série de equívocos e preconceitos as Tekoa Pyau e Tekoa Ytu, dificilmente se dá conta de que ali que até hoje, 512 anos depois, ainda assolam os povos indíge- se vive de um jeito diferente. A primeira vista é só mais uma conas brasileiros. Dizer que o Brasil foi descoberto, absolve e en- munidade pobre, amontoada dentro de uma pequena área com grandece seu descobridor. Joga pra debaixo do tapete toda a quase nenhuma infraestrutura, casas feitas com restos de madeiviolência com que nos saquearam. Nossos colonizadores nos ra, banheiros coletivos, com suas crianças e cachorros a brincar na beira da Estrada Turística do Jaraguá. Porém, aqueles que se roubaram, materialmente e espiritualmente. permitirem enxergar para além das aparências e adentrar os muAntes dos portugueses chegarem por aqui, essas terras, ros daquela comunidade, deixando pra fora tudo o que “aprensobre as quais vivemos hoje e que faz parte dessa nação deu” até ali, pode se deparar com deliciosas descobertas. chamada Brasil, era habitada por diversos povos nativos. Portugal nos “descobriu” e se sentiu no direito de explorar Em outubro de 2011, pisei pela primeira vez na terra vertodas as riquezas que por aqui existiam, nos roubaram tudo melha e sagrada que abriga aquele povo. De lá pra cá, toda o que podiam, inclusive o direito de termos uma cultura mi- vez que vou lá, aproximadamente uma vez por semana, por conta do projeto “Ara Pyau – contando histórias, trocando lenar e de trilharmos nosso próprio caminho. saberes”, do Teatro Girandolá e do qual faço parte; sintoSou brasileira e como tal, sei que meu sangue é uma mistura me presenteada por “Nhanderu Papa Tenonde” (Deus Pai de muitos sangues, sei que além do negro e do branco, minha Primeiro, dos Guarani). Para aqueles que sempre reproduziárvore genealógica também traz em seus troncos a ascendên- ram a frase “Os índios de hoje em dia já estão todos acultucia indígena. Sinto muito por ter demorado tanto a descobrir is- rados”, se referindo aos povos indígenas brasileiros, não so. Sinto por ter acreditado por tanto tempo nas mentiras que fazem ideia da grande besteira que estão dizendo. insistem em nos ensinar nos livros didáticos, nos programas de TV, nas escolas, nas igrejas... Sinto muito por ter demorado Sim, a maioria deles se veste como “Juruá” (não indígena), compra comida no supermercado, possui celular, câmetanto a entender que Índio Brasileiro realmente não existe! ra fotográfica, filmadora, TV, computador, navega na Sim, aquele índio que mora numa oca no meio da flores- internet, tem perfil no facebook, fala português com certa

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facilidade, pega trem, ônibus e é bombardeada o tempo todo pelas mesmas bombas do sistema capitalista que atingem todos os seres humanos desse planeta, mas a despeito de tudo isso, a forma como lida com todas essas coisas, difere muito da forma como nós, “juruás”, lidamos. As aldeias, Tekoa Pyau e Tekoa Ytu, além de preservarem a língua e os rituais Guaranis, passados de geração em geração há séculos (e esse talvez seja o traço mais forte e marcante dessa comunidade), também encaram sua passagem por esse mundo de uma maneira bastante distinta da nossa. O povo Guarani é um povo muito espiritualizado e celebrativo, que canta e dança pra reverenciar seus ancestrais, pra espantar os maus espíritos e atrair os bons, pra conversar com Nhanderu, pra agradecer pelo pão de cada dia. Eles tem um “Xeramoi”, o grande avô, líder espiritual e a essência da aldeia, que nós conhecemos como pajé. Gostam da chuva, prezam pela vida em comunidade, pela sabedoria dos mais velhos, pela autonomia do outro, inclusive das crianças. Eles acreditam e buscam a “Terra sem males”. Eles acreditam que devem devolver pra natureza, tudo o que dela consomem, entendem que tudo está ligado e que tudo o que é vivo, faz parte de uma mesma família. O sol, a água, a terra, os animais, as estrelas, as árvores, o fogo e os homens, são todos parentes. Eles acreditam que a educação se dá por meio da observação e da vivência, que o ser humano aprende a medida que vê o outro fazendo e se arrisca a fazer também, através da tentativa, erro e acerto, cada um a seu tempo. (Qualquer semelhança com o filme Avatar, não deve ser mera coincidência). Entrar numa “Tekoa” (aldeia), é adentrar um templo sagrado. Lá, o tempo é outro, bem diferente desse nosso tempo louco e corrido. Lá, existe espaço para a contemplação e celebração da vida, para o cultivo do sagrado, para a reflexão acerca da história brasileira e da formação de seu povo, para o exercício da identidade indígena, a despeito de toda a discriminação que esses povos enfrentam, diariamente e historicamente. Os povos indígenas brasileiros existem sim e são seres humanos, de carne e osso, como eu, você e seu vizinho. Eles não são meras ilustrações dos livros didáticos ou simples personagens dos romances brasileiros. Eles são nossos irmãos, brasileiros e guardadores do que existe de mais ancestral na nossa cultura, fazem parte dos povos originários da nossa nação e estão simplesmente esquecidos. Eles já não tem mais espaço pra plantar, já não tem mais autorização pra caçar e precisam brigar judicialmente pra terem direito a um pedaço de terra. As demarcações de Terras Indígenas levam anos para serem legalizadas e muitas vezes, depois de serem demarcadas e reconhecidas, tornam-se alvo da ganância de latifundiários que coíbem violentamente essas comunidades e tornam-se autores de assassinatos bárbaros, que raramente são punidos. Hoje, eles não tem direito a sequer um pedaço de terra onde, há muito tempo atrás, era tudo deles. Então, neste próximo 19 de abril, não vamos comemorar o Dia do Índio, que nem sequer existe; mas antes refletir de modo muito verdadeiro e honesto sobre a importância e o legado de todos os povos originários do Brasil e que, além de tudo, deram nome a muitas coisas em nossa sociedade: de ruas e coisas a bairros e cidades. E, principalmente, você que, por algum motivo, vá preparar alguma comemoração, homenagem ou algo que o valha, fica o aviso: Cuidado para, mesmo com a melhor das intenções, não disseminar uma visão estereotipada e preconceituosa a respeito desses povos, desvalorizando uma cultura extremamente rica e diversificada. Quem sabe assim, como foi há muito tempo atrás possamos, de fato, dizer que todo dia é dia dos povos indígenas; os mais antigos e originais brasileiros.


Da Espanha para a FazendpaartBe 2 el'em Por: George de Paula

imagem: Acervo pessoal D. Dirce Grandizoli

Naquele tempo todo-mundo se conhecia... To- dia marcar, porque todo-mundo se conhecia... do velho era pai de todo-mundo, se a gente tives- Mas pra fazê compra, mesmo, era só Franco ou se fazendo arte, eles corrigiam como pai... E nós Jundiaí... daí tinha o Seo Vicente que tinha uma respeitávamos como tal. Tinha o Seo Benedito... carrocinha, que fazia os carreto, a gente pagava Eu gostava muito dele... O Seo Muniz... Se ele pra ele... quando a compra chegava na estação visse a luz da minha casa acesa, ele sabia que ela já sabia, já pegava e trazia. Os trens tinha eu ainda não tinha chegado... Ele Naquela época... A jovem Dona Sibelis, um vagão só pra mandar mercauma das entrevistadas ia até a estação e me esperava. doria, na estação tinha um salão grande que era o Armazém, daí Dona Dirce, com zelo no narrar, as compras chegavam, ia pra lá seu jeito manso... Chegou a afire cada um pegava a sua. Ah! Timar que os velhos tempos é que nha também um vagão especial são os bons, sua irmã: Dona Nair, que levava os defuntos, porque o tímida, mal dizia, só um sorriso cimitério mais próximo era o de lhe escapava vez por outra. Franco da Rocha, né. Chegava lá ainda tinha que caregá na Primeiro nós moramos naquela mão até o cimitério... Nossa Vocolônia, no Alegria depois nós vó faleceu aqui e foi sepultada descemos pr’aqui pra perto da liem Franco. nha, e era mesmo um concentrado de espanhóis, por isso que Do poema “A arte de ser fehoje se chama Vila Espanhola. liz”, de Cecília Meireles: Houve Depois da Vila Espanhola, nós um tempo em que minha janela viemos morar aqui na Gerônimo Caetano Gar- se abria/ sobre uma cidade que parecia ser feita cia... Estavam loteando esta área, meu pai com- de giz./ .../ Ás vezes, um galo canta. Às vezes, prô este terreno e... Só que naquela época não um avião passa./ Tudo está certo, no seu lugar, tinha comércio nenhum, nenhum, nenhum e hoje cumprindo o seu destino./ E eu me sinto comsó sobrou esta casa que não é comércio. pletamente feliz./ Mas, quando falo dessas peA cidade se desenvolve sem nem ter para quenas felicidades certas, / que estão diante de onde crescer, pois seu centro nada mais é do cada janela, uns dizem que essas coisas não que um imenso vale. Hoje nossa principal ati- existem, /outros que só existem diante das mividade econômica, como da maioria das cida- nhas janelas, e outros, / finalmente, que é preciso des suburbanas, é o comércio, mas nem aprender a olhar, para poder vê-las assim.

sempre foi assim...

Antigamente, se a gente quisesse fazê compra tinha que ir pra Franco ou pra Jundiaí... Tinha o Seo Manuel Felix, a Dona Isaura, mas era aquela coisica de nada, era uma vendinha... Po-

Entrevistadas: Sibelis Grandizoli Matias, Dirce Grandizoli Matias, Nair Grandizoli Munhoz e Vilma Carmen Lipiañes.

TENHO FÉ

imagem: stock. xchng - www. sxc. hu

::. Nossa Prosa... Nossa História

4 imagem: Acervo pessoal D. Vicentina

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Por: Danilo Góes e Silmara Calvacante O pôr do Sol já se aproxima, que sensação estranha, o medo me consume. Não me sinto bem, parece que estou em outra órbita. Que vontade de estar em outro lugar, bem longe, mas bem longe mesmo. Sinto-me no corredor da morte, quando o sol cai é o momento de ir para cadeira elétrica. Me sinto em apuros, sozinho... para onde ir, as horas na rua voam... não senti fome, por horas minha mente ficou tranquila. Mas no horizonte o sol está se pondo, um silêncio, mas sinto na alma o sinal gritando dizendo que tenho que voltar para masmorra do castelo. Porém ainda tenho um punhado de esperança, alguns minutos ou horas. Observo e penso em que casa eu posso passar esse momento de tranquilidade. Um vizinho, um familiar, algum lugar que me traga paz. Encontrei a calma jogando Playstation com o vizinho, sonho como uma criança... Eu sou uma criança, mesmo as feridas na pele e na mente agindo como ação envelhecedora na minha personalidade, ainda sou uma criança. Tenho sonho, tenho um desejo, de um dia encontrar o caminho, que eu possa seguir sem me preocupar com o anoitecer, que os domingos não sejam facas que penetrem minha alma. Pois vivo uma guerra não declarada, um lugar tão íntimo transformado no Iraque. Não tem ajuda Humanitária, ONU, UNICEF, CRIANÇA ESPERANÇA, nem Maria da Penha... Preciso de um direcionamento de um guia que me leve a um lugar passivo, que eu não me sinta estranho no próprio ninho, que afaste as maldades da minha mente, onde eu possa ter o amor e carinho. Vou continuar a procura, pois são poucas as minhas escolhas, tenho que correr, ou você mata o mal ou ele mata você. Eu sei que o ódio não me faz bem, mas ele que me mantém vivo, mesmo se as pessoas encararem isso como loucura, é ele que me faz subir no ringue, é ele que me dá força para voltar para casa, após a vizinha dizer que “está tarde”. É ele que faz com que eu não deixe minha mãe sozinha. Ele é a motriz da minha resistência. Confesso que vivo em conflito interno, sei que é errado, mas embaixo do cobertor rezo para que o tirano seja deposto do poder, que tenha a sua cabeça na guilhotina. Luto para que esse sentimento não mude o meu ser, serei eu mesmo sempre, não poderão dizer que quem lutar contra a opressão com todas as suas forças tenha a mesma brutalidade do opressor, isso é autodefesa. Lutarei e vencerei meus inimigos, externos ou internos, porque tenho fé, a única coisa que me sobrou. Estou perdido no deserto, descrente, preciso de alguém, na madrugada fria não tenho ninguém e o que sobrou para mim, me sinto Jerusalém no meio do conflito e minha mãe é a Palestina. Pergunto onde está Deus, tem vezes que o xingo, mas se estou aqui protegendo minha mãe e por que Deus sempre está comigo. .::

Saiba: blogduoxe.blogspot.com Siga: @informativo_oxe Curta: Produtora Ôxe!

"O que é o homem sem os animais? Se todos se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais também afeta o homem. Tudo está relacionado entre si."

Chefe Sealth


Por: Marco Nogueira

ra isso e as mulheres esperam meses por um exame, nesse dia muitas se submeteram a um exame numa base móvel no meio da rua! Será que foi diagnosticado nesses exames algum problema que precisasse de maiores cuidados? Se foi, senhoras de Morato, procurem dar seguimento ao tratamento e tentem não se decepcionar; e tomara que consigam antes do próximo 8 de março. E deixo aqui mais um alerta às queridas e guerreiras mulheres moratenses: fiquem atentas à candidatozinhos que nunca se manifestaram em favor de vocês; o ano passado, o retrasado, todo ano, o dia 8 de março passa batido, mas em ano de eleição, colocam uma faixa bem grande em frente de seu comércio com os dizeres: "ESSE COMÉRCIO PARABENIZA TODAS AS MULHERES PELO SEU DIA". Ridículo! Sabe por quê? No próximo ano, ganhando ou não a eleição, essa faixa com certeza não vai estar lá, porque nunca esteve nos anos anteriores, e se por acaso ganhar, vai cuidar muito bem da saúde das mulheres sim, mas as da casa dele! O caroço do seio da Dona Maria, não vai ser problema seu, à essas alturas ela estará assistindo à tudo isso de um segundo plano, infelizmente. Portanto, candidatozinhos, esses "PARABÉNS" vindo de vocês é uma ofensa! .::

(Parte 1 )

Está em pleno vigor não veio para prender homem mas para punir agressor pois em “mulher não se bate nem mesmo com uma flor”. A violência doméstica tem sido grande vilã por ser contra a violência desta lei me tornei fã para que a mulher de hoje não seja vítima amanhã. Toda mulher tem direito a viver sem violência é verdade, tá na lei que tem muita eficiência pra punir o agressor e à vítima, dar assistência. Tá no artigo primeiro que a lei visa coibir a violência doméstica como também, prevenir com medidas protetivas e ao agressor, punir. Já o artigo segundo desta lei especial independente de classe nível educacional

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Por: Messias Silva

Autoria: Tião Simpatia

de raça, de etnia; opção sexual...

De cultura e de idade de renda e religião todas gozam dos direitos sim, todas! sem exceção que estão assegurados pela constituição. E que direitos são esses? eis aqui a relação: à vida, à segurança também à alimentação à cultura e à justiça à saúde e educação. Além da cidadania também à dignidade ainda tem moradia e o direito à liberdade só tem direitos nos “as” e nos “os”, não tem novidade? Tem direito ao esporte ao trabalho e ao lazer e o acesso à política pro Brasil desenvolver e tantos outros direitos que não dá tempo dizer.

OFERECIMENTOS: Fábia, Mari, Roseli e Meire (Teatro Girandolá); Raquel, Samantha, Juliana Balduino, Juliana Queiróz, Sirlene, Soraia, Carolzinha, Tata, Luciane Mattos e outras (Coletivo Cultural Esperança Garcia); delegada titular Dra. Marilda de Jesus Reis Romani e equipe (Delegacia de Defesa da Mulher de F. Morato), delegada titular Dra. Marli Mauricio Tavares e equipe (9ª Delegacia de Defesa da Mulher); para as mulheres da cidade natal do Tião Simpatia - Ceará Fortaleza e em memória às mais de 130 mulheres que morreram queimadas numa fábrica têxtil em 08/03/1857 em Nova York data escolhida como dia internacional da mulher.

Ilustração: Roger Neves - imagens: stock.xchng

Dessa vez deixo um pouco de lado a história do nosso candidato do bilhete roubado, para lembrar que comemoramos no mês passado o dia internacional da mulher, aliás, muito merecido; foram muitas as homenagens prestadas, por vários órgãos de nosso município, muitos discursaram, falou-se muito sobre a saúde da mulher; aí lembrei-me da Dona Maria...outro dia eu a ouvi queixar-se que está com um caroço no seio e que sente dores, também ouvi quando alguém querendo ajudar disse a ela que temos aqui em nossa cidade a casa de saúde da mulher; e é claro, Dona Maria apavorada como estava moveu céus e terra para conseguir uma consulta; ao sair de lá com um pedido de mamografia nas mãos e uma suspeita de câncer, tentou marcar o exame, mas o que ouviu é que iria ficar na fila de espera para conseguir uma vaga. Será que a Dona Maria estava lá na praça do CIC no dia 8 de março? Porque lá tinha manicure, corte de cabelo , maquiagem, muito blá blá blá e etc... Já nem chamo isso de tampar o sol com a peneira, chego até mesmo ao extremo de dizer que estão maquiando defunto, porque é isso que estão fazendo com nossas mulheres. Fazer unhas, cortar cabelo, se maquiar de graça um dia no ano, enquanto um problema tão mais complexo se arrasta o ano todo? Ah! Teve também exame ginecológico, que despropósito! Quando temos lugar próprio pa-

A Lei Maria da Penha

Abril / 201 2

ilustração: Roger Neves // imagem: Elza Fiúza/ABr

Vi n do d e vocês é u m a o fen s a !

Ilustração: Mari Moura - imagens: stock.xchng

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Sra. Maria da Penha que deu o nome a lei brasileira que combate a violência contra a mulher


Abril / 201 2

imagem: Roger Neves

Resposta Crônica * Por:

Dram a Crôn i co O q u oti d i an o d u m su bu rban o Por: Olavo Passos*

Na praça. . .

cidade há uma prapraça há um Emça.coretominhaEmcomminha um característi-

co odor de urina. Eu estava lá – Entre Sertões e Sevilhas –, acompanhado de João Cabral de Melo Neto, que me declamava suas aventuras. Após a chegada em Catalunha, nos apareceu um varão: encardido – de pele e colarinho –, vestia um paletó azul marinho e, até o umbigo, uma gravata lhe escorria. Este falava da vida de Jesus de Nazaré – tornaram-no, em minha opinião, tal como o computador e da televisão, um meio eficacíssimo de anestesia às massas. – Que ele morreu na cruz e nos lavou com seu sangue, irmãos! Se sacrificou para que a gente alcançássemos o Reino do Céus... De concordância ele não era tão bom... Porém, de eloquência, era fenomenal! E gritava, gesticulava, batia as palmas e dava saltos... Preparação corporal digna dum atleta! Eu e João assistíamos ao show. – A Terra está imundada – com licença poética, tínhamos conosco um neologista! – de pecado... “João, quanto quer valer que daqui há poucas frases mencionará o Cão?”

– Pois o Satanás... “Ah! Você paga o café!”. Esses pregadores urbanos devem sentir prazer ao pronunciar este nome e suas derivações... Ou o próprio dito-cujo lhes dá uma ajuda de custo pela divulgação. Enquanto ele não nos percebia, tudo ia bem, mas João não conteve seu riso... E o varão nos avistou... – Irmão! Você crê que há um Deus e que ele ama a sua alma? “Que falta de respeito, não é João? Essezinho te ignorou completamente!”. Ele continuou: – Você quer sair desta vida de pecados, meu filho? Quer largar esta vida mundana e obscura deste mundo de ilusão? Segure na mão do criador e seja um servo temente. Venha para luz e aceite a Jesus como seu salvador! – seus olhos se espremiam e reviravam, seu corpo fremia como se uma overdose tivesse – Aceite a Jesus como seu salvador, meu filho! Aceite! Aceite! De repente, meu diálogo com João Cabral tornou-se impossível. Foi quando decidi. “S’embora, João! Prosearmos noutra freguesia!”. .::

* - Olavo Passos é um personagem do Drama Crônico, criado por George de Paula

::. Rapidinha

Morato virou astro da Rede Globo?

É o que parece... Só em março foram 2 aparições. No começo do mês o terminal interminável, definitivo mas inacabado, como nosso excelentíssimo prefeito disse ao prometer no SPTV, há um mês: bancos, bebedouros e banheiros... Mas, passado esse um mês, não se vê nada de nada. Quer sentar? Que sente no chão. Tá com sede? Que compre uma garrafa d'água e se, imagem: Mari Moura por azar, alguma necessidade Quem não tem banco... caça com fisiológica gato mesmo. apertar, que Usuário improvisa o indivíduo sobre proteção de cavalete use a moita! Já no dia 29 foi notícia do SPTV e do Jornal Nacional, após o quebra-quebra em resposta ao descaso com que a CPTM trata seus usuários. Pra saber mais acesse: blogduoxe.blogspot.com

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Eduardo Bartolomeu Olá amigos do Ôxe! Como estão? Primeiramente quero parabenizá-los pela persistência na divulgação de arte e cultura num lugar como Francisco Morato. É algo realmente louvável e quase impossível... Quase... Depois, gostaria de dizer que procuro lê-los sempre quando posso... Tive a oportunidade de ler parte da última edição e confesso, a infelicidade de me deparar com um texto sucintamente irresponsável chamado “O movimento feminista, o pior erro das mulheres”. Irresponsável talvez seja a melhor palavra para demonstrar meu sentimento em relação ao escrito. Desde o título... Deixo claro que não estou aqui me colocando a favor nem contra movimento A ou B, mas fazer um paralelo com um movimento importante, marco histórico da humanidade, com um tititi de mulheres num trem, é algo inominável. No lugar de uma reflexão ampla sobre o assunto, sobre as dificuldade de ser mulher num tempo como este, somos presenteados com um resumo vulgar, uma comparação pífia, um desmerecimento do que é ser mulher... Tudo para narrar uma novela de banco de trem, que fala de vaidades e não toca em nada além disto... e para falar a verdade, estamos um tanto fartos dos lenga-lengas das novelas, não é!? Fico pensando no que leva alguém a descontextualizar um movimento histórico desta forma e traçar este paralelo, como se a condição da mulher (grave ainda em nossos tempos) se resumisse a uma trivialidade desta. Será que a pessoa que escreveu este texto tem a dimensão do quanto, ainda que com os movimentos, as lutas, as tentativas antigas e atuais, a mulher (e tudo que foge da heteronormatividade) continua vítima de um machismo falido, mal resolvido, truncado, truculento, bárbaro? Penso que não, pois caso tivesse, teria maior cuidado e ética ao tratar de um tema tão complexo... Destas pequenas polêmicas banais, nossos olhos e ouvidos estão cansados. As vemos estampadas diariamente em jornais sangrentos. Porém, para além disto, há um conjunto de realidades que precisam ser consideradas quando escrevemos sobre algo. De outra forma, recairíamos neste jornalismo preguiçoso, tendencioso e polemista de sempre. Que o jornalismo seja um exercício de ousadia, inteligência, de cuidado estético... para além das reclamações nossas de cada dia. Não sei se o Ôxe! exerce algum tipo de triagem do material que publica e como o faz. Mas, com a verba pública investida na realização do projeto, penso que ele torna-se cada vez mais acessível, o que chama a população a refletir sobre seu conteúdo e até mesmo criticá-lo, como é o caso. Vejo isto como algo bom, saudável. Meu abraço a toda a equipe. * - E-mail enviado em resposta ao texto da coluna "Drama Crônico - O quotidiano dum suburbano" da edição de Março de 2012 do Informativo Ôxe!



Oxe! - Abril de 2012