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Portugal como Destino seguido de Mitologia da Saudade Eduardo Lourenรงo


Universidade do Algarve Design de Comunicação Discentes: Inês Gonçalves Morgan Bastos Docentes: Prof.ª Joana Lessa Prof.ª Gabriela Soares Ano Lectivo: 2013 / 2014 Textos de: Eduardo Lourenço Editora: Gradiva Publicações Ano: 1999


Portugal como Destino seguido de Mitologia da Saudade Eduardo Lourenรงo


CapĂ­tulo I Portugal como Destino


Portugal como Destino Excerto I A realidade efectiva de um povo é aquela que ele é como actor do que chamamos «história». Mas o conhecimento — em princípio impossível ou inesgotável — da realidade de um povo enquanto autoconhecimento do seu percurso, tal como a historiografia se propõe a decifrá-lo, não cria nem pode criar o sentido desse percurso. Não é a pluralidade das vicissitudes de um povo através dos séculos que dá sentido à sua marcha e fornece um conteúdo à imagem que ele tem de si mesmo. A história chega tarde para dar sentido à vida de um povo. Só o pode recapitular. Antes da plena consciência de um destino particular — aquela que a memória, como crónica ou história propriamente dita, revisita —, um povo é já um futuro e vive do futuro que imagina para existir. A imagem de si mesmo precede-o como as tábuas da lei aos Hebreus no deserto. São projectos, sonhos, injunções, lembrança de si mesmo naquela época fundadora que, uma vez surgida, é já destino e condiciona todo o seu destino. Em suma, mitos. Mas do que se trata agora não é de «história» que a vários títulos está saindo da História... É mesmo de memória.

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Excerto II Garrett fundou em nostalgia elegíaca, colocando Camões, de uma vez para sempre, no centro da nova mitologia pátria, pátria de feitos, sem dúvida, mas pátria de canto, de cultura, sem as quais a memória deles não existe. Pátria que nesse momento de liberdade triunfante, mas impotente — tão vulnerável a sente Garrett como quase todo o seu século —, precisa de se lembrar do seu passado glorioso para não desesperar do futuro. Portugal existe porque existiu e existiu porque Camões o salvaguardou na sua memória, como a dos Hebreus se perpetua na Bíblia. Garrett não espera o futuro e o renascimento da alma e da cultura portuguesas de qualquer profecia com garantia providencial, mas da vontade e da capacidade de reescrever o seu passado como se fosse presente e de reler nas pedras do presente que atestam tão glorioso passado, «viajando na nossa terra», a mensagem do futuro. A saudade é o gosto amargo do bem passado, «delicioso pungir de acerbo espinho», mas igualmente penhor de ressureição do que, por excesso de vida, não pode morrer. Com ele, a saudade não é apenas perfume de alegrias mortas, sentimento pouco desencantado

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de não encontrar no presente a imagem perdida de um país fora da história, como lhe parece — ou parece o seu a olhos estranhos —, mas o corpo e a sombra da alma portuguesa. Unindo historicamente, e não acidental ou liricamente, Portugal e a saudade, Garrett instaurou a primeira mitologia cultural portuguesa sem transcendência. A que fez do país de Camões o país-saudade, o Portugal-saudade, que não tem outro destino senão a busca de si mesmo. Com a adequação aos tempos e aos modos da futura vida portuguesa, o essencial desta percepção mítica de Portugal permanecerá intacto até aos dias de Pascoais e de Pessoa. O nosso romantismo inventou uma imagem para o novo Portugal e com ela criou uma cultura diferente da antiga, inquieta, exigente, destinada a descobrir o enigma do passado e o não menor do nosso eclipse, mais aparente do que o real... Pascoais não espera do regresso à tradição épica do País ou da contemplação exacta da sua beleza sem par, neomedieval ou simbolista, uma qualquer regeneração de Portugal. Embora atenta à efectiva situação da vida portuguesa — em particular à do

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Excerto II (Cont.) país rural, que é o país real que Pascoais conhece — a Renascença, movimento que recebe dele o nome e a inspiração, concerne um país-alma, uma realidade inteiramente espiritual. Ou, antes, um continente-sentimento que é o da vida inteira vocacionada ao mesmo tempo para uma insatisfação sem fim e para misteriosa beatitude dessa insatisfação. A vida, a história, o verbo de uma língua singular particularmente impregnados desse sentimento de ausência do mundo, por mais que seja conatural à sua maneira de viver em comunhão distraída e efusiva com a natureza ou de saborear a ausência na mais ofuscante das presenças, não particularizam essa vivência crucial da existência humana. Encontram um nome para ela que, ao fim de longos séculos, amando-a como o verbo escuro de uma criação que tudo envia à noite, só nos deixa o rasto apenas evocável do que foi, não do que é. O que nós não somos — porque nada o é — como realidade somo-lo se como ausência o amamos, e através desse amor, lhe conferimos existência, apenas, mas sem limites, saudosa.

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Capítulo II Tempo Português


Tempo Português Excerto I A cultura portuguesa nunca produziu — pelo menos até Eça de Queirós — nem Montaigne, nem Montesquieu, nem Swift, nem Lessing, isto é, um olhar exterior a si mesma que a acordasse, não de qualquer cegueira dogmática ou culposa, mas da contemplação feliz e maravilhada de si mesma. Todos os povos vivem, mais ou menos, confinados no amor de si próprios. Mas a maneira como os portugueses se comprazem nessa adoração é verdadeiramente singular. Seria absurdo pretender que um povo entre outros, e ainda por cima um pequeno povo, possa estar fora ou escapar a esse maelström a que chamamos História. Contudo, evitar o destino comum, instalar-se, não se sabe por que aberração ou milagre, à margem do mundo, é um pouco aquilo que o povo português sempre, tem feito. Portugal vive-se «por dentro», numa espécie de isolamento sublimado, e «por fora», com o exemplo dos povos de vocação universal, indo ao ponto de dispersar o seu corpo e a sua alma pelo mundo inteiro. A imagem é de Camões e todos os Portugueses a conhecem de cor. Essa mitologia está inscrita na bandeira portuguesa. Portugal foi o único país que colocou no cento da sua bandeira a esfera armilar, em suma, a representação do universo.

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Excerto II Os Portugueses não são o único povo que se sente desconhecido, mal conhecido ou decaído do antigo esplendor, real ou imaginário. De algum modo, é o caso de toda a gente e, hoje, até daqueles povos e culturas que, durante séculos, os outros olharam como faróis do mundo. Mas o que surpreende nos Portugueses, é o facto de parecer terem decidido viver como cristãos nas catacumbas. Não porque pese sobre eles qualquer ameaça efectiva, mas porque não suportam ser olhados por quem ignore ou tenha esquecido a sua vida imaginária... Povo emigrante antes de o ser, por vontade ou à força, adaptável, discreto no meio dos outros, sempre pronto, na aparência, a trocar a sua identidade pela dos outros, na realidade nunca abandonou o seu ponto de partida. Quer dizer, a sua verdadeira pátria, a do sonho adormecido mas nunca extinto no fundo do seu ser. Um tal povo, tão à vontade no mundo como se estivesse em casa, na verdade não conhece fronteiras porque não tem exterior. Como se fosse, sozinho, uma ilha. Mundo onde, D. Sebastião de si mesmo, esperasse um regresso sempre diferido, sonhando com a sua vida passada.

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Excerto III Portugal se tornara esse povo de uma nostalgia sem verdadeiro objecto, devido ao seu destino de povo marítimo, viajante, separado de si mesmo pelas águas do mar e do tempo. Sem dúvida que o nosso destino de errância conferiu a essa nostalgia a esse afastamento doloroso de nós próprios, o seu peso de tristeza e de amargura, a sua coroa de bruma. E a lembrança da casa abandonada, esse gosto de mel e de lágrimas que a palavra-mito dos Portugueses sugere. Mas não é nesse destino que devemos colher a origem, a essência do sentimento que a si mesmo se plasma na palavra, no pensamento, da saudade. A saudade, a nostalgia ou a melancolia são modalidades, modulações da nossa relação de seres de memória e sensibilidade com o tempo... Só esse «tempo humano», jogo da memória e constituitivo dela, permite a inversão, a suspensão ficcional do tempo irreversível, fonte de uma emoção a nenhuma outra comparável... É o conteúdo, a cor desse tempo, a diversidade do jogo que a memória desenha na sua leitura do passado o que distingue a nostalgia da melancolia e estas duas da saudade.

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Excerto III (Cont.) Voltar-se para o passado, lembrar-se, nunca é um acto neutro, mas essa regressão constituitiva da memória pode ser vivida apenas como simples alusão, mero sinal endereçado aos acontecimentos ou aos sentimentos que salpicam, como nos romances de Virginia Woolf, o decorrer flutuante, intermitente, da «nossa vida». Os «regressos» específicos da melancolia, da nostalgia, da saudade são de outra ordem: conferem um sentido ao passado que através delas evocamos. Inventam-no como uma ficção. A melancolia visa o passado como definitivamente passado e, a esse título, é a primeira e mais aguda expressão da temporalidade, aquela que a lírica universal jamais se cansará de evocar. A nostalgia fixa-se num passado determinado, num lugar, num momento, objecto de desejo fora do nosso alcance, mas ainda real ou imaginariamente recuperável. A saudade participa de uma e de outra, mas de uma maneira tão paradoxal, tão estranha — como é estranha e paradoxal a relação dos Portugueses com o «seu tempo» —, que, com razão, se tornou um labirinto e um enigma para aqueles que a experimentam, como o mais misterioso e o mais precioso dos sentimentos.

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Excerto IV Contrariamente à lenda, o povo português, ferido, como tantos outros, por tragédias reais na sua vida colectiva, não é um povo trágico. Está aquém ou além da tragédia. A sua maneira espontânea de se voltar para o passado em geral, e para o seu em particular, não é nostálgica e ainda menos melancólica. É simplesmente saudosa, enraizada com uma tal intensidade no que ama, isto é, no que é, que um olhar para o passado, no que isso supõe de verdadeiro afastamento de si, uma adesão efectiva ao presente como sua condição, é mais da ordem do sonho, esse passado-presente, que a «alma portuguesa» não quer abandonar... Com a saudade não recuperamos apenas o passado como paraíso; inventamo-lo. O nosso povo, imemorialmente rural, absorvido por fora em afazeres desprovidos de transcendência, mas levados a cabo como uma epopeia, com o seu talento do detalhe, da miniatura, é um povo sonhador. Não especialmente por ter cumprido sonhos maiores do que ele, mas porque, no fundo de si, ele recusa o que se chama a realidade. Ou, se se prefere, a ordem do tempo, rio sem regresso. Mais quixotescos que D. Quixote, os Portugueses não dão

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Excerto IV (Cont.) realmente muita atenção à realidade empírica. Suportam-na. mas não se dobram diante de nenhum desmentido da realidade. Nem mesmo da mais irrefutável de todas: a morte. Na sua ilha-saudade, a um tempo ilha dos mortos e ilha dos amores, como crianças, ignoram a morte. Ou, noutra versão, ela é-lhes de tal modo consubstancial («Morte, irmã coeterna da minha alma») que acabou por se lhes tornar invisível. Ninguém morre no país da saudade. Como nos sonhos. Com todas as forças do nosso imaginário, recusamos o nada. Sem dúvida, isto é verdadeiro para toda a humanidade. Mas para nós, Portugueses, essa recusa tornou-se um hábito na nossa alma. A saudade descida no coração do tempo para resgatar o tempo — o nosso, pessoal ou colectivo — é como uma lâmpada que recusa apagar-se no meio da noite. Talvez nos torne estranhos e mesmo complacentes para com a estranheza, mas esse sentimento é puramente ilusório. Sob outros nomes ou sem nomes, a saudade é universal, não apenas como desejo de eternidade, mas como sensação e sentimento vívidos de eternidade. Ela brilha sozinha no coração de todas as ausências.

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CapĂ­tulo III Melancolia e Saudade


Melancolia e Saudade Excerto I O sentimento da melancolia parece inscrever-se numa constelação de afecções da alma que vão da tristeza à angústia, sem esquecer o tédio. Na medida em que pertence à esfera do «psicológico», há interferências entre estes três «estados da alma», em especial entre a tristeza e o tédio. A angústia, essa, é mais nítida. Menos indistinta, leva o ser à beira da própria negação. Mais não é, aliás, que a vida subtraída ao futuro, asfixiada por um presente sem dimensões. Falta-nos o tempo e nós faltamos ao tempo... De certa maneira, o agustiado tem excesso de vida e de impaciência; não pactua com o futuro nem projecta nele as cores da sua angústia. Ao contrário da melancolia, a angústia não comporta o «jogo» com o tempo — tudo é urgência, a própria memória fica como que em suspenso. O campo próprio da angústia é o da imaginação, imaginação do pior, em que o real fica de fora. O tédio, pelo contrário, remete-nos para o real, para o tempo, mas não para o jogo do tempo, como a melancolia; subjugados pela realidade, estamos simultaneamente desligados dela, privados do cordão vivo que ela nos prende. A realidade está a mais e nós também.

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Excerto II A melancolia, segundo D. Duarte, é uma efemeridade real do corpo e da alma que não comporta qualquer desespero da providência divina. Não se passa o mesmo com a saudade, que D. Duarte foi o primeiro a descrever, sem nela se deter, associando-a ou separando-a da melancolia. Como para a análise dos outros sentimentos, D. Duarte não ultrapassa o horizonte de uma descrição espontaneamente «fenomenológica». Compara, nota as afinidades entre sentimentos que se entrelaçam no «nó» das emoções da alma, constantes e movediças, próximas e contrárias, de que se fabrica a saudade. Não a liga ao viver do tempo humano enquanto tal. Mas, entendendo-a como um jogo da memória afectiva, ao precisar que não releva do entendimento, mas do coração, estabelece o nexo entre a saudade e o tempo... O sentimento de saudade não é o centro das suas análises, nem desempenha o papel único, que terá mais tarde, de sentimento-chave, através do qual o enigma da alma portuguesa supostamente se revela... Porque insiste D. Duarte em minimizar ou ocultar este desejo quase insano que arrasta a memória para o passado e prefere crer que o prazer sentido releva mais da plenitude do presente que da do passado?

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CapĂ­tulo IV Da Saudade como Melancolia feliz


Da Saudade como Melancolia feliz Excerto I Podia, quando muito, em bom rigor, comparar-se ou situar no mesmo plano o estar «saudoso» e o estar «triste», mas não podemos dizer ter tristeza como dizemos ter saudades. A tristeza é experimentada como idealmente passageira; a saudade, pelo contrário, faz do «passageiro» algo de idealmente presente. Na verdade, não temos saudades, é a saudade que nos tem, que faz de nós o seu objecto. Imersos nela, tomamo-nos outros. Todo o nosso ser ancorado no presente fica, de súbito, ausente. Sentimo-nos como um rio que deixa de correr e reflui para a nascente. O aqui onde estamos assemelha-se a um crepúsculo, toda a «nossa» luz vai para aquilo que nos causa saudades, lugar ou presença, ou ambos, envoltos pelo mesmo «halo» de irrealidade. Saudade subentende, naturalmente, memória — é memória em estado de incandescência, que não se confunde no entanto com ela, nem sequer com a memória proustiana, pura irrupção do passado no presente ou fuga do presente para o mais antigo de nós mesmos. É por uma outra maneira de ser presente no passado, ou de ser passado no presente, que a saudade se distingue de uma simples manifestação «memorial». Como?

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Excerto II A memória é a autonegação do presente, o seu esquecimento vivido, voluntário ou involuntário, que idealmente nos proporciona um passado (ou o passado) como tal, idêntico na sua manifestação, na sua relação com a consciência, ao presente suspenso, apesar do sentimento de irrealidade de que se acompanha. A memória oferece-nos assim o que passou como se existisse ainda, a fantasia o que não existe como pura invenção e a imaginação do que não existe como se realmente existisse. Mas tanto a memória como a fantasia e a imaginação são, como se dizia antes, uma espécie de «faculdades» da alma, maneiras de encenar os seus modos de representação. A saudade não é da ordem da representação, mas da pura vivência. A consciência «saudosa» não joga consigo própria, é palco de um jogo. Não é o eu que contempla a saudade, a analisa ou joga com ela, é ela que faz dele joguete, que o avassala: o eu converte-se, por inteiro, em saudade. Não estamos aqui no plano da psicologia, ou mesmo no da gnoseologia, mas no plano de uma paradoxal ontologia. Como é possível esta estranha confusão de uma modalidade do nosso ser afectivo com todo o nosso ser?

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Excerto II (Cont.) Lembre-se que não somos seres inscritos, ou inseridos, como agora se diz, num espaço e tempo indeterminados, mas seres espacializantes e temporalizantes, unidos e divididos no espaço e no tempo que somos e que criamos... Se nos afastarmos desse lugar afectivo que nos pertence e a que pertencemos, sentimos então aquilo a que chamamos, em sentido próprio, nostalgia, o estar longe da nossa casa, do nosso lar, do lugar ondenascemos, na acepção própria e figurada. Costumamos dar a esse afastamento um conteúdo, por assim dizer, geográfico, mas não é disso que se trata. Na verdade, só quando à ausência vivida, física, se acrescenta o sentimento de que se romperam os laços com esse lugar que fazia parte de nós sentimos, no seu sentido pleno, a nostalgia... A nostalgia,sofrimento por conta de um bem perdido que eraconstrutivamente nosso, desvendase e revela-se como um sentimento essencialmente negativo, espécie de luto que o tempo desvanece sem o deixar esquecer. Há alguma possibilidade de contornar esse luto desde dentro, e não de fora, transfigurando-o em nostalgia, por assim dizer, feliz?

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Talvez não seja por acaso que devamos a Teixeira de Pascoais, o poeta que, melhor do que ninguém, mitificou o sentimento da saudade, a recolha intitulada Regresso ao Paraíso. Este «regresso» é obra da saudade, que subtrai a nostalgia ao sentimento da pura perda ou ausência, confiando-lhe a missão de transmundar a perda em vitória de sonho. Muitos duvidam de que tanto baste para distinguir verdadeiramente a saudade da nostalgia, mas podemos compreender onde se situa a linha divisória. No seu sentido primordial, a nostalgia inscreve-se no horizonte da espacialidade humanizada e nele toma forma. Nesta medida, pode mesmo findar se reintegrarmos o espaço humano cujo afastamento a provocou. Só em princípio, porém, porque pode acontecer (como sempre acontece) que o «tempo» — que é mais, neste caso, que acção humana ou medida exterior — tenha desfigurado o lugar de origem de que sentimos nostalgia. Se assim for, experimentamos perante o lugar revisitado uma nostalgia saudosa, o que mostra bem que a saudade se enraíza numa outra experiência, mais radical, ainda que no espaço afectivo. Experiência que é ao mesmo tempo a mais

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Excerto II (Cont.) universal e a mais pessoal das experiências, porquanto não tem outro conteúdo que não seja o vivido temporal, isto é, nós próprios, como filhos nascidos no coração do tempo e expulsos do seu lugar de nascimento. É a esta sensação-sentimento de ardermos no tempo sem nele nos consumirmos que propriamente chamamos «saudade». Os que nunca mudaram de lugar, levados pela mão do acaso ou da necessidade, não sentem nostalgia dele... A saudade (que mais podia ser?) é apenas isto: a consciência da temporalidade essencial da nossa existência, consciência carnal, por assim dizer, e não abstracta, acompanhada do sentimento subtil da sua irrealidade. Talvez só um povo permanentemente distraído da sua existência ou imbuído e inebriado dela a ponto de a esquecer, pudesse tomar por brasão da sua alma a figura da saudade. Talvez, simplesmente, porque, como povo, feliz na sua insconsciência, que é a da vida, não resigne a que nada fica de nada, como disse Unamuno. Quando nada resta de nada, fica ainda tudo desse nada. É isto que vivemos como saudade, unindo numa só intuição as visões, no fundo semelhantes, dos nossos maiores poetas...

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CapĂ­tulo V Sebastianismo: Imagens e Mirangens


Sebastianismo: Imagens e Miragens Excerto I É notório que há no texto de Costa Lobo um diálogo silencioso com Oliveira Martins e, no essencial, uma sitonia inegável. Como autor da História de Portugal, também o das Origens do Sebastianismo compreendeu não só a importância e significado do fenómeno, como descreve a sua genealogia e explica o seu mecanismo em termos psicológico-históricos de compensação. Como Oliveira Martins, dá-se de conta de que o sebastianismo é a imagem e o contradiscurso de um povo que tinha perdido, com a sua independência política, a sua identidade, ou, como ele diz, a sua voz distinta no concerto das nações. Mas, embora, por vezes, lhe seja perceptível não só a universalidade histórica do fenómeno português, o acento é colocado mais no seu carácter anómalo, relevando da patologia dos comportamentos históricos, que no seu carácter revelador e estrutural, à Oliveira Martins. Por isso escreve: «O epílogo, e a manifestação mais palpável do espírito nacional, é o insano mito do Sebastianismo, que continuou embebido na imaginação e nele nutrido pelo conhecimento da decadência nacional, e pela recordação e saudades de tempos mais felizes.»

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Excerto II Quem escreveu: «todo o homem vive mais ou menos vida dupla, a vida real e a vida imaginária, aquela que lhe é imposta pela necessidade e a outra que constitui o seu ideal», não estava muito longe de perceber que o Sebastianismo é a manifestação histórica, ao mesmo tempo positiva e negativa, da ruptura desse equilíbrio entre a vida real e a imaginária, sintoma de desordem causado pela nostalgia da ordem... Atenção porém: o mito é também já para Oliveira Martins, como será para Fernando Pessoa, a que a sua História servirá de Décadas, «o nada que é tudo». Portugal não tem nem pode ter outra existência senão sob o modo «heróico». O seu reverso é sempre vivido como «apagada e vil tristeza» ou então «nevoeiro» sebástico, como diz a Mensagem... A saudade é memória, consciência da essencial temporalidade do ser que não tem nem pode ser sobre si mesmo mais alta contemplação que a de si mesmo como passado em transe de futuro. O Sebastianismo seria assim memória presente do bem anterior à nossa morte moral em Alcácer Quibir um avatar da saudade lusíada.

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Excerto III Singular inversão e singular constância de um mito: de objecto de mitificação colectiva e, ao mesmo tempo, de absoluta impessoalidade. O Portugal-D. Sebastião de Pessoa é todo-o-mundo-e-ninguém, como ele, Pessoa-D. Sebastião, é ninguém-e-todo-o-mundo, um e outro a «eterna criança que há-de vir», aquele que morre como particularidade nacional ou pessoal, para ser tudo em todos, exemplo de um mundo e de uma personalidade sem limites nem fim. Esse D. Sebastião-Pessoa não anuncia mais do que um império cultural sem imperialismo de culturas nem verdades, mero espaço da absoluta liberdade de culturar as múltiplas e inconciliáveis «verdades», que, na ausência definitiva de Deus, nos servem de simulacros plausíveis e implausíveis do verdadeiro. Assim, o que começou como um sonho de um império redivivo termina com Pessoa em império de sonho. E, como ele mesmo perguntava: «Quem vem viver a verdade que D. Sebastião morreu?», a última interpelação do sebastianismo talvez seja hoje, para nós, a do próprio Fernando Pessoa: «Quem vem morrer o sonho que Pessoa viveu?».

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