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ELEMENTOS À SOLTA, LDA Rua Adriano Correia Oliveira 153 1B 3880-316 Ovar / PORTUGAL [e] geral@elementosasolta.pt EDITOR-CHEFE Tiago Moreira [e] tiagomoreira@infektion.pt DIRECÇÃO / DESIGN & PAGINAÇÃO Elementos À Solta, LDA [e] geral@elementosasolta.pt Cátia Cunha [e] catia@elementosasolta.pt Joel Costa [e] joel@infektion.pt COLABORADORES #19 Bruno Farinha Carlos Cariano Cátia Cunha Eduardo Marinho Helena Granjo Ivan Santos Jaime Ferreira Joel Costa José Branco José Machado Liliana Quadrado Marcos Farrajota Mark Martins Mónia Camacho Nikita Rusnak Nocturnus Horrendus Ricardo Almeida Rita Limede Ruben Infante Rute Gonçalves Sérgio Rosado Tiago Moreira

Quer queiram ou não, a verdade é que os Corpus Christii são uma referência incontornável da cena extrema portuguesa. O projecto que nasceu da mente, e muita vontade, de Nocturnus Horrendus, com a ajuda de Ignis Nox, celebrou este ano os seus catorze anos de existência, com dois magníficos concertos. A escolha dos catorze anos para celebração, é tão peculiar como toda esta entidade. Foi no já algo longínquo ano de 1998, que esta dupla de jovens músicos editou o primeiro (de treze) registo discográfico. Foi a demo «Anno Domini» que registou esse pontapé de saída. Seguiram-se doze lançamentos, sendo que sete em formato de longa-duração. Os catorze anos de Corpus Christii não foram se arrastando suavemente… muito pelo contrário. Uma banda que teve que se deparar com imensos obstáculos, incluído aqueles que os portugueses fizeram questão de proporcionar. Mas a verdade é que a perseverança de Nocturnus Horrendus provou ser invencível, e agora não há como não admitir a importância da música deste projecto lisboeta. Com um projecto extremamente progressivo, tanto a nível qualitativo como de ideologia, os Corpus Christii chegam a 2012 como sendo a tal referência, o exemplo (mesmo que eles não o queiram ser) para todas as milhentas bandas que são criadas todos os dias em Portugal… e não só. Foi sobre este passado, este presente e o futuro que estivemos à conversa como o líder e mentor do projecto. Tive a oportunidade, e honra, de estar à conversa durante uns bons noventa minutos, durante uma noite fria de Novembro… apropriado, hein? Poderão ler, nas próximas páginas, algumas revelações de alguém que infelizmente nunca foi muito bem compreendido. O sucesso (não é preciso vender milhares de discos para o ter) dos Corpus Christii foi razão, mais do que suficiente, para que houvesse destaque nesta nossa edição de Dezembro. Venham celebrar connosco este maravilhoso mundo. Tiago Moreira (Editor-Chefe)

08 CORPUS CHRISTII 22 NUKLEAR GOAT 24 EAK 28 SUZUKI JUNZO 30 GRAND SUPREME BLOOD COURT

FOTOGRAFIA Créditos nas páginas

34 CHAOS ECHOES

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36 VANDERBUYST 38 TSUBO 40 DESIRE

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44 OS ANORMAIS 48 INFEÇÃO URINÁRIA DE MARTE 50 REVIEWS 62 LIVE REPORTS


T

ens memória da experiência, ou das experiências, que te levaram a formar os Corpus Christii? Lembro-me perfeitamente. Foi pelo simples facto das bandas que tive anteriormente não me satisfazerem, porque não tinha o poder de implementar as minhas ideias. Com os Noctu, ou com bandas de garagem que tive anteriormente, mas que não são relevantes para estar aqui a referir. Especialmente com os Noctu houve uma longa fase de dedicação, mas que não ia a lado nenhum. Eu gostaria de criar algo meu, e vi que o poderia fazer se me empenhasse a arranjar uma guitarra e os meios para o fazer. Em 1998 comprei uma guitarra – antes disso tocava apenas baixo, e cantava (mal e porcamente) – e ao mesmo tempo vi que o Ignis Nox, que estava comigo em Noctu, tinha mais ou menos as ideias musicais niveladas comigo, e por isso convidei-o para fazer Corpus Christii. O nome já o tinha em pensamento há alguns anos, mas nunca tinha tido, até então, a oportunidade de o usar. Foi ai que tudo começou… Com a demo «Anno Domini» o nome da banda aparecia como Corpus Christi, e a partir daí começaste a utilizar dois “i”… Correcto. Originalmente eu tinha ideia que a banda fosse constituída por uma única pessoa, e visão seria eu como o único elemento do projecto. A demo foi posta cá fora um pouco à pressa. Não tinha logotipo sequer… foi uma pequena anormalidade, era mesmo só para ter algo para por na capa da demo. Houve um erro, que não sei explicar ao certo. Mas a intenção foi utilizar dois “i” para simbolizar as duas pessoas que estavam no projecto, ao mesmo tempo que fazia menção ao número dois na numeração romana. Como é que foram esses primeiros tempos, que começaram em 1998? Foram bons tempos. Lembro-me que ia para a casa do Ignis, que é para os lados da Charneca da Caparica e passávamos lá

dias inteiros a tentar programar o FastTracker, que era a bateria que utilizávamos na altura, num computador que eu tinha, que ainda devia funcionar a carvão, não sei. [risos] Na altura nem ponderamos arranjar baterista, porque sabíamos que não íamos conseguir ninguém para tocar aquilo. E os ensaios eram feitos, basicamente sem amplificadores, porque na altura ainda não tinha tido dinheiro para comprar um amplificador de guitarra, e por isso tocávamos em muito silêncio a arranhar as cordas o máximo possível. [risos] É dai que vem a questão mais primitiva, e simples, da música dos Corpus Christii. Porque a verdade é que eu não podia elaborar muito as coisas.

Recordas de como foram as vossas primeiras composições? Não devem ter sido todas editadas. Guardas esse material? Não, foi tudo editado. Quando fizemos a demo só tínhamos três temas, e depois quando fizemos o primeiro álbum, o «Saeculum Domini», não tínhamos mais material e quisemos reutilizar o material da demo, porque não gostamos muita da gravação que foi feita para a demo. O produtor armou-se em “esperto” e fez umas coisas que não deviam ter sido feitas. Também nós não tínhamos experiência e fomos atrás… Não sabíamos um caralho de como aquilo funcionava. Em 2000 editas o primeiro álbum, «Saeculum Domini». Tens memória de toda essa experiência. Calculo que tenha um significado especial para ti, este disco. A nível de composição foi precisamente igual à demo. Apesar de parecer que há um lapso de dois anos… eu acho que nesses dois anos ainda não tinha conseguido dinheiro para comprar um amplificador de guitarra, ao contrário do que muita gente pensa. Perdemos muitas horas em casa do Ignis, a compor. Nós perdíamos muitas horas a filosofar e a falar, talvez mais do que propriamente a compor. Também eram outros tempos. As coisas

eram muito mais lentas e preponderava-se tudo, muito bem. Lembro-me vagamente de gravar o álbum. Acho que foi gravado em duas partes, num estúdio em Almada e depois em casa do produtor. Foi também bastante primitivo na altura. Acredito que nem usamos amplificador, foi gravado directamente à mesa. Essas limitações levou a que fizéssemos algo de muito diferente, e acho que é daí que vem o termo especial da demo e do primeiro álbum.

Consegues recordar o que sentiste quando viste o disco editado? Foi estranhíssimo. E foi mais estranho ainda porque a primeira edição do «Saeculum Domini» veio com um erro. Acho que estava qualquer coisa ao contrário no booklet, e tiveram que fazer o booklet novamente. O impacto foi de choque, ao ver a minha música num CD e depois havia a merda de um erro no booklet… mas depois foi emendado, felizmente. Uma grande felicidade? Não diria felicidade, mas sim estranheza. Num espaço de cinco anos, onde em 1995 sou convidado para tomar conta das vozes depois de eu ir a um ensaio, vejo-me num projecto meu que ainda mantenho até aos dias de hoje. É um bocado de choque. E estamos a falar em 2000 onde os CDs ainda tinham relevância. Estamos a falar de um momento em há uma grande lacuna no metal extremo, pelo menos obscuro, em Portugal. Eu tinha consciência disso, assim como muitas outras pessoas, e talvez por isso é que teve o impacto que teve. Mesmo que tenha sido pela negativa. [risos] Depois de arrancares em 2000 com o «Saeculum Domini», tu lançaste, até 2003, mais três discos. «The Fire God», «In League With Black Metal» e o «Tormented Belief». Foi um período bastante criativo. Havia mesmo necessidade de tirar muita coisa “dentro” de ti… Sim, porque assim que eu comecei… O


«The Fire God», é um bom exemplo onde eu dei um pulo muito grande a nível técnico, na guitarra e a nível de ideias pessoais, etc. Creio que na altura do «Saeculum Domini», eu já estava a compor para o «The Fire God», permitindo que as ideias fossem amadurecendo. Até me lembro que gravamos o «The Fire God» na casa de um amigo. Fiquei bastante maravilhado na altura em que gravamos o «The Fire God», porque eu lembrei-me de como tinha sido gravado o «Saeculum Domini», que era bastante básico. Bom, mas básico. No «The Fire God» estava a fazer coisas que nunca imaginei que conseguisse fazer na guitarra, e isto pouco tempo depois. Mas sim, havia mesmo muita coisa para sair. Eu tinha as ideias, mas não tinha a técnica para expor todas essas ideias. Quando chega ao «In League With Black Metal», é uma coisa diferente. Já foi na minha casa. Eu e o Ignis já tínhamos tido a possibilidade de comprar algum material… mas mesmo assim muito pouco, e muito limitado. Mas para mim o «In League…» não é um álbum, porque aquilo só tem dois temas. Tem quatro temas, mas dois deles são experimentais e que eu nunca faria para um álbum. O «In League…» é um tributo ao black metal. Tem duas vertes de Corpus Christii muito diferentes, e depois tem as covers que também são muito diferentes umas das outras, de bandas que são extremamente relevantes para mim. Basicamente aquilo foi gravado sem nenhuma ideia pré-definida. Cronologicamente: o «Saeculum Domini» quando saiu… ninguém percebia o que era aquilo. Ficou tudo negativo em relação àquilo. O «The Fire God» teve êxito e já foi mais bem aceite no panorama nacional. O «In League…» voltou a confundir um pouco as pessoas. Mas a verdade é que nunca liguei um caralho ao que as pessoas pensavam. Se eu tenho uma ideia, por mais bizarra que possa ser, eu tenho é que concretiza-la. Preciso é de me sentir realizado, isso é a coisa mais importante para mim.

«Tormented Belief», em 2003, foi o primeiro registo do que é agora uma trilogia. Comecemos por falar na entrada do Necromorbus. Deixas de utilizar bateria programada, e entra o Necromorbus que não só fica responsável pela bateria como também fica responsável pela produção e mixagem… A sequência não é essa. Eu estava a atravessar uma fase estupidamente com-

plicada, e negra, da minha vida, e fiz o «Tormented Belief» em duas noites. Duas noites em branco, onde não consegui dormir. Foram dois dias onde não consegui parar de trabalhar, e muito rapidamente pedi ao Ignis para vir gravar aquilo. Acho que foi isso, porque ele não esteve presente quando eu estava a compor o álbum. Tanto que há menos registo de teclados no álbum. O álbum era para ter saído só em vinil, e quando saiu em vinil era só bateria programada. Por acaso fiquei bastante satisfeito com o resultado alcançado com a tal bateria programada. À posteriori, quando saiu o LP, houve uma editora que se mostrou muito interessada em editar o álbum em CD. Eu confesso que não estava muito virado para isso, mas a verdade é que fizeram uma boa proposta. Penso que eles na altura pediram um baterista. A verdade é que eu não faço a mínima ideia de como o Necromorbus entrou na banda. [risos] Eu sei que lhe mandei os ficheiros, e ele gravou a bateria. Ele gostou do álbum, aliás ele não tinha gravado se não tivesse gostado do álbum… de forma alguma. Ele gravou bateria e o álbum foi editado em CD pela Undercover Records. Comecei uma viagem de dois álbuns com a Undercover. Sinceramente não sei quando, nem como, entrei em contacto com ele. Ou alguém o recomendou ou qualquer coisa da género. Não tenho certeza porque há uns cinco, ou seis, anos da minha vida que estão um bocado em preto… em 2003 encontrava-me nessa situação. Entretanto o álbum sai em CD, e começamos a tocar ao vivo. Penso que fizemos três tournées e muitos festivais lá fora. A certa altura tivemos o José Costa, de Sacred Sin, no baixo, e depois tivemos LSK, de Antaeus… e foi assim durante uns dois anos.

Podes explicar como surge a ideia de fazer uma trilogia, e o que abordaste nessa trilogia? É uma viagem pessoal que queres retratar, sendo os dois primeiros o tormento, e o terceiro o ressurgimento em força depois de tamanho sofrimento? Quando gravei o «Tormented Belief» eu pensei, muito sinceramente, que fosse o último álbum da carreira dos Corpus Christii. Estava mesmo convencido disso. Havia uma espiral muito negativa, especialmente no panorama nacional, onde toda a gente “cuspia” na minha cara, e na minha música. Ao mesmo que tempo que acontecia isto em Portugal, eu já estava a ser louvado lá fora, e eu não conseguia

aceitar, e assimilar, isso muito bem. Depois o álbum teve algum sucesso. Começamos a tocar lá fora, e conseguimos vender cerca de 3.500 cópias, só em CD, o que não é nada mau tendo em conta que estamos a falar de uma banda desconhecida. A Undercover disponibilizou-se para lançar outro álbum, e eu acabei por aceitar. Não tinha material nenhum, mas decidi ir para estúdio. Fui para a Suécia, ter com o Necromorbus, só com o riff inicial da “Crimson Hour”. E foi esse riff que fez o álbum inteiro.

Foi a partir dai que consideraste que poderia ser uma trilogia? Eu considerei que foi uma trilogia por causa de muitos factores que aconteceram em estúdio e a não presença de certos elementos que iriam ajudar no álbum. Vi a minha vida a andar para trás de novo. Posso-te dizer que eu estava estupidamente alcoólico a sessão toda, no estúdio. Mas ao contrário do que muita gente pensa, e eu já tive a oportunidade de ouvir isso, e nem me quis acreditar, o álbum é maioritariamente feito por mim. O Necromorbus fez a linha de baixo, ou grande parte dela, e fez cerca de cinco, ou seis, riffs de guitarra. Muita gente pensava que tinha sido o Necromorbus a compor o álbum e NÃO é verdade. Até a nível de produção, fui eu que impus que fosse feito à minha maneira e não com o típico som que o Necromorbus começava a ter. Por isso é que o álbum está mais sujo do que é normal. Tomei as rédeas do álbum. A partir do «The Torment Continues» começamos a fazer tours e a tocar em festivas. Em Portugal talvez ficou um pouco mais conhecido, relativamente o «Tormented Belief». Na altura em que o «Tormente Belief» foi editado, lembro-me que o termo “suicide black metal” ainda não era falado, e não havia muita gente a abordar essa vertente, especialmente em Portugal. Pelo menos é a ideia que tenho. Achas justa esta análise à trilogia: uma viagem pessoal, que queres retratar, sendo os dois primeiros (discos) o tormento, e o terceiro o ressurgimento, em força, depois de tamanho sofrimento? Sim, concordo. Apesar do próprio título do terceiro álbum, «Rising», remeter para o erguer da persona da entidade, e da banda, a verdade é que se eu ouvir o álbum, eu encontro muito riff, e muito tema, bastante depressivo. É o culminar da minha realidade: por mais bem que eu


esteja, a verdade é que não estou muito bem. [risos] Acho que o álbum demonstra bem a pessoa que eu sou, é o álbum que demonstra os meus “ups and downs” de personalidade e de forma de existência neste mundo corrupto.

Esta trilogia marca uma parte da tua vida. Consideras que o fim da trilogia foi o fechar de um capítulo da tua vida? Refiro-me aos problemas pessoas de que falavas anteriormente. A tua vida deu a tal volta? Deu a volta mas também durou pouco tempo. [risos] Digamos que no espaço do «Tormented Belief» até ao «Rising», tive situações em que eu basicamente morri, no verdadeiro termo da palavra, e reanimei-me e vi que as coisas não estavam muito melhores. Vivi muita coisa. Sempre tive uma vida pacata, enquanto novo, e os primeiros sete/oito anos de Corpus Christii foi como levar com cinquenta anos de outra pessoa em cima de ti. A segunda parte da trilogia, marca a saída do Ignis Nox. Encontras-te assim pela primeira vez sem o teu companheiro de sempre. Porquê essa mudança? Foi por questões pessoais, onde ele simplesmente começou a desligar-se do black metal, e talvez o facto de eu me ter tornado uma pessoa muito difícil para se lidar. Penso que ele estava a sentir que estava a fazer pouco nas novas composições. Por exemplo, o caso do «Tormented Belief» onde há pouquíssimas partes de teclado. Vais tocar aquilo ao vivo, e o segundo membro da banda, um elemento fulcral, fica a olhar… é um bocado frustrante. Foi uma viragem de variadíssimas consequências, seja na minha vida ou mesmo na dele. Doeu-me bastante. Foi-me muito difícil vê-lo a partir da banda. Imagino que te tenha custado imenso, até porque estamos a falar de um músico ímpar, e um amigo. Um músico que, principalmente nos primeiros tempos da banda, te ajudou a criar todas aquelas magníficas atmosferas. Correcto, era o meu companheiro. E sim concordo, ele foi realmente MUITO importante. A saída dele, foi uma questão com a qual eu tive que me debater. Estamos a falar de uma banda que na essência sempre foi minha, e sempre tive a mão-de-ferro nas decisões e em tudo, mas a verdade é que o Ignis sempre teve liberdade total em compor aquilo que ele

queria. Digamos que a nível musical não foi muito difícil de contornar esta situação, porque a verdade é que o «Tormented Belief» é um álbum a cair para o individual, onde ele perdeu alguma da proeminência que tinha no passado. E penso que se ele soubesse da trilogia, se houvesse a noção do que iria acontecer… talvez a saída dele tivesse acontecido mais cedo.

Quando eu recordo os primeiros trabalhos de Corpus Christii, onde o Ignis Nox tinha um maior contributo, eu sinto, ao ouvir esses trabalhos, que o Ignis é um dos melhores homens atrás dos teclados que o black metal já viu. O que sentes ao teres tido uma pessoa assim ao teu lado? Ao início era intimidante, porque ele já percebia de música e eu não percebia um caralho. [risos] Mas ele sempre foi fácil de lidar nesse aspecto, e eu também estava a ter formação musical… a verdade é que eu não tenho paciência para estar sentado a aprender a tocar guitarra. Bem, a verdade é que eu nem gosto de tocar guitarra, para ser sincero. Eu uso a guitarra como alguém usa uma arma para matar uma pessoa. Não quer dizer que eu goste da arma, mas é um meio para atingir o fim. O Ignis sempre tocou no piano e sempre gostou de tocar. Muitas noites, com Corpus, parecia que ele estava a tocar no piano de parede, acústico, e daí vinha alguma coisa. Claro que havia noites em que eu tinha que lhe dizer para ele mudar para Corpus Christii. [risos] «Rising» em 2007 aponta o último capítulo da trilogia. Este álbum arrecadou unanimidade por parte dos fãs e crítica. Na tua opinião, o que difere o «Rising» dos demais, para que as opiniões fossem de repente tão boas? Para já, a nível musical acho que é incrivelmente completo. Acho que para quem gosta minimamente de música extrema, consegue compreender que aquilo tem um pouco de tudo. É bastante elaborado. Às vezes até pode parecer muito simples, mas tem pormenores que têm muito trabalho por detrás. Mas muito sinceramente, não faço a mínima ideia. Cada um sabe de si. Se eu me puser aqui a pensar o que as pessoas pensam do álbum, talvez ainda me assuste porque a resposta delas não me faz sentido nenhum. [risos] A nível lírico e musical, foi incrível e até

mesmo a própria experiência de gravar. Foi uma gravação muito difícil para mim, porque eu estava a ter um trabalho em full-time, e eu tinha que ir aos fins-de-semana para Braga, a correr, ter com o Daniel Cardoso, para trabalhar com ele. Trabalhar com o Daniel Cardoso foi também um grande “susto” para mim. Quando trabalhei com o Necromorbus eu estava tão embriagado que mal sabia quem estava ali ao meu lado, mas nas gravações do «Rising» eu estava sóbrio e extremamente focado. Eu não sou propriamente alguém que goste de trabalhar com uma pessoa que… não sei se consigo, e sei, trabalhar com a pessoa ou não. Eu já tinha tocado com ele em SiriuS, mas tinha sido apenas uns ensaios e um concerto. Não tinha aquela intimidade de gravação, que é uma realidade completamente diferente. Mas a verdade é que ele ajudou imenso. Ele estando lá criou, para mim, mais pressão para fazer algo mais além. Mas o trabalho foi incrivelmente rápido… até fiquei parvo. Tivemos basicamente 15 dias para gravar o álbum, e eu fui para lá praticamente sem nada. Creio que tinha a “Stabbed” e partes da “The Wanderer”. Lembro-me que o riff inicial da “The Wanderer” surgiu em Paris, em casa do Ainvar Ara, de Storm Legion, quando ele lá estava. Creio que não tinha mais nada mesmo. Mas eu também confesso que trabalho melhor com pressão. E nem todos os temas foram incluídos no «Rising». Esses 15 dias de estúdio deram material que iria utilizar no EP «Carving a Pyramid of Thoughts».

Este álbum, viu o Necromorbus sair e o Menthor entrar, como músico de estúdio. Esta trilogia foi uma verdadeira viagem, cheia de grandes mudanças… Sim houve uma grande turbulência a nível de membros, tanto que chegou a uma altura que eu já não sabia o que havia de fazer. Isto aliado com os problemas pessoais, que não ajudavam em nada. Depois do «Rising» assinas contrato com a Candlelight Records. Esta decisão prendeu-se com o facto de quereres concentrar toda a tua atenção na arte, certo? Não. Eu lancei o «Rising» através da minha própria editora, a Nightmare Productions. O problema é que ao fazeres isso, estás a lidar com a tua própria banda e custa separar as coisas, falo de críticas negativas, etc. Aliás, é impossível separar as


coisas. Tens que perceber que quando estás numa editora pequena, tu ajudas a nível de promoção, etc. Eu queria deixar-me de preocupar com isso. O resultado é o que se vê. Estamos numa editora que se está, literalmente, a cagar para nós, e que eu não me consigo livrar dela.

A verdade é que esta relação não tem corrido da melhor maneira, tendo em conta a falta de interesse que eles revelam perante a banda. Esta relação tem sido das piores coisas que me aconteceu com Corpus Christii. É indescritível a situação, e eu não consigo compreender. Conheço bandas que estão na Candlelight e tanto há as que falam muito bem, como há outras que se encontram na mesma situação que nós. Um dos motivos de eu assinar pela Candlelight era porque eu pensava que iria ser mais fácil dar concertos e entrar em tours, até porque haviam bandas na Candlelight com quem eu gostaria de partilhar palco, etc. Mas a verdade é que a Candlelight não mete um dedo nesses assuntos. E não esquecer que o contrato que assinaste pela Candlelight era bem pior. Depois é que aquilo foi renegociado, certo? Sim, apesar do contrato já não ser muito bom, a verdade é que ainda era pior. Estamos a falar de um contrato de muitas páginas onde tu não percebes um terço do que lá está escrito. Tive que pedir ajuda profissional, que me tirou uma parte dos pagamentos… mas pelo menos eu iria saber o que lá estava escrito. Utilizei uma pessoa que já tinha ajudado os Glorior Belli. Curiosamente eles tiveram os mesmos problemas, se bem que tiveram mais facilidade em sair da Candlelight. O «Luciferian Frequencies» foi editado no ano passado e recebeu críticas extremamente positivas, sendo inclusive nomeado o melhor álbum nacional pela LOUD! Estavas à espera disto? Lembro de dizeres que este seria um disco difícil de digerir. Eu não estava nada à espera. Fiquei estupefacto e bastante admirado. Bastante orgulhoso também, porque estamos a falar de uma banda que dez anos antes estava a ser considerada a pior banda nacional, ou com o pior álbum nacional. É um virar brutal de opiniões. Eu não fiquei a pensar que as pessoas agora tinham melhor gosto, apenas fiquei a pensar que agora eram mais imparciais.

Lembro de comentares essa nomeação, por parte da LOUD!, dizendo que era engraçado, e até irónico, o facto de uma maior promoção e aceitação por parte da imprensa ter uma proporcionalidade inversa com o número de pessoas que aparecem nos concertos e compram os discos. É uma situação que ainda não consegues perceber, certo? Certo. Eu volta e meia tento compreender isso mas nunca chego a nenhuma conclusão. Não… não te sei mesmo explicar. Consideras o «Luciferian Frequencies» o álbum mais maduro e com mais dinamismo na discografia de Corpus Christii? Não. Diria que é mais um álbum. A nível de complexidade, talvez até coisas do «The Fire God» sejam superiores a ao «Luciferian Frequencies». A verdade é que sou a mesma pessoa a nível ideológico e de personalidade, sou a mesma pessoa há muitos anos. Tanto o «Luciferian Frequencies» como o «Rising», estão ao mesmo nível. A nível lírico, ambos os álbuns têm aquilo que eu queria dizer, e de alguma forma as coisas que deviam ser ditas. Eu não vejo o «Luciferian Frequencies» como sendo o álbum mais maduro nem nada. É simplesmente o último álbum que fiz, e talvez o álbum que mais ouço e tal. Mas talvez será pelo facto de ter uma vertente menos pessoal. É mais fácil de digerir para mim, porque este álbum não toca em alguns dos pontos fracos do meu ser. Recuemos a Abril de 2011. Os Mayhem, de quem és confesso fã, marcaram, finalmente, presença em Portugal. Vocês abriram para eles em Lisboa, e depois eles fizeram questão que vocês tornassem a abrir a noite no Porto. É algo que te enche de orgulho certo? O que aconteceu foi o seguinte: os Mayhem vinham cá para duas datas e o Necrobutcher avisou-me que vinham cá e disse-me que queria que nós abríssemos para eles. Entretanto meti uma pessoa envolvida na organização, mas que é imparcial a meter-nos na data da Corroios e aceitamos apesar de ter sido de graça… nem despesas nem nada. Quando eu disse no próprio do dia do concerto ao Necrobutcher que nós não íamos à data do Porto, porque… basicamente o promotor não queria que nós abríssemos no Porto, basicamente foi isso. Não interessam as razões mas foi isso que aconteceu. Eles

disseram que não, que faziam questão que fossemos ao Porto e toda a banda apoiou essa decisão, principalmente depois de verem o nosso concerto na data de Corroios. E deram, do próprio cachet deles, o dinheiro para nós fazermos a deslocação ao Porto. De orgulho seria se eu não os conhecesse, e não fosse amigo de alguns deles. Mas estamos a falar de pessoas com as quais eu compartilho uma amizade, principalmente o Necrobutcher e o Hellhammer… e mesmo o Attila. Claro que tenho muito gosto no gesto que fizeram, até porque não tinham essa obrigação. E se não o tivessem feito, eu também não tinha que levar a mal. Agora o resto é tudo uma questão de dinheiro e de quem lambe os pés a quem. Mas sim, senti-me feliz por abrir para a estreia de Mayhem em Portugal. Mas de certa maneira eles deviam-me isto, porque foram eles que deram a “boca” ao pessoal de Barroselas há uns anos atrás. Eu estava, de certa maneira, envolvido no processo de os trazer, e eles acabaram por não aparecer. [risos] Por isso eles de certa maneira deviam-nos isso. [risos] Mas posso-te dizer que não mencionamos isso, quando eles vieram cá a Portugal.

Acabas de terminar uma digressão europeia de promoção ao «Luciferian Frequencies», onde passaste por países como França, Bélgica, Alemanha, Holanda, Itália, Sérvia, etc. Qual é o balanço desta digressão? O balanço é que eu vejo que as coisas estão realmente a morrer. Eu podia dizer coisas muito bonitas, e falar como certas bandas portuguesas que vêem agora, finalmente, de tour. Principalmente na altura de Corpus, onde tirando nós, a única banda que fazia tours eram os Moonspell. A verdade é que eu vejo que está a haver um decréscimo de público e não tem nada a ver com a banda em questão. Cada vez mais as pessoas gostam de mais bandas e então têm que decidir a que concertos é que vão. No entanto tivemos certas surpresas… os próprios promotores não estavam à espera de ver tanta gente em datas de semana. Mas correu bem. A única data que correu mal, mas eu já sabia que ia correr mal, foi em Itália. Mas nós temos um certo “problema” com Itália. Não sei muito bem o que se passa. Lembro-me que desde 1998 eles diziam que não entendiam o nome da banda, etc. Continua a ser um objectivo, levar


Corpus Christii para a estrada, certo? Sim, correcto. Mas está cada vez mais difícil. Por mais que possas catalisar os teus sentimentos no álbum, a verdade é que é em palco que tu consegues transmitir tudo. Eu sou bastante analítico. Posso estar numa sala com 300 pessoas, mas eu tenho a necessidade de olhar para todos eles para tentar captar que está a perceber o que eu estou a fazer. Acabo por ser um pouco intimidante nesse aspecto. Eu quando estou a olhar é para as pessoas, e não para o “vazio”. Felizmente este ano, em Portugal, temos tocado cada vez mais. E também têm havido mais propostas… o que é muito porreiro. Convites para tocar com bandas que há 10 anos atrás não pensaríamos que pudéssemos partilhar palco… bandas de estilos totalmente diferentes. Para muita gente pode fazer confusão, mas eu discordo completamente. Uma coisa é um concerto em sala, e outra coisa completamente diferente é um festival. Acho que faz sentido haver diversidade. É por isso que aprecio bastante os festivais como Barroselas, Mangualde, Santa Maria em Beja, etc. E nós fazemos sempre questão de proporcionar experiências diferentes. Se pensam que ver Corpus Christii num festival, ou ver Corpus Christii num Side B, por exemplo, é a mesma coisa… estão muito enganados. Nós tentamos sempre mudar os sets, ao contrário de algumas bandas. Infelizmente há o problema dos ensaios. Para muita gente pode parecer parvo, especialmente para quem não tem bandas, mas é o seguinte: para tocares temas diferentes, tens que ensaiar ainda mais, e para ensaiar um gajo gasta dinheiro. Se tens um concerto programado para um festival e cada pessoa vai ganhar 10€/20€, como é que vais ter dinheiro para marcar sala de ensaio? Sempre defendeste que o black metal deveria ser algo com uma ideologia e não apenas um género musical. Porquê? Porque foi assim que foi criado. Porque é assim o fundamento do black metal. O black metal primeiro vem uma ideologia, o satanismo. Eu, pessoalmente, quando penso em black metal não penso em bandas mas sim em ideologias. Infelizmente são poucas as pessoas (mesmo os fãs assumidos de black metal) que percebem a verdadeira simbologia que está por detrás da palavra Satanismo e Satanás. Isso

chateia-te? Eu não me preocupo, porque cada um tem o seu ponto de vista, e cada um sabe o que é que acha que sabe. Eu sei muito bem o que é que eu penso, apesar de ter mudado ao longo dos tempos… mas faz parte de seguir Lúcifer. É seguir o caminho da luz e do conhecimento. O que as pessoas pensam? Se alguém diz que é satanista da igreja de LaVey, eu digo que há termos do LaVey que eu concordo, principalmente aqueles a nível de psicologia humana. A nível espiritual eu não concordo de todo. Mas se querem seguir isto… tudo bem. Deviam é ponderar se deviam, ou não, ter um pentagrama ao pescoço, porque as energias que estão a criar à volta disso, de certeza que não são terrestres. Não me chateia que as pessoas não saibam. O que me chateia é o facto das pessoas não conhecerem e não fazerem o esforço para passarem a conhecer. Decidiste celebrar os 14 anos de Corpus Christti no início deste 2012. Para os que se questionam relativamente aos motivos que te levaram celebrar os 14 anos, e não os 15: é uma questão de teres uma preferência pelo número 7 (7+7=14) certo? Isso foi o que disse não foi? [risos] Essa resposta foi uma desculpa, simplesmente. Conscientemente, talvez seja mesmo essa a resposta. Na altura foi simplesmente porque nunca tinha celebrado… porque não celebrar agora? Acho que foi por aí. “Concerto especial. O mais longo set até então, e focado nos primeiros trabalhos da banda. Acompanhado por teclas, pela primeira vez em muitos anos”. Antes de falarmos dos 14 anos, recorda-me o que foi para ti estes dois concertos com o Ignis Nox a acompanhar a banda? Para já, foi intimidante ter o Ignis de novo a tocar comigo. E posso dizer que já o tinha convidado um monte de vezes para tocar connosco. Quem teve “culpa” do Ignis ter aceitado voltar a tocar foi o Angel-O (Corpus Christii e Velório). Acho que foi ele que conseguiu dar a volta ao Ignis. [risos] O Angel-O é um grande fã do trabalho de Ignis, e lá conseguiu convencê-lo. Assim que começamos a ensaiar – fizemos uns três ensaios com o Ignis – e a ouvir aqueles temas com teclas… foi fenomenal. A nível sentimental foi voltar atrás na história da banda… muito especial mesmo.

14 anos cheios de actividade, com uma média de 1 longa-duração a cada dois anos. Sei que não és pessoa de perder muito tempo a olhar para trás, mas como é que recordas este caminho que percorreste com Corpus Christii? Sinceramente não te sei dizer, porque se tu estiveres numa banda completa, onde partilhas as experiências com várias pessoas…. Ou seja é complicado porque Corpus Christii está misturado com a tua vida pessoal, certo? Sim, a 100%. Cada trabalho que eu fiz, eu sei exactamente porque o fiz e o porquê de o fazer de certa maneira. Eu não gosto da palavra evolução. Há um caminho. Vês um desencaminhar das coisas, e de como elas mudam… aprendes muito de ti próprio. Passas de um puto de 18 anos, e de repente tens 33 anos. Tu vês o desenrolar a banda como o desenrolar da tua própria vida. É por isso que nunca consegui acabar com Corpus Christii. Se eu for a pensar bem, eu pensei em terminar com a banda por três ocasiões diferentes, e era um pouco acabar com a minha vida. Falemos de algo menos positivo. No passado dia 1 de Outubro expressaste a tua mágoa relativamente ao facto de muita gente acusar-vos de serem neo-nazis, tendo esse tipo de acusações levado ao cancelamento da uma data na Áustria, por exemplo. Por favor, explica toda esta LAMENTÁVEL situação. A Antifa já se está a meter connosco há alguns anos, por causa do meu envolvimento com o Noktu, de Celestia, porque ele estava envolvido em Gestapo 666. Há uns anos atrás saiu um artigo, da Antifa, em que eles utilizaram palavras do Noktu, como tivesse sido eu a falar. Não descarto a hipótese de terem feito confusão com o nome (Noktu e Nocturnus)… não sei. A verdade é que foi escrito uma carta de volta, que está online para quem quiser ver. Muita gente achou que eu não devia ter dado explicações, mas eu acho que alguém tem que responder a esses filhos da puta. E eles nunca se deram ao trabalho de responder. A força deles, e isto vai parecer muito estranho, é suficiente para que baste haver um nerd, atrás de um computador, que se presume da Antifa, que mande para o promotor um email a dizer que banda X é nazi, e que se o concerto decorrer então


vai haver problemas. Isso é o SUFICIENTE para se cancelar um concerto… é incrível. A verdade é que tudo depende do promotor. Se ele tem a audácia de seguir com as coisa para a frente. Eles ficam cagados muito facilmente, porque pensam que vai aparecer a Antifa lá à porta a fazer uma manifestação, e isso não é o caso. Aconteceu uma vez, num festival na Áustria, mas foram apenas meia dúzia de gajos e o festival aconteceu na mesma. Há que mencionar isto: é verdade que Morte Incandescente está numa editora, onde uma das pessoas está nos Absurd… mas sabem que mais? Eu tenho amigos que estão no PCP, BE, etc. Se as pessoas não me chatearem com as suas opiniões políticas… eu não me chateio com elas. O meu caminho é no meio.

Desta vez estás a trabalhar as composições, dos novos temas, com os restantes membros da banda. Como é que está a ser essa experiência? Até então ainda só tive oportunidade de trabalhar com o Angel-O. Eu estou a ten-

tar coordenar com os restantes elementos, para eles terem a oportunidade de dar o seu input. Acho que é altura, e digo isto desde o «Rising», de abrir as portas para alguém contribuir alguma coisa. Mas tenho que admitir que sou fodido. Se houver um riff, um acorde, ou qualquer coisa que eu não faria, ou que eu ache que não é Corpus Christii… simplesmente não é usado. Só porque soa bem… não. Apesar de os lançamentos de Corpus Christii serem diferentes uns dos outros, há em todos os discos um toque em que tu dizes… aquilo é N.H. Isso é SAGRADO!

O que podes adiantar sobre o novo álbum? Irá sair no primeiro trimestre de 2013? É mais directo. É mais focado na questão crua do black metal, seja a nível lírico ou musical. Inicialmente até pensava que ia ser um álbum muito mais simples, mas… a minha cabeça não o permite. [risos] Vai ser um álbum que, com sorte, vão dizer “Isso não é um álbum original. É apenas mais um álbum… não tem nada de novo”.

Espero mesmo que seja isso que digam. [risos] Quero fazer um álbum que seja mais chegado à raiz de Corpus Christii… acima de tudo, não me tentar superar. Isso foi algo com que me debati. Perdi anos da minha vida, depois do «Rising», estagnado, e a pensar: “Eu não vou conseguir superar isto”. Caguei nisso e fui fazer o «Luciferian Frequencies». Em «PaleMoon» eu não estou a pensar no passado… é o que é. Espero que seja um álbum que possa interessar a alguma gente. E não se preocupem, que podem sempre ouvir um outro álbum da minha carreira. [risos] Últimas palavras para todos os fãs de Corpus Christii… Apareçam! Não estejam com merdas. Se já não vêm um concerto de Corpus Christii há muitos anos e pensam que continua a ser o mesmo… apareçam e vejam a banda. Tentem simplesmente ouvir a música. Infelizmente durante anos houve pessoas a dizer que não gostavam da banda, sem acompanharem o percurso da mesma. Não tirem conclusões precipitadas. Acima de tudo: OUÇAM a música. ///


N

ão há muita informação disponível sobre os Nuklear Goat. Como é que a banda foi formada? A banda formou-se em meados de 2005, depois de eu, e o Desekrator, termos saído de InThyFlesh. Sentimos a necessidade de continuar a fazer música, a fazer black metal… principalmente. Os Nuklear Goat acabaram por surgir de uma, ou duas, jams que fizemos na nossa antiga sala de ensaios. Posso adiantar que quase todos

os temas que compõem o “Genocidal Storm”, foram compostas em duas tardes de ensaio. A partir daí foi encontrar os restantes elementos para completar a formação de Nuklear Goat, o que acabou por não ser muito difícil, tendo em conta que estamos a falar de pessoas com as quais tínhamos uma relação de proximidade. Depois foi só trabalhar o que já havia sido composto. Mas mesmo assim demoraram cinco

anos até editar o vosso primeiro registo discográfico… Sim, é verdade. O único registo que fizemos antes de editar o álbum foi uma rehearsal tape, que acabou por nem ser editada… pelo de forma oficial. Apenas distribuímos esse material por alguns amigos, e camaradas, mais próximos. Relativamente ao tempo que demoramos até editar o primeiro álbum… não há nenhuma razão especial para não termos gravado os temas em estúdio logo. Talvez


até por inércia da nossa parte (risos). E depois juntam-se os problemas pessoais de cada um dos elementos. E assim a gravação foi se arrastando. Aliás, tinha sido idealizado lançar um split com Decayed, o que acabou por não acontecer, devido a algumas complicações, e então decidimos utilizar os temas neste “Genocidal Storm”. Entretanto recebemos uma proposta do Tiago, da War Arts, para gravar estes temas e… aceitamos. Depois foi só uma questão de entrar em estúdio e gravar o disco. Foi algo que fizemos em dois, ou três dias. Ou seja, não foi uma questão de não terem ninguém interessado em lançar o vosso material… Não, não. Felizmente tivemos pessoas interessadas em fazê-lo logo desde que eu espalhei a notícia dos ensaios que havíamos gravado. Houve logo uma boa aceitação. Nós não somos propriamente novos nisto e já temos a sorte de conhecer muitas pessoas que estão inseridas neste meio. Recebemos propostas não só da War Arts,mas acabamos por aceitar a proposta do Tiago, que é um camarada nosso. E estamos muito satisfeitos pelo trabalho desenvolvido com a War Arts. Relativamente à sonoridade da banda dos Nuklear Goat, foi premeditada? Achas que o vosso background musical foi uma influência? Toda a música, quase na sua totalidade, foi composta por mim e pelo Desekrator. E o nosso background é, sem dúvida, o black metal. O Desekrator tem uma influência muito grande do punk. Diria que o resultado alcançado em Nuklear Goat é mesmo o resultado das nossas influências. Mais black metal da minha parte, e black metal/punk mais badalhoco, por parte do Desekrator. Os outros elementos claro que também tiveram o seu input, mas não na criação, em si, dos temas, mas sim no aperfeiçoamento e arranjos. 2012 vê dois trabalhos de black metal, com atitude bem punk, a serem editados. Curiosamente ambos editados pela War Arts, falo do vosso “Genocidal Storm” e do EP “Procession of Forked Tongues” dos Göatfukk…

Não sei se existem um interesse particular por este tipo de bandas, acho que existe é um maior interesse pelo black metal mais tradicional. É óbvio que no nosso som, e no som dos Göatfukk, existem uma grande influência do rock e do punk, e é possível que isso desperte um pouco mais de interesse em algumas pessoas. Mas acima de tudo penso que o interesse é pelo black metal. O vosso álbum é relativamente pequeno, 28 minutos. Na minha opinião é algo que ajuda a sedimentar a qualidade do álbum, pois não existem fillers e tudo flui de forma perfeita. Foi uma decisão consciente? Sinceramente… não! (risos) Nós gravamos os temas que tínhamos composto, e apesar do álbum ser relativamente curto, a verdade é que os temas são bastante longos. Normalmente um álbum com 30 minutos tem uns dez temas. Não é isso que acontece com o “Genocidal Storm”. Não foi, de forma alguma, uma estratégia. Foi gravar o que tínhamos. Decidiram alternar entre vocalizações em inglês e português. Porquê? No inicio havia o interesse de ter letras escritas em português. Pessoalmente, é algo que eu aprecio bastante. Mais uma vez, não foi uma decisão consciente. As letras foram autoria do nosso vocalista, o Ben, e acho que ele partilha esse gosto pelas letras em português. No futuro penso que iremos continuar a apostar nesta “mixórdia”. A nível lírico, podes falar dos temas abordados? Gloria a Satanás e à força Nuclear. Um aponto interessante é a vossa intro, que foi cedida pelo La Chanson Noire. Como surgiu essa colaboração? Surgiu numa conversa numa conversa entre a banda e o Tiago, da War Arts. Sentimos a necessidade de ter uma intro no álbum. Achamos que seria uma boa forma de preparar o ambiente para o que vem a seguir. Daí o Tiago sugeriu que falássemos com o La Chanson Noire, um artista pelo qual nutrimos bastante respeito. São

campos, a nível musical, bastante diferentes, mas de alguma forma acabam por haver algumas semelhanças entre a intro e o resto dos temas. Daí, na minha opinião, ter funcionado tão bem. Há uma atmosfera diferente, que acaba por ser “diabolicamente perverso”. É uma excelente introdução ao álbum. Como tem sido o feedback por parte dos fãs e imprensa? Para ser sincero não temos tido muito feedback. Para começar, a banda está impedida de tocar ao vivo, devido a algumas circunstâncias, a nível pessoal, como por exemplo eu estar a viver em Paris. Tínhamos preparado um concerto que iria servir como uma espécie de apresentação, mas acabou por não acontecer por algumas problemas que surgiram, relativamente aos transportes. O facto de estarmos impedidos de tocar ao vivo, faz com que esse feedback não nos chegue na quantidade desejada. De qualquer forma, só agora é que o Tiago, da War Arts, começou a fazer promoção, a sério, ao álbum… por isso, conto que nos próximos meses, nós vamos começar a receber mais feedback em relação ao disco. Mesmo assim, o pouco feedback que tenho recebido, tem sido positivo. Mas espero que o futuro reserve oportunidade para os Nuklear Goat actuarem mais ao vivo. Sinto que somos uma banda que mostra a sua “raça”, a 100%, quando actuamos ao vivo. Muitas pessoas, pelo facto de estares a viver em França, pensam que Nuklear Goat acabou… A banda tem estado bastante parada, nos últimos tempos. Mas posso dizer, com toda a certeza, que a partir do final do próximo ano vão voltar a acontecer coisas com Nuklear Goat. Vamos voltar a espalhar o terror. Os Nuklear Goat NÃO acabaram. Estamos a preparar um concerto para apresentar, devidamente, o álbum. As pessoas vão voltar a ouvir falar de nós. E pensam editar um novo álbum? Sim. Pode demorar muito tempo, mas as pessoas vão ouvir falar de nós outra vez.///


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ara começar, falemos sobre este concerto. Como foi para os EAK? Este concerto para nós foi mais um. Foi especial por termos tocado com os Every Time I Die, foi um bocado especial por ter sido a primeira vez que tocamos sem o nosso baixista. Infelizmente o Hélder não esteve connosco, e felizmente tivemos o Bernardo, ex-Wild Tiger Affair, que fez um trabalho extraordinário, ao conseguir em duas semanas tocar sete músicas de forma espectacular. Mas em termos de concerto… foi mais um, foi porreiro mas a verdade é que foi mais um. Mas é como te digo, o facto de ter sido com os Every Time I Die torna a coisa especial, tendo em conta que é uma banda que gostamos e acompanhamos há mais de oito, nove, anos… e o facto de ter sido no Hard Club, que é uma das melhores casas que podes encontrar. Já tocamos aqui

500 vezes e vamos sempre voltar porque aqui sentimo-nos bem… somos muito bem tratados e é tudo espectacular. Consideras que actualmente os EAK, ao vivo, são uma máquina bem oleada? Eu pessoalmente gosto muito de tocar ao vivo, e acho que somos uma banda que é bem melhor em concerto do que em disco. Apesar de considerar este “MuzEAK” um grande álbum… o Dani já está connosco há muito tempo a fazer o som, e apostamos em fazer tudo cá dentro, ao contrário do “Bipolar” que mandamos para os E.U.A para masterizar e tal. Aliás acabamos por não gostar do trabalho que foi feito nos E.U.A., porque queríamos algo mais “sujo”, e acabamos por iniciar ai a nossa relação com o Dani. É muito bom ter alguém que nos acompanha para todo o lado, e que oferece exactamente aquilo que nós queremos. É juntar o útil ao agra-

dável. Mas sou-te sincero, eu gosto muito de estar em estúdio, mas onde me sinto verdadeiramente bem é em cima do palco a olhar para as vossas caras, e ver a reacção na cara das pessoas. Ver que aquele está a gostar, que o outro está a dizer “ok, é mais uma”, e que há outro que está maravilhado a pensar que nunca viu nada do género. Gosto de perceber qual é o sentimento que as pessoas têm, face ao nosso desempenho. Hoje foi muito estranho, porque pela primeira vez tocamos sem o Hélder (baixista), mas mesmo assim foi muito porreiro. Já equacionaram a hipótese de usar projecções durante os vossos concertos? Já jogamos com as projecções, mas a verdade é que eu sou da opinião de que as projecções fazem com o público se dis-


traia um bocado. Há bandas em que as projecções funcionam muito bem, dou-te o exemplo dos Amenra, que tocaram no Amplifest’12… eu confesso que fiquei burro com aquela merda. Mas acho que o nosso som não se adequa a uma cena assim. A sério? Eu quando falo nas projecções é porque acho que há músicas em que fazia sentido um ambiente mais soturno… Eu digo-te uma coisa… nós temos vídeos gravados, o Diogo fez um trabalho excepcional na “Always Remember”, o Pedro Agra fez também um trabalho fantástico com a “Years… You”, e queremos gravar agora para um música nova que temos, a “Borderline”, mas digo-te: se nós tivéssemos projecções, ou mesmo um videoclip, da “Borderline”, que fala sobre a luta de cães e como alguns animais são mal tratados, algo a que eu estou muito ligado (tenho três cães e gosto muito de animais)… se fizéssemos projecções, teria que ser com imagens reais, e a verdade é que a maior parte do pessoal não ia conseguir olhar para a tela. Porque estamos a falar numa coisa muito dark, muito pesadas, e muito real. Eu nas minhas letras não gosto de abordar os problemas sociais e políticos que encontram por este país fora… prefiro falar sobre vivências pessoais, sobre coisas pelas quais eu passei. E tanto falas de aspectos negativos, como falas de aspectos positivos, como é o caso do amor… Eu gosto de falar de amor, de amizade… de tudo. Não gosto de ser politiqueiro e acho que as projecções a acontecer seriam algo demasiado pesado. Mas não tens curiosidade de experimentar? Não, sinceramente não tenho curiosidade em experimentar. Prefiro que as pessoas olhem para mim, para o Chefe (baterista), para o Carlos, para o Jorge, para o Hélder… neste caso para o Bernardo. Prefiro que as pessoas sintam o que nós estamos a fazer, em vez de se distraírem com as projecções, que podem não estar a transmitir exactamente aquilo que estamos a dizer.

Mas por exemplo em Amenra… não me digas que ficaste colado o tempo inteiro às projecções. Realmente não fiquei, sou sincero. Eu sou um gajo que tem o hábito de colar aos bateristas, claro que dou atenção aos outros instrumentos, mas para mim a máquina por detrás de qualquer banda é a bateria. Não me digas que és como o Henry Rollins, que passa os ensaios colado ao baterista, a cuspir as letras… Eu sou um bocado assim. Eu sou agarrado à bateria. Podemos ter o melhor guitarrista do mundo, mas se tiveres um baterista medíocre… não vais a lado nenhum. E eu sinto-me um privilegiado ao poder ter um baterista como o Ricardo na banda. Para mim, ele é o melhor baterista que temos em Portugal. Gosto muito, por exemplo, do Dave de Concealment, o gajo é fantástico. Temos muitos amigos que são grandes bateristas mas… o Chefe é aquele gajo que entende perfeitamente aquilo que eu quero, e é capaz de me dar mais do que eu quero. Ele é o motor da nossa banda. O “MuzEAK” foi editado em 2011. Vocês já têm novas músicas, certo? Sim, temos quatro músicas novas, que em princípio serão lançadas pela Raging Planet, em formato de EP. Ainda estamos a decidir se vai uma edição em vinil, uma coisa muito pequena, tipo 150/200 cópias… só para dizermos que estamos aqui. Não há necessidade de gravar desenfreadamente novos discos, até porque não os consegues vender. Vamos tentar fazer uma coisa de coleccionador. Acho que quem gosta de nós, vai comprar. Infelizmente estamos sem o Hélder, encontramo-nos num dilema… vamos esperar para ver. Essas quatro músicas seguem a sonoridade “Musclecore”? É isso, é a cena EAK. EAK nunca teve uma linha, e nunca vai ter uma linha, e vão ser mais quatro músicas sem uma linha. Vamos ver o que o pessoal acha. EAK nunca se prendeu a uma linha, e nunca irá fazer isso. E tendo em conta que acabamos ver os Every Time I Die, isto faz ainda

mais sentido. Sim. Já tivemos pessoas a dizer que tínhamos músicas que faziam lembrar Every Time I Die, músicas que faziam lembrar outras coisas, etc. Nós não queremos fazer lembrar ninguém. Nós temos a nossa cena: não há prisões. Nós somos livres de fazer tudo aquilo que queremos. A nossa banda nunca foi à base de receita. Tudo soa a EAK, e EAK não soa a nada. É uma mistura de todas as influências que temos. Planeiam fazer uma tour mais extensiva pelo estrangeiro? Como eu te disse, agora com este problema que temos com o Hélder, acaba por ser um bocado mais difícil responder-te a isso. Um dos nossos objectivos foi sempre tocar lá fora. Nós não temos problema de gastar dinheiro com a banda, até porque já gastamos MUITO, mas pagar para tocar nunca entrou nos nossos planos, e eu tenho plena consciência que para tocar lá fora tens que fazer um esforço muito grande. É deixar trabalho, família, etc. Olha os Every Time I Die que tocaram ontem em Madrid para 65 pessoas. Cabe na cabeça de alguém? É sempre um risco. Claro que quero correr esse risco, mas tem que ser uma cena controlada. Vamos ver. Actualmente muitas das bandas que praticam hardcore têm vindo a receber boa aceitação. Achas que isso pode ajudar a impulsionar os EAK? Não! Eu já gosto de Every Time I Die, e Converge, há muito tempo. Converge é das minhas bandas favoritas… tenho o gajo tatuado no meu corpo e tudo. Aquilo é realmente o que eu gosto. Eu compreendo a tua pergunta, mas a verdade é que nunca fui um gajo muito dado ao hardcore. Nós fizemos umas músicas a atirar um bocado para o hardcore, mas nunca fui aquilo que eu quis fazer. Quando eu ouço Converge não consigo associar ao hardcore. Agora a cena do hardcore, a verdade é que nunca identifiquei muito com ele, e não vai ser agora que o vou fazer. Respeito muito, mas falar que esta moda que o hardcore é agora nos vai dar alguma projecção: não concordo. ///


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ara todos os que não te conhecem, quem é o Suzuki Junzo? Guitarrista e vocalista de Tóquio, Japão. Toco, especialmente, sozinho com a companhia da minha guitarra e voz. Sou membro de uma banda de rock psicadélico de seu nome, MIMINOKOTO (http://miminokoto.com/) com o Koji Shimura dos Acid Mothers Temple e dos 20 Guilders. Tenho também um projecto com o Mitsuru Tabata (guitarrista dos Zeni Geva e Acid Mothers Temple), que se chama Duo Unit. Começaste a tua carreira a solo há 10 anos atrás. É justo dizer que é na tua carreira a solo que podemos encontrar o teu lado mais profundo? A verdade é que já se passaram 15 anos desde que eu comecei a minha carreira a solo, e sou o guitarrista, e vocalista, dos MIMINOKOTO e dos 20 Guilders. Também vou colaborando com muitos artistas underground de Tóquio. Mas sim, o meu trabalho a solo é onde podem encontrar o lado mais profundo em mim, que eu injecto através dos meus pensamentos, personalidade e o meu cosmos. Como definirias a tua música? Hmm, eu penso que a minha música é uma espécie de folk/blues tocada através da perspectiva de um músico underground japonês. Pelo menos é isso que eu espero que aconteça. Quais são as tuas maiores influências? A minha vida. O que nos podes dizer sobre o teu processo criativo?

Eu tenho a tendência de esperar pela doce inspiração: quando eu caminho pela rua, encontro um amigo e aproveito para falar e beber com ele, quando me sento sozinho à noite no meu quarto. Basicamente eu estou sempre à espera que a inspiração chegue. Se ela de facto chegar, não há que apressar as coisas, é deixar que ela percorra todo o teu corpo e alma, aproveitando da melhor forma possível. Sempre que eu tento apressar a inspiração que me chega… acabo por deixa-la morrer. [risos]

Editaste, este ano, o «Eight-Side Infinity». Na tua opinião quais são as diferenças entre este trabalhos e todos os outros que lançaste? Eu, para ser sincero, não sei quais são as diferenças entre o «Eight-Side Infinity» e os meus restantes trabalhos. Posso-te dizer que tentei focar-me mais na questão do fuzz/eco e feedback do meu som, e usando a minha voz. Para mim isto é pura e simplesmente Rock’N’Roll. Recentemente reeditaste o «Ode To A Blue Ghost». Este trabalho foi inspirado pelo «Blue Ghost Blues» (1927) do Lonnie Johnson, certo? Sim! Eu amo o blues antigo, o folk da região Appalachia, dos Estados Unidos da América, com o banjo, etc. O Lonnie Johnson é um dos meus guitarristas de blues predilectos. Ele é também um excelente vocalista, para não falar nas maravilhosas letras que ele escreveu. Eu sou muito inspirado pela sua maneira de cantar, e pelas suas letras. Sobre o «Blue Ghost Blues», eu tenho um grande interesse, e sou muito influenciado, pelas vibrações/sentimentos/inspirações da cena noise de 1978. Quando eu toco guitarra, nesse estilo onde uso feedback, eu costumo trocar os pedais das minhas gui-

tarras, para um estilo mais “normal”. O feedback usado em peças como o “Sombres of Echoes” faz com que eu tenha acesso ao lado mais profundo que existem mim. Para mim o «Blue Ghost Blues» funciona dessa maneira. Ele é o grande culpado. [risos]

Em 2011 lanças-te o fantástico «Sings!». Um álbum ao vivo, com a tua voz a ter uma posição de grande relevo. Descreveste como sendo um blues decadente, e sobre morte. O blues é uma grande influência para ti. Como foi criar e gravar este material? Fico muito feliz em saber que gostaste do «Sings!». Recentemente eu parei de cantar nos meus trabalhos a solo, porque sou vocalista dos MIMINOKOTO, e dos 20 Guilders. Como tu disseste, o «Sings!» é um registo ao vivo. Tens memória do terramoto, e desastre, que o Japão recebeu em Março? Eu tinha planeada uma pequena tour pela lado oeste do Japão. Exactamente três dias depois do terramoto. Antes desse terrível incidente eu tinha planeado tocar normalmente o meu material a solo, sem voz. Mas com o terramoto eu tomei a decisão de cantar usando apenas a minha guitarra e amplificador, sem pedais. Na altura, em Tóquio, não havia muitos estragos para além da zona de Fukushima, mas ficou tudo virado do avesso e com uma atmosfera muito negra e estranha. Lembro-me de ter um concerto no dia depois do terramoto. Tóquio estava silenciosa e sem electricidade… claro que todos estavam cheios de medo, inclusive eu. Havia tanta tensão acumulada que eu quis cantar para ter a certeza que eu conseguia lidar e ultrapassar esta horrível situação. Por vezes ouço este disco e confesso que sinto algumas coisas estranhas que flutu-


am em direcção a mim. Mas por mim tudo bem. Estou feliz por ter tido a oportunidade de editar este álbum. É acima de tudo um documento histórico.

No «Sings!» tu utilizas o japonês. Quais são as tuas inspirações a nível lírico? Eu assisti muitos filmes japoneses antigos, e li muitas novelas japonesas. Quando eu assisto a um filme, eu não apanho as palavras que os actores vão dizendo, eu presto mais atenção aos movimentos corporais, como por exemplo os olhos, dedos, etc. Por vezes encontro pessoas que não conseguem viver dentro de uma comunidade, que estão propícias a “implodirem”, dizendo mentiras… mas estão desesperadamente à espera dos braços afectuosos de alguém. Eu sei que é difícil lidar com essas pessoas e que podem perder as suas vidas facilmente. Mas o que é a vida? Por vezes as palavras podem contar uma história, mas as palavras não são tudo. Eu quero ver as coisas “invisíveis”, e quero ouvir o silêncio. Quando eu escrevo as minhas letras, eu estou constantemente a pensar nessas coisas. Dás concertos por todo o mundo. Como relembras as experiências em Portugal? Portugal é muito bonito, e tem pessoas maravilhosas como o André Mendes da Amplificasom. Os concertos no Porto foram maravilhosos para mim. Estou sempre feliz quando tenho oportunidade de passar pelo Porto e Portugal. No dia 27 de Novembro vais iniciar uma tour norte-americana, com 10 concertos agendados. Quais são as tuas expectativas? Vai ser a minha primeira vez nos E.U.A. Estou tão excitado!!! Estou muito excitado pela possibilidade de encontrar novos, e velhos (temos trocado emails durante muitos anos, mas nunca nos conhecemos pessoalmente) amigos, e partilhar uma cerveja com eles. Espero que gostem da minha música, e claro que estou ansioso por entrar no mercado do vinil em segunda-mão. É uma espécie de sonho que eu tenho. ///


C

omo começou este projeto e como culminou no lançamento do “Bow Down Before the Blood Court”? Tudo começou quando o Eric veio ter comigo e com o Bob após alguns anos sem fazer Metal. Quando voltámos ao ativo com os Asphyx, ele estava indisponível para se juntar a nós, porque andava muito ocupado e tinha outras prioridades na sua vida. Encontrámos o Paul como o substituto perfeito. É óbvio que com um estilo um pouco diferente, mas a sonoridade era praticamente a mesma. A forma como ambos tocam guitarra é muito semelhante. Ao longo dos anos, o Eric manteve sempre o contacto connosco, somos amigos. Por isso, quando ele nos falou da sua ideia, em 2009, propusemos ir para a sala de ensaios improvisar um pouco e ver onde aquilo nos levava. Na altura, o projeto nem se chamava Grand Supreme Blood Court, mas sim

The Company of Undertakers. Estávamos a divertir-nos imenso e o Alwin disse-nos que sentia saudades de tocar guitarra, visto que é o Paul que compõe o material todo para os Asphyx atualmente. Apesar de tocar baixo nos Asphyx e de também o ter feito nos Pulverizer, o Alwin é guitarrista nos Escutcheon. Então, ele e o Eric juntaram-se e criaram montes de riffs maravilhosos. Antes que dessemos conta, já tínhamos todas as canções compostas. Foi aí que o Eric me pediu para ser eu o vocalista e, como o material era tão bom e brutal, eu aceitei e comprometi-me a escrever as letras também. Só faltava um baixista para completar a formação e falei ao Eric do Theo, já que é um tipo impecável nos Hail of Bullets. Todos o conhecíamos e sabíamos como trabalhava, por isso achámos que era a melhor coisa a fazer. Não queríamos enfiar um estranho na banda. Depois, a Century Media ficou curiosa com o que andávamos a fazer e pergun-

tou-nos se podia ouvir aquilo que compusemos. Dissemos que sim, claro. Assim que ouviu, pediu-nos para lançar o material e aceitámos. A maioria de nós trabalha com a editora e o Eric ainda recebe alguns direitos de autor por causa dos discos antigos dos Asphyx. Por isso, foi algo muito confortável. Resumidamente, é esta a história. Há, claramente, um conceito por detrás das letras. Podes falar um pouco sobre ele e contar como surgiu? Na verdade, foi uma coincidência, já que, inicialmente, o projeto se chamava The Company of Undertakers. Tinha esse nome, porque, apesar de não o vermos como uma brincadeira, era apenas algo para nos divertirmos. Porém, com o tempo, as estruturas das canções, os riffs e afins ficaram tão bons e profissionais que chegámos à conclusão que tínhamos dar um passo em frente. O conceito surgiu quando estava com o Eric


enquanto ele escrevia as partes de guitarra. De repente, sentei-me no sofá e veio-me à cabeça uma ideia à qual chamei “Supreme Blood Court”, ou algo do género. Contei-lhe a minha ideia e ele mostrou-se muito entusiasmado e incentivou-me a desenvolvê-la. Então, comecei a escrever sobre isso e as canções ficaram prontas. Foi muito divertido e prazeroso. No entanto, apesar de ser um disco de Death Metal e as letras serem típicas do género, as pessoas deviam ler o que escrevi como uma espécie de livro de banda-desenhada. Como se fosse um livro de banda-desenhada sobre os cinco juízes que aparecem na Terra do nada e começam a servir justiça. Ninguém é preso, todos morrem no fim. A sentença é sempre a morte. Sim, todos morrem cremados no final. Exato. Tudo depende do crime que cometeste e se a sentença vai ser dolorosa e lenta, ou piedosa e rápida. Foi muito divertido escrever esta história e acho que liga muito bem com a banda. Sem dúvida. Contudo, apesar de ser um conceito refrescante, também parece ser um pouco limitado. Foi difícil escrever um álbum inteiro sobre ele? Podes crer que foi! (risos) No início, começas cheio de frescura e com um montão de ideias, mas, depois, à medida que vais escrevendo, apercebes-te que te estás a repetir. Só falas da justiça, dos juízes e das brutais sentenças de morte. De repente, apercebes-te que a tua fonte de inspiração está completamente gasta. Eu lia as letras e via que estava sempre a repetir versos. Foram precisas várias revisões, porque tinha de ser mais original e fazer algo melhor. No fim, foi muito difícil, especialmente as duas últimas letras. Até encontrar ideias novas, andava às voltas. Algumas palavras ainda se repetem, mas tentei evitá-lo ao máximo. Foi uma verdadeira luta. Ainda é muito cedo, mas achas que vais utilizar o mesmo conceito no próximo álbum? Não! O que acontece é que, quando trabalho com bandas, gosto de estar sempre à frente dos acontecimentos. Por exemplo, se termino um álbum, gosto de começar a pensar imediatamente em ideias para o próximo. Não gosto de me sentir desinspirado quando me apresentam ideias para um novo trabalho. Com os Grand Supreme Blood Court, estava num dilema, porque tinha esgotado todos os meus recursos. Só

há pouco tempo é que me surgiu uma ideia diferente quando estava na sala de ensaios. Foi uma coincidência, até. Também está relacionada com tribunais, mas vai ser diferente. Pelo menos, já tenho uma ideia para um possível próximo álbum. De certeza que vamos lançar mais um, porque adorámos fazer este. Como foi trabalhar com o Eric depois de tantos anos? Deixei de trabalhar com ele depois do “Last One on Earth”, ao passo que o Bob foi após o “On the Wings of Inferno”, em 2000. Ao longo dos anos, continuámos amigos, por isso não existia qualquer animosidade entre nós. Sempre foi uma boa relação. Voltar a trabalhar com ele foi uma espécie de flashback, especialmente quando nos juntámos os três na sala de ensaios e pensámos “aqui estamos nós outra vez”. Para mim, o melhor foi ver o Eric voltar a fazer aquilo que mais gosta, tocar Death Metal. Ele é um grande compositor de riffs e um excelente guitarrista dentro do seu estilo. Não é um solista, mas a forma como escreve riffs… Foi mesmo muito bom ver o prazer que ele retira disto tudo. Simplesmente fantástico. Será que podemos ver este projeto como uma continuação do que vocês fizeram enquanto estiveram juntos nos Asphyx? Isto é, como se os Asphyx tivessem terminado depois do “Last One on Earth” e tivessem regressado agora sob outra denominação… Nem por isso, porque nunca foi essa a nossa intenção. Quando o Eric veio ter connosco, não imaginámos sequer que acabaríamos por lançar um disco. Depois, a Century Media pediu-nos para lançar o álbum, porque achava que tinha potencial. E nós aceitámos. Por que não haveríamos de o fazer? O material já estava composto. A grande diferença entre hoje e o passado é que o Eric não estava habituado a trabalhar com outro guitarrista. Ele foi sempre o único guitarrista nas bandas em que tocou. Por isso, estava um pouco cético em relação a isso. No entanto, depois de ter trabalhado com o Alwin, disse que houve uma química perfeita entre os dois. Com certeza terás reparado em algumas melodias ao longo do álbum que não parecem ter sido escritas pelo Eric. Essas partes são as do Alwin. Muita gente ficaria surpreendida se soubesse o quanto ele contribuiu para este trabalho. No que toca às guitarras, acho que foi mesmo 50/50 entre ele e o Eric. No entanto, voltando à tua pergunta, a resposta é sim. Podes ver este projeto como uma continuação do

que eu, o Bob e o Eric fizemos no passado. Até porque este projeto e os Asphyx partilham muitas semelhanças. Algo que não admira, já que vocês os três fazem, ou já fizeram no caso do Eric, parte dos Asphyx. Além disso, tanto este álbum como o “Deathhammer” foram misturados pelo Dan Swanö. Não te preocupa que as pessoas pensem que as duas bandas são demasiado parecidas? Ou achas que existem claras diferenças entre elas? Em primeiro lugar, penso que existem algumas diferenças, mas é óbvio que existem muitas semelhanças também. Nós perguntámo-nos muitas vezes o que devíamos fazer. Teria sido melhor não fazer nada e deixar o material arrumado na estante? Teria sido uma pena! Já sabíamos que as pessoas nos iam perguntar se não teria sido mais simples o Eric regressar aos Asphyx. Contudo, há uma explicação para isso. A base dos Asphyx de antigamente e de hoje é a mesma, ou seja, nunca nos vamos vender e iremos sempre preservar o estilo brutal que temos. No entanto, há uma clara diferença entre o que eram os Asphyx antigamente e o que são hoje. O que acontece com os Grand Supreme Blood Court é que, principalmente devido aos riffs do Eric, remetem um pouco para o estilo antigo dos Asphyx. Claro que existem semelhanças, mas atualmente é o Paul que escreve tudo para os Asphyx. Foi ele que escreveu o “Death… the Brutal Way” e o “Deathhammer”. Acho que teria sido uma falta de respeito para com ele expulsá-lo só para trazer o Eric de volta. Não teria sido nada simpático, como deves entender. O surgimento deste projeto foi uma espécie de desenvolvimento a partir dos problemas que falei. Acabámos por fazer um disco e, ao que parece, o Alwin gostou muito de se ter juntado a nós, tal como o Theo. Foi assim que aconteceu e não queremos ofender ninguém! Simplesmente fazemos aquilo de que gostamos. Achamos que o material é muito bom e divertimo-nos imenso. Haverá sempre gente a atacar-nos. No entanto, é como já disse, íamos deixar este material arrumado na estante? Não acredito que as pessoas vos ataquem por causa disso. O que acontece é que tu, em especial, tens um estilo muito característico e a forma como cantas nos Asphyx ou nos Hail of Bullets, por exemplo, é muito semelhante. As pessoas notam isso, mas não o veem como algo negativo, entendes? Sim, acho que tens razão. É difícil para mim,


é a minha voz. Com os Asphyx tento fazer gritos mais agudos, ao passo que nos Hail of Bullets tento fazê-los mais graves. Dá sempre para ver que sou eu, é a minha voz. (risos) Independentemente do que faça, é assim que soa. Antes de o Eric vir ter comigo, pensava que já tinha duas bandas e que não me ia meter em mais nenhum projeto, senão seria demasiado. Nunca esperava era que o Eric viesse ter comigo com uma proposta tão aliciante. Não é que ele me tenha implorado, mas notei que ele queria muito que me juntasse a ele e não consegui dizer que não. Era bom demais para dizer que não. Claro, não te estou a julgar! (risos) Não tens culpa de ter um registo tão característico. Aliás, isso até é muito bom. Sim, mas, em certa medida, acabas por ter razão. Às vezes, acho que estou a exagerar com estas bandas todas. No entanto, de uma coisa tenho a certeza. Esta vai ser a última banda em que me envolvo, independentemente do que acontecer! (risos) Já cheguei ao meu limite de bandas. Mas não criarias uma banda onde não tocasses Death Metal e fosses baixista em vez de vocalista? Afinal de contas, chegaste a tocar baixo nos Asphyx e nos Pestilence. Tenho falado dessa ideia com um amigo meu nos últimos cinco anos. Ele toca Hardcore e, uma vez, estávamos numa festa e eu disse-lhe que se alguma vez criasse um projeto onde só tocasse baixo que seria algo na onda de Discharge antigo, GBH, por aí. E seria esse meu amigo a assumir as vozes. Para mim, já chega de ser vocalista! (risos) No entanto, não vou concretizar essa ideia para já, porque estou demasiado ocupado com outras coisas. Regressando aos Grand Supreme Blood Court, o vosso primeiro espetáculo vai ser na Alemanha, no dia 1 de Dezembro. Já ensaiaram muito? Ensaiámos uma vez com a banda completa e algumas vezes só eu, o Bob e o Eric. Foi mais por causa do Eric, porque há muito tempo que não pisa um palco. Eu e os restantes membros já somos veteranos. Fazemos espetáculos durante o ano todo, por isso não é nada de novo. Será entusiasmante partilhar o palco com o Eric depois destes anos todos. No entanto, também

será estranho. O espetáculo é a um Sábado e o que vamos fazer é um ensaio geral na Sexta-Feira. Todos sabemos qual é o nosso papel e estamos ansiosos para tocar.

Asphyx, tive problemas com a voz. Foi uma verdadeira treta! No fim, achámos que vocês mereciam mais! Queremos voltar aí e fazer um espetáculo como deve ser.

E que planos têm para a agenda da banda? Não exagerar. Nunca tivemos a intenção de tocar tanto ao vivo como nos Asphyx ou nos Hail of Bullets. Por isso, se fizermos mais espetáculos, queremos que sejam mais exclusivos. Muita gente já nos perguntou o motivo de o nosso primeiro espetáculo ser em Ingolstadt. Escolhemos esse lugar, porque as pessoas que estão a organizar o evento são muito especiais. Costumam organizar um festival chamado Death Doomed the Age e é sempre um evento muito especial. Por exemplo, este ano receberam o primeiro espetáculo de sempre dos Death Strike. Quando souberam que íamos lançar um disco, convidaram-nos e nós aceitámos, porque sabemos que organizam tudo muito bem. A comida é maravilhosa, assim como o ambiente e a cerveja. Vai ser muito bom! Depois, talvez façamos alguns espetáculos na Holanda. Gostaríamos de tocar no Party. San outra vez, por exemplo, porque gostamos muito desse festival. A partir daí, talvez escolher alguns concertos em alguns países onde realmente desejemos tocar.

Sim, mas safaram-se… No fim, sim. Com os Hail of Bullets, estava em plena forma. Correu muito bem, mas com os Asphyx… Quando acabou, até dissemos que foi o pior concerto que demos. Eu sei que as pessoas gostaram muito. Foi divertido ver o Tony, dos Whiplash, a saltar do palco a meio do nosso concerto. No fim, ele veio ter connosco e elogiou-nos, mas eu disse que estava triste com o que tinha acontecido e que me sentia mal, porque achava que podíamos ter feito muito melhor. Se calhar, como público, vocês não sentem isso, mas como banda, nós sentimos que podíamos ter feito melhor e que vocês mereciam mais. Ainda bem que gostaram. No fim de contas, o espetáculo nem foi assim tão mau, mas o início foi um pouco atabalhoado, especialmente por causa da minha voz. Quando tens problemas de voz, tens de aquecer durante uns três ou quatro temas e consegues recuperá-la por mais algum tempo. Só não entendi qual foi o problema. Como disse, penso que tem a ver com os voos regulares. Uns dias antes, estivemos na Roménia e, depois, eu fui para Portugal por causa do concerto de Hail of Bullets e, logo no dia a seguir, subi ao palco com os Asphyx. É estranho, porque quando andámos em digressão por Maryland, nos E.U.A., nunca tive a voz em perfeitas condições, apesar de treinar muito. Daí defender que o problema se deve ao ar condicionado dos aviões. Mas, voltando ao festival, se nos convidarem para ir aí outra vez, nós vamos! (risos) Os meus cumprimentos aos organizadores pelo seu trabalho fantástico. Só foi pena os Hirax não terem aparecido…

E já que falas de festivais, tocaste este ano com os Asphyx e os Hail of Bullets cá em Portugal, no SWR Barroselas Metalfest. Gostaste da experiência e do festival? Se gostei! Foi muito bom. Em primeiro lugar, o festival era, assim como o ambiente. Por vezes, até andava lá no meio do pessoal e tudo… Sim, eu vi-te e até chegámos a conversar! A sério? (risos) Sim, estive no meet & greet contigo. Porreiro! (risos) Há coisas que nunca esquecemos! Lembro-me de uns grandes bonecos de cartão que lá estavam e um deles era eu. Tirámos algumas fotografias e divertimo-nos imenso. Também nos fizeram uma espécie de questionário com os Hail of Bullets. A única coisa má, e não sei a razão para ter acontecido, foi a minha voz estar danificada. Talvez tenha sido por causa dos voos regulares e do ar condicionado dos aviões. Quando estava em palco com os

E, pronto, chegámos ao fim. Alguma coisa que queiras acrescentar? Apenas que esperamos regressar aí, porque não ficámos satisfeitos com o último espetáculo. Teremos a nossa vingança! De certeza que voltaremos a Portugal, porque adorámos o tempo que passámos aí. E, quem sabe, se formos aí com os Asphyx, basta comprar dois bilhetes extra, para o Theo e o Eric, e os Grand Supreme Blood Court também poderão tocar! (risos) Muito obrigado a ti e ao resto dos fãs portugueses que vieram ver-nos e nos apoiam. ///


Q

ual é o principal tema presente em “Tone of Things to Come”, o vosso primeiro álbum? Difundir Obscuridade Sonora, conjurar ideias e misticismo da Morte, Vida, Som, Cosmos, num buraco negro de Death Black Metal psicadelismo, Doom, experimentação… Chaos Echoes é “novo” nome na cena de Metal francesa, mas na realidade tu e o teu irmão Ilmar Uibo formaram esta banda das cinzas dos Bloody Sign. Quais as principais diferenças entre os dois projetos? Maior liberdade, mais improvisação, uma forma mais profunda de explorar a essência das canções. Tentamos reunir ideias simples e tentamos manter-nos fiéis a elas. Igualmente, o sentimento encantatório, quase de trance, é mais predominante, assim como o apagar de fronteiras, a caminho do Desconhecido. Uma vez que o último álbum de Bloody Sign era precisamente intitulado “Chaos Echoes” (2010), achas que podemos falar que se estabeleceu uma ponte entre os dois registos e projetos? Na verdade não podemos fazer muito para evitar essa ponte que falas, uma vez que os dois principais membros de Bloody Sign são os autores dos temas em Chaos Echoes. Mas mantivemos o nome porque gostamos dele e quando este brotou da nossa cabeça, não deixou de nos assombrar… e isso ainda acontece. Este nome representa na perfeição as minhas crenças mais profundas em relação à música, ao cosmos, à vida e espiritualidade. Como funcionam em termos de composição e ensaios, dado que os membros da banda vivem espalhados por França? Neste momento, conseguimos ter sessões de três dias de ensaios por mês, por isso, não é muito mau. Como são do amanhecer até ao anoitecer ainda nos sobra tempo para falar de tudo o que precisamos: desde o nosso envolvimento com o projeto, a tudo o que está relacionado com a promo-

ção, editoras, vendas… E, por fim, mas não menos importante, para nos divertirmos enquanto amigos, bebermos um copo, fumarmos, ouvirmos música… Uma imersão de três dias. Porque razão optaram por lançar o álbum através da vossa própria editor, a Chaos Echoes Products? Não é a nossa editora, trata-se apenas um lançamento autofinanciado. Não tem qualquer selo. Quisemos começar de novo e lançar o álbum através dos nossos meios, como se fossemos uma banda nova. Isto permite-nos uma liberdade total, fazer a capa e o “artwork” que queremos. Não quisemos esperar seis meses para que uma editora lançasse este material… ou estar, seis meses depois de tudo concluído, ainda à procura de editora. Recentemente, chegámos a entendimento com a Debemur Morti para o lançamento em vinil de “Tone of Things to Come” e para o nosso próximo álbum. Estamos muito orgulhosos porque é uma editora muito dedicada. O álbum foi gravado em apenas três dias em Colmar! Como conseguiram fazer tudo em em tão pouco tempo? Não dormimos quase nada, estávamos muito concentrados, gravámos ao vivo em conjunto e não tivemos quase tempo para pensar. Mas sabíamos o que queríamos. Qual a razão de optarem pelo Patrick W. Engel para a mistura e masterização do disco? Ele assinou um trabalho sublime no último álbum de Bloody Sign. Conhece-lo tem sido uma experiência incrível: ele tem a mente aberta, sabe imenso sobre vários tipos de música, é maníaco por Metal e quando entra no som da banda, tenta perceber como pode melhorá-lo. Mas, o facto de ter experiência em mistura e masterização de bandas de culto de que nós gostamos, foi decisivo para esta escolha. Num manifesto no vosso “site”, descrevem o som da banda como se pegassem no Death Metal dos Bloody Sign inserido num “buraco negro de improvisação, psicadelismo e trance. Extraindo material do envelope acús-

tico e formal para gerar uma vitalidade híbrida. Até ao desconhecido…” O que vos fez ir nesta direção, mas retorcida e obscura? A única resposta da qual estou seguro é: “porque sim”. Os Chaos Echoes conjugam vários géneros musicais. Sentem que continuarão a enveredar por este estilo experimental e imprevisível ou pensam optar por uma direção mais definida em termos de composição para o futuro? Tocamos essencialmente o que sentimos. Não quero que a escrita de canções derive muito do intelecto. Todos tocamos noutras banda ou projetos, alguns deles for a do Metal, de música medieval, jazz progressivo psicadélico, música livre, contemporânea, música para teatro… Esta é uma forma de aprendemos sempre mais sobre música e sobre nós próprios. Por isso, quando a ideia é espalhar obscuridade sonora, todas as ferramentas e elementos já estão dentro de nós, à espera de fluir. Está tudo relacionado com a consciência, sentir a escuridão, trazendo consigo a vontade de agir. Tenho alguma curiosidade no que toca às vossas atuações ao vivo: há a tendência para tornar os vossos temas mais intensos, com mais espaço para improvisações ou existem um “caos controlado”? Tocámos na forma de dueto Chaos Echoes Duo Experience no Killtown Death Fest em setembro, mostrando um lado mais experimental e do improviso das coisas: guitarra, bateria e efeitos, tocando três vezes por dia na zona dos bares. Foi muito positivo, e o resultado não foi assim tão mau. Tivemos também o nosso amigo Marcelo Aguirre como vocalista convidado, um verdadeiro maluco por Metal da banda Evil Spirit, que também adora música experimental e cenas experimentais dos anos de 1970. Neste momento estamos a trabalhar numa “set list” para concerto em 2013. Sim, a experimentação estará mais presente e uma vez que as nossas canções ainda estão em evolução, acrescentaremos novos arranjos…///


O

que signifca este album (Flying Dutchmen) no vosso caminho enquanto músicos? “Flying Dutchmen” é um passo em frente para a banda. Tivemos sorte da editora Ván Records ter acedido a conceder-nos o tempo de estúdio que precisávamos. O nosso álbum anterior “In Dutch” é muito cru e directo. Para além das vozes que gravamos ao vivo, desta vez, pretendíamos um som mais produzido. Amadurecemos como banda e tornamo-nos melhores músicos devido às extensas tournées que fizemos nos últimos dois anos. Trazer toda esta experiência para o estúdio foi frutuoso. Espero que este álbum continue a nossa viagem na montanha russa. Este álbum tem alguma variedade de letras. Foi um acaso ou foi algo pensado? Frequentemente quando escrevo, começo com uma melodia ou uma linha vocal no pensamento. Depois as palavras começam a surgir. E tento escolher as palavras que cabem na melodia. Mas às vezes o contrário também acontece. A canção “Flying Dutchman”, por exemplo, tem uma melodia do tipo “feel-good”, mas a letra não fala de coisas felizes. De certa forma o vosso “hard rock” tem um sabor tradicional. Concordam? Sim, concordo totalmente. Gostamos muito da música dos anos 60, 70 e 80 do século passado. Somos muito inspirados pelas bandas pesadas dessas épocas. E é natural que oiças isso na nossa música. Não é que queiramos copiar, mas tentamos aprender com a sua forma de escrever e compor canções. Além disso gostamos da forma como soam essas bandas, que é muito direto e dinâmico. Algo de que sentimos falta na música contemporânea.

E como vai a demanda para restaurar o coração e a alma do Hard Rock? Penso que estamos a sair-nos bem. Sentimos falta de qualquer coisa no rock e metal contemporâneo. E parece que não somos os únicos. Fico feliz que a nossa audiência esteja a crescer, a crescer. Porque escolheram “Flying Dutchmen” como faixa para nomear o álbum e para o videoclip? Pensamos que a canção “Flying Dutchman” é a melhor para o videoclip. É muito compacta e contém o que gostamos e o que acreditamos; um bom riff, um coro que agarra e solos de guitarra. Para os que ainda não nos conhecem é uma boa introdução. Para além disso aparecemos muito bem neste clip. É sobre ter tudo e depois perder tudo. Divertimo-nos muito a fazê-lo. Podes falar um pouco das canções “Waiting in the Wings” e “Welcome to the Night”? “Waiting In the Wings” é provavelmente a faixa heavy metal do album. É bastante bombástica. Penso que a voz do Jochem’s soa muito bem aí. E penso também que contém um dos meus melhores solos de sempre. A letra descreve um filho que está prestes a suceder ao pai. Ele acha que está pronto e o pai pensa que não. É sobre ter fome de vida e ter que esperar. “Welcome To The Night” é uma canção escrita pelo Jochem. Obviamente influenciada por Thin Lizzy. Selim Lemouchi dos The Devil’s Blood tocou alguns solos de guitarra nessa faixa. A letra é sobre querer algo que sabes que é mau para ti. Mas não te importas e queres na mesma. “Frivolous Franny” fala de violência doméstica ou essa é apenas uma interpretação possível? Sim definitivamente acho que podes interpretar dessa forma. Em geral fala do

facto de a sociedade não conseguir controlar o que é fora do normal. Na canção três autoridades: um padre, um médico e um polícia, não conseguem evitar um homicídio. Uma canção pode surpreender-te depois de a teres tocado 100 vezes? Sim, por exemplo, as canções evoluem à medida que as tocamos ao vivo. Podemos adicionar-lhes mais dinâmica ou estender algumas partes. Mas também acontece quando oiço as canções, por vezes, descubro novas harmonias. À medida que o teu ouvido se vai treinando e não me refiro a treino de escola mas apenas de ouvido, aprendes a distinguir diferentes interações e a focar-te nelas. Como a interação entre a bateria e a linha de baixo ou da voz com o ritmo da canção. O que te influencia hoje na tua criação musical? Uma variedade de coisas. Gosto de viajar para lugares exóticos. Por alguma razão obtenho inspiração da natureza selvagem, como as montanhas rochosas ou a selva de Pristine. Mas também a vida do dia a dia pode ser interessante. Estamos rodeados de freaks, haha. Se fosses comprar um bilhete para um concerto como qualquer pessoa, para que banda compravas? Na verdade estou a pensar ir a um concerto dos Graveyard. Gostei muito do último LP deles: “Light’s Out”. Gostei do que vi no youtube. Espero ficar impressionado com o concerto. Frequentemente não temos tempo de ir a concertos já que também andamos na estrada a maior parte do tempo. Mas, felizmente, nos festivais podemos ver ótimas bandas. ///


A

ntes de mais, podes dizer-nos como é que a banda se juntou? Resumidamente: Em 2003, Fasano (guitarra) e Erkz (bateria), depois da separação da sua antiga banda, decidiram continuar a tocar juntos, chamando-me para vocalista... Em 2004, Gux entrou na banda, terminando a busca por um baixista e, nesse período, decidimos adicionar uma segunda guitarra à banda e eu tomei esse papel. Em 2005, o Erkz deixou a banda, e o TrasherDemo entrou como baterista

(no mesmo ano que gravámos a primeira promo). Nos anos seguintes tivemos vários concertos pela Itália, a partilhar o palco com alguns nomes grandes... Entretanto nós aparecemos numa compilação e tivémos um promos plit chamado “Grindcore Bullshit”. Em 2008 gravámos o “Anus Mundi”, lançado na histórica SOA Records, em 2009 tocámos no palco do Obscene Extreme Fest e, no final desse mesmo ano, lançámos o split de 7” com Agathocles, intitulado de “Progress of Civil Annihilation”.

No inicio de 2011, o Gux deixou a banda, ao ser depois substituído pelo Manuel no final do mesmo ano. Em Março de 2012 entrámos no estúdio para gravar o nosso primeiro longa-duração “… Com Cognizione di Causa”, recentemente lançado pela ucraniana Eclectic Productions. Porquê Tsubo? É verdade que o nome foi inspirado num famoso desenho animado Japonês? Sim, é verdade. Durante a pesquisa por um nome que nos satisfizesse, eu li casualmente algo sobre Hokuto No Ken e gos-


tei imediatamente da palavra Tsubo... os outros rapazes gostaram também e aqui estamos nós. De qualquer maneira o significado é mais profundo: Tsubo são pontos de pressão que se encontram no corpo humano, especialmente usados nas práticas orientais (como shatsu, por exemplo). Tsubo são os “pontos vitais do corpo humano”… Ao tocá-los podemos curar ou também matar alguém. A banda foi criada em 2003. 9 nos depois, com uma demo, dois splits, e um EP., finalmente o longa-duração é lançado. Qual é a sensação de ter este “pequeno monstro” nas ruas? Boa! [risos] Até porque estamos totalmente satisfeitos com o trabalho de toda a gente. O engenheiro de som, Giuseppe Orlando, foi bastante competente e disponível ao respeitar às nossas ideias. O Scott Hull é uma garantia relativamente à masterização e o Remy (Headsplit Design) interpretou perfeitamente (e maravilhosamente) o que lhe pedimos... Realmente não podemos pedir melhor que isto. E sobre a capa? É muito fixe. A ideia veio da própria banda?

Sim, foi uma ideia nossa... Nós pensámos mesmo muito sobre o artwork porque não queríamos deixar nada ao acaso... A inspiração veio da introdução “matricídio” (matricide): a música fala sobre a natureza e de estar a ser destruída, dia após dia, pela mão humana. Apesar de ser difícil, tentei explicar exactamente o que queríamos ao Remy, que interpretou perfeitamente e o criou de forma soberba. Tsubo é uma banda de death/grindcore metal, mais vai mais além disso. Por exemplo, a última faixa “Colto da Disperazione” recebeu uma dose de psicadelismo. É justo dizer que as vossas influências na banda vão para além do death/grindcore metal clássico, certo? Sim, nós nunca pretendemos ser considerados uma banda de grindcore ou, pelo menos, não apenas uma banda de grindcore! E é também por causa disto que nos definimos como “psychotic adrenalinic grind”: porque não somos uma banda de grindcore/death metal. Cada um de nós tem várias influências diferentes e gostamos de as juntar a todas, não fossilizar, e não pôr limites à nossa música. Pensámos que seria redutivo, e isso trava a espontaneidade dos nossos trabalhos. Seria uma pena, para falar a verdade. Nós escrevemos a nossa música na tentativa de nos satisfazermos, e depois é que vêm as “avaliações externas”. Provavelmente os puristas

da música extrema poderão não gostar da nossa proposta mas nós gostamos e, repito, nós tentamos sempre satisfazer-nos em primeiro lugar. Neste álbum a banda tem uma temática lírica específica? Também as letras são muito importantes para nós e passámos muito tempo a construir o arranjo da música com letras até gostarmos. Acima de tudo, as nossas letras falam sobre experiências de vida vividas, pensamentos, ideias e ideais. Nós somos influenciados pelo que nos rodeia e eu penso que uma vista de olhos ao redor poderá ser o suficiente para escrever toneladas de coisas. De qualquer das formas, estamos a trabalhar na tradução das nossas letras e eu espero que consigam encontrá-las muito em breve no nosso website. Eu sei que já tocaram ao vivo, e que fizeram até uma festa de lançamento deste álbum. Como é que as pessoas têm reagido a este novo material, até agora? Nós apresentámos o novo álbum no inicio de Novembro: todas as pessoas lá pareciam intrigadas e satisfeitas. Nós recebemos várias congratulações de quem ouviu o nosso álbum e, claro, é gratificante. As críticas são boas também, portanto podemos dizer que estamos felizes e totalmente satisfeitos com o nosso trabalho. ///


Depois de duas datas de celebração dos 20 anos de Desire, qual é o balanço que fazem deste retorno aos palcos? Tear: Um balanço extremamente satisfatório, porque foram duas grandes noites. Duas noites únicas, tal como prevíamos e esperávamos. Penso que, da nossa parte, conseguimos proporcionar isso da melhor forma a todos os que compareceram nos concertos. Da nossa parte, foi algo mesmo de muito, muito especial. Espero que também o tenha sido para quem esteve presente nestas duas datas, porque, para nós, foram os concertos mais especiais que demos em toda a nossa carreira. 20 anos de uma banda de metal em Portugal não é fácil… não é mesmo nada fácil, ainda para mais num estilo um tanto ou quanto mal tratado em Portugal. Há uns meses atrás, entrevistei o

John Paradiso, dos Evoken. Perguntei-lhe quando vinham a Portugal e ele respondeu que gostaria muito de regressar e, acima de tudo, voltar a ter a oportunidade de tocar com os Desire. O que sentem perante estas palavras? Tear: Em 2003, quando tivemos a oportunidade de fazer uma digressão com os Evoken e os Officium Triste, eles (os Evoken) confidenciaram-nos que, desde que ouviram o “Infinity…”, o nosso primeiro trabalho, nos tornámos uma banda de referência para eles e uma forte inspiração no som que fazem. Obviamente que, na altura, isso nos deixou bastante satisfeitos e orgulhos. Foi extremamente gratificante saber que uma banda dos E.U.A., que vagueia pelos mesmos meandros musicais que os Desire, nos tinha como referência. Também ansiamos pelo dia em que eles regressem para voltarmos a estar juntos em palco. Não só com

eles, mas também recordar os tempos com os Officium Triste. Toda essa digressão foi extremamente positiva e gratificante… Flame: Houve um grande espírito de camaradagem e as recordações que temos são as melhores. Parece que os Evoken têm a mesma opinião e, por isso, seria muito bom partilhar um palco ou uma tournée com essas duas bandas. Qual é o balanço que fazem destes 20 anos? Tear: Tivemos alguns momentos complicados. Talvez tenham sido mais os momentos complicados do que os momentos bons. Foram 20 anos difíceis, muito atribulados, com várias entradas e saídas de membros, problemas pessoais à mistura… Felizmente, ao fim destes anos todos, conseguimos o mais importante, que foi manter a personalidade e a identidade da ban-


da. Penso que isso se conseguiu muito graças ao facto de a espinha dorsal da banda se ter mantido junta ao longo deste tempo todo. Refiro-me a mim próprio, ao Flame e ao Mist, que somos os três elementos que permanecem desde o início. Todos os outros, infelizmente, foram saindo e foram entrando. Isso deveu-se a problemas pessoais, a incompatibilidades entre a vida pessoal e a vida da banda… Nos Desire, desde o início que sempre tivemos esta mentalidade e filosofia: as pessoas não integram a banda simplesmente pela sua capacidade técnica, mas essencialmente pelo seu espírito, feeling, entrega e pela forma como se identificam e reconhecem no som da banda. Como costumo dizer, Desire não é uma banda vulgar, não é uma banda feita de factos e detalhes triviais, mas sim uma banda especial. Pode não ser uma banda grande, mas é de certeza, e eu tenho essa convicção, que é uma grande banda. Lembro-me de falar com o Hrödulf, dos Azagatel, e ele dizer que a mudança constante de membros é uma das piores coisas que pode acontecer a uma banda, porque torna as coisas muito complicadas ao teres que estar constantemente a lidar com pessoas diferentes. E a única forma de contornar esse problema era através de muita perseverança e um amor genuíno. Este parece ser um problema da cena nacional. Concordam? Flame: Quando as pessoas abraçam um projeto, tem mesmo que ser de corpo e alma. Não pode ser abraçado como um passatempo ou como um hobbie. Todos nós passámos por uma idade onde era cool ter uma banda e, muitas vezes, essas mudanças de formação acabam por se refletir, porque as pessoas passado algum tempo começam a ver que realmente não têm andamento para isto, que não é isto que realmente querem fazer das suas vidas e acabam por sobrepor outros interesses aos da banda. Isso resulta na

constante troca de membros. É muito difícil encontrar pessoas que estejam todas vocacionadas para o mesmo estilo, principalmente no nosso caso, que temos um som muito específico. É fácil encontrar guitarristas e bateristas de Thrash Metal. É conforme as “ondas” do metal, em geral. Consideram que estas alterações na formação contribuíram para que os Desire tenham lançado apenas quatro trabalhos em 20 anos de carreira? Tear: Sem dúvida. Se recuarmos no tempo, obviamente que hoje em dia falta um ou outro elemento e, mesmo assim, consegues fazer as coisas. Até a própria gravação de um disco se tornou muito mais fácil com a chegada da era digital. Na altura, e estamos a falar desde 1992, quando ainda trocavam cassetes e onde a internet ainda não era utilizada de forma massiva, tudo era mais rudimentar, mais caseiro, mais arcaico. Tudo era mais… Flame: Por um lado, mais genuíno e mais verdadeiro até. Tear: Hoje em dia, talvez a ausência de um membro já seja não tão preponderante para que a banda não possa avançar com a gravação do disco. Quando falo nisto, também quero dizer que antigamente quando faltava um membro, isso trazia não só consequências nível de formação, mas também a nível monetário. Todos nós fazíamos contas para fazer a gravação e faltar uma pessoa já era um arrombo enorme nas finanças de um banda. Atualmente, isso já não tem um impacto tão grande e a verdade é que estes 20 anos nos deram um know-how, uma confiança e uma capacidade maiores para fazer coisas que não conseguimos anteriormente. O vosso último trabalho foi editado em 2009. Sei que já começaram a trabalhar em material novo. Para quando um novo disco dos Desire? Tear: Estamos a fazer todos os possíveis para que consigamos, no máximo,

em Março do próximo ano começar a gravar o novo disco para que seja editado no Outono de 2013. Para nós, seria interessante conseguir fazê-lo mais cedo, mas não queremos estar a criar falsas expetativas, nem estar a defraudar as próprias expetativas das pessoas. Vamos participar no próximo ano, em Maio, no dia 11, num festival na Holanda. Vamos querer aproveitar a oportunidade para fazer outras datas, como fizemos em 2003. Seria bastante proveitoso para nós se já levássemos um novo disco na bagagem, mas estamos a ver que essa meta poderá ser algo complicada de atingir. Daí sermos um bocado realistas, sempre o fomos, e as pessoas perceberem essa parte do porquê de não editarmos trabalhos de forma mais regular. Sempre fomos pessoas muito responsáveis e ponderadas. Sempre pensámos nas coisas com o máximo de concentração e com a certeza absoluta que estávamos a fazer exatamente aquilo que queríamos fazer. Flame: Tem que ser um digno sucessor, senão não vale a pena. Tear: Levamos bastante tempo a compor, não porque tenhamos dificuldade em criar novas músicas, mas porque nem sempre nos conseguimos rever nessas músicas, nem exprimir na plenitude tudo o que queremos transmitir. Damos imensas voltas nas coisas para elas ficaram exatamente como queremos. Flame: Algo que resume o que o Tear está a dizer é que, acima de tudo, somos nós os nossos maiores críticos. Nem tudo aquilo que sai na sala de ensaios é visto como terminado Só avançamos quando estamos realmente satisfeitos. Relativamente ao próximo trabalho, neste momento temos cerca de 70% do material pronto. Os restantes 30% são aqueles pormenores que precisamos para ficar completamente satisfeitos. Notou-se que deram muita atenção ao “Infinity…” nesta celebração. É um álbum muito especial não só


por ser marcante para a cena portuguesa, mas também por ser visto como uma peça de coleção em todo o mundo. Como é para vocês ter um trabalho como este na vossa discografia? Tear: Penso que o “Infinity…” acabou por conquistar aquilo que lhe era naturalmente devido, porque foi o primeiro disco de Doom Metal em Portugal. Fomos pioneiro e penso que foi uma viragem no Metal em Portugal. Daí que nos primeiros tempos não tenha sido muito bem aceite, mas também sabíamos que seria difícil digerir. Porém, tínhamos a convicção que, quando as pessoas percebessem exatamente o que os Desire queriam transmitir, se iria tornar numa referência para os ouvintes, assim como para muitas bandas que viessem a surgir depois. Foi um disco que nos marcou imenso, éramos muito jovens na altura. Estávamos cheios de energia e ideias. Não quisemos partilhar o disco com ninguém, ou seja, não quisemos envolver ninguém na sua composição e elaboração. Foi um trabalho bastante ambicioso e puro. Todos os trabalhos de Desire têm um significado muito especial, porque todos eles marcam uma fase das nossas vidas, dos nossos sentimentos e das nossas intenções. Hoje estamos a falar do “Infinity…” e, sinceramente, acredito que, com o passar dos anos,

o “Pentacrow” e o “Locus Horrendus” também vão conquistar o seu lugar. Pessoalmente, penso que o “Locus Horrendus” é o disco que traduz de melhor forma a verdadeira essência e identidade dos Desire. É a pérola negra da banda, porque é o disco mais sinistro, mórbido, sentido, profundo e introspetivo de sempre. Está ligado a emoções muito fortes. Há planos para uma reedição do “Infinity…”? Tear: Há planos para uma reedição tanto do “Infinity…”, como do “Pentacrow” e do “Locus Horrendus”. Falou-se inicialmente de uma box set… Tear: Sim, a “The Trilogy of Melancholy”. Posso adiantar que isso ainda não foi feito por duas grandes razões. Uma, que é a mais importante de todas, por ainda estarmos a resolver pequenas questões com a Skyfall Records, a editora que lançou o “Infinity…” e o “Pentacrow”. A outra é o facto de querermos terminar, e isto é uma convicção e desejo pessoal, o conceito que iniciámos no “Infinity…”, que é, no fundo, transversal a todos os trabalhos dos Desire. Há três grandes trabalhos que marcam esse conceito, que são o “Infinity…”, o “Locus Horrendus” e terceira parte que ainda está para sair, ou

seja, o próximo álbum. Aí, sim, penso que será a altura ideal para lançar a “The Trilogy of Melancholy” com esses três discos, deixando os dois EPs de lado. E, como já devem ter reparado, há outra característica especial na banda que faço questão de manter. Todos os discos de Desire têm um subtítulo comprido e procuramos sempre fazer trocadilhos nos títulos dos EPs com aquilo que mais nos marca e simboliza, ou seja, a figura do corvo. Tanto o “Pentacrow” como o “Crowcifix” são muito focados na figura do corvo, porque são trabalhos mais exclusivos, mais focados nos fãs e não tanto no público em geral. Daí até termos editado o “Crowcifix” em vinil, porque, ao longo dos anos, fomos recebendo vários incentivos para que isso acontecesse. Isso para nós fez todo o sentido, porque pertencemos ao underground e nunca tínhamos editado um vinil. Teve que ser em ’12, porque não cabia noutro formato. (risos) Às vezes, as pessoas pensam que escrevemos temas longos de propósito, mas não é verdade. Isso acontece, porque… Flame: Não conseguimos transmitir certos estados de espírito e ambiências em apenas cinco ou dez minutos. Já que falam nisso, voltemos a falar sobre o concerto. É incrível como os Desire conseguem transformar


um concerto de 1h45 em algo que parece tão curto. Para isso contribui a forma como vocês deixam as vossas músicas respirar. Flame: Tocámos 1h45 e ainda nos disseram que soube a pouco. Tear: Sim, é isso mesmo que estás a dizer e isso reflete-se na música. Flame: E ainda bem que as pessoas reconhecem isso, que não se torna maçador pelas música serem grandes e por haver vários estados de espírito e ambiências… Tear: Por acaso, esse foi um dos nossos grandes receios quando estávamos a preparar estes concertos. Ficámos com o receio de ser um alinhamento demasiado longo e maçador. Pensámos até em reduzi-lo quando estávamos na sala de ensaios. Daí termos feito o encore, para ver se pessoas tinham realmente vontade de ouvir mais. Confesso que, nestes dois concertos, saímos sempre do palco com a certeza de que as pessoas queriam que voltássemos. É óbvio que isso nos deixa extremamente satisfeitos e é algo muito gratificante. Estas são, sem dúvida, duas noites que ficarão nas nossas memórias e espero que também fiquem na memória de todos os que estiveram presentes nestes dois concertos. Foram especiais e únicos, tal como esperámos. Há imenso tempo que não tocávamos um alinhamento tão longo… Flame: E em nome próprio. Tear: É uma pena que não tenham comparecido mais pessoas, mas, mesmo assim, penso que o balanço é extremamente positivo. São conquistas que se fazem passo a passo. Flame: Só fez falta quem cá esteve, como se costuma dizer. Quem queria estar, esteve num dos espetáculos e só perdeu quem não esteve. Tear: Fiquei feliz pelo carinho que tivemos das pessoas no final dos concertos e por tudo o que nos transmitiram. Tudo isto, parecendo que não, vai-nos alimentando a alma e o ego. Não no sentido de acharmos que somos bons, mas para nos dar forças para continuar…

Flame: E nos fazer sentir que estes 20 anos têm valido a pena. Nunca imaginámos que ainda estaríamos no ativo passado tanto tempo, especialmente em Portugal. Já muitas pessoas nos disseram que o nosso azar foi os Desire terem nascido em Portugal e que, se tivesse sido noutro país, talvez tivéssemos mais reconhecimento. Nós reconhecemos isso, achamos que isso seja possível, mas temos dado sempre o nosso melhor. Tear: Fica um amargo na boca por não termos feito mais e chegado mais além… Flame: Ainda não é tarde. Pelo menos, sentem-se realizados com o que fizeram até agora. Muitas bandas não o podem dizer. Flame: Sem dúvida, principalmente por nunca termos feito nada forçado e que soasse falso. O que já saiu é algo que vem de dentro. Ouvimos constante pessoas a perguntarem o por quê de demorarmos tanto tempo a lançar um álbum, mas ele só sai quando achamos que deve sair. Com todas as dificuldades que tivemos, podíamos ter optado por encerrar atividades, mas sempre acreditámos com a mesma crença que tínhamos há 20 anos quando formámos a banda. Tear: Só queria referir algo que penso não ser muito comum em Portugal, infelizmente. Nestes dois concertos fomos acarinhados e abraçados com a presença de várias pessoas que vieram de propósito do estrangeiro para estarem presentes nesta celebração dos 20 anos de Desire. Pessoal da Alemanha, Rússia, França, Inglaterra... Fazer isto com uma banda portuguesa que, no nosso caso não tem muita exposição ou promoção internacional, espelha o que os Desire conseguiram ao longo destes anos. Não só fazer parte da vida de muitas pessoas em Portugal, como também no estrangeiro. Recebemos constantemente incentivos e convites de muitas pessoas lá fora para que levemos a música dos Desire aos palcos espalhados pelo mundo. Infelizmente,

como é do conhecimento geral, não é fácil concretizar essas coisas, mas sentimos que temos fãs espalhados por todo o mundo. Faltam-nos as infraestruturas e o apoio para podermos chegar mais além. Gostávamos de correr o mundo e proporcionar a essas pessoas a hipótese de assistirem a um concerto nosso, até porque foi por causa dos nossos fãs que não desistimos. Ainda temos muito para dar e para contar em termos de conceito lírico. Penso que é uma história interessante e faço votos para que, um dia, talvez quando a banda terminar, todo este trabalho seja aproveitado para um argumento de filme. A banda-sonora já está feita, só falta mesmo retratar tudo isto em imagem. Penso que resultaria em algo profundo e muito bonito, por isso fica a deixa. Para terminar, tinham planeado gravar estes dois concertos e vi algumas câmaras na sala… Tear: Houve pessoas que se ofereceram para fazer a captação de vídeo. Flame: Mas nada oficial. Tear: O objetivo era fazê-lo de forma profissional, com várias câmaras e ângulos, para depois podermos fazer uma mistura. Fazer também uma captação de som profissional, porque a intenção era lançar em 2013 um DVD alusivo a estes 20 anos. Não foi possível, mas esse sonho não fica enterrado. Hoje foram estes concertos e, se calhar, daqui a uns anos teremos melhores condições e talvez aí já seja possível tornar esta ideia uma realidade. É algo que se impõe a uma banda como Desire e as pessoas merecem isso. Seria bom poder estar em casa, num momento introspetivo, e sentir um concerto nosso. ///


M

ais do que uma designação que poderia ser considerada pejorativa, o próprio título “Os Anormais” é justificável devido ao tema que se aborda. De que forma crêem que esta denominação se adequa ao tema tratado? Houve outras escolhas iniciais para além desta que vos parecessem também adequadas? David Soares: O título tem duas partes: «Os Anormais» e «Necropsia De Um Cosmos Olisiponense». Retirei a primeira de um livro homónimo e algo marginal

do Michel Foucault, que consiste num mini-curso que ele deu no Brasil, enquanto lá viveu, sobre a criminalidade e a loucura e o modo como a sociedade lida com elas. Não é um livro que fale sobre deformidades, mas o seu título, «Os Anormais», era, de facto, muitíssimo indicado para ser o título do ensaio sobre a deformidade que eu escrevi, em volta dos indivíduos deformados e excêntricos que viveram em Lisboa ao longo de vários séculos. A segunda parte do meu título relaciona-se com o facto

dessa amostra de indivíduos, amostra porque não pude falar de todos, compor uma espécie de micro-cosmos da própria Lisboa. Já o Jacques Le Goff escreveu que os monstros são «marginais imaginários»: e, nesse sentido, os meus “anormais” – anormais, porque saem da norma, do normal –, afastados para os bairros mais degradados da cidades, são, como refiro no capítulo «Terra Incógnita», análogos aos monstros dos velhos mapas, que serviam para assinalar as terras desconhecidas e perigosas. De


maneira geral, se é verdade que os cidadãos comuns receiam entrar nos bairros dos “anormais”, nessas zonas de contágio, digamos assim, também é verdade que os ditos “anormais” têm um medo profundo de sair dos seus bairros e de entrar nas zonas “normais” das cidades. No fundo, tanto os “normais”, como os “anormais” desumanizam o Outro – ou, pelo menos, ambos são vítimas da desumanização que a sociedade lhes pressiona nos ombros através da homogeneidade. Há poucas horas, o governador do Banco de Portugal disse em directo, no canal privado SIC Notícias, que «não há cidadania sem conta bancária». É um excelente e arrepiante exemplo da desumanização que acabei de expressar. A bizarria e disformidade tornam-se os temas centrais ao longo destas quatro faixas, e embora haja uma sensação térrea a pairar no disco – diga-se, algo mais assente nas vivências destes fascinantes indivíduos – surge uma maior interpelação ao que define precisamente as suas marcas individuais. Sentem que a abordagem a este tipo de seres reflecte algo para além do incomum, talvez tendendo mais até para um comum de todos nós? Este ensaio sobre a monstruosidade e a deformidade recai, sobretudo, sobre indivíduos reais que viveram em Lisboa, mas, a partir deles, entreteça-se uma rede de referências mais complexa que procura integrá-los numa mitografia maior, que transcende os limites geográficos e temporais da cidade. Como desenvolvi na resposta anterior, estes quatro capítulos consistem num micro-cosmos – e há, pelo menos, dois astros de maiores dimensões que, como é dito em «Terra Incógnita» servem de Virgílios aos ouvintes e às restantes personagens. Esses astros são o Anão dos Assobios e a Estanqueira do Loreto, duas personagens sobre as quais existe mais informação disponível – o que não é dizer muito, pois os registos sobre os “anormais” olisiponenses são escassos. Não é à toa que o capítulo que se debruça sobre o Anão dos Assobios se chama «O Plutão da Pena»: com efeito, o Anão viveu nessa freguesia da cidade e, no limite, ao chamar-lhe Plutão estou a indicar que ele ocupa um papel plutónico no meu micro-cosmos. Assim como o título «A Lua do Loreto» traça uma correspondência directa entre os Casebres do Loreto,

onde viveu, miseravelmente, a Estanqueira do Loreto, e a lenda eclesiástica da Santa Casa do Loreto – o casebre em que nasceu Maria, mãe de Cristo, e que, envolvido numa basílica mandada construir por Helena, mãe do imperador romano Constantino, se ergue, misteriosamente, nos locais mais necessitados de compaixão. A realidade histórica mescla-se com a lenda e com o meu imaginário de autor e a haver algo que tende mais para o comum de todos nós, como a pergunta levanta, talvez seja essa capacidade que os “anormais” têm para serem magnetos dos fragmentos do nosso passado. Assim como os heróis, chamemos-lhe isso. A chamada “história não-acontecentista”, a história criada em grande parte por March Bloch e Lucien Febvre e a que se convenciou chamar-se a história da “Escola dos Annales”, coloca de lado a chamada “história feita pelos heróis”, a história política, digamos, ou os relatos das grandes figuras para, em vez de focar-se nelas, alcançar um maior espectro temporal: é a chamada “história de longa-duração”. Foi um movimento revolucionário e importantíssimo no estudo da história, mas não pode descartar-se o facto de que a história é feita, em principal, pelos indivíduos. É evidente que é preciso juntar as duas correntes, a “não-acontecentista” e a outra. Assim, «Os Anormais» é uma espécie de história contada pelos marginais, por aqueles que nunca estiveram no centro. É a história secreta – ou mítica, metafísica. Esotérica, se calhar. O tom de eremita aqui inserido – no que diz respeito à dicção – está, no mínimo, exímio. Houve alguma dificuldade em atingir este registo limpo e, no entanto, umbroso? E por detrás do mesmo, houve alguma ideia precedendo às gravações para que tal sonoridade se atingisse? Não houve dificuldade nenhuma, porque, de facto, a voz do disco não é muito diferente da minha voz normal. Apenas desci um pouquinho o registo ao interpretar os textos, para ir ao encontro daquilo que é a minha “voz autoral”. Estou sempre a dizer que a voz autoral de um escritor é uma coisa muito importante e, aqui, em «Os Anormais», é essa voz que fala, que tem mesmo oportunidade de falar a sério. Trata-se, pois, da minha voz enquanto autor: a voz do meu pensamento. É a voz pela qual falariam os meus romances, se eles pudessem fazê-

-lo. Quanto ao conteúdo, foi exaustiva a pesquisa acerca dos sujeitos aqui versados? E, acima de tudo, foi acessível encontrar essa informação? Haverá quem nunca terá ouvido falar de tais criaturas míticas (eu incluído, razão pela qual me fascina este lançamento), e desenterrar conhecimentos sobre as mesmas terá sido um escrutínio moroso. Há muito tempo que recolho informações sobre estes indivíduos fascinantes, cujas vidas miseráveis me emocionam muitíssimo. No decurso das minhas investigações sobre Lisboa vou encontrando “anormais” que, lá está!, não pertencem ao centro e, como tal, são muito elusivos. A informação é rarefacta, mas nos livros mais antigos, em principal, vai-se encontrando referências úteis. De forma geral, não gosto de ir a bibliotecas, porque prefiro comprar os livros para tê-los em casa. Gosto de livros, preciso de estar com eles. Mas há ocasiões em que isso não é possível e a biblioteca acaba por ser sempre uma solução de último recurso. Com o passar do tempo, fui imaginando como é que eu poderia abordar a escrita de um trabalho sobre esses “anormais” que vou encontrando. A minha ideia sempre foi gravar um spoken word sobre estas figuras, porque aquilo que tinha para contar sobre elas, na complexidade referencial e textual que ouviste, pedia-me para ser narrada com a voz. Tinha de transcender o papel e tornar-se uma obra para ser ouvida. Estas escolhas autorais são sempre bastante abstractas, mas quando tenho uma ideia para um trabalho ela já vem acompanhada de um cunho distintivo que pede para que ela seja contada numa linguagem artística em específico. E «Os Anormais» pedia-me para ser narrado. Quando comecei, de facto, a reunir o material disperso e a escrever os textos, falei de imediato com o Charles Sangnoir para os musicar, porque ele é um excelente compositor e intérprete e alguém que gosta e compreende muito bem o que é o spoken word. Como crêem que, ao contrário do que sucede no mítico da natureza, o meio urbano contribui para a criação destes mitos com um cariz muito mais pertinente ao indivíduo social? Isto é, há alguma razão pela qual uma criação mítica urbana possa ser


mais credível e provocativa do que uma criação de origem naturalista? Essa mitificação é dada pela passagem do tempo. Na apresentação do disco, na Biblioteca Municipal Camões, situada no Largo do Calhariz, onde a Estanqueira do Loreto faleceu, disse ao público que estes “anormais” foram como os marginais contemporâneos, mas que a distância do tempo lhes deu uma patina de lenda, de criatura pertencente ao bestiário. Uma figura que eu quis incluir no último capítulo, «Sol Invicto», era o João Manuel Serra, o “senhor do adeus”, porque ele ocupou um papel idêntico àquele que foi desempenhado pela Estanqueira do Loreto ou pelo Anão dos Assobios: alguém excêntrico – uma figura típica – que não está no centro, que foge à norma, que encerra algo de mágico, até, se quisermos ir por aí. Mas como ele morreu há pouco tempo ainda não tem a tal patina de lenda que outros indivíduos mais antigos têm e, como tal, não o inclui – até porque receei que o facto dele figurar num disco chamado «Os Anormais» fosse ser mal interpretado por alguns, mesmo que se perceba perfeitamente que esse título nada tem de pejorativo ou aviltante. Muito pelo contrário. Daí que os “anormais” urbanos estão em correspondência, em harmonia, com os “anormais” do bestiário: ambos fogem à norma, ambos servem de “avisos” – a etimologia de “monstro” é “avisar” – aos “normais” e ambos são por estes empurrados para os arrabaldes. No fundo, a demanda pela homogeneidade é um sonho impossível: de um modo ou de outro irão sempre existir estes “saltos” na Criação. Acima do trabalho sonoro que acompanha os textos, há aqui um trabalho de cariz literário muito cuidado, com o qual o ouvinte comum não está acostumado. Compreende-se então uma tentativa de ir mais além no que diz respeito à intelectualidade, e um uso dos dois meios artísticos para a exposição da mesma. Acreditam que esta mescla de música e literatura se vê cada vez mais e que deve ser explorada? O cuidado literário e a intelectualidade do texto advêm do meu estilo autoral, que é um estilo polissemântico, multi-referencial, com muitas camadas. Não

avanço com a sentença de que este tipo de literatura é a melhor, mas é aquela que eu gosto de fazer. Gosto de palavras antigas, ou desusadas, gosto de neologismos, gosto de burilar um léxico luxuriante e desafiante. Nesse sentido, «Os Anormais» não é um trabalho diferente dos meus romances, mas é diferente no sentido em que o léxico “incomum” entra pelos ouvidos e não pelos olhos. É aí que o valor, que a cotação de ouro, das palavras mostra o que vale. A riqueza da língua, da nossa língua, em principal, é sempre algo que eu procuro demonstrar com aquilo que escrevo. Recorda-nos a força, a vitalidade, que a palavra falada tem, que a palavra falada nunca perdeu. Após uma breve análise ao conteúdo textual, podemos reflexionar as parecenças destes indivíduos incomuns com outros um tanto mais comuns – diga-se, um qualquer sujeito que exclua de si os traços físico-psicológicos destes “anormais”. Neste caso, serão os “anormais” as excepções à regra, ou, na verdade, terão eles traços comuns com os mesmos seres que os interpretam? O “anormal” é sempre uma fuga à regra, uma fuga à norma. Aliás, “norma” é uma palavra que significa “esquadro”, logo um “anormal” é alguém que foge à “esquadria”, que foge àquilo que se considera ser um bom desenho. É por culpa da forma anormal que se acreditava que estes indivíduos não tinham alma, porque Agostinho de Hipona postulou que elas não ocupavam formas imperfeitas. Esse predicado também concorreu para a desumanização dos homens e mulheres portadores de diferenças. É óbvio que as diferenças físicas são sempre mais flagrantes, mas também existem os “anormais” do espírito, como os loucos e os psicopatas. Estes não são loucos, pois a psicopatia é um distúrbio da personalidade e eles distinguem o bem do mal, logo também não são inimputáveis. Julga-se que os psicopatas são caricaturas “hollywoodescas” ou que são todos assassinos-em-série, mas a realidade é bem diferente. A título de curiosidade, o John Ronson escreveu há pouco tempo um livro intitulado «The Psychopath Test: A Journey Through the Madness Industry» em que apresenta uma pesquisa que demonstra que a maioria dos líderes

de grandes empresas são psicopatas: ou seja, é gente que não sente remorsos em instrumentalizar os outros para atingir determinados fins. Não são como nós, os “normais”. Logo, são “monstruosos”. Talvez hoje os grandes e mais perigosos “anormais”, aqueles que são monstros a sério, estejam todos nos tronos do comércio, da banca e da política. Isto é muitíssimo assustador. Se houvesse a necessidade de transmitir uma mensagem aos ouvintes (para além da já vasta exposição que aqui se faz a estes seres e ao meio que os acolheu), qual crêem que seria a ideal? Isto é, haverá no intratexto algum sentido prático ou (i)moral que à primeira vista se extraia deste disco para o ouvinte? A mensagem é a de que no meio daquilo que é mais abjecto e execrável se encontra também aquilo que temos de mais precioso e luminoso. No fundo, estou a dizer que existem flores no meio da lama. Um dos textos que expressa de modo mais directo e profundo esta mensagem é o do capítulo «A Lua do Loreto»: a Lua é aquela coisa feia para a qual atiramos tudo o que é sórdido e sujo, a nossa lixeira, mas é também a coisa mais vital para nós. É a grande contradição do humano: sermos esta conjugação de lixo e arte, de dessacralização e espiritualidade, de ser lama e ser flor em simultâneo. A todos os pressupostos “normais” que vos ouvem, lêem e interpretam, que lhes diriam para terminar esta breve (mas sempre insuficiente) desconstrução? Que fujam da homogeneidade e da normalidade, sobretudo através do estudo e do exercício da inteligência. Que tenham a coragem de rejeitar a futilidade, mesmo que isso os coloque em minoria. Mesmo que isso os coloque nas bainhas de sombra que circulam o holofote do palco, porque o palco é voraz e alimenta-se de calorias vazias. O tempo encarregar-se-á de vos fazer justiça, porque o tempo erode toda e qualquer mediocridade. O tempo, como se decalca pelos exemplos mais “anormais”, é um sábio arquitecto. ///


A

ssistimos actualmente na música portuguesa a uma praga de gafanhotos, perdão, “cantautores”! Se a primeira vaga de “cantautores” da FlorCaveira tinham piada por causa da militância (o seu cristianismo protestante Baptista), um aparelho DIY e conceitos exóticos (“panque roque do Senhor”, “panque medieval”, etc…), pouco a pouco, como aliás é habitual quando uma “cena” aumenta de importância e de exposição pública foi-se amansando como um cachorrinho caseiro. Percebe-se que a FlorCaveira tenham recuperado figuras perdidas como Jorge Cruz ou apostado no novato B Fachada e no “cantaurorismo” como forma de trazer a língua portuguesa de volta ao consumo Pop depois do vazio pseudo-Aldeia Global dos anos 90 – é irónico que quem enche Coliseus à fartazana sejam os Ornatos Violeta, a única banda Pop que cantava em português nos anos 90 e não os que se quiserem internacionalizar-se à força como Silence 4 ou Blind Zero, que isto sirva de lição a quem quiser! Passada a moda e mediatismo desta editora / colectivo, os seus restos mortais são um

legado cristalizado de arrestas limpas para consumo fácil como é o caso de José Camilo na sua Viagem ao subúrbio (auto-edição; 2012) onde encontramos uma moleza, fácil de comparar a casos históricos como UHF ou Lobo Meigo, Pop / Rock armado em chico-esperto que tenta parecer inteligente por causa de alguns “breaks”. Tamém é o caso de As Oportunidades Perdidas de Bruno Morgado (FlorCaveira; 2012) que soa logo no início ao Vitor Espadinha, só lhe falta a tesão sem ser para procriar. Ou queria ser o Leonard Cohen? Seja como for a coisa avança para outros cenários como os de Lee Hazelwood, B Fachada e o Festival da Eurovisão... A excepção a este rame-rame é Tiago Guillul que instiga, grava e edita como um louco, sendo capaz de ir ao fundo da questão, sem se deixar cair nas fórmulas comerciais fáceis, roubando samplers ao Punk, ao Metal e à World Music para criar os seus discursos com fundo original e independente – coisa que rareia na música portuguesa em particular e na criação em geral. Guillul é um pregador, ora um pregador prega! Tem de estar atento ao mundo e não se fechar em copas, não pode parar com figuras de esti-

lo e discursos vazios. Não é preciso cursos de semi-óptica para se perceber que Guillul fala dos (nossos) tempos nos seus relatos, independentemente da mensagem cristã, é dos poucos músicos que faz um retracto da sociedade portuguesa no século XXI. Outro ponto a favor… Para além da sua produção que já lá iremos, também é capaz de chatear malta para fazer compilações como Ruptura Explosiva (Amor Fúria + FlorCaveira + Um Disco Pronto e Sincero; 2011) que é mais barata e bem melhor que qualquer colectânea dos Novos Talentos da FNAC (1). Há várias razões para afirmar isto apesar de nenhuma destas malhas merecer estrelato, uma delas e a principal é um trabalho de “comissário”, ou seja, Guillul escolheu bandas para dedicarem o seu trabalho a um tema – um tema xunga, é certo, que é a comemoração dos 20 anos do filme de acção (e surf) Ruptura Explosiva com Keanu Reaves e Patrick Swayze. Graças a gesto simples de “curadoria” dá coerência e tom ao disco, sem este deixe de ser ecléctico q.b. Fala-se num texto do CD em Rock mas disto há pouco – o único momento digno de tal é o primitivismo dos Borboletas Borbulhas


– porque de resto há sobretudo muito “cantaurorismo” e Electrónica manhosa – entre elas um tema de Te Voy A Matar que apareceu na banda sonora do Futuro Primitivo (Chili Com Carne; 2011). O disco sabe a mar e verão inevitavelmente sendo que há várias abordagens de trabalhar neste “tributo do filme”, desde de se cantar do genérico do filme (Pega-Monstro com Rabu Mastah – não devia estar este tema no fim do disco?) a “samplar” pedaços do filme para incluir na música (Aquaparque com Nudista Prateado) ou usar o material sonoro do filme para fazer a música toda – como fez Ben Lacrau que sampla os socos, tiros e afins para fazer deles os bombos, tarolas e tudo o mais da música. Pena ter recebido o disco no Outono de 2012 e não ter curtido isto na “silly season” de 2011, teria sido bem mais fixe… Entretanto, a tempo e a horas aparece o sexto disco de Guillul, intitulado Amamos Duval (FlorCaveira + Um Disco Pronto e Sincero; 2012), um álbum duplo, anacronismo marado uma vez que os CDs conseguem ter 80m de música e estes dois CDs não chegam a tal. Mas Guillul é um “artista bruto” com educação e programa filosófico próprio que apesar de não ser um caso clínico (como Daniel Johnson e afins), não deixa de ser interessante fazer um paralelo com estes “doidos visionários”. Guillul, como esses outros autores, não se desvia da sua senda, daí que mantem as características que nos habitou no passado,

como as canções com contos autobiográficos, alguns com intervenções directas das suas crias; aparece sempre uma crítica social alinhada à sua postura retrógrada que tanto soa a brilhante como o tema Estás casado com o Estado em que a letra é uma explícita caricatura do artista rebelde - Espera aí que estás casado com o Estado / mas queres fazer figura de solteirão -, ou pode ser completamente irresponsável como Faz Filhos, em que Guillul com orgulho de Velho Testamento exibe os seus 4 filhos na contra-capa do disco e neste tema em especial apela à reprodução da nossa horrível raça. Claro que há um humor em toda esta criação mesmo que seja um humor Baptista que não se possa perceber na totalidade. Parece um misto de Fungagá da bicharada, teeny-boopy deslocado, folktrónica e vanguarda indesejada. Tal como os “artistas brutos”, Guillul é genial, nas suas produções onde tanto entra Ratos de Porão como Stealing Orchestra, Justin Bieber ou Chuva na Areia… O álbum duplo só se justifica por um excesso de produção como é típico dos “brutos”, espíritos inquietos e criativos que Guillul cada vez mais se revela como tal. A vantagem de trabalhar sozinho é que tudo o que sai daí é puro! E topa-se que um ano antes, Tiago ao encarnar com uma banda, Os Lacraus que Encaram o Lobo (FlorCaveira + EMI; 2011) acaba por ter um compromisso que implica monotonia musical. Síntese das

ideias desenvolvidas entre ele e acólitos, feita das orações gravadas em dezenas de CD-Rs de edição limitada, aparece com manias de grandeza - por gravarem para uma editora profissional? Sei que acabei de escrever um cliché – quando se grava para uma multinacional és um vendido - mas é quase impossível não fugir a ele quando se ouve o tom épico de catedral à Arcade Fire e se rouba à descarada a face limpa dos Clash. Já não é a primeira vez que aviso desta perigosa iconoclastia (ou “cultural jamming”) destes cristãos, que estão a subverter a cultura popular não para nos iluminar mas para nos cegar com as promessas divinas do pós-morte e do pós-Apocalipse. Resta-nos relembrar um grego que disse que “os mortos valem menos que merda” (2) para não nos preocuparmos com as ambições dos produtos da FlorCaveira. Não deixa de ser delicioso a sua crítica social reaccionária – infelizmente não há muitas bandas a destilarem algum ódio aos maricas do Bairro, por exemplo. Ainda assim é um disco limpo e arranjado que se torna “flat” como a capa ilustrada de André Andrade. Pelo menos todas as capas destes discos são ilustradas! E é assim que deve ser! (1) não admira que esta cadeia de lojas esteja para fechar… (2) citado algures em “Contra os Cristãos” (Estampa, 1991) de Celso


De regresso estão também os californianos Kowloon Walled City com o segundo álbum em três anos. Container Ships é semelhante ao anterior Gamblingon the Richter Scale só que melhor. Desde que ouvimos a introdução ao álbum através da primeira música descobrimos que uma viagem interessantíssima nos espera. Em vertente Sludge Metal, Kowloon Walled City orgulha-se em usar e demonstrar o seu baixo potente e abrasivo, acompanhando riffs brilhantes cheios de energia e vigor. Container Ships é veloz, é in your face, é simples, é fácil, é envolvente. Por vezes fazendo-me lembrar o grunge dos anos 90 (ouvir BeefCat-

tle), este álbum é uma espécie de tributo ao estilo mais noise rock de uns Unsane, mas conseguindo-se separar e distinguir pelo seu tom mais sujo e dissonante de guitarra. Container Ships consegue ser tudo o que Sludge pode ser. Por vezes é rápido e energético, por vezes lento e esmagador, e por outras vezes tudo ao mesmo tempo, tornando-se um álbum bastante completo. Container Ships não nos cansa à quinta escuta, e ainda na vigésima nos consegue surpreender pela positiva, redescobrindo todos os cantos de uma cidade em decadência e caos. Sérgio Rosado


Os Suecos Aeon voltam a carga com o seu quarto álbum de originais, intitulado “Aeons Black”. No qual continuam com a sua descarga de death metal já habitual. Sem grandes novidades, nem surpresas, ao longo de pouco mais de cinquenta minutos, somos bombardeados com uma parede sonora de pedal duplo e riffs diabólicos que nos relembram de colossos como Vital Remains, Cannibal Corpse ou uns Morbid Angel.Com uma produção sonora bastante sólida o grande destaque vai para os excelentes solos de Zeb Nilsson e a boa prestação vocal de Tommy Dahlström. O baixo embora bem audível não cria mais do que um acompanhamento ao ritmo das guitarras. Enquanto que a bateria pujante encarrega-se de puxar em frente este comboio de riffs esmagadores a uma veloci-

dade estonteante. No departamento das letras temos os Aeon de costume, com a sua forte mensagem anti-cristã, continuando com o legado dos Deicide de Glen Benton. Não sendo um álbum muito memorável, mas que no entanto, não perde a sua força inicial, é uma boa proposta para os fãs deste género de música. Os Aeon apresentam-nos assim a sua abordagem ao death metal que só peca por se estender em demasia, com alguns riffs repetitivos e interlúdios desnecessários.

Com fortes influências de Mercyful Fate e todas as antenas apontadas para o heavy metal dos anos 80, chega agora aos escaparates o primeiro longa-duração dos Attic, que sucede a um EP e a um split com os italianos Walpurgis Night, lançados também no decorrer de 2012. Durante pouco mais de 45 minutos, o jovem quinteto germânico discorre oito temas de um poderoso metal clássico a mid-tempo, pontuados por uma introdução e um interlúdio instrumental, muito em consonância com a supra-citada banda dinamarquesa, até mesmo na multifacetada interpretação do vocalista Meister Cagliostro, totalmente ao jeito de King Diamond. Extremamente bem executado e com uma produção de primeira linha, é difícil não nos deixarmos encantar pela barroca invocação dos Attic, não

sendo sequer necessário grande exercício de abstracção para afastar pensamentos de como tudo isto já foi feito e refeito anteriormente. Estando na presença de um trabalho deveras bem conseguido, que faz todo o sentido na sua íntegra, poderei destacar os instantaneamente memorizáveis “Funeral in the Woods” e “Satan’s Bride”, a vertente mais doom de “Edlyn” e o carácter épico de “Evil Inheritance”, que assenta na perfeição no espírito do colectivo. Não primando de todo pela originalidade, os alemães conseguiram, no entanto, conceber uma obra válida e a ter em atenção.

Falar duma banda que começou por tocar jazz de fusão e acabou por se tornar numa lenda do hardcore não é tarefa fácil. Para ajudar à festa, a dita banda conjuga elementos que vão do reggae, do dub e do funk ao rap e ao metal. Mas alguém tem de o fazer porque, afinal de contas, falar de hardcore-punk sem falar de Bad Brains é como falar de Roma sem mencionar o Papa. Mesmo que a sonoridade da banda tenha a sofrido uma considerável metamorfose, estes rastafáris já andam nisto há tanto tempo e assumem uma importância tal que a sua história se funde com a do próprio movimento hardcore. Into The Future é uma autêntica aula de groove e arranjos criativos num estilo que supostamente até é bastante simples. Mas os Bad Brains são músicos a sério e como tal não se

contentam com as construções habituais das malhas de punk-rock ou hardcore ou que lhe quiserem chamar. Ao invés disso experimentam e pisam novos solos. Into the Future segue a linha de Build A Nation colocando a vertente reggae em primeiro plano e chegando mesmo ao ponto de não ter nenhuma malha 100% punk-hardcore. Não se tratando de um disco espetacular, a simbiose de estilos é conseguida com uma certa mestria onde os acordes tocados com a cadência própria do reggae se sobrepõem aos típicos power-chords fazendo Into the Future um disco mais relaxado do que aqueles que fizeram os Bad Brains tão célebres – o que poderá não agradar a todos.

Nikita Rusnak

Jaime Ferreira

Ricardo Almeida


Após a separação da banda francesa “Bloody Sign”, há cerca de dois anos atrás, os irmãos Kalevi e Ilmar Uibo decidiram formar um novo coletivo de Death Metal. Assim nascem os “Chaos Echoes” que surgem agora com o seu álbum de estreia denominado “Tones of things to come”. “Tones of things to come”, foi gravado durante 3 dias no Grillen Studio em Colmar e consiste em 6 faixas agressivas e poderosas, que misturam de forma surpreendente Death, Black e Doom Metal, com um toque old school que dá ao disco um sabor único. “Rise”, “The Innermost Depths of Knowledge”, “Interzone I” and “Interzone II”, “Black Mantra” e “Weather the Storm”, são os temas que nos levam numa viagem surpreendente por vários ambientes melódicos, que oscilam entre o atmosférico e

suave e o agressivo e violento. “Tones of things to come” é uma prova irrefutável de que a cena musical mais pesada francesa está a ganhar terreno e de que os “Chaos Echoes” são sem, dúvida, uma banda a ter em atenção. A não perder.

Os finlandeses DesolateShrine estão de volta, passado um ano, com o seu segundo longa-duração. Mais uma vez, depois de nos terem demonstrado a sua força em Tenebrous Towers, a banda lança-nos uma hora de Death Metal viciante com toques de Black Metal aqui e ali. O novo disco da banda pode ser um pouco difícil de assimilar à primeira escuta, pois é repleto de camadas de guitarra e ambientes… de som negro e abismal, podendo tornar este álbum um autêntico pesadelo. Os riffs são autênticas máquinas destruidoras, graves e velozes, deixando para trás um rasto distorcido, acompanhado de vocais que fazem tremer o chão. Mesmo assim, o mais original neste segundo álbum, já tendo sido apresentado no primeiro, são os momentos melódicos que encontramos por entre a

cacofonia de cada faixa. Não sendo um álbum para os mais fracos de espírito, por assim dizer, The Sanctum of Human Darkness tem como premissa magoar e terrificar quem ouve através do sofrimento.

A comemorar 30 anos de carreira, os Destruction assinalam o feito com um novo lançamento. “Spiritual Genocide” é o 13º álbum do grupo e, apesar de começar a todo gás ao som da poderosa “Cyanide”, cedo mostra indícios de ser um trabalho menos pesado e rápido do que os seus mais recentes antecessores. A produção, que ficou a cargo de Andy Classen, também revela diferenças, soando menos cheia e pesada, mas, em contrapartida, mais oldschool. Ainda que existam alguns temas bem agressivos e velozes, como é o caso de “No Signs of Repeatance” ou “Under Violent Sledge”, são o groove e os ritmos mais lentos que predominam. Contudo, não se preocupem, porque Schmier e companhia sabem como manter o ouvinte interessado. Basta ouvir “To Dust We Will

Decay” ou a faixa-título, por exemplo. “Legacy of the Past” é outra canção que se destaca ao longo do disco, graças à sua unicidade. Trata-se de uma espécie de retrospetiva do surgimento do Thrash Metal teutónico que conta com a participação vocal de Tom Angelripper (Sodom) e Gerre (dos Tankard). Em resumo, um disco equilibrado e cativante que comprova que os Destruction, após estes anos todos, ainda têm trunfos na manga.

Rute Gonçalves

Sérgio Rosado

Eduardo Marinho


Três anos depois de terem alcançado o sucesso com o seu primeiro disco – “Hatred for Mankind” - os britânicos “Dragged into Sunlight” , regressam agora com mais uma explosão de Black Metal, num registo produzido por Tom Dring, sob o título “Widowmaker”. “Widowmaker” pode ser considerado um álbum conceptual, baseado em três atos: “Part I”, Part II” e Part III”. Cada uma das partes tem a duração de cerca de 12 a 14 minutos, embora no seu todo, a audição resulte mas profícua se for feita sem interrupções, como se de apenas uma faixa se tratasse. O disco é, na sua generalidade muito mais atmosférico do que o seu predecessor, como se pode constatar na “Part I”, uma faixa instrumental onde podemos ouvir sonoridades mais ambientais ligadas a instrumentos mais

clássicos como o piano e o violino. As restantes duas partes, regressam em força aos ambientes Black/Death/Doom Metal a que a banda já nos habituou. Em suma, “Widowmaker” é um disco surpreendente, mais um excelente esforço dos DIS, que surgem como uma bandas britânicas da atualidade com maior margem de progressão no panorama do Black/Death Metal. Para ouvir com atenção.

Com uma carreira de apenas 3 anos, a banda italiana de Black Metal lança agora o seu primeiro registo de longa duração. Comparativamente ao EP de estreia, este registo mostra uma evolução e uma maior maturidade no som. No entanto, é apenas mais uma das muitas bandas actualmente que segue a fórmula tradicional da segunda onda de black metal norueguês. Pelo meio há uns poucos pormenores mais distintos que fogem a isso, mas a sonoridade no geral é muito tradicional. É um registo bastante homogéneo, não havendo variações que se notem à primeira. À medida que vamos ouvindo este álbum vamos começando a dar-lhe valor. As faixas de maior destaque são a “The Demigod” e a “Hymn to War”. A primeira tem uma introdução quase que demoníaca,

e riffs apelativos e dissonantes. A segunda, por sua vez tem uma sonoridade intensa e apelativa, sendo bem contruida e resume na perfeição todo o “feeling” do registo. No geral é um registo sólido e homogéneo, no entanto ainda tem as suas falhas, sendo algumas das musicas bastante repetitivas. A banda mostra algum potencial e alguma evolução relativamente ao EP anterior, apesar de tudo ainda tem um longo caminho a percorrer.

Será “Gold” mesmo ouro? No seu álbum de début “Interbellum” a voz de Milena Eva reina acompanhada por guitarras muitíssimo seguras. Da sua boca vermelho sangue, saem palavras vibrantes que ficam no ouvido. Talvez em termos de inovação não seja um álbum do outro mundo, mas compensa com muita emoção e intensidade. Há obviamente um tom pop neste hard rock que o torna facilmente audível, sem, no entanto, ser enjoativo. Cada canção tem a sua história, isto para quem liga ao que as palavras dizem. Há uma boa base melódica neste “Interbellum”. Correndo as faixas do álbum diria que “One of Us” é essencialmente balanço e voz; “Antebellum” é uma peça bem conseguida; “Love, The Magicien é uma música atraente e convidativa que facilmente fica a rodar na

nossa mente; “Gone Under” tem uma letra, talvez, mais misteriosa e um tom mais metálico. A bateria é também um elemento que se evidência nesta faixa; em “Dreams” encontramos bons riffs; dando um salto até “Medicine man” diremos que tem uma entrada simples e que essa simplicidade é bem conseguida e evolui bem musicalmente; voltando a saltar, desta vez para o fim, encontramos, num registo mais pesado a contrastar com alguma suavidade vocal: “Ruby” que também traz riffs a contento. Por tudo isto, pode não ser ouro, mas luz bastante.

Rute Gonçalves

Rita Limede

Mónia Camacho


Os Grand Supreme Blood Court nasceram do regresso de Eric Daniels, ex-guitarrista dos Asphyx, às lides metálicas após vários anos de ausência. Fazendo-se acompanhar por músicos veteranos, entre os quais o carismático Martin van Drunen, o holandês apresenta aqui o álbum de estreia do seu novo projeto. Em termos de sonoridade, “Bow Down Before the Blood Court” assemelha-se imenso ao Death/Doom Metal praticado pelos Asphyx, o que não admira, já que ambas as bandas partilham três membros em comum além de Eric. Apesar de um bom início com “All Rise!”, só a partir do quinto tema, Behead the Defence”, é que o disco começa a revelar os seus pontos fortes. Depois da pequena surpresa que é o instrumental “Grand Justice, Grand Pain”, é criado um equilíbrio efi-

caz entre a velocidade furiosa de “Fed to the Boars” e “Piled Up for the Scavengers” e canções mais arrastadas como “Circus of Mass Torment” e “Public Castration”, terminando tudo com “… And Thus the Billions Shall Burn”, um épico de quase 10 minutos. No final, não restam dúvidas em relação à competência da banda, mas depois de uma bomba como “Deathhammer”, com uma sonoridade e produção tão semelhante, este trabalho acaba por ficar uns furos abaixo do esperado. Ainda assim, escutem a brutal sentença proferida por estes cinco juízes. Não darão o vosso tempo por perdido.

O regresso desta verdadeira instituição canadiana à atividade é mais do que suficiente para merecer toda a atenção, principalmente quando passou uma década desde o seu último lançamento. O novo álbum recupera todas as caraterísticas que notabilizaram esta banda de culto e fizeram dela uma referência para milhares de outras bandas que se movimentem entre o Post-Rock/Metal, Ambiental e Experimental. Com apenas quatro temas, sendo dois deles “apenas” intermezzos, “Allelujah!...” começa logo por surpreender na primeira faixa, “Mladic”, talvez a mais pesada e negra que já compuseram – mostrando, assim, que os GY!BE continuam a trilhar novos territórios. Num verdadeiro teatro de guerra, este tema abre com samples de vozes e um crescendo de cordas, que vai abrindo espaço para a entrada dos nove elementos da banda – explodindo numa verda-

deira catarse orquestral perto do fim dos seus 20 minutos de duração. No fim, sobram sons percussivos de rua, silêncio e angustia… como sempre. O outro tema longo, “We Drift like Worried Fire”, é quase a Némesis do primeiro: começa suavemente, com a banda num exercício sinistro e minimalista, mas a anunciar uma longa e contemplativa viagem. A linha melódica vai sendo construída de contrastes agridoces até ao (previsível) desfecho épico. A linha musical dos GY!BE está bastante explorada nos dias hoje, mas estes senhores mostram aqui que continuam a ser “a referência” neste género. O seu rock de câmara meditativo e hipnótico torna-se quase numa narrativa de um filme (sobre uma realidade bem mundana) que não queremos perder.

Os americanos HELL lançam este ano o último capítulo da sua trilogia e fazem o que eu pensava ser impossível: superar os outros dois álbuns. Mas sim, eles fizeram-no. Sendo este o mais curto deles, rondando os trinta e sete minutos, e contendo apenas duas músicas, Hell III é sem dúvida o mais completo e desafiante. Mourn começa com uma linda introdução de guitarra, acompanhada por baixo que dura uns largos cinco minutos, resumindo-nos, pela beleza excruciante, o que nos espera do inferno. Depois vem o julgamento e M.S.W. enfrenta-nos com uma parede de distorção composta de duas camadas, uma grave e uma mais aguda, ao estilo de Death Metal, e com os seus vocais apertados e violentos, apenas para depois acalmar os ânimos e investir num tom mais Doom

ou Sludge, intercalando a lentidão dos riffs com a velocidade dos solos. Como sempre, tinha de haver um momento rasgado em que o baixo aparece como o mestre de toda a destruição. Depois desse ataque somos levados para uma viagem de barco ao som de uma melodia calma e pensativa. Decedere, com os seus dezanove minutos, é um animal autêntico, mergulhando em terrenos tão escuros que é-me difícil traduzi-los em palavras. Atmosfericamente perfeito, contendo violinos, a introdução de Decedere anuncia o fim de uma jornada, ou o começo de outra. No geral, Hell III é o fim desejado e merecido desta viagem, que nos faz desejar por mais apertos.

Eduardo Marinho

José Branco

Sérgio Rosado


Este é o nono álbum da banda da Pennsylvania e o primeiro em 6 anos. Embora não traga nada de novo ao som dos Incantation, este trabalho demonstra alguma estabilidade de uma banda que sofreu vários problemas internos nos últimos anos. Vanquish in Vengeance apresenta-se mais limpo, fresco e melhor produzido que os trabalhos anteriores, mas é tudo o que se espera do death metal e de uma banda que não tem nada a provar a ninguém e que está entre os maiores do género, embora, agora, com elementos novos (só resta o vocalista e fundador John McEntee). Bateria estrondosa, baixo amplificado, guitarras destruidoras e uma voz gutural atroz, tudo no seu devido lugar. Não existe nenhuma faixa extraordinária – embora dê algum destaque a “Profound Loathing” -,

e sem ser um álbum conceptual, cada canção contribui para fazer deste trabalho, um todo indivisível. As canções combinam o ritmo furioso com momentos pachorrentos e riffs pesados e retorcidos, misturando um pouco de Doom. Sem reinventar nada, isto é o que o Death metal deve ser…Death! Blasfémico, sacriligioso, anti-religião e saído do Inferno. Sintam a dor de um dos melhores álbuns de Death metal do ano.

Conhecido no meio do metal como mentor dos Book of Black Earth, T.J. Cowgill lança agora o seu terceiro álbum a solo, sob a designação de King Dude. Com raízes fundadas no folk americano de Johnny Cash e Woody Guthrie, que habilmente mescla com fortes influências de dark folk tradicionalmente europeu, o músico de Seattle apresenta um trabalho onde revela maturidade, imaginação e bom gosto. Na peugada de artistas como Douglas Pierce e Tony Wakeford, nas onze canções que integram “Burning Daylight”, o introspectivo universo de romantismo negro onde se encontra imbuído Cowgill é dissecado despudoradamente, pondo a nu recorrentes considerações acerca de amor e ódio, vida e morte, plenitude e temperança. Num disco válido e pertinente como um todo,

destaco no entanto os fantásticos “Barbara Anne”, “My Mother was the Moon” e “Lord, I’m Coming Home” como peças fulcrais. Produto de uma época em que os ícones do dark folk parecem viver numa chusma de reedições, à sombra de glórias passadas, é de louvar ver um meio algo auto-centrado abraçar novos projectos criados sem os habituais apadrinhamentos e compadrios. Após o excelente “Love”, datado do ano passado, Cowgill demonstra manter a inspiração como força motriz das suas composições, não se limitando à reutilização de fórmulas garantidas, oferecendo-nos assim um mais que digno sucessor.

Os Mammoth Mammoth são uma banda proviniente da cidade de Melbourne na Austrália, país famoso por nos oferecer boas bandas como os AC/DC, Airbourne e Wolfmother. Autodenominam o seu estilo de “Heavy-Murder-Fuzz”. Basicamente acaba por ser uma misturada bem conseguida de Stoner pesadão e Hard Rock com influência de Black Sabbath, Thin Lizzy, Motorhead e dos compatriotas AC/ DC. “Hell’s Likely” é já o terceiro álbum de originais dos australianos depois do lançamento de “Mammoth Mammoth” de 2008 e de “Mammoth” de 2009. Contem sete músicas e pouco mais de trinta minutos de muita energia, muitos riffs poderosos e muito rock! Os Mammoth Mammoth seguem aqui a tradição australiana e debitam riff atrás de riff como se não houves-

se amanhã! Faixas como a inicial “Hell’s Likely”, “Bare Bones” e “(Up All Night) Demons to Fight” mostram uma banda coesa e que para se escreverem grandes canções de rock não é necessário fazer algo de sofisticado nem inovador. Por vezes o melhor mesmo é o feio, porco, sujo e mau. “Hell’s Likely” é uma excelente banda sonora para uma bela noitada com amigos bem regada a cerveja. É um álbum bastante divertido de se ouvir. Os Mammoth Mammoth são uma banda a ter em conta no futuro.

Ivan Santos

Jaime Ferreira

Mark Martins


“Coils of the Black Earth” é o album de estreia da banda finlandesa. Após o lançamento de um EP em 2010, “Of Serpent and Shadow”, a banda finalmente decidiu aventurar-se num registo de longa-duração. Com uma sonoridade que varia entre o black e o death metal, este novo registo é pesado e sombrio ao mesmo tempo. A faixa inicial, “The Devour Within the Gulf”, é bruta, suja e intensa, sendo uma forma excelente de começar um álbum. Grande destaque também para a “Hymn to the Black Matron”, a musica mais diferente de todo o registo, com um riff bem construido que foge ao padrão de todas as restantes musicas deste. No geral é um album que não vem acrescentar nada de novo ao panorama do black/deth metal atual. Tem alguns toques mais distintos, as duas musicas men-

cionadas anteriormente, mas não foge muito às regras do estilo. Apesar de tudo, está bem contruido e é fácil de assimilar logo nas primeiras audições. Recomendável a todos os fãs do estilo.

Os “Metz” são um Power Trio oriundo de Toronto, que desde 2007, altura em que deram o seu primeiro concerto, têm feito um percurso invejável no que aos espetáculos ao vivo diz respeito. Com uma sonoridade que se pode classificar como post-hardcore sludge-punk, os Metz surgem agora com o seu disco de estreia. Metz é um disco poderoso, agressivo e cru, que nos traz de volta á memória a sonoridade Grunge dos anos 90 e o ritmo e o frenesi do Punk Rock. Com a produção a cargo de Owen Pallett, Alex Bonenfant (Crystal Castles) e Graham Walsh (Holy Fuck), o disco é demolidor, com 10 faixas de puro caos. Prova irrefutável disso são os temas: “Get off”, “Sad Pricks”, “Nausea”, “Wet Blanket”, “Wasted” e “Negative Space”. A maior mentira acerca do Punk Rock é que qual-

quer um é capaz de o fazer. Claro que qualquer um pode fazer mau Punk, mas existe uma arte secreta em construir bom Punk e fazê-lo durar. E isso, os Metz conseguiram plenamente com este disco. Excelente trabalho.

Apesar da sua criação datar apenas de 2011, “Lombotómia” é já o sexto álbum de Gábor Tóth sob a designação Nagaarum, terceiro do presente ano, sucedendo-se ao díptico “Oort”. Ao longo de cerca de 45 minutos, o compositor magiar convida-nos a embarcar numa viagem que remete para a paisagem bucólica das planícies e florestas húngaras. A dar início ao disco encontra-se “Madarak a dolgozószobám párkányán”, em três partes, nas quais sons da natureza formam a base para tranquilas melodias, numa toada relaxante e sem pressas. Segue-se o mais soturno “Szirének húzták le a mélybe”, cuja segunda secção dá o mote para a negritude vindoura dos remanescentes temas. Em “A birkák éjszakai ütközete”, uma maior proeminência dos elementos percussivos abre o ca-

minho que conduz ao culminar da obra, com o neo-classicismo experimental de “A rovátkolt barmok végső győzelme” a revelar uma outra - e bem-vinda - faceta do prolífico multi-instrumentista. Na linha de projectos como Maeror Tri ou Vidna Obmana, o dark ambient de Tóth caracteriza-se por longas composições instrumentais, num registo em que a sublimação da simplicidade e o respeito pelos espaços para respirar são os pilares que imprimem solidez a todo o conceito. Não sendo nada de muito inovador, é no entanto um trabalho válido, de qualidade, que sem problemas se insere nos meandros do género.

Rita Limede

Rute Gonçalves

Jaime Ferreira


O local é Lisboa. A metrópole em questão encerrou em si certas individualidades corpóreas que, ao olho comum, são percepcionadas como seres anatómicos concebidos num recurso à bizarria, à irregularidade que contrasta com a norma mamífera, e sobretudo à descriminação social que o ser contemporâneo experiencia, seja com o próprio ou com a externa colectividade que o envolve. As visões que incidem sobre estes seres reflectem-se em brilhos entorpecidos, como num quadro que nos fita de volta para onde quer que nos desloquemos, dando-nos a entender uma presença de disparidade existencial exaltada num exterior carnal que, ao invés de espelhar o interior das personalidades disformes aqui descritas, ataca – com ou sem rancor – os seus próprios espectadores. “Aqui há leões”. É isto que a Necropsia De Um Cosmos Olisiponense não só permite reflexionar, como

essa mesma ideia se reforça em contexto musical, literário, e sobretudo introspectivo: uma amálgama intelectual que, encasulando-se num discurso eremita, evoca estes entes tão presentes, fitando-nos desde esquinas e ruelas a cada dia, tal como nós os tentamos percepcionar desde o canto dos nossos olhos; o esforço que inerentemente nos envolve, o de evitarmos o vómito e a náusea metafísica, cega-nos ao caos biológico que pela escuridão coxeia, edificada nestas entidades sempre alertas, espreitando até assobiando -, procurando maneiras de destruir a imagem animalesca que as define, mas que, no fundo, as fortalece. Esta colaboração de David Soares e Charles Sangnoir resultou num dos discos de Spoken Word mais lancinantes do ano, e tão cedo não nos veremos normais a escutá-lo.

Suzuki Junzo será um nome bastante desconhecido para os leitores desta publicação. Envolvido em projectos como Acid Mothers Temple, 20 Guilders e MIMINOKOTO, este japonês, de Tóquio, é um daqueles músicos de grande veia criativa. A reedição, do que será o seu trabalho mais “aclamado”, «Ode To A Blue Ghost» faz-se acompanhar com este novo álbum, de uma carreira a solo que se iniciou há mais de quinze anos. «Eight-Sided Infinity» arranca com a primeira, de três longas faixas, onde somos presenteados com uma belíssima, e caótica, jam entre Junzo e Takahashi Ikuro (bateria). O grande e pesado fuzz da guitarra é acompanhado por dissonantes batidas de Ikuro. A segunda parte desta trilogia de canções é alvo de uma mudança um tanto ou quanto brusca. As jams

caóticas dão lugar a um trabalho extremamente contemplativo, onde a nitidez das notas debitadas por Junzo assumem uma posição de relevo, face às atmosferas negras e monolíticas. O ponto final é assinalado com a mais longa composição do álbum, onde o drone de «Pouring High Water Blues Dead», se itensifica, passando assim para um primeiro plano. Um trabalho com atmosferas e ambientes tão diferentes, acaba por, surpreendentemente, convergir numa singularidade assinalável. A produção é extremamente adequada para este sentimento de unidade que Junzo instaura ao longo de todo o trabalho. Uma viagem recomendada.

Formados em 2001, os Terrorama são um quarteto natural de Norrköping, Suécia. Após dois álbuns com selo da Nuclear War Now! Productions, os suecos aliam-se à conterrânea To The Death Records para lançar o seu terceiro longa-duração, intitulado “Genocide”. Ao longo de oito temas, que não chegam sequer a fazer 30 minutos de duração total, a banda cospe um Black/Thrash Metal sujo e descomprometido, revelando claras influências da selvajaria característica da cena extrema sul-americana, assim como alguma frieza norueguesa em passagens mais lentas. A nível lírico, é-nos apresentado um conceito que, como o próprio nome do disco indica, fala de genocídios. Entre acontecimentos mais debatidos, como a Alemanha Nazi ou a URSS de Estaline, e outros mais obs-

curos, como a ditadura militar de Idi Amin no Uganda ou a Grande Fome da Ucrânia, somos enfrentados com a faceta mais negra e sinistra do ser humano. Para quem gosta de Metal extremo pouco polido e com um pé no passado, esta será, certamente, uma proposta a ter em conta, principalmente se forem fãs de grupos como Sarcófago, Vulcano ou Holocausto, por exemplo.

Ruben Infante

Tiago Moreira

Eduardo Marinho


Estes italianos já cá andam há algum tempo. Iniciaram actividade em 2003, e com dois splits (um dele com os grandes Agathocles), uma demo e um EP na bagagem, eis que decidem agora, em 2012, editar «...Con Cognizione di Causa», que fica registado como sendo o álbum de estreia deste quarteto de Lázio. A génese dos trinta e cinco minutos deste álbum é, sem dúvidas, o grindcore e o death metal mais convencional, mas felizmente somos presenteados com outros elementos. Elementos esses que permitem que, felizmente, os Tsubo se distingam dos demais. O início de “Matricidio” remete-nos para uma experiência discográfica, tal como a capa (em forma de negativo). Este álbum funciona da mesma maneira que um bom thriller. Em «...Con Cognizione di Causa»

tudo tem o seu devidamente encadeamento, onde todas as composições adicionam qualquer coisa de novo àquela que a precede. Por entre pequenos pormenores (que merecem a nossa total atenção), uma secção rítmica desafiadora, um dinamismo assinalável e riffs colossais, a verdade é que estamos perante um disco que tanto é desafiante como simplesmente delicioso. A grande surpresa será mesmo a vigésima, e última composição. “Colto da Disperazione” inicia-se com aqueles riffs viciantes (transversal a todo o disco), e vai transformando-se num momento puro de psicadelismo! É realmente incrível. Ouvir para crer. Espera-se, ansiosamente, por novidades destes senhores.

O nome da banda intrigou-me logo de início: pelos vistos, Uhrijuhla remete para algo como “a festa do sacrifício” que na Finlândia é também o nome utilizado para o filme de culto The Wicker Man. Acontece que estamos também perante um suposto “supergrupo” que integra membros dos Xysma, Callisto, entre outros, e que tem nas letras de Kauko Röyhkä e na voz de Olga trunfos assinaláveis. Mais interesse ganha o primeiro lançamento da banda quando é descrito como sendo “progressivo”. Acontece que não é bem assim. Este álbum homónimo dos Uhrijuhla é, afinal, de uma forma simplista e sem grandes adornos, Pop/Rock cantado em finlandês. Claro que existe uma melancolia lenta e algum misticismo (e até psicadelismo) latente ao longo deste registo - mas que de pro-

gressivo terá muito pouco… E quanto às influências de Massive Attack e Portishead apontadas ao projeto? Nem vê-las, na prática. A verdade é que o resultado final é mais próximo de uma banda de sonoridade melosa e quase planante, como muitas que proliferavam nos anos de 1970. Mas que mal tem isso? Nenhum. Torna-se música agradável de ouvir, ideal para “descansar” os ouvidos do excesso de decibéis. É verdade que, afinal de contas, falta algum impacto, material que inspire o ouvinte e que torne este grupo mais interessante – especialmente tendo em conta o currículo destes músicos. E o que tem este álbum a ver com um festim de sacrifício? Nada.

Considerados os Misfits do Black Metal, os VON são mais do que uma banda, já se tornaram um culto. Os VON separaram-se há duas décadas atrás com um catálogo de lançamentos contendo apenas uma demo com o mesmo nome deste álbum. A primeira coisa que me passa pela cabeça é: “Em que é eles estavam a pensar enquanto gravavam isto?” Será falta de ideias? Não sei… mas deixei de pensar nisso. Em relação à música, Satanic Blood é um típico álbum de Black Metal dos anos 90, só que em 2012. A primeira música das dezanove, Jesus Stain (original), serve de mote para o resto do álbum: músicas rondando os 2 minutos de duração, com riffs maníacos, bateria simples e vocais cheios de reverb. Na minha opinião, não valia a pena os VON se terem dado ao trabalho

de lançar este álbum quando apenas contém um par de músicas originais, sendo maior parte delas regravações de músicas que apareceram nas demos e compilações e EPs. Para não falar do som do álbum… já não estamos nos anos 90 quando não se perceber o que se passava na música era o que melhor poderia acontecer. Hoje em dia queremos conseguir ouvir o que se passa! Mesmo assim, continuam a ser músicas excelentes, mesmo sendo repetidas.

Tiago Moreira

José Branco

Sérgio Rosado


Os alemães Worship estão de regresso com o seu segundo álbum de longa-duração titulado Terranean Wake, depois de se terem reunido em 2004 em nome do ex-membro F****d-up Mad Max, fazendo tremer o chão, de novo, ao som do seu Funeral Doom Metal. Começando pelo que se nota logo à primeira, a produção. A produção em Terranean Wake, ao contrário de em Dooom, é muito mais límpida, o que serve este álbum na perfeição. O som de Worship em Dooom era muito mais depressivo e introvertido, enquanto que aqui é muito mais atmosférico e espaçoso. O que marca este álbum é mesmo isso, o espaço para respirar entre cada riff e cada grito; grito este que The Doomonger executa na perfeição. No geral, este álbum é muito pesado, muito lento e muito difícil de di-

gerir, por ser assim tão lento, mas o seu peso faz com que deixe marcas e que queiramos ouvir tudo de novo outra vez. Sem dúvida um álbum bastante interessante que só peca pela sua demasiada longa duração.

A saturação do mercado musical em geral faz com que as editoras e as bandas tentem outras abordagens para a venda do seu produto, infelizmente as sonoridades mais pesadas também não escapam a este problema. Uma das maneiras de chamar a atenção é a invenção de designações específicas para descrever o estilo musical de um novo grupo. É aqui que os Year of the Goat, com o seu trabalho de estreia dão um tiro certeiro no pé. “Angels’ Necropolis” é descrito pela Ván Records como sendo um trabalho pioneiro e até atribuem a designação de Occult Rock ao primeiro registo deste sexteto sueco. Acompanhado de um artwork engenhoso e extremamente obscuro, começa a embrenhar-se na cabeça de um interessado ouvinte, uma textura ritualística e negra antes de realmente ouvir o disco. Ora ao primeiro

acorde de “ For the King” levamos com um levante soco nos tímpanos, chamando-nos para a realidade deste trabalho. Nada de engenhoso, já que o que se ouve aqui é extremamente simples com riffs a roçar o Stoner Rock, com muita influência dos 70’s, mas sem grande destaque...e de oculto, só mesmo as letras, cantadas por uma voz demasiado harmoniosa para acompanhar o seu conteúdo. Sem incompetência e má composição, pois existem temas que são, sem serem ambiciosos, bastante audíveis, como por exemplo, o tema-título do trabalho, isto não chega para ultrapassar as expectativas e o pretensiosismo que a publicidade gerou sobre a banda sueca. Primeiro é preciso a cabeça no sítio e depois sim as asas.

Sérgio Rosado

Bruno Farinha


D

e regresso aos palcos para comemorar os seus 20 anos de carreira, os Desire vieram atuar no Porto, depois de o terem feito em Lisboa dois dias antes. Já passava das 22h30 quando os lisboetas subiram ao palco da Sala 2 do Hard Club, acompanhados por Dawn, o antigo teclista, e V-Kaos, nas vozes femininas. Foi com “Torn Apart” que deram início ao espetáculo, seguindo-se “Funeral Doomentia”, na qual o vocalista Tear tentou interagir com o público pela primeira vez, mas sem grande resultado. Apesar da competência com que a banda interpretava o seu Doom/ Death Metal, ao início chegou a pairar a ideia de que não estava a conseguir fazer passar a sua mensagem, tal era a aparente indiferença dos presentes. No entanto, essa sensação foi-se dissipando aos poucos, dando lugar ao ambiente especial que uma ocasião como esta merecia. Para isso, contribuíram algumas canções do emblemático “Infinity…” e do negro “Locus Horrendus”. Temas como “Leaving this Land of Eternal Desires” e “Forever Dreaming… (Shadow Dance)” arrancaram fortes aplausos e pareceram finalmente despertar a plateia. Após um breve encore, os Desire dedicaram a clássica “The Purest Dreamer” a todos aqueles que os apoiaram ao longo dos seus 20 anos de atividade. No fim, no meio de efusivos aplausos, Tear e companhia começaram a despedir-se, mas o público queria mais. Foi, então, interpretada a relíquia “Death Blessed by a God”, canção da época em que a banda ainda se chamava Incarnated, encerrando da melhor maneira um concerto memorável e envolto de uma mística muito especial. Texto: Eduardo Marinho Fotografia: André Henriques


O

final de um Novembro frio presenteava os portugueses com duas datas desta «The Ophidian Trek 2012», encabeçada pelas gigantes Meshuggah. Com participações especiais dos polacos Decapitated, e dos suecos C.B Murdoc, foram estes últimos os que ficaram encarregues de iniciar a celebração de música extrema. O colectivo de Estocolmo, apresentava-se com o álbum de estreia em pano de fundo, e foi com esse «The Green» que esta aposta pessoal dos Meshuggah, se baseou na hora da sua performance. Com um som confuso e caótico (não no bom sentido), este sexteto assinou uma actuação muito aquém das expectativas. Seguiam-se os Decapitated, um nome de extrema relevância no que ao death metal diz respeito. Os polacos transportaram os presentes para um universo completamente diferente. Do som confuso e desajustado dos C.B. Murdoc, deu-se lugar a uma qualidade assinalável onde a mestria de Vogg, na guitarra, e Paul, na bateria, foram os pontos altos de uma actuação que teve direito a 50% de músicas que compõem o mais recente álbum destes tecnicistas extremos, o «Carnival is Forever». Os pontos altos foram, sem dúvida, “Mother War” e “Spheres of Madness”, que revelaram o lado mais antigo, e apreciado, destes senhores. O final da noite estava ao cargo dos colossais Messhugah.

A banda mais esperada da noite, deu argumentos suficientemente convincentes para que se percebesse porque é que são uma das bandas mais apreciadas nestes meandros. Com uma qualidade de som a roçar a perfeição (inacreditável mesmo), e com um jogo de luzes avassalador, estes suecos deram um concerto demolidor. “Obsidian” abre o caminho para o que seriam quinze músicas, num tempo que ronda os 90 minutos. Apostados em dar aos fãs um pouco de todos os álbuns, os Meshuggah foram incansáveis. Pena que o facto de haver pouquíssimas falhas se traduza numa espécie de “piloto automático”, onde infelizmente a palavra “monótono” vai saltitando no nosso cérebro. Pedia-se algo mais “autêntico”, mas a verdade é que eles não precisaram disso para demolir e satisfazer todos os presentes. De referir que para o sucesso desta contribuiu o sucesso a nível de organização. Os horários foram cumpridos escrupulosamente. Algo de importante, tendo em conta que o concerto se realizou numa terça-feira. Texto: Tiago Moreira Fotografia: Helena Granjo


N

um fim-de-semana que se apresentava muito ventoso, friorento e que parecia não querer deixar ninguém sair à rua, eis que um repórter solitário se deslocou, no Sábado, até a Ribeira do Porto. Mais precisamente ao encontro do mítico Mercedes, onde ocorreu o segundo evento e iniciativa da Digging Sessions. Este bar, que já recebeu inúmeros artistas, agenciados por diversas promotoras, entre

elas as portuenses Amplificasom e Lovers & Lollypops, constitui o roteiro daqueles que se dignam de aventurar na noite do Porto com a intenção de encontrar um bom ambiente e boa música. E é precisamente isto que O Meu Mercedes nos oferece. As suas paredes de pedra que já há muitos bons anos ecoam sons de artistas nacionais e internacionais, fazem-nos sentir bem acomodados num espaço que nem se apresenta como muito amplo.

No entanto é esta sensação de aconchego que faz toda a diferença, proporcionado actuações muito intimistas e marcantes. Algo que se iria verificar ao longo da noite, ao celebrar o rock psicadélico/blues dos espanhóis Prisma Circus que se iam estrear em Portugal, e o stoner/psicadélico dos portugueses Gesso. Embora a actuação do trio de Santo Tirso, estivesse marcada para as 23:00, começou com um ligeiro atraso, o que deu a possibi-


lidade a chegada de um maior aglomerado de pessoas. E o que se iria assistir a seguir, ao longo de sensivelmente quarenta e cinto minutos, era uma bela descarga energética de rock assente numa vertente mais stoner, a lembrar-nos de que as bandas nacionais também merecem destaque. Os Gesso mostraram-se competentes e aqueceram a plateia com um bom concerto. Já depois da meia-noite e com o Mercedes

a fervilhar de gente, os Prisma Circus sobem ao palco, para iniciar a sua a actuação. Com apenas um EP na bagagem, editado ainda este ano, a banda de Barcelona consegue provar logo desde a primeira música que não é somente mais uma clonagem dentro da explosão recente desta sonoridade. Com uma postura muito profissional este trio deliciou-nos durante uma hora e pouco, com as suas músicas carregadas de fuzz, um tom de baixo espectacular, secção rítmica de bateria surpreendente, voz

carismática, solos arrepiantes e muito riff orelhudo. Claramente influenciados por bandas dos anos setenta, Prisma Circus tocaram o seu EP na íntegra, e apresentaram também muitas músicas novas que serão a base do seu álbum de estreia.

Texto: Nikita Rusnak Fotografia: Digging Sessions


O

dia 16 de Novembro de 2012 ficou assinalado como sendo a data que registou a estreia dos norte-americanos, Every Time I Die, na magnífica Invicta. A noite prometia, ou não tivéssemos mais três bandas portuguesas prontas a ajudar à festa. Com a saída dos We Are The Damned do cartaz e alguns atrasos por parte dos Freeloader, coube aos Mr. Miyagi dar início a esta festa. A festa foi iniciada, mas infelizmente não da melhor forma. Uma actuação desinspirada que não conseguiu arrancar muito de um público que na verdade não tinha muitas razões para responder. Seguem-se os Freeloader com o seu blues/ southern rock, e mais uma vez não conseguem surpreender. Continuam a não saber aproveitar as “armas” que têm em mão. Quem esteve em Moledo, no fantástico SonicBlast, acabou por sentir um dejà-vu… e não daqueles que um gajo até curte. Duas actuações desinteressantes, e secantes, davam lugar ao colectivo de S. João da Madeira. A verdade é que sabia-se de antemão que íamos presenciar um grande concerto. Estes senhores são uma das mais deliciosas, e interessantes, propostas que este nosso belo Portugal tem para oferecer. Sem defraudar quaisquer expectativas (e elas eram muitas), os EAK deram um concerto arrebatador. Nem a ausência do baixista, Hélder, foi motivo para parar esta máquina que se encontra extremamente bem oleada. Momentos de intensidade humana foi o que se pode presenciar enquanto os EAK estiveram em palco. Com o fantástico «MuzEAK» em grande plano na setlist, a coisa foi de facto fantástica. Incrível ver o carinho que esta banda nutre pelos seus fãs e pelos que os apoiam. Podem nunca se internacionalizarem à grande, mas de certeza que ocupam um lugar bem especial no coração de

muitas pessoas. Felizmente isso deu para sentir. Para terminar o concerto mais esperado da noite. Os Every Time I Die, traziam o excelente «Ex Lives» debaixo do braço, e isso serviu de pretexto para marcarem presença, pela primeira vez, na sala portuense. Abrem com a magnífica “Underwater Bimbos From Outer Space” e o caos instala-se na Sala 2 do Hard Club. Com uma actuação que teve como base este novo registo discográfico do quinteto nova-iorquino, a coisa não podia ter corrido melhor… pelo menos quando se fala da performance da banda. Temas como “The Marvelous Slut”, “I Suck (Blood)” e “Bored Stiff” seguiram-se, fazendo com que fosse notória a brutal intensidade com que estes norte-americanos nos premiavam. Um Keith Buckley especialmente energético, tal como o seu irmão Jordan Buckley, deram momentos de descarga emocional, que tão bem se adequa à época em que vivemos. A setlist acabou por ser bastante equilibrada, fazendo referência a grande parte da discografia desta banda que já vai no seu sexto longa-duração. Para terminar, os presentes foram presenteados com a maravilhosa “Indian Giver”, do «Ex Lives», e pode-se ouvir: “As long as your name is on my list or your story written in the choruses, then true death couldn’t get you. But when it’s spoken for the last time, the weight is lifted, in a third eye. So I make a vow to forget you.” FÁNTASTICO! Apesar da casa não estar cheia, a verdade é que os que apareceram foram premiados com uma excelente noite, que tão cedo não se irão esquecer. Resta pedir, aos Every Time I Die, que voltem assim que seja possível. Nos cá os aguardamos. Texto: Tiago Moreira Fotografia: Nuno Fangueiro Agradecimentos: Hard Club (acreditação) e Nuno Fangueiro (fotos)


Infektion Magazine #19 (Dezembro 2012)  
Infektion Magazine #19 (Dezembro 2012)  

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