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J.L.M.: Tenho outro irmão e sempre fomos muito criativos os dois, desde miúdos. Como partilhávamos o quarto, entretínhamo-nos a inventar histórias. O curioso é que neste momento ambos escrevemos. Ele já tem quatro ou cinco livros publicados, é um indivíduo muito imaginativo. Embora não me considere tão imaginativo como ele, de certa forma também sou bastante criativo. A criatividade tem a ver não só com questões genéticas, mas com o ambiente familiar em que crescemos. A minha mãe, por exemplo, sempre nos contou histórias, bem como a minha avó materna. Portanto vivi a infância rodeado de histórias e livros.

A criatividade tem de se cultivar; por isso a educação e a envolvência ajudaram muito na minha criatividade. M.R.: Existe uma crise de identidade cultural transmontana? De que forma ela se manifesta na sua obra? J.L.M.: Conheci Trás-os-Montes há vinte e tal anos e só posso falar do que vi a partir daí. Em relação aos últimos anos, têm-se notado muitas mudanças e nem sempre para melhor. Quando vim para cá, creio que as pessoas eram mais simpáticas, mais acolhedoras. Ao longo do tempo verifiquei que se perderam alguns valores que seriam

próprios da sociedade transmontana. Nesse aspecto, talvez a identidade transmontana esteja a diluir-se com o envelhecimento da população, com a saída dos jovens que não regressam. Não tenho uma visão muito concreta dessa identidade, mas se há uma crise de identidade nacional, a transmontana é um reflexo da outra. No Brasil, por exemplo, a crise económica é combatida com a união das pessoas e a entreajuda. Aqui acontece o contrário: as pessoas tornaram-se mais egoístas. Provavelmente essa crise de identidade cultural pode ser uma consequência daquilo por que estamos a passar. M.R.: Enquanto pessoa de cultura que vive na era da globalização, de que forma ser do Norte/Transmontano o condiciona e/ou integra? J.L.M.: Eu viajei muito, graças ao facto de

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ROR DE COISAS #2  

ROR DE COISAS - ABRIL 2015

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