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No Mês da Consciência Negra, o Cinema do IMS inicia a retrospectiva dos filmes de Gordon Parks em paralelo à exposição fotográfica em cartaz no IMS Paulista. Além de um dos nomes centrais da fotografia mundial e um dos pioneiros do cinema negro nos EUA, Parks é também escritor e compositor. Em novembro, junto a duas obras autobiográficas – a ficção Com o terror na alma (The Learning Tree) e o documentário Momentos sem nome próprio – será exibido Shaft, grande marco de sua carreira e do cinema hollywoodiano, seguido de um comentário musical ao vivo pelo pianista Amaro Freitas, um dos nomes mais inovadores da música contemporânea.
A Sessão indeterminações se debruça sobre o trabalho de Afranio Vital e tensiona como e por que sua vasta obra, produzida entre os anos 1970 e 1980, é elidida das discussões sobre o cinema negro no Brasil. No programa, a estreia da restauração 4K de dois curtas de Vital, em diálogo com filmes em que foi montador e retratado, e um debate com o cineasta.
Em sua nova edição, o Festival Nicho Novembro realiza no IMS o Laboratório NICHO 54, que recebe oito projetos audiovisuais racializados em desenvolvimento para consultorias e premiações.
A exposição e mostra de filmes Fotografia AGNÈS
VARDA Cinema apresenta uma seleção da vasta obra da artista francesa que, com um olhar curioso e libertário, atravessou fronteiras geográficas. A sessão de abertura da mostra inclui uma conversa com a produtora Rosalie Varda, responsável pelo restauro dos filmes.
O 33º Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade traz para o Cinema do IMS toda a sua programação de longas-metragens brasileiros. Um amplo recorte de expressões de gênero e sexualidade em narrativas de identidade, resistência, memória, arte e desejo.
[imagem da capa]
Gordon Parks. Sem título, 1968. Fotógrafo desconhecido. Cortesia e direitos da Fundação Gordon Parks



filmes de novembro
Em cartaz
A natureza das coisas invisíveis
Rafaela Camelo | DCP
A queda do céu
Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha | DCP
O último episódio
Maurilio Martins | DCP
The Mastermind
Kelly Reichardt | DCP
Frankenstein
Guillermo del Toro | DCP
Guarde o coração na palma da mão e caminhe (Za’a Rouhak Ala Yadak
Wa Emshi)
Sepideh Farsi | DCP
Milton Gonçalves, além do espetáculo
Luiz Antonio Pilar | DCP
Tubarão (Jaws)
Steven Spielberg | DCP, restauração 4K
Pérola negra
Reinaldo Cozer | DCP
Ataulfo Alves
Afranio Vital | DCP, restauração 4K
Dois Nilos
Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro | DCP
Antônio Maria
Afranio Vital | DCP, restauração 4K
É possível assistir a alguns dos filmes em cartaz no Cinema do IMS com recursos de acessibilidade em Libras, legendas descritivas e audiodescrição. Para retirar o equipamento com recursos, consulte a bilheteria do IMS Paulista. Em caso de dúvidas, entrar em contato pelo telefone (11) 2842-9120 ou pelo e-mail imspaulista@ims.com.br.
Gordon Parks: a América
sou eu no cinema do IMS
Com o terror na alma
(The Learning Tree)
Gordon Parks | DCP, restauração 2K
Momentos sem nome próprio
(Moments without Proper Names)
Gordon Parks | Arquivo digital
Shaft
Gordon Parks | DCP, restauração 4K
A Ópera-Mouffe (L’Opéra-Mouffe)
Agnès Varda | DCP, restauração 2K
Saudações, cubanos!
(Salut les cubains)
Agnès Varda | DCP, restauração 2K
Os Panteras Negras (Black Panthers)
Agnès Varda | DCP, restauração 2K
33º Festival Mix Brasil de
Cultura da Diversidade
Mostra Competitiva
Brasil - Longas
Mostra Reframe
Mostra Queer.doc
A natureza das coisas invisíveis
Rafaela Camelo | DCP
Apenas coisas boas
Daniel Nolasco | DCP
Apolo
Tainá Müller, Ísis Broken | DCP
Ato noturno
Marcio Reolon, Filipe Matzembacher | DCP
Morte e vida Madalena
Guto Parente | DCP
Ruas da Glória
Felipe Sholl | DCP
Torniquete
Ana Catarina Lugarini | DCP
Trago seu amor
Cláudia Castro | DCP
Arrenego
Fernando Weller, Alan Oliveira | DCP
Gravidade
Leo Tabosa | DCP
A artista está online
Anna Talebi | DCP
Ecologia do naufrágio
Bruca Teixeira | DCP
Matamortes
Thiago Martins de Melo | DCP
Resumo da ópera
Honório Félix, Breno de Lacerda | DCP
Iracema
Yuri Célico | DCP
Voz Zov Vzo
Yhuri Cruz | DCP
Bate cabelo!
Luís Knihs | DCP
Copacabana, 4 de maio
Allan Ribeiro | DCP
Desejo de viver (mutatis mutandis)
Giorgia Narciso | DCP
Drags, um super filme
Luciano Oreggia | DCP
Túmulos de couro (Leather Graves)
Malic Amalya | DCP
Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo
Fábio Rogério, Wesley Pereira de Castro | DCP
14:50 Frankenstein (149')
17:40 The Mastermind (110')
19:50 Tubarão (124') 11
16:00 Tubarão (124')
19:00 sessão indeterminações
Abraçar a morte: o cinema de Afranio Vital (49'), seguida de debate com Afranio Vital, Lorenna Rocha e Gabriel Araújo
18
18:00 33º festival mix brasil
Trago seu amor (73')
20:00 33º festival mix brasil
Desejo de viver (mutatis mutandis) (83')
19:00 gordon parks: a américa sou eu
shaft por amaro freitas
Exibição do filme Shaft, de Gordon Parks, seguido de comentário musical por Amaro Freitas 5
14:40 The Mastermind (110')
16:50 Tubarão (124')
19:20 Frankenstein (149') 12
15:00 O último episódio (112')
17:20 Tubarão (124')
20:00 gordon parks: a américa sou eu Com o terror na alma [The Learning Tree] (107')
15:50 The Mastermind (110')
18:00 Tubarão (124')
20:20 Milton Gonçalves, além do espetáculo (94')
14:50 The Mastermind (110')
17:00 33º festival mix brasil
Copacabana, 4 de maio (74')
19:00 33º festival mix brasil
Resumo da ópera (92')
19
14:00 O último episódio (112')
17:00 33º festival mix brasil
A natureza das coisas invisíveis (90')
19:00 33º festival mix brasil Ato noturno (120')
20
15:30 The Mastermind (110')
17:40 A queda do céu (108')
20:00 33º festival mix brasil Torniquete (80')
19:00 gordon parks: a américa sou eu shaft por amaro freitas
Exibição do filme Shaft, de Gordon Parks, seguido de comentário musical por Amaro Freitas
16:00 A queda do céu (108')
18:10 A natureza das coisas invisíveis (90')
20:00 Guarde o coração na palma da mão e caminhe (110')
14:40 The Mastermind (110')
16:50 Frankenstein (149')
19:40 O último episódio (112')
21:50 Tubarão (124')
14
14:50 The Mastermind (110')
17:00 33º festival mix brasil
Arrenego (75')
19:00 33º festival mix brasil
Gravidade (90')
21:00 Frankenstein (149')
14:00 Frankenstein (149')
16:50 A queda do céu (108')
19:00 33º festival mix brasil
Apolo (83')
21:00 33º festival mix brasil
Apenas coisas boas (104') 28
15:30 Guarde o coração na palma da mão e caminhe (110')
17:40 A natureza das coisas invisíveis (90')
19:30 gordon parks: a américa sou eu
Momentos sem nome próprio (58')
22:00 A queda do céu (108')
1
Neste dia não haverá sessões de cinema
8
14:50 The Mastermind (110')
17:00 Milton Gonçalves, além do espetáculo (94')
19:00 Frankenstein (149')
21:50 Tubarão (124')
15
14:15 O último episódio (112')
16:30 gordon parks: a américa sou eu
Momentos sem nome próprio (58')
18:00 33º festival mix brasil
Voz Zov Vzo + Iracema (81')
20:00 33º festival mix brasil
Matamortes + A artista está online + Ecologia do naufrágio (74')
22
15:30 gordon parks: a américa sou eu
Com o terror na alma [The Learning Tree] (107')
17:50 sessão indeterminações
Abraçar a morte: o cinema de Afranio Vital (49')
19:00 33º festival mix brasil
Morte e vida Madalena (85')
21:00 33º festival mix brasil
Ruas da Glória (110')
29
15.30 A natureza das coisas invisíveis (90')
17:40 O último episódio (112')
19:50 Guarde o coração na palma da mão e caminhe (110')
22:00 A queda do céu (108')
Neste dia não haverá sessões de cinema
15:30 O último episódio (112')
17:50 Milton Gonçalves, além do espetáculo (94')
19:50 Tubarão (124')
14:40 O último episódio (112')
17:00 33º festival mix brasil
Drags, um super filme (92')
19:00 33º festival mix brasil
Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo + Túmulos de couro (74')
14:40 O último episódio (112')
16:50 A queda do céu (108')
19:00 33º festival mix brasil
Bate cabelo! (72')
15:00 fotografia agnès varda cinema
A Ópera-Mouffe + Saudações, cubanos! + Os Panteras Negras (74'), sessão seguida de conversa com Rosalie Varda
18:00 A natureza das coisas invisíveis (90')
20:00 Guarde o coração na palma da mão e caminhe (110')
Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas em ims.com.br.
o terror na alma (The Learning Tree), de

Iliriana Rodrigues
Gordon Parks (1912-2006) teve uma trajetória marcada pelo engajamento social e pela representação da experiência negra, transitando com maestria entre a música (aprendeu a tocar piano na infância), a fotografia, a escrita e o cinema. Com uma carreira que abrange 11 obras, produzidas entre as décadas de 1960 e 1990, Parks ampliou seu olhar fotográfico, comprometido com os temas sociais, para a carreira cinematográfica, na qual também desenvolveu uma trajetória importante.
Seus três primeiros filmes: Flavio (1964), Diary of a Harlem Family (1968) e The World of Piri Thomas (1968) apresentam uma discussão interseccional entre raça, território e pobreza. Baseado em uma reportagem para a revista Life feita na favela da Catacumba, no Rio de Janeiro, o curta Flavio conta a história da família Da Silva, que vivia em condições de vulnerabilidade social. Narrado pelo próprio menino Flávio, o curta é considerado um dos primeiros filmes dirigidos por um homem negro no Brasil, antecipando produções importantes da nossa cinematografia, como Um é pouco, dois é bom (1970), do cineasta negro gaúcho Odilon Lopez, e Alma no olho (1973), de Zózimo Bulbul. Já em Diary of a Harlem Family, Parks retrata o cotidiano das famílias negras no Harlem, evidenciando as
dificuldades reais enfrentadas pela família Fontenelle, atravessada pela pobreza e pelo racismo cotidiano.
Em The World of Piri Thomas (1968), Parks adapta trechos do livro Down These Mean Streets (1967), do autor de ascendência cubana e porto-riquenha Piri Thomas, um dos expoentes do movimento nuyoricano, que fomentava a literatura nova-iorquina de origem porto-riquenha. No caso de Thomas, isso era acrescido pelo debate racial, já que ele tinha origem afro-latina. No livro, ele descreve como foi crescer no Harlem hispânico, seu vício em heroína e sua participação no mundo do crime, o que o levou a passar sete anos na cadeia. O Harlem hispânico capturado por Parks é vibrante, mas, ao mesmo tempo, violento. Como em seus outros documentários, a situação da infância é central e descrita em sua vulnerabilidade. Uma Nova York crua se desvela em nossa frente, com ruas imundas, esgoto, falta de luz. Ao mesmo tempo, o apego à religiosidade católica está presente no filme. Ele termina com closes de imagens de santos católicos, entidades da Santeria cubana e porto-riquenha, seguidas de retratos de crianças, adultos latinos e afro-latinos, e com uma das famílias entrevistadas, em que o pai e a mãe recomendam precauções para
as crianças, para que todos possam se manter vivos.
Nesses três filmes, ele fala sobre o impacto do desplazamento de famílias como os Da Silva, que vêm do Nordeste para o Sudeste brasileiro, dos Fontenelle, oriundos das Índias Britânicas, e dos porto-riquenhos e afro-latinos de um modo mais geral. É um cinema que também serve de instrumento para a denúncia social, promovendo a reflexão a respeito da cidadania, dos direitos civis e da dignidade humana em diferentes contextos.
A obra cinematográfica de Gordon Parks também perpassa um caráter autobiográfico, revelado a partir do filme Com o terror na alma (The Learning Tree, 1969), que se tornou o primeiro longa-metragem dirigido por um cineasta negro em Hollywood. Fruto do livro homônimo, o filme aborda a infância e adolescência do jovem Newt, refletindo as tensões sociais e raciais da época na cidade segregada de Cherokee Flats, no Kansas. O ápice da produção cinematográfica de Parks se dá em Shaft (1971), filme que se tornou um marco do gênero então chamado de blaxploitation. Nele, Parks trouxe uma imagem revolucionária de um herói negro urbano, impetuoso e estiloso, traduzindo seu olhar fotográfico para o cinema ao construir sequências visuais e atmosféricas
impactantes que ressaltavam a dignidade e o poder da comunidade negra. Marcante, a trilha sonora do filme foi composta por Isaac Hayes e rendeu ao filme o Oscar de Melhor Canção Original em 1972, sendo considerada uma das mais influentes da história do cinema, além de contribuir para o sucesso do gênero, com contribuições produzidas pelo próprio Parks em O grande golpe de Shaft (Shaft’s Big Score, 1972).
Leadbelly (1976) conta a história do músico folk Huddie William Ledbetter, conhecido como Leadbelly. Preso diversas vezes, obteve o perdão do governador do Texas e passou a fazer apresentações pelos Estados Unidos, tornando-se uma das principais referências da música negra norte-americana daquele momento. Novamente, como em suas séries fotográficas, Parks aborda a trajetória de pessoas negras de uma maneira mais aprofundada, tentando desvincular a trajetória de Leadbelly da marginalidade, ao mostrar suas relações de amizade, seu talento e as agruras que o ajudaram a ganhar notoriedade.
Solomon Northup’s Odyssey (1984) foi seu último filme de ficção. Realizado para a TV pública, ele é baseado na autobiografia de Solomon Northup, um homem negro livre que foi ludibriado e escravizado. Em 2013, o diretor britânico Steve
McQueen fez sua versão da história no filme 12 anos de escravidão (12 Years a Slave). Uma distinção importante entre um e outro é a da famosa cena em que a personagem Patsey é chicoteada por Solomon e por seu senhor. No filme de Parks, no lugar de Patsey, quem aparece é Jenny e, na cena que seria a equivalente à de Patsey chicoteada, Parks cria um artifício em que Solomon engana a mulher do seu senhor ao fingir chicotear Jenny, quando, na verdade, está chicoteando uma pilha de lenha, enquanto Jenny grita como se estivesse sendo chicoteada.
Sua última contribuição nas imagens em movimento foi Martin (1990), um filme balé, que apresenta momentos significativos da vida de Martin Luther King. Quanto à influência no cinema atual, seu legado se manifesta fortemente em cineastas como Ava DuVernay e Spike Lee, que citam Parks como inspiração para sua abordagem estética e temática. Dessa forma, sua produção deixou um legado indispensável, não só pelo pioneirismo, mas também como ferramenta de luta e valorização da experiência negra na cinematografia mundial.
Heitor Augusto
Quem é o detetive pretão
Que dá no couro com todas as gatinhas?
Shaft!
Matou a pau!
Quem é o homem que arrisca o próprio pescoço
Para proteger seus irmãos?
Shaft!
Pegou a visão?
Quem é o chapa que não se amedronta
Quando o perigo ronda?
Shaft!
Matou a pau!
Isaac Hayes, canção-tema de Shaft (1971).
Tradução livre minha
Composta especialmente para Shaft (1971), a canção-tema que embala as imagens dos créditos de abertura – nas quais vemos o herói do filme, John Shaft, andando pelas ruas e calçadas de Manhattan, Nova York, com o conforto e a segurança típicos de quem é o rei da cocada preta –, sintetiza alguns dos atributos que distinguem, de forma elogiosa ou problemática, o protagonista desse que é o mais icônico dos filmes do então chamado blaxploitation. Seguindo a letra de Isaac Hayes, aprendemos, pela ordem dos versos, que o detetive Shaft: é uma potência sexual; tem consciência de raça; é destemido e não foge da treta quando o perigo se apresenta; e que, pela estrutura dialógica da canção – Isaac canta um verso, o coro responde com um agudo “Shaft!” –, ele é uma figura de trajetória interessante o suficiente para ser partilhada – mais que isso: entoada.
Ainda que o filme tenha uma materialidade e uma fisicalidade evidentes (porradaria e tiros, tempo histórico marcado e identificável, relações de poder indissociáveis dos lugares sociais ocupados por cada um dos personagens), é necessário pontuar que Shaft não é um homem, mas uma entidade da ordem do supra-humano. Uma análise fílmica mais atenta dos créditos permite tal leitura.
A câmera começa passeando numa aérea à procura de um alguém. Ao surgir

das escadarias do metrô, um acorde grave reforça a chegada do personagem – troca-se também o enquadramento (do plano geral para um close, com o rosto do ator Richard Roundtree suavemente entrando à frente do rosto de um branco num outdoor em segundo plano). O que se segue nos próximos quatro minutos da abertura é uma performance de
diva da masculinidade: Shaft tem a cidade em suas mãos e descobriremos isso pela maneira em que ela (a cidade) abre passagem para ele – ou melhor, pela maneira em que ele a adentra sem pedir passagem.
Em quatro minutos, John Shaft, um homem negro, anda por entre os carros num dia movimentado, cria uma marca de diferenciação
entre ele e um assaltante pé-rapado ao mostrar o distintivo, transborda sedução ao ser enquadrado à frente das luminárias de um cinema, interage com um cego jornaleiro e contorna uma piada potencialmente racista e, finalmente, chega ao seu destino, uma engraxataria, onde interage com um “mais velho”. Se O.J. Simpson só conseguiu passe livre para correr num
aeroporto por meio da aprovação simbólica dos brancos, que dizem “Go, O.J., go!”,1 Shaft não precisa, muito menos pede autorização para parar as ruas de Nova York, porque seu passe para tal liberdade simbólica é ser cool. É o cool que torna Shaft supra-humano. Parente do que hoje chamamos de dandismo negro, o “cool” – ou “descolado”, numa tradução livre e insuficiente – é, no contexto afro-americano, uma estratégia de vida que articula visibilidade e opacidade. Ele representa, nas palavras do músico, documentarista e pesquisador Questlove, “um engajamento social que mascara um tipo de desengajamento” e contém “um fiapo de ameaça”, levando à inevitável pergunta: “E se a máscara for levantada e a fúria for liberada?”.2 Ao longo de todo o filme, o detetive Shaft arroxa e afrouxa a mangueira da fúria, e as consequências desse manejo para
a América branca difere significativamente em comparação com a negra.
brancos – há antagonistas negros, mas, grosso modo, a vilania é branca.
1. The superstar in rent-a-car! . Campanha televisiva, dez. 1977. Disponível em: youtube.com/watch?v=A4LECXW_MQY.
2. “Questlove’s How Hip-Hop Failed Black America, Part III: What Happens When Black Loses Its Cool?”. Vulture, 06.05.2014. Disponível em: vulture.com/2014/05/questlove-hip-hop-failed-black-america-part-3-black-loses-cool.html. A versão traduzida desse texto está disponível em: ursodelatadotcom1.wordpress. com/2016/12/11/traducao-questlove-sobre-quando-o-negro-perde-seu-ar-cool-hip-hop/.
Quinto filme de Gordon Parks, fotógrafo cujas primeiras realizações cinematográficas representam uma espécie de extensão política e estética de seu olhar para a fotografia, Shaft foi realizado já no contexto do blaxploitation. Definido por alguns como um movimento,3 trata-se de um conjunto de centenas de filmes realizados entre 1970 e 1975 e que compartilham características estéticas e temáticas, tais como: cinema de gênero (filmes de ação, horror, comédias ou policiais); elencos e histórias negras (o que se reflete na ambientação em espaços urbanos majoritariamente negros e estereótipo reverso para os personagens brancos); abundância de musicalidade soul, tanto diegética e extradiegética; e serem realizados com vistas a atingir massivamente o público afro-americano. No geral, filmes de baixo orçamento, com diretores brancos ou negros comandando histórias de mocinhos negros e negras combatendo vilões
3. Uma referência importante para a definição do blaxploitation como movimento é: LAWRENCE, Novotny. Blaxploitation Films of the 1970s: Blackness and Genre. Nova York: Routledge, 2008.
O blaxploitation – que prefiro definir como um “momento”, muito mais que um “movimento” – é resultado de condições históricas que permitiram o surgimento desses filmes que, por outro lado, moldaram uma era, numa via de mão dupla repleta de contradições refletidas em seu próprio nome.4 Por isso mesmo, não cessa de interessar e mobilizar afetos, muitas vezes contraditórios. Encarar os filmes do blaxploitation com a expectativa da positividade aprisionante e normativa de Medida provisória é o mesmo que ir para uma quadra de basquete esperando pontuar usando um taco de beisebol. Trata-se de representações que tensionam os entendimentos do que seria uma boa imagem – aquela que, nas nossas justificadas ânsias de que finalmente desfrutaremos da nossa humanidade, exibimos para o mundo branco, como que apelando: “Vês? Não sou
4. Blaxploitation é a corruptela de duas palavras em inglês: “Black” (“preto’) e “exploitation” (“exploração”), que também faz referência ao gênero cinematográfico de mesmo nome. O termo surgiu pela primeira vez na imprensa em 17 de dezembro de 1972, num artigo de Julius Griffin, então presidente da Seção Hollywood da NAACP, a Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor, escrito para o The New York Times.
eu um humano? Então por que me matas?”
As imagens de Shaft não têm utilidade, a não ser prazer espectatorial. E o que nós, espectadores negros, fazemos com imagens inúteis?
Shaft, tal como todos os filmes feitos no contexto do blaxploitation, se apoia em reducionismos e estereotipias, aspecto que, desde o início, gerou oposições e debates intensos na comunidade afro-americana.5 Mas uma espectatorialidade negra ativa não implica justamente a lida com a realidade da contradição, em vez de sua ideia? Ou reduzimos a nossa espectatorialidade a um mero ranqueamento de representações problemáticas versus representações “fecho”? O prazer entra na nossa equação espectatorial?
Essas são algumas questões interessantes de serem mobilizadas numa sessão de Shaft mais de cinco décadas após o seu lançamento.
5. A mesma edição de domingo que abriu espaço para o artigo de Griffin intitulado “Black Movie Boom: Good or Bad?” [Explosão de filmes negros: positiva ou prejudicial?] viu também a presença de outros articulistas se posicionando a favor do que então passava a se entender como filmes blaxploitation.

Sessão indeterminações
Lorenna
Rocha e Gabriel Araújo
“Eu não existo”, afirma o cineasta Afranio Vital à escritora e crítica Andrea Ormond, em fevereiro de 2015, numa entrevista publicada no blog Estranho Encontro.1 “Quem existe é o Cacá Diegues, o Glauber [Rocha], o Nelson Pereira [dos Santos]. Eu não existo”, ele repete em texto do livro Esfinge negra –
A história do cineasta Afranio Vital, 2 organizado por Carlos Ormond, datado do ano seguinte. No curta Dois Nilos, de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro, lançado em 2024, torna a dizer, sentado em meio à praça da Cinelândia, cemitério de cinemas do Rio de Janeiro: “Meus filmes não existem, não. Isso tudo é uma grande ficção.”
A morte, se antes presente na obra do cineasta negro como um tema a ser desafiado e encarado de maneira frontal, hoje se traduz, ainda, no silêncio programado em torno de sua filmografia. Realizador de três longas-metragens e mais de uma dezena de curtas em meio à rebeldia anárquica dos anos 1970 e 1980, sua cinematografia foi negada à história do cinema
1. ORMOND, Andrea. “Afranio Vital em compasso de espera". Estranho Encontro, 02 fev. 2015. Disponível em: estranhoencontro.blogspot. com/2015/02/Afranio-vital-em-compasso-deespera.html. Acesso em set. 2025.
2. ORMOND, Carlos. Esfinge negra – A história do cineasta Afranio Vital. São Paulo: Laços, 2016.
brasileiro, literalmente jogada à boca do lixo – antes sua grande e inspiradora substância 3 – e às chamas da ausência de políticas de preservação audiovisual que ainda lutam para se estabelecer no país. Ao longo das últimas décadas, títulos como Os noivos (1979), Longa noite do prazer (1983) e Estranho jogo do sexo (1983) experenciaram uma morte física, “culturalmente assassinados”, para usar um termo do próprio Vital. Com filmes capazes de perturbar idealizações – discursivas, narrativas, cinematográficas – dos pressupostos que ora estabelecem uma base para a definição de um cinema negro brasileiro, o cinema voyeurista, melancólico e erótico de Afranio Vital nos chama a atenção pelo seu lugar de fronteira e por fazer da linguagem cinematográfica objeto de vício e paixão. Não são, no entanto, esses adjetivos que poderiam simplesmente dar conta de uma obra tão vasta. Os quatro títulos que exibimos nesta quinta edição da Sessão indeterminações, sendo dois deles realizados pelo próprio Afranio Vital na década de 1970, oferecem outros elementos para
3. Walter Hugo Khouri e Carlos Reichenbach são referências que norteiam parte significativa da obra do cineasta negro, além de Carlos Hugo Christensen – diretores com quem teve uma relação particular e de trabalho no cinema.
narrar e investigar essa história ainda desconhecida. Convocamos, por assim dizer, a abraçar o abismo desse cineasta, nascido em 1948 na cidade interiorana de Bom Jesus do Itabapoana (RJ) – porém formado “carioca da gema”, na cabeça e no trato –, perseguindo os interesses de sua produção curta-metragista e traçando um diálogo com outras de suas ocupações profissionais no cinema; ora retratista, ora retratado, ora montador, mas sempre fantasmagoricamente presente.
Em Pérola negra (1979), filme de Reinaldo Cozer, um de seus grandes parceiros na produção cinematográfica, a montagem crua de Afranio Vital faz transbordar a poesia e a juventude de Luiz Melodia. Ataulfo Alves, realizado pelo cineasta negro em 1973, é o aceno do “carioca” ao documentário biográfico, em que a voz rara em primeira pessoa do sambista se entrelaça com geografias de sua trajetória e o som imorrível da cuíca. Voltamos ao presente com Dois Nilos (2024), de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro. O sopro de vida que o filme gerou em torno da figura de Afranio Vital, no passado recente do cinema brasileiro, é desafiado a todo instante pelo biografado. Indo fundo em suas contradições, Vital põe em crise o ato memorialista da dupla de jovens realizadores e encontra, no ator Wilson Rabelo,
um espelho sedutoramente fraturado. Por sua vez, Antônio Maria (1977), dirigido por Afranio Vital, revigora os fantasmas de toda uma vida, pintando um retrato fragmentado do compositor, reconhecido como um dos “reis do samba-canção”.
A sessão será comentada por Afranio Vital, que participa de uma conversa com o público mediada pelos programadores e cofundadores da INDETERMINAÇÕES, e conta com a estreia das versões restauradas digitalmente em 4K de Ataulfo Alves e Antônio Maria, fruto de uma parceria entre a Plataforma e o Cinema do IMS Paulista, com apoio cultural da Mnemosine Serviços Audiovisuais e do Laboratório Mapa Filmes do Brasil/Link Digital. O processo de restauração ocorreu na cidade do Rio de Janeiro e contou com a coordenação técnica da preservadora audiovisual Débora Butruce, com materiais preservados pelo Centro Técnico Audiovisual (CTAv) e pela Cinemateca Brasileira.
O programa é acompanhado pelo ensaios “O nosso nó”, escrito pelo crítico e professor Juliano Gomes para a Revista de Cinema do IMS, e por uma entrevista4 com Afranio Vital, realizada em janeiro de 2025 pela
pesquisadora Lorenna Rocha. A vinheta da sessão é assinada pelo cineasta do Capão Redondo Lincoln Péricles, vulgo LK. Em coletivo, as obras com Afranio Vital driblam e anunciam estratégias de mortes inevitáveis e desejadas, reanimando arquivos e memórias que “deveriam” ser esquecidos. Um estranho convite para saborear o fim, que pode prenunciar, no entanto, múltiplos começos.
4. Os textos também estão disponíveis em indeterminacoes.com.
Juliano Gomes
No atual programa da plataforma indeterminações, é notável a preponderância da relação personagem-espaço. A presença da rua nos quatro filmes não só oferece contexto aos personagens centrais mas se con-funde com ele. A sugerida fusão mútua indica que essas pessoas são produtos do espaço, do ambiente, da época, e são também artífices desse exterior. Variando em grau a cada curta, é possível observar um impossível descolamento personagem-contexto, que age no sentido oposto de um hipotético destacamento baseado em excepcionalidades, em individualidades bem definidas, bem contornadas. De certa forma, é possível dizer, através deste conjunto de filmes curtos, que o processo que eles narram diz respeito às dimensões em que um personagem negro se torna “outro”.
Em especial nos filmes dos anos 1970 – feitos pela dupla Afranio Vital e Reinaldo Cozer, da borgiana Aleph Filmes) –, o que temos são retratos que caminham na direção de uma certa dissolução, uma reticência ou um ponto de indeterminação do que podemos chamar de “pessoal”. Realizados em 1973 e 1977, os curtas dirigidos por Vital engendram uma certa descrição subversivamente discreta que caracteriza também a caligrafia fílmica de seus longas. Ataulfo Alves e Antônio Maria funcionam igualmente
como presenças e ausências. As eventuais fotografias que os plasmam em tela não parecem ser o centro narrativo, pois o que prepondera é o espaço, o interstício: seja a pacata Miraí mineira de Ataulfo ou a noite das ruas cariocas de Antônio Maria. É notável que a recuperação desses filmes hoje reafirme um tom que conjuga fluidez, melancolia e lirismo, que encontramos nos demais projetos de Vital. E é justamente esse matiz que ajudou que seu cinema contrastasse com as demandas históricas mais visíveis de uma época, assim como o de seus mestres Carlos Hugo Christensen e Walter Hugo Khouri – artesãos da nuance.
Tal incompatibilidade ainda hoje persiste. A demanda pelo significado claro, pela postura “cheia de si”, pela redundância como ferramenta de afirmação social e performance de “empoderamento’ – temperadas pela ideologia liberal da excepcionalidade individualista – dá o tom do contexto do tecnofeudalismo de dados atual. Em especial, a produção em curta enfrenta hoje em seus circuitos o difícil fardo de ser obrigada a imediatamente “significar”, a se “posicionar”. Em alguns casos, como aqui no filme de Rodrigo de Janeiro e Samuel Lobo, recai a expectativa da figura contemporânea do “apagamento” – em que o filme seria justamente a tentativa autoafirmativa de reverter esse processo.

“A força do filme é a de justamente sugerir uma forma moderna e trágica que possa trazer à tona o principal traço subjetivo desta nação que é a herança da escravidão, ligando-a a todo um repertório expressivo filosófico e cultural que lhe foi historicamente alijado – daí a precisão na escolha de Coltrane, artista que encarna justamente essa possibilidade de uma modernidade negra, densa, sombria, lírica, ao mesmo tempo concreta e abstrata. A redescoberta da obra de Afranio Vital é no mínimo uma grande oportunidade de retomar a construção desta linha, sempre a fazer, de um lirismo negro que não passe por soluções fáceis, e também que não se alije dos dados formadores da sociedade brasileira, que busca uma língua própria para sensações tão nossas. Talvez, de novo, este caminho não dê em nada. Veremos.”
Entretanto, um paradoxo se estabelece. No livro Esfinge negra – A história do cineasta Afranio Vital, de Carlos Ormond1 e nas deliciosas entrevistas do essencial blog Estranho Encontro, de Andrea Ormond,2 percebemos rastros de uma poética fílmica de pendor sutilmente filosófico, que enseja
1. São Paulo: Laços, 2016
2. Disponível em: estranhoencontro.blogspot.com/.
desejar o desaparecimento como território imaginativo. Em 2017, num texto sobre o segundo longa de Vital, Longa noite do prazer, 3 escrevi em seu parágrafo final:
3. O texto se chama “Caminho para o nada” e faz parte do Caderno de Crítica, editado pela iniciativa Curto Circuito, em 2017, em Belo Horizonte. O caderno 17, do qual o texto faz parte, é dedicado ao cinema de Afranio Vital. Pode ser acessado em: curtacircuito.com.br/
A possibilidade do interesse sobre esse “lirismo negro” subliminarmente discreto hoje encontra outro tipo de barreira, análoga ao que Afranio descreve ter sentido nos anos 1970 e 1980, em seu depoimento em Dois Nilos. Em ambos os momentos históricos, a pressão pelo sentido manifesto se impõe como demanda histórica e wp-content/uploads/2022/08/Caderno-deCri%CC%81tica-17.pdf?x25788.
tem como preço o relativo desinteresse em poéticas como a de Vital – baseadas nas paletas do implícito e do indireto –, condenadas junto a seus autores à desidratação histórica. Esse é nosso nó. Pois, hoje, o desejo da “justiça histórica” direcionado a quem potencialmente foi institucionalmente alijado exige, de forma implícita, uma caligrafia para os trabalhos que desejam entrar por essa porta fugaz. Tal idioma – calcado em clarezas indiscutíveis – ativa uma pedagogia dos sentidos extremamente pobre, que tende ao uniforme das boas consciências e que agrada mais do que tudo às instituições e sua necessidade de performar publicamente compromisso social. Subjugando arte ao marketing, portanto.
A força contemporânea do cinema de Afranio é a persistência de seu desajuste. Inclusive, a própria diferença de tom entre Dois Nilos e os demais curtas é flagrante, e a sessão encarna perfeitamente o embate que revive nos dias que correm. Uma das figuras da imaginação capitalista hoje é a figura do “impacto”. “Imagens de impacto” são a retórica emblemática de um tempo em que a atenção é roubada pelas corporações, e nossos sentidos, moldados pelas big techs, só conseguem sentir o “extremo”.
A trilogia aqui recuperada da Aleph Filmes, se fosse lançada hoje, seria ainda menos visível
do que foi nos anos 1970 – beneficiada à época pela Lei do Curta e que gerou algum rendimento para seus produtores. São filmes de “anti-impacto”, acima de tudo não “empoderados”, que retratam figuras que espelham em tons de melancolia uma condenação existencial à opacidade. O Luiz Melodia retratado pelo delicado curta de Reinaldo Cozer é uma figura cujos segredos e silêncios se preservam como seu tesouro subjetivo, que formam uma outra face dessa modernidade negra cujo legado ainda não foi suficientemente percebido. O caso de Melodia é muito representativo, pois seu trajeto concretamente ligado a artistas da contracultura, como Wally Salomão e Hélio Oiticica, hoje interessa às cinebiografias muito menos do que o enquadramento liberal meritocrata do “negro que superou as condições de pobreza”. Inclusive, do ponto de vista da discussão racial, é marcante o momento em que Melodia descreve sua descrença com o movimento negro organizado (“o movimento black eu acho que é uma coisa que não vai muito pra frente, acho que o movimento é nosso, de todos”). Assim também era, àquele momento, a posição de Vital. Hoje, esses pequenos fatos históricos parecem soar como verdades inconvenientes. E é justamente esse incômodo em potencial que inviabiliza que mais iniciativas como essa, de
recuperação da memória do cinema brasileiro, ocorram. Existe um manancial de filmes nos porões da história, aguardando ganhar a luz do dia, para necessariamente mudar o que pensamos de nós mesmos. No caso dos cineastas negros, essa revelação está fadada a “discordar” do presente.
Os filmes da Boca do Lixo dirigidos pelo ainda vivo Agenor Alves interessam ou são eventualmente perigosos para o projeto de negritude virtual contemporâneo?
O curta Um criolo brasileiro (1979), de Quim Negro – caso ainda exista cópia –interessa ou ameaça as bases retóricas das nossas premissas políticas hoje? Esses são os dilemas do contexto em que o trabalho de compromisso histórico da INDETERMINAÇÕES – aqui em parceria com o IMS – representa um desejo raro de confronto com a história e uma disposição ímpar de compromisso e curiosidade perante o que existe. Nesse sentido, o gesto de recuperação do trabalho de Afranio Vital representa um passo muito importante, que mostra uma pontinha de um iceberg ainda plenamente inexplorado, em compasso de espera por interesse institucional. Aguardemos, então, pelo passado que virá.
Lorenna Rocha
Por ocasião da sessão Abraçar a morte: o cinema de Afranio Vital, compartilhamos uma versão reduzida da entrevista realizada por Lorenna Rocha com o cineasta negro em janeiro deste ano.
A publicação pode ser lida na íntegra no site da Plataforma indeterminações (indeterminacoes.com).
Um sorriso largo com troféus em mãos no Festival de Brasília, premiação de Dois Nilos (Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro, 2024), era a imagem que Afranio Vital carregava em suas mãos nos corredores do Cine Tenda, na última edição da Mostra de Cinema de Tiradentes. Os pôsteres de seus longas-metragens estavam juntos. Achei curioso, para não dizer excêntrico.
Na conversa que compartilhamos no dia seguinte, numa bela manhã regada a café e rocambole, o cineasta comentou, a certa altura, que fotografa tudo em sua vida desde que sua esposa, Maria Terezinha Dias de França, ainda muito jovem, o alertou que ele era um homem negro e que precisava registrar aquilo que vivenciava, para que ninguém ousasse dizer que estava mentindo sobre os acontecimentos. Voltei à cena do dia anterior, como num relance. O dilema racial aparecia frontalmente naquele relato, em contraste ativo a momentos anteriores, em que ele havia negado sua própria identidade, com um profundo aceno psicanalítico.
Mais pessimista nas décadas anteriores, esta entrevista marca um Afranio que renasce em meio às cinzas do cinema e de sua própria obra. Entusiasta de um filme que está por vir, Afranio parece gestar a si mesmo num mundo que não domina e se permite a não compreender. Sem respostas
prontas, a lida com o pensamento de Vital foi permeada por descontinuidades e assuntos que tomavam o próprio rumo, num fluxo de ideias singular de quem eu estava ouvindo. Lidar com a filmografia e a persona de Afranio Vital ativa um eterno tatear no desconhecido, sem necessariamente ter algo a ser desvelado. Não seria bem essa a história do cinema negro no Brasil? Uma dissipação está encarnada na entrevista que se segue. Sendo assim, escolhi suprimir minhas perguntas, muito influenciada pelo método do podcast Conversas de cinema, do cineasta Fábio Rogério, para deixar que leitoras e leitores naufraguem na incompreensão e instiga que vivenciei.
Nós estamos nos últimos dias de janeiro de 2025. Obviamente, meu pensamento não é o mesmo de quando iniciei no longínquo ano de 1969. Quer dizer, tem mais de meio século. No momento, estou renascendo. Estou vivendo um momento de alegria por estar voltando ao cinema. Estou tentando seguir essa pegada nova, um novo Afranio surgindo. Mas, para isso, é preciso enterrar o passado, que é uma coisa complicada. Em primeiro lugar, é mais difícil administrar o presente, saber quando você tem
dinheiro no bolso, como é que vai fazer esse filme. Outra coisa é criar o futuro. Não é planejar, não se pode planejar algo que se sabe como vai ser. Acho que o mais difícil de tudo é esquecer o passado, estamos sempre voltando a ele, arraigado nisso. Minha grande tarefa de agora é criar uma nova linguagem.
O cinema começou comigo aos dois anos de idade. Minha família era muito pobre, saiu de Bom Jesus do Itabapoana, Norte Fluminense, e depois foi para a favela do Esqueleto. Depois do suicídio da minha irmã, quando eu tinha dez anos, nós viemos todo mundo para o Rio de Janeiro. Ainda em Bom Jesus de Itabapoana, comecei a ver filmes com minha mãe. Assistia a filmes quase todos os dias para fugir dos problemas conjugais, ela se refugiava no cinema e me levava junto com ela. Minha mãe gostava muito de filmes dramáticos, da Libertad Lamarque. Geralmente era a história de mulheres presas por crimes que não cometeram, de mulheres tidas como loucas, uma pessoa que roubava fortunas… E ela chorava muito nas sessões. E eu, pequenininho ali ao lado dela, chorava também. Então, entrei no cinema através do melodrama, assistindo-o com ela. Foi a partir disso que comecei a amar o cinema.
Em 1960, lá em Madureira, conheci um rapaz chamado Edson Dantas, que

Set de filmagem de Os noivos
adorava cinema. Quando ele começou a falar sobre cinema, reviveu aquela minha fase da infância. Nós começamos a ver filmes juntos. Andávamos para tudo quanto é lado. Aí vem a cachaça do cinema, né? Você começa a perseguir determinados diretores: [Luis] Buñuel, Jerry Lewis, John Huston… Nós íamos atrás desses filmes para poder ver a filmografia completa. Mas isso é complicado, né? Porque um passava lá no Paracambi, outro no Méier, outro lá em outro cinema… Mas foi aí que começamos a abrir os primeiros cineclubes, aquela coisa toda.
Edson, esse meu amigo, foi a primeira pessoa que teve ideia de filmar, ir além de projetar filmes. Nós admirávamos muito o Buñuel, O cão andaluz [1929], A idade do ouro [1930]. E nós gostávamos deles porque eram filmes mudos, mais fáceis de fazer, e eram filmes surrealistas. Pegamos uma câmera, 16 milímetros, emprestada de um amigo que trabalhava num escritório de arquitetura, e fizemos Nada, em 1968, um filme surrealista. Esse foi dirigido pelo Edson, fui assistente dele. Depois, fiz um curta-metragem chamado Western Trick [1967], também filmado em 16 milímetros,
e tinha uns trechos que contrapus de um filme de faroeste comprado na Mesbla. Iniciamos assim, de forma bem amadora mesmo. Depois disso é que começamos a procurar alguns realizadores. Sabíamos, por exemplo, que o Zé Mojica Martins ia na casa de fulano. Descobrimos o cineasta Paulo Martins, fomos lá esperar o Mojica para conhecê-lo. Também fui conhecer o [Carlos Hugo] Christensen, trabalhei com ele, e assim a coisa foi andando.
Quando surgiu o Instituto Nacional do Cinema (INC), muita gente estava fazendo curta-metragem, e ele começou a dar prêmios de qualidade. Com isso, os filmes tinham direito a serem exibidos, passavam antes dos filmes principais. E nós tínhamos também direito a uma porcentagem sobre o faturamento do longa-metragem, dava para ganhar algum dinheiro. Foi assim que fiz Ataulfo Alves [1973], Augusto dos Anjos [1973] e Antônio Maria [1974]. Os três tiveram prêmio de qualidade. Essa fração do dinheiro era o incentivo para continuarmos fazendo filmes. Essa fase preto e branco tem muitos filmes. Você não tem ideia, o negócio era muito louco!
Lembro quando minha esposa falou (ela é branca): “Afranio, papo reto: você é negro”. Ela que me disse que eu era negro, eu não sabia que eu era negro. Ela disse:
“Você é negro”. Aí passamos na Mesbla e compramos uma câmera, a Zai Pentax, uma câmera fotográfica. E ela disse: “Sempre que você estiver assim ao lado do Pelé, ao lado do [Carlos Hugo] Christensen, ao lado dessas atrizes famosas, você fotografa tudo, porque mais tarde podem dizer que você esteja mentindo”. Lá em casa, tenho um acervo impressionante, pior que é real mesmo. Tenho essa péssima mania de fotografar ao lado das pessoas, porque eu não sei, depois vão dizer que eu não estive com elas. E isso é real! Teve um maluco aí que disse que não fui assistente do Khouri. Mas tá lá no filme, o Khouri dedicou a mim muitas coisas… Isso é real, entendeu?
Certamente, sou o negro que mais dirigiu filmes no Brasil, a maior quantidade, não tenha dúvida. Mas é complicado, porque também sou um cara mulato. Quer dizer, sou execrado dos dois lados, pelos brancos e pelos negros, de acordo com a conveniência de cada um. Eu nunca tive preocupação com a questão racial. Primeiro, eu não sabia que era negro. Não acredito na existência do “negro”, do “homossexual”, da “mulher”. Não existe significante que possa sustentar esse tipo de coisa. Acredito na existência da raça humana. Não existe um significante específico para essas coisas, entende? E as pessoas elegem esses
significantes em função de um determinado momento histórico.
É complicado falar sobre os anos 1960 e 1970. O material de um longa-metragem era oito latas imensas, pesadíssimas, que ninguém consegue segurar. Isso só a lata de imagem. São mais oito latas pesadíssimas de som, que depois é juntado. Mais oito latas pesadíssimas de ruídos. É impossível! Você termina de rodar um filme, e aquilo fica tudo guardado. Vamos pegar um filme que alguém teria a obrigação de guardar: Os noivos, que foi um filme distribuído pela Embrafilme. Nem ela guardou! Um filme importantíssimo como Limite [Mário Peixoto, 1931] só é possível ver hoje em dia porque dois malucos, Plínio Süssekind e Saulo [Pereira de Mello], guardaram aqueles rolinhos dentro de casa, escondidos. Conseguiram salvar. Alguém vai querer salvar um filme de Afranio Vital? Ainda mais de um cara negro, em uma época daquela? Você pisa em cima e joga no lixo! Graças a Deus, conservei meu próprio material iconográfico, não dei para ninguém. Você não tem noção do valor disso…
Meus filmes não absorveram a literatura, mas a cultura. É o desejo de saber. Na minha época, era isso. Um cineasta não é assim hoje em dia. Tinha que ter formação. O pessoal não lê mais! Ninguém lê porra

nenhuma. Li todas as obras básicas de Shakespeare. Posso citar o nome dos quadros do Salvador Dalí, do Paul Klee. É o cinema autoral. Eu não acredito em salvação do mundo. Salvar o que não está perdido, para mim, é malhar em ferro frio. Acredito em Marx, em Freud. As coisas não acontecem
de um dia para o outro. Uma mudança de pensamento muito grande leva às vezes 200, 300 anos para se concluir. Há 100 anos, não estaria conversando com você, estaria no Pelourinho. As coisas demoram. Uma certa percepção de verdade só é possível com tempo. O que é o tempo que vou viver perto
das grandes mudanças que ainda existirão no mundo?
Os noivos é um filme maldito. Me casei… E aí a gente pensa que a felicidade existe. Foi quando comecei a análise, em 1975. Minha mulher estava grávida de Julieta, nossa primeira filha. Começaram aqueles grandes
conflitos entre o homem e a mulher. Briga para cacete, família no meio. E eu falei: “Não, vou persistir nisso, vou manter uma família”. É aquele negócio de ocupar o lugar do pai. Pai simbólico, ninguém é pai a não ser por metáfora, né? É um lugar predestinado, anterior à própria existência da pessoa que o ocupa. Pensei em aproveitar esses conflitos, minhas brigas com Teresinha e colocar num filme. Os noivos é com um casal que fica brigando do começo ao fim. Só que o final é trágico. De certa forma, é uma homenagem à morte da minha irmã, que morreu tomando formicida com guaraná em 1958, se suicidou. A esposa mata o cara [Reinaldo Gonzaga] e depois se mata. Na impossibilidade de ela conseguir esse absoluto do amor. É um filme muito louco. Foi feito no começo do meu processo de 27 anos de análise. Joguei tudo ali.
E aí fiz Longa noite de prazer. São dois caras, um negro [Haroldo de Oliveira], que mora numa favela, no alto, nos Prazeres. E o outro cara branco, rico, que mora na beira da praia. É um road movie. O personagem sai pela rua para entregar um pacote que é entregue a ele, sem saber o conteúdo. Sai de Copacabana, vai andando por todas as praias. Ele tem que entregar o negócio à noite, mas a entrega não é feita. Acaba acontecendo um monte de coisas durante o
dia. Encontram duas prostitutas na praia, se envolvem com elas. Tem muito sexo, tipo o Ruy Guerra, em Os cafajestes [1962]. É uma coisa de louco. E tem uma tragédia no final. O rapaz morre, e o personagem do Haroldo termina com o revólver fazendo assim [na cabeça]. Coloca o revólver e não sabe se se mata. Joga para lá, e a polícia vem atrás dele. Antigamente não existia a Barra da Tijuca, era apenas aquela estrada vazia. Estranho jogo do sexo é meu filme mais bem acabado. É com o Denny Perrier. Ele chama um garoto e uma menina de programa para a casa dele em Maricá, para apimentar o casamento com a mulher. Era uma época em que se falava muito em swing, troca de casais, coisas do gênero.
Mas, no fundo, esse cara que ele chamou era um caso dele. Era uma espécie de “ gay encubado”. E tinha uma morte lá. Ele denuncia o personagem do Haroldo, que era empregado. Um detetive faz uma pesquisa e descobre que quem matou foi o personagem interpretado pelo Perrier, ele acaba preso. É um filme bastante escrachado. Fica o Haroldo lá na mansão, junto com a mulher do cara que tramou, e a personagem da Jussara Calmon, que era namorada do empregado. Ficam os três juntos. Eles começam a jogar cartas, como no final de Viridiana [Luis Buñuel, 1961].
A morte é um tema muito recorrente na minha filmografia. Não usava o cinema para lidar com essas imagens, porque eu lidava com isso na psicanálise. O cinema não cura ninguém. Psicanálise também não, mas você aprende a lidar com seus fantasmas, a bendizer o seu desejo. Porque, antes de fazer análise, você maldiz o seu sintoma, né? O cinema é um vômito. Vomito para os outros os meus dramas. Não acredito que o cinema ou a arte cure alguma coisa. Não tenho acompanhado os debates sobre o cinema negro brasileiro. Isso é uma sublinguagem, uma coisa subliminar. Eu não poderia fazer um filme branco, porque sou negro, de origem negra. Apesar que minha mãe é negra e meu pai é branco. Sou de uma família multirracial. Tento fazer o cinema Afranio. E, nisso, tem o Afranio negro que surge ali. É algo que não se pode negar. Não parto de uma ideologia. Eu sou negro. Não odeio os brancos. Não vou odiar meu pai, a pessoa que eu mais amava na minha vida. Uma família multirracial é diferente. As complexidades são muitas, imensas. Você não tem noção da complexidade que tem. Então, procuro mostrar isso, tanto que essa complexidade é passada para os meus filmes, eles são meio híbridos. Eu faço filmes Afranio. Não faço filmes marxistas, nem sobre psicanálise. Psicanálise eu gosto de fazer. Cinema é outra coisa.

agnès varda
Kleber Mendonça Filho
Este texto faz parte do catálogo Fotografia AGNÈS VARDA Cinema. Em cartaz no IMS Paulista a partir de 29 de novembro, o projeto engloba exposição, com curadoria de João Fernandes e Rosalie Varda e assistência de curadoria de Horrana de Kássia Santoz, e mostra de filmes, em parceria com o Cinema do IMS.
Há uma riqueza de relações possíveis ao pensar no que Agnès Varda nos deixou e na forma como ela vive hoje na cultura com suas imagens. Não tenho como separar a minha admiração e o meu respeito por ela em compartimentos distintos, pois o pensamento fica mais claro quando a vejo tanto como realizador de filmes quanto como programador de cinema em salas de repertório. A mediação de tudo é a cinefilia. Para mim, Varda ocupa uma posição rara na nossa relação com o acervo de cinema. Sua imagem, a de uma persona pop, positiva, firme e generosa, tem a força de uma marca popular, mas uma marca artesanal, e não industrial. Ela encontra, na totalidade da sua obra, uma liberdade marcante de movimentos em relação ao mundo e ao cinema. Essa liberdade me parece também inspiradora e assertiva, e vejo uma força grande de Varda com os jovens.
Creio que a cineasta Varda tem um dos legados poéticos, estéticos e políticos mais livres que temos em mãos para desfrutar, sempre com a garantia de que estará disponibilizado a partir da preservação do seu acervo via investimentos do cinema francês. Do ponto de vista comercial, há ali uma distribuição bem representada mundialmente, aspecto ausente na prática da enorme maioria dos autores de cinema em todo
o mundo. Estar disponível é uma enorme conquista política.
Tudo isso está sendo observado ainda na mesma linha de tempo (a presente) que testemunhou sua perda, em 2019. Tenho curiosidade de ver se o legado deixado por Varda será fonte natural de vida no olhar para muitos no futuro. Intuo que sim, e ao afirmar isso não consigo parar de pensar outra vez nos jovens de agora e nos que ainda estão por vir.
Programar Varda para novos públicos significa abrir de pronto uma janela para muitos gestos. Sua obra oferece uma caminhada que percorreu quase 70 anos importantes que unem o século XX ao XXI, uma crônica constante e livre que permite ver muitas transições no mundo: nos seus filmes, na França, nas pessoas amadas por ela, no comportamento observado das mulheres na vida em sociedade e nos meios de realização cinematográfica. De fato, Varda registrou, ao usá-la incessantemente, as alterações na imagem do próprio cinema, da fotografia ao 16 mm, ao 35 mm, ao vídeo e ao digital.
Como realizador de filmes, deixo aqui um breve relato. A minha relação com os filmes de Varda passou pelo que considero uma linda transição. De filmes isolados que vi ao longo dos últimos 35 anos, eu fui tomando


pé da grandeza da sua obra com o passar paciente do tempo, com a conquista de alguma maturidade da minha parte e de uma distância que me apresentou o todo. Foi ela quem me ensinou que um filme é de fato um filme em isolamento, mas o filme é também o fruto de muitos filmes feitos como gestos construídos de vida.
No longo processo de pesquisa para um filme que eu mesmo fiz, chamado Retratos fantasmas (2023), me ocorreu revisitar Daguerreótipos (Daguerréotypes, 1975), que
havia visto muitos anos antes. Eu tinha amado esse filme na época, mas foi a redescoberta que me caiu como um presente, pois filmar uma rua e as pessoas – e o amor pelo registro e pelos rostos das pessoas – era algo que eu estava tentando passar no meu próprio filme.
Isso foi algo que Varda me ensinou sem a menor pretensão de me ensinar nada.
Também fiz a grande descoberta, ainda na longa montagem do Retratos fantasmas, de um outro filme – que eu não conhecia –, o curta-metragem bancado pelo
órgão francês do turismo, Ao longo da costa (Du côté de la côte, 1958). Creio que esse filme, sobre um espaço geográfico e uma região (a Côte d’Azur) já tão marcados pelas imagens do próprio cinema, foi a visualização perfeita para um realizador seguro do filme que queria fazer, mas com algumas letras importantes que estavam faltando no meu parágrafo.
Filmar o seu país, enxergar na geografia a poesia histórica e a imagem do cinema. Isso me agrada e me emociona. Grato.

A natureza das coisas invisíveis Rafaela Camelo | Brasil | 2025, 90’, DCP (Vitrine Filmes)

Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha | Brasil | 2024, 108’, DCP (Gullane+)
A queda do céu estreou na Quinzaine de Cinéastes, mostra paralela do Festival de Cannes 2024. Desde então, circulou por uma série de festivais e reuniu prêmios, como os de Melhor Longa-Metragem Documentário Internacional no 27º Festival Internacional de Cinema de Guanajuato, no México, Prêmio Especial do Júri no DMZ Docs, na Coreia do Sul, e Prêmio de Melhor Som e Melhor Direção de Documentário no Festival do Rio, todos em 2024.
Ingressos: terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
Glória tem 10 anos e passa as férias no hospital onde sua mãe trabalha como enfermeira. Lá ela conhece Sofia, uma menina que está convencida de que a piora na saúde da bisavó é causada pela internação no hospital. Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. Quando a partida se torna inevitável, as meninas e suas mães seguem para um refúgio no interior de Goiás para passar os últimos dias de um verão inesquecível. O filme também terá uma exibição gratuita no Cinema do IMS no contexto do Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade.
Ingressos: R$ 15 (inteira) e R$ 7,50 (meia).
Baseado nas palavras poderosas do xamã e líder Yanomami Davi Kopenawa, o documentário retrata a comunidade Watoriki durante o importante ritual funerário Reahu, um esforço coletivo para segurar o céu. O filme atua como uma contundente crítica xamânica àqueles que Davi Kopenawa chama de “o povo da mercadoria”, ao garimpo ilegal e à mistura mortal de epidemias trazidas pelos forasteiros, chamadas de xawara. Em primeiro plano, a beleza e a força geopolítica da cosmologia Yanomami e dos espíritos xapiri.

Frankenstein
Guillermo del Toro | EUA | 2025, 149’, DCP (O2 Play)


Victor Frankenstein, um cientista brilhante, porém egocêntrico, dá vida a uma criatura, em um experimento monstruoso que acaba levando à ruína tanto o criador quanto sua trágica criação. Uma releitura do romance clássico de Mary Shelley pelo diretor Guillermo del Toro, o filme teve estreia na edição deste ano do Festival de Veneza.
Ingressos: terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
Za’a Rouhak Ala Yadak Wa Emshi Sepideh Farsi | França, Irã, Palestina | 2025, 110’, DCP (Filmes do Estação)
A partir de uma série de videochamadas realizadas em mais de 200 dias, a cineasta iraniana Sepideh Farsi burla a impossibilidade de acessar Gaza e filma a fotojornalista palestina Fatma Hassona, que documentou a vida cotidiana e a resistência em uma cidade insistentemente bombardeada por Israel. O documentário oferece um relato íntimo e em primeira mão da vida sob um ciclo constante de massacre. Hassona é vista pela última vez na conversa em que a diretora conta que o filme foi selecionado para a mostra ACID, do Festival de Cannes deste ano. Um mês antes da estreia do filme, no dia 16 de abril, Fatma e vários membros de sua família foram mortos em um ataque aéreo israelense.
Ingressos: terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
Luiz Antonio Pilar | Brasil | 2025, 94’, DCP (Bretz Filmes)
Documentário sobre a vida e obra de um dos mais prolíficos artistas do país, Milton Gonçalves, ator e diretor com mais de 80 trabalhos na televisão, 70 obras no cinema e 30 produções no teatro. De clássicos como Macunaíma e O beijo da mulher aranha a algumas das principais dramaturgias da televisão brasileira, como O bem-amado e Roque Santeiro, Milton rompeu barreiras impostas aos artistas negros e participou da história da televisão brasileira, da fundação do teatro contemporâneo e do cinema brasileiros, tornando-se uma das grandes referências de nossa arte.
Ingressos: terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

O último episódio
Maurilio Martins | Brasil | 2025, 112’, DCP (Malute e Embaúba Filmes)
Erik, um garoto de 13 anos, alimenta uma paixão platônica por Sheilla e, para se aproximar dela, diz ter em casa uma fita com o lendário último episódio do desenho Caverna do dragão. Com a ajuda de seus melhores amigos, ele precisa criar uma solução para a enrascada em que se meteu.
O último episódio é o mais novo lançamento da produtora mineira Filmes de Plástico. Em depoimento disponível no material de imprensa do filme, o diretor Maurílio Martins (No coração do mundo) conta: “Há muitos traços biográficos, ainda que não seja a minha história, ainda que aquilo nunca tenha acontecido comigo. O filme se passa em
1991, e eu tinha 13 anos em 1991. Eu não necessariamente morei na casa onde o personagem mora, mas ela fica em frente à minha casa. Por coincidência, é uma casa que, desde a primeira versão do roteiro, eu sempre quis que fosse ali onde o filme fosse filmado.”
“Eu acho que, mais do que a cidade de Contagem, eu tenho me aprofundado ainda mais no lugar onde eu nasci, cresci e vivi minha vida inteira, que é o Laguna. Quase como se fosse uma cidade dentro da cidade. Em parte, porque a gente sempre viveu um pouco isolado, tanto da região mais central de Contagem quanto da região central de Belo Horizonte.”
“E tem uma coisa que é muito importante de se dizer. Eu acho que esse filme cumpre um papel que, de certo modo, os nossos filmes vêm cumprindo, mas é a primeira vez que a gente faz um filme de época, a primeira vez que a gente precisa recriar um espaço. E aí entra um traço que é muito triste, no sentido da preservação. Na periferia, existe algo que funciona como um sinal de obtenção de uma vida melhor. Um indicativo muito forte de que sua vida está melhorando é quando você consegue reformar a sua casa, derrubar e construir outra, trocar o muro, trocar o passeio. Essa reforma, essa mudança, é muito constante na periferia. Por isso, você não tem quase nada preservado. A ideia de preservação caminha para outros lados.”
“Então, no filme, a gente tenta, inclusive se valendo de efeitos especiais, reconstrução em 3D, apagamento de algumas coisas, reconstruir ao máximo, dentro do que é possível, essa Contagem dos anos 1980. Esse bairro Laguna dos anos 1980, início dos 1990 – mais especificamente os anos 1990, porque o filme se passa em 1991. Acho que as fotos utilizadas ali e aquele vídeo conectam ainda mais a gente com esse espaço. E, claro, também nos valemos das poucas construções que ainda foram preservadas, que ainda se mantiveram. Tivemos um trabalho de arte belíssimo, magnífico, especialmente na reconstrução da mercearia, dos ambientes internos. Isso provoca algo muito forte e te coloca muito próximo do que era, mesmo depois de tudo o que já passou.”
“Dentro do que a gente podia, cinematograficamente falando, acho que fomos muito fiéis a esse espaço. E isso me dá um orgulho muito grande.”
Ingressos: terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

Kelly Reichardt | EUA | 2025, 110’, DCP (Imagem Filmes)

Steven Spielberg | EUA | 1975, 125’, DCP (Universal Pictures do Brasil), restauração 4K
termo blockbuster, amplamente utilizado hoje em dia. O longa também foi responsável por transformar o calendário de lançamentos de Hollywood, já que o mês de junho era visto como uma “estação fraca” para o cinema. Contudo, após a estreia, o período passou a ser o mais aguardado do ano para os grandes lançamentos cinematográficos.
Também sucesso de crítica, o filme recebeu quatro indicações ao Oscar, das quais venceu nas categorias Melhor Montagem, Melhor Som e Melhor Trilha Sonora. A icônica música de John Williams é, até hoje, considerada uma das composições mais reconhecíveis e influentes da história do cinema.
Massachusetts, anos 1970. A Guerra do Vietnã e o início do movimento feminista dominam o pano de fundo americano. A vida de JB Mooney, um carpinteiro e chefe de família, está no marasmo. Para fazer dinheiro, ele planeja um grande roubo de obras de arte valiosas num museu. Mas lidar com o produto do roubo se revela inacreditavelmente mais complicado que o assalto em si.
O mais recente filme da aclamada cineasta Kelly Reichardt (First Cow, Certas mulheres) estreou na competição do Festival de Cannes deste ano.
Ingressos: terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
Um terrível ataque a banhistas é o sinal de que a praia da pequena cidade de Amity, virou refeitório de um gigantesco tubarão-branco, que começa a se alimentar dos turistas. Embora o prefeito queira esconder os fatos da mídia, o xerife local pede ajuda a um ictiologista e a um pescador veterano para caçar o animal, mas a missão vai ser mais complicada do que eles imaginavam.
Lançado em junho de 1975 nos Estados Unidos e chegando em dezembro do mesmo ano no Brasil, Tubarão redefiniu a indústria audiovisual. Foi o primeiro filme da história a ultrapassar 100 milhões de dólares em bilheteria, cunhando o
Ingressos: terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
Gordon Parks: A América sou eu no cinema do IMS
Gordon Parks foi um artista multifacetado, fotógrafo, escritor, músico e cineasta, cuja obra abordou as desigualdades raciais e sociais nos Estados Unidos. Nascido em meio à segregação racial norte-americana, iniciou sua carreira na revista Life, onde se destacou pelo olhar sensível às vivências cotidianas das comunidades afro-americanas. Primeiro fotógrafo negro contratado pela revista, uma plataforma de grande circulação e prestígio à época, Parks fez de sua câmera um instrumento de humanização das populações negras do país.
O romance semiautobiográfico The Learning Tree e sua adaptação para o cinema o consagraram como o primeiro diretor negro em um grande estúdio de Hollywood. Com direção, roteiro e trilha sonora de Parks, o filme acompanha um ano na vida de um adolescente negro no Kansas da década de 1920, narrando os acontecimentos que o levam abruptamente à vida adulta. Mais tarde, com o suspense policial Shaft, Parks foi um dos responsáveis por abrir as portas para o conjunto de filmes então chamado blaxploitation. Sucesso de bilheteria, Shaft recebeu o Oscar de Melhor Canção Original, em 1972, para a música-tema de Isaac Hayes.
A retrospectiva de filmes Gordon Parks: a América sou eu no Cinema do IMS, em diálogo com a exposição de mesmo título em cartaz no IMS Paulista, apresenta-se como uma extensão de seu olhar fotográfico, forjado nas ruas, nas comunidades e nas tensões raciais. Além de Com o terror na alma (The Learning Tree) e Shaft, a mostra reúne títulos como Flavio (1964), rodado no Rio de Janeiro e inspirado em sua reportagem para a Life; Solomon Northup’s Odyssey (1984),
adaptação das memórias do escritor afro-americano que também inspiraram o vencedor do Oscar 12 anos de escravidão, de Steve McQueen; e filmes que dialogam com o legado de Parks.
A programação inclui ainda uma sessão especial de Shaft, seguida por um comentário musical ao vivo do pianista Amaro Freitas.
Ingressos:
Dias 25 e 26/11: Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
Demais sessões: R$ 10 (inteira) R$ 5 (meia).
Exibição do filme Shaft, de Gordon Parks, seguido de comentário musical por Amaro Freitas

Gordon Parks | EUA | 1971, 100’, DCP (Park Circus), restauração 4K
Marco da cultura negra nos EUA e do conjunto de filmes então chamado blaxploitation, Shaft ganha uma sessão especial que une cinema e música ao vivo. Após a exibição do longa, o pianista e compositor Amaro Freitas faz uma apresentação inédita, inspirada pela estética, narrativa e sonoridade do filme.
Na trama, o detetive John Shaft é contratado por um chefe do crime de Nova York para encontrar sua filha sequestrada. O roteiro, baseado em romance de Ernest Tidyman, foi transformado por Parks em um símbolo cultural que subverteu o papel historicamente submisso de personagens negros em Hollywood.
Além disso, influenciou gerações com a trilha sonora composta por Isaac Hayes, cuja música tema recebeu o Oscar de Melhor Canção Original em 1972.
Com sua linguagem inventiva e profundamente enraizada na música afro-brasileira, Amaro propõe um diálogo entre o legado de Shaft e as pulsões contemporâneas do jazz e da música negra global, reverberando ainda a própria trajetória de Parks, que também era fotógrafo e pianista.
Amaro Freitas
Nascido no Recife em 1991, Amaro Freitas é uma das vozes mais inovadoras da música contemporânea. Filho de um líder de banda evangélica, começou sua formação musical aos 12 anos e rapidamente se destacou na cena jazzística do Brasil e do mundo. Com um estilo próprio, marcado pela improvisação, ancestralidade afro-brasileira e desconstrução das formas tradicionais do piano, Amaro já se apresentou em festivais como Montreux Jazz (Suíça), Ronnie Scott’s (Londres), além de colaborações com artistas como Milton Nascimento, Dom Salvador, Criolo e Lenine. Com álbuns aclamados, como Sangue negro (2016), Rasif (2018), Sankofa (2021) e o mais recente Y’Y (2024), lançado pelo selo norte-americano Psychic Hotline, o pianista vem sendo celebrado por veículos como DownBeat, Pitchfork e All About Jazz. Em 2025, recebeu o Prêmio da Música Brasileira de Melhor Álbum de Música Instrumental por Y’Y.

The Learning Tree Gordon Parks | EUA | 1969, 107’, DCP (Park Circus), restauração 2K
Em 1963, no mesmo ano em que Gordon Parks fotografou a Marcha para Washington, na qual foi pronunciada a mais reconhecida fala de Martin Luther King, e as atividades cotidianas dos membros da Nação do Islã, ele publicou seu primeiro romance – The Learning Tree. Uma história semiautobiográfica de amadurecimento, o romance acompanha a jornada de Newt Winger (interpretado no filme por Kyle Johnson, do Esquadrão Mod), um adolescente negro descendente dos migrantes do sul dos Estados Unidos pós-Guerra Civil, que cresceu na zona rural do Kansas na década de 1920 e aprende, em duras lições, como lidar com as injustiças do racismo estrutural. O título do livro, que poderia ser livremente traduzido como A árvore do conhecimento, vem de um aviso dado a Parks por sua mãe quando ele partiu de sua cidade natal, Fort Scott, Kansas: “Algumas pessoas são boas e outras são más – assim como
os frutos de uma árvore... Não importa se você vai ou fica, pense nisso até o dia da sua morte – deixe que essa seja a sua árvore do conhecimento.”
Em 1969, Parks trouxe ainda mais uma camada de profundidade para o livro ao adaptá-lo para o cinema, trabalhando como roteirista, produtor, compositor e diretor. Ele foi incentivado a empreender o projeto pelo amigo e aclamado diretor de cinema John Cassavettes. Lançado em agosto do mesmo ano, Com o terror na alma foi o primeiro filme dirigido por uma pessoa negra para um grande estúdio de Hollywood, a Warner Bros. O filme teve um orçamento modesto e não foi um sucesso comercial à época, mas foi uma conquista fundamental na história do cinema americano.
Abraçar a morte: o cinema de Afranio Vital

Momentos sem nome próprio
Moments without Proper Name
Gordon Parks | EUA | 1987, 58’, Arquivo digital (Kino Lorber)
Em um de seus últimos trabalhos como diretor, Gordon Parks volta a câmera para si mesmo e cria um autorretrato profundamente pessoal e poético. Momentos sem nome próprio combina as impressionantes fotografias de Parks ao longo de quatro décadas com imagens inéditas do artista, documentários e reportagens, composições musicais próprias e memórias pessoais encenadas por um trio de atores renomados: Avery Brooks, Roscoe Lee Browne e Joe Seneca. Com base em suas memórias, a partir de A Choice of Weapons, seu primeiro livro autobiográfico, lançado em 1966, o filme serve como um retrato não linear, expressivo e íntimo de Parks.
A morte, se antes presente na obra do cineasta Afranio Vital como um tema a ser desafiado e encarado de maneira frontal, hoje também se traduz no silêncio programado em torno de sua filmografia. Com dois títulos inéditos restaurados em 4K, dirigidos pelo diretor negro, em diálogo com filmes em que participou como montador e retratado, a quinta edição da Sessão INDETERMINAÇÕES busca oferecer outros elementos para narrar e investigar uma história ainda tão desconhecida. Em coletivo, os curtas-metragens com Afranio Vital driblam e anunciam estratégias de mortes inevitáveis e desejadas, reanimando arquivos e memórias que “deveriam” ser esquecidos. Um estranho convite para saborear o fim, que pode prenunciar, no entanto, múltiplos começos.
Ingressos:
Dia 11/11: Exibição e debate: Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
Dia 22/11: Reprise: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

Reinaldo Cozer | Brasil | 1979, 10’, DCP (Acervo do diretor)
Fotografias, discos de vinil e a doce voz de Luiz Melodia compõem um pequeno retrato do jovem artista. Do íntimo ao público, o inimaginável toma forma através do compartilhamento de memórias de quem faz música como alimento.

Afranio Vital | Brasil | 1973, 10’, DCP, restauração 4K (IMS/indeterminações)
O som da cuíca precede e se mistura à fala do sambista. As imagens da arquitetura da cidade de Miraí, interior de Minas Gerais, devolvem Ataulfo Alves ao seu lugar de nascimento. Os planos do Rio Comprido se confundem com as fotografias da fama. No Catumbi, ele encara o destino final.

Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro | Brasil | 2024, 18’, DCP (Acervo dos diretores)
Um alter ego, uma ficção, um personagem, um diretor. A obsessão, a poesia e o erotismo de Afranio Vital. Sobretudo, aliás, o cinema.

Afranio Vital | Brasil | 1977, 11’, DCP, restauração 4K (IMS/indeterminações)
Breves aparições de Antônio Maria sugerem que o retrato de alguém pode ser mais do que um rosto estampado. Talvez apenas uma atmosfera seja o suficiente para entrar em contato com o lirismo, a vida e a morte.
Uma Varda viajante é quem nos conduz pelo percurso que une a exposição Fotografia
AGNÈS VARDA Cinema, em cartaz a partir de 29 de novembro no IMS Paulista, à mostra de filmes no Cinema do IMS. Fotógrafa e cineasta, Agnès Varda atravessou fronteiras geográficas, formais e afetivas com o mesmo olhar curioso e libertário, transformando o cotidiano em imagens e narrativas.
Antes de se tornar uma das grandes vozes do cinema, Varda formou-se como fotógrafa. Seu modo de ver o mundo nasce da atenção ao corpo e à paisagem. Em suas imagens, fixas ou em movimento, há sempre a escuta do outro, uma delicadeza que se funde com engajamento. O que ela fotografa e filma são gestos, rostos, ruelas, fragmentos de uma vida comum que, sob seu olhar, ganham uma dimensão universal.
Os filmes que abrem a mostra, Os Panteras Negras (1968), Saudações, cubanos! (1963) e A Ópera-Mouffe (1958), condensam o espírito de uma artista que viaja com as ideias, os corpos e os desejos de seu tempo. Em Os Panteras Negras, Varda filma com urgência e empatia o movimento negro em Oakland, captando a força dos discursos e a beleza dos gestos de resistência. Em Saudações, cubanos!, transforma as fotografias tiradas em Cuba em um filme vibrante, feito de colagens, danças e vozes que celebram a revolução e sua energia coletiva. Já A Ópera-Mouffe é uma viagem dentro da própria Paris, um diário entre o sonho e o real, filmado nas ruas do bairro onde
vivia. Ali, Varda combina ternura e inquietação para compor um retrato poético das pessoas comuns, das pequenas existências que insistem em viver. Essas imagens, feitas de curiosidade, solidariedade e invenção, revelam o compromisso de Agnès Varda com as lutas pela dignidade humana e com a liberdade de olhar. Sua obra, feita de encontros e deslocamentos, pensa o cinema a partir da fotografia, e a fotografia a partir da vida. Em diálogo com a exposição em cartaz no IMS Paulista, o Cinema do IMS apresenta, com novos programas mês a mês, uma seleção de filmes de Agnès Varda em que a relação do cinema com o olhar fotográfico é especialmente demarcada.
Dia 30/11: Sessão de abertura: Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.

L’Opéra-Mouffe
Agnès Varda | França | 1958, 17’, DCP (Filmes do Estação), restauração 2K
Neste documentário em forma de diário, Varda toma como ponto de partida uma jovem grávida para lançar luz sobre a parisiense rue Mouffetard. Quando realizou A Ópera-Mouffe, Varda também estava grávida. Durante dois meses, ela percorreu o bairro do mercado com sua câmera e o vivenciou de uma maneira muito diferente de antes. Registrou sua sensibilidade diante da miséria em um estilo impressionista. Sem som sincronizado e incorporando diversas técnicas pouco convencionais, este curta-metragem revela o estilo livre de Varda tanto na forma de filmar quanto na escolha de seu tema.

Salut les Cubains
Agnès Varda | França | 1963, 29’, DCP (Filmes do Estação), restauração 2K
Quatro anos após a chegada ao poder de Fidel Castro com a Revolução de 1959, Agnès Varda trouxe de Cuba 1.800 fotos e as utilizou para criar este diário de viagem. Esta ode fotográfica e musical presta homenagem ao cubano “comum”, mas também ao “rei do mambo”, aos revolucionários e às mulheres dançantes.
Na narração, Varda fala sobre suas experiências na ilha, às vezes em forma de diálogo com o ator Michel Piccoli. Acompanhadas por uma trilha sonora vibrante, as fotos são editadas de modo que parecem ganhar movimento.

Black Panthers
Agnès Varda | França, Estados Unidos | 1968, 28’, DCP (Filmes do Estação), restauração 2K
Em 1967, Agnès Varda vivia na Califórnia quando um dos fundadores dos Panteras Negras, Huey P. Newton, foi preso. No verão de 1968, Varda levou sua câmera de 16 mm a uma manifestação Free Huey em Oakland. Ela filmou o concerto organizado em apoio à liderança encarcerada, intercalado com discursos de Bobby Seale, H. Rap Brown e Stokely Carmichael.
A atmosfera é festiva, com crianças dançando e pessoas deitadas na grama, muitas vezes segurando exemplares do Livro vermelho marxista-leninista. Mas aquilo não é um piquenique nem uma festa, observa Varda em sua narração. Um membro dos Panteras faz um apelo apaixonado por emprego, moradia e educação dignos, pelo fim da brutalidade policial e pela libertação dos prisioneiros negros.
Os Panteras Negras estava programado para ser exibido na televisão francesa no fim de 1968, mas foi cancelado de última hora – segundo Varda, porque os censores temiam que o filme “reavivasse a ira dos estudantes”.
O 33º Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade traz para o Cinema do IMS toda a sua programação de longas-metragens nacionais, em um amplo recorte de expressões de gênero e sexualidade pelo Brasil. A seleção inclui a Competitiva Brasil de Longas-Metragens, a mostra Reframe –seção de filmes de vanguarda e experimentação estética que este ano se torna competitiva – e o programa Queer.doc, que destaca documentários com temáticas urgentes do universo LGBT+. Onze estados estão representados nesta programação, que cria um mosaico de amores e afetos queer, que se entrelaçam em narrativas sobre identidade, resistência, memória, arte e desejo. As informações completas sobre os filmes estão disponíveis no site do festival: mixbrasil.org.br/.
Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.

Rafaela Camelo | Brasil, Chile | 2025, 90’, DCP (Mix Brasil)
Glória tem 10 anos e passa as férias no hospital onde sua mãe trabalha como enfermeira. Lá ela conhece Sofia, uma menina que está convencida de que a piora na saúde da bisavó é causada pela internação no hospital. Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. Quando a partida se torna inevitável, as meninas e suas mães seguem para um refúgio no interior de Goiás para passar os últimos dias de um verão inesquecível.
Após o Festival Mix Brasil, no dia 27 de novembro, A natureza das coisas invisíveis estreia com exibições regulares no Cinema do IMS Paulista.

Nolasco | Brasil | 2025, 104’, DCP (Mix Brasil)
Catalão, interior de Goiás, 1984. Antonio vive sozinho e isolado, cuidando dos afazeres de sua pequena fazenda, até o dia em que seu destino cruza com o de Marcelo, um motoqueiro solitário que sofre um acidente atravessando a região. Antonio cuida das feridas de Marcelo. Os dois se apaixonam e vivem uma história que transforma, desestabiliza e provoca rupturas em cada um deles.

Tainá Müller, Ísis Broken | Brasil | 2025, 82’, DCP (Mix Brasil)
Após conceber naturalmente um filho durante a pandemia de covid-19, Isis e Lourenzo iniciam uma jornada pelo Brasil em busca de algo incomum: um pré-natal respeitoso e especializado. Ao mesmo tempo, seguem na luta diária dentro e fora de casa, pelos direitos de sua família no país que mais mata pessoas trans no mundo.

Marcio Reolon, Filipe Matzembacher | Brasil | 2025, 120’, DCP (Mix Brasil)
Um ator ambicioso e um político em ascensão vivem um caso em sigilo e, juntos, descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos. À medida que se aproximam da fama, mais intenso se torna o desejo de se colocarem em risco.

Guto Parente | Brasil, Portugal | 2025, 85’, DCP (Mix Brasil)
Madalena é uma produtora de cinema, grávida de oito meses, prestes a rodar um filme de ficção científica B escrito por seu pai recém-falecido. Quando Davi, o diretor do filme e seu ex-marido, desaparece misteriosamente do set, Madalena precisa fazer das tripas coração para conseguir terminar o filme antes do bebê nascer.

Ruas da Glória
Felipe Sholl | Brasil, França | 2024, 109’, DCP (Mix Brasil)
Gabriel se muda para o Rio de Janeiro e fica obcecado por Adriano, um garoto de programa, depois de sofrer uma grande perda. Quando Adriano desaparece, Gabriel inicia uma jornada de investigação, até se tornar ele mesmo um acompanhante. Isso quase lhe custa a vida.

Ana Catarina Lugarini | Brasil | 2025, 80’, DCP (Mix Brasil)
Três gerações de mulheres da mesma família, vivendo pela primeira vez sob o mesmo teto, precisam reinventar o significado da palavra lar. O que revelam as marcas de traumas que insistem em retornar? Lá fora, a violência segue à espreita, enquanto, aqui dentro, o desafio é construir o acolhimento para si e para as outras, em meio a laços que podem tanto unir quanto desatar.

Cláudia Castro | Brasil | 2025, 77’, DCP (Mix Brasil)
A jovem Mia, uma bruxa egocêntrica, tem um poder inusitado: quem a beija se apaixona por ela ou volta a se apaixonar pela última pessoa que amou. Em uma das suas rondas, Mia se depara com Yuri, que está desiludido após o término com René. Mas quando a bruxa o convence a conhecer seus trabalhos, o inusitado acontece, e é Mia quem se apaixona pela ex-namorada do jovem.



Fernando Weller, Alan Oliveira | Brasil | 2025, 75’, DCP (Mix Brasil)
Naywá retorna a sua cidade natal, Oeiras, no interior do Piauí, e propõe a um grupo de atores amadores a leitura e encenação de um documento de 1758, que narra um Sabá de Bruxas na cidade. Arrenego é um filme que aborda o tema da persistência das opressões coloniais, de raça e de gênero no Brasil, conectando o passado com as contradições do presente.
Leo Tabosa | Brasil | 2025, 72’, DCP (Mix Brasil)
Às vésperas do fim do mundo, Sydia e sua filha Nina se veem presas em uma noite interminável. Enquanto o isolamento acirra os conflitos entre mãe e filha, a chegada inesperada da misteriosa Lara desperta tensões. Joana, a empregada que havia sumido sem explicações, retorna com notícias do mundo exterior. Em meio ao colapso iminente, segredos vêm à tona, e cada uma será confrontada com o peso de suas escolhas.
Anna Talebi | Brasil | 2025, 11’, DCP (Mix Brasil)
Marina Abramopip é uma performer virtual inspirada em uma performer real. O que elas têm em comum?

Bruca Teixeira | Brasil | 2025, 3’, DCP (Mix Brasil)
Em uma zona costeira povoada por criaturas queer deixadas de fora da Arca de Noé, um tutorial em forma de animação revela táticas subaquáticas de resistência.

Thiago Martins de Melo | Brasil | 2025, 60’, DCP (Mix Brasil)
Uma ode à união do caminho da mão esquerda espiritual e à esquerda política revolucionária, através da saga de uma anti-heroína, filha de um deus afro-latino sincretizado, desde a sua concepção, passando por suas lutas contra o sistema colonial patriarcal, até sua caminhada iniciática necrosófica rumo à sua libertação anticósmica nas águas do Caos.

Honório Félix, Breno de Lacerda | Brasil | 2025, 92’, DCP (Mix Brasil)
Guiados por um messias, cosmonautas dominam um planeta, transformando seus habitantes originais em operários de sua obra: a construção de uma nação. Mas Ning, uma consciência coletiva de revolta, surge, trazendo a iminência de uma greve geral.

Yuri Célico | Brasil | 2024, 29’, DCP (Mix Brasil)
Inspirado na canção “Iracema”, de Adoniran Barbosa, acompanha Patrícia, que perdeu todas as memórias de sua amada recém-falecida, gerando um luto capaz de distorcer todo o tempo e o espaço ao redor.

Yhuri Cruz | Brasil | 2025, 52’, DCP (Mix Brasil)
Um musical sobre os silêncios, que acontece inteiro em um estúdio de som, numa noite de quarta-feira no ano de 1975, enquanto Jade aquece a sua voz. A chegada inesperada de uma velha amiga traz de volta para Jade sua irmã – na forma de uma carta.

Luís Knihs | Brasil | 2025, 72’, DCP (Mix Brasil)
Quando Márcia Pantera subiu ao palco da icônica boate Nostro Mondo, no início dos anos 1990, e revelou o Bate Cabelo, ela não fazia ideia de que estava criando um símbolo que se tornaria central para a cultura LGBTQIAPN+ no Brasil. Entre imagens de arquivo e depoimentos reveladores, o documentário mergulha na origem de um movimento que atravessou noites, décadas e fronteiras, e tornou-se uma expressão de identidade e resistência.

Allan Ribeiro | Brasil | 2025, 74’, DCP (Mix Brasil)
Em 2024, Madonna fez o maior show de sua carreira. As areias de Copacabana receberam 1,6 milhão de pessoas. O filme mostra como a cidade do Rio de Janeiro se preparou para esse evento. E como a vida dos personagens foi afetada no período que antecedeu o dia 4 de maio. Todas as bandeiras levantadas pela cantora em sua vida estão presentes neste documentário.

Giorgia Narciso | Brasil | 2025, 83’, DCP (Mix Brasil)
Cinco pessoas trans com deficiência compartilham suas vivências no estado de São Paulo, revelando histórias únicas de resistência, afeto e reinvenção. Bárbara, Heitor, Aylla, Kalú e Anita atravessam desafios sociais e pessoais, mas suas trajetórias vão muito além das condições que carregam – elas são marcadas por sonhos, espiritualidade, amor e luta por dignidade.

Luciano Oreggia | Brasil | 2024, 92’, DCP (Mix Brasil)
Acompanhamos quatro artistas drag – Tchaka, Hellena Borgys, Márcia Pantera e Vera Ronzella – em suas jornadas pessoais e artísticas. Em um cenário de tensão social entre 2022 e 2023, elas enfrentam preconceitos e reafirmam suas verdades com coragem. O documentário revela seus cotidianos, performances e lutas, tornando-se não só um retrato íntimo, mas também um testemunho de resistência e expressão em tempos adversos.

Túmulos de couro
Leather Graves
Malic Amalya | Estados Unidos | 2025, 12’, DCP (Mix Brasil)
Fazendo pegação entre lápides gravadas com referências à cultura e sexualidade queer, pessoas queer desafiam a morte devorando flores cobertas de doces.

Fábio Rogério, Wesley Pereira de Castro | Brasil | 2025, 62’, DCP (Mix Brasil)
Depressivo. Virginal. Antibolsonarista. Cinéfilo. Religioso. Pornoteórico. Centrípeto. Vegetariano. Amante da literatura. Protossuicida. Indiscreto.
Cinema
Coordenador | Curador
Kleber Mendonça Filho
Supervisora de curadoria e programação
Marcia Vaz
Programador adjunto
Thiago Gallego
Assistente de programação
Lucas Gonçalves de Souza
Projeção
Ana Clara da Costa,
Adriano Brito e Carmen Genaro
Serviço de legendagem
eletrônica
Pilha Tradução
Revista do Cinema do IMS
Produção de textos e edição
Thiago Gallego e Marcia Vaz
Diagramação
Marcela Souza e Taiane Brito
Revisão
Flávio Cintra do Amaral
A programação do mês tem apoio do 33º Festival Mix Brasil da Cultura da Diversidade, da Fundação Gordon Parks, do NICHO 54, das distribuidoras Bretz Filmes, Embaúba Filmes, Filmes do Estação, Gullane+, Imagem Filmes, Kino Lorber, Malute, O2 Play, Park Circus, Universal Pictures do Brasil, Vitrine Filmes e do projeto Sessão Vitrine Petrobras.
Agradecemos a Adriana Rattes, Afranio Vital, Amaro Freitas, André Fischer, Ben Churney, Carol Eulália, Duca Caldeira, Fernanda Lomba, Gabriel Araújo, George Schmalz, Heitor Augusto, Horrana de Kássia Santoz, Ilda Santiago, Iliriana Rodrigues, Jacques Jagou, James Jordan, Janaina Damaceno, João Santana, Juliano Gentile, Juliano Gomes, Jyan França, Léa Tordjman, Lilian Vergara, Lincoln Péricles, Lorenna Rocha, Marcio Miranda Perez, Mark Truesdale, Michal Raz-Russo, Nathan Machado, Pedro Guimarães, Rafaella Leão Nascimento, Rosalie Varda, Safia Hamid, Sandra
Escribano Orpez.
Parceria



Sessão indeterminações
Realização: Cinema do IMS; Curadoria:
Lorenna Rocha e Gabriel Araújo; Produtor associado: Jyan França; Produção
executiva: Miracéu Audiovisual; Vinheta: Lincoln Péricles (LK), com finalização de som e imagem de Pó de Vidro

agradecimentos
apoio
Mnemosine Serviços
Audiovisuais
Link Digital
Mapa Filmes do Brasil
CTAv
Cinemateca Brasileira
Sessão Shaft por Amaro Freitas
Piano: Amaro Freitas
Programação e produção de exibição: Cinema do IMS
Curadoria musical: Juliano Gentile
Engenheiro de som: Vinicius Aquino
Técnica de som: Lilla Stipp
Luz: Kuka Batista
Produção IMS: Raquel Lehn, Dani Anjos e Rafael Penha
Venda de ingressos
Ingressos à venda pelo site ingresso.com e na bilheteria do centro cultural, a partir das 12h, para sessões do mesmo dia. No ingresso.com, a venda é mensal, e os ingressos são liberados no primeiro dia do mês. Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala.
Capacidade da sala: 145 lugares.
Meia-entrada
Com apresentação de documentos comprobatórios para professores da rede pública, estudantes, crianças de 3 a 12 anos, pessoas com deficiência, portadores de Identidade Jovem, maiores de 60 anos e titulares do cartão Itaú (crédito ou débito).
Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site. Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas no site ims.com.br e no Instagram @imoreirasalles. Não é permitido o acesso com mochilas ou bolsas grandes, guarda-chuvas, bebidas ou alimentos. Use nosso guarda-volumes gratuito. Confira as classificações indicativas no site do IMS.

Os Panteras Negras (Black Panthers), de Agnès Varda

Terça a quinta, domingos e feriados sessões de cinema até as 20h; sextas e sábados, até as 22h.
Visitação, Biblioteca, Balaio IMS Café e Livraria da Travessa
Terça a domingo, inclusive feriados das 10h às 20h.
Fechado às segundas.
Última admissão: 30 minutos antes do encerramento.
A entrada no IMS Paulista é gratuita.
Avenida Paulista 2424 CEP 01310-300
Bela Vista – São Paulo tel: (11) 2842-9120
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