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EDIÇÃO Nº8 // DEZEMBRO 2013

GLOBALIZAÇÃO ENTREVISTA COM NELSON AMBROGIO, CEO DA BAYER PORTUGAL

TAMBÉM NESTA EDIÇÃO Os protestos na Turquia Sino / Myanmar Relations Amidst Political Changes in Myanmar 1


FICHA TÉCNICA Coordenadora do Pelouro de Investigação do NERI Anna Momotova Coordenação da PACTA Inês Eusébio João Terrenas Joana Ribeiro Redes Sociais Filipa Bastos Luís Rodrigues Sofia Ramos Design Inês Eusébio Revisão Anna Momotova

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EDITORIAL Está iniciado mais um ano lectivo, um ano lectivo que se espera de muito esforço, trabalho e de muito sucesso, como tal impõe-se uma série de apresentações e felicitações. O Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais, que tenho a honra e o privilégio de presidir, apresenta a sua revista, a PACTA. Depois de um ano de onde a PACTA surgiu em formato revista, a actual equipa, que engloba elementos que faziam parte da antiga equipa e novos colaboradores, apresenta-se tendo em vista a continuar e a melhorar o trabalho já efectuado e que é certo, deixou as expectativas elevadas. Expectativas essas que certamente estarão à altura do trabalho que o nosso Núcleo vem apresentando nos passados mandatos. A mesma qualidade na informação, no conteúdo das análises e na elaboração das edições são a imagem de marca desta equipa e desta revista. Uma segunda nota, não menos importante, também é necessária. Uma palavra de felicitação e desejo de todo o sucesso aos novos alunos da licenciatura em Relações Internacionais. Que o ISCSP e este curso sejam para vocês casa, fonte de aprendizagem académica e na relação com os outros. Por último, agradeço a todos os alunos que confiaram nesta equipa que elegeram para os representar enquanto alunos de Relações Internacionais, a todos vós o meu muito obrigado. Agradeço ainda a todos os alunos desta grande equipa que diariamente se esforçam para que o nosso Núcleo funcione, em que a PACTA, assim como a simulação do G20 dos dias 6 e 7 do mês passado, são apenas alguns dos projectos que desenvolvemos para alargar as competências e o conhecimento dos alunos do nosso curso e de toda a comunidade académica. Saudações de um ano pleno de sucessos, O Presidente do Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais, Miguel Brito

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UMÁRIO

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Os protestos na Turquia Dra. Isabel David

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O concurso de acesso à carreira diplomática: algumas notas Dr. Nuno Canas Mendes

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Globalização Entrevista com Nelson Ambrogio, Ceo da Bayer Portugal

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Sino Myanmar Relations amidst Political Changes in Myanmar PhD Bill Chou

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Ex Lege: “A importância da escrita na expansão do Direito” Dr. António Pinto Pereira

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Cadernos do Tiaguistão: “Não se atacam aliados” Dr. Tiago Ferreira Lopes

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Recensão crítica: ‘Risk’, Deborah Lupton Dra. Maria Ferreira

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Experiência: voluntariado no Cambodja Isabel Alves

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OS PROTESTOS NA TURQUIA DRA. ISABEL DAVID isabel.david@iscsp.ulisboa.pt PROFESSORA AUXILIAR NO ISCSP Os protestos que começaram em Istambul no final de Maio a propósito da destruição de um dos últimos espaços verdes em Istambul, o parque Gezi, e que continuam ainda, tomando formas diversificadas por todo o país, constituíram uma surpresa no panorama político e social turco pela sua dimensão. De facto, o país tem registado, nos últimos anos, um crescimento económico impressionante, apenas suplantado pelo chinês, com uma melhoria acentuada dos níveis de vida na última década, marcada pelo predomínio político do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP). Inicialmente destinados a preservar o parque, os protestos rapidamente se transformaram numa contestação mais alargada ao referido domínio do AKP, unindo grupos improváveis: secularistas,grupos LGBT, muçulmanos anticapitalistas, muçulmanos revolucionários, Alevitas, Curdos, Kemalistas, feministas. Ora, as manifestações na Turquia não são um fenómeno de hoje, tendo lugar frequentemente. A amplitude dos protestos desde Gezi, contudo, adquiriu uma repercussão inusitada, para a qual muito contribuiu a violenta reacção do governo, que ordenou a sua repressão imediata, traduzida na

violência policial. De facto, a actuação policial mereceu várias críticas vindas da União Europeia e dos Estados Unidos, que consideraram desproporcional o uso da força e, também, o uso de componentes químicos perigosos para a saúde nos canhões de água apontados aos manifestantes. O Primeiro Ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, deu o tom, qualificando os manifestantes de çapulcu – vândalos. Na verdade, os protestos têm uma ampla fonte. Alguns sectores protestam contra aquilo que entendem ser a crescente corrupção do partido no poder, intimamente ligado à construção civil, que tem movido muito do crescimento do país, por entre acusações a favorecimentos de cariz pessoal (caso, por exemplo, da entrega de várias empreitadas ao genro do Primeiro Ministro). Um outro grupo contesta aquilo que considera como um ataque ao cariz laico do Estado, instituído pelo “Pai dos Turcos”, Atatürk, atributo que surge na Constituição como “irrevogável”. Outros grupos, como os Alevitas (que têm sido massacrados ao longo da história turca), reclamam maior tolerância para com a sua religião, considerando o laicismo como um dado “inegociável”. Os muçulmanos 5


anticapitalistas, liderados por Recep Eliaçik, opõem-se ao que consideram ser o “falso Islão” do AKP, ligado ao mercado e ao capitalismo, advogando um Islão tolerante. Os Curdos reivindicam a continuação do processo de paz, assim como o reconhecimento da sua especificidade e dos seus direitos no país. Os protestos adquiriram diversas e inovadoras formas, casos do “standing man”, um artista turco distinguido com um prémio de liberdade de expressão e direitos humanos na Alemanha, ou da pintura de escadarias de rua com as cores do arco-íris. O parque Gezi foi transformado, durante algumas semanas, num centro cultural, que incluía uma biblioteca. A própria palavra “çapulcu” foi apropriada pelos manifestantes para se transformar no verbo “çapulling”, um neologismo saído das ruas. A importância e as implicações dos protestos são de grande alcance. Com efeito, os acontecimentos deitaram por terra a ideia de que o AKP é o feitor da democracia no país, ideia com que havia chegado ao poder em 2002. Nesta altura, o partido apresentavase aos eleitores com um programa centrista, tolerante e democrático, prometendo pôr termo ao autoritarismo kemalista que ditava o rumo do país desde 1923. Para tal,

ancorou o processo de democratização à adesão à União Europeia e aos respectivos critérios de Copenhaga. Desde 2007, os progressos neste caminho são lentos, tendo o último capítulo sido aberto em 2010. Em consequência dos protestos, a União remeteu para Outubro novas conversações. Ao mesmo tempo, Erdogan condenou violentamente as críticas internacionais aos protestos, chegando a afirmar que a Alemanha estava por detrás dos acontecimentos, por invejar o nível de desenvolvimento da Turquia. O Primeiro Ministro insinuou também que os judeus estariam na origem dos protestos e, mais recentemente, acusou o principal partido da oposição, o Partido Republicano do Povo (CHP), fundado por Atatürk. Dentro do AKP houve também cisões importantes: a que opõe o Primeiro Ministro ao Presidente da República, Abdullah Gül, que condenou o excessivo uso da força para reprimir os protestos. Por detrás da ruptura estão também as eleições presidenciais que terão lugar em 2014: o 6


Presidente pretende recandidatar-se, enquanto Erdogan há muito ambiciona o cargo. Nos media turcos, fala-se na criação de um novo partido em torno de Gül, a formar-se entre dissidentes do AKP. Se antes dos protestos Gül era mais popular junto da população turca, essa simpatia reforçou-se agora, debilitando-se provavelmente de forma irremediável a possível candidatura de Erdogan. Ainda para mais, está em processo de aprovação uma nova Constituição, na qual Erdogan pretende ver consagrado um regime presidencialista. Um outro desenvolvimento muito relevante prende-se com a perda de uma base de apoio importante para o AKP: o movimento Gülen. Fethullah Gülen é um líder religioso turco exilado nos EUA com peso decisivo na política e na economia turcas. O movimento congrega cerca de 10% a 15% da população turca, movimentando-se activamente nas esferas da sociedade civil e na economia. Nos

últimos dez anos, os membros haviam sistematicamente apoiado o partido, mas, na sequência dos protestos desencadeados a propósito do parque Gezi, aquele líder religioso condenou a reacção do governo, optando pela cisão com o AKP. Também em 2014 terão lugar eleições locais. De acordo com as últimas sondagens, o AKP desceu nas intenções de voto, pese embora o facto de manter uma liderança muito confortável de quase 20 pontos percentuais. Na verdade, a debilidade dos principais partidos da oposição, o CHP (que é prejudicado pelo facto de ter implantado no país um processo de secularização radical, no passado, e de, ainda hoje, não articular um programa coerente, pese embora a sua recente viragem para a socialdemocracia) e o MHP (Partido de Acção Nacionalista, virulentamente nacionalista, opondo-se à concessão de quaisquer direitos às minorias do país) apenas reforça o poder do AKP.

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O concurso de acesso à carreira diplomática: algumas notas

Este texto tem por base um artigo em co-autoria com Armando Marques Guedes, “‘O tempo e as réplicas’. Formas de recrutamento de diplomatas: os concursos de acesso à carreira”, in Cultura, Revista de História e Teoria das Ideias, n.º 23 (2006). DR. NUNO CANAS MENDES ncm@iscsp.ulisboa.pt PROFESSOR AUXILIAR NO ISCSP A carreira diplomática tem constituído uma das saídas profissionais mais procuradas pelos detentores de um grau académico em Relações Internacionais, em Portugal. Tal tem sucedido com êxito, como mostram as estatísticas, dado que o número de diplomatas oriundos nesta área tem vindo a aumentar desde que ela ganhou se firmou na Universidade portuguesa nos alvores dos anos 80. O Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas em particular deu um contributo importante para o acentuar desta tendência, tendo inclusivamente vários dos seus licenciados ficado muito bem classificados nos concursos, nalguns casos mesmo em 1.º lugar. O objectivo deste artigo é apresentar algumas reflexões acerca da natureza do concurso de acesso à ‘carreira’ no que toca ao perfil sociológico dos candidatos, aos critérios apriorísticos de admissão, não-académicos e académicos e por último à formação académica dos admitidos. Tentar-se-á uma brevíssima abordagem histórica. Os resultados são bastante curiosos.

Comecemos por fazer uma breve contextualização dos reflexos das muitas mudanças sócio-políticas ocorridas em Portugal nos últimos quarenta anos, e que não puderam deixar de ter consequências no que ao corpo diplomático diz respeito. Basta começar por uma constatação quantitativa: com efeito, “a carreira” cresceu, passou a incluir um número muito maior de diplomatas e, consequentemente, o acesso sofreu por essa via transformações sérias, muitas delas com um inevitável alcance qualitativo. A imagem que ainda durante a década de 20 do século passado vigorava de “um mundo fechado, de díficil acesso e, sobretudo, numericamente muito 1 diminuto” , ia de maneira inexorável ficando mais distante. Já no decénio de 60 do século XX – durante a obstinada luta pela defesa do Império e as pressões que isto determinava ao nível dos serviços do Estado – 1

Org. António José Telo (2001), António de Faria, Cosmos, Lisboa: p. 26.

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começara a notar-se a necessidade de um alargamento. As consequências? Se é possível reconhecer, através de uma leitura ainda que superficial do Anuário Diplomático, a persistência de algumas dinastias de diplomatas, também não deixa de ser notório pela via dessa mesma leitura que a base social do recrutamento passou desde então a ser muitíssimo mais ampla – se quisermos mais democrática – e torna-se patente que houve, no que às origens sociais diz respeito, uma deslocação do centro de gravidade no sentido “descendente”, predominando, no lugar até aí ocupado pela classe alta e média-alta, um determinado segmento sócio-profissional: o da classe média do sector terciário. Os anos 70 e os seguintes, embora com especificidades próprias, em linhas gerais apenas vieram confirmar uma tendência que vinha de trás. Esta mudança é, já o mencionámos, um sinal das significativas alterações que a estrutura da sociedade portuguesa sofreu desde os anos 60, acompanhando o desenvolvimento económico desde então registado, e que teve como marco político 1974. Muito há que o prenunciava. O aumento da escolaridade e, consequentemente, do número de licenciados tem aqui um reflexo deste processo paretiano de substituição das elites. Antes de 1974, a percentagem da população portuguesa habilitada com um curso superior era ínfima e as suas

origens sociais “monótonas”; a partir desta data o número de candidatos passou a ser muito superior, tal como os seus lugares sociais de “extração”. Acresce que as transformações sofridas na política externa portuguesa e em particular a integração europeia exigiam mais recursos humanos e, consequentemente, mais vagas na carreira diplomática, e havia que procurar novas fontes aonde ir buscá-los. Neste sentido, a conotação aristocrática do privilégio, se bem que ainda de alguma maneira presente, foi-se esbatendo. As bases, como se viu, foram alargadas e, deste modo, a meritocracia tinha uma maior probabilidade de se impor. Como tivemos a oportunidade de confirmar nalgum detalhe no que diz respeito à mecânica inicial do processo, sucede, porém, que “a carreira” conservou, internamente, numerosos traços de imobilismo e sobretudo não abriu verdadeiramente mão da faculdade de dosear, a seu bel-talante, privilégio e meritocracia. Entre muitas outros exemplos, também nesse plano se estabeleceram rotinas no Ministério. E, apesar da crescente e indesmentível abertura democrática genérica, “a carreira” tem sempre de maneira admirável conseguido desequilibrar a balança de forma a assegurar a sua própria perenidade enquanto corpo2.

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Uma rápida nota sociológica, desta feita apontada para uma problematização maior do

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Os concursos preenchem nisso um papel essencial, em todos os sentidos do termo, um papel primordial, aliás, no dispositivo complexo que garante tal capacidade efectiva de reprodução sem turbulências. O órgão-chave nessa intrusão dinâmica, chame-selhe assim, é contudo a entidade corporativa para tal deliberadamente desenhada, o Conselho Diplomático do Ministério, uma criação bem no espírito do Estado Novo3. Uma entidade que perdurou – e em muitos sentidos se viu reforçada – depois da revolução democrática de 1974. E uma entidade cujo papel generalizado na consolidação interna relativamente ao exterior e termo “cunha” que tão genérica e acriticamente tem sido usado, com todo o empobrecimento analítico que tal significa. Como seria decerto de esperar, o “privilégio” a que temos vindo a aludir foi desde sempre alterando a sua definição e o seu ponto de aplicação: designadamente, se de início fazia referência às elites tradicionais portuguesas, depressa começou, com o Estado Novo, a mesclar esse critério com outros, mais político-ideológicos (nomeadamente, senão a pertença à União Nacional, em todo o caso uma adesão tácita ao seu programa político geral). A natureza “endogâmica” tão característica de regimes corporativos rapidamente veio acrescentar uma demão, ao introduzir o ingrediente “hereditariedade” (doravante num sentido mais atido à família nuclear e suas extensões imediatas) ao rol de critérios usados: os célebres “filhos dos diplomatas”, que lhes começaram a “suceder” (tal como, aliás, noutros corpos sócioprofissionais), em processos quasi-dinásticos de “substituição passiva” de lideranças. Mais recentemente, o que não constituirá surpresa, teve luagr outra alteração: lobbies como os partidos políticos democráticos e associações mais ou menos confessionais (ora em sentido religioso, ora no laico) vieram-se acrescentar à mélange. 3 As respectivas competências, composição e funcionamento estão regulamentadas nos art.os 8 e 9, capítulo II, secção I, do decreto-lei n.º 40-A/98, de 27 de Fevereiro.

cuja operação no que apelidámos a reprodução simples do Ministério nos parece evidente. Mesmo sem entrar em grandes pormenores, vale a pena aprofundar um pouco este ponto. O Conselho Diplomático tem sido essencial para a coesão interna do Ministério; o papel que tem tido ao esbater tensões intestinas pela via de uma criação de interdependências orgânicas não pode ser subestimado. Vislumbrar o seu funcionamento em mais termos amplos é contudo decerto instrutivo. A sua intervenção, ainda que se prolongue por todo o percurso da vida do diplomata, tem-se revelado como decisiva logo na fase inicial de inevitáveis pressões para uma abertura do Ministério ao exterior. É certo que, por norma, o Conselho não se intromete directamente na admissão de canditatos ao Ministério. Mas age com enorme eficácia na fase imediatamente posterior. Toda a progressão na hierarquia diplomático-profissional está vinculada às suas decisões, e se a regra geral de promoção é, formalmente, a do “mérito”4, as suas regras de funcionamento são contudo definidas por regulamento interno, pelo que é sempre a “Casa” ela mesma que define os critérios que na prática presidem às referidas decisões – em resultado institucionalizando-se no processo.

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Decreto-lei n.º 40-A/98, de 27 de Fevereiro, art.º 17.

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Os critérios apriorísticos de ingresso: género e formação académica: Um dos aspectos essenciais dos concursos de acesso à carreira diplomática que deve ab initio ser focado prende-se com o perfil exigido aos candidatos para a respectiva admissão no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Tais perfis variaram bastante ao longo do tempo, mas não de maneira uniforme. Vale a pena apurar estas variações nalgum pormenor. Para simplificar, optemos por classificar os critérios utilizados para permitir os ingressos como não-académicos e académicos, o que, como iremos ter a oportunidade de verificar, dá em todo o caso corpo a um contraste pertinente. Relativamente aos primeiros, os não-académicos, o ponto mais óbvio é o de que alguns dos pré-requisitos de início exigidos sofreram ao longo do tempo uma evolução significativa, mas sempre num sentido de alguma forma comum: durante a I República e o Estado Novo, só podiam candidatar-se à carreira diplomática indivíduos do sexo masculino, de nacionalidade portuguesa, com idade compreendida entre os 21 e os 35 anos de idade, dotados de “robustez física” – para poderem, por exemplo, “afrontar qualquer clima”, especificava a lei-orgânica de 1929 –, e aptos a cumprir as condições requeridas para qualquer emprego no Estado, o que incluía uma declaração de anti-comunismo,

uma garantia escrita de fidelidade à ordem constitucional e um compromisso de honra de que não pertenciam a “associações secretas” (leia-se Maçonaria). Note-se que estas últimas condições definidas no diploma de 1939 se foram esbatendo com o tempo, desaparecendo a última em 1968 e mantendo-se as duas primeiras em versões mitigadas. Durante a vigência do marcelismo, no regulamento de 1972, já não se encontram referências deste tipo, ou pelo menos sobrava pouco mais do que o seu rasto residual. Basta aprofundar um pouco para constatar que a direcção genérica das mudanças tem sido assaz uniforme e regular: tratou-se, antes do mais, de um processo, levado a cabo com uns poucos de avanços e recuos, de uma certa homogeneização democrática, chame-se-lhe assim. O modus faciendi do processo tem sido interessante. O que foi sendo conseguido, foi-o, curiosamente, por meio de uma simplificação, por exclusão de partes: por uma eliminação sucessiva das excepções e dos critérios-limite avulsos em que, neste como noutros âmbitos, o regime autoritário se tornara exímio. Num plano macro, o andar da carruagem é com efeito tão nítido que salta de imediato à vista. O profiling inicial, que tinha como óbvio intuito garantir a execução das preferências do regime sob as vestes formais de um processo enxuto de selecção, viu-se assim, 11


como que por defeito, pouco a pouco substituído por um mecanismo cada vez mais aberto e “equitativo”. Outra inflexão essencial, que vai claramente no mesmo sentido e cujo impacto não pode ser subestimado, diz respeito ao facto de se terem apresentado, pela primeira vez, candidaturas de mulheres no concurso aberto em Novembro de 1974. As leis orgânicas de 1939 e 1966, especificavam que só poderiam concorrer indivíduos do sexo masculino, respectivamente nos artigos 83 e 25. Em 1966, numa orgânica elaborada sob a batuta do então Secretário-Geral José Luís Archer, o Ministério tentou (com a cumplicidade de Franco Nogueira) abrir o acesso ao sexo feminino. Depois de insistir em ver o projecto o Presidente do Conselho, Salazar, devolveu-o, com uma interpolação manuscrita: “do sexo masculino”5. Seriam precisos mais sete anos e a sua ausência para que isso mudasse. Com efeito, na lei orgânica publicada em 1974, na nova redacção do revisto artigo 25, foram omitidas as referências não só às licenciaturas de acesso como ao género. A mudança começou – ainda que lentamente – a produzir efeitos. Vistas as coisas em contexto, não foi, apenas, um abrir de portas, até então trancadas, a mais de metade da população; em 5

Agradece-se ao Embaixador Pedro Ribeiro de Menezes esta magnífica e muitíssimo reveladora petite histoire.

paralelo com o que teve lugar em muitos outros domínios, tratou-se de uma inovação que ia no sentido genérico da assunção de um papel crescente das mulheres no Estado e na vida pública geral. E foi uma mudança eficaz, já que nesta como noutras áreas, o crescimento foi em resultado explosivo. Se em 1979 o número de mulheres admitidas – doze – representava só 4,1% do quadro de 290 diplomatas, volvidas duas décadas, em 2000, este número decuplicou, representando então 22,5% dos funcionários, numa tendência que continua a acentuar-se. A título de exemplo, refira-se que no concurso de 2005, nas 30 vagas disponíveis, o número de mulheres admitidas à categoria de adido de embaixada foi claramente superior ao de homens. Com efeito (e de novo numa réplica tardia daquilo que desde há muitos anos se verifica nas Universidades portuguesas), ingressaram como adidos de embaixada mais mulheres do que homens: doze do género masculino e dezoito do feminino. Em 2013, das 20 vagas preenchidas só uma coube ao sexo feminino, o que parece ser um dado contra12


corrente e decerto nenhuma tendência.

não

indicia

Pormenorizar mais os nossos pontos de aplicação permite-nos resolver melhor imagens, ainda em planos macro. Efectivamente, outras inflexões houve que importa sublinhar, dado o impacto que tiveram. O perfil exigido aos candidatos a diplomatas foi sendo alterado também noutras direcções, as quais, se não significaram necessariamente uma democratização, em todo o caso soletraram uma maior abertura geral do acervo de pré-requisitos. No que diz respeito à formação académica que habilitava os candidatos, os regimes pós-28 de Maio introduziram uma mudança qualitativa importante face ao que era praticado até então, e que consistiu na menção aos cursos obrigatórios que habilitavam os candidatos ao concurso. A lei-orgânica de 1929, por exemplo, indicava qualquer dos cursos de Direito das Faculdades de Lisboa e de Coimbra, bem como o curso diplomático e consular dos Institutos Superiores de Comércio de Lisboa e do Porto. A preferência pelo Direito foi dando lugar a um alargamento, ainda que estreito, do leque de licenciaturas admitidas. Assim, no regulamento de 1939, davam acesso à carreira diplomática as licenciaturas em Direito, Ciências Histórico-Filosóficas ou Ciências Económico-Financeiras. No regulamento de 1968, verificouse um alargamento do número de

licenciaturas, de três para seis: Direito, Filosofia, Economia, História, Finanças, Altos Estudos Ultramarinos. A grande viragem surgiu no regulamento de 1972, em cujos termos foram pela primeira vez admitidos a concurso quaisquer licenciados, indiscriminadamente, fosse qual fosse o curso que tivessem frequentado e concluído com êxito6. Sem qualquer organicismo, note-se que esses processos gerais de flexibilização constituiram um acquis que se foi sedimentando sem grandes recuos. Esta maior abertura em várias frentes, tal como as alterações mais propriamente “democráticas” a que antes fizemos alusão, vieram para ficar; desde 1972, todos os regulamentos exarados têm reproduzido esta última inovação “ecuménica” introduzida no fim do período marcelista7, tal como têm mantido

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Registe-se, porém, que o decreto-lei n.º 40994, de 9.2.1957, no seu artigo único, já admitia a concurso os licenciados com qualquer curso superior professado numa universidade portuguesa. Tal medida veio a ser alterada pela decreto-lei n.º 47331, de 23.11.1966, que no seu art.º 25 limita novamente as licenciaturas de acesso a Direito, História, Filosofia, Economia, Finanças e as conferidas pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU). Finalmente, o decreto-lei 136/72, de 8.4, repõe, no seu art.º 1, o disposto no citado decreto-lei de 1957. 7 Seria interessante apurar, por meio de um estudo sociológico minimamente aprofundado, se esse alargamento de âmbito da aceitabilidade de formação não terá correspondido, ainda que tão-só de maneira parcial, às dinâmicas de mudança que, em paralelo, foram ocorrendo entre os membros das elites sociais e políticas nacionais no que toca às selecções e preferências de cursos universitários a frequentar.

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as outras evidência.

que

pusémos

em

Perfil académico dos admitidos Existem dois estudos – da autoria de Pedro Aires de Oliveira8 e de Ana Leal de Faria9- que ensaiaram levantamentos de dados que permitem retirar ilacções sobre as propensões e as mudanças, quer no perfil de admissão quer no perfil dos admitidos. Vejamo-los um a um. Pedro Aires de Oliveira considerou o intervalo de anos 1926-1973 e apoiou-se nas informações constantes dos anuários diplomáticos para este período. Apurou que, durante este quase meio século, o Direito aparecia na dianteira, com larga vantagem (63%), seguido dos cursos da área das Humanidades (com prevalência para Histórico-Filosóficas, presumese), com 16% e as Ciências Económicas, com 14%10. Os restantes cursos apresentavam um valor puramente residual. Mais ainda: concluíu que, em termos geográficos, a maioria dos admitidos provinha de 8

Pedro Aires de Oliveira – O Corpo Diplomático e o Regime Autoritário, Análise Social, vol. XLI, n.º 178, 2006. Ana Leal de Faria, “Sociologia dos ‘negociadores’, Perfil intelectual e social dos diplomatas portugueses (1640-1750)”, Negócios Estrangeiros 10. 10 Como explica Pedro Aires de Oliveira, art.cit., pp. 156-157, “os indivíduos formados no ISCEF ingressaram no MNE sobretudo nas décadas de 30 e 40: a partir de finais da década de 50, os salários do sector privado tornaram-se mais atraentes para os economistas que, de resto, também passaram a ser mais solicitados por outros departamentos ministeriais e organismos públicos”. 9

estabelecimentos de ensino superior em Lisboa. Estes são dados que uma perspectiva de mais longa duração parece confirmar. Ana Leal de Faria, baseada no Anuário Diplomático de 2000, verificou que uma percentagem superior a 50% (52,4% para ser mais exacto) dos funcionários diplomáticos era formado em Direito; 18% tinha formação em Relações Internacionais e Ciência Política (e destes 76% eram oriundos do ISCSP); seguiam-se, com 17,1%, os licenciados em Letras e Ciências Sociais e Humanas, sobretudo em História e Filosofia; em quarto lugar, e a uma distância considerável, surgia, compreendendo apenas 5,8% dos adidos de embaixada, a licenciatura em Economia. Outras formações ou graus académicos superiores tinham também um valor meramente residual. A grande maioria (79,8%) dos admitidos, no seguimento, aliás, do que fora o caso nas duas gerações intermédias do século XX sobre as quais Aires Oliveira se debruçou, concluiu os seus estudos em Lisboa. A inclusão de dados mais recentes do que aqueles contabilizados por estes dois autores permite-nos dar um passo em frente. O contingente de jovens adidos que tomou posse em 2005 não terá contribuído para alterar significativamente este panorama genérico. Verificou-se, no entanto, que de entre os trinta aprovados, o contingente maior foi o de 14


licenciados em Relações Internacionais, com onze representantes, seguindo-se-lhe o dos formados em Direito, com nove, e o ainda menor agrupamento dos licenciados, seis no total, em Ciência Política; apenas três dos adidos aprovados tinham formação em áreas de Economia e Gestão; o lugar remanescente foi atribuído a um licenciado em Línguas e Literaturas Modernas. Uma análise de relance para os concursos de 2006, 2008 e 2012 permitirá aperceber alterações pouco significativas. A título meramente ilustrativo, refira-se que o 1.º classificado deste último concurso é um licenciado em Relações Internacionais pelo ISCSP.

Num rápido comentário marginal, parece pois verificar-se um decréscimo nas licenciaturas “clássicas” de acesso. Tal poderá prenunciar que, a médio prazo, a distribuição típica nas formações de base dos diplomatas do Ministério, e designadamente a primazia do Direito poderá vir a dar lugar à afirmação de uma formação académica hegemónica – uma formação sobretudo em Relações Internacionais criada no início da década de 80 do século XX, com a finalidade, entre outras, de fornecer candidatos à carreira diplomática. Não temos, porém, para já, maneira de o confirmar ou infirmar: o futuro o dirá.

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GLOBALIZAÇÃO: ENTREVISTA A NELSON AMBROGIO Por Joana Ribeiro e Filipa Bastos

Num mundo cada vez mais globalizado, onde um evento ocorrido em determinado sitio pode afectar cada vez mais pessoas e sociedades distantes e no qual a mobilidade é cada vez maior, optamos por falar com o Dr. Nelson Ambrogio, que nos mostrou o lado vivenciado por quem integra uma organização global.

1. Tendo em conta que o tema principal desta entrevista é a globalização, como é ser um uruguaio em Portugal a trabalhar numa empresa alemã? Pensei em começar com o exemplo da minha casa. Como bem comentou, eu sou uruguaio mas também tenho nacionalidade italiana porque os meus avós emigraram no começo do século passado, a minha mulher é mexicana, a nossa primeira filha nasceu no México, a segunda nasceu na Alemanha, a terceira nasceu no Brasil e dentro de algumas semanas teremos um filho português. Temos amigos que dizem que nos parecemos com as Nações Unidas. Voltando à pergunta, eu diria que é cada vez mais habitual, cada vez há mais mobilidade das pessoas, cada vez há mais oportunidades de desenvolvimento que as empresas oferecem para fazer carreiras internacionais. Neste sentido, o grupo Bayer, que tem aproximadamente cento e dez mil

colaboradores em todo o mundo, oferece também possibilidades de desenvolvimento internacionais, o que é algo bom para os colaboradores que acham interessante esse tipo de oportunidades, e é muito bom para a companhia também porque oferece uma diversidade muito interessante, ajudando-a a adaptarse melhor às necessidades de cada mercado. 2. Tendo ocupado o cargo de diretor na unidade de General Medicine na Bayer HealthCare Brasil, como encarou a mudança de um país em desenvolvimento pertencente aos BRIC para um país desenvolvido que se encontra numa grave crise económica e financeira? Nesse sentido, acho que a principal palavra é flexibilidade. Quando estive no Brasil, (os últimos três anos antes de se mudar para Portugal) o país estava a crescer muito, muito mais do que cresce neste momento. Por outro lado, para mim a palavra crise não é uma palavra nova porque tendo vivido e trabalhado na América Latina já estava de certa forma habituado a lidar com a mesma. Quando há uma mudança (neste caso para Portugal) penso que o mais importante é perceber qual é a realidade do país para poder aproveitar algumas das aprendizagens dos outros países no 16


filosofia LIFE neste crise económica?

novo porque muitas vezes há muito mais semelhanças entre eles do que nós poderíamos imaginar, independentemente das regiões ou da fase de crescimento ou de não crescimento. Sobre a crise em Portugal, estamos a ver nos últimos meses, ou pelo menos recentemente, alguns sinais macroeconómicos positivos, o que é bastante bom. Do ponto de vista da Bayer temos uma equipa que está completamente comprometida, muito profissional, e temos muito bons produtos que oferecem soluções para necessidades não atendidas. Neste momento acho que a prioridade é tentar navegar da melhor forma possível nestes tempos mais turbulentos para tentarmos sair reforçados da crise.

3. Os valores do grupo Bayer reúnem-se na palavra LIFE, que em português significa vida, e cujo acrónimo significa liderança, integridade, flexibilidade e eficácia. Como é que a Bayer consegue utilizar os seus recursos da melhor forma possível, não descurando a

contexto

de

Eu diria que o momento em que os valores mais se aplicam são em tempos de crise ou de adversidade, então agora, mais do que nunca, aplicamos os nossos valores. O que significam concretamente nesta situação as palavras LIFE (liderança, integridade, flexibilidade e eficiência). Liderança significa ficarmos focados nas nossas prioridades estratégicas e ficarmos também optimistas, não entrarmos numa espiral negativa e de frustração porque neste momento temos que tentar aproveitar as oportunidades que possam existir. Integridade significa zelar pelos nossos colaboradores, obviamente numa fase em que não é só complicado para a companhia mas também para as famílias, e procurar equilibrar as necessidades ou resultados de curto prazo com os resultados esperados a longo prazo. Sobre a flexibilidade, talvez seja a palavra que temos que exercitar mais nesta fase já que basicamente estamos a ver um Portugal hoje muito diferente do Portugal que tínhamos antes. Então flexibilidade significa entender como está a mudar o país e como temos que nos adaptar para continuarmos a ter sucesso neste mercado. A última palavra é eficiência. É fundamental gerir os nossos recursos com inteligência, tentar otimizar o que possa ser otimizado e focarmo-nos nas atividades que realmente aportam valor. Os valores LIFE aplicam-se nesta fase e são a 17


nossa guia para aplicar em qualquer tipo de mercado, de situação, e que todos os colaboradores devem ter como base para o seu dia-a-dia.

4. Qual é a influência da sustentabilidade e da responsabilidade social na competitividade da empresa a nível internacional? A sustentabilidade faz parte da nossa estratégia corporativa e basicamente o foco da mesma para a Bayer significa, primeiramente, práticas de negócio responsáveis, guiadas pelo nosso código de compliance, e também ao mesmo tempo a inovação, porque é através da inovação que vamos conseguir garantir um equilíbrio entre o benefício económico, o benefício ecológico e o benefício social. No que respeita à responsabilidade social, assumimos a nossa responsabilidade obviamente e temos uma serie de iniciativas a nível global mas também muitas delas em Portugal. Podemos ilustrar as últimas com exemplos como uma parceria que temos com a UNESCO chamada “Química entre nós” e que tem como objectivo despertar o interesse das crianças, dos mais novos, pelas ciências. É uma parceria que já tem tradição e que continuámos este ano. Outro exemplo seria uma iniciativa que surgiu proactivamente de dois colaboradores da Bayer que se juntaram e formaram um grupo chamado Núcleo de Ação Social. É

um grupo de colaboradores que se envolve em atividades para melhorar a qualidade de vida e a situação de pessoas que atravessam um momento mais complicado. Recentemente este grupo recebeu um prémio da nossa casa mãe, um reconhecimento pelo seu trabalho, pelas suas ideias, e graças a esse apoio conseguimos apoiar recentemente a Casa Lilás da organização Novo Futuro. Fomos lá, eu e vários colaboradores da Bayer, pintámos a casa e fizemos algumas reformas. Penso que isso mostra que a responsabilidade social não é algo que somente temos em brochuras mas que realmente estamos a tentar procurar viver no dia-a-dia.

5. Como consegue a Bayer triunfar e permanecer relevante num mercado globalizado e cada vez mais competitivo, sem descurar os princípios éticos que são indissociáveis a uma empresa que atua na área da saúde e onde a concorrência poderá interferir com estes mesmos princípios, nomeadamente no que toca aos ensaios clínicos? Aqui voltaria ao tema da sustentabilidade e das práticas responsáveis de negócio. Nós, Bayer, temos um código de compliance que faz parte da nossa política de sustentabilidade que se aplica a todos os colaboradores mundialmente e também a todas as áreas, envolvendo também os ensaios clínicos mencionados na 18


pergunta. A Bayer tem globalmente uma história de mais 150 anos (neste ano estamos a comemorar os 150 anos da sua existência) e isso só é possível se tivermos uma estratégia de sustentabilidade por trás, o que só é possível através da compliance.

6. Ao juntarmos as palavras saúde e globalização pensamos inevitavelmente na significante melhoria que a globalização veio permitir ao nível de vida global. Contudo, África, grande parte da Ásia e da América Latina ainda têm um considerável caminho a percorrer face aos cuidados de saúde e ao Índice de Desenvolvimento Humano quando comparados com a Europa ou a América do Norte. Quais são para si os principais obstáculos a uma verdadeira “globalização da saúde”? Primeiramente, eu diria que temos que ter bastante cuidado com as generalizações. Será que dá para falarmos de uma América Latina ou de um Brasil? Dentro de um país podem existir realidades muito diferentes, entre as grandes capitais e as regiões um pouco mais remotas. Isso para mim ficou claríssimo no Brasil. Também quando falamos da América do Norte e da Europa, remetemo-nos para situações bastante diferentes. Ou até mesmo dentro da própria Europa temos situações divergentes. Muitas vezes ouvimos falar sobre os países da Europa do Norte e da Europa do Sul. Portanto as

generalizações são complicadas e temos que ter cuidado. Se olharmos por exemplo para a situação de Portugal, temos claramente uma situação de acesso aos medicamentos que é diferente da situação de acesso de outros países da União Europeia. Sabemos que temos demoras bastante prolongadas para as comparticipações e isso implica que a população portuguesa não tenha o mesmo acesso a medicamentos que outros países da Europa. Mesmo assim, é verdade que existem mais de dois mil milhões de pessoas que estão numa situação de atendimento de saúde inferior ao que deveriam receber. Mais de dois mil milhões de pessoas sem um atendimento de saúde adequado é um problema que dificilmente possa ser resolvido somente por um único ator, tem que ser um esforço conjunto entre diferentes organizações, e obviamente a Bayer está a colaborar com as mesmas para tentar aportar o que importa nesse sentido. 7. Revelando um grande crescimento, qual é a importância da região económica da Ásia/Pacífico para o futuro desta multinacional alemã nos mercados internacionais? A região da Ásia/Pacífico neste momento representa para a Bayer 22% do negócio global. Ou seja, 22% das vendas globais (dados de 2012 que estão publicados) foram nesta região. O crescimento foi de 19


dois dígitos, sendo uma região que está, claramente, a crescer. É a terceira região em vendas da Bayer; a primeira é a Europa, a segunda é a América do Norte. Se o crescimento continuar desta forma, mais tarde ou mais cedo a Ásia/Pacífico será a segunda região porque já está bastante perto das vendas da América do Norte. Para o futuro a importância continuará evidentemente a ser bastante alta e esperamos e acreditamos que os mercados nos quais participamos, principalmente na saúde humana, na saúde animal e também na proteção das plantas continuarão a crescer. Portanto, a nossa presença continuará a expandir-se.

8. Tendo em conta a delicada situação do continente africano, em especial na área subsariana, quais são as políticas mais relevantes da Bayer em relação à saúde? Este ano comemoramos 150 anos globalmente sendo que em Portugal já temos mais de 100 anos e em África já temos quase 100 anos.

Portanto, temos uma presença há bastante tempo com companhias com presença desde Casablanca até à Cidade do Cabo. Estamos assim presentes em todo o continente africano. Além de termos a presença das nossas subsidiárias também estamos envolvidos noutros programas com organizações justamente para tentar apoiar o acesso à saúde da população africana. Um exemplo disto seria, na minha opinião, a iniciativa de planeamento familiar. A Bayer é líder mundial na anticoncepção e há mais de 50 anos que está a trabalhar junto com outras organizações em temas de planeamento familiar para África que não têm somente a ver com facilitar o acesso ao medicamento mas também com trabalhar na educação das pessoas e na consciencialização do que significa a saúde sexual e reprodutiva. Somente com o medicamento e com a educação é que as iniciativas podem ser sustentáveis.

9. De que forma é que uma multinacional como a Bayer pode e pretende influenciar o mercado português? O nosso lema ou a nossa missão é Bayer, Science for a Better Life, ou Bayer, Ciência para uma Vida Melhor. Então como pretendemos influenciar o mercado português? Eu diria que guiados pelo nosso lema. Através da ciência, através da inovação e trazendo soluções para os portugueses. Basicamente 20


fazendo o que esta no nosso ADN, ou seja, inovando. Se inovarmos estaremos a traçar novos produtos em áreas terapêuticas, como estamos a traçar neste momento com a cardiologia, a oftalmologia, a oncologia e a saúde da mulher. Esta é a melhor forma que temos, na minha opinião, para influenciar positivamente o mercado português e traçar soluções para os portugueses e portuguesas.

10. Considerando uma situação hipotética em que era desenvolvido um fármaco que deixava o ser humano imune a todas as doenças, existira, na sua opinião, alguma farmacêutica que aceitasse vender este produto a um preço acessível a uma escala global? As empresas finalmente são pessoas e estão feitas por pessoas e todos nós temos a nossa família e os nossos entes queridos. Logo, como é óbvio, todos nós gostaríamos de ter um produto desse tipo porque estaríamos a ajudar ao mesmo tempo todos os nossos entes queridos, todas as nossas famílias. Sim, claro, seria

algo muito bom para todos termos um produto desse tipo. Voltando ao que comentava na pergunta anterior, poderíamos falar de missão cumprida ao possuirmos esse produto uma vez que teria sido o resultado da ciência para uma vida melhor, logo o nosso lema seria aplicado. Até lá, teremos de continuar como até agora, pesquisando bastante, desenvolvendo novos produtos e tentando ajudar a população com novas soluções. 11. Teria logo de início um preço acessível ou seria uma coisa a longo prazo, que de início estaria apenas disponível para uma elite? Quando é aprovado um produto farmacêutico do ponto de vista da segurança e eficácia, também é aprovado pelas autoridades competentes o preço desse produto. Para o definir entram em avaliação vários elementos, como por exemplo, quais são as opções disponíveis, a fármaco-economia, temas de acesso, então seria muito difícil neste momento afirmar qual poderia ser o preço de um produto com esta característica. Seria especular já demais.

CURRÍCULO (também disponível em http://linkd.in/1etWdVJ)

Nelson Ambrogio Managing Director at Bayer Portugal S.A. nelson.ambrogio@bayer.com

21


Experiência Profissional Managing Director at Bayer August 2012 - Present 

Managing Director at Bayer Portugal S.A., Bayer HealthCare Representative and Country Division Head Bayer HealthCare Pharmaceuticals

Head of Business Unit General Medicine Brazil at Bayer HealthCare May 2010 - August 2012 

Therapeutic areas: Cardiovascular, Men's Health, Anti-Infectives. Based in Sao Paulo, Brazil.

Executive Board Support Strategy & Human Resources at Bayer AG August 2007 - May 2010 

Assistant to Group Board of Manager Member in charge of Strategy & Human Resources and responsible for the Regions Americas, Africa and Middle East. Based in Leverkusen, Germany.

Marketing & Sales Operations Region Latin America/ Canada at Bayer Schering Pharma 2006-2007 

Business Development & Licensing, Market Research, Sales Force Effectiveness, Pricing, Promotional Materials. Based in Mexico City, Mexico.

Head of Strategy, Business Development and Marketing Services Region Latin America/ Canada at Schering 2002-2006 

Based in Mexico City, Mexico.

Product Manager Dermatology at Schering Uruguaya S.A. January 2000 - December 2001 

Based in Montevideo, Uruguay.

Sales Representative at Schering Uruguaya S.A. August 1998 - December 199

22


Formação Académica Business School Sao Paulo MBA, Executive MBA, 2011-2012 

Executive MBA at Business School Sao Paulo, part of Laureate International

Universities, International Module at Sawyer Business

School - Suffolk University, Boston - USA. Zeit- Stiftung Global Governance, 2009 

Bucerius Summer School on Global Governance, organized by the ZeitStiftung Ebelin und Gerd Bucerius in cooperation with the Heinz Nixdorf Stiftung. Hamburg, Berlin, Paderborn.

INSEAD Competitive Strategy, 2008 

Competitive Strategy Programme held at INSEAD, Fontainebleu, France in 2008.

Universidad del Valle de México BA, Business Administration, 2003-2006 German-Uruguayan Chamber of Commerce Diploma, International Sales & Marketing, 1996-1998

23


SINO MYANMAR RELATIONS AMIDST POLITICAL CHANGES IN MYANMAR PhD BILL CHOU ASSOCIATE PROFESSOR | DEPARTMENT OF GOVERNMENT AND PUBLIC ADMINISTRATION UNIVERSITY OF MACAU | CHINA

Introduction China’s

economic

huge

population,

large

territory, and tremendous economic and military prowess have produced immense impact on the international community

and

are

of

many

countries’ concern. This isparticularly true

to

China’s

neighbouring

countries. The paper is to study the relations

between

Myanmar.

China

Amidst

democratization

in

and political

Myanmar,

the

populace has become increasingly assertive.

Foreign

capital

and

influence are increasingly present in the country. The political leadership of Myanmar is skillful at making use of these changes to counterbalance the impact of China and maintain its sovereignty and regime stability. Strategic

Values

of

China

to

Myanmar China is essential for Myanmar to cushion the damages of Western

sanctions.

China

is

Myanmar’s largest trading partner. In 2010, the bilateral trade was worth US$ 4.44 billion, 68.6% higher than that

in

2008.

China

is

also

Myanmar’s major sources of foreign direct

investment,

official

aids,

military

development assistance.

and

China

invested

more

than US$ 14 billion in Myanmar’s fiscal year of 2010/11 (April-March), or 70% of the total foreign direct investment. This was a substantial rise from US$ 300 million a year before

(“Insight:

opens”2012).

In

As the

Myanmar industry

of

resource extraction, Chinese capital accounted

for

over

90%

of

the

foreign capital. Between 1991 and 2005,

Bank

Export-Import

of

China

and

Bank

of

The China

provided Myanmar with credits worth US$ 1 2011,

billion (Sun 2012a; Zhao 256-259).

Owing

to

the

significance of Chinese capital to Myanmar, Leading

Myanmar

set

Committee

PromotingEconomic

up

“The for

Cooperation

between the Union of Myanmar and the People'sRepublic of China” in 1996. The Committee was chaired by the Junta Secretary General Khin Nyunt (Tin 2003, 203).

24


Meanwhile, China is instrumental for Myanmar to fend off Western censure. In 2007, US sponsored a resolution to UN Security Council in an attempt of condemning Myanmar on its human right record. Joined by Russia, China cast a vote to veto the resolution (Department of Public Information, United Nations Security Council, 2007). This echoes China’s

conventional,

interference

approach

nonto

the

domestic affairs of foreign countries, but conflicts with Western advocacy of

right

to

intervene

with

any

countries which fail to protect their own citizens.

Strategic

Values

of

Myanmar

to

China Myanmar is a gateway for China to revive its southwest silk road from Yunnan to Bangladesh, India and the West, as well as a bulwark against

U.S.

Southeast natural

encroachment

Asia.

It

resources

substantial

oil,

has and

natural

from

abundant exports gas,

and

timber to resource-hungry Chinese economy. China is able to import oil from Middle East and bypass the pirate-ridden

Malacca

Strait

controlled by the US and its allies (Shee 2002).

25


Political Changes in Myanmar and Besides that, the state security in southwest China is contingent on

the

Implications

Myanmar

social stability. Yunnan province has

disastrous

long been plagued by the armed

Western

conflicts

2007,

Myanmar

Sino-Myanmar

Relations

Myanmar’s political, economic and

between

to

has

been

plagued

economic

policies

economic many

by and

sanctions.

people

In

protested

government and its ethnic minorities.

against a substantial rise in patrol

The

price and inflation. The government

conflicts

sometimes

cause

exodus of Myanmar refugees who

was

seek

oppressive rule would lead to even

haven

from

China.

The

worried

that

more

Myanmar

government led by President Thein

the

Myanmar

peasants to rely on opium poppy

Sein

growing

government

and

accentuated

China’s

took

After

office

the

the

economic hardship on the side of forced

protests.

keeping

civilian

in

2010,

the

gradually

lifted

the

and

civic

drug problem. The weak governance

restrictions

on

in Myanmar’s borderlands resulted

freedoms:

Nobel

in cross-border problems of illegal

Laureate Aung San Suu Kyi and

timbering, casinos, prostitutions, and

most other political dissidents were

spread

released from house arrest or jails.

of

AIDS.

Out

of

security

consideration, China has a vested

Press

interest

on

Country-wide

stability

and

Myanmar

political

economic

prosperity

(Zhao 2011).

to

China’s

energy

security

attracted

China

to

substantially

on

infrastructure

related

to

the

invest

transportation

and

energy. China participated in such construction projects as the port of Sittwe on Myanmar’s west coast, a road link between Yunnan and Bay of

Bengal,

an

oil

pipeline

Rakhine

State

of

Myanmar

Yunnan,

and

several

dams

from to for

hydroelectric power along Irrawaddy River.

Peace

censorship

was

Prize

lessened.

human

right

commission was set up. Privatization of state-owned enterprises was sped

Myanmar’s potential to ease the threat

political

up.

Legislation

on

foreign

direct

investment was drafted to step up the economic reform and liberalize the economy. Cabinet was reshuffled to replace reform-minded ministers and

deputy

hardliners political

ministers

who and

for

opposed economic

the

further reforms.

Ceasefire agreements were signed with

armed

enhance

ethnic

national

groups security

to and

improve the business environment. The central bank abolished the fixed currency system. Multiple exchange rates for the currency kyat were unified

to

encourage

trade

and 26


foreign

direct

investment.

A

remained military dictatorship. The

generally

fair

unrigged

by-

recent democratization has allowed

With

greater freedom of association and

greater civic liberty, the opposition

led to the formation of NGOs. Some

party

for

Myanmar NGOs were aggrieved with

Democracy led by Aung San Suu

Chinese enterprises’ construction of

Kyi swept 43 out of the 44 seats

irrigation and hydroelectric projects,

contested in the by-election (“India

oil

Plays Catch-Up” 2012).

roads

and

election was

held

in 2012.

National

League

The political changes posed new challenges

to

China’s

Myanmar.

In

the

benefited

from

status

past,

Western

in

China

economic

sanctions on Myanmar. Without the competition Chinese

of

Western

enterprises

capital,

and

workers

were able to fill the gap. The strong presence

of

people

Chinese

capital

fuelled

sentiments.

anti-Chinese

Both

government

and

and

Myanmar people

were

and natural

gaspipelines,

which

residents, lives,

have

affected and

environment

displaced

their

ways

destroyed with

compensation organized

and

little

in

the or

return.

residents

of

to

no They

protest

against these projects. The Chinese side

usually

claimed

that

compensation had been paid to the affected

residents.

Nevertheless,

much of the money was believed to be embezzled by corrupt officials (Sun 2012b).

suspicious of China’s intention of

Worst of all, when China dealt

sending armed patrols outside its

with Myanmar (and other countries),

borders

Rivers

it only made deals at government

after 13 Chinese sailors were killed

level. It seldom engaged the NGOs

in

of

in other countries. Therefore it often

that

failed to consider public opinions in

Chinese businessmen made fortunes

other countries on the policies of

by

down the Mekong

Thailand

Myanmar

people

marking

Myanmar

in

up

and

2011.

Lots

complained their

exports

to

Chinese governments and activities

paying

bribery

to

of Chinese firms and people. The

collaborate with Myanmar officials

political

change

on

pressured

the

various

construction,

ventures.

large

Myanmar

government

to

be

contractors

more sensitive to public opinions.

may hire Chinese, not local workers,

The ignorance of Myanmar’s public

and

opinions

local

use raw

Chinese

In

in

made-in-China materials.

The

but

not

eventually

backfired:

In

average

face of public resentment against

Myanmar people benefited little from

the Chinese-funded Myitsone dam

the Chinese business activities. Anti-

project with a price tag of US$3.6

Chinese sentiments could have been

billion, Myanmar government halted

easily suppressed if Myanmar had

the

project

altogether

in

2011 27


(“Relations Fuller,

with

2011).

Mandalay

In

religious

Myanmar, the

the

centre

2012;

city

cultural

of

the US to start dialogue with the

of

government. In 2011, US Secretary

and

of State Hillary Clinton paid a visit

Mandalay

to

Myanmar,

being

the

Chinese businesses and people were

ranking

US

prominent. The strong presence of

country

in

Chinese billboards, characters, and

Later on, US resumed sending its

other cultural symbols raised the

ambassador

eyebrows

allowed US enterprises to invest in

Chinese

of

local

shops

people.

forced

more

visiting

than

to

50

the

years.

Myanmar

and

by

Myanmar (Blanchard 2012). The ice-

Myanmar officials to remove their

breaking visit of Hillary Clinton was

Chinese signs (“Insight: As Myanmar

followed by other Western leaders.

opens”2012; Spegele 2011).

British Prime Minister David Cameron

The

were

Some

officials

highest

political

changes

in

Myanmar may also weaken China’s leverage on Myanmar through the return

of

Western

political

and

economic influences. Myanmar was the only Southeast Asian country that

is

closed

tightened

to

US.

long-standing

sanctions

after

The

US

economic

2003

Depayin

Incident in which opposition leader Aung

San

Suu

Kyi

and

their

supporters were attacked by thugs suspected to be sponsored by the military junta. The US stepped up its

economic

violent

sanctions

crackdown

after on

the anti-

government protest in Yangon in September produced

2007.

These

little

sanctions

progress

in

undermining the military junta or improving the people’s livelihood. US policy

community

affairs has

on

Myanmar

been called upon to

rethink its policy (Holliday 2005). Democratization

in

Myanmar

visited Myanmar. Soon afterwards, European

Council

economic

sanctions

remained.

Agricultural

(Wang

2012;

renewed

2012). of

The

Western

countries with Myanmar may affect the belief of the Chinese leaders that

Myanmar

is

China’s

bulwark

against Western encirclement from its south west. China’s interests in Myanmar are also challenged by India. India has close

historical

Myanmar. Burma

relations

British

before

with

India

oversaw

two

countries’

the

independence. Indian entrepreneurs, professionals,

and

public

administrators

once

played

in

Burmese

significant

roles

economy,

professions,

administration. historical

and

However,

dominance

nationalistic

human

assistance

Zhang

contacts

conditions opened up a window for

improved

Myanmar

worth 150 million Euro was offered

comfortably

its

on

while the sanctions on arm trade

right

and

suspended

with

public Indian’s

did

not

sit

Myanmar’s

sentiments.

Their 28


relations

were

Myanmar’s

dismal

record.

In

strained

by

India would provide Myanmar with

human

right

credits of US$ 500 million (Prime

addition,

India

was

annoyed by Myanmar indifference to the

rebel

guerillas

from

Manipur

state in the northeast India. These rebels took refuge in the forests of northern

Myanmar

to

flee

Indian

army’s attack. In order to pressure Myanmar for hardening its policies towards

these

rebels,

India

once

provided assistance to the armed ethnic

groups

in

Myanmar

and

followed the Western countries to impose

economic

sanctions

(Egreteau 2008).

Minister’s Office 2012). In

order

not

depend

too

much on China for weapon supply, Myanmar diversifies its sources of weapon Israel,

procurement and

brought

to

Russia,

Singapore.

in

other

regional

Myanmar

countries

and

organizations

counterbalance projects

were

to

China. signed

Energy

with

India,

Thailand, and South Korea. In June 1997, Bangladesh, India, Sri Lanka, and

Thailand

organization

In 1991, India started to turn its

to

India,

Sri

formed called

Lanka,

a

regional

Bangladesh, and

attention to Southeast Asia under

Economic

its “Look East Policy” in a bid to

Myanmar attended their first plenary

jump

meeting

on

the

bandwagon

of

the

Cooperation

Thailand

as

an

observer.

December

Myanmar was India’s gateway to this

BIST-EC which was then renamed

region. Out of the economic motive,

BIMST-EC

India invested in the construction of

Myanmar, Sri Lanka, and Thailand

railway, port facilities to improve the

Economic

land transportation between the two

admission Bhutan and Nepal as new

countries. Besides, India participated

member

in

renamed Bay of Bengal Initiative for

projects

and

Myanmar

In

growing Southeast Asian economies.

hydropower

1997,

(BIST-EC).

joined

(Bangladesh, Cooperation). countries,

India, With

BIMST-EC

the was

exploration of oil, gas, timber,

and

precious

stones

(Egreteau

2008).

In

May

Indian

Prime

2012, Minister

Manmohan visited

Singh

Myanmar

to

sign 12 agreements on agriculture, exchange, technology, aviation.

cultural information and

civil

Meanwhile, 29


MultiSectoral

and

geographical positions and Myanmar

Economic Cooperation (BIMSTEC) in

is reliant on China’s support for

2004. BIMSTEC agreed to establish

fighting Western isolation, supplying

a

weapons,

free

Technical

trade

member

area

and

developing

the

economy. The political changes in

investment.

Myanmar and the increasing civic

Moreover, it identified 13 areas of

liberty allow Myanmar leadership to

cooperation,

and

reach out the leaders of Western

and

countries (such as US and UK) and

tourism,

other democracies (such as India

commerce,

trade

transport

communication, public

and

namely

investment, technology,

to

the

stimulate

trade,

countries

among

energy,

fisheries,

health,

agriculture,

poverty

alleviation,

counter-terrorism and transnational crime,

environment

and

natural

disaster management, culture, and people to people contact. Myanmar took

the

lead

in

energy

and

agriculture cooperation (The Halal Science

Center,

Chulalongkorn

University 2008).

Myanmar’s

comparison

other

by China

natural

strategic looks

resources

at and

to

US

and

China, Myanmar is a small nation. Instead of hopelessly taking side between

the

Western

World

and

China, Myanmar’s political leadership is successful in balancing the two camps.

Furthermore,

proactive countries.

China and Myanmar are tied with considerations.

In

in

Southeast

Concluding Remarks

each

and Japan).

and By

Myanmar

is

engaging

other

South

Asian

providing

competing

forces with interests at stake in Myanmar,

Myanmar’s

political

leadership is able to maintain their sovereignty and independence.

30


EX LEGE: “A IMPORTÂNCIA DA ESCRITA NA EXPANSÃO DO DIREITO” DR.ANTÓNIO PINTO PEREIRA PROFESSOR AUXILIAR NO ISCSP INVESTIGADOR E MEMBRO INTEGRADO DO INSTITUTO DO ORIENTE

Meus queridos amigos, “Ex Lege”é a coluna, com contornos jurídicos, que me disponibilizei apresentar com caráter regular na Revista Pacta, já prestigiada e em sólido plano de crescimento, num notável esforço do Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais do ISCSP, a quem por isso presto a minha sincera homenagem. Neste primeiro artigo vamos fazer uma incursão à antiguidade clássica, porta de entrada de tantos ensinamentos para o Homem, tendo-me lembrado de escrever o presente artigo sobre:

“A importância da escrita na expansão do Direito”

1. Imaginemo-nos num tempo remotamente distante em que eram variadas e muito dispersas as civilizações (normalmente conflituantes entre si) e, por essa razão, exerciam diminuta importância, estritamente localizada à escala da igualmente esparsa dimensão de cada povo. Em consequência, era pequena a influência dos exemplos jurídicos mais antigos nas civilizações posteriores. Foi o advento da nova escrita, desenvolvida a partir dos fenícios, que permite uma expansão homogénea do Direito num mundo então cada vez mais interligado. Até essa altura os dois sistemas dominantes eram (1) a escrita cuneiforme suméria e (2) os hieróglifos egípcios: — O sumério foi a primeira língua escrita conhecida. O seu sistema de escrita chamava-se cuneiformepor utilizar certos tipos de escrita feitos com

auxílio de objetos em forma de “cunha”. Inicialmente a escrita representava formas do mundo (pictogramas),que eram gravadas em tabuletas de argila, primeiro em sequências verticais e depois horizontais e da esquerda para a direita.A escrita cuneiforme foi adotada subsequentemente pelos acadianos, babilónicos, elamitas, hititas e assírios e adaptada para escreveremnos seus próprios idiomas; foi extensamente usada na Mesopotâmia durante aproximadamente 3 mil anos, apesar da natureza silábica do manuscrito (como foi estabelecido pelos sumérios) não ser intuitiva aos que falavam os idiomas semíticos. — O sistema hieroglífico assentava em hieróglifos, termo originário de duas palavras gregas: ἱερός (hierós) "sagrado", e γλύφειν (glýphein) "escrita", e era cada um dos sinais da escrita de antigas civilizações 31


usada pelos egípcios, pelos hititas e pelos maias.Além disso, era uma linguagem hermética e enigmática, apenas conhecida pelos sacerdotes, os membros da realeza, os altos cargos e os escribas, que sabiam a arte oculta de ler e de escrever esses sinais "sagrados".A escrita hieroglífica constitui provavelmente o mais antigo sistema organizado de escrita no mundo, e era vocacionada principalmente para inscrições formais nas paredes dos templos e nos túmulos.Os hieróglifos foram usados durante um período de 3.500 anos para escrever a antiga língua do povo egípcio. 2. É neste contexto evolutivo que surge a Fenícia (em fenício: , Knaˁn; em hebraico: ‫כנען‬, Kna'an; em grego antigo: Φοινίκη, Phoiníkē; em latim: Phœnicia; em árabe: ‫)ف ي ن ي ق يا‬, uma antigacivilização cujo epicentro se localizava no norte da antiga Canaã, ao longo das regiões litorais dos atuais Líbano, Síria e norte de Israel. A civilização fenícia foi uma cultura comercial marítima empreendedora que se espalhou por todo o mar mediterrâneo durante o período situado entre 1500 a.C. e 300 a.C. Os fenícios foram a primeira sociedade a fazer uso extenso, ao nível estadual, do alfabeto. Mas a sua principal conquista deve-se a uma razão puramente pragmática: os fenícios precisavam de um veículo de comunicação que facilitasse as relações de comércio entre os povos. Na realidade, o sistema cuneiforme sumério e os hieróglifos egípcios na altura em uso eram muito pouco práticos, já que dispunham de milhares de ícones e de símbolos muito variados. Tornava-se uma enorme perda de tempo para esse povo, conhecido pela sua vastíssima

atividade de comércio marítimo, desenvolver os seus negócios do dia-adia, por implicarem enorme volume de registo de cargas e de destinos, de embarcações e de mantimentos, de marinheiros e de armamento, em várias línguas diferentes. Daí que os fenícios tenham desenvolvido um novo sistema de anotação, usando um simples alfabeto (o alfabeto fenício), com vinte e duas letras. Assim como o alfabeto árabe e o hebraico, o alfabeto fenício contrasta com os sistemas anteriores por não ter símbolos e por representar sons de vogais; cada símbolo representa uma consoante, ao passo que as vogais precisavam de ser deduzidas no contexto de cada palavra. 3. O idioma fenício, que pertence ao grupo canaanita da família linguística semita, cedo se tornou a base de toda a língua moderna ocidental e oriental, adotada inicialmente pelos vizinhos dos fenícios e depois alargada a todos os países com quem negociavam, entre os quais os hebreus (razão pela qual a escrita hebraica é virtualmente semelhante à fenícia), tendo influenciado os alfabetos aramaico, hebraico e arábico, bem como diversos outros, desde o Norte de África e Europa, onde foi adotado pelos antigos gregos, que o passaram aos etruscos, que por sua vez o repassaram aos romanos. É essa expansão devida a um sistema de escrita mais ou menos uniforme e acessível aos diferentes povos, transformado num veículo comum de disseminação do conhecimento, que os romanos utilizam ao longo do vasto território que integra o seu império. E é também assim que a escrita fenícia permite a expansão dos sólidos institutos jurídicos a partir do período áureo do Imperium Romanum. 32


CADERNOS DO TIAGUISTÃO: “NÃO SE ATACAM ALIADOS”

DR.TIAGO FERREIRA LOPES INVESTIGADOR DO INSTITUTO DO ORIENTE No século XVI os Kumyks, terceiro grupo étnico com maior densidade populacional no Daguestão (República da Federação da Rússia localizada no Distrito Federal do Cáucaso Norte), constituíram a sua primeira estrutura de poder: o Shamkhalato de Tarki. O Shamkhalato de Tarki provou, desde logo, ser um adversário de peso contra os intentos do Império Persa e do Império Russo apesar de ter uma população inferior a 300.000 habitantes. Tarki, que contava somente com a ferocidade dos seus soldados e com as várias peculiaridades morfológicas do território, conseguiu vencer batalhas contra os Impérios (Russo e Persa), contra os khanatos, khaganatos, principados e reinos circundantes. A sua rede de contactos era vasta mas o Shamkhal, líder do Shamkhalato, sabia que contactos e aliados são coisas distintas e, por isso, votou-se ao isolamento no seu palácio. A resiliência de Tarki levou a que o cristianizado Reino da Ibéria (Geórgia Oriental) pedisse auxílio ao Czar do Norte. A delegação que procurou a ajuda do Império Russo

em 1586 não podia saber que dois séculos depois o “Tratado de Georgievski” (1783) assinalaria o princípio do fim da independência. E o amigo do Norte, o protector de longa data, tornar-se-ia suserano no século seguinte. A Ibéria ficou serena. Não se atacam aliados! A chegada dos Russos empurrou Tarki para uma aliança com a Pérsia Safávida. A derrota da Pérsia frente aos Russos levaria o Shamkhal a jurar lealdade a Petersburgo em 1803. Anos depois o Shamkhalato seria dissolvido e transformado em província. Os Circasses, a Ocidente, também começaram por se aliar (via matrimónio) ao Império do Norte e acabaram por ser conquistados pelo aliado. É curioso, de resto, como não raras vezes o Aliado se torna no problema. Em política não é novo que o Aliado apenas o é enquanto servir os seus interesses. Portugal e a Inglaterra viveram essa tensão ao longo da sua História Diplomática. Não foram poucos os momentos em que Sua Majestade da Ilha atacou descaradamente os interesses da Lusitânia e os Lusitanos, muitas das vezes, apenas 33


puderam sorrir… atacam aliados!

Afinal,

Não

se

em Detroit, mas há muito que já faltava moralidade nos EUA…

Na Pérsia, quando o Trono do Pavão mostrava sinais de fraqueza, os Estados Unidos da América decidiram apoiar a sublevação contra um PrimeiroMinistro eleito abrindo caminho a uma Revolução que instaurou uma República Teocrática. O aliado dos EUA passou a inimigo mortal. Os EUA ficaram sem saber o que fazer, porque se é verdade que Não se atacam aliados o que fazer a exaliados?

O aliado Hussein, o tal que controlava o Iraque contra o Irão (o mesmo que passou de aliado a exaliado com uma mãozinha dos EUA), passou a inimigo terrível e em 2003 teve mesmo que se despoletar uma guerra. Não se atacam aliados, a não ser que se demonizem os mesmos; que se inventem narrativas; que se criem argumentos para autoconsumo e para satisfação de uns contra o bemestar (e a vida!) de muitos.

No Afeganistão os mesmos EUA, cuja noção de lealdade é tão consistente como gelo no deserto, apoiaram um Osama para combater os “Vermelhos”. Deram-lhe armas, dinheiro, treino, condições e depois, muitos anos depois, lançaram-se numa luta contra esse mesmo Osama porque esse Osama os atacara! Isto sabendo Osama que não se atacam aliados, porque aliado ferido é pior do que “socialite” que não faz capa de revista…

Voltemos ao Afeganistão. Portanto, os EUA apoiaram o Osama contra a “Ameaça Vermelha”. O Osama atacou os EUA. Os EUA transformaram um aliado, mais um, em inimigo mortal! Os EUA tentaram caçar o Osama. E quando outro Hussein, de primeiro nome Barack, chegou à liderança dos EUA, Osama foi capturado e morto. Mas claro que Não se atacam aliados, a não ser quando é mesmo preciso!

Os EUA têm, de resto, um claro problema com os seus aliados, como acontecera com o Império Russo. O aliado passa a inimigo, com a mesma velocidade com que viaja o som. Ao perder o aliado iraniano, os EUA voltaram-se para o Iraque e apertaram a mão a um tal de Hussein. O mesmo Hussein seria feito cidadão honorário de Detroit que, ironia dos tempos, declarou bancarrota recentemente. Falta agora dinheiro

No Leste Europeu a Moldova, a Ucrânia e a Bielorrússia descobrem agora que por vezes o aliado não tem que materializar o ataque, para atacar na mesma. A tentativa de olhar para Bruxelas deixou Moscovo nervosa. Os avisos têm sido muitos. Moscovo sabe, claro que sabe, que não se atacam aliados. Mas também sabe que aliado mais fraco não é aliado (ideia que subentende uma paridade de forças) e por isso nada do que está a ser feito é um ataque… 34


É talvez por não se atacarem aliados que a China e a Rússia dançam juntas no Conselho de Segurança da ONU. As mesmas aliadas com assuntos por resolver na Sibéria e na fronteira com a Mongólia. As mesmas aliadas que se enfrentam diplomática e financeiramente na Ásia Central para reconstruir e projectar poder. Mas até ao momento mantém-se tudo sereno, já que Não se atacam aliados! No espaço de Bruxelas, na Casa dos 28 (ou dos 27+1 como prefere o Reino Unido), não se atacam aliados. Antes regulamentam-se relações, modificam-se condições, aumentamse pressões, vendem-se ilusões, criam-se situações mas não se atacam aliados. Nenhum dos 27+1 vale mais do que os outros, mas uns são mais iguais do que outros. E assim não se atacam aliados, porque não existem aliados para atacar! No cantinho da Ibéria Peninsular não se atacam aliados,

mas atacam-se as pretensões dos aliados. E assim ventos de Castela dizem ao mundo que os intentos marítimos de Lisboa não são sérios e muito menos são legítimos. As mesmas vozes que falam de irmandade e de união fraterna lusoespanhola, clamam pelo fracasso dos planos de Lisboa. Mas, como todos sabemos, não se atacam aliados. Já parentes e enteados… Não se atacam aliados, porque não há aliados. Há sorrisos, apertos de mão, flashes, canetas MontBlanc, assinaturas de “coisas”, garrafas de champanhe, mais sorrisos, promessas com a consistência de sorvete derretido mas não há aliados. Há o aliar de planos, de objectivos comuns. Há o circunstancialismo da amizade formalizada pela diplomacia, mas não há aliados. Há juras de fidelidade, quase como um Cavaleiro medieval a uma donzela, mas não há aliados. E é este não haver aliados, com a seriedade e dignidade que o vocábulo impõe, que nos explica a contemporaneidade.

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RECENSÃO CRÍTICA: ‘RISK’, DEBORAH LUPTON DRA. MARIA FERREIRA PROFESSORA AUXILIAR NO ISCSP O conceito de risco tem vindo a assumir uma importância fundamental no contexto politológico doméstico e global. Neste sentido, a obra ‘Risk’ de Deborah Lupton constitui uma preciosa contribuição para a teorização sobre o referido conceito. Lupton considera o conceito de risco como um produto da modernidade. Com efeito, a necessidade e vontade humanas de controlar as condições da sua existência derivam da percepção de que o risco não deve ser naturalizado e articulado com o destino ou a vontade divinas. A necessidade de dominar a contingência da condição humana e de dotar de ordem a realidade social conduziu as sociedades modernas ao desenvolvimento de estratégias de controlo do risco. A tentativa de reduzir a contingência inerente à existência humana está directamente articulada com a secularização das sociedades e com a progressiva racionalização das tecnologias de governação dos estados modernos. A modernidade marca a industrialização das sociedades e a afirmação do liberalismo económico e do liberalismo político. A generalização da ideia de que a legitimidade dos aparelhos políticos advém do contrato social e o desenvolvimento de técnicas de controlo quantitativo e qualitativo dos fluxos populacionais conduz à personificação e socialização do risco. Instrumentos como a estatística, o cálculo

de probabilidades, a epidemiologia ou os estudos demográficos populacionais foram criados e pensados com o objectivo de controlar as características da população e isolar potenciais factores de risco. Neste contexto, a articulação entre o controlo do risco e a governamentalização das sociedades torna-se essencial. O risco passa a ser perspectivado como um factor passível de ser antecipado, evitado ou os seus efeitos minimizados. As expectativas geradas no seio das sociedades modernas, bem como a progressiva racionalização dos aparelhos governativos e a sofisticação das políticas públicas vieram exigir o controlo dos factores de risco e de incerteza. Se a pré-modernidade assumia o risco como uma condição natural da vida humana e social, a modernidade passou a considerar tanto o risco como a incerteza como entidades objetivas e ontologicamente invariáveis. A essencialização do risco e a reificação do mesmo como um dado objetivo passível de medição e de controlo caracteriza a perspetiva racionalista e científico-cognitiva sobre o risco e a incerteza nas sociedades contemporâneas. Todavia, a pós-modernidade, e como Lupton discute exaustivamente, traz a desconstrução das perspetivas racionalistas sobre o risco. As abordagens construtivistas e pós-estruturalistas, características da pós-modernidade, não tratam o risco como um dado objetivo, mas sim como uma construção social ou uma tecnologia de governo. Estas abordagens recusam o racionalismo e positivismo inerentes à cristalização do risco como um fato objetivo e salientam de que forma o risco depende de considerações culturais 36


coletivas e de vontades de poder. Considerar o risco de uma perspetiva cultural ou pós-estruturalista permite-nos desconstruir tanto as premissas subjacentes às políticas públicas internas como as premissas que se encontram subjacentes à política externa dos estados e, de uma forma mais geral, à política internacional. Por que razão as ameaças à segurança dos estados são representadas como excecionalmente graves e passíveis de legitimar a securitização do ambiente internacional e as ameaças à segurança humana dos indivíduos são negligenciadas

e tratadas como hierarquicamente inferiores? Qual o interesse dos estados na promoção de comportamentos e hábitos sociais de prevenção absoluta do risco? De que forma o risco se tornou uma tecnologia de poder e de governo capaz de disciplinar e determinar as políticas migratórias dos estados através da definição de grupos biopolíticos de risco. A resposta a estas questões exige uma leitura atenta da literatura disponível sobre o conceito de risco, bem como uma discussão politológica profunda sobre o mesmo conceito.

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EXPERIÊNCIA: VOLUNTARIADO NO CAMBOJA POR ISABEL ALVES

Esta história – a minha história – começou com o blogue pessoal DA pessoa que me inspirou com a sua experiência e que me levou a conhecer o mundo que é a AIESEC. Mas o que é a AIESEC? “A AIESEC é uma organização sem fins lucrativos, global, não política, independente gerida por estudantes e recém-licenciados do ensino superior.” Comecemos então. A AIESEC proporciona estágios internacionais de voluntariado e profissional, como também os programas team member e team leader. Eu optei pelo estágio de voluntariado, que foi sempre o que quis fazer, mas nunca soube como.Candidatei-me em Fevereiro de 2012 para viajar em Julho. A experiência na AIESEC começa na sessão de esclarecimento, seguindo-se do processo de selecção que consiste na dinâmica de grupo, no teste de inglês, na review board (entrevista) e na OPS (fim-de-semana com a AIESEC). Se passares a todos estes passos, podes começar logo a procurar o teu estágio, que o encontrarás na base de dados. Como já nada é de graça, a AIESEC tem um custo e a viagem fica por tua conta, sem nenhuns apoios ou bolsas (mas vale a pena!). Podes-te inscrever num dos vários recrutamentos que acontecem ao longo do ano no websitewww.aiesec.pt

Falando da minha experiência, bem, foi fantástica e foram talvez as melhores seis semanas da minha vida! Eu fui para Siem Reap, no Camboja, dar aulas de inglês a crianças órfãs e pobres numa ONG. Na AIESEC, preparam-nos para o choque cultural, mas nunca sempre é suficiente, porque entramos numa cultura completamente oposta da nossa, à qual não estamos habituados. Lembro-me de esperar uma hora no aeroporto, e chegar a pessoa responsável para me levar à casa onde iria ficar de scooter, e eu tinha uma mala de porão cheia de donativos, uma mala pesadíssima às costas e ainda uma mala de mão! Foi um começo em cheio! Chorei tanto nos primeiros dias porque não estava habituada à comida e tinha imensa fome, estava longe de casa, o meu cartão de crédito não funcionava, nem a internet e nem o telemóvel, e tinha de atravessar estradas de trânsito caóticas de bicicleta. Após uma semana, já estava instalada e tudo a funcionar (quase) bem. Acordava 38


sempre cedo para dar aulas, tinha de as preparar pois não tinha nenhum programa para seguir, brincava com as crianças e trabalhava no meu projecto de recolha de fundos para a escola. Na casa onde fiquei, partilhava quarto e vivia com pessoas da China, da Bélgica, da Suíça, dos EUA, de Singapura, etc., e é uma experiência maravilhosa conhecer tantas pessoas com culturas diferentes, para além das amizades que se fazem e das pessoas que se conhecem ao viajar pelo país! Eu tentava viajar sempre ao fim-de-semana, ao estilo dos backpackers, e lembro-me de ficar em hostels por dois dólares à noite. Houve uma vez que fiquei num bungalow, em Ratanikiri no Nordeste do Camboja, e de ter visto uma aranha do tamanho da minha mão, que julgo ter sido uma tarântula, bem junto à minha mala! As crianças às quais dava aulas viviam com quase nada, mas eram tão alegres, e foi essencialmente o que aprendi, que podemos ser felizes com pouco, o importante é estarmos rodeados de pessoas que nos fazem feliz. Como não tinham nada, decidi colocar um pouco de empreendedorismo social jovem e criar um projecto de recolha de fundos e com esse dinheiro, que foi mais do que sequer esperava, comprei armários, material escolar e imensos livros, coisas que não tinham na escola pela falta de fundos. Era uma escola para brincar quase. Lancei a campanha via facebook e enviei e-mails para várias pessoas, de forma a que chegasse a todos.

Hoje, lembro-me de negociar com os tuc-tucs drivers; de chorar com a comida picante; de sofrer com os mosquitos; de dançar na areia da ilha de Koh Rong; de sentir o mundo nas minhas mãos quando abraçava as crianças; da menina que queria vender-me uma pulseira e disse para jogarmos à pedra, papel, tesoura, para lhe poder comprar uma pulseira; de fazer viagens de 10h de autocarro; de comer o melhor gelado da minha vida; do amok; do cheiro dos mercados; dos sons “Hellô Laidiiiiiiiiiiiii, you want scarve? Good price for youuu!”; dos fruit shakes de maracujá; do mangustão; da festa de aniversário que preparámos para as crianças; do dia de praia com elas; e de conhecer pessoas tão inspiradoras. Podem considerar alguns destes momentos não tão agradáveis, mas vejo que foram momentos inesquecíveis e que cresci imenso como pessoa. Não foram só eles que aprenderam com as minhas aulas, como também aprendi o que é viver de modo simples, adaptarmo-nos para superar as dificuldades, sempre com um sorriso na cara. Aconselho vivamente esta experiência, e como a revista não é só para este artigo, se estiverem interessados no meu relato de voluntariado mais detalhado, visitem o meu blogue www.dovestamiavaligia.wordpress.com, aqui e no facebook! Com a AIESEC, podes fazer voluntariado em mais de 110 países!

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Pacta (8ª EDIÇÃO)  
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