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06 PASSATEMPOS 08 NOTÍCIAS 10 ARTWORK 12 PIERCINGS E TATUAGENS 14 EDITORAS: RASTILHO 16 DECEPTIONS CORNER 17 ESTÓRIAS QUE MATAM 18 DEVIN TOWNSEND 22 SAMAEL 24 IN SOLITUDE 26 GARAGEDAYS 30 TALES FOR THE UNSPOKEN 32 DREAM CIRCUS 34 FALCONER 36 HAGL 38 DORNENREICH 40 BLACKSUNRISE 42 WHILE HEAVEN WEPT 46 KARUNIIRU 48 FORGOTTEN TOMB 51 INFECÇÃO URINÁRIA DE MARTE 52 REPORTAGEM: INPULSIV 54 REVIEWS 64 CONCERTOS

NOVO CICLO

EDIÇÃO Nº 4 Junho/Julho 2011

Foi em Fevereiro que a LifeDesign, uma união de designers freelancer do norte de Portugal decidiu apostar nos projectos de autor e iniciar o desenvolvimento de algumas revistas online, entre elas a Infektion. Quando me convidaram para ser o porta-voz desta publicação não hesitei em aceitar e dediquei-me a este projecto com toda a minha força e convicção. Tive o prazer de voltar a ter contacto com bandas, fazer algo pelo Metal nacional e acima de tudo conhecer os fantásticos colaboradores (uns saíram e deram espaço a outros novos) que alguma revista pode ter. A LifeDesign, tal como aconteceu com a banda austríaca Dornenreich - e como poderão comprovar mais à frente - vai renascer no ventre de outra agência, a Elementos À Solta. Isso significa que a revista tem novos objectivos, novos planos e uma nova equipa a partir da próxima edição. Felizmente para todos, os planos não podiam ser melhores. Podem demorar meses ou até anos até que estejam 100% em práctica, mas estou certo que se os nossos leitores nos continuarem a dar a força do costume lá chegaremos.

EDITOR-CHEFE Joel Costa

Joel Costa www.infektionmagazine.info

DIRECÇÃO Cátia Cunha Joel Costa COLABORADORES #04 Bruno Farinha, Catarina Silva, Íris Jordão, Jaime Ferreira, João Lemos, Jorge Castanheira, José Branco, Liliana Quadrado, Marcos Farrajota, Mónia Camacho, Narciso Antunes, Rui Simões, Rute Gonçalves, Suzana Marto, Vanessa Correia FOTOGRAFIA Material disponibilizado pelas editoras; Créditos nas respectivas páginas; DESIGN & PAGINAÇÃO Joel Costa - www.elementosasolta.pt REVISÃO Cátia Cunha Joel Costa PUBLICIDADE infektionmagazine@gmail.com WEBSITE www.infektionmagazine.info ENVIO DE PROMOS Joel Costa - Infektion Magazine Rua Adriano Correia Oliveira 153 1B 3880-316 Ovar


http://perigo-de-morte.blogspot.com/


A Infektion Magazine, em parceria com a Major Label Industries, tem para te oferecer um pack com: - 3 T-Shirts de Oblique Rain - CD The Firstborn - Split EAK/Crushing Sun - Tomo I do Tom Bombadil Collectors. Para concorrer basta enviar um e-mail para infektionmagazine@gmail.com com o assunto “Pack MLI” e explicares, numa frase, o que é que o Metal Português tem que os outros não têm!

A Infektion Magazine, em parceria com o Hard Club, tem três bilhetes para o concerto de Kyuss Lives, no dia 22 de Junho, no Hard Club (Porto) para oferecer. Para e te habilitares a ganhar um bilhete só tens que nos enviar um e-mail a explicar a razão pela qual o deves ganhar! O nosso e-mail é: infektionmagazine@gmail.com Os nomes dos vencedores serão divulgados no dia 20 de Junho, às 18h.


O terceiro álbum dos Cinemuerte estará à venda a partir da próxima segunda-feira, dia 6 de Junho. O disco contará com uma edição exclusiva FNAC onde na compra do disco, os fãs recebem um convite para um dos concertos de apresentação da banda. Os Cinemuerte vão-se apresentar ao vivo no Musicbox (Lisboa) a 7 de Julho e no Plano B (Porto) a 9 de Julho. [Joel Costa]

“Scooping The Cranial Insides” é o nome do novo álbum dos nacionais Grog, uma banda que já está no activo desde o início dos anos 90. Este terceiro trabalho de originais apresenta 13 faixas e será lançado através da Holandesa Murder Records. Os interessados poderão adquirir o CD pela quantia de 12 EUR. [Joel Costa]

Paredes de Coura - mais propriamente o Centro Cultural da localidade - irá acolher a quarta edição do Metal Coura, a ser realizado nos dias 2 e 3 de Setembro. Para já estão confirmados os nacionais Corpus Christii, The Ransack, We Are The Damned e Pitch Black, os franceses Zubrowska e os nossos vizinhos Crysys e Rato Raro. A organização do festival deverá anunciar mais nomes em breve.

“Vírus” é o novo tema dos Miss Cadaver que fará parte do álbum de estreia, intitulado “Morte Ao Fado”. O disco tem lançamento previsto para este mês e contará com um total de 12 temas com uma introdução incluída. Entretanto podem ouvir este tema de avanço ao novo álbum no MySpace oficial da banda. [Joel Costa]

[Joel Costa]

Os Miss Lava entraram nos Blacksheep Studios no início deste mês para dar início à produção do seu segundo álbum de originais. A produção ficará a cargo de Makoto Yagyu (If Lucy Fell) e terá ainda a assistência do baixista da banda, Samuel Rebelo. [Joel Costa]


Os Slipknot voltaram aos palcos depois de terem feito uma pausa após a morte prematura do baixista Paul Gray. A banda norte-americana actuou ao vivo no Sonisphere, em Atenas, onde se apresentaram com as roupas e as máscaras que utilizaram no primeiro álbum. [Joel Costa]

Os Noruegueses Gorgoroth anunciaram que o lançamento de “Under The Sign Of Hell 2011 - re-edição do terceiro álbum da banda, terá que ser adiado devido a problemas na produção. Assim sendo, em vez de sair no dia 20 de Junho, conforme estava previsto, o disco chegará às lojas no dia 29 de Agosto. [Joel Costa]

Os reis do crossover, Municipal Waste, assinaram um contrato a nível mundial com a editora Nuclear Blast. A banda irá ainda entrar em estúdio durante este Verão para trabalhar naquele que será o seu quinto álbum de originais e o primeiro a ser lançado através da Nuclear Blast Records. Ainda é cedo para se falar numa presumível data de lançamento mas espera-se que seja já em 2012.

Mike Portnoy, ex-baterista dos Dream Theater e dos Avenged Sevenfold, criou um novo projecto musical chamado Adrenaline Mob. A banda conta com a presença do vocalista Russell Allen (Symphony X), com os guitarristas Rich Ward (Stuck Mojo, Fozzy) e Mike Orlando e com o baixista Paul DiLeo (Nena). [Joel Costa]

[Joel Costa]

http://www.pedrademetal.blogspot.com


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primeira pergunta que se impõe é: Porquê “Phobos Anomaly”? O nome foi originalmente inspirado pelo notório jogo DOOM. “Phobos Anomaly” era a devastadora etapa final, e ficou algures adormecida na minha memória. Passado alguns anos, ao ler um artigo sobre astronomia, descobri que a expressão deriva do facto de uma das luas de Marte, chamada Phobos, ter misteriosas formações na sua superfície, designadas como “anomalias”. “Phobos Anomaly” tomava assim um sentido e significado bastante interessante, e quando precisei de escolher um nome que representasse a faceta mais “negra” do meu trabalho como designer, tirei essa nota mental do canto escuro da memória e usei-a para o efeito. Começou como piada, e a pouco e pouco o nome começou a ser facilmente associado ao meu “estilo” gráfico, e acabei por o manter. Sei que estás no activo desde o final dos anos 90. Como era trabalhar em design gráfico com as bandas nesse tempo e que balanço fazes de todos estes anos de actividade? Em termos técnicos, o processo não derivava muito do que se faz hoje. Comecei a fazer isto numa época em que a composição digital se iniciou lenta mas fortemente a sobrepôr a técnicas mais artesanais (onde grande parte da minha formação académica se baseia), mas foi uma transição bastante natural e bem vinda. Conseguiam-se resultados visíveis muito mais depressa, e estando a trabalhar num meio digital, as coisas não eram tão “set in stone” como quando se trabalha em pintura ou desenho tradicional. Outra coisa que tornou todo o processo mais rápido foi o advento

das câmeras fotográficas digitais. Deixou de haver a imposição limitativa e dispendiosa da revelação. Tiravam-se as fotos, ligava-se a máquina ao computador, e lá estavam elas prontas a visualizar, trabalhar e manipular. Foi uma mudança muito, mas muito bem vinda. Em relação às bandas, foi também uma época de mudança positiva. Começou a nascer uma consciência geral quanto à imagem, e mesmo a banda de “garagem” se começou a preocupar com isso. Lentamente, a noção da capa feita à base de fotocópias a preto e branco começou a ser limitada a certos nichos mais resistentes. Hoje olho para algumas coisas que fiz nessa altura com um misto de saudosismo e incredulidade. Evoluímos como artistas e indivíduos, e a própria tecnologia permite-nos explorar trilhos que antes não seriam tão acessíveis de trilhar, por isso certas opções que fiz 10 anos antes, hoje parecem-me infantis e ingénuas, mas esse é efectivamente o balanço mais positivo que se pode fazer. É sinal que essa evolução ocorreu, e nem demos por ela, conscientemente. Por outro lado, o aspecto humano é também bastante recompensador. Algumas das minhas colaborações artísticas têm já mais de uma década, e isso significa que foram feitas e solidificadas verdadeiras amizades. No fim da viagem, é provavelmente o mais importante... Quais foram os trabalhos para bandas de sonoridade pesada que mais prazer tiveste em executá-los? E quais as melhores recordações retiradas destes anos de actividade? Tirando alguns casos pontuais, penso que Corpus Christii e The Firstborn são as bandas com quem tenho tido um crescente prazer colaborar. São bandas que vi crescer, amadurecer e vingar, e com quem mantive uma estreita relação pessoal. Posso nomear o álbum “The Noble Search” de The Firstborn como uma das melhores experiências neste campo. Foi-me dada carta branca para explorar o imaginário da banda e os conceitos a ela inerentes de uma forma que até hoje não pude fazer com nenhuma outra. O mais importante neste meio é sentirmos que temos a confiança do cliente para fazermos o que achamos que deve ser feito. Acontece algumas vezes sentirmos que essa confiança é ténue. Ou porque a banda não tem maturidade suficiente, ou porque a insegurança e incapacidade interna da banda

para ser pragmática interfere violentamente com o meu trabalho e por consequência com o resultado final. Noutro registo, retenho com grande orgulho o período em que colaborei de perto com Kristoffer “Garm” Rygg (Ulver, ex-Arcturus, ex-Borknagar), para o artwork de Head Control System. É um artista e músico que considero ser de extrema relevância para o panorama extremo, e conseguir desenvolver um projecto com um dos nossos “heróis” é sempre um privilégio e uma honra. Também tens um projecto musical. É fácil para ti chegar a um resultado final que te agrade a 100% quando estás a trabalhar para ti? Na realidade é mais difícil. Somos imensamente mais exigentes a todos os níveis. Não quer dizer que o resultado tenha de ser mais complexo ou elaborado. Pessoalmente prezo a simplicidade no que diz respeito a layout e conceitos gráficos e, dentro do possível, gosto de deixar espaço para o observador tirar a sua própria leitura e conclusão, mas ao mesmo tempo acabamos por perder mais tempo a ponderar os prós e os contras das nossas escolhas, porque é uma situação em que a subjectividade choca com a objectividade. E depois existe a opinião das pessoas que estão comigo no projecto. Elas também têm a sua voz, e dentro do que é razoável tentamos que o resultado final seja consensual. A capa para o “Frail”, o novo álbum dos Before The Rain é um pouco o espelho desse processo. Existiam algumas algumas ideias iniciais que depois foram discutidas e abandonadas, até que a versão final emergiu. Em termos visuais, é das capas mais limpas e simples que já fiz na vida, mas é exactamente por isso que gosto dela. Para finalizar, tens algum projecto em desenvolvimento do qual nos possas adiantar algo? Ou seja, quando vamos poder ver novamente a tua arte? Neste momento tenho três projectos em curso. Um para o álbum “Dark Rising”, registo de estreia dos Enchantya, que está praticamente fechado, outro para o novo álbum de The Firstborn, de nome “Lions Among Men” e também para o segundo álbum de Thee Orakle, cujo nome penso não ter sido ainda oficialmente divulgado, por isso não o saberão por mim :) Outros trabalhos muito recentes incluem o novo álbum de WAKO, de nome “The Road of Awareness” e “Luciferian Frequencies” de Corpus Christii. Entrevista: Joel Costa


COMO ENCONTRAR A LISBOA INK

“A nossa loja fica em Lisboa, ao pé do Metro Avenida.” LOCALIZAÇÃO: Rua do Telhal, 8 C Lisboa FACEBOOK: http://www.facebook.com/pages/Lisboa-Ink-Tattoo-Piercing-Shop/142871405464 WEBSITE: www.lisboaink.net

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xistem muitos estúdios de tatuagens espalhados pelo país inteiro. Acham que existe muita concorrência ou é uma área com muito mercado e há espaço para todos? CRISTIAN: O que queremos é que haja espaço para todos poderem trabalhar. Queremos é preocupar-nos com o nosso trabalho e fazer melhor a cada dia que passa. O que consideram ser a vossa especialidade? A nossa especialidade é ver um cliente feliz e que volta sempre! Agora a nível do estilo, tratamos de cobrir todos mas gosto do tradicional, americano old e japonês. Há algum tipo de serviço que vos dê menos prazer de executar? Não. Tratamos sempre de ter uma união com o nosso cliente. Já contam com muitos anos de actividade. Que balanço fazem desse

tempo? Era mais fácil fazer negócio há uns anos atrás ou têm mais facilidade agora? Acho que as pessoas estão a levar as tatuagens mais a sério e estão a vê-las de uma forma mais artística. Evoluiu muito... As pessoas são mais exigentes e isso é bom para o nosso trabalho. Entrevista: Joel Costa Fotografias: Lisboa Ink


Se vamos falar de música, então é importante não nos esquecermos daqueles que trazem a música até nós: os editores. E quem melhor do que o Pedro da Rastilho Records para inaugurar este espaço?

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á lá vão 12 anos desde que criaste a Rastilho Records. Como estão a correr as coisas neste momento? Fala-nos um pouco dos últimos CDs editados. PEDRO VINDEIRINHO: Bem, tendo em conta o cenário actual da indústria discográfica em Portugal, diria que a Rastilho tem tido uma actividade pautada pela regularidade. Não é a altura ideal para se investir em termos culturais (escrevo dois dias depois de saber que vamos deixar de ter um Ministério da Cultura....) mas, enquanto nos sentirmos motivados, vamos continuar a fazê-lo. Em 2011, na Rastilho Metal Records, editámos os discos de Devil In Me, W.A.K.O e Switchtense. Na Rastilho Records, editámos os novos álbuns de Allstar Project, Blasted Mechanism, Utter e Filho da Mãe.

Após o vosso primeiro lançamento acabaram por entrar num período de 4 anos em que não lançaram nada. O que aconteceu? A Rastilho iniciou as suas actividades em 1996 e na altura não pensávamos em transformar o projecto numa editora. Esses quatro anos serviram para ganharmos a experiência necessária para desenvolvermos outros projectos e a editora foi uma extensão lógica na altura. Agora pode parecer uma coisa fácil mas nos anos 80/90 editar CD´S era quase um feito heróico em Portugal! Portanto, nos primeiros anos, não editámos de facto muitos discos. Como encaras a pirataria e os lançamentos digitais? É algo que te preocupa enquanto editor? Preocupa a todos os agentes musicais: bandas, músicos, editores, pro-

motores, managers.... todas as pessoas envolvidas no meio. Mas deixei de me lamentar: cabe-me a mim (em parceria com as bandas) tentar desenvolver formas de se venderem mais discos. Não quero ter um discurso moralista mas as pessoas não fazem ideia que estão a matar lentamente toda uma indústria que, no caso do underground, nunca cometeu as extravagâncias das editoras majors, na altura em que realmente se fazia muito dinheiro com a venda dos discos. Quando me perguntam porque razão a Rastilho não aposta em mais bandas nacionais, a minha resposta é sempre a mesma: porque não se vendem discos. Tenho a certeza que teríamos muitas mais editoras a apostar em novas bandas se existisse uma maior consciencialização das pessoas e uma cultura anti-download. Em todo o caso, é uma discusão que neste momento não faz sentido. Enquanto existi-


rem pessoas interessadas nas nossas bandas, continuaremos a editar discos. Ao olhares para trás arrependes-te de algum lançamento que tenhas efectuado? Todas as editoras têm lançamentos que se arrependem. Já tivemos de tudo em mais de 70 edições nestes 12 anos: autênticos flops de vendas, artistas esquizofrénicos com tiques de vedetismo e bandas complicadas com quem realmente foi complicado estabelecer qualquer tipo de comunicação. Mas, como deves imaginar, não é correcto da minha parte referir nomes. No teu entender, quais foram os lançamentos de maior sucesso na Rastilho? Centrando a conversa unicamente nas edições mais pesadas, foram estes os discos que mais venderam na Rastilho: Devil In Me “The End”, Switchtense “Confrontation of Souls” e Mata Ratos “Festa Tribal”. Qual é a postura da Rastilho no mercado internacional? Pensas em editar álbuns de bandas internacionais? É algo que não posso excluir, obviamente. Mas estou muito mais interessado em editar bandas nacionais e exportá-las do que propriamente fazer edições com bandas internacionais. O motivo é simples: temos um lote de 15 bandas nacionais (na vertente mais pesada) que não ficam em nada a dever ao que nós importamos todos os dias enquanto consumidores de música. Defendo que essa deve ser a nossa prioridade: a exportação das bandas portuguesas que editamos. Consegues-me descrever o processo de selecção que utilizas quando queres fazer um lançamento? Para além de gostares do som, o que é que uma banda precisa de ter para que a aceites?

É uma questão interessante mas não existe propriamente um método. Posso-te referir o caso de uma tal banda da Moita: em 2007 um grande amigo meu foi ver o Metal GDL e veio de lá louco com uma banda chamada Switchtense. Chateou-me tanto que acabei por os contactar e uns meses depois enviaram-me uma demo daquilo que viria a ser o “Confrontations of Souls”. O resto, já sabemos, pertence à história... Ou seja, acabo por dar mais valor ao contacto pessoal, ao que me dizem amigos próximos e as próprias bandas com as quais trabalhamos, do que propriamente com a audição de demos e CDs que nos enviam. É quase indispensável hoje em dia veres a banda ao vivo, por exemplo. Não basta as bandas gravarem uma demo e enviarem-nas para as editoras. É preciso serem profissionais em tudo o que fazem, na forma como comunicam e serem inteligentes para captar a atenção das pessoas neste meio, criar o tal buzz. E depois, obviamente, o meu gosto pessoal. Estou muito mais próximo de sonoridades Thrash e Hardcore-Punk do que propriamente Death ou Grind. A Rastilho é a tua actividade principal? Consegue-se viver da música no nosso país? A Rastilho é a minha vida há 7 anos. Existem muitas outras actividades ligadas à Rastilho que a maioria das pessoas desconhecem e algumas ainda ficam surpresas quando digo que isto é a minha vida - a parte editorial, não é a nossa principal actividade. Mas não é fácil para as bandas viverem exclusivamente da música em Portugal. No meio do Metal, a única banda que conheço que o faz de forma profissional são os Moonspell (com os quais tenho o prazer de trabalhar). É uma pena mas as bandas têm também que perceber que para se alcançar um estatuto internacional como o dos Moonspell é preciso trabalhar muito, ser 100% profissional e, porque

não dizê-lo, ter alguma sorte. Neste meio, ao contrário de outros, é preciso trabalhar pelo menos o dobro das horas habituais para se conseguir ter as condições mínimas de sobrevivência. O que podemos esperar da Rastilho para o futuro? Existe alguma nova edição na forja? Até ao final do ano, só vamos editar mais um álbum na Rastilho Metal Records: o novo álbum dos Echidna de nome “Dawn of the Sociopath”. Na Rastilho Records, teremos mais dois discos até ao fim do ano. Aproveito para dizer que a Rastilho terá uma nova chancela editorial dedicada a sonoridades tradicionais portuguesas e Fado - o projecto está estruturado e dará os primeiros passos no final do ano. Para concluir, alguma coisa que queiras dizer aos nossos leitores? Queria-te agradecer Joel, pela tua perseverança e dedicação nos últimos anos. É de louvar o que tens feito e espero sinceramente que tenhas vontade e interesse para continuar a desenvolver a Infektion Magazine e outros projectos. Aos leitores, queria mandar um abraço a todos. Visitem a nossa loja online em www.rastilho.com, onde podem comprar CD´s, Vinyl, DVD´s e milhares de artigos de merchandising, calçado, etc. E um apelo final: comprem os CD´s das bandas nacionais! Poderia generalizar e dizer para comprarem tudo o que gostam mas sei que isso é impossível. Portanto, na altura de escolherem, apoiem as bandas portuguesas, comprando os seus discos e merchandising e estando presentes nos seus concertos. A mudança de mentalidades depende de todos nós! Entrevista: Joel Costa


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ois é... E cá estamos nós, Portugal. Onde ninguém arrisca muito. Nunca. Existe muita gente que mesmo estando mal, tem medo de mudar. Existe muito a mentalidade do “estou mal, vou ficar pior! Deixa estar assim!”. E depois chamam-me a mim negativo? Eu sei, que é um tema que não gostamos muito. Como Nevermore menciona em muitas das suas letras “And the pigs still sell their lies” (os Porcos = Políticos, continuam a vender mentiras). Agora por momentos encheu-se-me um bocadito do peito com tristeza por terem cancelado a actuação em Vagos. Não sabias? Oops!Spoiler alert! Sou obrigado a concordar!Eu não tenho favoritismos, para mim, nenhum deles mostra ser “salvador da pátria”. Todos mostram ser gentes de luxo que vive para os lucros e negócios milionários, negócios estes que maior parte das vezes, acabam sempre por pôr alguém a dormir na rua e a passar fome... Custa-me passear por Lisboa e ver tanta a gente a viver na rua. O dobro. Os média falam muito de tudo, tentam dramatizar as coisas, às vezes (muitas das vezes) exagerando. Mas quando a realidade “exagera” perante eles, ficam impotentes e escondem... Uma coisa que não foi nunca falada, e eu reparei, que infelizmente até “perto de mim” aconteceu... Os suicídios provenientes da crise? As pessoas que perderam o emprego, logo aí, perderam poder de viver no seu próprio tecto, voltando se para a familia para depender deles, e as familias que se desmancharam, a rapariga que vive com o filho/filha na casa dos pais, que se separou do rapaz, que por mais que o “ame”, se ele não sustenta a familia o amor não conta... A devoção é paga? Pois é (aconteceume à uns anos, mas adiante...) histórias destas, com as decisões do “nosso” governo, feitas em segundos, fizeram com que muita gente perdesse anos de luta pela vida. E muita gente não aguentou dar tanto passo para trás tão grande, anos de trabalho, para nada... Eu testemunhei alguém que tinha uma pessoa “querida” que assim que este ficou em problemas económicos a pessoa virou-lhe costas, pediu-lhe dinheiro para os filhos e este Senhor (com “S” grande, pois salvou muitas vidas -era Doutor- inclusive a minha) decidiu pôr fim à sua existência. Cedeu ao conforto do suicídio em vez de ter 2 ex-recordações a assombrarem a carteira e a mente com ausência constante, coração constantemente apertado... O Amor compra-se? Eu não sabia. Pena o nosso

EP sobre a “Era onde não existe Devoção”,« ter sido também afectado plo estado económico de tudo e nunca ter saído oficialmente... Não há problema, vão sair 2 em 1...Mas isso fica para a entrevista em breve. Mas...Voltando às “mentescaptas”. Como é possível elegerem sempre os mesmos? Meterem sempre os mesmos “snobs” a comandarem o País? Vocês estão apenas a deixar os velhotes e os imigrantes votar. Nós, o futuro desta terra perto do mar, que podia ser um Paraíso Oceánico e onde se fazem os melhores vinhos... Está um País de 3º Mundo! Ninguém quer transformar isto numa “California” enorme? Poderíamos ser um dos Países mais ricos, com gente de todo o mundo a sonhar em viajar para Portugal e “largar cá a nota”. Temos também Sintra, o Gerês... Festivais de Metal/Industrial/ Gótico a crescerem a olhos vistos, cada vez melhores e maiores... todos começaram do nada! (E por outro lado, temos os festivais “mainstream” com cartazes cada vez piores...) Em 1 ou 2 horas, os visitantes de outros países podiam estar no mar (devidamente protegido, com a Polícia ou Exército a rondar (Sim, já pensaram para que raio serve o Exército em alturas fora de Guerra? Receber para fazer abdominais? Engraxar botas? Limpar o quartel? Levar caldos?) Eu próprio tenho 2 ou 3 amigos metaleiros que vivem do exército, mas, opiniões são opiniões e os amigos compreendem. Não concordam, mas compreendem que cada ser Humano tem a sua opinião. As praias e bares patrulhadas para evitar os roubos (este ano preparem-se, vão ser cortados os subsídios de “inserção” a povos de outros países que vivem cá e estão habituados a recebê-lo...Vai haver muito assalto, lamento informar!) Podíamos ter um nível de vida excelente, em vez de enriquecer os ricos e empobrecer os pobres, em vez de quem menos trabalha, mais recebe, quem mais trabalha, menos recebe. Mar, areia, floresta, magia... Temos tudo! Não sabem aproveitar... Temos um Presidente da Républica que gasta mais dinheiro que a Monarquia de Espanha e Inglaterra juntas! A sério! Pesquisem os factos na Internet (essa arma poderosa). Triste não é? Continuem a votar neles, ou a não ir votar... 40% de vocês não o fizeram...Err...Desculpem! 30% de vocês não foram. Descobriu-se que 10% dos inscritos para votar estão MORTOS! Verdade! Ridículo! Os trabalhadores do Estado nem para eles trabalham. Eu por razões pessoais, admito,

não acho o homem certo nem para Ministro nem para Presidente da República. Escondeu-se todo perante a crise, todos os anos, Agosto, não falha. Haja a urgência que houver, os problemas que houverem, estamos sem Presidente da Républica a governar o país. É mês de ir anhar para uma das suas casas no Algarve, proibir os aviões publicitários das praias de voarem o espaço aéreo da praia e casa onde ele vai, que perdem verbas enormes cada vez que o “senhor” vai de férias. Já cá esteve uma vez como primeiro-ministro, mandou abaixo montes de casas de férias de gente trabalhadora da “classe média” na Costa da Caparica/Fonte da Telha, classe essa que já não existe (agora só a classe rica, mais rica e pobríssima). Simplesmente, desenvolveu uma lei que não se podia ter segundas casas (ele tem quantas?) e que iria ser aquela zona toda turística. E descobri agora que num comunicado oficial, pediu aos Portugueses no Estrangeiro (que tiveram que abandonar a família e amigos, porque aqui não tinham direito a emprego, nem a viver) para ajudarem Portugal com a crise! Isto não é o cúmulo da lata? Se a tua familia te mandasse para a rua, sem nada, não te tivesse dado sequer uma chance de vida, e depois te ligasse a pedir dinheiro? Portugal é mesmo a “mãe que devora os seus filhos, em vez de os alimentar”. Temos dos melhores cientistas espalhados pelo mundo, temos engenheiros na Nasa que cá passavam fome... Para quando Portugal seguir o exemplo da Suécia? A terra dos Katatonia e muitos outros? A terra onde ninguém ganha mais do que o Presidente da Républica e os Políticos vivem todos no seu T1, conduzem o próprio carro e recebem um ordenado normal, tanto como um cabeleireiro, um recepcionista de hotel, ou um outro trabalhador (note-se, o ordenado mínimo é 1300 euros e todos os desalojados são vestidos, alimentados e existe onde dormir, por organizações do mesmo. Crise meus amigos, são estes ignorantes terem poder a mais e gastarem-no em luxo, diariamente... Prometo que não falarei mais de Política porque é uma seca e porque eu próprio sempre odiei Política e Futebol. Para mim “O Rock” (e refirome a Metal também) sempre foi tudo... Depois de um “abre olhos”, deixo-vos com uma palavra de alívio para Agosto...VAGOS! Até lá :)


SOBRE A ESCRITORA: Valentina Silva Ferreira 1988, Ilha da Madeira. Mestranda em Ciências Jurídico-Criminais. Autora seleccionada para as antologias brasileiras de contos: Cursed City e Série VII Demónios da Editora Estronho; e-book Lugares Distantes da Editora Infinitum e Jogos Criminais II da Andross Editora. Colaboradora das Revistas on-line Magazon e Benfazeja. Autora da rubrica Estórias do Arco-da-Velha da Revista JA.

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pequena insurgia-se no canto vazio da sala, apertando os braços gorduchos e revendo uma série de consultas médicas que só lhe traumatizavam os sonhos: o dos dentes, o dos olhos, o da garganta, o do pé partido. Este, disseralhe a mãe, era de tudo e esse tudo afigurava-se um tanto monstruoso; o tudo incluía partes do corpo que ela não queria que investigassem, embora ela soubesse, muito bem, que estavam doentes. O médico chamou-a e ela cobriu as orelhas com as mãos, tentando, inutilmente, abafar os sons das vozes e os burburinhos próprios de um consultório. Lá dentro cheirava mal: como o chão velho da cozinha da avó Celeste - um cheiro a madeira podre e a uma mistura nauseante de molhos de assados e espinhas roídas do carapau que, sem querer, saltavam dos pratos e espetavam-se nas farpas levantadas e, ainda, aos sucos doentes dos escarros do avô que não tinha educação para cuspir para um guardanapo, ou a goivo proveniente de um festim de larvas agrupadas aos molhes, nos armários húmidos. Ou, mais secretamente, uma fragrância mórbida que só ela con-

hecia: as amálgamas de líquidos transparentes, esbranquiçados e rosados que sobravam nos lençóis, depois… depois... depois de coisas que não queria trazer à tona da sua memória. Era; aquela sala tinha o mesmo cheiro. E isso incomodava-a porque sabia, mesmo sendo inocente, que era um odor errado, que ali só se deveria sentir bálsamos medicinais. Encolheu-se ainda mais, escondendo o rosto nos caracóis miúdos. Vem cá, vem cá, não dói nada. Odiava essa expressão que só servia para recordar que podia doer, mesmo que minimamente. Não obedeceu ao médico e encarou os olhos chateados do pai. Se ao menos viesse com a mãe, se ao menos pudesse socorrer-se com o olhar plácido da sua querida mãe. Inês, não ouves o Sr. Dr.?, vem já! Sentiu um ódio peganhento que se colava ao céu-da-boca, impelindo a língua a movimentos estranhos, quiçá a deitá-la para fora e, assim, exibir uma figura de rapariguinha mimada. Contevese e escondeu a boca no braço, lambendo-o como um gato, sentindo a língua tropeçar nos pêlos fininhos que o adornavam. Inês, não repito! O pai parecia um bicho enjaulado, de narinas

inchadas e a camisa bastante aberta, expondo um peito escuro e marcado por cicatrizes de uma adolescência rebelde. A menina levantou-se e andou até ele, colocando os braços em volta da sua cintura. O pai elevou-a no ar e ela beijou-o, no rosto, amordaçandolhe as fúrias. Deixou-se deitar na marquesa e apertou os olhos com tanta força que se sentiu invadida por uma cegueira branca. Relaxa, disse-lhe o médico. Mas ela não relaxou. O corpo retesou-se. Relaxa, dizia-lhe o pai. Mas ela não relaxava. Sentiu um objecto estranho invadir as bordas da sua carne magoada. Como sentira, tantas vezes, na cama, um objecto duro invadir a rosa que tinha entre as pernas. Comeu a dor como tantas vezes suportara dores semelhantes. Sentiu o corpo adormecer, levado por uma maré de movimentos leves que sussurravam, baixinho, melodias de dormir. Deixou-se estar daquele jeito, quieta, entre o limbo da dor e da letargia. Então, Dr.?, perguntou o pai. O aborto está feito; para a próxima tenha mais cuidado. E a menina vomitou, horrorizada pela ideia de haver uma próxima vez.


Devin Townsend lança “Deconstruction” onde se socorre mais uma vez de metáforas poderosas e do universo do humor para passar a mensagem. Assume que este álbum marca a viragem para uma outra fase na sua música em que o folk ganhará espaço. Sem cedências, afirma que se revê no álbum “Ghost”, que também acabou de lançar, considerando que este é uma sequência natural. À conversa com a Infektion revelou algumas coisas sobre a sua emotividade e a sua jornada musical.

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que retiveste deste encerrar de ciclo, com estes dois discos, relativamente à tua busca

pessoal? DEVIN TOWNSEND: Acho que em determinado sentido prejudiquei a música ao falar demais sobre o facto de ser um conceito ou uma busca ou ao utilizar qualquer outro adjectivo para a descrever. Honestamente, penso que estes quatro discos são apenas os próximos quatro discos na calha, usando o mesmo processo que venho utilizando há vinte anos. Ontem fiz uma outra entrevista e falavam-me do conceito. Na verdade é como um diário ou uma mudança pessoal. E em certa medida essa é a verdade, mas eu argumentaria que não é diferente de um cantor ou compositor a relatar as suas experiencias pessoais através da música. Por isso, há um conceito e eu aprendi coisas ao fazer isto, mas o que essas coisas são, na minha opinião, não é assim tão importante ou sequer super profundo. Eu duvido que não tivesse aprendido todas as coisas que aprendi, apenas por ter trinta e nove anos. Foi um período da minha vida, aquele em que escrevi estes quatro discos, cheio de mudanças. Muitas coisas mudaram na minha vida e eu não estava preparado, acho eu. Como eu lidei com essas coisas, acabou por ser documentado pela música que fiz nessa altura. Por isso se aprofundarmos a questão, existe um conceito e existem percepções obtidas, mas não sei se será esse o foco da questão. Ao ler as tuas letras ocorre-nos: a alma foi salva e a dor ultrapassada? Talvez de forma metafórica. Acho que o intrigante de fazer e gravar música é a possibilidade de criarmos uma versão idealista de nós. Podes facilmente embrulhar-te numa imensidão de técnicas de gravação e produção, com letras que digam que és a melhor pessoa do mundo, como um semideus ou algo parecido. E existirão factos que as pessoas acharão convincentes e nós até iremos

acreditar neles. Mas para mim, a realidade da minha vida é que sou um ser humano estranho de trinta e nove anos que apenas tenta perceber como há-de ir de um lugar para o próximo. Por isso, todo o tipo de afirmações que eu faça nas letras deverão, honestamente, ser entendidas mais num sentido poético, do que uma descrição literal de onde me encontro enquanto pessoa. Acho que não seria tão interessante fazer um disco sobre o que faço ao longo do dia, e dizer que não o consigo perceber. Acho que as pessoas não querem ouvir canções sobre se devemos ou não comer batatas fritas no sofá à meia-noite. A arte, a poesia e a música são de certa forma uma bênção, pois podemos representar com uma metáfora todas a mudanças sentidas, mas não passa disso. O álbum “Deconstruction” foi descrito como complicado e extremo. Sentes que é assim? Sim. Acho que a característica que define o “Deconstruction” é o facto de ser complicado. De uma forma tal como eu nunca criei música complicada. E é extremo, mas não da mesma forma como o fiz no passado. Tudo foi um exercício de auto-controlo. No passado sempre que tentei criar música que tivesse aquele tipo de estética “Sonic” não levei a melhor. Quanto estava a fazer o “Strapping” ou o “Alien” ou o “Infinity” ou qualquer um desses discos estava completamente envolvido com todo o processo, com o significado disto e com o significado daquilo. Esses discos a nível pessoal foram um pouco um falhanço. Pois no fim de cada um deles eu cometi erros na minha vida pessoal com base numa má interpretação da importância da música. Por isso, em “Deconstruction” o que eu queria mesmo fazer, era ir mais longe do que tinha ido nestes discos anteriores, mas mantendo, a ní-

“É muito importante para mim que aquilo que eu digo, e aquilo que as letras dizem, suporte as minhas ideologias pessoais.” Devin Townsend


vel pessoal, um sentido de equilíbrio, no que diz respeito ao estilo de vida. Percebes? Nada de bebidas alcoólicas ou drogas ou coisas dessas. Para ter a certeza que controlava as minhas merdas. E para ver se conseguia atingir a profundidade que outrora me assustara sem que esta me vencesse. E foi isso mesmo que aconteceu. Consegui levar o “Deconstruction” a um nível complicado e extremo de uma forma que me teria metido medo no passado. E como resultado disso, mantive em perspectiva o sucesso de “Deconstruction” e dei-lhe uma sequência adequada com um disco como “Ghost”, que me chega de forma completamente natural. Talvez muito mais do que o “Deconstruction”. “Ghost” é um álbum muito etéreo. É um estado de espírito? DEVIN TOWNSEND – Acho que a musica contida em Ghost é algo que me vinha interessando há anos. Mesmo antes de fazer o “Deconstruction”. Eu precisava destes outros discos, do metal que tive na minha vida. Mas antes disso, eu interessei-me por música new age e de meditação. Acho que precisei da purga de muita da música desses discos, para me dar confiança para apresentar isto. E voltando à primeira pergunta que fizeste, percebi que talvez eu esteja muito menos interessado no caos e talvez tenha feito assumpções durante demasiado tempo. E fazer essa purga do caos em “Deconstruction” e ao permitir que me vissem como alguém que se sente confortável a apresentar um disco como “ghost”, em última análise, revela que talvez eu não estivesse tão apegado ao som heavy metal como pensava. Mas acho que isso ainda é algo para ver. Ainda estou a deitar cá para fora. A ironia é a tua principal ferramenta em “Deconstruction”? Acho que foi uma forma de expressar coisas que são muitas vezes entendidas como rudes ou como sermões quando expressas literalmente. Acho que ao utilizar o sarcasmo ou a ironia ou uma metáfora isso permite-me expressar coisas que são muito importantes para mim, sem chegar àquele ponto em que estou demasiado convicto do que estou a falar e acho que todos deviam concordar comigo. Porque mais uma vez, tudo é um trabalho em execução. Sei quem sou, mas muito do que escrevo são hipóteses. Estou apenas a atira-las ao ar, dizendo: E isto? E aquilo? Como funciona? Muitas vezes posso

ficar sentado a ouvir o disco e pensar: as pessoas vão dizer que concordo com isto e não concordo com aquilo. Mas tal como na metáfora por trás de Ziltoid, que é para onde “Deconstruction” decide ir em termos de certos componentes, acho que parte da musica é percepcionada como uma brincadeira. Mas ao mesmo tempo através do humor e ao não nos levarmos demasiado a sério o nosso ponto de vista, este pode ser mostrado sem o dramatismo dos que sobem para cima de uma caixa de cartão e pregam às pessoas como devem sentir e do que está certo e do que está errado. Quantas pessoas fazem isso a toda a hora? Eu vejo por mim, apenas desligo. E penso, sim, claro, óptimo. A última coisa que preciso na vida agora é alguém a dizer-me o que devo fazer. Acho que se criarmos uma história e fizermos o conceito um pouco menos invasivo, então a possibilidade de as pessoas aceitarem e serem a favor, aumenta. A ligação emocional é o que define a importância das coisas para ti? Algumas coisas. Quer dizer, sou um tipo bastante tangível. Acho eu. Não gosto de coisas complicadas. Não gosto de coisas fantasiosas. Gosto de coisas concretas que eu posso tocar. Gosto de coisas básicas. Mas às vezes, e voltando à ironia, é preciso fazer coisas que não sejam básicas, e que sejam fantasiosas, de forma a existir uma moldura de referência relativamente ao que funciona ou não funciona. Uma ligação emocional às coisas é uma coisa interessante para mim. Acho que sou muito ligado emocionalmente a coisas externas, mas internamente acho que sempre tive problemas em conectar-me com as emoções. Encontro-me muito defensivo e sempre fui assim. As coisas que me permitem não ser defensivo são coisas tangíveis como a natureza por exemplo. Coisas que eu sei onde estão. Tenho a certeza que é uma espécie de medo que me impede de aceitar as coisas a um nível emocional. Talvez o medo da morte, ou o medo de falhar. O que quer que seja, penso que também se reflecte na música. Ou talvez a razão para o facto de eu ter um investimento tão emocional em relação ao que faço é a possibilidade de participar dessas emoções. Morreram pessoas recentemente na minha família e eu achei muito difícil conectar-me emocionalmente com tudo isso. Acho que aquilo que faço musicalmente é uma terapia, e detesto usar o termo “terapia”, pois isso implica dar-lhe uma importância que acho que não tem, talvez purga faça mais sentido. Talvez seja uma forma de colocar alguns destes cenários que estão emocionalmente presos. Para mim faz sentido. Sentes que é cansativo ter que estar sempre a explicar o que queres dizer com esta ou aquela música? Coloquei muito esforço nestes quatro discos e sou responsável por tudo. E por isso, se alguém me perguntar especificamente o que eu quis di-


zer com algo, haverá uma explicação, ainda que se trate de uma metáfora. Existe uma explicação para essa metáfora. Acho que a responsabilização (E de uma forma circular vou responder à primeira pergunta) poderá ser um dos mais importantes factores que me leva a fazer o que faço. Posso ruminar acerca das razões: as mudanças da vida, a idade, etc.. No passado, talvez de uma forma um pouco naif, eu escrevi letras com conteúdos para vários discos numa linha condutora de consciência, sem me preocupar demasiado com a percepção que teriam sobre eles. Penso que o que mudou foi, que no passado eu estava muito preocupado em relação à forma como a música seria percepcionada, mas não tinha um real interesse em saber como as letras seriam percepcionadas. Isso agora alterou-se completamente, eu já não tenho um desejo real de me preocupar se as pessoas vão ou não apreciar a música, mas é muito importante para mim que aquilo que eu digo, e aquilo que as letras dizem, suporte as minhas ideologias pessoais. São muito simples: Tentar ser boa pessoa e não pensar demasiado em coisas que estão para além do meu controlo. Por isso de uma forma muito elaborada e masturbatória acho que é isto que estes discos representam. Sair do modo “masturbação artística” foi algo de que sentiste necessidade para evoluir como músico e como pessoa? Sim especialmente com “Deconstruction”. Muitas vezes no passado disse, eh pá não me apetece fazer esse tipo de música. E as pessoas diziam-me: Mas qual é a tua razão para não quereres fazer mais este tipo de música? E eu dizia: Para ser honesto gostaria de vos dar uma explicação intrincada e estou certo de que podia fazê-lo (já o fiz antes) das razões pelas quais escolhi já não fazer certas coisas, mas tudo se resume ao facto de já não sentir vontade de as fazer, por variadas razões. Parece que esta explicação faz muito pouco sentido para a maioria das pessoas. Talvez não para a maioria, mas para algumas. Continuam a insistir: Precisamos que faças este tipo de música outra vez. E eu respondo que já não estou interessado nisso. E eles replicaram: Sabemos que és capaz de o fazer. E claro que podia, mas não estava a mentir quando disse que já não me apetecia fazer. Disse-lhes que se fizesse iria sair algo muito diferente do esperavam ou do que seria importante. Por isso quando fiz o “De-

construction” o que fiz com o disco foi algo que me interessava. Como o meu interesse em música pesada está num sentido descendente a única coisa que encontrei que me cativou foi a metáfora que eu escolhi, que tem a ver com mergulhar no caos com um certo sentido de arrogância achando que o conseguimos controlar. No fundo falar da necessidade de controlo. E quando damos um passo atrás a partir daquilo que estávamos a hiper-analisar e nos apercebemos que talvez não tenha validade na nossa vida, (e aqui uso aquela metáfora absurda do cheeseburguer para sublinhar a ausência de sentido, porque somos vegetarianos), vemos que qualquer desejo de afirmação caótica tem por base a masturbação intelectual. A necessidade de o fazer não é em última análise uma jornada artística. É este certo sentido, de que enquanto humano és capaz de entender o infinito. O que é absurdo. Por isso, precisei de fazer o disco na minha mente tão masturbatório e complicado quanto possível e depois concluir na última canção dizendo: agora que estamos claros em relação a isto, o que é que queres mesmo fazer? E eu respondo: Eu gosto de música folk. Vamos tocar algo melódico. E é aí que o Ghost se insere. Convidaste dois bateristas diferentes para tocar em “Deconstruction”, porque precisaste dos dois? Eu não precisava necessariamente dos dois. Poderia ter utilizado o Derick no disco todo. Só utilizei o Ryan porque ele é um baterista bom ao vivo e eu queria não só dar-lhe algum dinheiro a ganhar e incluí-lo no disco para que sentisse que fazia parte dele. Ele é um baterista relativamente desconhecido e de certa forma existe uma parte nele, que precisa da validação de estar envolvido com um projecto com dimensão. Por isso quis incluí-lo. Também convidaste muita gente para fazer vozes. Ao compor as músicas achaste que cada um tinha um propósito musical ou foi algo que surgiu depois? Muitos são meus amigos. Quando estava a compor, verifiquei que a música era muito mais teatral do que heavy metal, precisava de textura, e quando fiz as vozes achei que ficava enfadonho. Por isso decidi que precisava de uma abordagem deste género. Chamei pessoas que conhecia, outros souberam do projecto e ofereceram-se e eu enquadrei-os nas

partes que requeriam a sonoridade da sua voz. És considerado um músico muito versátil, todos reconhecem isso. Achas que tem a ver com a tua curiosidade ou é uma questão mais uma vez relacionada com o background emocional? De certa forma tem. Por outro lado acho que beneficiei um pouco do facto de nunca ter sido super bem sucedido, ou por não ter participado do status quo. Em miúdo sempre fui estranho. Na verdade toda a minha vida fui estranho. Nunca fui completamente impopular mas também nunca me achei aceite em nenhum caminho em particular. Quando tens quinze anos e estás a tentar ter uma relação com alguém ou estás a tentar entrar para a equipa de desporto, existe um elemento de auto-consciência que se pode atribuir a essa questão. No entanto em adulto, tendo essas fases passado, já não é importante. E aí é bom nunca ter feito parte de um “Click” de nenhum tipo. Se escolher fazer um disco do tipo New Age ou um disco Pop ou de Black Metal, não vou ser expulso de nenhum clube ao qual tenha uma enorme necessidade de pertencer. Por isso não interessa. Claro que há um elemento de curiosidade envolvido nisso, mas a liberdade é na verdade o que sobressai. Então és um músico livre? Está definitivamente muito trabalho envolvido. Muitas pessoas sentem necessidade de rotular aquilo que eu faço e numa outra entrevista disseram-me: “Exiges muito do teu público” e em relação a isto eu argumento: Não exijo nada de ninguém. Faço isto porque faz sentido para mim. Encontrei-me nisto. É uma posição interessante, uma vez que se trata do meu trabalho. E claro que o tento vender e pagar a renda e essas coisas, mas bem lá no fundo não quero saber se as pessoas prestam atenção. E na verdade prefiro que as pessoas que veementemente não gostam do que eu faço, se sintam à vontade para fazer o download e tomar a sua decisão. E se definitivamente não gostarem, esqueçam, ignorem, façam um favor a vós mesmos. Não é um drama, e não me leva a parar de fazer o que quero. Faz parte do trabalho. Por isso, sim, sinto-me livre para fazer o que quiser. Entrevista: Mónia Camacho Fotografia: Wessel de Groot


Numa clara crítica à Igreja Católica a banda SAMAEL lança o álbum “Lux Mundi” que nalguns pontos abre novas possibilidades sonoras e demonstra a sua capacidade para criar algo original. A heavy ballad “Mother Night” confirma esta veia inovadora e impõe-se como um conceito musical interessante.

Q

ual é a vossa visão sobre a luz do mundo hoje em dia? VORPH: Essa é uma pergunta muito subjectiva. Depende do ângulo em que a abordas. Nós decidimos olhar para o mundo da perspectiva das pessoas, da nossa perspectiva e não do mainstream dos media. E contra todas as possibilidades, parece-me que o mundo está melhor e brilha mais do que nunca.

nham usado a língua em que a igreja católica se expressava antigamente para o nome do álbum? Não é coincidência. A igreja ainda pretende ser a luz do mundo, mas para nós é o oposto que é verdadeiro, pois cega as pessoas, iludindo-as e restringindo-as impedindo-as de serem elas próprias e de evoluírem enquanto seres humanos. A verdadeira luz do mundo são as pessoas.

de fazer uma afirmação pública contra a religião? Já o fizemos no passado, mas deixamos esse assunto de lado nos nossos últimos álbuns uma vez que já estávamos saturados. Mas hoje em dia as religiões tendem a vir para a linha da frente e há mais pessoas a identificar-se com o que a religião traz, por isso achamos que estava na altura de escrever outra vez sobre o assunto.

É uma coincidência que te-

Porque sentiram necessidade

Têm fé em alguma coisa?


“Nós decidimos olhar para o mundo da perspectiva das pessoas, da nossa perspectiva e não do mainstream dos media.” perimentalista, é assim? Não somos uma banda experimental mas gostamos de experimentar coisas novas no álbum para manter o nosso som fresco e excitante, para nós e para quem nos ouve. Fala-nos um pouco mais do conceito balada heavy que criaram com “Mother Night”. Cheguei primeiro ao título e poderia ter sido uma canção muito negra mas tentei encontrar uma saída e acabou por ser uma canção positiva. É uma espécie de redenção através da compreensão. O paganismo atrai-vos como fonte de inspiração musical? Eu vejo muitas vezes as coisas como ligações, entre o homem e a natureza ou entre as pessoas. Não acredito em Deus, nem como ser único nem como ser múltiplo.

Por mais pretensioso que possa soar, temos fé em nós próprios. A nossa fé em nós, é tão forte que se estende às outras pessoas. Fale-nos um pouco da vossa escolha do poeta Johann Wolf Gang Von Goethe? Não há referências directas a Goethe no álbum, mas acredita-se que as suas últimas palavras no leito da morte terão sido “Mehr licht!”, que quer dizer “Mais Luz” e que se tornou na principal característica do coro de “Luxferre”. Em algumas canções do álbum temos a sensação que se estão a dirigir para um caminho ex-

Em “The Truth Is Marching On” sentimos a batida forte a desenvolver-se, é assim que a verdade ressoa para vocês? Todos conhecemos o velho ditado: A mentira pode dar a volta ao mundo, enquanto a verdade ainda está a apertar os sapatos… E queremos que a verdade ande um pouco mais depressa do que isso. Fazem alguma ideia quem são as pessoas que ouvem a vossa música? São pessoas como nós. Já não há estereótipos para os fãs de metal como havia, e os fãs de Samael não são excepção. A nossa música cruza-se com muitos géneros: industrial, goth, electrónica… As pessoas que nos ouvem querem ouvir algo diferente e eu acho que somos únicos.

Entrevista: Mónia Camacho

SAMAEL LUX MUNDI NUCLEAR BLAST

Facilmente se identifica o que se está a ouvir quando estamos perante algo feito pelos Samael. A componente electrónica que dão ao seu som obscuro com características muito próprias faz deles uma daquelas bandas com um estilo original. Aos primeiros momentos de “Luxferre” percebe-se logo isso mesmo, que este é um álbum dos Suíços. A voz de Vorph aliada aos habituais arranjos musicias de Xytras percorre este “Lux Mundi” de forma já habitual e com a qualidade que eles já nos habituaram, retirando o pé do acelarador e abandonando o uso mais frequente do blastbeat como faziam nos seus primeiros discos e que voltaram a tentar recriar no registo anterior, “Above”, tirando em alguns momentos em que este é muito bem empregado, como no último tema deste novo trabalho, “The Truth is Marching On”. Destaque também para o ritmo tribal de “In the Deep”. Talvez o único problema que reside neste último registo, é o facto de este não acrescentar muito de novo ao que já foi feito anteriormente pela banda, logo quem gostava de Samael irá receber “Lux Mundi” de braços bem abertos, mas para quem não gostava as cartas postas em cima da mesa são as mesmas. É mais um registo extremamente competente a juntar já à grande discografia que os Samael possuem e a deixar de lado qualquer ideia de desgaste deste veterano grupo. [7.5/10] Bruno Farinha


O álbum “The World. The Flesh. The Devil” dos In Solitude surge intenso e revelador. Uma consciência que se acorda, uma percepção que se alarga e uma música que o transmite com paixão. Ficamos a saber um pouco mais sobre esta banda que se releva madura e capaz de um auto-conhecimento emocional e musical.

O

que tem o diabo de tão interessante? Está muito para além do interesse. É muito mais do que isso.

passamos enquanto escrevíamos e gravávamos o álbum. Foi no mínimo muito intenso e revelador. Muita paixão e fogo, foi isso mesmo.

Estes temas preenchem um conceito musical ou são apenas uma preferência? Estes “temas” são evidentes no mundo de “In Solitude” pela sua influência nas nossas vidas.

As canções neste álbum são longas, e em cada uma têm tempo para explorar uma grande variedade de coisas. Querem comentar? Não foi algo consciente da nossa parte, mas sim algo que tomou conta de nós e que precisava de ser retratado e canalizado dessa forma e nessa extensão de tempo. As canções até nos pareceram pequenas quando as escrevemos. (Ri-

Este álbum é todo feito de paixão e fogo? Sim, certamente que é. São duas palavras que resumem muito do que

sos) Mas elas eram obviamente mais longas do que pensávamos. Nestas circunstâncias parece que deixamos de nos focar no tempo. De qualquer forma as canções têm o tempo de que precisavam. Algumas “coisas” precisavam ser expressas e geraram o seu próprio espaço, quer em nós quer no álbum. E agora, a juventude e a sabedoria finalmente se juntaram para este álbum? Sim, entre outras coisas. Muitas “coisas” se encaixaram neste álbum. Um “arcanum nexus” na maior parte das perspectivas (na nossa).


“Juntamo-nos os cinco numa sala e fazemos o inexplicável.” a emoção e a importância das letras e da música que ele canta. Todas as vozes que vêm do coração serão ouvidas. A que distância estão de “Hidden Dangers”? Certamente que evoluímos imenso como indivíduos e como músicos desde Hidden Dangers”. Agora compreendemos o que estávamos a tentar expressar e aquilo que nos estava a influenciar. Coisas que nessa altura não percepcionávamos sobre nós próprios e sobre a banda estão agora muito mais claras. Estou muito contente que nós tenhamos evoluído neste sentido. E ao ouvir esse single agora é uma forma muito boa de perceber o que aconteceu, quem éramos nessa altura e quem somos agora. Como é estar em tournée com este álbum? É uma experiencia excelente. Muito intensa a todos os níveis. Tendo em atenção o que este material significa para nós, torna-se muito emocional experimenta-lo ao vivo.

Quem compõe as vossas canções? Por exemplo, quem compôs “Poisoned, blessed and burned” ou “Demons”? Todos compomos as canções. Juntamo-nos os cinco numa sala e fazemos o inexplicável. Sempre foi assim. A voz na vossa banda é bastante interessante, porque não é aquele clássico heavy metal seguido por montes de bandas. Foi algo que planearam ou é apenas a personalidade de Pelle Ahman a sobressair? Nada é planeado. É certamente a personalidade dele e sua espiritualidade a aparecer e também

Qual o segredo para manter uma banda unida? Não sei. Nunca estive numa banda que tivesse esse tipo de problemas. Mas ganhamos muito em conhecermo-nos bem e em passarmos por tanta coisa juntos. Não formem bandas com idiotas que não acreditam no que fazem e que não estão dispostos a fazer sacrifícios. Quando estão em tournée, têm algum pedido especial para produção? Não, nem por isso. Temos uma lista de coisas que precisamos, mas nada de muito complicado. Até porque nem sempre podemos confiar se temos as coisas ou não. Temos exigências muito maiores relativamente ao homem do som (senão levarmos o nosso), acho eu.

Entrevista: Mónia Camacho

IN SOLITUDE THE WORLD. THE FLESH. THE DEVIL. METALBLADE

Podem concordar ou recusarem-se a aceitar, mas o que é certo é que ao ouvir In Solitude pensamos automaticamente em “Mercyful Fate”. Com “The World. The Flesh. The Devil”, o colectivo sueco que se dá pelo nome de In Solitude apresenta um bom tributo à lendária banda liderada por King Diamond, enquanto que ao mesmo tempo inserem alguns elementos com o objectivo de tornar o produto mais original e reverem-se como uma banda de originais e não de tributo. Todos sabem que o Metal, se formos até aos primeiros lançamentos existentes, consegue ser algo sem limites e os In Solitude mostram da melhor forma que conseguem (e bem) que isso é mesmo possível. A banda conseguiu fazer algo acima da média e no que toca à produção e às composições que compõem o alinhamento deste novo registo, acertaram mesmo no ponto. Os riffs brilhantes e a voz, aliados à montanha-russa que se faz ouvir ao longo da extensão deste álbum fazem a delícia dos ouvintes. [8/10] Joel Costa


Os austríacos Garagedays, recém-assinados pela alemã Massacre Records, presenteiam-nos com “Dark And Cold”, o seu disco de estreia que promete levar-nos numa viagem aos tempos áureos do Heavy Metal. A Infektion esteve à conversa com Marco Kern onde se falou de Metal e do Tirolês!

E

m primeiro lugar, quero felicitar-vos pelo reconhecimento que vos foi dado pela Metal Hammer para “Demo do Mês”! Como foi para vocês começar 2011 desta maneira? MARCO KERN: Obrigado! É uma sensação muito boa e estamos muito orgulhosos disto! Significa muito para nós. O álbum “Dark And Cold” está preenchido com um sentimento clássico mas consegue ser também algo novo. Qual foi a fórmula usada para esta mistura? Não tenho fórmula nenhuma. As coisas simplesmente aparecem na minha cabeça... À medida que ia ouvindo o vosso disco, senti que estava a usar novamente as minhas antigas rou-

tocam o mesmo tipo de coisa, são todas umas cópias umas das outras. Não existe personalidade nem grandes vozes como Dio ou Judas... é só berros. Quero dizer com isto que não consigo aceitar isto pois a maior parte deles não são autênticos. Foi difícil para vocês trabalhar com Andy Laroque? Isto porque ele trabalhou com grandes nomes e vocês são novos na área. Não. Foi um grande prazer para nós trabalhar com o Andy! Ele é uma pessoa com os pés bem assentes no chão e foi uma excelente experiência para nós. Olhando para trás, qual foi o melhor e o pior aspecto de trabalhar com uma personalidade deste género? Presumo que aprenderam muito...

Achei que Tirol era um sítio onde as pessoas cantavam o tirolês todo o dia! Podes-nos descrever a cena metal Austríaca? É, os estúpidos cantam o tirolês mas nós somos rockeiros (risos)! Temos algum Metal mas não estamos muito envolvidos nisso. A maioria das bandas aqui são amigas e eu não quero ter amigos e lambe-botas por perto. Somos muito directos com eles e agora não conseguem acreditar no nosso “sucesso”. A maioria deles têm medo de mim, o que significa que me odeiam. Nos últimos anos fui sempre visto como um maníaco ou um tolo mas eu tinha um sonho e agora o meu trabalho está nas lojas (risos). Que sítios no teu país recomendarias para um metaleiro Português visitar? Sítios, bares, festivais...

“Todas as bandas tocam o mesmo tipo de coisa, são todas umas cópias umas das outras. Não existe personalidade nem grandes vozes como Dio ou Judas... é só berros.” pas de cabedal, picos e correntes. É um disco muito poderoso e directo. Onde foram buscar a inspiração? É o nosso modo de vida. Usar casacos de cabedal e botas, beber umas cervejas, deixar que os bons tempos tomem conta da situação e sentir o verdadeiro espírito do Heavy Metal! Todos nós gostamos das bandas de Metal mais antigas, tais como Judas Priest, WASP, Metallica, Saxon e por aí fora... Ouvimos estas bandas desde que nascemos até aos dias de hoje. Nenhuma banda “nova” conseguirá sequer modificar isso! Porquê regressar aos “Garage Days”? Sentem-se aborrecidos com a cena metal actual? É o espírito da velha fórmula... nós vivemos para isso! E sim, estou farto da cena metal actual... Todas as bandas

Não houve nada de mau! O tempo que passamos na Suécia foi muito bom e é óbvio que aprendemos muito. Ele foi como um pai para nós (risos) e queremos voltar a trabalhar com ele. Como estão a preparar a vossa próxima tour com Master? Sentem-se preparados para lidar com tantas viagens e trabalhar arduamente? Diariamente bebemos um número considerável de cervejas por isso sim, estamos preparados. É Rock’n’Roll pá! Como é possível não passarem por Portugal? Espero que consigam visitar o nosso país! Gostaríamos de visitar o mundo inteiro e proporcionar uns bons mosh’s! Os Garagedays dão-vos “Heavy”! Estamos abertos a qualquer oferta, basta entrar em contacto!

Nada de jeito que valha a pena mencionar aqui em Tirol. Existem muitos festivais, é óbvio: Nova Rock, Hell Over Vellach, Austrian MetalFest... E em Viena podem sempre encontrar bares muito potentes! Entrevista: Narciso Antunes


Os Tales For The Unspoken são uma banda multicultural que nos apresenta “Alchemy”, a sua mais recente proposta discográfica. A Infektion esteve à conversa com uma banda que partilha diferentes nacionalidades mas com muito em comum: a língua e o Metal!

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ma das primeiras coisas que salta à vista é o facto de vocês terem nacionalidades diferentes mas terem o Português em comum. Como é que isto aconteceu? Foi algo intencional? MARCO: Não foi um facto pensado antes de formar a banda. Foi um bocado sorte isto acontecer. O Nuno e o Mike já estavam a tocar juntos, depois o Guilherme encontrou-os através da internet, logo a seguir o Sérgio juntou-se e após a saída do primeiro vocalista eu entrei. Depois de formar a banda vimos que essa mistura era um bom diferencial para criar fusões musicais e resolvemos apostar mais nisso.   Logo no começo tiveram que mudar o registo de voz. Como acham que funcionou essa transição? SÉRGIO: Essa transição fez aproximar e ao mesmo afastar algum públi-

co. De início a voz era mais melódica e ao mesmo tempo existia teclado. Com a mudança de vocalista o registo mudou completamente e as teclas acabaram por desaparecer. Foi uma mudança que, involuntariamente, acabou por mexer no estilo que tínhamos até então mas acabou por se tornar mais coeso após o período em que trabalhamos para adaptar o gutural às músicas já existentes. E colocar mais peso já era algo que intencionávamos mesmo antes da saída do ex-vocalista.   De que forma é que o facto de existirem diversas nacionalidades no seio da banda influencia a vossa música? MIKE: As nossas nacionalidades influenciaram e com certeza continuarão a influenciar a música que fazemos. Há uma grande riqueza e diversidade musical nos nossos países de origem e em alguns aspectos até é comum pelo fac-

tor histórico. Isso é algo que queremos progressivamente ir tendo presente na nossa música à medida do possível, o que vai contribuindo também para construção da nossa identidade como banda. Para alem disso todos nós temos gostos diferentes dentro do metal e procuramos encontrar um ponto de equilíbrio que nos satisfaça a todos no momento da criação.    No Metal, tal como em muitos outros estilos musicais, encontramos muito do mesmo o que leva um pouco à saturação, mas vocês parecem ter um certo cuidado para que isso não aconteça e conseguem inovar. De que forma se veem os Tales For The Unspoken no panorama pesado nacional? Acham que podem vir a ser uma alma nova para o nosso Metal? GUILHERME: Sim, também concor-


“Cada vez fico mais satisfeito após os concertos, pois conseguimos ver pessoal de todas as vertentes a curtir o nosso som.” do. Existem muitas bandas boas a nível técnico e em produção mas quando vamos ouvir não estão a fazer nada que já não tenha sido feito. Isso é algo que tentamos fugir apesar de não ser fácil e estamos sempre a tentar progredir na fusão do metal com outros estilos sem querer parecer clichê. Mas a fusão também não acontece em todas as músicas, pois na maioria somos directos e são temas puramente metal, claro que com muitas variações dentro do estilo. A verdade é que não planeamos nada. Nos ensaios vamos moldando as músicas e se acharmos que em tal momento temos que fazer um ritmo tribal porque para nós vai ficar bom então fazemos. Quanto ao Panorama Nacional, acho que estamos a tentar conquistar o nosso espaço, ainda falta mostrar o nosso trabalho em muitos lugares. Mas o que posso adiantar é que cada vez fico mais satisfeito após os concertos, pois conseguimos ver pessoal de todas as vertentes a curtir o nosso som. E após os concertos vêm conversar connosco e dizem-se surpreendidos pelo concerto e isso não tem preço para nós. Quanto ao ser uma nova alma, isso só o pessoal pode dizer após conhecerem a banda tanto no álbum como principalmente ao vivo, pois é outra energia.   Como foi gravar “Alchemy”? Sentem que tiveram o tempo necessário para fazer algo bom aos vossos olhos? MARCO: Gravar o Alchemy foi uma experiência muito boa para nós, porque tirando o Guilherme que já havia gravado alguns álbuns com as suas ex-bandas no Brasil, nós tínhamos tido pouco contacto com o estúdio, então aprendemos muitas coisas que irão facilitar a gravação do futuro álbum. Em geral conseguimos fazer algo de bom aos nossos olhos pelas condições financeiras da época. Hoje, depois de ouvir o álbum bastantes vezes, pensamos sempre que poderíamos ter melhorado isto ou aquilo. Mas penso que o resultado final está competente e transmite o que era a banda naquela fase. Dando alguma curiosidade de como são estas músicas ao vivo.    Tanto o título do álbum como de

algumas músicas fazem alusão à magia e às artes ocultas. Qual foi a razão por terem escolhido este caminho? GUILHERME: A cultura luso-afro-brasileira é muito religiosa e está muito ligada e isso não é novidade.  No caso, a música “Makumba” é apenas uma abordagem ao lado da magia negra, onde são feitos rituais ou feitiços para destruir a vida de alguém e em geral é um tema que a banda tem curiosidade e faz parte da cultura dos países de alguns de nós. Já a ideia por detrás do nome do álbum “Alchemy”, foi a melhor forma que encontramos para descrever numa única palavra essa miscigenação que somos. E a banda não se limita apenas a abordar as culturas envolvidas. Iremos abordar tudo o que faça parte também das nossas vidas. Não ter limites e não ficar preso a um estilo é algo que temos em comum na banda toda. O que sempre podem esperar de nós é o peso!   “Say My Name” aparece como Bonus Track. Sentem que a música não se identificava com o resto do álbum ou a razão para a escolha deste tema como bónus é outra? SÉRGIO: A “Say My Name” foi gravada logo após a transição de vocalista e com o propósito de ser a música do primeiro videoclip e o nosso primeiro single a sério. Por essa mesma razão optamos por colocá-la como bónus track, visto ter sido composta num outro contexto. Não poderia deixar de estar presente neste primeiro trabalho visto ser um dos temas mais conhecidos e nos ter catapultado, um pouco, para fora do anonimato. Foi um presente (risos) que resolvemos dar a todos aqueles que nos apoiam e gostam da nossa música.   Como está a agenda dos Tales For The Unspoken este ano? MIKE: A nossa agenda não está exactamente como gostaríamos por diversos motivos alheios à nossa vontade, pois não temos a música como primeiro plano nas nossas vidas mas estamos constantemente a estabelecer contactos com bandas, organizadores e atentos a eventos que nos ajudem a promover o nosso álbum dentro e fora do país.

De realce, vamos participar a 26 de Junho no XI Blindagem Metal Fest em Vagos que é um festival onde sempre quisemos participar mas estamos a aguardar a confirmação de outras datas. E abertos a convites!   E a nível de editoras? Têm algum apoio nesse sentido? SÉRGIO: A editora Inglesa Casket Music divisão da Copro Records, demonstrou desde cedo interesse em nós logo após o lançamento do videoclip de “Say My Name”. Até termos o “Alchemy” acabado ainda demorou algum tempo. Foram mantendo contacto connosco e na altura de tratar dos pormenores de lançamento conversamos mais seriamente. As despesas foram na íntegra pagas pela banda. O único apoio que a editora nos deu nessa fase foi a hipótese de masterização em Inglaterra por um preço mais acessível. E foi masterizado até estar do agrado da banda. Neste momento eles estão a promover o álbum e de alguma forma abrir caminho para que em breve, se tudo correr bem, seja possível fazer uma tour por alguns países europeus.    Para concluir, o que podemos esperar de vocês num futuro próximo? MIKE: Podem esperar um constante crescimento enquanto banda, músicos e uma maior entrega nas nossas actuações. Nós e quem nos tem seguido tem notado essa evolução. Queremos fazer mais e melhor.  Estar mais presente no cenário metal dentro e fora do país. E estamos a trabalhar para isso, porém sabemos que é preciso muita perseverança neste meio e para além de ter boas músicas é necessário conseguir transmitir isso ao público. Entretanto estamos a trabalhar no nosso segundo videoclip e a trabalhar em material para um novo álbum que contamos vir a ser uma progressão natural a vários níveis do “Alchemy”. Entrevista: Joel Costa


Uma agradável surpresa no panorama rock nacional, os Dream Circus têm-se feito notar na estrada na divulgação do seu EP de estreia (editado pela britânica Casket/Copro). O próximo passo desta banda com raízes multinacionais é uma tour europeia e pelos Estados Unidos.

O

que está na génese da formação dos Dream Circus? Um gosto mútuo por este tipo de música e uma paixão muito grande pelo trabalho que vinha a ser desenvolvido... Basicamente, somos fãs da nossa banda! Se não tocássemos nela, comprávamos os CDs e íamos aos concertos! O vosso EP de estreia “Fear” acaba de ser editado. Como descreveriam a vossa sonoridade actual, para os leitores da

Infektion? Um rock pesado, com aço, mas melódico e multi-dimensional. Não nos preocupamos muito com a categorização. Somos uma banda de rock e gostamos de deixar as pessoas tirarem as suas próprias conclusões. Como surgiu a hipótese de gravarem para a britânica Casket-Copro Records? Abordámos várias editoras e, dentro das ofertas que tivemos, essa foi a que reuniu as melhores condições. Além disso, também procurávamos

uma editora que nos pudesse dar alguma exposição fora de Portugal... Mas, essencialmente, surgiu esta hipótese porque os responsáveis da Copro viram valor no nosso trabalho e acharam por bem apostar em nós! Vocês são uma banda que, para o que é habitual no panorama nacional, tem tocado imenso ao vivo. É na estrada que se sentem mais confortáveis e que sentem estar ganhar a rodagem necessária? Sem dúvida. Nenhuma banda atinge


“Somos fãs da nossa banda! Se não tocássemos nela, comprávamos os CDs e íamos aos concertos!” bém tocada pelo Jimi Hendrix), a “All Allong The Watchtower” – mas, como devem calcular, duma forma um pouco diferente, à Dream Circus!

forte. Em relação ao álbum que se segue: já compusemos mais de metade e estamos com uma enorme vontade de o ir gravar!

Para quem nunca vos viu ao vivo, como descreveriam um concerto de Dream Circus? Muita energia, muita paixão e entrega… E também muitas outras coisas - que terão de aparecer nos concertos para poderem ver!

Os Dream Circus têm uma aproximação ao Grunge. Sentem que, quer em Portugal quer no estrangeiro, existe um ressurgimento deste movimento – inclusivamente, entre os apreciadores de Metal? Essa é uma questão interessante, sendo que ultimamente temos visto muita música dos anos 80 - ou pelo menos bandas a “usarem” o som dessa época. E tendo em conta que a indústria funciona normalmente duma forma cíclica, podemos pensar que seria lógico haver um ressurgimento dos anos 90 a seguir... Aliás, já

O facto de terem na banda elementos oriundos de vários países tem facilitado a vossa internacionalização e popularidade no exterior? Possivelmente tem facilitado algumas coisas, especialmente através de contactos que elementos da ban-

“A banda, neste momento, é uma das poucas bandas nacionais que tem regularmente as suas músicas a passarem em rádios internacionais.” o seu melhor no primeiro concerto… É um processo de evolução constante e é também preciso ter humildade para reconhecer isso mesmo... E, fundamentalmente, é divertido. Fazemos isto porque adoramos tocar e estar com as pessoas que gostam da nossa música e, dentro desse contexto, não há coisa melhor do que estar em cima do palco! Qual tem sido o alinhamento dos vossos concertos? Apresentam também algumas versões ou temas por editar? Temos tocado as quatro músicas do EP “Fear”, mais cinco que irão estar no próximo álbum e ainda temos tocado uma versão duma música originalmente do Bob Dylan (tam-

da desenvolveram fora de Portugal. A banda, neste momento, é uma das poucas bandas nacionais que tem regularmente as suas músicas a passarem em rádios internacionais. Até agora, os Dream Circus têm estado focados em tocar em Portugal, mas, como já foi anunciado, temos concertos planeados na Inglaterra, com a participação da editora, e na América do Norte. Que balanço fazem da vossa (ainda) curta carreira? Poderemos contar com o vosso primeiro longa duração para breve? O balanço só pode ser positivo… Estamos a fazer o queremos, acreditamos no que estamos a fazer e a resposta do público tem sido muito

vemos os Alice in Chains, Soundgarden, e outros a tocarem novamente. A resposta que eles têm tido tem sido nada menos que épica... E sem dúvida que muitas das pessoas que gostam dessas bandas também estão a gostar do nosso trabalho. Em relação aos apreciadores de Metal - e eu por exemplo sou um deles, tão facilmente oiço Carcass e Lamb of God, como oiço The Doors e Nirvana. Portanto, acho que há muita gente que gosta de música Rock/Metal e que quer é ouvir boa música, independentemente da subsecção estilística. Entrevista: José Branco


Com edição a cargo da Metal Blade, os Falconer apresentam-nos o seu sétimo álbum de originais, “Armod”, que poderá, nas palavras de Stefan, desapontar alguns fãs.

Q

uando foi escolhido “Falconer” para nome da banda o que foi que achaste? STEFAN: Achei que era um nome curto e simples e dava uma ideia da temática das nossas letras e músicas: tempos medievais e melodias tradicionais do passado. O vosso sétimo álbum de originais é cantado em sueco. Qual foi a razão desta escolha? O facto de cantarmos em sueco não foi a melhor opção comercial mas mesmo que não o tivéssemos feito não era por aí que nos tornaríamos umas rock stars (risos)! A razão de termos feito algo assim foi devido a umas questões que surgiram quando gravamos “Herr Tyrssons Döttrar I Vänge”. Tanto os nossos fãs como a nossa editora acharam que seria bom fazer algo assim mas só agora é que sentimos a necessidade de o fazer, uma vez que outrora desconhe-

cia qual seria o meu próximo passo em relação à escrita. Achei que se a maior parte deste álbum fosse baseado no folk tradicional poderia diminuir a tensão e dar-me um empurrão para fazer algo fora do ordinário. Então a coisa foi-se desenvolvendo e consegui escrever mais material original do que eu pensava. A partir daqui foi só uma questão de tempo até nos focar-mos mais na nossa herança musical. Penso que se alguma banda tivesse que fazer algo assim, então os Falconer seriam os mais indicados para isso. Achas que esta mudança poderá desiludir os fãs de todo o Mundo que não vão conseguir interpretar as letras? Ver alguns fãs desapontados é um risco que corremos mas ainda assim este álbum soa como um registo bem normal para os Falconer. As letras em sueco soam melhor na música tradicional da

Suécia e não resultaria se usássemos a letra inglesa para um tipo de música assim tão escandinavo. Seria como cantar inglês num instrumental com flamenco, simplesmente não funciona. Este disco foi mais um risco do que uma tentativa de vender álbuns, mas o objectivo nunca foi tentar chegar a mais pessoas... queríamos apenas fazer algo diferente e tirar isto do nossos sistema. Se há banda que deve focar-se nas suas origens e cantar na sua língua materna são os Falconer. De que nos fala “Armod”? O significado dessa palavra é “pobreza” ou “desespero”. Reflecte o sentimento das letras e toda a atmosfera do álbum. Não existem letras muito positivas... quase todas lidam com as dificuldades do Homem comum, o medo de Deus e da igreja no Séc. XIX, a emigração para a América e muitos outros temas com uma pitada de folclore e lendas dos


“Ver alguns fãs desapontados é um risco que corremos mas ainda assim este álbum soa como um registo bem normal para os Falconer.” tempos medievais. Existe muita luta, morte e lamentação. A bem dizer, um tema muito habitual nos Falconer. O facto de inserirem mais Folk nas vossas músicas significa que estão a regressar às vossas origens? Não é um regresso às origens enquanto banda mas sim uma forma de prestar homenagem à nossa herança musical e à nossa inspiração. É uma coisa que só aconteceu desta vez e para o próximo álbum podem contar com algo bem diferente do que ouviram em “Armod”. Sendo a sonoridade do Folk e do Metal diferente, de que forma vocês conseguem conciliar estes dois estilos? (Pensativo) Eu sempre escrevi música que me fizesse recordar o folk escandinavo. Por isso, para mim, é natural

tentar escrever algo realmente folk mas baseado no Metal ao invés de tropeçar ocasionalmente nas minhas influências. Com o Mathias a cantar conseguimos levar isto a outro nível, pois a sua voz é como a cereja no topo do bolo ou lá como se diz. “Armod” vai sair no dia 3 de Junho. Quando está agendada a apresentação do novo álbum? Não está. Vai ser lançado e depois eu vou para o meu trabalho e tomar conta dos meus filhos, como num dia normal. Desde a vossa formação que ficou bem assente que não seriam uma banda que fosse tocar ao vivo. Vão marcar uma tour para “Armod”? Em caso de resposta afirmativa, Portugal está nos vossos planos? (Risos) Os Falconer têm o recorde de banda menos promocional e comer-

cial de sempre. Agora vamos descansar um ano para nos dedicar-mos a outras actividades. Vamos começar a pensar em festivais em 2012. Ainda considero que os Falconer são uma banda de estúdio. O processo criativo é a minha paixão pois vejo-me melhor como um compositor do que um artista. Também não é fácil tocar ao vivo pois a agenda do Mathias não lhe permite, pois ele anda sempre ocupado com o teatro e com musicais que o deixam com poucas possibilidades de vir connosco actuar. Quanto a Portugal nunca fomos lá ainda, mas vamos tentar aparecer por aí num concerto ou num festival em 2012. E lembrem-se: um concerto dos Falconer é uma grande sensação. Entrevista: Jorge Castanheira


A

ctualmente como se encontra a Rússia em termos de música pesada? Acham que existe muita variedade? Temos tanto Metal aqui na Rússia que até fico pouco à vontade para falar nisso. Existem tantos estilos e novas tendências a aparecer dia após dia que já nem sequer percebemos: “Mas isto é Thrash/Death Metal ou é Black Metal?”. Não compreendo estes prefixos tipo dark/sympho/progressive, etc. Olho para tudo isto de uma forma muito conservadora e tento chamar as coisas pelos nomes correctos. Não sou grande fã das novas tendências. Prefiro o velho metal clássico pois considero que seja algo sem limites. Não é necessário utilizar novos instrumentos para conseguir ser original. Basta utilizar guitarras, baixo e bateria. Há alguns que também precisam de teclados mas isso já depende de cada um.

gem que passamos aos nossos ouvintes. Recorremos ao Black Metal com bastante frequência para a parte vocal. Em comparação com o álbum anterior, “Irminsul” foi gravado num estúdio com as devidas condições. Também devo dizer que as nossas habilidades musicais cresceram consideravelmente e julgo que conseguimos demonstrar isso.

Em “Irminsul” parece-me haver uma fusão entre Black e Thrash Metal. Concordas com isto? E já agora, depois do lançamento de “Nearer To Victory”, quais foram os aspectos que tentaram melhorar para este novo álbum? Concordo. Sempre tocamos Black Metal com alguns elementos de Thrash/ Death Metal. É assim desde o início mas o Black Metal é a nossa prioridade. É um componente espiritual da nossa música e é também a base da mensa-

Em alguns casos podemos verificar alguma crueza na produção. Achas que a produção diminium de alguma forma o potencial deste disco? Acho que não. É certo que o som deve ter qualidade mas não é uma prioridade para mim. O que interessa é a mensagem da música e não a qualidade da gravação. Infelizmente muitas bandas boas não têm possibilidades financeiras para gravarem o seu material em estúdios profissionais. Nós também não

“Irminsul” tem muitos momentos únicos e muito bem elaborados. Um bom exemplo disso é “Hammer”, que consegue ser diferente se comparar-mos este tema com o restante alinhamento. Como foi o processo criativo? Tudo isto foi planeado ou surgiu com naturalidade? No geral, todas as nossas composições são feitas de uma maneira espontânea. Eu escrevo algo e depois mostro aos restantes membros do grupo.

temos essa possibilidade sempre que queremos. No entanto tento fazer música da melhor maneira possível. E para te ser honesto, não gosto muito do som lambidinho e limpinho, como podes ouvir por exemplo nos últimos álbuns de Dimmu Borgir. Parece tudo computorizado, da bateria às guitarras e aos vocais. Tudo é substituído por algo artificial e as emoções desaparecem. Não entendo como alguém pode fazer música sem emoções. Muitos tentam fazer do seu som algo com muita qualidade mas seria muito melhor se se preocupassem mais com a espiritualidade da coisa (se tiverem alguma, é claro). Mas isso é outra história, quando a música serve apenas para fins comerciais. Não vejo as coisas assim. Onde e com quem é que gravaram “Irminsul”? Estás satisfeito com o resultado final? “Irminsul” foi gravado no Z STUDIO. Todos aqueles que participaram no projecto foram creditados no booklet. Estou satisfeito com o resultado e estou já a ponderar gravar o próximo disco neste estúdio. Existem planos para uma tour europeia? Se sim, podemos contar com vocês em Portugal? Infelizmente não temos planos nenhuns. No entanto, se houver quem queira organizar uma tour, nós teremos todo o gosto em visitar-vos! Entrevista: Joel Costa


Depois de um período algo conturbado, os Dornenreich voltam a mostrar que estão aqui para ficar enquanto a paixão pela música lhes permitir. A banda austríaca encontra-se a promover “Flammentriebe”, um novo álbum que contém algumas das músicas mais bonitas que alguma vez ouvi.

F

lammentriebe parece-me estar repleto de novas ideias. Consegues dizer-me como é que conseguiram fazer algo tão poderoso como este disco? JOCHEN STOCK: Este álbum foi trabalhado durante três anos. Tirámos o tempo necessário que o álbum exigia em todos os níveis e é muito bom saber que todo este trabalho árduo valeu bem a pena quando ouço o resultado final. Como sempre, o álbum é baseado na minha forma intuitiva de tocar guitar-

ra, ou seja, de criar versões cruas para todas as músicas e depois, música a música, elaborar as melodias, harmonias, ritmos e os arranjos finais. Dornenreich expressa-se com a paixão e depois do nosso último álbum acústico, “In Luft geritzt”, pareceu-nos apropriado criar algo dramático e baseado no Metal e eis que surgiu “Flammentriebe”. O poder musical de Jochen Stock é fenomenal! O Jochen é a força dominante (no que toca à compo-

sição musical) dos Dornenreich? Muito obrigado! Fico muito contente. Nós os três viemos de diferentes backgrounds musicais e no final criamos músicas que parecem ter sido retiradas do oceano. Aquilo que nos influencia são os pequenos e os grandes ciclos da vida, dos quais tiramos algumas experiências e nos expressamos de uma forma artística. Para mim, o segredo de Dornenreich é a devoção incondicional pela música que tanto eu como o Gilvan e o Inve partilhamos.


“Para mim, o segredo de Dornenreich é a devoção incondicional pela música que tanto eu como o Gilvan e o Inve partilhamos.” Muito mudou em relação aos vossos álbuns anteriores. Falem-nos um pouco disso. Os Dornenreich nunca tiveram como intenção repetirem-se. Dornenreich é uma reflexão artística. Com “Flammentriebe” tentamos desenvolver o potencial arcaico e dramático do Black Metal para algo mais espiritual e relevante. Digo relevante porque as letras baseiam-se na crítica radical da civilização, algo que eu considero ser muito importante nos dias de hoje. Um dos fundadores da banda abandonou o projecto em 2006. Foi difícil para ti, na altura, continuar como banda? Sim, foi sem dúvida muito complicado. Em 2006 cheguei a ficar sozinho em Dornenreich e não tinha a certeza se seria mesmo o fim ou se era altura para um renascimento de Dornenreich. Ainda sentia uma enorme paixão dentro

zão pela qual somos mais conhecidos em países onde se fala o alemão, como a Áustria, Alemanha e Suiça. As opiniões dos vossos ouvintes parecem variar no que toca aos lançamentos anteriores mas quer-me parecer que todos estão de acordo no facto de “Flammentriebe” ser um bom álbum. Os vossos fãs tiveram alguma influência neste novo lançamento? Para te ser sincero, não. Não, mesmo. Dornenreich é algo sincero e expressa-se de uma forma profundamente pessoal. Naturalmente, significa muito para mim quando os nossos fãs conseguem identificar-se com aquilo que fazemos em muitos níveis diferentes, mas em primeiro lugar, nós os três somos os nossos maiores críticos e pretendemos fazer justiça aos nossos objectivos artísticos.

combinado que os Alcest e os Dornenreich fariam uma tour em conjunto mais cedo ou mais tarde. Fiquei muito feliz por isso ter acontecido este ano. A tour foi fantástica para ambas as bandas e acho que a combinação não podia ter sido melhor, pois os Alcest e os Dornenreich não só partilham uma sonoridade única mas também uma atmosfera emocional. Pelo menos é o que eu acho. Nunca me esquecerei de uma vez em que o Stephane e eu tocamos umas músicas de Empyrium pela primeira vez em Copenhaga. Foi algo mágico, pois ambos gostamos de Empyrium e porque foi a primeira vez que tocamos juntos. Todas as pessoas envolvidas nesta tour dão-se muito bem e espero que possamos repetir isto novamente. Podemos contar com outra tour? Vão tocar em Portugal? Estivemos aí no ano passado e foi fantástico. Gostaríamos imenso de voltar

“Em 2006 cheguei a ficar sozinho em Dornenreich e não tinha a certeza se seria mesmo o fim ou se era altura para um renascimento de Dornenreich.” de mim e já tinha começado a escrever as primeiras músicas para “In Luft geritzt”, mas ainda assim eu estava sozinho - e é muito complicado encontrar pessoas que consigam fazer parte de Dornenreich, pois há que ter em conta a amizade, a dedicação e a personalidade. Felizmente conheci o Inve em Março desse ano. Foi o destino e em pouco tempo escrevemos todas as músicas para o álbum que viria a ser editado. O Inve já tinha estado presente numa sessão de violinos em “Her von welken Nächten” no ano 2000 mas perdemos o contacto, por isso foi muito bom tê-lo encontrado novamente. Depois de uns ensaios juntos foi evidente que o renascimento de Dornenreich havia começado. Quando o nosso baterista original, Gilvan, juntou-se novamente à banda, o renascimento ficou então finalizado.

Porquê “Flammentriebe”? As letras baseiam-se num conceito. De facto, e como já disse, as letras são uma crítica à civilização. O objectivo é serem uma acusação ao “Homem em chamas” (título da primeira música do álbum) que esta sociedade está a construir. O “Homem em chamas” tenta estabelecer os seus padrões e a sua fortuna a todo o custo a este planeta e a todas as criaturas vivas. Este Homem nega a realidade: este planeta baseia-se em ciclos. No entanto, as letras não são apenas uma crítica pura. Isso seria simples demais. É muito simples ser contra isto mas é mais desafiador oferecer perspectivas, lutar por algo... Por isso, como consequência, a segunda metade do álbum tentar moldar os sentidos deste indivíduo e fazê-lo entender os ciclos internos e externos.

Uma vez que a língua oficial na Áustria é o alemão, é fácil para as bandas austríacas tocarem na Alemanha ou não é tão simples quanto isso? Definitivamente. Essa também é a ra-

Estiveram recentemente em tour com Alcest. Já alguma vez tinham tocado com eles? Que experiências positivas retiraram daqui? O Stephane (Neige) e eu já nos conhecemos há alguns anos e já havia sido

a Portugal. Infelizmente ainda não recebemos propostas, por isso a todos aqueles que me estão a ler: se querem Dornenreich ao vivo em Portugal façam chegar essa informação às promotoras locais e façam com que elas nos contactem. Seria excelente! Entrevista: Joel Costa


Com os Blacksunrise recorda-se uma grande lição de vida: a esperança, é de facto, a última a morrer. A banda nacional esteve à conversa com a Infektion onde falaram um pouco sobre o seu novo álbum, “Oceanic” e sobre as possibilidades (ou falta delas) que uma banda de Metal tem no nosso país. Eis Blacksunrise, na voz de João Padinha!

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embro-me de vos ver há largos anos numa associação numa vila perto de Viseu. Como eram vocês na altura, quem são vocês agora e o que poderemos esperar dos BSR? JOÃO PADINHA: Penso que acima de tudo e apesar de todos os Line up’s sempre fomos os Blacksunrise, ou seja uma banda de Death Metal melódico! Talvez na altura um pouco mais ingénuos do que agora onde a “maturidade” dos 10 anos de banda já é mais notória. O que se pode esperar dos Blacksunrise é o mesmo de sempre: uma vontade tremenda de chegar mais longe e de “destruir” todos os palcos por onde passa.

Já tive a oportinidade de ouvir o “Oceanic”, que promete e muito! Está muito brutal, muito pesado... O que vos levou a compôr um álbum tão pesado? Penso que o “Oceanic” foi um regresso às origens, ou seja, ir buscar aquela fórmula do 1º álbum “Azrael” onde misturámos Death Metal mais brutal com a melodia de Gotemburgo. O que fez voltar aí foi simplesmente a vontade de fazer aquilo que nos ia na “alma”, de deixar de pensar tanto no que as pessoas quereriam ouvir e mais naquilo que nos dá gosto fazer.

basearam-se nos Descobrimentos ou nos Navegadores Portugueses? Há quem acredite que o mar é a origem da vida. A nossa ideia foi encarar este álbum como um renascer dos Blacksunrise fazendo a analogia com esse pensamento. Obviamente, a ideia dos Descobrimentos também esteve na nossa mente visto ter sido o período mais auspicioso do nosso País, ou seja, é também ir à descoberta e mostrar que cá em Portugal se faz música extrema de muita qualidade.

As músicas do álbum têm bastantes referências ao mar, começando logo pelo título do álbum “Oceanic”. Estas ideias

O que foi o melhor e o pior de gravar este registo? A gravação deste registo só teve coisas boas. Foram novas amizades que


“Há quem acredite que o mar é a origem da vida. A nossa ideia foi encarar este álbum como um renascer dos Blacksunrise fazendo a analogia com esse pensamento.” se construíram, o privilégio e honra de poder trabalhar com músicos que admirámos imenso e o gozo imenso que nos dá poder editar um trabalho com esta qualidade. A faixa Adamastor... Adamastor traz-nos à lembrança o desconhecido, as dificuldades, o medo do oculto e monstros marinhos. Que imagem, que ideia está por detrás deste Adamastor? A imagem da persistência, porque um dia pensou-se que era impossível dobrar esse cabo mas mesmo assim nunca se desistiu. O mesmo se passa com os Blacksunrise: somos persistentes e queremos continuar a lutar

da como os BSR enfrentam? Acima de tudo a falta de apoios. O facto de vivermos num país onde o músico não é bem tratado... basta ver que um instrumento é considerado um artigo de luxo e paga IVA por isso. Depois o facto de apesar de estarmos em 2011 o metal continuar a ser visto como um género de música “marginal” e que por tal obviamente não movimenta muito dinheiro, o que dificulta depois a capacidade dos produtores poderem pagar cachets dignos e de termos de ser nós como indivíduos a pagar quase tudo o que envolve a banda. E para ir lá para fora? É fácil

“Um dia pensou-se que era impossível dobrar esse cabo mas mesmo assim nunca se desistiu. O mesmo se passa com os Blacksunrise: somos persistentes e queremos continuar a lutar por aquilo em que acreditamos.” por aquilo em que acreditamos. Como vêm o plano musical nacional em geral e, em particular, a cena metaleira em terras lusas? Acima de tudo com um orgulho enorme em fazer parte dessa “cena”. Temos bandas e músicos do melhor que existe no paronama da música extrema! Tenho a certeza que se fosse uma “cena” mais unida seria provavelmente das maiores e mais fortes a nível europeu. Qual é a vossa ideia de como o metal português é visto no exterior? Acho que da maneira oposta como o vemos cá dentro, ou seja que a banda Portuguesa tem muita qualidade.

dar concertos no estrangeiro? Há vontade da parte de organizadores de eventos, concertos e festivais de convidarem bandas portuguesas para os cartazes? Vontade existe, o complicado é o investimento que é necessário para levar uma banda de uma extremidade da europa para o referido evento que muitas vezes é no centro da Europa. Ou seja, a nossa localização não é a melhor, mas os convites felizmente vão surgindo. O que falta na cena metaleira nacional? Um aspecto que realmente nos possa levar mais longe e que sejamos falados nos quatro cantos do mundo... Penso que apenas a já referida união, mais unidos seremos mais fortes decerto.

Em Portugal, quais são as maiores dificuldades que uma banEntrevista: Narciso Antunes


Editado pela Nuclear Blast, “Fear of Infinity” encerra com chave de ouro um capítulo na carreira destes veteranos norte-americanos que continuam a surpreender com a abrangência de géneros envoltos na sua expressão musical. A Infektion esteve à conversa com Tom Philips (guitarrista, compositor e fundador da banda) que partilhou connosco o realismo das suas ambições e aspirações.

E

m primeiro lugar, agradeço a disponibilidade para esta entrevista e parabéns pelo novo álbum. Podemos considerar “Fear of Infinity” como uma nova direcção na vossa carreira, pois abrange toda a gama de som que os While Heaven Wept têm vindo a explorar desde os primórdios. Fizeram-no porque sentiram que estavam demasiado presos dentro do género Doom Metal e precisavam evoluir para melhor expressar as vossas emoções? TOM PHILLIPS: Nunca há nenhuma ideia pré-definida por trás do material gravado em qualquer um dos nossos álbuns - em que toda a música é “canalizada” através da revelação e a evolução apenas surge como progressão natural. Tudo provém de verdadeiros catalisadores emocionais da vida real, eventos e relacionamentos. A única altura em

que o processo racional está envolvido com a música dos While Heaven Wept (WHW) é quando trabalhamos os arranjos finais, harmonias e contrapontos - pois precisam ser estruturados de forma lógica - mesmo que quebremos algumas das regras teóricas da música tradicional, temos de ter a certeza de como e porque o estamos a fazer. No final, independentemente do momento das nossas vidas, tudo transparecerá na expressão musical - será sempre música vinda do coração e da alma... e nada menos que isso. Para minha enorme surpresa, parece que os WHW conseguiram ir mais além do já inovador “Vast Oceans Lachrymose” (o álbum anterior). Qual é o conceito por trás deste épico “Fear of Infinity” (em termos musicais e conceptuais)?

É interessante que consigas descortinar uma evolução, pois algumas pessoas consideram “Fear of Infinity” “mais do mesmo”, enquanto outros conseguem notar um desenvolvimento contínuo da nossa parte. A realidade está algures no meio, pois a maioria do material de “Fear of Infinity” foi originalmente destinada a ser incluída como parte de “Vast Oceans Lachrymose”. Mas as canções foram retiradas depois de “The Shore Furthest” ter assumido a forma de um épico monolítico - esta canção foi muito exigente pois reclamava o próprio espaço para ser a peça central desse álbum. Contudo, considero que, desta vez, houve uma actividade mais profunda do subconsciente. Em resumo, para mim é evidente que os dois álbuns fazem parte do mesmo processo de luto após o fim traumático de uma relação. Enquanto “Vast Oceans Lachrymose” representa os estágios de


“Sentimo-nos totalmente livres para irmos onde os nossos corações nos levam, dado que nunca nos comprometemos com um único género.” choque e negação, “Fear of Infinity” é a sua continuação no meio da raiva, tristeza, e, só no final, chega a sua aceitação. Isso não foi nada planeado, mas era absolutamente o processo bem real que eu estava a viver. Daí o facto de só o ter reconhecido quando estava envolvido na minúcia do processo de gravação. Musicalmente, “Fear of Infinity” espelha essas emoções de forma exacta, com grande intensidade, e, novamente, isso é porque estas foram verdadeiramente sentidas. Onde se nota que o mais recente álbum é uma progressão é sobretudo nos detalhes subtis de dinâmica e na harmonia mais avançada (mais século XX do que barroca... embora também não sem o contraponto clássico). “Fear of Infinity” é um álbum desafiante que requer múltiplas audições na ÍNTEGRA para que o possamos digerir e entender, disso tenho a certeza. A banda já existe há mais de duas décadas, tendo tido muitas mudanças na formação. Uma boa alteração, com certeza, na minha opinião, foi quando em 2009 Rain Irving se tornou o novo vocalista. Achas que esta nova abordagem sonora está relacionada com o facto de terem uma formação mais estável? Na verdade, toda a música nos dois últimos álbuns já tinha sido composta antes do Trevor, do Rain e do Jason ingressarem na banda, com excepção de “Finality” – mas até essa foi musicalmente concluída antes dos primeiros ensaios com o Rain. A realidade é que depois de 21 anos, mas com apenas um punhado de álbuns editados, houve uma grande acumulação de material “em espera” nos arquivos e apenas agora estamos a começar a aproximar-nos do da época de 2009-2010 (apesar de existirem mais um par de canções antigas aguardando novas abordagens). Ao longo dos anos, nós sempre demos azo a que a música determinasse a sua própria direcção, fluência e atmosfera sob a forma de álbum. Portanto, mesmo músicas que realmente adoro, como “Vessel” ou “To Grieve Forever”, talvez não tenham encaixado no contexto dos álbuns que nós estávamos a gravar na

altura e, como tal, foram colocadas na prateleira, até que reclamassem o seu espaço. Assim, nos próximos anos, os arquivos serão completamente esvaziadas, o que significa que não teremos escolha senão colaborar totalmente como banda... e isso não é nada que receie, dado que na banda todos são compositores por direito próprio. Isto também significa que apesar de estarmos há mais de duas décadas nisto, há aqui um enorme potencial por explorar. Tens sido o principal compositor em WHW. Mudou alguma coisa no modus operandi de composição? Simplesmente para mantê-la “verdadeira”, a música deve ser SEMPRE sincera, do coração e alma, e, acima de tudo... temos que realmente a sentir... e até mesmo gostar de a tocar. Não existe fórmula, modus operandi, devoção a um género musical específico ou algo mais do que a supracitada sinceridade. De um modo geral, pode-se esperar que as produções sejam sempre da mais alta qualidade possível e que a música vá ser emotiva, melódica, pesada e orquestrada - mas, para lá disso, realmente, poderemos ir em qualquer direcção. Têm estado muito activos com uma tour entre a Europa e os EUA para promover este disco. Qual tem sido, até aqui, o feedback dos fãs? Para muitas pessoas, “Fear of Infinity” foi um choque (como prevíamos que seria), especialmente para todos aqueles que nos descobriram através de “Vast Oceans Lachrymose” - considerando a abordagem que se baseava mais em subtileza e dinâmica do que em técnica e som bombástico. “Vast Oceans Lachrymose” foi definitivamente o mais “imediatamente, gratificante” dos nossos álbuns (mas também não era inicialmente menos chocante em si). Acho que a maioria espera sempre mais do mesmo, mas, dada a natureza dos WHW, a única coisa que as pessoas devem esperar é o inesperado (para além dos traços gerais mencionados anteriormente). A grande maioria dos

ouvintes parece concordar exactamente connosco: “Fear of Infinity” requer muitas audições para revelar o seu conteúdo... que vai crescendo dentro de nós... Mas não é para toda a gente, nem foi destinado a sê-lo. É um registo muito pessoal que é realmente apenas uma conversa entre duas pessoas. No final, a reacção dos órgãos de comunicação social foi, na sua maioria, extremamente (e surpreendentemente) positiva, mas certamente há quem nunca vá “lá chegar” e apreciar o disco - especialmente se for tocado como música de fundo ou ouvido à pressa. Realmente, não devemos prestar atenção a opiniões de ambos os extremos porque devemos permanecer sempre fiéis aos nossos princípios, acima de tudo. As pessoas estão sempre a reclamar que as bandas não vêem trazendo nada de novo. Quando vos ouço tenho a impressão de que essas pessoas não vos conhecem - e afinal são um bom exemplo de luta permanente e sempre fiéis aos vossos princípios. Não são surpreendidos por pessoas que vos perguntam se “são uma banda nova” ou “porque é que nunca ouvi falar de vocês”? Sim, tem havido algumas pessoas ao longo dos últimos dois anos que não sabiam da nossa existência, até ao “Vast Oceans Lachrymose” - especialmente nos Estados Unidos (onde nós não lançámos nada além da primeira demo e de um par de singles de 7”). O mesmo não acontece na Europa, apesar de termos sido representados por várias editoras pequenas no passado. O facto é que “Of Empires Forlorn” (de 2003) nos colocou realmente no mapa e representou uma transição para a imprensa mainstream. Por outro lado, talvez em vários aspectos sejamos uma banda nova, desde a entrada do Rain Irving para a voz (depois de eu tratar deste departamento por 18 anos) – porém, a configuração actual também é, de facto, a restauração da visão original da banda com um vocalista dedicado, que me coloca um pouco mais na sombra. Espero que as pessoas que acabem de nos descobrir explorem os nossos discos mais


“A maior dificuldade que enfrentamos enquanto banda, neste momento, é o facto de a maioria dos membros terem carreiras profissionais fora da música.” antigos (apesar de serem um pouco difíceis de encontrar, no momento), para que percebam porque estamos sempre a mudar, mas, ao mesmo tempo, nos mantemos coerentes. Sentem que, com “Fear of Infinity” (lançado pela Nuclear Blast), estarão finalmente a dar um passo significativo para serem mais reconhecidos no mundo inteiro? Pertencer à família da Nuclear Blast certamente que nos proporciona muito mais visibilidade e distribuição, como é evidente. Mas, dado que “Fear of Infinity” é um álbum muito negro, não tenho a certeza do que daí poderá advir. Mas não estou particularmente preocupado porque o verdadeiro “sucesso” é vivermos descansados. Obviamente, que queremos agradar à editora assim como a todos os nossos parceiros, mas isso não tem nada a ver com as reacções mediáticas ou outro tipo de reconhecimento... ou mesmo entradas nos tops... só as vendas. Sempre fomos confortavelmente fazendo parte do sub-underground durante muitos anos, mas também estamos contentes por termos atingido o patamar actual (seja ele qual for... Ainda acho que estamos na obscuridade, em comparação com muitas bandas, e as nossas vidas não se alteraram minimamente). Sinto-me grato que consigamos assegurar às pessoas por todo o mundo que sejam capazes de encontrar os nossos álbuns, a um preço razoável - algo que não acontecia há muitos anos. Muitas bandas de Doom Metal fizeram como vocês, evoluindo para sonoridades mais abrangentes. Sentes que o Doom Metal é um estilo mais aberto para bandas que querem incorporar outros estilos no seu som? Quais são as vossas principais influências fora desse género, na actualidade? A verdade é que o PURO Doom Metal nunca deveria evoluir e, se ele não soa a Black Sabbath, St. Vitus, ou estritamente a Candlemass então não é puro Doom Metal, mas uma espécie de híbrido. WHW nunca foi uma banda de

puro Doom Metal, e só “Sorrow Of The Angels” se aproxima dos parâmetros do Doom - apesar da longa passagem progressiva, “Thus with a Kiss I Die” estar também claramente para lá das fronteiras do Doom. Outros companheiros dentro da cena Doom optam frequentemente para criar projectos paralelos em vez de “partirem pedra”, quando estão inspirados em explorar outras formas de música. No raio de acção dos WHW, sentimo-nos totalmente livres para irmos onde os nossos corações nos levam, dado que nunca nos comprometemos com um único género. Sempre tivemos uma grande variedade de influências de todas as formas de música, que vão dos primórdios de Fates Warning e de Queensryche para a era viquingue de Bathory, Slayer, mas também Bach e Beethoven até Gorecki e Arvo Part, de Candlemass e Witchfinder General a Rush e Rainbow e tantos mais. Todas essas referências permanecem intactas até hoje, e realmente as únicas influências mais recentes, por assim dizer, vieram dos Arcturus, Devin Townsend e Mono - e mesmo esses já de há vários anos para cá. Muitas vezes, somos mais inspirados pelos génios e deuses do passado do que por algo contemporâneo, embora existam muitas bandas incríveis por aí. Há cerca de meia dúzia de anos, li algumas entrevistas onde expunhas um período difícil a nível pessoal e para a banda. Já consegues encarar o futuro com outra perspectiva, neste momento? Entretanto, já existem algumas músicas novas na forja? Bem, a formação está certamente estabilizada por agora, mas as coisas não são menos difíceis, pois há sempre desafios na vida. A maior dificuldade que enfrentamos enquanto banda, neste momento, é o facto de a maioria dos membros terem carreiras profissionais fora da música – família, esposas, filhos e outras responsabilidades do “mundo real” que limitam a quantidade de actividade que é possível a cada ano. Além disso, estamos profundamente endividados por termos insistido em criar álbuns que são da mais alta qualidade

possível - a qualquer custo - e a configuração actual da indústria (com todos os downloads ilegais e ziliões de outras bandas a disputarem atenção) não nos ajuda a resolver facilmente o problema. É muito difícil perspectivar a longo prazo, no que toca aos WHW. A única coisa que está garantida é a nossa presença no Prog Power EUA XII em Atlanta a 17 de setembro... Realmente não temos ideia do que está acontecerá depois disso. Dito isto, tenho apenas um conjunto de temas “em espera”, que ainda teremos de desenvolver e que poderão dar origem a um álbum. Mas acredito na inspiração no momento dos ensaios e veremos o que podemos desenvolver colectivamente. Pessoalmente, primeiro gostaria de “limpar os arquivos”, e logo veremos o que sairá daí. No início de 2011 lançaram uma compilação. Este ano poderá significar um novo passo para os WHW? Eu acho que com o lançamento de “Fear of Infinity” concluiu um capítulo que começou com “Vast Oceans Lachrymose”. Além disso, atingirmos o marco dos 20 anos de carreira em 2009/2010 constituiu um ponto de viragem. Nessa altura, disponibilizamos pela última vez todo a nossa discografia - incluindo a compilação “The Arcane Unearthed “, somente disponível em vinil, que incluiu raridades completamente remasterizadas pela primeira vez. Entrevista: José Branco


São Portugueses mas podiam-nos enganar muito facilmente, dada a elevada dose de multiculturalismo existente neste projecto. Os Karuniiru editaram agora um novo trabalho e foi disso que falamos.

O

s Karuniiru parecem respirar criatividade. Como nasceu este projecto? DOMINOPAWO: Karuniiru apareceu como resultado final de um gosto e admiração pela cultura nipónica, pela cultura europeia e pela necessidade de transmitir uma mensagem a nível mu-

sical e visual. Quando nasceu foi criado como uma banda Portuguesa influenciada pelas culturas Europeias e Japonesas, mas sempre em mutação. Ficaram algo conhecidos por cantarem em Japonês mas não é a única língua na qual cantam. Mas

vamos por partes... Porquê o Japonês? DOMINOPAWO: O japonês foi e é usado simplesmente porque me sinto bem com aquela sonoridade e acho que é uma língua excelente para o rock. Mas como o Mundo é repleto de línguas, tenho vindo a descobrir que algumas


“O local onde vivemos e os sonhos que temos acabam por ser o que mais nos influencia na música.” delas são bastantes boas para certos momentos das músicas. Acaba também por ser um processo de descoberta e aprendizagem. Para quem não sabe, em que outras línguas também cantam e qual a razão para o fazerem? DOMINOPAWO: Além do Japonês, incluímos Inglês, Português, Espanhol, Francês e Latim. A razão é sentir-me bem, e ao mesmo tempo ter mais liberdade vocal, pois cada língua encontra o seu lugar ideal em partes específicas da letra que faço. Consequentemente, concede muito mais espaço à construção musical, com mais liberdade para cada instrumento usado. Editaram recentemente um EP. Falem-nos do título “Junkie Lollita”... DOMINOPAWO: Junkie Lollita é o nosso segundo Ep, e o título remete para a relação Bonito/Feio, mas não uma relação meramente física, mas sim mais espiritual. Todos vivemos num mundo feio, sujo e embriagado. Um mundo sedento de poder, fama e de auto-satisfação. Onde por mais que digam que não, por mais que neguem, as pessoas vivem segundo uma filosofia do “ Agradável à vista = Vida em plenitude”. Como se a beleza, o interesse e a inteligência de alguém só ganhasse significado, se visualmente essa pessoa corresponder áquilo que nós achamos belo. E depois surge uma admiração hipócrita quando chegamos à conclusão da verdade presente nos velhos ditados populares “Quem vê caras, não vê corações”...mas acabam todos por cair repetidamente no memso erro. É essa transição sempre mal feita, entre o Bom e o Mau, o Feio e o Bonito, O Certo e o Errado. Lollita ( com 2 L) Angelical e Junkie Podre, Existe no mundo e na relação entre as pessoas uma certa podridão, revestida por uma fina película de beleza hipócrita e uma falsa felicidade apoiada em crises de valores. Como tem sido a reacção do vosso público em relação a este lançamento? RIC: Temos obtido um feedback bastante positivo! O factor que destacam mais é o “peso” que este último EP tem, relativamente ao anterior. E que por sinal funciona bastante bem ao vivo!

DOMINOPAWO: Sim o “peso” tem sido muito bem aceite e também reparamos que tem aparecido mais público ligado ao metal. O público fiel, esse está sempre lá! Este EP está disponível para download gratuito. Esperam chamar a atenção de uma editora para que futuramente o vosso trabalho seja comercializado? DOMINOPAWO: O Principal objectivo deste Ep centra-se na divulgação do nosso trabalho, de uma maneira mais rápida e prática, para que todos possam ouvir Junkie Lollita. Também esperamos chamar a atenção de uma editora, mas também terá de ser uma editora que nos chame a atenção a nós. Vi algumas fotos de concertos vossos ao vivo e mais do que um concerto, parece-me uma festa temática com algum teatro à mistura, o que é bom! Sentem que o vosso visual em palco mostra melhor a essência da banda? DOMINOPAWO: Karuniiru é um estado de arte constante. Assumimos um papel de regulação na acidez da vida, quase sempre dura e banal, que o mundo tem. Tentamos sempre libertar o público que nos vai ver. Na Grécia antiga o teatro servia para iluminar as mentes e de trazer emoções para o palco, amplificando as qualidades e defeitos do Homem e da sociedade. Com Karuniiru acontece algo similar. Amplificamos os defeitos e virtudes do Mundo e contamo-lo a quem nos quiser ver e ouvir... pode não ser fácil para quem é apanhado de repente, mas também não fazemos música fácil. Somos o produto da sociedade que nos envolve, e em palco apresentamos aquilo em que nos transformaram. A verdadeira arte reflecte sempre o mundo onde vivemos. Se o Mundo está em decadência, então nada melhor que a Arte para representar esse Mundo e essa época. Cabe à Arte alertar e representar o mundo em que vivemos. Se não for assim, viveremos todos numa grande mentira. O nosso visual reflecte este mesmo Mundo em que vivemos actualmente, um Mundo moralmente decadente e fraco espiritualmente. Os Karuniiru parecem-me ser uma banda multicultural, apesar

de à primeira vista parecer que são apenas influenciados pela cultura oriental. O que mais vos influencia na música? DOMINOPAWO: O local onde vivemos e os sonhos que temos acabam por ser o que mais nos influencia na música. Pessoalmente, o que mais me influencia e que transporto para o grupo de trabalho são, as vidas banais dos novos escravos do século XXI, escritores e filósofos do século XIX, contos dos tempos antigos, muito Visual e estilos musicais diversos. Através da língua usada, sobressai a cultura oriental, mas isso apenas constitui uma pequena percentagem daquilo que somos. Cada elemento leva as suas influências, que depois de filtradas dão origem ao que a banda é hoje. Sentem-se apoiados pelo público Português? E já tiveram feedback do público Japonês? DOMINOPAWO: Sim, regra geral sentimo-nos apoiados pelo público que nos vai ver. Em relação ao público Japonês ainda não temos uma mostra de pessoas suficiente para tirar-mos conclusões, embora os poucos japoneses que já ouviram Karuniiru tenham gostado muito. Públicos fora de Portugal só temos feedback através da Internet. RIC: Graças à Internet, consegui obter feedback positivo de público tailandês e norte-americano. Para quando um full-lenght? RIC: Estamos a trabalhar nisso! Com muitas ideias novas mas sempre com a marca Karuniiru. DOMINOPAWO: Sim, estamos a trabalhar em novo material, diferente do que o público espera, bem à maneira de Karuniiru xD. Para finalizar, vão ter algumas datas durante os próximos meses para que os nossos leitores vos possam ver ao vivo? RIC: Dia 2 de Julho no Hard Club, Porto. Dia 9 de Julho no Matsuri#2 na Anipop, Lisboa, e dia 22 Julho no Metal Point, Porto. DOMINOPAWO: Temos mais uns quantos em negociação, que espero serem revelados em breve. Entrevista: Joel Costa Fotografia: Ana Barreira


Em 2007, com o álbum anterior, os italianos Forgotten Tomb já davam mostras de estar a evoluir dentro da sonoridade Black/Doom Metal. Herr Morbid, vocalista e lider do grupo, enquadra o lançamento de “Under Saturn Retrograde” e a sua demanda pelo trono do Metal depressivo.

O

novo registo dos Forgotten Tomb, “Under Saturn Retrograde”, é uma boa surpresa, uma vez que acrescenta ingredientes frescos à vossa já doentia receita musical. Depois de mais de uma década de actividade, podemos dizer que nos apresentam um álbum inovador? HERR MORBID: Eu acho que é, definitivamente, o nosso melhor lançamento até agora, pois reune todas as qualidades necessárias para suplantar os anteriores, tanto a nível técnico, produção e na composição. Desta vez, tudo foi feito com maior precisão – o que se nota no produto final. O resultado satisfaz-me plenamente, porque mantém raízes fortes no Metal extre-

mo, mas também inclui influências de Dark Wave à antiga e uma orientação mais Rock. Acho que tudo se conjuga muito bem, melhor do que antecia em “Negative Megalomania”. É um álbum melódico mas também arrasador, e eu acho que retém um pouco da loucura do Black Metal, que foi onde começámos. Mas, de qualquer forma, não considero que “Under Saturn Retrograde” seja o nosso álbum mais melódico. Uma música como “Joyless” é muito cativante, de facto, mas também existem canções extremamente pesadas, como “Shutter”, “Downlift”, “Under Saturn Retrograde Pt.I “, por exemplo. Eu acho que é o mesmo com todos os nossos álbuns: a melodia está sempre lá, mas também a agressividade e o peso.

No novo álbum podemos contar com as letras intensas e niilistas, como é habitual. Quais são os principais temas descritos, desta vez? A glorificação de negatividade, morte, ódio, pessimismo, cinismo, homicídio, suicídio, violações, e em geral tudo o que serve para destruir a felicidade humana e a vida são temas recorrentes dos nossos álbuns e da nossa imagem - hoje mais do que nunca. Para além disso, há um significado especial por trás da faixa-título e das letras. Como deves saber, de acordo com a astrologia, a influência de Saturno retrógrado tem basicamente um efeito muito negativo sobre a vida e realizações pessoais, e é parcialmente responsável


“Somos um milhão de vezes melhores do que todas essas bandas que se colam às características sonoras dos nossos álbuns antigos, então porque é que devemos limitar-nos a tocar coisas que agora seriam abaixo do nosso potencial? Tocar coisas à moda antiga seria uma brincadeira de crianças, nos dias de hoje.” pelos fracassos, pessimismo e outros lados negativos da vida quotidiana. É especialmente negativa quando está no nosso mapa astral de nascimento. Eu também sou Capricórnio e Saturno é o meu planeta regente. Basicamente, usei “Saturno retrógrado” como uma metáfora. Significava algo como “ter nascido sob uma estrela ruim”. Eu realmente não acredito em astrologia mas pensei que o significado era apropriado para representar o sentimento de opressão e constante falta de sorte que tinha na minha vida. O resto das canções tratam de temas diferentes - mas cada uma tem a negatividade e hostilidade como os principais temas. No início da vossa carreira, disseste que suas letras eram uma “devoção à negatividade”. Hoje persistes em colocar sob a forma de letras os teus “pensamentos vis e doentes” - apesar de, musicalmente, podemos falar de um som mais orientado para o rock e evoluindo, na minha opinião, para um resultado mais original. O que motivou essa mudança de abordagem? Os Forgotten Tomb foram sempre uma banda em constante evolução. Eu sempre ouvi um monte de coisas diferentes desde miúdo, por isso é natural que funda todas as influências que tenho tido ao longo dos anos e que crie um resultado próprio. Mas, ao mesmo tempo, inspiro-me bastante nas coisas que fiz nos álbuns mais antigos. Quer dizer, basicamente forjei um novo subgénero de Black Metal, por isso, realmente, não preciso de procurar muito mais além. Na verdade, tenho constatado que há um monte de bandas que tentam copiar-nos ao longo dos anos, e não o contrário. Acho que “Under Saturn Retrograde” pegou nalguns elementos de “Negative Megalomania”, mas ao mesmo tempo lembra-me coisas nossas mais antigas. E é claro que existem características novas, como sucede em cada um de nossos álbuns. A negatividade ainda representa uma grande parte de nosso som e letras e será sempre assim, mas há muitas maneiras de retratar esses sentimentos. Talvez agora sejamos mais “niilistas” que “depres-

sivos”. Mas qual é a grande diferença? Não há nada de positivo dentro dos Forgotten Tomb. Qualquer pessoa que diga o contrário é um ignorante de merda e deve ir ouvir o seu Emo Suicida/ Black Metal depressivo da treta. Somos uma banda séria, que não quer ser associada com toda essa porcaria que está tão “na berra” hoje em dia. As vossas vocalizações foram para outros territórios, no novo disco. Essa é uma tendência que podemos constatar junto da maioria das bandas que vos influenciaram no início da carreira - onde os gritos foram sendo complementados com vocalizações mais variadas. Achas que esta opção, no final do dia, permite passar com maior clareza a mensagem inerete ao tema? Bem, eu não sei quais são as bandas a que te referes, uma vez que já não nos inspiramos em qualquer banda/álbum que tenha saído depois de 1995/1996... Alternar vozes limpas e gritos é algo comum entre as bandas de Metal extremo desde, pelo menos, há 16/17 anos. Como tal, isso não é nada novo - só que temos uma maneira própria de o fazer, sem copiar ninguém. Na verdade, dentro do nosso sub-género estamos entre os primeiros a ir nessa direcção. O problema é que sempre fomos uma banda muito subestimada. Quando as bandas maiores (ou mais conhecidas) fazem algo semelhante ao que nós estamos a fazer, toda a gente acha que os estamos copiar, quando na verdade é o contrário que sucede! Por exemplo, dentro do nosso sub-género fomos, basicamente, os primeiros a incluir solos de guitarra Hard Rock e vozes Rock, enquanto outros apenas se limitaram seguir-nos... O vosso som parece estar também mais orientado para a banda, mas as músicas, apesar de serem mais curtas, apresentam estruturas mais complexas, a meu ver. Qual é o processo de escrita dos Forgotten Tomb, nos dias de hoje? A música tem sido escrita em diferentes momentos ao longo de 3 anos, mas há algumas coisas que foram escritas há anos e reorganizadas e retrabalhadas

mais tarde... Foi um processo bastante longo. Eu sou o único compositor deste álbum, ao nível de letras e música. Fui também o responsável pelos arranjos de todos os instrumentos. Eu costumo gravar versões caseiras com um software multicanal e um software de programação de bateria. A partir daí, entrego essas gravações aos membros da banda e, mais tarde, na sala de ensaios fazemos os melhoramos finais e os arranjos extra, alguns meses antes das sessões de gravação. Desta feita, nós só queríamos manter tudo mais “in-your-face” e trabalhar com uma estrutura clássica do Rock. Nesse sentido, a estrutura das músicas é um pouco mais regular e orientada para o “mid-tempo” em relação ao passado. Mas, simultaneamente, os arranjos (também no capítulo vocal) são muito mais sólidos e ricos do que sucedia nos álbuns anteriores. Apesar de o som estar muito bem trabalhado no disco, acredito que as novas músicas devem pedir um impulso extra quando tocadas ao vivo. Quais são os vossos planos em termos de digressão? É claro que as novas músicas vão soar grandiosas nos concertos, mas essa não é a razão principal para o nosso som ser mais orientado para o Rock neste momento. Isso será apenas uma consequência. A propósito, muito provavelmente iremos tocar nalguns festivais de Verão e depois vamos ver o que acontece no próximo Outono. Espero que continuemos em digressão, que toquemos alguns concertos em nome individual e nalguns festivais indoors de Outono/Inverno. O nosso objetivo é tocar ao vivo, tanto quanto possível. Tudo depende do feedback e das vendas do novo álbum, e, acima de tudo, depende das condições que nos vão oferecendo para concertos de fim-de-semana e/ ou para tours completas. Para todas as bandas, a parte financeira desempenha um papel importante no que toca à gestão da agenda dos espectáculos ao vivo. Se nos oferecerem boas condições em todos os aspectos para um espectáculo ou uma tourné, fazemo-los - caso contrário, ficamos em casa. O novo álbum tem um som mais


vivo e cheio em comparação com o passado. Porque optaram pelo Mika Jussila para a mistura? O Mika Jussila fez realmente a masterização e não a mistura. O álbum foi gravado perto de Piacenza (em Itália), no Elfo Studio, onde temos gravado todos os nossos álbuns (com excepção do “Springtime Depression”, feito nos Abyss Studios - na Suécia - e do “Vol. 5: 1999/2009”, feito nos Moonlight Studios - em Itália. O engenheiro de som/produtor foi o Daniele Mandelli, que já trabalhou connosco no passado em “Songs To Leave”, “Love’s Burial Ground” e “Negative Megalomania”. Desta vez, ele fez um óptimo trabalho! A mistura foi feita em conjunto por mim e por ele. Para o processo de masterização, optamos pelo Mika Jussila e pelos Finnvox Studios (em Helsínquia - Finlândia) apenas porque ele é um dos melhores naquilo que faz e porque gostamos do que ele fez com outras bandas, como os Amorphis, HIM, Impaled Nazarene, Children Of Bodom, entre outras. Queríamos uma produção de alto calibre e a sua masterização deu esse toque internacional ao nosso som, necessário para este tipo de álbum. A opção pela cover de “I wanne be your dog” (dos The Stooges) é uma manobra ousada da vossa parte, mas que combina surpreendentemente bem com o resto do material. O que vos motivou a pintar de negro este clássico do Punk Rock com o som à la Forgotten Tomb? Eu acho que nós re-arranjámos muito bem o tema e que agora soa a uma das nossas músicas. Eu gosto do poder niilista e auto-destrutivo que sobressai nessa faixa. Originalmente pretendia fazer algo do álbum “Raw Power”, uma vez que é o meu favorito de Iggy/Stooges e um dos meus favoritos de sempre - embora a maioria do material não se enquadre com as nossas músicas. Além disso, escolhemos “I Wanna Be Your Dog” porque é o tema mais conhecido e também porque todas as versões que ouvimos eram muito más (sim, incluindo a dos Slayer). Quando os Slayer fizeram a cover mudaram parte das letras, incluindo uns disparate machistas que eu odiei. Foram uns atrasados mentais. O Iggy Pop também odiava coisas desse género. Eu acho que o Iggy iria preferir a nossa versão. Acho que lhe démos o feeling Punk original, soanso realmente niilista e violento. Até prefiro a nossa versão ao original! Isso teria sido quase

impossível de fazer com as outras canções do “Raw Power”, sendo a porra de um álbum perfeito como é. As vossas opções recentes mostram que realmente não se importam em encaixar num género específico ou em serem agradáveis para quem preferia o vosso som inicial - quando eram mais fáceis de catalogar. O que vos fez enveredar pelo sempre solitário caminho próprio? O disco anterior, “Negative Megalomania”, foi realmente escandaloso - um álbum bastante avantgarde. Talvez fosse imperfeito e um pouco apressado, mas eu adoro esse álbum porque realmente significou um grande passo na nossa evolução e também porque nos demarcou do resto das bandas de Black Metal. Conseguimos livrar-nos de uma espécie de gaiola, antes nos vermos para sempre confinados a um único estilo musical. Nesse álbum dissémos: “Nós fazemos o que queremos”, mas sem perdermos o nosso cunho pessoal soturno. O mesmo sucede com o novo “Under Saturn Retrograde”, onde as pessoas pensavam que íamos tornar-nos mainstream ou que iriamos numa direcção semelhante aos Katatonia. Mas acho que muitos ficaram realmente surpreendidos, porque esse álbum tem uma sonoridade extremamente agressiva e variada. Embora ache que não abandonámos completamente as nossas raízes Black Metal. É claro que se alguém quiser um álbum de Black Metal puro, deve procurar outras bandas. Mas se alguém gosta de Forgotten Tomb não ficará desiludido com esta nova direcção. Com efeito, os Forgotten Tomb nunca foram uma banda de “puro” Black Metal, talvez com a excepção da primeira demo/MCD “Obscura Arcana Mortis”. No nosso álbum de estreia “Songs To Leave” eram já perceptíveis um monte de influências Rock e Dark Wave, por isso é estranho que algumas pessoas não as consigam descortinar. Na minha opinião, a grande diferença em relação ao passado é a melhor produção, melhor musicalidade e melhores vocalizações. Mas, sabes que, para algumas pessoas, melhorar nesses aspectos significa “vender-se”. Nós realmente não “mudámos de estilo”, evoluímos dentro do nosso estilo para uma versão aperfeiçoada do mesmo. É claro que estamos mais velhos e entediados com os padrões do Black Metal, e isso é certamente uma das razões pelas quais continuamos a evoluir

o nosso som. Somos um milhão de vezes melhores do que todas essas bandas que se colam às características sonoras dos nossos álbuns antigos, então porque é que devemos limitar-nos a tocar coisas que agora seriam abaixo do nosso potencial? Tocar coisas à moda antiga seria uma brincadeira de crianças, nos dias de hoje. Gostamos de nos desafiar a toda a hora. Além disso, tentamos sempre estar um passo à frente das outras bandas e fazer algo de diferente. Há sempre alguém que reclama por alguma razão, em cada novo álbum que lançamos... É impossível agradar a todos. Em primeiro lugar, precisamos nós de estar satisfeitos com o que fizémos no novo álbum. Se os outros gostarem, é óptimo. Caso contrário, significa que não estão preparados para compreender a nossa evolução. Já nos vamos habituando a ser incompreendidos e à frente das tendências. A maioria das pessoas começam a gostar dos nossos álbuns três anos após a sua edição. Da cena underground italiana continuam a emergir algumas bandas importantes e inovadoras como é o vosso caso. Sentem que há sangue novo a acrescentar mais qualidade à cena musical pesada? Não sei, pois realmente não sigo muito a cena underground. Penso que existem algumas boas bandas e algumas merdosas no panorama italiano, como em qualquer outro lugar do mundo. Embora, provavelmente, a qualidade geral tenha subido nos últimos anos. Há um monte de bandas jovens com boa capacidade técnica, mas que ainda são muito underground. Algumas bandas boas oriundas de Itália de que gosto (embora, não sejam necessariamente “sangue novo”) são: Whiskey Ritual, Elitaria, Viscera///, Hiems, Spite Extreme Wing, Mortuary Drape, Necromass, Novembre, Death SS, Aborym, Schizo e pouco mais... Entrevista: José Branco


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ão importa se és marxista ou de Marte, se és Punk ou Designer... é preciso ter pica e não ter medo de arriscar para fazer “coisas”. B Fachada e Tiago Lacrau são dois exemplos de pessoas que não conseguem estar quietas, dividindo um historial mais ou menos comum estão agora em pontos equidistantes. Ambos fizeram parte da euforia FlorCaveira e na descoberta mediática e pública dos “cantautores” dos últimos anos. B Fachada passou pela FlorCaveira, não era cristão, era aliás o “primeiro pagão” nas fileiras da editora / colectivo. Fazia parte da estratégia da FlorCaveira em apostar na linha do “cantautorismo” abandonando lentamente os projectos Punk e Grindcore do passado. “B” fez/faz furor e há muito que edita por outros lados. As suas letras de puto blasé e a voz de sub-Zappa meio canino irritam pessoas sábias como eu. Tiago Lacrau (ou Guillul ou Cavaco) foi a peça principal da FlorCaveira e da incontornável popularidade destes “cantautorismos”, tendo desenterrado criaturas como o Jorge Cruz, aproximado este tipo de artistas à estrutura para dar força a um movimento que conseguiu temporariamente expurgar-nos a lembrança de atentados nacionais como David Fonseca ou Old Jerusalem. Para além de militante e activista, mostrou ser um exímio produtor “lo-fi”, alguém com uma natural apetência para gravar Pop seja no quarto seja num estúdio luxuoso. Admite que não tem perfil para ser artista Pop, desistiu o ano passado de dar concertos e até da FlorCaveira que criou e desenvolveu. O “Pagão B” quer viver da música e vive para ela, editando e dando concertos com regularidade. O “Protestante T” tem mais que fazer do que lidar com o mundo parvo da “indústria da música Pop” mas também vive de forma epidérmica para a música, tanto que dogmaticamente o seu “panque” e o seu cristianismo (que se intersectam ou se completam mesmo que sejam ideologicamente opostos) não o deixam ficar pelas regras do jogo instituído. “T” precisa de fazer coisas sempre com novas regras - as suas regras - e isso é que faz dele um artista, mesmo que nos arrepie o seu relacionamento espiritual com o cristianismo. Um artista concretiza a sua visão sobre o mundo, mesmo

que tenha de pagar por essas escolhas, podendo ter como consequências o vedamento da difusão da obra, irritações no seio da comunidade, constrangimentos económicos, etc... “B” e “T” tem usado as potencialidades de misturar música realmente tocada (por instrumentos e voz) com “loops” / “samplers” sacados aqui e acolá, e dois discos recentes são novos frutos dessas explorações. No caso do “B” com “Há festa na Moradia (Mbari; 2010) ainda não percebi o que se passa, são várias pessoas a acharem este disco um dos mais importantes da MMP dos últimos anos (?!). Se for então também pode levar o título da Pior Capa de Sempre bem como a pior “Font Possível de Escolher”. Eu que adoro vinis de 10” tenho vergonha de ter este disco na minha colecção - mantenho-o por respeito a quem me o ofereceu no Natal. Porque raios gastaram tanto dinheiro num objecto tão feio? E depois o som está todo lixado, juro que pela primeira vez que acho que a versão digital de uma música é melhor que em vinil. Também não percebo porque nos vários sites se fala em “música de intervenção” de “B”. Que eu saiba na minha terra, “crítica de costumes” não é “música de intervenção”, e é isso que “B” sabe fazer (e bem): crítica de costumes tal como toda a Pop portuguesa está bem recheada disso (António Variações, G.N.R. ou Repórter Estrábico, para dar os melhores exemplos). O “Loop Pop” de “B” tem interesse, é um bocado repetitivo mas bem seleccionado o rapinanço sonoro. É também uma boa forma de sair do saco do “cantautorismo” que já ninguém aguenta. “T” seja Guillu seja Lacrau já andava a fazer umas brincadeiras giras com “loops” de músicas evangélicas mas agora com O Inverno Desinspirado do Rapaz do Sul do Céu (Um Disco Pronto e Sincero; 2011) foi “samplar” o «satanismo soft-teen» dos Slayer!!! Isto poderá ser um choque para quem o vê como um Pastor Pop catita e esqueceu-se dos seus momentos agressivos de Borboletas Borbulhas, verdadeiro Hardcore de Jesus! Para fãs do “cultural jamming” (aqui invertido) há muito que esperava este regresso paradoxal de cristandade com xungaria metaleira, criando mais um exótico produto cultural. “T” decidiu deixar a promissora

carreira de Estrela Pop para voltar com um CD-R em verdadeiro espírito DIY, com aquele prazer de fazer as coisas com as mãos e com o coração virado para o mundo: gravação caseira, sem masterização (acho bem, masterização é para pussies!), 333 exemplares de CD-R’s gravados e numerados, capa em fotocópia a preto e branco,... como um verdadeiro punk ou metaleiro dos anos 90! Samplou um álbum inteiro dos seminais Slayer, South of Heaven (Def Jam; 1988), recriando-o faixa a faixa com novas adendas cristãs porque ele não percebe porque os Satânicos têm direito a melhor música que os Cristãos – a resposta é simples mas pelos visto “T” não sabe. O disco é um álbum conceptual em que emerge um enorme Sermão Pop-Metal desvairado. No futuro (ou agora no presente) ainda vão perguntar se estamos perante um génio ou um doido varrido! “T” até pode pregar o Nazismo que eu nem quero saber, qualquer gajo que consegue misturar Slayer com Raul Indipwo merece “respect bro!” “T” pode pregar as suas ofensas ao Grande Bode e os seus seguidores, que nós o perdoamos pela forma baralhada como o artista se encontra! Há uma percentagem de gajos assim, são poucos mesmo quando se chamam Horde, que pensam que estão a usar o Metal para converter os ímpios. Mas estes valiosos guerreiros de Cristo já estão perdidos nas garras manhosas e musicais de Lúcifer - Diabolus in musica. Tal como o disco de “B” este disco de “T” é um disco falhado mas por outras razões, tenta ser programático («este disco não é sobre música mas sobre o evangelho») mas o humor vai aparecendo e subvertendo o disco como um Eminem – e claro, Satananás ri-se lá nas adegas do Inferno! Humor é inteligência, inteligência é a luz de Lúcifer, será que o “T” agora percebe porque a música “satânica” é melhor? Baralhado com esse humor / inteligência / luz ainda goza na última faixa com a treta da cena Mod lisboeta – o que é uma cereja no topo deste bolo oferecido aos amigos do artista no passado Dia de S. Valentim. Assim sim, vale a pena ter amigos artistas!

Links: mbarimusica.com // prontosesinceros.tumblr.com


Dos impulsos nervosos aos Inpulsiv

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o início da música, as cordas da guitarra eléctrica libertam acordes límpidos. Os dedos de João Simões movem-se num dedilhado calmo, embrenhado em acordes de Jazz, como para dizer em tom de segredo que temos que nos preparar porque aí vem um alvoroço. E logo explodem as batidas furiosas de Ricardo Matias. A bateria acorrenta num ritmo empolgante com o baixo de Paulo Alves e a guitarra de Ricardo Rodrigues invadindo agora o tema com entoação Rock. Dos instrumentos irrompe uma melodia cativante, que prende, ao subir na sua intensidade sendo já um processo irreversível e surpreendente quando entra a voz limpa de João Sequeira.

O nome da música é Flashback e foi com este tema que eles, os Inpulsiv, começaram a tocar para a nossa magazine. A banda de Rock Alternativo está a gravar o seu primeiro álbum e a Infektion teve a oportunidade de assistir a um ensaio para conhecer em antemão este trabalho.

dos instrumentos. A fechar o círculo que forma os cinco rapazes estava uma cadeira vazia. Não se podia ler no encosto do assento “Infektion”, nem tinha sido colocado uma folha de papel com a palavra “reservado”, mas era o convite para um concerto privado.

Já passava das 17 horas e estava a ser um domingo de calor em Almeirim. O armazém onde a banda tem por hábito reunir, entranha-se num cenário ribatejano de ruas direitas e casas baixas. O espaço é amplo, ladeado de objectos deixados para traz em projectos passados, no qual o centro transformou-se num estúdio nos últimos seis meses. Cada membro da banda foi ocupando o seu lugar, atarefando-se em volta

O riff da música “The one who moves” fica logo no ouvido. João Sequeira encarrega-se de apresentar o espectáculo, revelando que este segundo tema que acabam de tocar, foi escolhido para a realização de um vídeo clip. Contudo, é “Counting the days”, a música executada a seguir, que será o single de abertura do álbum, segundo o vocalista. Se de título em título o universo musical dos Inpulsiv se desvende num


E tem um segredo para revelar de como vão conquistar os ouvintes? “Somos os Inpulsiv, estejam atentos, vale a pena ouvir as composições desta banda. Acordes recheados de intenção, solos electrizantes, baterias e um baixo poderosos. Uma voz grave e melódica marcante e diferente. A cada segundo destes temas que ouvi há uma intenção, não é mecânico este modo de tecer música é Inpulsiv.”

puro Rock Alternativo, quando chega o momento de tocar “Wonderful life”, a exposição desse mundo é total. Trata-se de uma versão do tema dos anos 80 dos Black. “É um bónus para os espectáculos ao vivo” explica João Sequeira. A letra é a mesma, mas só a letra. Porque nesta versão encontra-se todo o Rock Progressivo/ Alternativo dos Inpulsiv com as suas influências de Hard Rock e de Trash. Mais tarde, Ricardo Rodrigues dirá sobre a construção das músicas de Inpulsiv que para “quem tiver a possibilidade de ouvir os nossos temas irá rapidamente identificar-se, pois deixamos a porta a vários estilos e interpretações musicais, visto que no mesmo tema está contemplado o Hard Rock com melodias épicas, e ao mesmo tempo a desconstrução e composição de um Rock Alternativo onde primam os solos do João Simões e os acordes dos refrões melodiosos, a roçar mesmo o sinfónico em alguns momentos.” E no final “Farewell”, uma balada para concluir este concerto especial, que prima pelo força progressiva e pelos versos cantados por João Sequeira. A grande estreia está marcada para o próximo mês de Julho. E “não vamos revelar nada até chegar lá” assegura o Ricardo Matias. O público só então vai poder descobrir o álbum que está a ser gravado, o produto final das rodagens do vídeo que estão a decorrer, e ainda as datas dos espectáculos ao vivo. Julho vai ser o marco de vários inícios. É a estreia de um trabalho novo, mas é também

uma estreia para os cinco elementos da banda num projecto diferente. “Esta banda é algo de novo e nenhum de nós fez isso antes”, afirma Ricardo Rodrigues. O background, as influências, os gostos musicais não são os mesmos para nenhum dos Inpulsiv. Mas para todos, este projecto é um inédito. “Em Portugal há poucas bandas que fazem um Rock Alternativo misturando várias influências” esclarece o guitarrista. Mas também para Paulo Alves essa é uma explicação. O baixista que já toca desde dos 12 anos confessa à nossa revista que encontrar uma banda deste género “é difícil porque hoje em dia é só Metal por todo o lado”. No entanto, o guitarrista faz questão de salientar que “Inpulsiv não querem ser um selo único, estamos só unicamente a explorar as nossas influências e a fazer Rock”.

Quando os impulsos fazem-se de pauta de música Todos eles são Inpulsiv. E mais que o nome pelo qual se apresentam à Infektion, é a maneira deles serem na música. “É Rock feito por instinto” exclama Ricardo Matias, acrescentando que “fazemos um trabalho daquilo que nós somos”. Pois, o Rock de Inpulsiv é sobretudo uma soma das várias influências dos seus elementos. Contudo, estas são travadas à porta da sala mas ficam dentro dos seus seres sob a forma de impulsos nervosos e quando compõem fica difícil colocar uma etiqueta no produto final. Segundo o baterista o processo criativo baseado na inspi-

ração por impulsos permite a banda de ganhar uma dimensão mais coesa, “onde cada um põe o seu cunho”. São risos que suscitam a Ricardo Rodrigues a ideia da banda ser “épica”. O guitarrista entende como a música de Inpulsiv pode ser considerada épica “no sentido de haver riffs de guitarra pomposos, extremamente melodiosos e outros mais agressivos e alternativos, pois quer-se dar sentido e importância à melodia, atenuando um pouco a agressividade dos nossos temas.” Mas depois a propósito da banda, lembra-se é como tudo começou há três anos atrás. A ideia do projecto foi dele, no início pelo menos, porque só em 2011, quando se juntou aos outros quatro elementos, é que tudo arrancou realmente. “Com a entrada de novos elementos as ideias ganharam outra dimensão e profundidade” realça Ricardo Rodrigues. E enfim, recorda-se como surgiu o próprio nome da banda. Quando um ex-membro da banda, antes deste grupo se constituir, ter sugerido que eles eram impulsivos e que deveriam se chamar assim. “E cada um interpreta o nome à sua maneira até hoje. Neste momento o conceito que queremos transmitir é a dependência musical do nosso ser”, remata. Suzana Marto


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á se repetiu muito na história da música pesada, o terceiro álbum de uma determinada banda ser o marco para a confirmação do talento da mesma e o estabelecimento desta no panorama global. Basta pensar no “Number of the Beast” dos Iron Maiden, no “Master of Puppets” dos Metallica, no “Blood Mountain” dos Mastodon e a lista continuaria por aí fora. A nova entrada nessa grandiosa lista é mesmo este terceiro registo dos Obscura, banda alemã de Death metal técnico que já andava na boca do mundo pela bomba que foi “Cosmogenesis”. Este último trabalho é denominado “Omnivium”, nome bem escolhido pois este álbum funciona como um todo, uma entidade com poder próprio que nos envolve com a sua elaborada técnica em todos os instrumentos, o que acaba por não ser surpresa porque temos aqui um alinhamento de luxo. A

Steffen Kummerer (fundador, vocalista e guitarrista) juntaram-se o baterista Hannes Grassmann e o guitarrista Christian Müezner, ambos ex-Necrophagist e o baixista dos Pestilence, Jeroen Paul Thesseling, o que logo pelos nomes dos projectos em que estão envolvidos, o selo de qualidade à partida estaria garantido... e de que maneira essa qualidade nos torce por dentro no esvoaçar de riffs e ritmos que se desenvolvem à velocidade da luz neste disco. A única coisa que vou fazer é mesmo deixar esta introdução porque este trabalho é inexplicável, só pode mesmo ser entendido através da sua atenta audição e dos pormenores sublimes que aqui desfilam e afirmar que este é muito bem capaz de ser um dos melhores álbuns de 2011, por isso vão pelo meu conselho e OIÇAM! Com urgência mesmo, OIÇAM! Bruno Farinha


ABYSMAL DAWN LEVELING THE PLANE OF EXISTENCE RELAPSE RECORDS

Os norte-americanos Abysmal Dawn estão de volta com o 3º álbum da sua carreira “Leveling the plane of existence”, mais um excelente exemplo de puro Death Metal, que apesar de revelar bastantes influências de bandas como “Morbid Angel” e “Suffocation”, mostra também o estilo próprio e único da banda. “Leveling the plane of existence” é um disco frenético e agressivo, com riffs memoráveis, uma percussão intensa e um impressionante trabalho vocal, que nos convence de uma ponta á outra. Destaque para os temas “In service of time”, “Rapture renowed”, “My own Savior” e “Perpetual Dormancy”. É um excelente trabalho, um marco na carreira dos Abysmal Dawn, que claramente, têm tudo para se tornarem numa das melhores bandas de Metal da actualidade. [7/10] Rute Gonçalves

rou uma veia sentimentalista e acústica magnífica com vertentes Shoegaze ao seu Black Metal. A Prophecy Productions veio agora disponibilizar uma nova edição regravada desse mesmo trabalho dando uma nova roupagem às duas longas músicas que o compõem. “Le Secret” e “Elevation” apresentam-se agora de cara lavada com o som mais nítido e que deixa o ambiente fluir com mais naturalidade, com os pormenores da guitarra e do baixo mais audíveis. Do resto, é deixar-se embalar pelas belas melodias destas duas excelentes canções. Uma boa aposta neste lançamento foi incluir as versões originais dos temas nesta reedição, dando a oportunidade ao ouvinte de poder comparar as duas gravações e optar aquela que é mais agradável ao seu gosto. Um bom lançamento da Prophecy Productions para ser ouvido com atenção e recordar o que Alcest era antes de se tornar o belíssimo projecto que é hoje. [8.5/10] Bruno Farinha

BARAFUNDA TOTAL A GRANDE CONSPIRAÇÃO COMPACT RECORDS

ALCEST LE SECRET PROPHECY PRODUCTIONS

“Le Secret”, EP originalmente lançado em 2005, contém os dois temas que começaram a dar bastante visibilidade ao projecto Alcest do multi-instrumentalista Neige, antes do primeiro longa-duração “Souvenirs d’un Autre Monde”, pela forma como incorpo-

A curiosidade começou pela capa e essa curiosidade foi dando lugar a outras à medida que o CD rodava no leitor. Com uma sonoridade suficientemente única para que sejam logo identificados assim que toque o primeiro acorde de uma música, os Barafunda Total têm em “A Grande Conspiração” o seu terceiro álbum de originais. A produção é cuidada e a fúria pessoal de cada instrumento e elemento da banda foi muito bem captada neste

registo. O sentimento base dos BT é a contestação e alegrem-se por saber que a banda continua fiel às suas raízes e daqui para a frente até podem mudar mas sempre para melhor. São trinta minutos de festa e raiva, com algumas vozes convidadas à mistura, que certamente deixarão qualquer um amarrado a esta atmosfera imposta pela banda. [6.5/10] Rui Simões

BLEEDING FIST DEVIL’S FEROX MORIBUND

Um ano depois do lançamento de “Macabrum Bestia Ex Abyssus”, os eslovenos Bleeding Fist regressam com o EP “Devil’s Ferox”, um registo com 5 faixas que continua a ter o Black Metal como protagonista. O disco revela uma banda que, apesar de competente, continua a repetir fórmulas e erros do passado, não conseguindo por isso, atingir em pleno todo o seu potencial. Destaque para a faixa com 7 minutos de duração que abre o disco “Monuments desecration” e para “Black and Violent”, um tributo á banda italiana “Death SS”. Não é um disco brilhante, mas ainda assim não é uma completa perda de tempo ouvi-lo. [6.5/10] Rute Gonçalves

BLOODIEST DESCENT RELAPSE RECORDS

Emergindo da junção de elementos de vários projec-

tos do underground de Chicago, surgem os Bloodiest, com um originalíssimo álbum de estreia. “Descent”, à falta de melhor termo de comparação, apresenta um cruzamento entre o sludge/ post-metal dos Neurosis e o experimentalismo dos seminais Swans. E poderíamos continuar a lançar para o ar mais um punhado de nomes que, rebuscadamente, conseguimos identificar à lupa ao longo deste álbum. Contudo, tratar-se-ia de um exercício inglório. Quem conhece o trabalho de Bruce Lamont (também vocalista dos Yakuza), terá uma noção mais aproximada do que pode esperar deste álbum. Ao longo de seis temas bastante equilibrados e com uma coesão impressionante, há espaço para brilharem os sete elementos da banda. Assistimos a atmosferas sombrias que lentamente vão evoluindo até atingirem explosões sinfónicas e catárticas. Até chegarmos ao pico de cada crescendo, podemos apreciar arranjos enleantes, hipnóticos e psicóticos. Tudo começa com um dos músicos a dar o mote: seja por via da bateria (em jeito tribal), do piano ou da guitarra clássica. E torna-se fascinante o exercício de acompanhar a entrada dos outros elementos na tapeçaria sonora dos Bloodiest. “Descent” tem pouco de Metal, contudo, a obscuridade e peso aqui retratos (e a forma como nos são apresentados) deixarão muito pouca gente indiferente. Rock atormentado e avassalador. [8.5/10] José Branco


BLUT AUS NORD 777 SECT(S) DEBEMUR MORTI

Blut Aus Nord já é uma entidade que se prolonga na história da música pesada há 18 anos (a contar com o tempo em que o projecto se denominava Vlad), conta com mais de uma dezena de lançamentos, foi um dos pioneiros do Black Metal de ambiências psicadélicas e estendeu-se na sua longa discografia  por várias áreas incluindo o Industrial. Pode-se afirmar que não são nenhuns amadores, muito pelo contrário, sempre fizeram música diversificada e de extrema qualidade. O trio francês lança agora “777 - Sect(s)”, a primeira parte da trilogia 777 e o que posso dizer é que se a primeira parte começa este conjunto de trabalhos desta maneira, estou bastante curioso para ouvir o resto. Este registo se for ouvido bem alto roça a esquizofrenia com um trabalho de guitarras mais cru e duro capaz de nos levar para um estado quase catatônico pela melancolia empregue em peso e pela componente psicadélica já referida, deixando-nos apenas respirar em temas de pura atmosfera como “Epitome 2”, apenas para vislumbrarmos a negritude que nos espera do outro lado mais uma vez. A estrutura rítmica é impecável e bastante variada. A produção é incólume e cada pormenor ganha vida à medida que a escuridão aperta nos cerca de 45 minutos de duração deste registo. Mais uma boa obra a juntar à colecção destes senhores gauleses. [8.5/10] Bruno Farinha

BLUT AUS NORD THE MYSTICAL BEAST OF REBELLION

CONFRONT HATE DIABOLICAL DISGUISE OF MADNESS

DEATH THE SOUND OF PERSEVERANCE

DEBEMUR MORTI

HELL XIS

RELAPSE RECORDS

The Mystical Beast of Rebellion, dos franceses Blut Aus Nord, foi lançado em 2001. Dez anos depois, a banda decidiu relançar este álbum, complementando-o com um segundo disco, que contém três novas faixas. Sendo considerado por muitos um dos melhores álbuns da banda (embora tenha passado algo despercebido e não tenha recebido a mesma atenção mediática que alguns dos seus outros álbuns), The Mystical Beast of Rebellion contém toda uma série de elementos característicos do black metal, sendo o melhor exemplo a parte vocal, em que nos parece que alguém está a ser torturado até à morte, o que faz com que este álbum tenha um som algo fantasmagórico. O que torna o relançamento deste álbum ainda mais interessante é o Disco 2 que o acompanha, com três faixas estilisticamente semelhantes à do Disco 1, mas onde a principal diferença é o ritmo, muitíssimo mais lento e melódico, e a densidade da música, que soa muito mais tensa e emocional. Relançar um álbum é sempre algo arriscado, mas tendo em conta que os Blut Aus Nord conseguiram ser coerentes, mantendo o estilo musical do Disco 1 para o Disco 2, e tendo em conta que conseguiram acrescentar intensidade emocional a um álbum que originalmente já o era, eu diria que este será um dos poucos casos de relançamentos bem sucedidos. [8/10] Vanessa Correia

Confront Hate voltam agora com novo álbum, Diabolical Disguise Of Madness. É pedalada pura! Uma pessoa tem de ter ritmo acelerado para acompanhar este álbum. Um exemplo para Portugal… Vindos de Faro trazem seus instrumentos carregados de munição. No geral, todas as faixas estão boas, mas eu gostava de dar destaque a New Divine Shadow, pela garra e pela maneira como a música foi abraçada. Deixem-me dizer outra coisa… as duas faixas instrumentais incluídas no projecto, assentaram como a cereja em cima do bolo. A única parte que se dá uma pausa, aliás. Todo projecto soa bem, desde os ritmos de bateria à lead guitar. O vocalista deu uma boa vibe e mostrou um bom poder vocal. É engraçado o conceito da última faixa, felling the silence, em que a pouco mais de meio a música silencia até ao final. Corrupted Desire também marcou de certa forma este álbum. Bons arranjos, e especialmente as curtas rajadas de notas em algumas partes que aumentam o ritmo, por parte da guitarra. Isto para não falar da excelente métrica e flow da parte do vocalista. Não há muito que apontar, pois estes Confront Hate foram impecáveis. Espero que continuem a fazer do mesmo (e melhor), espero que oiçam o álbum, que sintam toda as vibrações e groove emitidos por estes farenses que não pouparem em nada, para mostrar como se fazem as coisas. [8.5/10] Davide Gravato

De criadores do Death Metal a pioneiros do Death técnico e progressivo, restam poucos adjectivos para qualificar a importância desta banda no panorama musical. Agora reeditado pela Relapse, o derradeiro álbum dos Death chega até nós com pequenas jóias que agradarão, sobretudo, aos fãs. “The Sound of Persereance” foi remasterizado em edições de dois e três discos, onde está disponível, pela primeira vez material das demos dos temas do álbum, captado entre 1996 e 1998. A capa foi retocada pelo autor original (Travis Smith), há liner-notes do guitarrista Shannon Hamm e fotos nunca publicadas da época das gravações (1998). Trata-se de um álbum que divide algumas opiniões. Apesar de este conjunto de canções possuir características que nos remetem para os três anteriores registos da banda (“Symbolic”, “Individual Thought Patterns” e “Human”) - qualquer um deles “clássicos” do género -, a verdade é que há uma evolução. “Story to Tell”, o single “Spirit Crusher” ou a cover de Judas Priest “Painkiller” são referências incontornáveis. Apesar de semi-desconhecida, a formação que acompanhou Chuck Schuldiner nesta fase da carreira dos Death (com excepção de Steve DiGiogio, que esteve presente até 1998) denota uma impressionante coesão. As demos servem para confirmarmos a instrumentação genial e sem paralelo. Um álbum menos imediato mas essencial. [9/10] José Branco


DORNENREICH FLAMMENTRIEBE PROPHECY PRODUCTIONS

Já é habitual: quando deparo com um grande CD é porque me enganei e não era suposto ouvir. Isto porque um CD pode ser bom mas consegue ser melhor ainda se nos apanhar com a disposição correcta e “Flammentriebe” dos austríacos Dornenreich não podia ter vindo em melhor altura. Podia destacar músicas mas seria totalmente injusto para o restante alinhamento que iria ficar de fora. Cada faixa tem sua própria magia e todas juntas constituem um poderoso álbum, muito espiritual e com algumas das melhores músicas que ouvi em toda a minha vida. Os Dornenreich estiveram quase para cessar actividade no ano de 2006 mas o único elemento que constava do lineup resolveu levar a cabo um renascimento do projecto e foi uma das melhores decisões tomadas a nível musical durante esta década que passou. Se têm dúvidas e/ou não querem dispensar mais do que 5 minutos do vosso tempo para saberem que aquilo que digo é verdade então fiquem a saber que em Dornenreich pode estar a solução para muitos problemas. A música cura e hoje, mais do que nunca, sei isso. [9/10] Joel Costa

FALCONER ARMOD METAL BLADE

Em jeito de conclusão da review acima escrita por mim,

também cheguei aos Falconer por engano e por engano não irei mais ter com eles. Apesar de “Armod” seguir uma linha um pouco diferente do registo habitual da banda, os Falconer conseguiram transportar-me para outro mundo no dia em que ouvi este disco pela primeira vez, pela segunda, terceira, décima e por aí fora. A banda resolveu incorporar as suas origens neste álbum e misturaram o Metal que fazem tão bem com muitos elementos folks tanto a nível musical como lírico. Infelizmente não entendo as letras mas é como se as palavras proferidas em cada música ganhassem forma e as conseguisse perceber não pelo que dizem mas sim por aquilo que são. Incrível como existem bandas que até nos momentos em que fazem uma brincadeira como fizeram em “Armod”, conseguem mostrar a sua seriedade e o seu enorme talento. “Armod” será algo único e daqui para a frente os Falconer irão continuar com aquilo que já nos haviam mostrados. Resta esperar para saber se conseguem superar a genialidade deste último lançamento. [9/10] Joel Costa

FORGOTTEN TOMB UNDER SATURN RETOGRADE AGONIA RECORDS

Após quatro anos de silêncio, os italianos Forgotten Tomb regressam aos discos de originais, com o trabalho mais ambicioso desde a sua estreia há mais de uma década. O som continua a ter por base o Black Metal demente e as constantes linhas melódicas de guitarra que sempre os caracterizaram, mas sem extremismos. Ao sexto álbum poderemos

continuar a tentar encaixar o som dos Forgotten Tomb na mesma linha de Shining, dos primórdios de Katatonia ou Dolorian, certo é que resolveram dificultar-nos a tarefa. “Under Saturn Retrograde” apresenta temas mais pequenos, onde sobressaem as melodias e a orientação rock da maioria das malhas. A masterização nos Finnvox Studios ajuda também a enfatizar a demência black n’roll que transparece neste álbum, com um som cheio e poderoso. Além disso, há um evidente esforço na criação de diferentes dinâmicas em pontos-chave do álbum, que servem para adensar a obscuridade retratada (completamente intocável em termos líricos, para quem aprecia as letras desesperadas e sentidas de Herr Morbid). A nível vocal nota-se também um trabalho mais diversificado. Um apontamento também para a audaciosa e brilhante cover do clássico dos The Stooges “I wanna be your dog”. No fundo, novos ingredientes musicais foram escolhidos a dedo para adensar a niilista receita dos Forgotten Tomb. [7.5/10] José Branco

encontro da obscura imaginação do seu criador. “Aut Vincere Aut Mori” é particularmente bem conseguido, na sua progressão desde algo que se adivinhava completamente acústico até derivar primeiramente num riff thrash metal que se sobrepõe a um drone e por ?m num malé?co sintetizador que, não obstante roçar perigosamente idas foleiradas que tanto me esforcei por apagar da memória, acaba por não ?car desenquadrado do cômputo geral. “Confounded by the Vanquished Coil” e “Passage”, as duas músicas seguintes, completam a fase mais forte e original do álbum, elevando talvez alta demais a fasquia para os restantes, que acabam por não conseguir acompanhar, e nos deixam a almejar algo mais - salvo “Grazioso Drone”, num surpreendente registo dark folk de grande nível. Black metal com forte veia nórdica, composto de uma forma cativante, com óptimos arranjos e uma produção límpida, mais centrada no presente do que no passado, são as principais características de um disco que, apesar de não se predispor a instaurar grandes inovações ao seu estilo, não deixa de ser um trabalho válido, coerente e merecedor de atenção. [6.5/10] Jaime Ferreira

HAERESIARCHS OF DIS IN OBSECRATION OF THE SEVEN DARKS MORIBUND

Começa em grande forma com o tema homónimo este “In Obsecration of the Seven Darks”, terceiro álbum dos Hæresiarchs of Dis, one man band idealizada pelo californiano Cerunnos. O projecto, formado em 2004, opta por uma fórmula de construção do disco deveras e?caz, em que a grande maioria dos temas possuem um interlúdio ambiental que nos leva com sucesso ao

HARM DEMONIC ALLIANCE BATTLEGOD

Depois da sua estreia em 2006 com o álbum “Devil”, os noruegueses Harm regressam com mais um assalto brutal de trash metal neste “Demonic Alliance”. O colectivo, composto por ex-membros de bandas como “Scariot”, “Antares Predator” e “Guardians of


Time”, continua a revelar claras influências dos “Destruction” e dos “Carcass”. O disco é bastante heterogéneo e não revela grandes surpresas, mas consegue trazer para a ribalta alguma força, agressividade e intensidade especialmente nas faixas “Demon”, “Random numbers”, “New brutal vitality” e “Svartsynt”. O conjunto é bastante coerente. “Demonic Alliance” é, de um modo geral, um disco simples mas bastante forte, como um bom disco de Trash Metal deve ser, revelando uns “Harm” com bastante energia e potencial. Falta, no entanto, alguma originalidade ao disco, não permitindo por isso que perdure na memória de quem o ouve. [6/10] Rute Gonçalves

HIDDEN DEAD LAND ENERGY RED STREAM RECORDS

Os norte-americanos Hidden regressam aos registos discográficos depois de 5 anos de pausa com o 3º álbum da sua carreira “Dead Land Energy”. O colectivo, que tem um longo historial de elementos que passaram por bandas de peso como Krieg, Judas Iscariot e Necrophagia continua no seu caminho de Death Metal, embora, no conjunto, falte alguma criatividade e coerência ao disco. De facto, “Dead Land Energy” não consegue convencer quem o ouve, em grande medida porque soa sempre igual da primeira á última faixa e não acrescenta nada de novo. Ainda assim, é possível destacar algumas faixas mais interessantes como é o caso de “Enourmous Hazardous”, “Humanjunk”, “No Purpose” e “Starboard Pandemic”. [5/10] Rute Gonçalves

HORSEBACK GORGON TONGUE RELAPSE RECORDS

Esta reedição, que chega via Relapse e recebe o nome de Gorgon Tongue, é um excelente ponto de partida para se conhecer o prolífico músico por detrás do nome Horseback. Este duplo disco combina Impale Golden Horn com o último (e até então limitado a cem cópias em cassete) trabalho de Horseback: Forbidden Planet. E é nestas duas caras presentes no mesmo disco, através do contrataste dentro da sua própria criação, que começamos a compreender a complexidade de Jens Miller. Baterista na banda pop Un Deux Trois, baterista na banda de noise-rock In the year of the Pig, guitarrista nos country Mount Moriah, entre outros projectos mais obscuros, Miller ainda arranja tempo para os seus próprios projectos, sendo os dois principais, Horseback e o homónimo. Esta rotação constante de estilos talvez seja o que torna Horseback tão interessante. È que, ao contrário de muitos projectos de drone, Miller consegue reciclar-se e progredir noutras direcções, nunca sendo obrigado a ter de fazer malabarismos com o que já habituou o seu ouvinte. Impale Golden Horn, o primeiro disco, já foi muito bem recebido pela crítica quando lançado em 2007, e é uma densa nuvem onírica, um drone lento, que por vezes invoca bandas como Low, sendo o ponto alto do disco, a maravilhosa faixa Blood Fountain. O segundo disco, e como referi, o último trabalho de Horseback, é Forbidden Planet. E eis que estamos perante o lado negro de Miller. Forbidden Planet é claustrofóbico, por

vezes abrasivo, arrastando consigo uma aura negra. O uso de vozes num registo mais doom metal, sobre um leitmotif mais condensado, mais rápido, mas igualmente catártico, torna Forbidden Planet um trabalho fenomenal para quem gosta de bandas como Robedoor ou Mouthus. Jens Miller, troca as voltas a tudo e todos, mostrando que o seu reportório estilístico é interminável. Mas não pensem que, como muitos músicos versáteis, Miller não sabe ser carne nem peixe. Se gostam de drone, este trabalho mostrar-vos-á como uma pessoa pode ser, e bem, muitas outras. [9.5/10] João Lemos

HIDDEN DEAD LAND ENERGY RED STREAM RECORDS

Do nosso país vizinho, eis que nos chega Hrizg -uma one man band de Black Metal-, e o seu segundo full-length. Anthems to Decrepitude é o nome do trabalho de onze músicas, e o seu conteúdo é um Black Metal á primeira vista bastante directo e sem rodeios, mas que com o progredir do álbum, acaba por revelar umas surpresas algo interessantes. O estofo principal do álbum é um típico Black Metal de mid-tempo, com uns toques crus e ambiente gélido e desolador q.b., contudo, Hrizg (o pseudónimo do homem por detrás do projecto homónimo) consegue apimentar a coisa, introduzindo elementos que quebram a monotomia, nomeadamente e maioritariamente elementos de Black Metal Depressivo, tal como músicas (ou trechos de músicas) que caem para slow-tempo, os riffs e percussão abrandam para um ritmo repetitivo quase que ritualístico, e as

vocais elevam o seu timbre, tornando-se em berros e uivos melancólicos, por vezes quase que chorados, particularmente em “Into the Caves of the Earth”, a oitava faixa. Contudo, estas não são as únicas variações a nível musical presentes no álbum, visto também serem detectados alguns sintetizadores aqui e ali, e até algumas instâncias de vocais e cânticos Doom-esquos. Porém, um dos elementos talvez mais predominantes será mesmo a constante mudança de tempo, passando por slow-tempo, mid-tempo, e fast-tempo, por vezes até mesmo numa só musica, trazendo momentos de lentidão e atmosfera misantrópica que podem muito bem ser seguidos de de riffs frânticos que puxam ao headbang. Digna de menção é também a 9ª faixa, de nome “Invierno”, que apesar de pouco mais ser que um minuto e quarenta segundos de guitarra acústica sobreposta a um som ambiental de chuva e corvos a grasnar, é um mais-valia como adição para a variedade de atmosferas emocionais e musicais presentes neste trabalho. Resumindo, é um disco bastante agradável, e com menção honrosa no que toca á variedade musical. Nos dias que correm, em que existem bandas de Black Metal ao pontapé que fazem um album sobre apenas um ou dois riffs, variedade é sempre bem-vinda. [7/10] David Horta

IN FLAMES SOUNDS OF A PLAYGROUND FADING CENTURY MEDIA

O single “Deliver Us” já indiciava a direcção do décimo álbum. “Sounds of a Playground Fading” é a primeira gravação dos suecos


In Flames depois da saída do guitarrista fundador Jesper Strömblad, mas o rumo da banda continua dentro dos carris. Para o bem e o para o mal - as opiniões dividem-se. Quem tem acompanhado a última década dos pioneiros do Death Metal melódico, não se desiludirá com o novo trabalho, pois reúne os ingredientes a que nos têm habituado: guitarras à la Maiden, balanço industrial da secção rítmica, refrões catchy e alguns momentos mais calmos (emo?) para contrastar. A fórmula repete-se, sucessivamente, de tal forma que se torna difícil escolher qual o melhor single para representar o álbum. A evolução desde os primeiros álbuns é notória e há quem acuse os In Flames de terem americanizado em demasia a sua sonoridade. Há quem continue a não gostar de um wall of sound onde hoje sobressaem os sintetizadores, há quem não aprecie a maior variedade vocal hoje apresentada por Anders Friden. Acusam-nos de caírem no mainstream. Contudo, para muitos, o resultado é único. Para quem não aprecia a repetição, chamo a atenção para o último terço do álbum, onde sobressai um grande tema “A New Dawn”. [7.5/10] José Branco

INDIAN GUILTLESS RELAPSE RECORDS

Os Indian tinham prometido que este novo trabalho, o primeiro na Relapse, seria algo completamente diferente. Para tal recrutaram Will Lindsay (Wolves in the Throne Room) para a segunda guitarra e Sean Patton para o instrumento que definiram como “noise”. E basta ouvir as duas

primeiras faixas para verificarmos que os Indian cresceram e muito, conseguindo uma perfeita justaposição de doom e drone. No Grace, a primeira faixa, é dos melhores cartões de visita que se pode apresentar: vocalização desesperada, bateria trucidante, guitarras behemóticas, tudo num ritmo rápido, ofegante, com uma estranha tendência para decrescer à medida que somos hipnotizados pelo som. Quando damos por nós, a faixa desvanece completamente num drone de minutos levando-nos ao coração da estética de desespero e miséria que será todo este trabalho. Segue-se The Fate Before Fate, com um certo feeling de black metal em termos temáticos e vocais – ergo as influências de Will Lindsay – mas dispensando quaisquer riffs complexos, tendo sempre o cuidado de recriar um ambiente através das camadas de guitarra. Depois de um início tão forte, o disco torna-se lento, mais denso e menos acessível, mas sempre sem nunca ter qualquer notória quebra de qualidade. Os Indian mostram ser uma banda extremamente abrasiva e com uma paixão por drásticas mudanças rítmicas e as próximas três faixas são um lento trotar por um pântano psicadélico onde somos, de quando em vez, abanados com um súbita cavalgada. Por fim, depois de um pequeno preâmbulo – em forma da faixa Supplicants, uma curta instrumental acústica – o disco termina com Benality, 9 minutos de lambidelas de guitarra capazes de derreter o que ainda restava do nosso cérebro. Guiltless consegue ser melhores trabalhos do ano – pelo menos dos que passaram pelos meus ouvidos – e os Indian uma excelente surpresa. Isto não é música para dançar, para abanar as gadelhas, nem sequer para ouvir continuamente, isto é a banda sonora dum pesa-

delo, ou os braços que nos embalam no sono de certas substâncias. [9/10] João Lemos

INFESTUS EX|IST DEBEMUR MORTI

Com Ex-Ist, cujo lançamento ocorre três anos depois de Chroniken Des Ablebens, os alemães Infestus deram um enorme salto criativo. A faixa de abertura, Akoasma, parece ter o seu quê de atmosférica — até certo ponto; justo quando estamos a ficar envolvidos na melodia, eis que surge a voz do vocalista e a música torna-se mais densa. E é aqui que a viagem começa. Sim, porque Ex-Ist é claramente uma viagem: ao longo das faixas, a música vai-se tornando mais e mais densa, quer em conteúdo, quer em musicalidade. No fundo, partindo de Akoasma até chegarmos a Descend Direction Void (a faixa mais envolvente e forte do álbum), é como se partíssemos de um ponto vazio até chegarmos a um outro ponto onde somos completamente preenchidos pela música. Se quisermos estabelecer um paralelismo entre isto e o título do álbum, quase que podemos dizer que no início do álbum, a banda está a reunir elementos para a sua criação e que as faixas que se seguem são o seu crescimento, até chegarmos à última, que é como que o seu «nascimento final». Talvez por isso este álbum soe, desde o início ao fim, como um projecto muito pessoal, e embora os primeiros segundos do álbum não o façam prever, como que nos transporta para uma outra dimensão; uma dimensão onde a música como que se infiltra em nós, arrastando-nos para

o estado de espírito que a música pretende retratar — isto é raro e muito difícil de conseguir, pelo que deve ser sublinhado. O único defeito a apontar a Ex-Ist é que sendo tão pessoal e contendo tantos apontamentos atmosféricos (embora distribuídos pontualmente por todo o álbum) não há assim grandes elementos técnicos ou solos espectaculares a destacar. Ainda assim, pela viagem emocional que proporciona, merece sem dúvida lugar de destaque na playlist de qualquer fã de black metal. [9/10] Vanessa Correia

KAMERA OBSCUR BILDFÄNGER GRAU COLD DIMENSIONS

E agora para algo diferente. Fundados por Konstantin König (outrora Sindar, elemento proeminente da banda de Black Metal Lunar Aurora), os Kamera Obskur praticam uma sonoridade Avant garde, fortemente centrada na criação de atmosferas obscuras. Na génese deste grupo esteve a intenção de criar música para lá do Metal. E tal objectivo é cumprido em absoluto, efectivamente. “Bildfänger” está para lá maioria da música que qualquer um possa conhecer. Talvez por essa razão, a produção deste álbum tenha demorado cerca de dois anos a ser concluída. Ao longo dos temas que compõe o álbum de estreia desta banda alemã somos lentamente conduzidos por histórias de horror e surrealismo. Na difícil arte da comparação, atrevemo-nos a traçar alguns paralelismos entre os Kamera Obskur com sonoridades assentes num rock bastante atmosférico, com pormenores progressivos e de electrónica.


As vocalizações consistem em declamações em alemão – que podem incomodar os menos habituados. Apenas como referência, podemos citar os míticos In the Woods… ou Lacrimosa. Denso, criativo e original, este é um álbum intrigante, exigente para com o ouvinte, por vezes ao ponto do desconforto, devido às atmosferas sombrias nele apresentadas. Contudo, dificilmente essa dedicação não será recompensada. Em suma, “Bildfänger” é uma excelente estreia, que esperamos venha a sucessores, com argumentos de idêntica qualidade intemporal. [7/10] José Branco

álogos relevantes ao tema e ao conceito do trabalho. Vê-se uma obsessão por falar de fezes durante as 13 faixas. Volta e meia vai parar a fezes, defecar, etc. Por um lado dá um toque de entretinimento, por outro é um pouco estúpido… mas no fundo não deixa de ter o seu lado cómico. No geral, não é algo de louvar, mas também não é um CD para se pôr de lado e ignorar. Pelo menos a experiência cómica e os arranjos são alguns dos motivos para ouvir este álbum. [6.5/10] Davide Gravato

MORTUALIA MORTUALIA MORIBUND RECORDS

MONIGO COPROMETIDOS CON LA CAUSA XTREEM MUSIC

Moñigo são uma banda espanhola de Death Metal à moda antiga. Bruto e com alguma versatilidade. A parte instrumental é bem pesada, sempre a devastar os ouvidos com os poderosos rifs e batidas completamente alucinadas. Um dos pontos negativos mais relevantes deste álbum é a repetição sonora a nível de lead guitar e vocais. Por vezes acaba por cansar as notas nas cordas, que por vezes não parecem limpas. A massificação da métrica regular do vocalista, também não é o melhor deste trabalho dos Moñigo. Na bateria a história é outra. Os ritmos e combos são soberbos… nota-se bastante técnica. Na faixa 7 (Coprovoyeur), ouvem-se umas strings clássicas que deram um toque engraçado ao som. O que também foi bem consigo ao longo do álbum, foram os arranjos técnicos com trechos de di-

Depressive Black Metal. Outras vezes apelidado de DSBM (Depressive Suicidal Black Metal) ou até apenas Suicidal Black Metal, é um sub-género que usualmente ou se adora ou se detesta, ou que até se questione a legitimidade como sub-género genuíno.Seja como seja, a questão é que Mortualia é-o em toda a sua completa essência. Da Finlândia chega-nos Mortualia, o projecto a solo de Shatraug, provavelmente mais conhecido pelo seu trabalho em bandas mais prolíferas como Horna, Sargeist, ou até Behexen, apresenta-nos aqui o seu primeiro full-length, de 2007, também intitulado Mortualia. O álbum apesar de ser constituído por apenas 6 trilhas, uma delas de bónus, corre durante pouco mais que uma hora, sendo mais de metade das músicas para cima de catorze minutos de duração. A musicalidade é tudo aquilo que se poderia esperar de um trabalho de DSBM ferranho; músicas de slow-tempo, com guitarras

arrastadas e percussão algo abafada, estas duas sendo durante grande parte do tempo, bastante consistentes na rua rítmica, criando como que uma atmosfera profunda e quiçá como que ritualística, devido ao factor de repetição. As vozes, como seria de esperar, são agudas e gritadas, rasgando com desespero e angústia a atmosfera mais melancólica por vezes criada com riffs mais melódicos. Por vezes os uivos tornam-se tão estridentes que até lembram um pouco os da banda Aaskereia, (in)famamente conhecida pelo seu vocalista que berra e uiva de maneira bastante insana. Contudo em grande parte do álbum, as vozes são deixadas de parte, havendo imenso tempo para o instrumental criar a atmosfera pretendida de desolação e solidão, os cânticos de Shautrag fazendo apenas aparições ocasionais, e usualmente condensadas em certa parte da música. Um grande factor deste álbum é a atrás referida repetição. Grande parte dos ritmos e riffs, assim como melodias são “reciclados”, por assim dizer, ao longo das várias músicas do álbum, e apesar do facto de isto ser uma técnica bastante favorecida pelas bandas deste género como modo de criar atmosfera e ambiente tanto musical como emocional, tal repetição poderá alienar alguns ouvintes, particularmente aqueles que sejam fãs menos aguerridos deste sub-género, tornando esta obra como que mais dirigida aos que já mantêm este género de música como preferência, o que discutivelmente poderia ser um dos pontos fracos do álbum. Preferências á parte, o que tal monotomia por vezes cria é como que o mergimento das diferentes trilhas, fazendo parecer que todas as músicas são uma só, tornando bastante difícil realizar distinção en-

tre as mesmas, o que mais uma vez, discutivelmente poderá ser uma desvantagem. Resumidamente, isto foi o primeiro trabalho de um projecto a solo de um músico de estatuto de certa forma estabelecido, e apesar de ser um trabalho bastante sólido, notam-se algumas arestas a limar. Deverá certamente agradar a fãs do género,e quem sabe, com sorte, converter alguns. [6.5/10] David Horta

NOIDZ O PASTOR MATCHBOX PRODUÇÕES

E se alguém pegasse n’ “A Cantiga do Pastor” dos Madredeus, a misturasse com elementos electrónicos e por fim, lhe juntasse umas guitarras bem pesadas? Ou até pegar em gaitas de foles, misturá-las com grooves trance e ainda lhes juntarem elementos mais familiares a ouvidos metaleiros? Parecem ideias rebuscadas, não? Mas foi exactamente isso que os Portugueses Noidz fizeram! Esta banda, que já anda no meio há alguns anos, presenteia o público português com ideias novas, quebrando várias barreiras artísticas e musicais, fundindo que, aparentemente não se pode fundir. Mas eles fizeram-no e bem! A faixa “Songs of Earth”, a qual já conheço há alguns anos, provoca-me sensações as quais não sei descrever. Digamos que é do génereo de uma “bipolaridade musical” que poucas bandas/músicas me provocam. Quando ouço Noidz, não sei se hei-de ir para o Boom Festival ou ir para o meio de uma pista, fazer um headbanging e andar numa roda de mosh. Sem dúvida, os Noidz trazem algo de diferente no


panorama musical nacional e quem procura coisas diferentes e novas, sem dúvida alguma não se vai arrepender de os ouvir, onde quer que seja! Seja numa pista de dança, seja num bar escurecido pelas suas paredes de pedra e pelos trajes dos que o frequentam. [8/10] Narciso Antunes

de humor nas guitarras, e é fluidamente que a música decorre, sem dar para notar a mudança de ritmo. Props para os guitarristas! Notam-se várias influências de outros tipos de Metal, e até de Old Rock em algumas faixas, dando por vezes um toque clássico a certos sons. Reparem também nas vozes clérigas, e como disse antes, contem também com a diversidade e mudanças repentinas de estilo. Oiçam e props para os Panychida. [9/10] Davide Gravato

quarteto. Destaque também para a psicadélica e mais lenta “The Undertow” que vai beber muito à fonte do Sludge e ao momento inicial de bateria de “Painting Parade” que é um dos temas mais fortes da dezena que aqui se apresenta. De resto, mais nada a dizer a não ser ouvir, sentir o espírito até bastante roqueiro que aqui reside e porque não…. abanar a cabeça um bocadinho. [8.5/10] Bruno Farinha

PANYCHIDA MOON, FOREST, BLINDING SNOW FOLTER RECORDS

Os checos Panychida lançaram o álbum “Moon, forest, bliding snow” em 2010, intitulando-se como Metal Pagão. Eu acho de loucos ouvir este álbum. Como é que se pode passar de um ritmo enormíssimo, para música celta? Da maneira que está disposto, é um break total. Por outro lado é de louvar as mudanças, pois a diversidade só agrega. Posso dizer-vos já, que é um dos motivos para ouvir o álbum, a variedade. É incrivelmente bruto, tendo partes mais suaves e world cultural no meio. Estes Panychida devem tocar pelo menos a 170 bpms ao pequeno-almoço. É pelo menos algo que não se pode ignorar ao longo das faixas, a velocidade. Props para o baterista! Quanto às vozes, fiquei pasmado, apesar de não ser o maior apreciador de vozes agudas, que prevalecem nos sons, estes checos conseguiram dar um toque menos irritante, e sobrepor algumas vocals graves para equilibrar. Props para o vocalista! Os guitarristas Sinneral e Honza fizeram também um acompanhamento crucial para a boa construção do projecto. As estruturas são incrivelmente variadas e versáteis. São notáveis as passagens

SARKOM EXIT TERRA RED FANG MURDER THE MOUNTAINS RELAPSE RECORDS

É invejável a energia que transmitem alguns álbuns desde a primeira audição pela quantidade de riffs pegajosos que insistem em não querer sair da cabeça por algum tempo e começam a fazer moça se não limparmos a consciência com um pouco mais do mesmo veneno. Digamos que isso acontece neste “Murder the Mountains”, segundo registo de longa-duração dos norte-americanos Red Fang e que é mais uma boa aposta na área do Stoner da Relapse Records, onde salta logo à memória outros nomes no elenco como High on Fire ou Howl. O início de “Malverde”, o primeiro tema deste trabalho é simplesmente mágico e dá o pontapé de partida da melhor maneira para um grande trabalho de Groove por parte linha de guitarras, cortesia da dupla constituída por Maurice Bryan Giles e David Sullivan que também participam na parte vocal. “Wires”, “Human Herd” e “Dirt Wizard” são outras malhas para desfrutar da melhor maneira o som deste

FOLTER RECORDS

Os noruegueses Sarkom nasceram em 2002 e lançaram até ao momento, dois álbuns, uma Demo e dois EPs. A banda revela um estilo de Black Metal muito próprio, marcado instrumental muito interessante, que apesar da agressividade que contém, tem também uma forte componente melódica. O seu último trabalho, “Exit Terra” é composto por apenas duas faixas: “Exit Terra” e “Hallucinating the Superior Psychologist”, que, com uma duração aproximada de 10 minutos, conseguem captar a atenção de quem ouve, abrindo a apetite para mais. De facto a sensação com que se fica depois de ouvir “Exit Terra” é que duas faixas não são, de forma alguma, suficientes. Juntando membros de bandas como Phantheon I, Trollfest, Koldbran ou 1349, os Sarkom não foram ainda devidamente reconhecidos no panorama Black Metal, mas demonstram ter potencial suficiente para o serem, muito em breve. Vale a pena ouvir. [8/10] Rute Gonçalves

SEVEN WITCHES CALL UPON THE WICKED MASSACRE RECORDS

Quatro anos depois do lançamento de “Deadly Sins”, os norte-americanos Seven Witches regressam agora com o 8º álbum da sua já longa carreira. Fundados em 1998 pelo guitarrista Jack Frost e tendo já passado por uma série de diferentes line-ups ao longo dos anos, a banda regressa em força com James Rivera na voz, Frost na guitarra, Mike Lepond no Baixo e Tazz Maraz na bateria. “Call upon the wicked” é um disco de puro Heavy Metal, repleto de guitarras rápidas e riffs cheios de Groove em brilhante combinação com as letras épicas e a poderosa performance vocal de Rivera. A banda revela toda a sua força em temas como “Field of fire”, “Lilith”, “End of days”, “Harlot of Troy”, “Mind Game” e “Eyes of Fame” (muito ao jeito de uns “Judas Priest”). O disco inclui também “White Room”, uma versão dos “Cream”. De uma maneira geral, “Call Upon The Wicked” é um registo essencial para os apreciadores de Heavy Metal e em especial, para os fãs dos Seven Witches, que mais uma vez não deixam os seus créditos por mãos alheias e não desiludem. Vale a pena ouvir. [8/10] Rute Gonçalves

STORMWARRIOR HEATHEN WARRIOR MASSACRE RECORDS


Os alemães “Stormwarrior” regressam em 2011 com o quinto álbum da sua carreira: “Heathen Warrior”. A banda nascida em 1999, sob a liderança de Lars Ramcke, combina verdadeiros hinos de Heavy Metal com os conceitos e imagens ligados á mitologia nórdica e a sua inspiração está fortemente ligada ao Heavy Metal dos anos 80 e a bandas como “Running Wild” e “Helloween”. “Heathen Warrior” começa com um curto tema instrumental “…Og Hammeren Heaves Til Slag…” para logo de seguida, abrir caminho para várias faixas fortes e enérgicas, com especial destaque para “The Ride of Asgard”, “Heirs to the fighte”, “Bloode to bloode”, “Fyre & Ice (uma das minhas preferidas do álbum), “Ravenheart” e “The Valkyries Call”. O disco pode não ser uma obra-prima absoluta, nem primar pela originalidade, mas mantém os Stormwarrior no seu registo habitual e sempre fiéis ao estilo que os caracteriza, dando como sempre grande protagonismo ao Heavy Metal clássico. Perfeito para os fãs deste estilo. [7/10] Rute Gonçalves

THE SIGN OF THE SOUTHERN CROSS I CARRY THE FIRE SEASON OF MIST

Nascidos em 2005, na Carolina do Norte, os “The Sign of the southern cross” são uma banda de Metal, fortemente inspirada no chamado “Southern Rock” e com claras influências de bandas como Corrosion of Conformity, Pantera, Down, Thin Lizzy, Lynird Skynird ou Led Zeppelin. O seu mais recente trabalho “I carry the fire” é um EP com apenas

três faixas, mas que emana uma força e uma convicção que são absolutamente irresistíveis. O primeiro tema, com o mesmo título do EP, consegue arrebatar logo nos primeiros segundos. É forte, pujante, eléctrico. “If you find yourself looking back”, o segundo tema do alinhamento, surpreende pelo brilhantismo das guitarras, cheias de poder e muito “feeling”, não esquecendo a fantástica performance vocal de Seth Uldrick. Simples mas sublime. “Doomswagger” regressa ao metal frenético e fecha o EP com chave de ouro. Depois de “Of mountains and Moonshine”, o seu primeiro registo discográfico, os “The Sign of the southern cross” regressam com toda a energia e em grande estilo. Excelente trabalho! [9/10] Rute Gonçalves

URBAN TALES LONELINESS STILL IS THE FRIEND COMPACT RECORDS

“Loneliness Still Is The Friend” dos portugueses Urban Tales é um álbum que apresenta diversidade de pormenores e que ganha dimensão com a extraordinária profundidade de voz de Marcos César. É impossível ficar indiferente à atmosfera criada por esta voz. A comparação com nomes eternos do rock gótico é inevitável e a banda não sai a perder. O álbum possui sem dúvida muita personalidade e intimismo, apresentando ainda surpresas como o instrumental que apoia o poema declamado por Vítor de Sousa. [9/10] Mónia Camacho

URGEHAL DEATH IS COMPLETE FOLTER RECORDS

Com mais de dez anos de carreira, e seis full-lengths debaixo do cinto, os Urgehal dispensam de quaisquer apresentações. Sempre fiéis ao seu próprio sabor de Black n’ Roll duro, puro, e cru, este esquadrão norueguês, um ano após o seu último álbum de nome Ikonoklast, presenteia-nos com um pequeno EP de apenas duas músicas e 7:15 minutos de duração intitulado Death is Complete. Não descurando do seu estilo habitual, estas duas músicas contudo, pouco passam disso. Fãs de Urgehal não descobrirão nada de novo, e no que toca a desconhecedores, provavelmente ficariam com melhor impressão da banda se decidissem ficar-se por um dos álbuns anteriores, sendo ele um Ikonoklast ou até um Goatcraft Torment, álbuns esses que, estranhamente, parecem até ter uma produção sonora um pouco melhor que a de este EP. “Death is Complete” e “Beyond the Nightmare”, as duas faixas deste trabalho, apesar de serem sólidas, parecem carecer um pouco da inspiração e quiçá substância e groove presente em grande parte no longo repertório da banda. Nada de mau, mas também nada de indispensável ou fantástico. [5.5/10] David Horta

UTOPIAN.HOPE.DYSTOPIAN.NIHILISM PACT WITH SOLITUDE AUTOR

Nas distâncias que nos isolam existem ecos em comum, ecos preenchidos que nos aproximam, ecos musicais de além-mar. É nesse isolamento que fervilham bandas ansiosas por existir, por serem e darem-se ao público amante do género. O cenário começa aos poucos a ressuscitar de uma quase extinção sonora, de um vazio em surdina, apenas quebrado por quem já existia e se mantinha firme nos raros palcos. Estes últimos anos foram fulcrais na solidificação sonora de diversos projectos, e consolidaram-se grandes sons nos mais diversos estilos. É neste panorama que surge um dos projectos mais caricatos da Madeira - “Utopian. Hope.Dystopian.Nihilism” projecto a solo que vê a “luz do dia” através da mente de Élvio Rodrigues, músico multi-instrumentista, que apresenta a público “Pack With Solitude”, álbum de estreia do seu projecto. O trabalho divide-se em 4 longas faixas, conceptualmente desdobradas em diversos momentos, como se fossem sub-capítulos do tema em si. Histórias dentro de histórias, que marcam e distinguem atmosferas diferentes, sentimentos distintos que se interligam e recuperam constantemente numa subtil arte de modulação. Assente essencialmente no trabalho das guitarras e do piano, as sonoridade assumem-se complexas e variadas, onde momentos mais calmos são quebrados por jorros fortes e gélidos, onde guturais crus surgem e desaparecem na jornada espiritual de cada melodia. À diversidade sonora junta-se uma riqueza rítmica e estrutural, que apesar da qualidade caseira da gravação não deixa de ser um agradável registo musical, e esperemos: o primeiro de muitos. [7/10] Catarina Silva


WINTERUS IN CARBON MYSTICISM LIFEFORCE RECORDS

Vindos de Michigan, EUA, a banda de usbm Winterus (formados em 2009, sob o nome The Ancient) apresentam aqui o seu primeiro full-length de nome “In Carbon Mysticism.” Almas mais puristas geralmente dirão que na América é impossível fazer bom Black Metal, e referências aqui a alguns projectos proeminentes de usbm tal como Leviathan ou Judas Iscariot seriam pertinentes para desacreditar tal afirmação, contudo, Winterus distancia-se um

pouco dos mesmos, envendrando por um caminho mais atmosférico, bebendo claramente influências da fonte do Post-Rock e até do género bastante europeu por vezes apelidado de “Blackgaze”, a mistura de Black Metal e Shoegaze, recentemente impulsionado e popularizado por bandas tal como Alcest e Amoeseurs, deste modo a que uma comparação mais acertada seria uma em relação a Wolves in the Throne Room, de Washington. A própria banda os enumera como uma das suas principais influências, outras entre elas sendo Enslaved, Immortal, e até In Flames. In Carbon Mysticism é um álbum acima de tudo coeso e orgânico. Não seguindo muito as tendências deste tipo de Black Metal, as músicas quase todas

fluctuam entre aproximadamente três e quatro minutos de duração, sendo nove ao todo, três dessas gravadas ao vivo. Seria de pensar que tal curta duração das músicas fosse prejudicial ao aspecto atmosférico da musicalidade, contudo cada música tem semelhanças suficientes com a anterior para que se interlacem de uma forma algo orgânica, sem contudo tornar o álbum maçador ou repetitivo. É dado bastante espaço ao instrumental para respirar e criar atmosfera, sem se encontrar sufocado sob as vocalizações, que ao invés de se quererem sobrepor, parecem mergir-se na massa de som. Riffs orelhudos de Black Metal cru encontram-se de mão dada com guitarradas mais arrastadas reminiscentes de Post-Rock ao

longo de grande parte das músicas, criando aqui uma dualidade bastante interessante, cuja profundidade apenas se adensa ao longo do Álbum. As faixas Eternal Ghost e No Rest são seguramente highlights no álbum. Recomendado a qualquer fã de Black Metal Melódico e/ ou Atmosférico. [7.5/10] David Horta


À

chegada ao Musicbox já ressoava nas paredes o poder de Löbo com o seu ritmo lento e hipnótico com uma audiência composta a acompanhar a sórdida batida deste coléctivo português. Ao vivo, eles conseguem prender a audiência através do seu som que vai pegar muito ao Sludge, ao Doom e também ao Post-rock mas com bastante originalidade misturam influências e criam algo para ser apreciado decididamente ao vivo pela força que a musica ganha e pela dedicação que os elementos demonstram em palco. Tanto o tema mais recente “Nöite” como as peças retiradas de “Älma” abriram o apetite para o prato principal, ementa que surpreendeu muita gente e conquistou sem dúvida a plateia. Estou a falar dos alemães Long Distance Calling que abriram com o tema inicial do novo álbum homónimo, denominado “Into the Black Wide Open” e começou logo a espalhar a magia com que o rock instrumental deste brilhante grupo encanta o público. O novo álbum foi tocado quase na íntegra faltando apenas os dois últimos temas deste e todas elas ao vivo fincionam extremamente bem com destaque para a mais intensa e rapida “Arecibo” e para o trabalho do baixista Jan Hoffman em

“Timebends”. Do resto, era literalmente fechar os olhos e deixar a paisagem sonora fluir para abrir de vez em quando e ver todos os músicos imersos nela enquanto iam soltando as notas do palco com uma cara extremamente sorridente pela forma como o povo português os acolheram. Sempre comunicativos e atentos ao que se passava cá em baixo, os germânicos foram buscar ainda ao baú de trabalhos antigos temas como “Aurora”, “I  Know you, Stanley Milgram” e “Metulsky Curse Revisited”. No final, houve tempo para um encore em que mais um sorriso sincero apareceu nos lábios da banda, quando alguém da audiência gritou “Black Paper Planes” que em retorno o grupo dedicou esse tema,  encerrando o excelente espectáculo proporcionado e  dando asas ao fantástico talento do baterista Janosch Rathmer. Texto: Bruno Farinha Fotografia: Liliana Quadrado


E

stava prometida uma boa festa para os amantes de sonoridades mais viradas para o core em Setubal, com um cartaz recheado de bandas da “casa” e dos escoceses Bleed from Within. Calhou aos Blame the Skies abrirem as hostes de forma competente e com bastante garra fazendo abanar algumas cabeças dos presentes. Esta banda tem uma característica particular que refresca um pouco a sonoridade do estilo, a dualidade de uma voz mais aguda e de outra mais grave do par de vocalistas, Pedro e Alex, ajudados pelo baterista Diogo que também empresta a sua voz. Seguiram-se os Before the Torn a espalhar um som com mais Groove, muita ginástica de palco e de maneira descontraída a conseguiram providenciar um bailarico entre a audiência, apoiando muito o seu set no seu último registo “The

Serpent Smile”, mas com algumas viagens a “Burying Saints”. Os Hills Have Eyes encerraram a comitiva setubalense da melhor maneira atacando os temas do seu longa duração de estreia, “Black Book”, acompanhados por alguns momentos de stage diving, com uma linha de guitarras bem evidente e alguma comunicação com o público. Para acabar da melhor forma a noite, os cabeças de cartaz Bleed from Within entraram em palco….e espalharem o caos. O seu deathcore musculado com um Groove forte e intenso fez tremer as fundações do Capricho Setubalense com a ajuda dos presentes que batiam o pé fortemente ao ritmo da banda escocesa. Temas como “The Novalist” ou “Servants of Divinity” começaram a desencadear uma reacção explosiva com muito suor e energia envolvida, com a banda a não dar des-

canso qualquer. Pena a curta duração da actuação por causa de algo bem caricato, pois ao abandonarem o palco a audiência mostrou-se bem apática e depois de os aplausos fez-se silencio. A banda ainda veio meio despercebida atrás dos apetrechos de palco chamar a atenção à fila da frente para fazerem barulho, mas como tal não aconteceu, não se fez encore e acabou tudo ali…..é pena. Texto: Bruno Farinha Fotografia: Liliana Quadrado


N

Q

uem adora música ao vivo e gosta de a ver ganhar vida em palco às vezes apanha desilusões é verdade, mas por vezes é recompensado com bons momentos que perduram pelas emoções que demonstram. Pertencendo ao segundo grupo esta noite acabou por ser utópica, já passo a explicar porquê. Antes que tudo apontar a surpresa que foi ouvir os Gordo, banda espanhola oriunda de Badajoz que pratica uma sonoridade bastante rockeira com tendências Stoner e que perante a sua atitude descontraída conquistou adeptos na audiência que ainda se encontrava um pouco despida para o que viria ser depois, mas acolhedora e a seguir o que se passava em palco com atenção. Seguiram-se os The Spiteful, grupo leiriense, que já nos habituou a actuações coesas e

o Musicbox, calhou aos Before the Torn começarem o concerto, integrado na “2-way co-headline tour”, onde a ordem das duas bandas presentes em cartaz ia rodando pelos vários concertos ao longo do país. Com uma plateia bem composta, a banda oriunda de Setubal, iniciou as hostes com “Cosmopolitan Deathwish” arrancando logo uma boa reacção do público, onde se notava que estavam ali fans do colectivo que cantavam e apoiavam os elementos. A banda esteve bastante possante até com momentos de pura ginástica por parte do baixista Bruno Matos. Guilherme Henriques gritou com alma num set mais apostado em apresentar o último trabalho do conjunto setubalense com “Last Night’s Nightmare”, “The Spirits” e “Remember September” a mostrarem-se bons temas para ser tocados ao vivo. Houve umas visitas a “Burying Saints”, uma delas cantada por um elemento do público e ainda um convite a Vasco Ramos (Vocalista dos More than a Thousand) para cantar “My Pray” em palco, tema onde ele participa no último registo, mas infelizmente não foi possível a sua participação. Seguiram-se os We are the Damned com uma presença em palco mais directa e agressiva tal como a música que tocam. “Holy Beast” foi o novo trabalho no qual se baseou a sua actuação, desfilando temas como “Serpent”, “Vengeance Havoc” ou “O Devorador dos mortos”. Destaque para Ricardo Correia, guitarrista da banda que agora tomouTodos desfrutavam ao comando da voz que repreque passaram o seu tempo de palco público. másenta o conjunto Lisboeta depois da ouviam saída datemas fantástica a demonstrar o trabalho”Persuasion ximo enquanto se do Loureiro, pela suaálbum prestação e frenética dedicada Through Persistence” Sofia que consiste novo homónimo do grupo da ao microfóne. “Thrill Kill”Off”, do primeiro num híbrido de thrashapenas com muito Moita, comoto“Face “In Frontdisco of “The um Shapes toEyes”, com” “Unbreakable” não podia ter faltado e foi groove e que proporcionou beloof Hell your ou “Scars umpasso pontoa alto Boa com noiteodevocalista música feita em bailarico. E agora sim eu ex- do concerto. of Attittude” Hugo território Luso. // Texto: Bruno Farinha plicar utopia do que viria a seguir, é sempre a comunicar e a comentar o que na maior parte dos concertos há um pouco a barreira banda/publico mesmo que haja bastante comunicação entre as duas partes. Essa barreira simplesmente aqui não existiu, muito pelo facto de os Switchtense estarem a tocar para o seu público e em sua “casa” é verdade, mas a simbiose que se vislumbrou naquela hora de concerto não se muitas vezes, mesmo com as condições referidas. Stage Diving ate não poder mais, mosh pit do duro, o concerto todo com a cara dos presentes estampada de alegria, tanto banda como

que se passava à sua frente. Houve tempo para ouvir temas do “Confrontation of Souls” como “Second Life” ou a espectacular “Infected Blood” que início ao fim do concerto. Cantou-se também parabens ao guitarrista Neto que fazia anos. Foi simplesmente assombroso o que se vivou no In Live Cafe! Obrigado aos Switchtense e as restantes bandas por uma noite muito bem passada. Texto: Bruno Farinha Fotografia: Liliana Quadrado


U

ma dose maciça de ultaviolência. Foi o prometido pelos Bizarra Locomotiva, e foi o que aconteceu. Cacilhas foi a estação onde a Locomotiva parou, desta vez no bar Revolver. Os The Antic Groove aqueceram a noite, abrindo as hostes com muito rock-n-roll e boa onda. O público aqueceu e preparou-se para o que aí vinha. Quando os primeiros acordes soaram, já nada parou a Locomotiva, sempre a fundo até ao final do concerto. O espaço, muito bem composto, proporcionou uma grande proximidade entre os músicos e os fãs que, como habitualmente, estavam preparadíssimos para libertar grandes doses de energia. Em palco, a banda e o público tornam-se um só, fundindo-se entre a guturalidade sonora e o suor provocado por músicas a fio com emoções em alta, e o corpo a responder. O alinhamento, que passou por vários álbuns da banda, contou também com o tema “Se Me Amas”, um original dos Xutos e Pontapés, muito bem transposto para a onda metal-industrial de Bi-

zarra Locomotiva. “O Anjo Exilado”, “Apêndices” ou “Egodescentralizado” foram outros temas que não faltaram, para júbilo dos presentes. Já com 18 anos de carreira e uma grande legião de fãs, a banda continua a dar grandes prestações ao vivo e deram tudo em palco.

Estivemos à com Miguel Fonseca (guitarra) e Rui Berton (bateria). Diz uma banda que te tenha inspirado a ser músico. MF – The Beatles. RB – Iron Maiden. Qual é a música que mais prazer te dá tocar ao vivo? MF - A música que faço. RB – Ergástulo. Se a Locomotiva não fosse Bizarra, o que seria? MF - Se não fosse Bizarra não seria. Ou então era apenas mais uma igual

às outras... RB - Estranha. Alguma coisa de diferente tinha que ser. Em que estação a Bizarra Locomotiva nunca irá parar? MF - Difícil prever... Uma vez que entramos nela, nunca se sabe onde nos pode levar... RB - Só pára quando não fizer sentido.

Texto, Fotografia e Flash Interview: Íris Jordão


Infektion Magazine #04 Junho 2011  

DOWNLOAD LINK: http://www.mediafire.com/?vxhb1iidfwhk7gy ENTREVISTAS: Devin Townsend, Samael, In Solitude, Falconer e muito mais!

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