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Artigo publicado no jornal "O Estado de São Paulo" em 20/11/2008

A verdadeira solidão Fernando Reinach Para quem acredita que o inferno são os outros (Sartre: "l'enfer, c'est les autres") a solidão pode parecer um paraíso, mas a verdade é que nenhum ser vivo é realmente solitário. Os leopardos, que vivem isolados e só conseguem convivem com uma fêmea durante o curto tempo necessário para o acasalamento, passam a vida cercados de outros seres vivos. Cada dia o leopardo interage com milhares de outros seres vivos. Ele pisa na grama, sobe nas árvores, convive com suas vítimas e com as moscas. Mesmo os mais solitários dos seres vivos existem em ambientes de alta biodiversidade e deste ponto de vista estão longe da solidão absoluta. A grande novidade é que recentemente foi descoberto um ser vivo que vive absolutamente sozinho em seu ecossistema. Nenhum outro ser vivo é capaz de sobreviver onde ele vive. É o primeiro ecossistema conhecido constituído por uma única espécie de ser vivo. Um grupo de cientistas coletou 5.600 litros de água de uma fenda localizada a mais de 2.800 metros de profundidade no fundo da mina de ouro de Mponeng na África do Sul. Nesta profundidade a temperatura da água é de 60oC e não existe oxigênio ou luz. A água foi filtrada e todo o DNA presente nos seres vivos coletados foi seqüenciado. Para a surpresa dos pesquisadores foi possível demonstrar que todo o DNA presente no fundo da mina pertencia ao genoma de uma única espécie de bactéria. O mesmo experimento, se realizado com a água de um lago, origina centenas ou milhares de genomas distintos. A seqüência completa do genoma desta bactéria foi determinada e sua análise forneceu pistas importantes sobre como esta bactéria sobrevive no interior do planeta. A audaxviator é capaz de sintetizar absolutamente todas as moléculas que necessita. Isto porque não existem outros seres vivos dos quais ela pode se alimentar (nós, por exemplo, não sintetizamos vitaminas e suprimos nossas necessidades ingerindo outros seres vivos). É interessante que ela não possui mecanismos de defesa contra vírus ou bactérias, o que é compreensível uma vez que estes mecanismos são desnecessários em um ambiente em que não existem outros seres vivos (na pratica estas bactérias não apodrecem quando morrem, pois não existem os seres vivos responsáveis pela degradação dos cadáveres). E por viverem num ambiente sem luz ou oxigênio utilizam moléculas de água partidas pela radioatividade do urânio presente na mina para obter os íons necessários para reduzir o enxofre e obter energia. A quantidade de nutrientes nestas amostras de água é tão baixa que estas bactérias demoram entre 100 e 1.000 anos para se dividir uma única vez (uma bactéria em nosso intestino se divide a cada 30 minutos). Dezenas de outras peculiaridades desta bactéria foram deduzidas a partir da análise de seu genoma, gerando uma vasta quantidade de informações sobre o que significa viver na solidão absoluta. É estranho imaginar a vida em um ambiente absolutamente estável e isolado. Vivendo sem a ameaça de outros seres vivos, em condições em que é possível levar 100 anos para se dividir sem correr o risco de apodrecer ou ser atacado. Uma vida auto-suficiente, quente e sem luz. A bactéria D. audaxviator e seu modo de vida são um bom motivo para refletir sobre quão estranha é a verdadeira solidão biológica. Mais informações em: Environmental genomics reveals a single-species ecosystem deep within earth. Science vol. 322 pag. 275 2008 Fernando Reinach (fernando@reinach.com)

A Verdadeira Solidão  

Artigo publicado no jornal "O Estado de São Paulo" em 20/11/2008. Material utilizado em atividade com os estudantes de Pré-Iniciação Científ...

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