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O DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ

CULTURA

Sábado, 01 de fevereiro de 2014

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De Passagem Tamarindo

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Sérgio Tavares

y sergiotavares.cavala@gmail.com

A minha avó foi a primeira vez em que morri. De alguma forma, uma parte de mim ainda corre ao redor daquela árvore, prova os frutos

uando eu nasci, minha avó já estava doente. A pneumonia lhe congestionava as vias aéreas, tornando a respiração um flautear virulento e agonizante. Seu nome era Pina. Na verdade, não era. Pina era o apelido pelo qual eu a chamava, pelo qual a chamavam para mim. Ela tinha um nome melodioso, que nunca me foi revelado até o fim da infância. Tampouco me explicavam por que ela quase nunca comparecia às minhas festinhas de aniversário. Tenho uma única foto com ela. Minha avó sentada, cavando um sorriso na fundura do semblante extenuado, comigo rente à cadeira, trajando uma camisa mostarda um número acima do manequim. Ela parece querer me abraçar, não tem êxito. Passei anos analisando essa foto. Hoje não consigo mais. É como se, no curso do tempo, o recorte da sua figura tivesse esmaecido na frente do plano ao redor. A casa da minha avó era o hospital. Era para lá que meu pai me levava todos os sábados, à tarde. A sova de tosses a dobrara tantas vezes, que ela se

imobilizou um ser horizontal. Passava os dias deitada, a face vestida por uma concha de plástico ligada à máquina de soprar oxigênio. Poucos minutos antes das quatro horas, meu pai me dirigia pela mão dois lances de escada acima, depois por um corredor nu percorrido até a soleira de uma das portas vicinais. Dali, ele me indicava a minha avó num dos leitos mais afastados, cingida por familiares. Era uma enfermaria coletiva. Pessoas levavam frutas, biscoitos, sucos, sanduíches e peças de tecido. Um tipo de piquenique sem ar. Me lembro da presença de um televisor em preto e branco. Ocorria uma transmissão ruim d’Os Goonies. Na antecedência da visita, sempre ficava brincando com minha prima Tatiana no pátio de entrada do hospital. Ali havia um jardim arruinado, de onde se elevava um frondoso tamarindeiro. A atividade predileta era correr ao redor da árvore, em seguida se acomodar sobre a raizama exposta e provar os frutos caídos sob a copa. Durante alguns anos, as tardes de sábado se resumiam a cor-

rer à larga e chupar sementes de tamarindo. Então numa manhã sem sol, meu pai estava na varanda de casa, quando avistou meu tio e um cunhado despontarem na dobra da rua. Não sei, talvez pelo modo de caminhar do irmão, talvez pela inclinação da postura, ele já sabia o que tinha acontecido. Naquele fim de ano, desvalido de maternidade, vi meu pai chorar mais menino que eu. A minha avó foi a primeira vez em que morri. De alguma forma, uma parte de mim ainda corre ao redor daquela árvore, prova os frutos. O tamarindo tem um sabor invulgar, que provoca uma contaminação inolvidável. A doçura do nome da minha avó não merecia me deixar esse gosto acre na boca, quando encaro a fotografia esperando que, com um fino de força, ela complete o abraço. Nunca consegue. Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Queda da Própria Altura” e “Cavala”, com o qual conquistou o Prêmio Sesc Nacional de Literatura – Categoria Contos

CINEMA

Chileno abre Outro Olhar O “Glória”, do chileno Sebasião Lelio, faz homenagem à mulher; obra reabre mostra Um Outro Olhar O Paulina Garcia leva o prêmio de melhor atriz, vencendo Juliete Binoche, entre outros pesos-pesados

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Paulo Campagnolo Especial para O Diário

O Projeto Um Outro Olhar inicia hoje o ano de 2014 com um filme que é uma grande homenagem às mulheres – mesmo porque não tem jeito, como bem disse Truffaut, “o cinema é mulher”. Dirigido pelo chileno Sebastián Lelio, “Glória” fez sua estreia mundial ano passado, no Festival de Berlim, onde estava na competição oficial. Foi ovacionado logo após a sua primeira sessão e a atriz Paulina Garcia, que vive a protagonista, foi aplaudida de pé durante a entrevista coletiva que se seguiu. E não era pra menos: Paulina é a alma, o corpo, a força motriz do filme. Saiu da capital alemã com o Urso de Prata de Melhor Atriz, desbancando, entre outras, a maravilhosa Juliette Binoche. Paulina é um achado excepcional, uma força e uma in-

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DE GRAÇA

“Gloria” Chile/Espanha/2013 – 112min. Direção: Sebastián Lelio Elenco: Paulina Garcia, Sergio Hernandéz, Diego Fontecilla e Fabiola Zamora Quando: hoje Onde: Auditório Hélio Moreira Horário: 20 horas Patrocínio: Sociedade Médica e Cocamar Classificação 16 anos Entrada franca

tegridade que fazem da arte de representar algo absolutamente poderoso. Paulina vive Gloria, uma mulher de 58 anos, divorciada há treze e mãe de dois filhos adultos. Ela vive sozinha no seu apartamento e frequenta esses bailes de solteiros atrás de alguém para dividir afeto e sexo. Nem bonita, nem feia, e com um visual anos 80 (que lembra Dustin Hoffman travestido em “Tootsie”), Gloria contagia a todos com seu sorriso e um certo joi de vivre que, no mais, parece esconder a melancolia da solidão. Bem, não esconde, e como todas as mulheres na sua idade e situação, Gloria também sente os efeitos do tempo – mas, digamos, com outra dinâmica. Numa noite, dançando num baile, Gloria conhece Rodolfo (o ótimo Sergio Hernandéz), ex-oficial da Marinha de 65 anos e também divorciado. Logo estão na cama fazendo sexo e começam a namorar. O problema é que Rodolfo tem uma relação muito mal resolvida com a ex-mulher e as duas filhas já adultas, que ele ainda sustenta. Gloria, em princípio, parece não se importar com os telefonemas da família de Rodolfo atrapalhando seus programas. Contudo, depois de certos “desencontros”, ela começa a achar que a relação está degringolando. Mas ela tem uma capacidade (e um romantismo) enorme de tentar uma vez mais. Quase uma capacidade, poderíamos dizer, de se humilhar – que só não é maior

OUTRO Glória: não é mais um remake do clássico de Cassavetes, também reside na forma de filmnar sem estrutura rígidas do que o seu amor próprio. Trata-se, é bem verdade, de um filme sobre autoestima. A beleza do trabalho de Sebastián Lelio, que é muito simples, sem rodeios ou rígidas posturas formais, reside na forma como o diretor capta

cada movimento, gesto e olhar de Gloria, tornando-a tão consistente, crível e apaixonante. O filme é ainda uma declaração de amor a essa atriz, Paulina Garcia, que entre tantas coisas, tem cenas de nudez que enfrenta com coragem rara. “Glo-

ria” ainda traz como “coração emocional” a canção “Águas de Março”, de Tom Jobim, em cena chave do filme. E tal qual a bossa nova, “Gloria” trás a poesia do cotidiano, do banal, e fica entre a dor e a ternura de uma personagem que pode-

—FOTO: DIVULGAÇÃO

ríamos chamar de “maior do que a vida”. oo filme parece dizer para todas as mulheres, de forma muitíssimo honesta: coragem, coragem. Paulo Campagnolo é coordenador do Projeto Um Outro Olhar

CINEMA

‘Momentos Roubados’, produção local, lança trailer y

EXPOSTOS. “Momentos Roubados”: um dos objetivo é é ser “vitrine para equipe” —FOTO: DIVULGAÇÃO

Mariana Kateivas marianalopes@odiario.co

A sensação é angustiante: algo lhe foi roubado, mas não se trata de bens materiais e sim de memórias. Essa é a trama em que vive Marcelo, personagem do filme maringaense “Momentos Roubados”. Com direção de Ribamar Nascimento, em parceria com Fantasia Filmes, o longa lança hoje o trailer na internet e tem a pré-estreia no dia 22 de fevereiro. Do gênero “icção investigativa, a história de “Momentos Roubados” gira em torno de um repórter que teve suas memórias apagadas e busca descobrir o que lhe aconteceu. Até que depois de investiga-

ções e pesquisas, o protagonista chega até a gangue que apaga memórias por encomenda. Enquanto assistem os maringaenses podem se sentir em casa, isso porque toda a locação da obra é na cidade. Na pele de um repórter, o protagonista Marcelo (Alexandre Penha)também gravaou cenas na redação do O Diário. Segundo o diretor, a redação será um importante local de descobertas da trama. Com 30 pessoas na equipe, entre eles 20 atores da cidade, Nascimento explica que todos trabalharam voluntariamente, durante vinte fins de semana. “O objetivo do filme é fazer uma vitrine de todo o elenco”, conta. Depois de pouco mais de um

ano produzindo o longa, entre reuniões, filmagens e edição, o diretor considera o resultado como “gratificante”. Ele explica que a produção é independente e mesmo com as dificuldades encontradas por falta de recurso o resultado valeu a pena. “É como gerar um filho. Nós Sempre temos um olhar crítico, como em toda obra, mas estamos felizes com o resultado.” A pré-estreia do filme não será aberta ao público, mas o diretor diz que existe previsões de, em brave, uma sessão aberta. O trailer está disponível na página do Facebook “Momentos Roubados”, onde também será realizado o sorteio de três ingressos para a pré-estreia do dia 22, no Cineflix.


Tamarindo, conto publicado n'O Diário do Norte do Paraná