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Revista Laboratório do Curso de Jornalismo do Unibh


a lupa

e a luneta

Nesta edição, a MÚLTIPLA troca suas editorias tradicionais - economia, política, ciência, esporte, cultura etc. - por um enfoque direcionado ao próprio mundo do jornalismo e do curso de Comunicação Social do UniBH. Afinal, estamos celebrando 40 anos de existência, o que nos estimula a olhar para nós mesmos com dois apetrechos: uma lupa e uma luneta. A lupa nos ajudará a observar minúcias de nossa área do conhecimento. Que o digam, nesta edição da revista, os textos sobre TVs universitárias, sala de aula ampliada, natureza da reportagem, exigência do diploma, dentre outros. Já com a luneta, à maneira de Nostradamus, espiaremos os movimentos do futuro e, curiosamente, também do passado. Tal é o tema das reportagens sobre a trajetória do curso de Jornalismo do UniBH e de seus egressos (curtam, aliás, o ensaio com fotos realizadas por eles, na época em que aqui estudavam). Vale destacar, ainda, a entrevista com a renomada professora Cremilda Medina, da Escola de Comunicação e Artes da USP, na qual ela reflete sobre as tensões entre academia e mercado, no campo do jornalismo. Boa Leitura! Leo Cunha e Maurício Guilherme

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SUMÁRIO

EXPEDIENTE

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14 REITOR Prof. Rivadávia C. de Alvarenga Neto INSTITUTO DE COMUNICAÇÃO E DESIGN DIRETOR Prof. Rodrigo Neiva DIRETORA ADJUNTA Profª Cynthia de Freitas Oliveira Enoque CURSO: COMUNICAÇÃO SOCIAL Rua Diamantina, 567 - Lagoinha BH - MG - CEP: 31110-320 TELEFONE: (31) 3207-2811 COORDENADOR Prof. João Carvalho

Revista Laboratório do Curso de Jornalismo do Unibh

LABORATÓRIO DE JORNALISMO IMPRESSO EDITORES Prof. Leo Cunha Prof. Maurício Guilherme Silva Jr. Dany Starling (editor convidado) PRECEPTORA Ana Paula de Abreu (Programação Visual e Projeto Gráfico) DISCIPLINA DE JORNALISMO OPINATIVO E INTERPRETATIVO Profª. Tacyana Arce Profª. Virgínia Palmerston CAPA: Prof. Alysson Lisboa e Heitor Antônio

ENTREVISTA a arte de dialogar

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ACADEMIA carreira solo por trás do diploma Fafi e UniBH: história dos tempos sala de aula ampliada crias da casa ensaio: antigo e eterno primeiros passos na telinha

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MERCADO reportagem quae sera tamen 54 irmãs siamesas 62 menos sensacionalismo, mais público 70 CRÔNICAS éramos nove 77 o que será que será? 78

ESTAGIÁRIA: Camila Freitas MONITORES André Zuliani Jonathan Goudinho Anúncios LACP - Laboratório de Criação Publicitária IMPRESSÃO/TIRAGEM Gráfica e editora O Lutador 300 exemplares

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Cremilda Medina:

a arte

de dialogar

Texto de Asafe Alcântara, Bárbara Braga e Jade Vieira Fotos: Reprodução

Observar, dialogar. Deixar o comodismo, o autoritarismo e o monólogo, que insistem em assombrar os jornalistas responsáveis pelo singelo, em alguns casos até glamouroso, mas árduo trabalho de entrevistar. Essas são apenas algumas dicas elencadas pela jornalista Cremilda Medina, autora de dez livros voltados para o universo da Comunicação Social e Literatura da Língua Portuguesa. Dentre os títulos lançados, destaque para a obra Entrevista - O diálogo possível, na qual o dialogismo é tido como peça fundamental para o estudo da interação social, sobretudo por apresentar formas de narrar e observar um fato de maneira especial. Para abranger a evolução do jornalismo, Medina cita exemplos e experiências vividas por ela desde os tempos em que trabalhava em redação, em meados da década de 1970, até os dias de hoje, como pesquisadora e referência profissional e acadêmica, sobretudo em São Paulo, onde está radicada desde que veio de Portugal, seu país natal. Antes de se tornar membro da USP, passou por vários órgãos da imprensa, como a Editora Globo de Porto Alegre e o extinto Jornal da Tarde. Como pesquisadora e ícone quando o assunto é entrevista, Medina coordena e orienta projetos. Um deles é o “São Paulo de Perfil”, um compilado de livrosreportagens confeccionado por estudantes de jornalismo da USP. Durante a conversa com a Múltipla, a jornalista contou como surgiu e desenvolveu a proposta, que já rendeu 26 publicações.

“Entrevista, um diálogo possível”, é um ícone do ensino do jornalismo. Você o escreveu em 1986, quando o Brasil dava os primeiros passos na democracia. De lá para cá, o jornalismo brasileiro foi se consolidando. As reportagens investigativas tornaram-se uma constante nos diferentes veículos, programas e páginas de entrevista também. O que mudou nesse período? O jornalismo tem algumas variáveis que vão crescendo com o tempo de aprofundamento e de maturidade. Eu diria que a entrevista é uma delas. Mas quando escrevi esse livro, realmente era muito importante que as fontes de

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poder, de poderes constituídos ou ainda em constituição na Nova República, se manifestassem e dessem livre acesso às perguntas da sociedade, via jornalista. Agora, eu penso que a entrevista tem suas limitações, que é preciso ir adiante e não ficar só batalhando pela entrevista menos autoritária do que ela foi em tempos iniciais, quando o jornalista aprendeu a entrevistar na delegacia, como um delegado de polícia. Então, claro que a entrevista tem que avançar para um diálogo e não propriamente para uma inquisição, perguntas autoritárias que exigem respostas préconcebidas. Eu acho que o que se batalhava naquele momento, quando eu escrevi esse livro, era por um diálogo mais aberto, menos autoritário.

Mas você entende que o cenário melhorou?

Acho que avançou, claro, com a construção democrática e com a sociedade cada vez mais consciente da sua voz. Isso está agora provado, com as manifestações de rua. A entrevista é limitada se fica restrita ao campo das ideias e ao campo da leitura opinativa sobre os fatos que estão ocorrendo e os dados que disponíveis, como na economia, na política ou até mesmo na área conceitual, de entrevistas a partir de uma leitura filosófica sobre comportamentos. É um resultado de ideias. Acredito - e escrevi isso em livros posteriores - que a grande contribuição do jornalista ou do que eu chamo de um “mediador social autor,” não propriamente um mediador acético, é ser capaz de experimentar, pela observação, o que está acontecendo à sua volta. Nesse momento do Brasil, é importantíssimo que o jornalista esteja na rua e não fazendo entrevista pela internet ou por telefone, ou recolhendo opiniões pelas infovias - mídias digitais. O mais importante para se chegar a algum tipo de compreensão do que acontece à nossa volta é a presença e a observação aberta, que experimente as situações e chegue mais perto das pessoas, não apenas fazendo perguntas e fazendo aquele cacoete da mídia - que é o povo-fala, um arremedo de entendi-

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mento do que se passa com as pessoas -, mas observando, participando, tendo uma abertura de todos os sentidos pra chegar a alguma compreensão. A entrevista com uma compreensão de observação é muito mais rica do que aquela pergunta e resposta de caráter conceitual ou estritamente de opiniões a respeito de determinados dados da realidade.

O que caracteriza uma boa entrevista?

A atitude dialógica, apta e aberta ao diálogo, é uma questão muito mais profunda do que uma simples técnica a ser treinada, seja no meio profissional ou na formação de jornalista. Quando escrevi esse livro, em 1986/1987, tive um convite muito interessante para discutir esse problema com médicos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Eles consideravam que o problema do médico e do paciente no consultório era muito semelhante ao do jornalista e a fonte. Então não é uma questão só da nossa área. Depois fiz uma série de investidas, com seminários e encontros interdisciplinares com outras áreas do conhecimento, com artistas, metafísicos e filósofos. Nessas mesas encontramos pontos em comum. A atitude dialógica é um problema que temos que enfrentar no nosso comportamento e mentalidade, porque não estamos abertos ao diálogo, estamos sempre propícios ao monólogo ou autoritarismo de certas estruturas de poder. Da família até a

“A entrevista como uma compreensão de observação é muito mais rica do que aquela pergunta e resposta de caráter conceitual ou estritamente de opiniões a respeito de determinados dados da realidade” Cremilda Medina

profissão, seja ela qual for. Então eu tenho lutado, batalhado - com os meus grupos, principalmente como educadora e com os alunos - por uma mudança de mentalidade e de comportamento, de um autoritarismo interno. Porque nossa inteligência já por si é autoritária, para uma abertura ao outro, uma entrega, para uma curiosidade - de quem é o outro que está ao meu lado, está à frente ou afastado. Essa atitude dialógica envolve, então, uma visão de mundo e um comportamento. Os laboratórios que se fazem nas escolas de Comunicação me parecem muito limitados, restritos à técnica e acho fundamental o laboratório vivo. Por exemplo, no lugar de você construir uma pauta e um questionário dentro de um ambiente fechado, seja de uma redação, de uma academia, de uma faculdade ou universidade, você ir ao mundo criar essa pauta em contato com o próprio mundo. E estar aberto a perguntas e respostas imprevisíveis e não aquelas que já estão no cardápio da nossa mente fechada. Lembro-me de uma experiência com meus alunos, de passar 24 horas numa delegacia na Zona Sul de São Paulo e durante esse tempo não fazer entrevista, apenas colher subsídios de observação, para, depois, encaminhar algum tipo de entrevista. Agora, quando um profissional já sai da redação, do seu ambiente de trabalho, com um questionário pronto, ele está fechado, limitado ideologicamente e não vai entender nada do que se passa. Porque o que se passa é dinâmico, imprevisível, complexo, sutil, humano. Não é uma questão para resolver com questionário técnico, com dados pretensamente objetivos, mas que estão completamente

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visados por esse comodismo de não captar a energia que está aí fora.

Até a década de 1970, as redações eram predominantemente masculinas. A última pesquisa sobre o perfil do jornalista brasileiro aponta que as redações têm 64% de mulheres, 48% dos repórteres entre 23 a 30 anos. Sabe-se que o perfil do entrevistador é relevante e importante para conduzir uma entrevista. O gênero também interfere?

É curioso você trazer agora esses dados. Há muito tempo, 15 ou 20 anos, eu fiz um texto que foi publicado, se não me engano, no jornal do Sindicato dos Jornalistas aqui em São Paulo, a respeito da presença da mulher na imprensa contemporânea. Eu sou da geração dos anos 1960, em que a mulher começou a entrar no jornalismo. Nos meus primeiros empregos, até mesmo no Estadão, quando era copidesque, eu era a única mulher na redação. Mas isso foi em 1975. De lá pra cá, evidentemente mudou, o quadro se reverteu. Mas quando fiz essa matéria, com o conjunto de entrevistas para a editora Abril, eu flagrei justamente que há uma mudança muito interessante na mulher entrando no jornalismo (risos). Ela salientava que o homem trabalhava no atacado, ou seja, nas pautas que pretendem ser abrangência do todo. Enquanto que a mulher

“Aquele que encaminha respostas e certezas é ingênuo ou mal intencionado. Cientista é aquele que encaminha incertezas, ambiguidades e interrogantes ” Cremilda Medina

trabalha no varejo, ou seja, ela vai ao cotidiano, vai a situações mais particulares e aos protagonistas anônimos. A matéria expôs que, enquanto um homem foi editor-chefe na revista Claudia - a famosa dona Cláudia -, nunca foram trabalhadas, com riqueza de detalhes, pautas sobre o anticoncepcional e as consequências da pílula, como as varizes (risos). Só realmente o olhar miúdo, do varejo, da mulher podia trabalhar com o surgimento das varizes. Entendo que a contribuição da mulher é esse olhar para o cotidiano. E insisto muito para ouvir os anônimos e não só as fontes oficiais. Chegar a um acontecimento como o que está aí, dessas manifestações, e só entrevistar as fontes que estão em cartaz constantemente não convém. Mesmo quando o assunto é especializado, como a concepção de um plebiscito ou de um referendo, vale a pena, além dos especialistas, é claro, chegar também a uma escuta dos anônimos, daqueles que vivem a cidadania ou que não estão na cidadania por condições de cerceamento da nossa sociedade, mas que são seres humanos que têm o que dizer.

Quem são os grandes entrevistadores do Brasil e o que os classifica assim?

Eu convivi com muitos, né?! Acho que grande parte de ex-alunos são profissionais que considero de um grau de maturidade, de autoria, muito importante. Eu teria inúmeros pra citar, alguns espalhados aqui, mas muitos também fora do Brasil. E nas diferentes mídias. Dos profissionais já com um histórico, eu acho que também seria injusto falar de um ou de outro, porque eu iria esquecer. Toda semana encontro um texto capaz de ser recortado, seja um texto eletrônico, impresso ou radiofônico. Um texto pra falar a pessoas com quem convivo: “olha, reparem nesse texto”. Por exemplo, nesse momento em que es-

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E em termos internacionais?

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tamos passando pelas manifestações, eu pedi para os meus doutorandos - que são oito - prestarem atenção em dois textos de jornalistas autores: o Juan Arias, do [jornal espanhol] El País e o Demétrio Magnoli, aqui de São Paulo, que possuem um grau de maturidade capaz de entender os questionamentos do povo.

Temos o Gilles Lapouge, que capta as informações, é repórter - o que pra mim é fundamental -, está em contato com o mundo e tem uma capacidade de análise que encaminha não às respostas, mas a interrogações muito válidas. Porque aquele que encaminha respostas e certezas é ingênuo ou mal intencionado. Um cientista é aquele que encaminha incertezas, ambiguidades e interrogantes e não respostas, certezas e definições. E penso assim, que a gente encontra toda semana um ou outro jornalista com essa competência. Infelizmente, as páginas amarelas, ai o caso da experiente Veja, não me satisfaz, porque é um pingue-pongue de pergunta e resposta que não tem, muitas vezes, encadeamento. Falta aquela narrativa que remete para um contexto, para informações complementares. A entrevista precisa de uma postura, de uma remissão a outros dados e não apenas um pingue-pongue que põe em destaque uma fonte. E o outro lado [o entrevistador], que às vezes é bastante autoritário, corta o fluxo de pensamento, põe um intertítulo e segue o bonde. Nós estamos praticando aqui um diálogo com certa dificuldade, que é a dificuldade do telefone (risos), mas de qualquer maneira está fluindo, porque você está numa escuta muito atilada. Em geral o jornalista pega um gravador ou uma máquina qualquer e desliga sua percepção das coisas. Isso choca contra o diálogo.

Inovações tecnológicas ampliaram os meios de comunicação, facilitando o contato com fontes. É possível usar email, Skype e mesmo redes sociais para entrevistar. Embora pareça favorecer o jornalismo, quais são as implicações do uso cada vez mais frequente desses recursos? É uma questão de velocidade e quantidade, mas não de qualidade. Eu acho

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que a qualidade quem tem que dar realmente é o aprofundamento do jornalista autor, ele tem acesso, a sociedade também tem vários acessos - o famoso jornalista cidadão - mas isso tudo é uma quantidade de ideias e não uma reportagem (risos), não uma edição sobre as situações do presente. Eu trabalho muito com as narrativas da contemporaneidade, como um laboratório fundamental hoje para entender como vamos narrar o presente. Nessa narrativa, o presencial e a edição - presencial no sentido do contato, como falei até agora, ter os sentidos todos dispersos para a realidade. Se você está atrás de uma máquina, você tem apenas o código linguístico e alguma coisa do código visual. Quando o computador sentir a dor do parto, quando perceber a morte, quando tiver esse tipo de sentimento, ai nós podemos dizer que a informática, a computação, a internet resolvem os nossos problemas - o problema das inteligências humanas (risos). Enquanto não houver essa capacidade da máquina, eu acho que o presencial é fundamental. E, em segundo lugar, a quantidade de informações que temos à disposição é até uma doença, é possível ficarmos doentes com essa quantidade. Então é preciso trabalhar essa quantidade para uma narrativa qualitativa, uma narrativa editada, e o autor dessa edição ainda é o sujeito que lida com a informação cotidiana, o jornalista. Não há quem o substitua.

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As recentes manifestações se revelaram um grande desafio para o jornalismo. Uma das dificuldades parece estar justamente no ouvir. Por um lado, vemos a imprensa recorrendo aos especialistas, na tentativa de explicar, apontar as causas dos movimentos, quando parece claro que os eventos ainda estão se configurando. Por outro, vemos toda a diversidade do movimento sendo reduzida a alguns personagens tipo: o baderneiro, o manifestante sem bandeira etc... É possível efetivamente entrevistar num cenário tão efervescente?

Volto a salientar a observação participante, aquela que é uma experiência mais profunda de estar presente no mundo em relação ao outro, é fundamental para o jornalista captar algumas vozes e tentar, enfim, armar alguns significados do contexto que estamos vivendo. Eu, por exemplo, estive na rua, sou uma pessoa da rua, insisto nisso, na minha vida toda, nem a Academia conseguiu me fechar. Sempre que estou em movimento eu vou pra rua e, no ato presencial, de estar em uma das manifestações aqui em São Paulo, pude constatar, pela própria experiência de observação, que não era apenas uma classe média que estava ali. Isso era um equívoco, pois há a presença de trabalhadores e de níveis de classe social muito diferenciados. Isso eu só constatei com observação, o que me permite ir a um especialista, a um sociólogo, a um cientista político com uma munição maior para fazer a entrevista e não partir da redação ou das mídias sociais, ou da minha casa, ou do meu isolamento, que pode até ser “internáutico”, com pressupostos na cabeça, com opinião do que está acontecendo no mundo.

“A quantidade de informação que temos à disposição é uma doença. É preciso trabalhar essa quantidade para uma narrativa qualitativa, uma narrativa editada. E o autor dessa edição ainda é o sujeito que lida com a informação cotidiana, o jornalista” Cremilda Medina

Como sugere que o gênero entrevista seja abordado na universidade para melhor preparar os estudantes de jornalismo?

Eu tenho um exemplo muito rico para contar: nós fizemos a coleção “São Paulo de Perfil”, eu fiz com meus alunos durante um bom tempo, de 1987 até recentemente, 26 livros publicados, o 27º não chegou a sair. Os livros eram pautados pelos próprios alunos e o tema de um deles foi sobre o lazer em São Paulo. Todo mundo na primeira reunião tinha uma pauta na cabeça, que era a sociologia barata. Eu brinco assim: a sociologia barata do shopping center como uma manifestação do capitalismo. E eles, “peraí, peraí, o lazer é só isso?”. Rolou uma série de discussões e eu vi que estávamos num impasse. Chamei um grupo de psicólogos para debater com os meus alunos a questão do lazer. Bom, desse encontro, praticamente uma psicoterapia em grupo, saiu a compreensão de que o lazer é a grande emancipação pura, de ato emancipatório do ser humano. Ou seja, o ser humano se liberta no lúdico. Aí deu uma virada total na pauta, ela não era mais a sociologia barata, mas uma enormidade de assuntos. São esses atos libertários, esses atos lúdicos, que dão a dimensão de outra vida, que não é a vida que estamos vivendo, que não nos satisfaz.

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Novas diretrizes curriculares fazem com que o jornalismo deixe de ser habilitação da comunicação social e torne-se área de conhecimento próprio

carreira

solo Texto de Dany Starling e João Luís Chagas Ferreira Fotos: Reprodução

Desde que nasceu, em 1947, na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, o ensino de Jornalismo no Brasil é tema de discussões polêmicas e acaloradas. Para que serve o curso de graduação? Qual deve ser o perfil do profissional que se pretende formar, mais teórico ou mais prático? O que se espera dos estudantes logo que concluem o curso? No último mês de fevereiro, a Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou, quase em totalidade, relatório contendo as novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para o curso de Jornalismo, que depende apenas da homologação do ministro da Educação, Aloizio Mercadante (PT-SP) para entrar em vigor. Esse relatório foi produzido pela Comissão Marques de Melo, composta por oito especialistas, e encaminhado ao Ministério da Educação (MEC) em setembro de 2009, visando substituir as diretrizes vigentes desde março de 2002.

Para estabelecer as novas DCNs, a Comissão realizou três audiências públicas - no Rio de Janeiro, Recife e São Paulo - que contaram com a participação das mais diversas camadas da sociedade: jornalistas, professores, estudantes, diretores de escolas, organizações sindicais e corporativas, empresas, entidades do setor público e do terceiro setor, advogados, psicólogos, educadores, religiosos, ecologistas e inúmeros outros segmentos. No que consistem, contudo, essas novas diretrizes? Quem explica é o professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Eduardo Meditsch, um dos membros da Comissão. “Chegou-se à conclusão de que havia uma confusão entre a área de conhecimento nos cursos de Comunicação e as profissões, as habilitações. Como os cursos de graduação são voltados para a área profissional, propôs-se que fossem desmembrados. As novas diretrizes propõem um currículo que busca recompor o

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arcabouço teórico, no sentido de atender as necessidades da formação do jornalista. Esta é a questão central”, avalia. Ainda que não tenham estabelecido disciplinas regulares para o curso de Jornalismo, as novas DCNs traçam um projeto pedagógico para a formatação desses cursos, formado por quesitos como a formação de profissionais dotados de competência teórica, técnica, tecnológica, ética e estética, ênfase ao espírito empreendedor e ao domínio científico, foco na especificidade do jornalismo, compromisso com a profissão e seus valores, horizonte profissional voltado para a convergência tecnológica, a-tenção às rotinas de trabalho das assessorias, preparação de jornalistas aptos a trabalhar como autônomos e pensar a graduação como etapa de formação continuada e permanente. De acordo com o relatório da comissão revisora, assim como acontece em outras áreas das ciências aplicadas (como a saúde), a Comunicação Social não é uma profissão específica, mas tão somente uma área acadêmica que engloba uma série de disciplinas e diferentes profissões. Por isso, na visão dos autores, “é inadequado considerar o jornalismo como habilitação da Comunicação Social, uma vez que esta, como profissão, não existe”. Para entender melhor essa dualidade entre área de conhecimento e profissões, é preciso voltar um pouco no tempo e explicar como o

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Ministério da Educação tratou dessa questão nas últimas décadas. Até 1961, as poucas escolas de Jornalismo eram livres para estabelecer suas matrizes curriculares. A partir de 1961, elas passaram a obedecer às normas do Conselho Federal de Educação, que estabeleceu os currículos mínimos para os cursos de graduação. Em 1969, durante o Regime Militar, o MEC decidiu pela extinção do curso de Jornalismo em sua forma autônoma, tornando-se uma mera habilitação do curso de Comunicação Social, assim como Publicidade, Relações Públicas e Editoração. “Essa ideia de comunicação foi trazida pela Guerra Fria. Para os Estados Unidos, o Terceiro Mundo não precisava de um jornalismo como era feito no Primeiro Mundo, porque aqui os problemas eram outros. O que se precisava era de um comunicador polivalente, que fosse capaz de levar, ao mesmo tempo, informação, entretenimento e propaganda - política, principalmente - para a população”, explica Meditsch, fazendo referência ao convênio firmado pelo MEC e a United States Agency for International Development (Usaid), agência norte-americana criada para colocar em prática projetos de política externa dos EUA e que atuou na reforma do ensino no Brasil. Os problemas acarretados por essa decisão decorreram da discrepância entre teoria e prática. Nos primeiros anos de faculdade, os alunos se viam diante de ensinamentos teóricos voltados para a formação desse comuni-

Eduardo Meditsch, um dos membros da Comissão Marques de Melo


jornalismo, que há anos vem existindo como habilitação, tenha amadurecido como campo de conhecimento e criado uma estrutura curricular suficientemente madura para colocarse como curso”, explica a professora Dione Oliveira Moura, presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). “Ser do campo da comunicação é uma constituição intrínseca ao jornalismo e isso não deixará de existir em função das novas DCNs. Elas apenas reconhecem que, dentro do campo da comunicação, existe um conhecimento específico que é o jornalismo, que carece de regulamentação profissional específica, prática profissional específica e um curso específico”, completa. Mirna Tonus, professora da Universidade Federal de Uberlândia e presidente do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ), entende que “as DCNs pensam um curso flexível a qualquer nova realidade que venha a se verificar ou se impor. O fato de serem diretrizes centradas nas especificidades social, profissional, teórica, acadêmica e até deontológica já ajuda nisso, e permite a formação de um profissional bem mais crítico e com maior domínio da característica públicosocial da atividade”. Para a professora, esse processo não deve abrir mão da interdisciplinaridade, mas sem a anulação do jornalismo, entendido como forma de comunicação

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cador polivalente, generalista. No momento em que passavam a lidar com disciplinas mais práticas, ligadas à habilitação específica de jornalista, esse choque ficava evidente. Meditsch defende a importância do conteúdo teórico nas faculdades de Jornalismo, desde que ligados à profissão que será exercida após a formatura. “Quando foram vistos como cursos de Comunicação, houve um desvio muito grande da área teórica em relação aos objetivos de quem vai atuar como jornalista. O jornalismo é uma profissão intelectual, precisa de uma base intelectual forte, mas adaptada às suas necessidades”, cobra o professor. Além de focar mais nos estudos gerais de comunicação, os cursos de Jornalismo ainda tinham que lidar com dificuldades mais pragmáticas que filosóficas, como explica Meditsch. “Os cursos não tinham equipamento, eram muito caros. O primeiro laboratório de rádio que montamos em Florianópolis dispunha de apenas dois gravadores analógicos, que custavam o preço de um automóvel”, recorda. “Montar um estúdio de TV era algo fora do alcance para a maioria das faculdades do país. Para ensinarmos telejornalismo, tínhamos um convênio com a companhia telefônica local”. O que se espera, com as DCNs, não é uma ruptura total entre o curso de Jornalismo e o de Comunicação, pelo contrário. “Não se trata de separação. As diretrizes propõem que o

José Marques de Melo, presidente da Comissão que criou as Novas Diretrizes

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específica e, em alguns casos, conflituosa com as demais áreas. O jornalista, professor e escritor Gaudêncio Torquato ressalta a importância da interdisciplinaridade para a formação do jornalista. “Ainda que seja um campo próprio de estudo, o jornalismo não esgota a possibilidade de seus profissionais buscarem conhecimentos em áreas mais abrangentes, como antropologia, sociologia, ciência política, economia ou administração, enfim, ciências humanas. Isso melhora suas habilidades expressivas e fazem com que o objeto do jornalismo seja melhor desenvolvido”, avalia. O diálogo com o mercado deve ser perene. A ênfase nesta ou naquela disciplina, contudo, depende da visão particular de cada instituição de ensino. De acordo com Mirna Tonus, “as matrizes curriculares podem ser elaboradas considerando diversos fatores, entre eles a conjuntura profissional, inclusive com suas particularidades regionais. Mas isso depende de cada instituição e de cada docente. Não é possível generalizar”. Nesse sentido, Gaudêncio Torquato defende que as escolas pensem os jornalistas como verdadeiros estrategistas, consultores.

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“Particularmente na contemporaneidade, vejo a necessidade de se ter o jornalista como analista, como leitor das carências da sociedade. Principalmente no campo da comunicação especializada, onde há uma área muito vasta para se desenvolver”. A implantação das DCNs, contudo, não irá mudar o ensino de jornalismo de uma hora pra outra. “Vai ser uma briga muito grande para fazer com que essas novas diretrizes funcionem bem. Teremos pela frente um desafio, um enorme período de readaptação da maior parte dos cursos, mas creio que todos irão se adaptar, se acostumar com as novas ideias”, prevê Meditsch. O professor se mostra otimista quanto ao futuro do ensino de jornalismo no país após a vigência das DCNs. “Tende a melhorar muito”. Dione Moura vai além. “As DCNs são o resultado sólido de uma ampla consulta pública. A comissão de especialistas conseguiu mapear os desejos da comunidade e chegar a uma nova estrutura curricular que atende aos principais anseios, como a valorização do jornalismo como campo de conhecimento suficientemente definido para ter uma estrutura curricular própria”.

Fernando Haddad (centro), então ministro da Educação, recebe relatório da Comissão Marques de Melo sobre as novas diretrizes curriculares


Professor Nilson Lage critica as novas diretrizes curriculares e o ensino de jornalismo no país

Se a maioria dos professores e pesquisadores está ansiosa pela homologação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para os cursos de graduação em Jornalismo, uma voz aparece para criticar os rumos do ensino da área no país. E não é qualquer voz: trata-se de Nilson Lage, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e autor de mais de dez livros sobre jornalismo. “Compreender o jornalismo como ciência social aplicada é uma estupidez do tamanho de um bonde”, dispara Lage. “Ele é linguagem aplicada à comunicação. Não tem como enfiar uma visão sociológica, muito menos de teoria da comunicação, que é uma farsa, algo inventado no contexto da Guerra Fria e imposto na América Latina após a Revolução Cubana”. Para o professor, “jornalismo é essencialmente um conjunto de técnicas com um compromisso ético. Qualquer tentativa de dar um suporte teórico específico para o jornalismo, fora da questão das linguagens, fora desse universo, será uma distorção. É um curso para formar aprendizes”, explica. Lage não poupou críticas ao principal responsável pelas novas DCNs, professor José Marques de Melo. “O Marques de Melo faz currículos de comunicação há 40 anos e sempre muito ruins. O único currículo melhorzinho não teve a participação dele. Foi o de 1984, que implantou os laboratórios, que antes não existiam, incluiu a formação técnica, que antes não tinha”.

O currículo ideal, para Lage, deve se calcar em três pilares: semiologia, simbologia da linguagem e conhecimento geral da história presente. “Isso na vertente teórica”, frisa. “Valeria a pena um estudo, uma apreciação, dos problemas gerais do país. Alguma coisa de filosofia, mas que tivesse ligação com a filosofia da linguagem. Em suma, qualquer coisa ligada à formação de um espectador. O jornalista não é o sujeito que toca na banda, é o sujeito que vê a banda passar, já dizia o Joel Silveira”. Outra crítica feroz de Lage é quanto ao estágio obrigatório, presente nas novas DCNs. “Estágio obrigatório existe para livrar a cara do empresário, do dono de faculdade. Desobriga a instituição a investir em laboratórios, em estúdios. O sujeito se livra mandando os alunos para as empresas. Claro que o estágio deve existir, mas torná-lo obrigatório libera as faculdades da formação técnica. É picaretagem”, vocifera. Segundo o professor, as novas DCNs não trarão nenhum resultado prático para os cursos de graduação. “Isso muda toda hora, daqui a pouco vão querer mudar de novo. Até porque, não tem sentido nenhum, elas radicalmente não mudam nada, a inovação é sempre cosmética. Essa gente é engraçada, quando o mundo é liberal, eles são liberais. Quanto o mundo é conservador, eles são conservadores. Ao invés da universidade ser a frente, ela vem a reboque, não tem nenhum pensamento pró-ativo”, encerra.

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PEC que propõe retorno da obrigatoriedade da graduação em jornalismo para o exercício da profissão aquece debate entre especialistas

por trás do

diploma Texto de Thiago Teodoro e Welbert Emery Fotos: Reprodução

Em 2009, Vanessa Anício cursava o último ano de Jornalismo na Faculdade Newton Paiva, de Belo Horizonte. Foi quando a jovem foi surpreendida por uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que tornava desnecessária a graduação em jornalismo para o exercício profissional. A decisão rompia com os quase 40 anos da obrigatoriedade do diploma no Brasil. “Eu me senti perdida quando deparei com aquela situação. Meu curso não parecia ter mais a mesma importância. Tive medo do que poderia acontecer com minha vida profissional daquele momento em diante, mas não desisti da profissão. Concluí a faculdade e procurei espaço no mercado”, relembra a jovem. “Hoje, vejo que a não obrigatoriedade do diploma não mudou em nada o meu futuro. O mercado sabe bem o perfil do profissional que quer contratar”, completa Vanessa, atualmente repórter e produtora na Rede Super de Televisão.

Afinal de contas, caiu ou não o diploma? Perante a lei, sim. Mas, pelo visto, na prática continua tudo igual. “Não mudou nada. As empresas continuarão contratando jornalistas com formação específica. O mercado mostra isso e as pessoas já entenderam o recado”, explica a professora Lorena Tárcia, que coordenava o curso de Jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) quando veio a decisão do STF. Essa discussão da necessidade do diploma de jornalismo traz à tona outras questões, como liberdade de expressão, democracia e, principalmente, a profissionalização da prática jornalística. Por trás de todo esse imbróglio, o questionamento recai sobre o que é ser jornalista e quais são as suas funções. Para o professor João Carvalho, atual coordenador de Jornalismo do UniBH, “independentemente de existir a lei ou não, ou de ser a favor ou não, o contexto em que vivemos impõe uma dis-

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cussão sobre a deontologia do jornalismo, que, no fundo, é o que está por trás da discussão do diploma. Ou seja, o que é jornalismo? E, consequentemente, quem pode exercê-lo?”, desvela. O Brasil não é o único país a suscitar essa discussão. Na verdade, a partir da segunda metade do século XIX, já se discutia a questão da profissionalização da prática jornalística, devido aos avanços da industrialização, das mudanças sociais no Ocidente e o novo jornalismo que surge após os governos marcados por ampla censura à imprensa, como a Ditadura Salazarista, que governou Portugal por 41 anos, entre 1933 e 1974, e a própria Ditadura Militar no Brasil, que comandou o país de 1964 até 1985. A obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercício da profissão divide opiniões. Para uns, o acesso a cargos na imprensa precisa ser somente para aqueles que se prepararam academicamente para serem jornalistas. Por outro lado, há quem defenda que todos possuem esse direito e que é preciso dar espaço em veículos de comunicação de menor porte (como jornais de bairro e rádios comunitárias) para pessoas que aprenderão a ser jornalistas

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com a prática. No entanto, tais argumentos são questionados pelo primeiro grupo, pois a organização da categoria dos jornalistas também serviu para a democratização do acesso à carreira. Antes dos cursos universitários de jornalismo e do acesso ao diploma, nem todos que queriam tentar uma carreira jornalística tinham oportunidades. Até então, eram os donos dos veículos de comunicação que diziam quem era capaz de trabalhar nas redações. “O ‘jornalismo clássico’ ou a ‘mídia tradicional’ é o quê? Sabemos que é o pensamento do dono do jornal. A Mídia Ninja, hoje, faz o papel que a imprensa alternativa fez nos anos 1970. Um noticiário mais bruto, mais em tempo real, mas muitas vezes tão ideológico quanto a grande

Jornalistas protestam em frente ao STF

“O contexto em que vivemos impõe a discussão sobre o que é jornalismo e quem pode exercê-lo” Alzira Abreu


A discussão do diploma pelo olhar da história

O debate da necessidade do diploma vem tomando proporções grandiosas. A discussão gera desconforto no STF por causa da “PEC do Diploma”, que transita no Congresso Nacional desde 2009. A proposta de Emenda à Constituição ressuscita a obrigatoriedade da formação universitária específica para quem quer trabalhar na imprensa. Mas, para entender melhor essa discussão, é necessário conhecer a própria história do jornalismo no Brasil, principalmente no que se refere ao diploma. Apesar de só ter surgido em 1947, com a criação da Faculdade Cásper Líbero, o curso superior de jornalismo no Brasil foi instituído em 1943, durante o Governo Vargas, com o Decreto-Lei 5.480. No ano seguinte, o DecretoLei 7.037 fixou as funções dos jornalistas e a remuneração mínima para a classe. Isso difere da realidade que encontramos hoje. Segundo uma pesquisa feita pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), com base em maio de 2012, o piso dos jornalistas varia muito de um estado para outro. No Acre, por exemplo, o piso salarial corresponde a R$1.684,00, en-

quanto que, em Alagoas, o piso corresponde a R$2.437,46. A década de 1950 foi muito importante na formação da identidade do jornalismo brasileiro. Reformas conceituais ocorridas no Diário Carioca, Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil fizeram desembarcar no país o modelo americano de produção de notícias, que priorizava a objetividade e inaugurava o uso do lead e da pirâmide invertida. A década de 1960 foi marcada pelo início do Regime Militar, que governou o país de 1º de abril de 1964 a 15 de março de 1985. Em 1969, sob o terror do Ato Institucional nº 5 e com o intuito de controlar as várias vozes dissonantes que surgiam pelo país, foi baixado o Decreto-Lei 972/69, que definiu como atividade jornalística aquelas exercidas nos veículos de comunicação e empresas similares. É nesse período começa a popularização de cursos superiores de Comunicação nas capitais e principais cidades do país. O regime militar esperava que os cursos de Jornalismo se preocupassem mais com questões técnicas do que com questões políticas. No entanto, segundo a doutora em Sociologia Alzira Abreu, apesar da censura, o jornalismo contribuiu para que o período do militarismo desse lugar à demo-

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imprensa”, avalia o jornalista e escritor Alberto Villas.

Gilmar Mendes, relator do processo que derrubou o diploma

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cracia. Segundo ela, o jornalismo econômico foi o “vetor das mudanças que ocorreram na imprensa durante o regime militar, mudanças que, em seguida, provocaram alterações no perfil de jornalistas e em suas formas de construir a informação”. É após a transição para a democracia que se inicia o grande debate sobre a necessidade do diploma de jornalismo para se exercer a profissão. Entendido por muitos como uma herança do militarismo e um dos maiores instrumentos usados contra a liberdade de expressão, o diploma foi brutalmente atacado na Constituição Federal de 1988, a primeira após o fim da ditadura. Em seu artigo 5º, a Carta Magna dispôs que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.” Também ficou definido que “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”. O Artigo 220 afirma que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerá qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”. Tais dispositivos legais pareciam romper, imediatamente, com a exigência do diploma jornalístico para aqueles que queriam trabalhar na mídia, pois, a princípio, a obrigatoriedade do diploma entra em conflito com o direito à manifestação do pensamento. Mas, se o texto constitucional garante a liberdade ao exercício das profissões, também garante a possibilidade de que sejam estabelecidas as qualificações profissionais exigidas. Apesar do caráter autoritário com que a obrigatoriedade do diploma foi regularizada no Brasil, existe o argumento de que essa regularização atendia a uma luta histórica da classe jornalística no país, uma luta dos sindicatos. Este é o argumento sustentado pela Fenaj, que aponta para a necessidade do diploma de jornalismo também em um regime democrático. A Constituição de 1988 não pôs um ponto final à discussão da necessidade do diploma de jornalismo para se exercer a profissão. Em janeiro de 2003, a Juíza Carla Rister, da 16º Vara Cível de São Paulo, suspendeu a obrigatoriedade do diploma em sentença à ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal e Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo. No entanto, em outubro de 2005, a obrigatoriedade foi reestabelecida, com a decisão da 4º turma do Tribunal Regional Federal da 3º Região (TRF-

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3) que anulou a sentença anterior, atendendo a recursos interpostos pela Fenaj e pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

A decisão do STF

O golpe final, contudo, ainda estava por vir. No dia 17 de junho de 2009, por 8 votos a 1, o STF decidiu pela não obrigatoriedade do diploma de jornalismo para se exercer a profissão. Votaram contra a necessidade o relator Gilmar Mendes e os ministros Carmem Lúcia, Ricardo Lewandowski, Eros Grau, Carlos Ayres Britto, Cezar Peluso, Ellen Gracie e Celso de Mello. O voto favorável veio do ministro Marco Aurélio. Na sessão, não estavam presentes os ministros Joaquim Barbosa e Carlos Alberto Menezes Direito. Gilmar Mendes argumentou que o decreto-lei que trouxe a exigência do diploma jornalístico tinha a clara função de afastar da mídia os intelectuais que não eram a favor dos militares e que a graduação não resolve a questão ética, tão importante na profissão. A decisão, contudo, não tirou das empresas o condão de estabelecer regras próprias na

Alberto Villas: o importante é saber escrever


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Manifesto de jornalistas gaúchos

hora da contratação de profissionais para o exercício do jornalismo. Conforme o próprio Gilmar Mendes explicitou em seu voto, “nada impede que elas peçam o diploma em curso superior de jornalismo”. Se a decisão final é do mercado, porque ainda se discute tanto sobre a necessidade do diploma para o exercício da profissão? Lorena Tárcia explica que “existe uma excessiva preocupação com a reserva de mercado, uma cultura difícil de mudar. É como se o diploma fosse garantia de emprego. Ainda que as empresas continuem a contratar apenas jornalistas formados, parece que o diploma é bastante simbólico em termos de status profissional”. Lorena relembra quando o peso “simbólico” do jornalismo foi confrontado em 2009 e como isso colaborou, positivamente, para sua gestão e para os novos profissionais: “Foi um impacto no dia em que a votação aconteceu. Infelizmente, coincidiu também com a última semana de aula. Não houve um debate a respeito. Por outro lado, quando as aulas recomeçaram, após o vestibular, a conversa com os alunos do primeiro período mostrou logo um diferencial. Todo mundo ali sabia muito bem o que queria. Pareceu-me, à época, uma mudança interessante. Os indecisos - aqueles que optavam por jornalismo sem convicção - mudaram de área. Permaneceram os bem informados, dispostos a enfrentar a família por algo que acreditavam e queriam

muito. Portanto, administrar o curso ficou até mais fácil”.

A PEC do Diploma

No entanto, a Fenaj procurou uma forma de recorrer à decisão do STF. Ainda em 2009, foi proposta uma Emenda à Constituição, a “PEC do Diploma”. A PEC tem sido acusada de defender um jornalismo corporativista, que interessa, em grande parte, aos sindicatos e outros órgãos de classe. Por outro lado, o diretor de Comunicação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG), Rogério Hilário, afirma que não é de interesse de muitos políticos que os jornalistas graduados tenham maior reconhecimento no mercado. “Há um total descaso por parte dos parlamentares com a questão, já que muitos são, ao contrário do que a lei determina, donos de emissoras de rádio, TVs e jornais. Além disso, os donos da mídia também temem que seja levado ao Congresso projeto de lei de iniciativa popular para determinar o marco regulatório da comunicação no Brasil. O SJPMG é totalmente favorável ao retorno da exigência de formação específica em nível superior para o exercício da profissão de jornalista e vem se engajando em todas as iniciativas, ações e mobilizações pela aprovação da PEC 33/2009”, diz o diretor. Depois da aprovação no Senado, a PEC tramita na Câmera Federal. O deputado Paulo Pimenta, que apresentou a PEC do Diploma,

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diz que a não obrigatoriedade confunde “o conceito de liberdade de expressão com o exercício da atividade profissional do jornalismo”. Porém, as críticas à PEC apontam para a ousadia da retomada dessa questão, que afronta uma decisão final do STF e apontam para uma violação aos direitos da democracia. Constitucionalmente, qualquer pessoa deve ser livre para criar seu próprio órgão de imprensa, sua própria revista ou jornal, por exemplo, sem ter que contratar um jornalista. No mercado, o ‘filtro’ deve vir da própria imprensa, nos processos seletivos para contratação. Segundo o professor Manuel Carlos Chaparro, a obrigatoriedade do diploma ajudou a moralizar o exercício da profissão. “Antes o jornalista não pagava imposto de renda, não havia grandes exigências éticas. O que se via era uma abundância de reportagens pagas, jetons em instituições públicas e muitos benefícios. Todo mundo era jornalista, ainda que não exercesse o ofício. A obrigatoriedade, no entanto, teve seus defeitos. Ao se criar a reserva de mercado, incentivou-se a multiplicação desenfreada dos cursos, o que culminou no surgimento da mediocridade do ensino de jornalismo”, pondera. Na visão de Chaparro, mais importante que ficar discutindo a obrigatoriedade do diploma é a atualização do jornalismo como profissão, principalmente no que diz respeito às novas tecnologias e o avanço da civilização. “Se a obrigatoriedade fosse sinônimo de qualidade, o jornalismo brasileiro seria o melhor do mundo. Essa discussão só interessa ao discurso sindical”, avalia o professor, que se preocupa com o resultado da tramitação da PEC do Diploma

Manuel Carlos Chaparro discute a obrigatoriedade do diploma no Brasil

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“Se a obrigatoriedade fosse sinônimo de qualidade, o jornalismo brasileiro seria o melhor do mundo” Manuel Carlos Chaparro no Congresso. “Se a obrigatoriedade vier, é preciso ter cuidado para não se colocar em perigo a liberdade de expressão”. Alberto Villas retoma a linha de raciocínio adotada por grande parte dos jornalistas ao avaliar a necessidade da graduação em jornalismo para o exercício da profissão. “De que adianta a pessoa ter um diploma de jornalista e não saber escrever? Não ter a percepção do que é notícia ou não? Para se formar em jornalismo não é preciso apenas estudar as cadeiras do curso, é preciso estudar História, Geografia, Português, Política, Comportamento. Isso para começar”, critica o jornalista e escritor. Caberá ao Congresso, exercendo seu papel de legislador, decidir a pendenga. O que se espera, contudo, independentemente da decisão, é que prevaleça o bom senso. Assim como a graduação em jornalismo não deve ser de todo descartada, é impensável tratar de termos como obrigatoriedade e exigência numa profissão calcada pela liberdade de expressão e manifestação de opinião. Principalmente em uma era na qual o que mais se enxerga é o fim do jornalismo como profissão, mas não como ofício. O apego a uma norma tão somente por reserva de mercado só contribui para diminuir a importância da comunicação no país.


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Professores e ex-alunos de Comunicação Social do UniBH revisitam a história do curso, lembrando experiências do passado e apontando para o que há de vir

Fafi e UniBH: história dos tempos Texto de Felipe Ferreira, Jane Fernandes e Wesley Abreu Fotos: Natanael Vieira e arquivo Múltipla

A situação não era das mais favoráveis. O país vivia à sombra de uma ditadura há quase dez anos. O “milagre econômico” revelava-se uma ilusão. A população se revoltava com a inflação alta e já se organizava contra o governo totalitário. O MDB (partido de oposição oficial ao Regime) conquistava espaço político. Na presidência, o general Emílio Garrastazu Médici repreendia com dureza e aumentava a censura de jornais, revistas, livros e todas as expressões artísticas. Contra essa corrente, surgia em Belo Horizonte o curso de Jornalismo na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (Fafi-BH), em 1973. O responsável pela empreitada foi o professor José Tavares de Barros, lembrado ainda hoje como importante mestre, grande conhecedor de cinema, além de pessoa simples e de fácil comunicação. Barros é considerado um homem corajoso por levantar um curso universitário sinônimo de liberdade de expressão

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em um período em que ela própria estava enclausurada. Como era de se esperar, não houve tanta liberdade no princípio. Os que viveram esse período lembram que nem mesmo em sala de aula estavam livres da vigilância do governo. “O curso de Jornalismo, na época, era muito visado, pois tratava de uma espécie de liberdade de expressão bastante vigiada. Em todas as salas de estudo, havia agentes de informação (P2) destinados a vigiar, à paisana, como se fossem alunos. Só que, com nossa perspicácia, sabíamos descobrir quem eram os informantes cretinos”, lembra o jornalista e aluno da então Fafi-BH, Alexandre Matos. Ele recorda que os estudos eram feitos com livros proibidos pelo governo. As reuniões de turma eram cerceadas.

Início modesto

Ao longo desses 40 anos de existência do curso de Comunicação Social do atual Cen-


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Fachada da FafiBH na década de 1980

tro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), muita coisa mudou. Quando foi criado, o curso tinha duração de três anos. Os dois primeiros semestres eram básicos. Somente a partir do terceiro período havia a separação das turmas, com habilitações específicas: Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade e Propaganda. Estudante da primeira turma do curso, o jornalista Hermínio Prates recorda que sua turma tinha apenas 12 alunos, enquanto as de Publicidade e RP contavam com 40 estudantes cada. E ainda relembra as dificuldades de infraestrutura. “No meu tempo de estudante só havia

uma velha máquina de escrever e nenhum local que servisse como redação modelo. Mesmo assim, fizemos jornais”. Prates já era jornalista quando começou o curso. Hamilton Flores é o mais antigo professor do curso de Comunicação Social do UniBH. Entrou como aluno em 1973 e em 1977 começou a lecionar. Ele assistiu às principais mudanças ocorridas no Brasil contemporâneo e na faculdade: desde a redemocratização do país até o avanço tecnológico que invadiu os laboratórios acadêmicos. Hamilton comenta que os equipamentos disponíveis para os alunos


Aluna opera câmera de filmar 16mm, de corda, na aula de telejonalismo

de Comunicação, hoje, não têm comparação com os de outrora. “A redação era equipada com as máquinas de escrever da marca Remington. Todas manuais. Imagine todo mundo escrevendo. Era um barulho gostoso para os ouvidos as batidas das teclas tocando a fita e imprimindo as letras nas laudas”, descreve. Quando começou a dar aulas, ainda na Fafi-BH, Hamilton acompanhou a realização da diagramação dos jornais sendo feita com réguas de cícero e folhas imensas, do tamanho de páginas de jornal. “A fotografia era analógica, tudo em preto e branco. Estúdio não tinha, veio mais tarde, e muito pequeno para os padrões de hoje. A escola tinha boas câmeras fotográficas e um laboratório considerado bom para a época. Não havia VT”, relembra o professor. Àquela época, tudo era feito com filme, numa Bell Howell, acionada por corda. Havia um pequeno estúdio para gravar áudio, nos dois gravadores que usavam fitas em rolos, da marca Akai. Para projetar imagens, a es-

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cola usava dois aparelhos da Kodak, modelo Ektagraphic. Mais tarde, em 1988, o professor Luiz Henrique Magalhães passou a fazer parte do corpo docente do curso. Quadro de giz, vídeo cassete e retroprojetor eram os instrumentos disponíveis. “Hoje é muito mais fácil sugerir bibliografia, passar textos para leitura, indicar vídeos etc. Acho que a grande diferença fica por conta da internet e do fato de os alunos terem acesso muito mais fácil à informação”, compara Luiz Henrique. Para ele, no entanto, a diferença entre o ontem e o hoje é puramente técnica. “No mais, a vontade de ensinar, aprender e compartilhar são as mesmas.” Quanto aos alunos, o professor afirma que continuam existindo aqueles que se valem dos recursos disponíveis para fazerem um bom curso e aqueles que não percebem o que têm à disposição. Dentre todos os que tiveram aula com os professores, Luiz Henrique e Hamilton, diversos são profissionais reconhecidos no mercado: em emissoras de televisão, de rádio, veículos impressos, assessorias de imprensa ou fotojornalismo. Mesmo contribuindo para o sucesso desses alunos, Hamilton acredita que o desafio do professor é maior do que oferecer formação profissional. “Acredito que o maior desafio, em qualquer época, é capacitar o aluno para ser um agente social para desempenhar suas funções com ética e honestidade, no sentido de melhorar a vida do ser humano aqui na Terra. Pode parecer utopia, mas é o que penso”.


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Laboratórios e projetos extra-curriculares intensificam aprendizado e promovem contato dos estudantes com a prática da profissão

sala de aula

ampliada Texto de Mariana Oliveira, Paulo Melo, Pedro Thiago, Priscilla Fujiwara e Camila Freitas Fotos: Natanael Vieira Pelas salas de aula do Campus Antônio Carlos do UniBH já passou uma parcela significativa de profissionais que hoje trabalham em todo o país. Entre eles, estão os vários exalunos de Jornalismo, cujos professores, desde o início, já desenvolviam atividades dentro do conceito de sala de aula ampliada. É o caso da jornalista Ivana Prudente, 40 anos, que se formou na década de 1980, e afirma que, já naquela época, o curso era considerado um dos melhores do Brasil. Ela, que participou do jornal Impressão, lembra com orgulho as atividades práticas do curso. “Me recordo das atividades laboratoriais de rádio, fotografia e televisão. Era uma forma de praticarmos o nosso conhecimento teórico e conhecermos a capacidade jornalística dos colegas, a título de aprendizado”, conta. A dificuldade para conseguir estágio na década de 1990 era grande. Daniela Maciel, que atualmente é repórter no Diário do Comér-

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cio em Belo Horizonte, conta que as vagas no mercado de trabalho eram difíceis e a dedicação no curso era fundamental. “Os projetos do UniBH se transformavam no nosso grande cartão de visitas para ingressar na profissão, já que as oportunidades de estágio eram bem mais escassas do que hoje”, relembra Daniela. Durante a trajetória, o curso passou por vários momentos de estabilidade e reconhecimento positivo pelo mercado de trabalho. Entretanto, em 2009, todos os cursos de jornalismo do país foram pegos de surpresa pelo Supremo Tribunal Federal, que suspendeu a exigência do diploma de jornalista. O coordenador de jornalismo da TV Record Minas, Bruno Menezes, 23 anos, é também ex-aluno do curso. Ele se formou em 2012 e destaca que, durante o período de suspensão do diploma, o curso não sofreu nenhuma alteração. “A mudança foi mesmo relacionada ao diploma. Enquanto estava na faculdade o


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diploma foi considerado desnecessário e isso fez com que muitos colegas ficassem revoltados, acarretando até mesmo algumas desistências”, afirma Menezes. Uma das atividades mais importantes no processo de formação dos jornalistas é o contato com a prática. Existe um famoso jargão que diz que lugar de jornalista é na rua. Mas, antes de ir para a “rua”, é preciso adquirir experiência e prática. Atualmente, o UniBH mantém três veículos experimentais: esta revista, o Jornal Impressão e a TV UniBH, grandes exemplos do conceito de sala de aula ampliada.

TV UniBH

O canal foi criado em 1998 e é transmitido pelo sistema a cabo nos canais NET - 12 e OI - 14. Toda a produção da TV é feita pelos alunos do UniBH, com programas voltados para a comunidade acadêmica e local, reforçando o caráter hiperlocal aderido pela emissora nos últimos anos. A coordenadora da TV é a professora Izabella Barbosa.

Revista Múltipla

Um dos produtos impressos do curso de Jornalismo, a revista Múltipla tem coordenação dos professores Maurício Guilherme e Leo Cunha, responsáveis pelo Laboratório de Jornalismo Impresso. Maurício destaca que o trabalho da revista começa com pautas elaboradas pelos alunos durante as aulas de Jornalismo Opinativo e Interpretativo. “As reportagens são selecionadas de acordo com o indicador de qualidade da publicação e as notas concedidas

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pelo professor da disciplina”, explica. As professoras Tacyana Arce e Vírginia Palmerston são as responsáveis pela disciplina que produz as matérias para a Múltipla. Virgínia afirma que o objetivo da revista é ser um espaço para que os alunos desenvolvam a prática da reportagem. “Trata-se de uma revista-laboratório totalmente produzida pelos alunos do 7º período, manhã e noite, tanto em termos de texto quanto imagens”, ressalta a professora.

Jornal Impressão

Coordenado há dois anos pelos professores Leo Cunha e Maurício Guilherme o jornal, com 31 anos de existência, reúne reportagens dos alunos para a produção do noticiário semestral. Apesar de ser parte do jornalismo, está aberto à colaboração de alunos e professores de outros cursos. O Impressão já venceu vários prêmios de jornalismo universitário, ao longo de sua história. Confira ao lado, as conquistas nos últimos anos.

Rádio Lagoinha

Em 1998, numa pequena casa na esquina da ruas Maria de Melo e Diamantina, foi fundada a Rádio FM Lagoinha, aproveitando a legislação da época, que permitia a concessão de rádios comunitárias. O professor Mozahir Salomão, primeiro responsável pela rádio, recorda que 120 alunos participaram do primeiro processo seletivo para o estágio voluntário. “Lá era uma segunda casa para os alunos, que sempre estavam matando aula para ficar na rádio, apesar da minha forte oposição”, garan-


Jornal da Rua

O Jornal da Rua surgiu no ano de 2000 como parte da ONG Beagaia. O primeiro exemplar ficou a cargo de professores e estudantes de diversas áreas e instituições superiores de ensino. Em 2001, o jornal foi adotado pelo UniBH, como um projeto de extensão coordenado pelas professoras Adélia Fernandes e Maria Cristina Leite. O Jornal da Rua adotou o viés do jornalismo cívico, relacionando o espaço urbano, a cidade, seus modos de vida e sua gente. Um dos principais objetivos era possibilitar o contato direto dos estudantes com a realidade social e abrir espaço para diferentes setores

da sociedade publicarem textos juntamente com os estudantes, deixando de ser objetos de notícias e passando a ter espaço para divulgar suas ideias e visão de mundo. O último número foi lançado no ano de 2012, ano em que a professora Maria Cristina se licenciou da escola.

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te o professor. As operações começaram efetivamente em 1999, com programação que incluía música, entrevistas, radiojornalismo, além do programa “24hs de Esporte”, que seguia à risca o nome: os estudantes ficavam 24 horas seguidas, na rádio, falando de esporte. Muitos alunos que participaram da rádio estão hoje bem colocados no mercado de trabalho, como é o caso de Marcelo Gomes, um dos principais locutores esportivos da CBN São Paulo. O UniBH não conseguiu, lamentavelmente, a concessão de funcionamento definitivo para a FM Lagoinha, o que acarretou o fim da rádio. No ano de 2008, entraria no ar a Webrádio UniBH.

Laboratório de Convergência de Mídias

O Laboratório de Convergências de Mídias do UniBH começou seus trabalhos no ano de 2009, quando o Grupo Ânima adquiriu o Centro Universitário. A nova direção abraçou o projeto e investiu na compra de equipamentos e contratação de estagiários. Segundo a professora Lorena Tárcia, idealizadora e coordenadora do laboratório, o principal objetivo é experimentar as possibilidades de convergências e transmídias. “Criar, gerar, pensar e estudar as novas possibilidades de linguagens que vão surgindo a cada dia, como também linguagem móvel e transmídias”, explica. O Laboratório é responsável pelo Portal de Convergência, que reúne notícias e outros materiais produzidos nos cursos de comunicação do UniBH, apostando numa equipe polivalente, que dá conta das diversas linguagens e formatos. Entre os produtos, está o Jornal Daqui, que faz a interação entre TVUni, Portal da Convergência e Jornal Impressão. É um programa voltado para o jornalismo hiperlocal, focando o bairro da Lagoinha.

Premiações Jornal Impressão 2001 - 1° Lugar na categoria “Jornal Acadêmico” - Prêmio Ministério do Meio Ambiente Docol de Jornalismo. 2003 - 2° Lugar na categoria “Jornal Laboratório” - 10° EXPOCOM. 2003 - 2° Lugar na categoria “Jornal Acadêmico” - Prêmio Ministério do Meio Ambiente Docol de Jornalismo. 2004 - 1° Lugar na categoria “Foto Artística”, com a foto “Rios De Luz” - 11° EXPOCOM. 2005 - 1° Lugar no prêmio FEAM para Jornais Laboratórios. 2005 - Menção Honrosa para a categoria Foto Jornalística - 12° EXPOCOM 2005 - 1° Lugar no prêmio CREA-MG de Jornalismo - categoria “Estudante”. 2006 - 1° Lugar no prêmio WYETH de Jornalismo - categoria “Universitários”. 2006 - 1° Lugar no prêmio BNB e Jornalismo 2005 - categoria “Universitários/MG”. 2007 - 1° Lugar no prêmio SENAI de Reportagem 2007 - categoria “Especial Universitário”. 2008 - 2° Lugar no prêmio ESMPU de Jornalismo Universitário. 2008 - Premiação especial no XXV Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo - 60 anos da declaração universal dos direitos do homem - Caderno Especial: Direitos de Papel, Jornal “Impressão”. 2009 - Vencedor da fase regional da EXPOCOM 2009 - Categoria Jornal Laboratório. 2009 - Vencedor da fase nacional da EXPCOM 2009 (Curitiba) - Categoria “Jornal Laboratório”. 2012- 2º lugar no Prêmio Délio Rocha de Jornalismo de Interesse - Categoria Estudante de Jornalismo

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Hoje profissionais de sucesso, jornalistas egressos do UniBH relembram experiências, aprendizados e desafios do tempo em que frequentavam as aulas

crias da

casa Texto de Laura Rezende, Flaviane Oliveira, Ronaldo Souza e Sheila Fernandes Fotos: Reprodução

Ser um profissional de sucesso costuma ser o objetivo da maioria dos alunos que se matriculam em uma universidade. Aprender um ofício e se preparar para o mercado de trabalho é a meta. O UniBH, há 40 anos, forma profissionais da área da comunicação para atuar em diversos segmentos do mercado. No jornalismo, inúmeros alunos que passaram pela instituição, deixaram sua marca e levaram consigo um pouco da história dessas quatro décadas. Mesmo já exercendo a profissão, o hoje diretor de jornalismo da Rádio Itatiaia, Márcio Doti fez questão de ingressar na academia. Na época da Fafi-BH, o curso tinha a duração de três anos, um a menos do que o atual. Para ele, apesar de ser jornalista, mas sem o diploma, foi importante porque a faculdade lhe permitiu olhar para dentro do que fazia de forma muito intensa. Pôde, assim, refletir sobre as rotinas, as responsabilidades, as maneiras de fazer e as técnicas empregadas.

Formado em 1981, Doti, depois de algum tempo, foi convidado para assumir a direção de jornalismo da Itatiaia, cargo que ocupa até hoje. “Tive a responsabilidade de construir uma nova equipe, que já tinha vivido boas fases em anos anteriores, mas passou por um arrefecimento durante o período revolucionário. Quando recebi a missão, fui buscar na Fafi os jornalistas que iriam compor o grupo. Grande parte do pessoal da Itatiaia veio dos bancos da faculdade. Isso ajudou muito a construir e consolidar o jornalismo da Itatiaia, consagrado e reconhecido pelos ouvintes”, conta. Quanto à formação, Doti ressalta a importância do interesse do estudante. “As escolas oferecem qualidade naquilo que é preciso dispor. Mas o aluno precisa corresponder a isso com interesse, entusiasmo e determinação. Se feito com seriedade, o resultado é bom, gera bons profissionais. Não dá pra esperar da escola um trabalho completo de formação. Isso

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O ex-aluno Ernesto Boaviagem já trabalhou em diversos veículos da imprensa mineira se dá na prática, como estagiário e depois no exercício da profissão.” Com uma voz rouca, fala mansa, alegre e extrovertido, o radialista Eduardo Costa é quase uma figura histórica da capital mineira. Multifacetado, ele trabalha na Itatiaia, na TV Record e escreve uma coluna para o jornal Hoje em Dia todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Formado em Comunicação, o radialista é mestre em Ciências Sociais e continua estudando. Com 56 anos de idade - os últimos 33 foram dedicados ao jornalismo -, Eduardo ainda tem dificuldade em se adaptar às novas tecnologias do mundo contemporâneo. Segundo ele, Twitter, Facebook e redes sociais não lhe apetecem. O jornalista gosta mesmo é do tète a tète, de estar com o povo, de ir para rua, de conhecer personagens. “Sou um analfabeto digital, tenho muita preguiça. Não acredito mesmo que haja redes sociais, são mídias sociais. Rede pra mim é outra coisa, é sociedade de rede. E tenho muita tristeza de ver o quanto nós estragamos a boa ideia, que é a rede mundial de computadores, botamos lixo, bobagens, mulheres peladas, piadas ruins, fofocas, etc”. Eduardo Costa se formou no UniBH quando ainda era Fafi-BH. O prédio era do outro

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lado da Avenida Antônio Carlos. A grade curricular e o corpo docente também já não são os mesmos. Eduardo se formou em 1979, pertenceu à segunda turma de jornalismo da faculdade. De uma coisa, ele não esquece: deu trabalho nos corredores da instituição. “Causava muito tumulto! Fui representante de turma, tinha um bom trânsito entre alunos e faculdade. Ajudei uma turma a se eleger para o diretório acadêmico e fui feito presidente da Associação Atlética. Aí disputamos os Jogos Universitários e fomos bem”. Ernesto Boaviagem Hodge também é cria do UniBH. O jornalista já trabalhou no Diário do Comércio, Rádio CBN, Itatiaia, Assembleia Legislativa de Minas Gerais, e atualmente é assessor na SLU da Prefeitura de Belo Horizonte e da Supra Comunicação Interativa. Ernesto se formou em 1999. Para ele, a instituição e os docentes foram, sem dúvida, importantes na formação acadêmica “Alguns professores se tornaram muito próximos nos anos seguintes à minha formação e com vários mantenho algum contato. Minha referência, como mestre, sempre foi Mozahir Salomão, com quem tive o prazer de trabalhar como monitor na Rádio FM Lagoinha. Outros que também merecem citação especial são: Leo Cunha, João Luiz, Sueli Baliza, Carlos Alberto, JJ (João Joaquim) e Luiz Henrique”. Outra figura marcante no período da faculdade não era funcionário: Seu Eustáquio, o dono do bar em frente à portaria da Rua Diamantina. “Lá, invariavelmente, estendíamos as noites de sexta-feira. Boaviagem conta que conversou, desde o primeiro período, com professores, coordenadores e técnicos da instituição, com o objetivo de criar uma rádio, mesmo que fosse de transmissão interna. “Por isso, um dos momentos mais marcantes foi o lançamento da FM Lagoinha, brilhantemente idealizada e conduzida por Mozahir Salomão. “Dela saíram vários profissionais que se destacaram não apenas no rádio, mas na imprensa de modo geral”, lembra.

“As escolas oferecem qualidade, mas o aluno precisa corresponder com interesse, entusiasmo e determinação” Márcio Doti


Roberta Xavier Araújo, que se formou em 2007, é assessora de imprensa na Zoom Comunicação. A jornalista aprendeu na faculdade que o improviso é a arte do jornalismo. “Lembro a prova final de TV, quando tivemos que convidar um profissional da área para simular uma entrevista, ao vivo, em estúdio. A professora faltou por motivo de doença e por isso o estúdio estava fechado. Mas o convidado, Laudívio Carvalho, estava lá pontualmente, preparado para a entrevista. Conseguimos uma forma de abrir o estúdio com a ajuda de um funcionário e improvisamos tudo”. O programa saiu mesmo com tantos contratempos. “Soubemos agir diante de um imprevisto, algo que acontece nas redações com frequência e exige raciocínio rápido. Nesse dia, a ficha caiu. Percebemos que estávamos preparando para o mercado e soubemos responder à altura”. Para Roberta, além dos professores qualificados, as aulas práticas foram essenciais para que ela se desse bem no mercado de trabalho. A base teórica é importante, mas o jornalista que está no mercado atua em um meio vulnerável, no qual pautas caem, imprevistos acontecem e o entrevistados faltam. O noticiário tem que ter notícia quente pontualmente. Sem contar que as tragédias viram fato e é preciso estar preparado para a cobertura, independente da hora do dia. “Quem não pratica deixa de utilizar o que aprendeu. Com isso, não conquista malícia e nem adquire experiência para superar as dificuldades. Tudo isso é necessário, inclusive, para que o estudante avalie se é mesmo a vocação dele, qual a área se identifica mais, quais funções gosta e as que tem mais

A ex-aluna Roberta Xavier Araújo é assessora de imprensa na Zoom Comunicação

dificuldade e facilidade”, explica. Quanto à revolução tecnológica, o advento das mídias sociais e da internet, a jornalista, que tem menos tempo de formação acadêmica, não pegou a era analógica de todo o jornalismo. Para ela, a comunicação é inimaginável sem essas ferramentas. “Eu costumo dizer que não consigo imaginar como as pessoas faziam jornalismo antes da internet e do celular”. Essas duas ferramentas, segundo Roberta, são essenciais na redação. “Achar o entrevistado ficou muito mais fácil. Em questão de minutos temos acesso a várias repercussões de um fato novo com apenas um clique. É preciso reforçar que a evolução tecnológica exige ainda mais responsabilidade dos profissionais. Os meios de veiculação de notícias se tornaram ainda mais dinâmicos e uma noticia irresponsável, ‘viralizada’, pode causar muitos estragos e acabar com a credibilidade que o jornalista levou anos construindo.” Roberta destacou, ainda, as mudanças na regulamentação da profissão. Para ela, a não exigência do diploma de jornalismo não assusta: “Felizmente, mesmo sem a exigência do diploma, muitas empresas têm o compromisso com o jornalismo responsável e dão oportunidades apenas àqueles que possuem formação técnica para atuarem como jornalistas”. Dentro destes 40 anos foram inúmeras as mudanças no mercado de trabalho, no ensino, na economia e até no sistema de governo do Brasil. Nas últimas décadas, aliás, tais mudanças têm acontecido em ritmo frenético. O país é outro, cresceu e ocupa destaque no cenário internacional. Concomitantemente, o UniBH passou por várias transformações em sua estrutura física e organizacional, mas o que permanece em sua marca é o grande desafio: unir o ensino ao aprendizado. Proporcionar novas descobertas a quem está em busca de conhecimento e qualificação profissional, e sobretudo fazer com que seus alunos estejam aptos para encarar todos os desafios e percalços que virão pela frente.

ACADEMIA

Nova geração

*Os ex-alunos retratados na página 36 são (de cima para baixo, da esquerda para a direita): Úrsula Nogueira - Rádio Itatiaia; Ludymilla Sá - jornal Estado de Minas; Rafael Araújo - portal GloboEsporte.com; Flávia Lages - TV Globo Minas; Ana Flávia Gussen jornal Hoje Em Dia; Thiago Reis - TV Alterosa e Rádio Itatiaia; Leo Bertozzi - ESPN; Wander Veroni - Canal Minas Saúde; e Sérgio Vilas Boas - Faculdade Cásper Líbero

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ENSAIO

SHIRLEY CHAVES

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ENSAIO

FLÁVIA CALDEIRA

Escolhido pelo professor Hamilton Flores, ensaio reúne trabalhos de ex-alunos nas aulas de fotojornalismo

antigo e

eterno FLÁVIA VIDA

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ENSAIO

LEONARDO ROCHA

BRISA MARQUES

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ENSAIO

JEYFFERS DOMINGUES

CÁSSIO LIGNANI

JULIANA XAVIER

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ACADEMIA


ACADEMIA

Estimúlo à experimentação e técnicas da linguagem comercial: qual o papel das TVs universitárias para a formação do jornalista?

primeiros passos na telinha Texto de Marcela Nósseis e Kelly Matos Fotos: Divulgação

Os profissionais da área da comunicação, principalmente os jornalistas, têm grande responsabilidade na formação cultural da sociedade. Por isso, a qualidade de sua formação e os espaços oferecidos para o exercício da profissão e da experimentação, ao longo do curso universitário, são muito importantes. As TVs universitárias são responsáveis por cumprir boa parte desse papel. Afinal, tratase de um dos primeiros momentos em que os estudantes de jornalismo se deparam com a prática da profissão. E logo em um meio que, ao longo do tempo, tornou-se, talvez, o principal canal de informação dos brasileiros, o que requer atenção redobrada com a qualidade e a capacidade dos profissionais envolvidos com sua produção. Para Simone Moreira, ex-estagiária e hoje editora da PUC TV, a experiência em uma emissora universitária foi muito importante

para sua formação como jornalista. “Durante o estágio, pude vivenciar todos os processos de produção da notícia, que são semelhantes nos diferentes veículos de comunicação”. Geralmente, TVs universitárias propõem uma formação diferenciada para os alunos participantes, sendo um caminho para o conhecimento e a experimentação em televisão. Como elas podem preparar os futuros jornalistas para o mercado de trabalho? Esses espaços promovem uma formação complementar à sala de aula. Lá, aprendem o que é fazer uma matéria, o que é reportagem, documentário, vídeo, VT. Na TV universitária, o aluno vive a rotina, podendo criar e experimentar, além de aprender a lidar com a pressão do tempo, principal antagonista da produção televisiva. Segundo a coordenadora de jornalismo da TV UFMG, Flávia Lovissi, o conteúdo trans-

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ACADEMIA 48

mitido na sala de aula se refere ao conhecimento de teorias ensinadas por mestres no assunto, mas é diferente quando o aluno, formado, vai para o mercado, onde os problemas aparecem. “Temos o objetivo de contribuir para a formação de um profissional completo, pronto para o mercado. A TV Universitária lida da mesma forma com a pressão, apesar de contar com uma linha editorial diferente, por não ter fins lucrativos. Os alunos podem errar, mas estamos longe de ser um simples laboratório. É claro que há espaço para a criação, temos mais liberdade que uma TV comercial, mas existe um padrão a ser seguido”, ressalta Flávia. Segundo a coordenadora, a contribuição das TVs universitárias está na possibilidade de experimentar a rotina, para que os alunos não cheguem ao mercado sem a devida preparação. As TVs universitárias, por não dependerem de compromissos com anunciantes, estão livres para se preocupar apenas com conteúdo, desenvolvimento de um espírito crítico, incentivo à pesquisa, experimentação de no-

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vas linguagens, formatos e narrativas, além de contribuir para a formação de um novo profissional da comunicação. Esse canal deve ser ocupado por universidades que têm como compromisso a difusão dos conhecimentos gerados nos ambientes acadêmicos e por pautar, estritamente, a promoção da educação, da cultura e da cidadania. A oportunidade de trabalhar sem a cobran-

Entrevista para a Puc TV


ça de patrocinadores é um grande diferencial, além da possibilidade de o estagiário lidar em vários seguimentos dentro da TV. Pode ser uma verdadeira porta de entrada para uma carreira de sucesso, seja em televisão ou em qualquer outro veículo de comunicação. Estudante de Jornalismo do quarto período do UniBH, Ernane Couto diz que, “depois de começar a estagiar na TV UFMG, minhas habilidades estão se aperfeiçoando, me sinto mais forte para enfrentar o mercado. Até a forma de me comunicar melhorou”, comenta o estudante.

História

Os modelos das TVs comerciais brasileiras foram copiados da televisão norte-americana. Voltado para uma edição rápida e comprometida com a audiência, esse formato acaba por distorcer o entendimento das informações, além de trazer com ele a ideologia capitalista, que perigosamente se infiltrou nos lares brasileiros. Com programação voltada para o entretenimento, a TV foi ditando valores, modas, conceitos. Passou, enfim, a construir a nova sociedade brasileira a partir dos anos 1950. A dependência de audiência, contudo, fez com que a TV deixasse de lado princípios éticos, segundo os quais a informação deveria estar a serviço do público como forma de conquista da cidadania. Quando a seleção de assuntos a serem abordados se volta para uma lógica de mercado, ela corre o risco de deixar de fora assuntos realmente interessantes ou de dar im-

portância a outros que não merecem. Para o diretor do Instituto de Comunicação e Design do UniBH, Rodrigo Neiva, a atual fórmula de programação merece críticas: “Esse modelo tem sido muito questionado, não apenas por estudiosos, mas pela sociedade. É algo que, em breve, irá mudar”. O processo evolutivo da comunicação, nos últimos anos, compreende a televisão brasileira e seu incrível poder de influenciar e formar opiniões. Ao considerar a importância desse veículo e a relevância da qualificação de seus profissionais para contribuição na formação cultural do país, surgem as TVs universitárias, que propiciam espaços para aprendizado, reflexão e experimentação. A primeira TV universitária surgiu no Recife, na Universidade Federal de Pernambuco, há mais de 40 anos. Foi a primeira TV educativa do país, que contrapunha à televisão comercial, mas que só veio a ganhar força em 1995, por meio da lei do cabo, que determina que

Redação da TV UFMG

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ACADEMIA as operadoras de TV por assinatura disponibilizem, em seu pacote de canais, espaços que devem ser ocupados por produções feitas pela comunidade e que sejam de interesse público. Um deles, claro, é o canal universitário. Em Belo Horizonte, a PUC TV entrou no ar em setembro de 1998. Emissora universitária da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, ela é sede do Canal Universitário de Belo Horizonte, transmitido via cabo na NET (canal 12) e na Oi (canal 14). O canal reúne, ainda, as produções de outras duas instituições: UFMG e UniBH. Com a expansão dessas TVs, surgiu a Associação Brasileira de Televisão Universitária (ABTU), que agrega Instituições de Ensino Superior (IES) e produtores de TV e intercede pelo segmento, além de incentivar as faculdades a produzir diferentes formas, expandindo as atividades universitárias a mídia e da tele-educação, ajudando a regulamentação do setor. Segundo a ABTU, hoje, existem mais de 30 canais universitários a cabo e 15 televisões educativas abertas mantidas por IES, envolvendo cerca de 100 entidades acadêmicas. Pesquisa aponta que, entre 1995 e 2009, o número de TVs universitárias subiu de 20 para aproximadamente 150, o que corresponde a um aumento de 755%.

TVs universitárias no Brasil

Apesar do crescimento desses espaços após a lei do cabo, os gráficos apontam que pequena parte das IES possuem essas TVs, além de haver desigualdade quanto à sua distribuição no Brasil, o que dificulta a democratização do acesso de alunos para vivenciar a rotina e experimentar novas possibilidades de fazer

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televisão, diferentemente dos padrões convencionais. Segundo estudo feito pela ABTU, outro problema é que muitas dessas TVs universi-


ACADEMIA tárias dividem espaço com os laboratórios dos departamentos de Comunicação das Instituições, e não têm equipamentos nem equipes suficientes para produzir em grande volume. Esse problema culmina com mera repetição do conteúdo produzido pelas TVs comerciais.

Experimentação

As TVs universitárias são espaços para aprendizado dos alunos, visando a possibilidade de experimentação de novas roupagens e conteúdos para a programação televisiva, buscando uma nova maneira de fazer televisão e formando um novo profissional da comuni-

“As tevês universitárias querem copiar a televisão comercial aberta. Esse não é o papel da universidade” Rodrigo Neiva

cação. O professor de telejornalismo do UniBH e ex-coordenador dos canais universitários de BH, Marcílio Lana, entende que “a experimentação não diz repeito somente a novidades, mas a uma nova abordagem dos fatos, propondo um novo olhar através de fontes diferenciadas, onde os alunos têm a oportunidade de pensar e repensar os modelos, as abordagens e as linguagens sem amarras comerciais”. Existem diferentes opiniões de profissionais da área quanto à experimentação nas TVs universitárias. Embora considerem a necessidade de ruptura dos padrões mercadológicos, sendo questionados por distorcerem informações e com linha editorial tendenciosa, o segmento, apesar de não ser condicionado aos mesmos interesses das TVs comerciais, também precisa preparar os alunos para atuar nesse mercado dominante. No caso da TV UFMG, de acordo com a coordenadora Bia Starling, experimentação não é sinônimo de liberdade total. “O aluno não chega e produz um vídeo que ninguém vá en-

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ACADEMIA EDITORIA tender. Pautamos-nos pelo jornalismo, mas de forma que possamos, por meio de uma sonora diferenciada, de edição própria, mostrar algo diferente, conseguir nos diferenciar. Já ganhamos diversos prêmios e sempre competindo com TVs comerciais, como Globo, Record e Rede Minas, e não apenas com outros canais universitários”. Rodrigo Neiva, no entanto, defende que a liberdade de linguagem propiciada pelas TVs universitárias é fundamental, pois se trata de um processo de erros e acertos necessários à evolução na formação. “Uma crítica que vejo hoje e faço às TVs Universitárias, de forma geral no Brasil, é querer imitar a televisão comercial aberta. Esse não é o papel da universidade. O papel é exatamente propor a reflexão, propor modelos e experimentar novas formas de fazer televisão. Acho que temos o grande desafio de recuperar essa missão principal, que deve ser a da experimentação nas TVs universitárias”. Apesar dessa dicotomia, o fato é que as TVs universitárias existem com o objetivo de construir um novo modelo de telejornalismo.

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Falamos de um formato mais ousado e que dialogue com a sociedade de maneira mais dinâmica e moderna. Além de dar a oportunidade para que jovens estudantes se tornem os profissionais do futuro.


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MERCADO

Caminho percorrido pelo gênero mais nobre do jornalismo nas últimas décadas redefine rumos, investimentos e adaptações na imprensa mineira

reportagem quae sera tamen Texto de Jonathan Goudinho, Leilane Stauffer e Natanael Vieira Fotos: Reprodução

Gênero jornalístico cuja história se reflete no valor à informação em primeira mão, à apuração criteriosa e exaustiva e a histórias que precisam ser bem contadas. A reportagem ocupou, na evolução e na memória do jornalismo, o lugar da identidade e da essência da profissão. Valores de uma imprensa útil, formadora e lúcida combinaram-se à busca do repórter pela compreensão e exposição de fenômenos sociais, resgates de fatos, suas causas e consequências. Nomes como Euclides da Cunha, João do Rio, Cásper Líbero e Joel Silveira marcaram a trajetória do jornalismo impresso brasileiro. Eram profissionais das áreas do Direito, Engenharia e Letras que, desprovidos de formação universitária específica - inexistente no início do século 20 -, contribuíram para que a história da reportagem fosse escrita. No cenário mineiro, figuras como José Fialho Pacheco e Roberto Drummond ampliaram a nar-

rativa jornalística. Fialho Pacheco, ícone do jornalismo policial, chamado de “campeão de furos”, escreveu por muitos anos no Estado de Minas. Drummond, que em meio a trabalhos no Binômio, Última Hora, Revista Alterosa e Jornal do Brasil, também se destacou como escritor, sempre atuou próximo da literatura e do esporte. Durante décadas, as reportagens foram lugar de debate e de emprego de técnicas de apuração, redação e desenvolvimento intelectual dos jornalistas e dos leitores que os acompa-nhavam. Um dos marcos do jornalismo no Brasil, nos últimos 40 anos, é a revista Realidade. A publicação da Editora Abril é um dos veículos que abriram espaço ao gênero e ainda é referência para o processo de produção. Mas esse lugar conquistado pelos escritores e explorado pela Realidade, de 40 anos atrás, ainda existe na mídia impressa mineira? A Múltipla conversou com jornalistas

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MERCADO

Daniela Arbex: o exercício da reportagem

que tiveram a carreira marcada pela reportagem ou que se valem dela em seus métiers.

Sem espaço para mais espaço

Para a repórter especial da Tribuna de Minas, de Juiz de Fora, Daniela Arbex, não é fácil a tarefa de vender uma pauta que demande maior fôlego e que possa se transformar em reportagem. Uma de suas pautas com tais pretensões demorou dois anos até que fosse aceita pelo editor. “Esse espaço é uma luta diária. O repórter é que tem que conquistá-la”, assegura. A persistência da jornalista foi decisiva. Arbex teve sua série “Holocausto Brasileiro” publicada em sete reportagens. Ela acredita que, além de bons argumentos, é necessário ter paciência. Ao mesmo tempo em que percebe a dificuldade de conseguir mais páginas no jornal, ela defende a qualidade do jornalismo a partir da documentação proposta pelas grandes matérias. “É inteligente os jornais investirem em grandes reportagens. Elas agregam valor e produzem efeito na sociedade”, avalia. Para o jornalista Hiram Firmino, o investimento em reportagens é importante, mas não existe mais. Ex-repórter do Estado de Minas e atual editor da revista Ecológico, Firmino atribui a falta de espaço ao contexto atual das redações. “O papel e a circulação do jornal ficaram mais caros, as notícias mais curtas e os editores não têm história de vida no jornalismo para suscitar este ideal da profissão

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em seus comandados”, alfineta. É também no contexto atual do jornalismo que a editora da revista Encontro, Kátia Massimo, percebe a causa para o esvaziamento do espaço das grandes reportagens nos veículos atuais. Para ela, os avanços nas tecnologias e a concorrência que os impressos enfrentam com a internet mudaram o perfil do leitor. “As pessoas querem se informar com mais agilidade, em textos curtos e diretos, e os veículos impressos vêm se adequando a esse novo momento e perfil de leitores”, pondera. Mas há quem pense diferente. Em artigo para o Observatório da Imprensa, a jornalis-

Câmara forma Comissão de Ética

“O uso desse instrumento de investigação [Comissão de Ética] foi proposto pela Comissão de Exame da Denúncia que considerou procedente a representação subscrita por oito vereadores. Foram analisadas informações divulgadas pelo jornal Tribuna de Minas ‘nas quais foram apontados sérios indícios de que o vereador Vicentão, através de uma empresa do ramo da construção civil registrada em nome de terceiros, a Koji Empreendimentos e Construtora Ltda, manteve relações contratuais com a Administração Pública Direta e Indireta, bem como com autarquias e fundações municipais, além do próprio Poder Legislativo’.” (Arquivo de notícias do site da Câmara Municipal de Juiz de Fora. 18/08/2008)


ta e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Sylvia Moretzsohn, critica o que chama de “processo suicida” nos jornais. Trata-se do condensamento do noticiário, que provoca eliminação de cadernos e, por fim, resulta no corte de pessoal. O primeiro aspecto sustentado por Sylvia se relaciona à “ideia equivocada da falta de tempo para a leitura”. A jornalista defende que essa questão é falsa à medida que “em qualquer época, estabelecemos prioridades para empregar nosso tempo”. “Desde que feitos com qualidade, grandes textos podem ser lidos independentemente do espaço que ocupam”, salienta. O jornalista, blogueiro e escritor Lucas Figueiredo afirma que as grandes reportagens sempre existiram, mas que, em função da crise no cenário das publicações e do alto custo de produção, o gênero vem sendo menos explorado. O que era regra virou exceção. “E aí você embala num papel celofane bonitinho e vende como uma coisa muito especial”, critica. Repórter de política que integrou as redações do Estado de Minas e da Folha de S. Paulo e hoje escritor de livros-reportagem como Olho por olho, Morcegos Negros e Boa Ventura!, além de autor do blog a ele homônimo, Figueiredo observa a queda na produção de reportagens mais aprofundadas e a relaciona, principalmente, aos custos para o jornal. “Os veículos de comunicação passam por uma crise muito grande do ‘ser ou não ser’: faturamento caindo e ninguém sabe para onde vai, qual é o caminho a seguir”, sintetiza. No círculo das exceções, em parceria com os jornalistas Táscia Souza e Ricardo Miranda,

MERCADO

“A subnutrição, as péssimas condições de higiene e de atendimento provocaram mortes em massa no Hospital Colônia, de Barbacena, superando 60 mil óbitos. Registros da própria entidade, criada em 1903, apontam para 16 falecimentos por dia, em média, no período de maior superlotação, ocorrido a partir de 1960. As emanações fétidas exaladas da instituição atraíam urubus a todo instante. (“Comércio da morte só parou na década de 80” – reportagem da série Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex) Daniela Arbex venceu o Prêmio Latino-americano de Jornalismo Investigativo, concedido pelo Instituto Prensa y Sociedad (Ipys) e pela Transparência Internacional, pela série de reportagens sobre o “Caso Koji”. A série revelou um esquema milionário da construtora Koji, que levava grande parte das licitações em Juiz de Fora. “O dono da empresa era o presidente da Câmara Municipal, que estava há 20 anos no poder. Ele caiu. Depois foi preso e não conseguiu se reeleger”, relembra Arbex. As publicações instigaram a formação de uma comissão de ética na Câmara Municipal para investigar as denúncias. “Os impactos do trabalho mostram que precisamos assumir esses desafios”, defende.

O artífice da reportagem

O tempo, que parecia ser maior para a produção, torna-se proporcional ao fôlego, avidez e profundidade que se espera de reportagens. A extensão e checagem cuidadosa da pesquisa, o envolvimento com as histórias e a maturidade necessária para assumir riscos na divulgação de informações sigilosas, também são aspectos de destaque no processo de construção da narrativa. “Meu trabalho consiste em cavar aquelas reportagens que podem dar credibilidade para o jornal. É preciso trabalhar com as minúcias e com o jornalismo mais documentado, que leva mais tempo, mais paciência e cuidado. O risco de um processo para o jornal, nessas produções, é grande”, revela Daniela Arbex. ao abordar os elementos que fazem parte do seu trabalho.

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MERCADO 58

Hiram Firmino chama atenção para a necessidade de organizar a pesquisa, aliando dados às observações em campo. O jornalista enfatiza “os detalhes, como a geografia social, o contexto político e o enredo cultural, que enriquecem e tornam a reportagem interessante”. São eles que despertam e satisfazem a curiosidade do leitor sobre o assunto. O autor da premiada série de reportagens “O drama Maxacali”, sobre os índios desta tribo no Norte de Minas e a relação com a comunidade local, marcada por contradições e violência, lembra como a reportagem foi pautada. “Apareceu um capitão reformado na direção do jornal Estado de Minas solicitando um repórter para registrar o horror que os maxacalis, bêbados e violentos, estavam fazendo nas propriedades rurais dos fazendeiros, matando suas vacas, bois e até cachorros, mais a destruição de suas plantações e invasões de terra”, conta. O repórter foi destacado, então, para a cobertura e partiu rumo ao Norte do estado. Encontrou, entretanto, uma realidade que destoava das declarações do capitão. Descobriu que os índios haviam fugido da reserva onde viviam e, quando voltaram, as terras estavam ocupadas por fazendeiros. E a violência da qual falava o delator era efeito da cachaça que os donos das fazendas incitavam os índios a beber. Firmino se orgulha do resultado da série de reportagens: “O capitão foi processado, os fazendeiros foram expulsos das terras invadidas e os índios voltaram a ter seu espaço original”. Outra experiência de Firmino denunciou as condições subumanas dos manicômios de Minas Gerais. O jornalista começou visitando a Colônia de Barbacena e seguiu a outros hospícios mineiros. Sobre a série especial, que resultou no livro Nos Porões da Loucura, ele compartilha que, por ter presenciado situações cruéis, encontrou dificuldades para contar a história. “Quando vi que tinha um material bombástico nas mãos, me perdi. Não achava a fórmula ideal de escrever. Foi quando meu colega de redação, Roberto Drummond, me salvou. Disse que não existia maior ficção que a cruel realidade que eu havia testemunhado e que eu deveria descrever o que vi, fazendo o leitor ver por meio dos meus olhos e não com eles”, explica. Arbex reflete sobre os processos da cobertura diária e da reportagem, aproximando-os. “Eu acredito que os resquícios de jornalismo diário é que te preparam para construir uma reportagem especial”, sentencia. Com 18

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anos de profissão, a jornalista diz se identificar com matérias de denúncias relacionadas à violência, à corrupção e à defesa dos direitos humanos que envolvem discussões éticas. “O que eu vou anunciar precisa ter utilidade pública. O questionamento parte sempre da dúvida sobre se o assunto é relevante. Os princípios sociais de justiça e de verdade são prioridades para investigar algo”, defende.

Reportagem em tempos 2.0

Desde a revolução da internet, no final do século 20, as relações que envolvem jornalismo e suas produções mudaram consideravelmente. Novas plataformas surgiram, o perfil do leitor mudou, os anseios são outros. E isso, claro, é um dos ingredientes que contribuem para a ressignificação da reportagem nos veículos atuais. Em tempos de voracidade pelo imediatismo de informações, Kátia Massimo aponta

Acima e à direita: trechos da série de reportagens O Drama Maxacali


dispersão da atenção, mas temas relevantes vão atrair o interesse das pessoas, a busca por explicações”, contesta. E, embora entenda que o ambiente virtual tende a dissipar a atenção do leitor, pela infinidade de possibilidades que oferece, Moretzsohn atribui às plataformas virtuais papel importante na cobertura de certos fatos e conflitos, como as manifestações pelo país nos meses de junho e julho. “Nesse caso, a mídia tradicional não conseguiu oferecer respostas adequadas”, aponta. Para a jornalista, a dificuldade dos veículos em suprir essas demandas é sintomática. Segundo ela, “[os meios] querem atender a um público diversificado e abrangem desde os fatos mais relevantes até o entretenimento e as bizarrices cotidianas, que, de fato, têm muita audiência”, acrescenta. A história das reportagens, entretanto, não está circunscrita à mídia impressa. É o que esclarece Sylvia. “A reportagem não é só impressa, é audiovisual também. O Globo Repórter, quando surgiu, mesmo no auge da ditadura, produziu grandes matérias. Algumas iniciativas vêm sendo tentadas na internet, a partir do financiamento compartilhado”, afirma, para, a seguir, concluir o assunto acerca da “falta de tempo”. “Certa vez, li um comentário do Sérgio Augusto sobre essa história. Ele dizia: “não é verdade que o leitor não tenha tempo de ler matéria longa. O leitor não tem tempo nem saco de ler matéria ruim”.

MERCADO

para o risco de o jornalismo que pretende ser mais aprofundado ir em direção contrária, tornando-se mais superficial. “O número de leitores de reportagens é menor em função da falta de tempo e do imediatismo. A nova geração é mais ligada à tecnologia e opta por se informar, prioritariamente, por redes sociais ou veículos digitais, cujos textos são bem específicos”, argumenta. Na contramão dessas constatações, está Daniela Arbex, para quem o lugar de matérias mais profundas não será retirado. “Com o jornalismo rápido da internet, ninguém lembra o que leu ontem nos veículos eletrônicos, nem mesmo as manchetes dos jornais impressos. O diferencial da reportagem está aí. Ela é perene, marca as pessoas”, acredita. Arbex estende seu juízo e pondera os rumores sobre o fim do gênero no tempo da informação rápida e direta. O que considera são as readequações, inerentes à era. “[A reportagem] não vai morrer. Eu tenho certeza disso. Ela pode até se adequar, mudar suas plataformas. Mas as pessoas continuarão lendo grandes textos”. A conclusão de Daniela é assertiva: “O lugar da reportagem ninguém tira. Ele está aí”. É o que também pensa a jornalista e professora Sylvia Moretzsohn. “Não sei de onde se tira a ideia de que o leitor quer coisas superficiais. É verdade que a internet facilita a

Não há páginas suficientes

A atenção para reconstituições históricas, humanização de relatos e investimento em discussões aprofundadas sobre determinado assunto são alguns dos aspectos que sustentam o caráter fecundo de reportagens. Esse mesmo caráter é reafirmado nas produções de livrosreportagem. Reportagens que não foram feitas, biografias, conflitos que não foram publicados e as repercussões de um assunto que ainda não se esgotou estão entre os fatores que justificam a chegada de tais obras ao mercado. Uma dessas questões resultou no primeiro livro-reportagem de Daniela Arbex, Holocausto brasileiro. A experiência da jornalista começou em 2009, no momento em que viu, no consultório de uma fonte, fotos publicadas na revista O Cruzeiro, em 1961. “Quando vi as imagens, comecei a me questionar como minha geração não sabia nada daquela história”, recorda a jornalista do início da série de reportagens que, após três anos, transformaria-se em livro.

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MERCADO

“As milhares de vítimas travestidas de pacientes psiquiátricos, já que mais de 70% dos internados não sofria de doença mental, sucumbiram de fome, frio, diarréia, pneumonia, maus-tratos, abandono, tortura. Para revelar uma das tragédias brasileiras mais silenciosas, a Tribuna refez os passos de uma história de extermínio. Tendo como ponto de partida as imagens do então fotógrafo da revista O Cruzeiro, Luiz Alfredo, publicadas em 1961 e resgatadas no livro “Colônia”, o jornal empreendeu uma busca pela localização de testemunhas e sobreviventes dos porões da loucura 50 anos depois.” (“Holocausto brasileiro: 50 anos sem punição” – reportagem da série “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex) Em sete matérias de página inteira, a jornalista contribuiu para que sua geração conhecesse o Hospital Colônia de Barbacena, cidade localizada no Campo das Vertentes (MG), que deixava os “pacientes” ao relento. Pelas condições em que viviam, eles morriam e tinham seus corpos vendidos, clandestinamente, a universidades do Brasil. Cerca de 70% das pessoas que morreram na instituição não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, meninas que ficaram grávidas após abusos sexuais de parentes ou patrões. Os fatos e as histórias que o hospital guardava com esmero despertaram a ideia de um livro-reportagem. Para a produção, a apuração foi extensa e dolorosa. “Durante um ano de trabalho, fui a Barbacena mais de 50 vezes. A cada vez que voltava, morria alguém. Esse tempo de urgência me acompanhou durante toda a produção. Ouvi mais de 100 pessoas e viajei todos os fins de semana”. Acostumada com o estilo bem demarcado das reportagens impressas, a jornalista deparou-se com desafios para narrar as histórias. “Fiquei dois meses olhando para a tela do computador e não saía uma linha. De tudo que vivi antes, essa experiência foi inédita: escrever um texto mais solto e romanceado, mesmo para falar de uma tragédia como aquela”, analisa. Lucas Figueiredo pontua a necessidade que se aplica a todos os gêneros jornalísticos: contar bem uma história. Seu livro O operador,

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lançado pela Editora Record em 2005, registra, com informações exclusivas, o esquema do “Mensalão”. “O que relatei no livro ficou bem contado, porque as pessoas vão atrás daquelas informações para trazer a história à tona”, observa. Sobre essa relação de resgate e a contribuição para mudanças sociais, Figueiredo acredita que tais processos são diferentes em comparação ao jornal. No livro, não há respostas imediatas. “Quando se está em um jornal, conta-se uma história, que é enfiada numa garrafa e jogada no mar. No livro, é diferente. Você tem o feedback, o leitor chega próximo a você. E aqui eu não estou falando de elogio, é a opinião”, pondera. A opção pelo livro-reportagem, para Figueiredo, está relacionada, principalmente, à compreensão das causas que levam à mudança de plataforma. Para o repórter, quando se publicam três páginas de texto, é preciso que o tema seja muito atraente, e vai além. “Você está obrigando o leitor a ter muita paciência. O impresso não é a plataforma ideal para isso”, entende. As áreas específicas e o peso da pesquisa e dos materiais são também fatores destacados por ele. Assim como para Arbex, Figueiredo evidencia as diferenças e o investimento em linguagem: “Na reportagem, muitas vezes, você escolhe por dar informação, mas não conta a história. No livro, você faz as duas coisas e pode optar pelo investimento em redação literária”. E, para contar bem uma história, é preciso informar-se sobre ela. “A primeira coisa é ler


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Daniela Arbex, autora do livro Holocausto Brasileiro

tudo que saiu sobre o assunto, estudar muito, ler absurdamente, sobretudo, literatura especializada. É uma coisa que geralmente não se faz na redação”, conta Figueiredo. Mais do que administrar as informações em outra escala, a produção do livro-reportagem, para os repór-

teres-escritores, está ligada a uma atividade contínua: a missão social. “A função do jornalista, ao mesmo tempo em que é muito grande, é muito singela. Se eu contei uma história bem contada, ela vai sobreviver e eu cumpri minha função social”, aposta.

Ecologia das mídias: as alternativas das grandes reportagens Para além da discussão sobre o gênero no jornalismo impresso, iniciativas que aliam novos caminhos de financiamento em jornalismo e veiculação de grandes reportagens têm vazão na web. Alguns não possuem periodicidade fixa, mas são exemplos de possíveis apropriações do gênero e ofertas ao público. Entre as possíveis apropriações, percebem-se casos cada vez mais comuns de hibridismo de plataformas e linguagens. O Tempo Online – matérias especiais: Além de ser pautado pela cobertura diária, o portal mineiro encontrou espaço para reportagens especiais. São efemérides e assuntos da vida cotidiana. Apropriam-se de recursos potencializados no ambiente virtual, como efeitos especiais, interações e infografias. UFMG Educativa: com uma vasta galeria de prêmios (como Délio Rocha, Roquette Pinto e Sebrae), a emissora trata de temas pertinentes aos direitos humanos, empreendedorismo, cidadania, entre outros. O cunho universitário favorece a experimentação e a autonomia. Não dependem de anunciantes. Jornalirismo.com: como o nome sugere, o lirismo e a poética são uma constante na produção do site. Exploram, nas

reportagens, o terreno entre o jornalismo e a poesia. As fotografias são escolhidas em complemento à linguagem para a produção de sentido. Agência Pública: criada por duas repórteres, em 2011, a agência refere-se à experiência norte-americana ProPublica. O portal independente de jornalismo investigativo oferece reportagens de fôlego pautadas no interesse público e sem fins lucrativos. Repórteres sem Fronteiras: a Organização Não Governamental internacional defende a liberdade de imprensa no mundo. Uma de suas ações consiste em estimular a produção jornalística livre a partir de investimentos e prêmios, como “Reporters Without Borders’ Press Freedom Prize” e “Netizen Prize”. Conexão Repórter – SBT: marcado pela investigação e pela busca do “exclusivo”, o programa é transposto para a web. A equipe é formada, na maioria, por produtores-repórteres. Venceu o Prêmio Esso Especial de Telejornalismo com o trabalho “Sexo, intrigas e poder na Igreja Católica”, sobre pedofilia envolvendo padres, em Alagoas.

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História brasileira narrada pela imprensa reforça convivência umbilical e antagônica entre política e jornalismo no país

irmãs siamesas Texto de Dany Starling e Jonathan Goudinho Fotos: Reprodução

Qual a capa da edição de hoje do seu jornal preferido? Salvo se for numa segunda-feira, quando os acontecimentos esportivos ganham espaço, há grandes chances de o destaque ser uma notícia de política. Muito raramente entram em cena assuntos de cultura, por exemplo. Nos grandes portais, o fenômeno é semelhante. Assim como nos noticiários do rádio e da televisão ou nas revistas semanais. A política é protagonista, é dela o papel principal. É possível, inclusive, defender a tese de que o jornalismo brasileiro nasceu com a cobertura de política. Afinal, foi para criticar ou apoiar as ações da Família Real Portuguesa, por aqui desembarcada em 1808, que se criou, oficialmente, a imprensa no país, proibida até então. No mesmo ano, com a criação da Imprensa Régia por Dom João VI, dois periódicos começaram a circular: o Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro, e a Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal publicado em território na-

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cional. A dicotomia era clara: o Correio, lançado por Hipólito José da Costa, exilado em Londres, era crítico ao governo português no Brasil, enquanto a Gazeta era o veículo oficial de Dom João VI e sua Corte. De lá pra cá, a ligação entre jornalistas e políticos tornou-se visceral. De Assis Chateaubriand a Carlos Lacerda, passando pelas famílias Civita, Mesquita e Frias, Mário Rodrigues, Samuel Wainer e Roberto Marinho, todos os donos de jornal sempre andaram lado a lado com o poder. Seja para apoiá-lo ou atacá-lo, não importa - o posicionamento varia de acordo com os interesses em jogo. Essa postura da imprensa ganha contornos ainda mais nítidos com a derrubada do governo João Goulart e o Golpe Militar de 1964, que completará seu cinquentenário no próximo ano. A chegada dos quartéis ao poder e a ditadura que veio a reboque mudaram a forma de se cobrir política no Brasil. A força da cen-


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sura e a pactuação dos veículos com o regime em vigor fez com que, por um determinado período, as informações sobre o poder fossem simplesmente alijadas das páginas dos jornais. Contar a história do Brasil nos últimos 50 anos passa, obrigatoriamente, pela maneira como a política nacional foi retratada pela mídia. A imprensa tornou-se um agente político fortíssimo, cuja atuação incidiu diretamente nos destinos do país. Qual o papel dos jornalistas nesse imbróglio? De que maneira jornais e revistas atuaram no jogo político? Múltipla foi buscar essas respostas em meio àqueles que fizeram parte desse processo e seguem fazendo até hoje: os próprios jornalistas.

Apoio ao golpe

Audálio Dantas era jornalista havia 10 anos quando os militares tomaram o poder. Começou na Folha da Manhã e passou por O Cruzeiro, Realidade, Quatro Rodas, Veja e inúmeras outras publicações, além de ter sido presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e deputado federal. Hoje, quase meio século depois, ele se recorda de como a imprensa atuou durante a queda de Jango. “O Golpe Militar não só teve o apoio de quase a totalidade da grande imprensa, mas a própria sustentação do regime teve o apoio ou contou, no mínimo, com a omissão dos grandes veículos de comunicação. As exceções foram o Correio da Manhã e, em um segundo momento, o Estado de S. Paulo, que havia sido

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um dos principais grupos de conspiração para a derrubada do governo de João Goulart”, lembra Audálio. “A cobertura política era áulica, baseada no ponto de vista da maioria dos veículos, todos apoiadores do Regime Militar. A censura se dava não apenas por parte do governo, mas também pelos donos dos veículos. Criticar a administração pública era uma ousadia, se fazia por metáforas, por rodeios”, critica. “O papel da imprensa, nessa época, foi lamentável”, queixa-se o jornalista, que cita o então colunista do Jornal do Brasil, Carlos Castelo Branco, como uma das poucas exceções do período. “Era um dos únicos que ainda dizia as coisas. Ainda assim, sempre de forma indireta”. Se já contava com o beneplácito de grande parte das redações, o Regime Militar se viu ainda mais livre da ação dos jornalistas a partir de dezembro de 1968. A promulgação do AI-5 suspendeu direitos políticos e garantias constitucionais, proibiu quaisquer manifestações de cunho político, pôs fim ao habeas corpus em casos de crimes contra a segurança nacional e legalizou a censura aos meios de comunicação. “Nessa época, quando comecei no jornalismo, a cobertura de política era muito restrita, praticamente não existia”, recorda-se Paulo Markun, ex-apresentador do programa Roda Viva, da TV Cultura, e ex-presidente da Fundação Padre Anchieta. “O Estadão ainda trazia alguma coisa na sua página três, um noticiário misturado com opinião. Na Folha

Comício das Diretas. No palanque, Ulysses Guimarães, Brizola, Lula, Osmar Santos e Franco Montoro


MERCADO Vlado Herzog na redação da TV Cultura, meses antes de morrer

não existia. Termos como ‘greve’, movimento estudantil’, ‘passeata’, até então liberados, diminuíram de frequência drasticamente de 1968 para 1969 e nos anos seguintes”. A ligação direta com os militares fazia com que somente poucos veículos sofressem com a ação direta de um censor dentro das redações, como conta o jornalista Tão Gomes Pinto, que começou na Última Hora e passou pelo Notícias Populares, Jornal da Tarde, Veja, Istoé, Jornal da República, Folha de S. Paulo e Revista Imprensa. “A cobertura política variava de acordo com os veículos e da forma como os militares enxergavam os donos desses veículos. O Globo, por exemplo, nunca recebeu censura. O Estado de S. Paulo era censurado e, no lugar das matérias, colocava sonetos de Camões. No Jornal da Tarde, que era do mesmo grupo, nós colocávamos receitas de bolo”. Tão fez parte da equipe que criou a revista Veja, comandada por Mino Carta, e que contou com a presença de censores na redação logo nos primeiros meses. “Era o Coronel Américo e

“A cobertura política era áulica, baseada no ponto de vista da maioria dos veículos, todos apoiadores do regime militar” Audálio Dantas

o Major Rocha. Era uma censura diferenciada. Não nos permitia publicar sonetos de Camões, por exemplo. Se uma matéria era censurada, precisávamos reescrevê-la novamente, de modo a não evidenciar que havia ali algo vetado pelos censores”. Ainda assim, a revista tentava burlar a ação dos militares. “Demos uma capa famosa do Costa e Silva sozinho no plenário do Congresso, uma foto que nosso repórter em Brasília, José Carlos Bardawil, trouxe na cueca. Naquela época não tinha dólar na cueca, tinha foto de general”, recorda-se, aos risos. A proximidade com os censores na redação da Veja era tão grande que os militares acabaram por se tornar fonte dos jornalistas. Tão relembra um caso marcante. “A imprensa diária dizia que o Lamarca estava cercado no Vale do Ribeira. A Veja preparava uma matéria sobre isso e entregava para o coronel, que replicava: ‘Não diga que ele está cercado no Vale do Ribeira. É impossível cercar o Vale, nem se todo o exército brasileiro for para lá. Além disso, o Lamarca já saiu de lá faz tempo’. A informação vinha do próprio censor”.

Morte de Vlado: arrefecimento

A chegada do general Ernesto Geisel ao poder, em março de 1974, e sua promessa de abertura “lenta, gradual e segura”, deu esperanças aos jornalistas, ávidos pelo fim da censura. Mas foi um acontecimento trágico para a classe que desencadeou no processo de libertação das redações: a morte de Vladimir

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MERCADO Herzog - então diretor de jornalismo da TV Cultura -, em outubro de 1975, em decorrência da tortura que recebera nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo. “A abertura mesmo veio com a morte do Herzog”, afirma, categórico, Audálio Dantas. “A nota emitida pelo Sindicato dos Jornalistas, culpando o exército, e que foi publicada pelo Estadão, prova isso”. Paulo Markun concorda. “Em 1973, tivemos a anticandidatura do Ulysses Guimarães à presidência, que permitiu uma boa cobertura do MDB. Mas a abertura começou mesmo a partir da Missa Ecumênica em homenagem ao Vlado, que teve amplo espaço na imprensa”. A partir daí, uma série de eventos ganhou as páginas dos jornais, sempre com maior liberdade de cobertura por parte dos jornalistas. “Em 1977, houve a invasão da PUC, em São Paulo. No ano seguinte, as greves no ABC. Mas foi um processo lento e não uma coisa do dia para a noite, como se tivessem apertado um botão para reestabelecer a cobertura política”, explica Markun. “Além disso, essa abertura só veio para a imprensa escrita. No rádio e na televisão, a censura ainda existia, e só termina mesmo com a eleição do Tancredo”, salienta. Para conseguir destaque em suas matérias, os jornalistas precisavam estabelecer contatos importantes, não apenas dentro do governo, mas também na oposição. “A escolha das fontes era fundamental. Buscávamos aquelas que

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estavam mais próximas do núcleo do poder, como os generais Hugo Abreu, Heitor Aquino, Golbery e Vitorini. O senador Petrônio Portela também era uma ótima fonte. Na oposição, os melhores eram Ulysses e Freitas Nobre”, conta Tão Gomes Pinto.

Diretas e redemocratização

A campanha pelas eleições diretas para presidente da República marcou o fim da censura no país, dizem os jornalistas, mas mostrou como a imprensa pode ser decisiva quando o assunto é política. “A mídia contribuiu poderosamente para que o movimento das Diretas se consolidasse”, garante Audálio. “Até porque, ela percebeu que seus clientes, ou seja, aqueles que consomem a informação, não estavam mais satisfeitos com o regime”, provoca. Quem primeiro deu espaço para a campanha e a cobriu de maneira mais intensa foi a Folha de S. Paulo. “A Folha só veio a ser relevante para a política brasileira quando o ‘seu’ Frias determinou para todos os chefes de sucursal e todos os editores que as notícias das Diretas tinham que ter presença diária na primeira página. Mesmo que não tivesse notícia, tínhamos que criá-las”, lembra Tão Gomes Pinto, na época repórter do jornal paulista. A cobertura das Diretas Já e a eleição indireta de Tancredo Neves resgataram a política para as páginas mais importantes dos jornais. Com o fim do regime militar, a censura dei-

O queridinho da imprensa, Fernando Henrique Cardoso (acima), e José Sarney (ao lado)


Collor no poder

De acordo com o jornalista e escritor Maurício Lara, os repórteres tiveram que aprender a cobrir política após o fim da ditadura. “As eleições de 1989, por exemplo, foram de aprendizado. Havia o risco de nós mesmos nos censurarmos. Assim como o eleitor se lambuzou naquelas eleições, nós, jornalistas, nos lambuzamos na cobertura. Os jornais se lambuzaram. Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”. A atuação da mídia como agente político ficou marcada pela eleição de Fernando Collor. “Ele foi conduzido pela mídia. Primeiro com a Veja, com aquela famosa capa ‘O Caçador de Marajás’, e depois pela Globo”, garante Audálio Dantas. Para o cientista político, historiador e professor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Antônio Marcelo Jackson, “a manipulação foi aviltante. E não se restringiu ao famoso caso da edição do último debate, pro-

movido pela Globo. Havia claramente o preconceito contra a candidatura de Lula”. Assim como ajudou Collor a chegar à presidência, a imprensa contribuiu, de maneira decisiva, para apeá-lo do poder. “Quando se viu blindada pelas ações do Paulo César Farias, a imprensa reagiu contrariamente ao governante”, explica Antônio Marcelo. Para Audálio Dantas, contudo, a ação não partiu diretamente das redações. “Foi um movimento que começou de baixo para cima e que obrigou a imprensa a mudar sua cobertura”.

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xou de vez as redações, dando ampla liberdade para que os jornalistas pudessem, inclusive, se dedicar a fatos obscuros durante o período da ditadura. “O governo Sarney tirou a tampa da panela de pressão”, compara Tão Gomes Pinto. “Além disso, os jornalistas já estavam habituados a cobrir política desde a Emenda Dante de Oliveira”.

FHC x Lula: jornalismo partidário

Nas duas últimas décadas, a cobertura de política ganhou contornos inimagináveis. Se na história ela se mostrou poderosa a ponto de ajudar os militares a chegarem ao poder, ou mesmo eleger e derrubar um presidente da República, hoje ela tornou-se verdadeiramente partidária. Durante o governo Fernando Henrique Cardoso a grande mídia se mostrou totalmente alinhada ao Palácio do Planalto, mas, a partir da posse de Lula e, posteriormente, da presidenta Dilma Rousseff, as críticas são inclementes e incessantes. O que fez surgir, na internet, uma série de sites e blogs preocupados em defender os governos do PT - de cujas verbas publicitárias garantem sua subsistência. “O que vemos, hoje, é uma clara divisão dos

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MERCADO meios, um Fla x Flu. Os grupos que gostam do governo e os que não gostam. E isso é muito ruim, a imprensa não tem que ser um partido”, analisa o jornalista e escritor Lucas Figueiredo. Para Paulo Markun, “hoje tudo está muito confuso e misturado. É a volta da imprensa militante, por intermédio de blogs e colunas, tal como era no período do Império e antes do Golpe de 1964, quando existia uma imprensa mais ideologizada, com a Última Hora e a Tribuna da Imprensa, mas nada parecido com o que vemos atualmente, quando o grau de ofensas e ataques, de parte a parte, é muito intenso”. Para Tão Gomes Pinto, “essa divisão é lamentável. Um equívoco dos dois lados. A imprensa está a serviço de outros interesses, seja de partidos políticos ou corporações. Isso está acabando com o jornalismo político no Brasil”. Para Antônio Marcelo Jackson, o problema nem é o de ser partidário, mas de os meios de comunicação afirmarem uma imparcialidade que não se sustenta. “O interessante é que a imprensa já foi absolutamente sincera no Brasil. No século XIX, existiam jornais que se apresentavam como defensores do Partido Liberal, do Partido Conservador e mesmo do Partido Republicano. Apresentar-se como imparcial empobreceu a imprensa, pois, ao não assumir posição clara, as frases, os editoriais e o roteiro soam estranhos, quase esquizofrênicos”. Outro fenômeno tem contribuído para a

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queda de qualidade no jornalismo político que se faz hoje: a valorização do jornalismodenúncia. “O pessoal que trabalhava no antigo SNI ficou desempregado e hoje trabalha como araponga”, revela Tão Gomes Pinto. “A maior parte das denúncias que os jornais estampam vem de arapongas. O jornalista não investiga, não apura mais nada. Ele recebe uma fita e publica o que está contido nela”. Especialista no assunto - escreveu Ministério do Silêncio, que conta a história do serviço secreto brasileiro -, Lucas Figueiredo é mais cauteloso na hora de analisar esse cenário. “Existe, sim, um aparato de investigação muito competente, que ficou sem patrão com o fim do SNI e hoje trabalha de forma autônoma. Que passa a informação de acordo com os interesses de quem os contrata, não apenas políticos, mas grandes grupos capitalistas. É algo que sempre esteve presente. Pode ter mais

Acima: Recém saído da prisão, Lula é entrevistado por Mino Carta, para a IstoÉ, em maio de 1980. Ao lado, Ricardo Kotscho e Audálio Dantas durante palestra

“O governo Sarney tirou a tampa da panela de pressão. Além disso, os jornalistas já estavam habituados a cobrir política desde a emenda Dante de Oliveira” Tão Gomes Pinto


Como será o amanhã?

Diante desses problemas, qual o futuro do jornalismo político no Brasil, principalmente diante da crise dos meios impressos e da pujança da internet? Para Lucas Figueiredo, “o momento é de pulverizar os canais. Temos bons exemplos disso, como os sites Congresso em Foco e Agência Pública, mas é pouco, era para termos 20 exemplos semelhantes. Com estruturas mais enxutas, mais baratas, e que trafeguem por um canal que ninguém mais quer, que é fazer um jornalismo que seja crítico com todo mundo”.

“Vemos hoje uma clara divisão dos meios, um Fla x Flu. Isso é muito ruim, a imprensa não tem que ser um partido” Lucas Figueiredo Para Lucas, o exercício do senso crítico precisa ser mais rigoroso. “Os veículos estão perdendo qualidade, indo para um alinhamento muito raso. É muito mais fácil, por exemplo, criticar o Poder Legislativo que o Executivo, que lida com dinheiro, ou o Judiciário, pelas

brigas que serão compradas”. Maurício Lara entende que o futuro passa pelo amadurecimento da própria sociedade. “Imprensa e cidadania caminham juntas. Quando a cidadania avança, a imprensa tem que avançar. E vai chegar o tempo em que a cidadania estará tão amadurecida que qualidade vai ser mercado para a imprensa. Jornal ruim não será lido, imprensa ruim não será vista. O compromisso com a qualidade da informação vai virar valor de mercado para o leitor”. É impossível desassociar imprensa e política no Brasil. Irmãs siamesas, elas sempre caminharam juntas e seguirão trilhando os mesmos passos, até o fim dos tempos. Fundamental, contudo, é que os jornalistas saibam qual o seu lugar nessa jornada. Não são eles os protagonistas da história. Não é a mídia (e seus donos) a responsável por escolher os rumos que serão tomados, interferir em decisões e manipular a informação. É sua obrigação relatar, cobrar, investigar e garantir que a política e aqueles que a exercem atuem em sua melhor essência, tomando as decisões mais acertadas para o bom funcionamento e gestão do país, dos estados e das cidades. Para isso, basta manter o que dela, imprensa, mais se espera, como não se cansa de repetir Mino Carta: fidelidade canina à verdade factual, exercício desabrido do espírito crítico e fiscalização do poder, onde quer que ele se manifeste.

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presença hoje, mas sempre existiu”, avalia.

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Jornalismo popular cresce no conceito das pessoas e ganha mais destaque e visibilidade nos grandes meios e veículos de comunicação

menos

sensacionalismo,

mais

público...

Texto de Rafael Arruda, Thalvanes Guimarães e Paulo Henrique Chave Fotos: Natanael Vieira e reprodução Voz firme, palavras de impacto. O jornalista e apresentador esbraveja contra as autoridades em meio às maiores manifestações já vistas em solo brasileiro. Este cenário de um programa de rádio da capital é tão comum que poderia ser também uns dos inúmeros programas do gênero no país. Cidade Alerta, Brasil Urgente, Itatiaia Patrulha, Programa do Ra-tinho e, claro, o precursor Aqui Agora. Assim é o jornalismo popular. Uma fórmula repetida e de fácil percepção e aceitação pelo público, exatamente pelos excessos de apelos e assimilação simples. Assim nasceram os jornais direcionados aos trabalhadores que, com pouco tempo para ler e pouca instrução, precisavam de um jornal menos “padrão”. Dessa forma, jornais como Super Notícia e Meia Hora vêm ganhando cada vez mais leitores, principalmente nas camadas mais baixas da sociedade. Basta olhar para o que a maioria anda

lendo, ouvindo e assistindo ao seu redor para verificar isso. O tempo cada vez mais corrido para as pessoas e a incessante busca por informação e entretenimento se configuram como outras explicações possíveis para o crescimento do jornalismo popular. Nas últimas décadas, os jornais destinados a um público mais popular passaram por mudanças, tornando-se mais próximos do leitor por meio de entretenimento e prestação de serviços. Antes, o sensacionalismo era a tônica dos populares, histórias inventadas, exploração do absurdo, davam o ritmo dos jornais. E existiam veículos que apelavam prioritariamente a interesses políticos, como o Última Hora, que surgiu em 1951 e usava de sua popularidade para apoiar o então presidente Getúlio Vargas. A pesquisadora de jornalismo popular, Márcia Franz Amaral, explica que a cobertura popularesca realizada na atualidade por

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José Luiz Datena: “Se pudesse, eu não faria este tipo de programa”

grandes veículos não se pauta apenas pelo sensacionalismo, como era comum antigamente. “Mais do que a produção de sensações, muitas vezes o jornalismo popular se caracteriza pela proximidade com seu público e pela publicação de matérias que abordam alguns aspectos da vida dessas classes, como suas formas de entretenimento, lazer, transporte, habitação e trabalho”, afirma. Mesmo com a mudança, os jornais populares ainda tratam de temas diferentes dos veículos considerados como referências. O interesse do leitor se sobrepõe ao interesse público, que, por sua vez, passa a ser visto como consumidor. Dessa forma, os jornais se rendem às estratégias de marketing, como distribuição de brindes e ênfase ao entretenimento, deixando de lado, com frequência, a prática do bom jornalismo. Na imprensa de referência, o acontecimento tem mais chance de virar notícia caso envolva indivíduos notórios, tenha impacto sobre a nação, proporcione importantes desdobramentos, seja relacionado a políticas públicas ou se é relatado com exclusividade pelo veículo. Na imprensa popular, entretanto, os critérios são outros. Para se transformar em produto noticioso, o fato deve apresentar capacidade de entretenimento, ocorrer em um espaço geográfico próximo à sede da redação, ser simplificado em forma de notícia, apresentar uma narração em tom mais dramático e ter certa identificação entre as personagens da matéria com o leitor, ouvinte ou telespectador. Atualmente, o veículo impresso popular de

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maior destaque no Brasil é o Super Notícia, que pertence ao jornal O Tempo, de Minas Gerais. Segundo dados da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), a publicação é a segunda mais vendida de todo o país, com média de circulação de quase 297 mil exemplares por dia ao preço de R$ 0,25 cada. A Folha de S. Paulo, primeira colocada, está um pouco na frente e comercializa aproximadamente 297,6 mil unidades diariamente. Tendo em vista o poderio do Grupo Folha, é notável o desempenho do jornal popular mineiro. É, literalmente, um super fenômeno. Na segunda-feira, 27 de junho, um dia após o jogo entre Brasil e Uruguai pela Copa das Confederações, no Mineirão, a capa do Super Notícia apresentava o título “O pau quebrou em BH”. A manchete de destaque se referia aos prejuízos e destruições causados por vândalos durante as manifestações ocorridas nas avenidas Antônio Carlos e Abrahão Caram, vias de acesso ao estádio. Nada poderia ser mais íntimo ao povo. “É fácil de ler, fácil de comprar. Uma moeda e já estou com ele na mão. Como o tempo hoje é muito corrido, o formato deste tipo de jornal é bom para nos

“Mais do que a produção de sensações, o jornalismo popular se caracteriza pela proximidade com seu público” Márcia Franz Amaral


sinou, sobretudo, a inverter pautas: o aumento da gasolina pelo olhar de quem anda de ônibus, ou uma grande feira agropecuária pelo olhar de quem espera geração de empregos. Mostrou que há uma produção de informações que precisa ser útil à maioria da população”, avalia a especialista Márcia Franz Amaral.

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informarmos, mesmo que de forma básica”, diz o estudante Felipe Sousa. O jornalista da editoria de esportes do Super Notícia, Guilherme Guimarães, destaca que os serviços de utilidade pública e o compromisso de informar com responsabilidade são os principais segredos do sucesso. “A coluna Panelaço dá ao leitor a oportunidade de enviar reclamações e, no próprio jornal, ter uma resposta das autoridades envolvidas. A coluna Por Onde Anda auxilia na busca por pessoas desaparecidas. Um jornalismo bem feito pode ser uma peça fundamental na resolução de vários problemas da sociedade”, observa. Resolução dos problemas da sociedade: está aí algo que vale bem para o jornalismo popular. Algumas pessoas deixam de procurar as autoridades responsáveis por problemas e vão direto à imprensa. “É um jeito de o problema ganhar uma repercussão maior e, quem sabe, ser solucionado. Quando sai na mídia, os políticos fazem de tudo para resolver”, comenta Ailton Guimarães, professor e leitor assíduo de jornais populares. A mudança do estilo dos jornais populares não ocorreu apenas no Brasil. Muitos veículos latino-americanos e europeus seguem tal modelo e expandem o mercado de leitores, pois estes não conseguem competir com a imprensa tradicional. “O jornalismo popular mostrou aos jornais de referência que existe vida para além das matérias tradicionais e das pautas exclusivas do mundo institucionalizado. En-

Jornalismo popular na TV e no rádio

Na televisão, a história dos programas populares é muito rica. O que vemos hoje não é nenhuma novidade. Já em 1954, a atração “Tribunal do Coração”, da TV Tupi, encenava histórias pessoais e casos de telespectadores julgados nos moldes de um júri de verdade. O programa “Homem do Sapato Branco”, que surgiu em 1966, foi um dos primeiros da televisão do gênero policial e acabou exibido também por emissoras como Globo e Record. “O Povo na TV”, que começou na TV Excelsior e passou pela TV Tupi, Bandeirantes e SBT, abordava a vida privada dos participantes. Mas foi na década de 1990 e no início dos anos 2000 que os programas populares invadiram de vez a televisão. Linha Direta, da TV Globo, Brasil Urgente, da Bandeirantes, Cidade Alerta, da Record, e Programa do Ratinho, do SBT, são alguns exemplos. Mas o maior marco deste período foi o programa Aqui Agora, no ar entre 1991 e 1997, também ela emissora de Sílvio Santos, que visava tratar do interesse do povo. Tinha como bordão ser “um telejornal vibrante, que mostra na TV a vida

Gil Gomes e o jornalismo “aqui e agora”: em busca do fato que choca

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como ela é”. O programa era composto por reportagens sobre casos policiais, sobrenaturais e direitos do consumidor. A ousadia do jornal era tanta que chegou a ter Adilson Maguila, então lutador de boxe, como comentarista de economia. Ele utilizava o bordão “O povo não aguenta mais passar fome”. Em 1993, o programa chegou a passar ao vivo um caso de suicídio. Jornalistas como Boris Casoy e o também radialista Gil Gomes foram protagonistas do Aqui Agora. Na edição local de Minas Gerais, o apresentador do programa era Laudívio Carvalho. Hoje na Rádio Itatiaia, ele conta que o sucesso era tão estrondoso a ponto de não ter mais nome. “Por todos os lados que a gente ia pela Região Me-tropolitana, as pessoas gritavam: ‘Olha o Aqui Agora!’ Esse era o grito, eu já não tinha nome. O jornalismo popular sempre foi um grande sucesso”, relembra. Hoje no ar no programa Itatiaia Patrulha, Laudívio afirma que, ao contrário do mito que diz que o jornalismo popular visa apenas classes mais baixas, muita gente de alto poder aquisitivo sempre acompanhou seu trabalho. “Quando eu apresentava o Aqui Agora, por exemplo, era bastante comum pessoas mais elitizadas falarem comigo. ‘Te vi essa semana no Aqui Agora, cheguei lá em casa na hora do almoço e minha empregada estava assistindo, quando cheguei na cozinha te vi’. Era mentira. Essas pessoas passaram, viram, se sentaram e assistiram. Não era a empregada, mas sim o próprio patrão que viu e gostou da programação”, provoca. Segundo Laudívio, o seu Itatiaia Patrulha alcança, em média, 310 mil ouvintes por minuto e sua audiência é dividida entre todas as classes econômicas. “Você tem noção do que é isso? Você acha que só gente de classe mais baixa que ouve? Acha que nestes 310 mil nem a metade é classe A? Claro que sim! O desembargador ouve, o prefeito ouve, o governador ouve. Ouve, sim, porque quando a gente fala, ele manda responder na hora. Os pronunciamentos mais importantes do Governo do Estado são geralmente feitos no meu programa”, gaba-se. O repórter acredita que o melhor gênero a ser praticado no Brasil é o popular, pois é o que atende a todos os públicos de forma simples.

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Outra figura de muito sucesso que envolve o jornalismo popular em Minas Gerais é Thiago Reis, de 29 anos, famoso pelo bordão “Seu nome, seu bairro”. Originalmente, ele é funcionário da Rádio Itatiaia, mas costuma cobrir folgas e trabalhar nos fins de semana para a TV Alterosa. Thiago, que na maioria das vezes está envolvido em transmissões esportivas, acredita que o estilo “popular” não é mais direcionado a um público específico. “Eu falo aquilo que falo no dia a dia. Sou eu mesmo e falo para todos os públicos. Acho que a pessoa, quando assiste ou ouve, quer uma aproximação, por isso faço questão de ser bem natural”, diz. Um profissional bastante conhecido no jornalismo popular brasileiro apresentou pensamento diferente. José Luiz Datena, 55 anos, apresentador do Brasil Urgente na TV Bandeirantes, diz que, se pudesse, não faria este tipo de programa, e que, se fosse dono da emissora, não permitiria a exibição. Datena ainda afirma que só não sai porque tem uma multa de rescisão contratual muito alta, e chegou a relacionar seus problemas de saúde ao estresse provocado pelo programa. Tais revelações foram feitas em entrevista ao jornalista e humorista Rafinha Bastos, ex-integrante do programa CQC, também da Band. Não é só Datena que pensa assim. Muita gente contesta o conteúdo de alguns programas. Márcia Franz Amaral explica que o jornalismo popular sofre críticas justificadas, como aquelas que se referem à extrema despolitização de suas pautas, como a blindagem


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Casos famosos do Notícias Populares e do Meia Hora

não têm espaço no jornalismo popular”, diz. São abordados os problemas e as soluções imediatas. Nada de aprofundamento e discussões que levarão à construção de cidadania.

Notícias Populares fez história

dos problemas sociais de contexto maior. “O sensacionalismo explora uma singularidade máxima do fato de forma a encobrir o seu contexto, o que compromete a credibilidade. Entretanto, o público se acostumou com o sensacionalismo. Trata-se de um modelo que vende facilmente e tem em sua origem a exclusão da maioria da população da herança cultural da humanidade e das relações de poder”, avalia a pesquisadora. Sobre o preconceito em relação ao gênero, Márcia ainda relata que os jornalistas do meio não circulam no centro do poder, e que as fontes de informação encontram-se nas periferias. “A alta cultura e a política de verdade

“Broxa torra pênis na tomada!”, “Churrasco de vagina no rodízio de sexo.”, “Bicha põe rosquinha no seguro.” Calma, não se assuste. Estas são apenas algumas das mais famosas manchetes do infame jornal Notícias Populares, ou simplesmente NP. A publicação foi criada pelo imigrante romeno Jean Mélle em 1963 e lançada ao mercado por meio do Grupo Folha, em São Paulo. O sucesso do jornal Notícias Populares foi tão grande que a repercussão ainda é expressiva, mesmo após à “morte” da publicação. Recentemente, o jornal foi “ressuscitado” para divulgar o filme nacional Faroeste Caboclo. Manchetes como “Treta por rabo de saia termina em tiros” e “Comércio de Maconha fica só o pó” trouxeram de volta o espírito original do velho “espreme que sai sangue”. A edição especial pode ser conferida no website criado exclusivamente para a divulgação do teaser (www.ultimonp.com.br). Os similares atuais bebem da fonte criativa do NP sem o menor pudor. O mais explícito é o jornal carioca Meia Hora. O diário tem feito sucesso nas redes sociais com suas capas provocativas e repletas de trocadilhos infames. “Luana não tem mais ‘Dado’ em casa”, informou a manchete a respeito do rompimento do namoro entre Dado Dolabella e Luana Piovani. “Fátima abandona Bonner e vai fazer programa”, publicou o veículo sobre a saída da jornalista Fátima Bernardes do Jornal Nacional, para ganhar uma atração própria. Estas foram algumas das manchetes de grande sucesso de compartilhamento entre os internautas na rede. Assim como: “Prostituta se recusa a enfiar chuchu na rima e leva surra”. Grandes coberturas de histórias que ficavam na imaginação das pessoas fizeram parte da trajetória do NP. Várias delas, contudo, de veracidade bem discutível. Uma das mais famosas foi o nascimento do bebê diabo, que teria sido concebido em um hospital do ABC paulista. Tal situação rendeu diversas reportagens por vários meses no jornal, com os desdobramentos da suposta vinda do Anticristo. Segundo Márcia Franz do Amaral, “essas histórias inventadas faziam parte do antigo jornalismo popular policial sensacionalista, mas que hoje não teriam mais lugar”.

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CRÔNICA

éramos

nove

Texto de André Zuliani Após ter me formado em teatro na PUC, em um curso de preparação e formação de atores com duração de um ano e meio, ingressei, no segundo semestre de 2009, no curso de jornalismo, por acreditar que ele seria um acalanto à minha frustrada e precoce carreira de jogador de futebol. Sendo assim, minha área escolhida para atuar não seria outra senão o jornalismo futebolístico, afinal, não queria falar sobre peteca ou basquete (Com poucos dias de faculdade, descobri que noventa por cento dos meus colegas, inclusive, para o meu espanto, um número significativo de mulheres, queria trabalhar com futebol). No primeiro dia de aula, fomos informados, pela então coordenadora Lorena Tárcia, que faríamos o segundo período antes do primeiro, pois era parte de um sistema de módulos do UniBH. Para isso, nós, que não formávamos nem um time de futebol, teríamos que nos juntar a vinte e cinco colegas “veteranos”. O pequeno número de calouros, apenas nove, se devia a dois episódios fatídicos: a queda do diploma de jornalismo e a uma recente greve dos professores contra a antiga administração do Centro Universitário de Belo Horizonte. Confesso que não sabia nem da primeira informação, quiçá da segunda. Os docentes conversavam sempre conosco a respeito da não obrigatoriedade do diploma. Lembro até que, a convite da coordenadora, representantes do Sindicato de Jornalistas de Minas Gerais, munidos de panfletos a favor do diploma, foram nos visitar. Quanto à paralisação acadêmica, devido aos atrasos de salários dos funcionários, ela foi resolvida com a venda do Centro Universitário de Belo Horizonte – UniBH, para o grupo Anima. Aula que segue! Ao decorrer do semestre, não era apenas o entrosamento entre os colegas que aumentava, mas as desistências também. Lívia, a única casada, foi a primeira a abandonar. Algum tempo depois, Rafaella mudou para o curso de Direto e, na poeira dela, Jéssica foi fazer jornalismo na PUC. Restamos: Bruno, Vinícius, Guilherme, Israel e Manoela.

Israel, o mais jovem e polêmico, tinha a capacidade irritante de inserir o assunto Hitler/nazismo em qualquer contexto, de teorias da comunicação a fundamentos de multimídia, e concluía com célebre frase: “bacana isso, né, professor?” Guilherme possuía voz grave e imitava, além do Silvio Santos, os narradores da Itatiaia. Mesmo morando na mesma rua da faculdade, era o último a chegar e trazia consigo apenas uma caneta presa à gola da camisa. Certa vez, como de costume, chegou atrasado. Todos estávamos quietos, concentrados e escrevendo. Ele se sentou perto de mim e perguntou: o que tem pra hoje? Respondi: prova de teorias do jornalismo. Ele, na maior tranquilidade, tirou a caneta da gola, passou os olhos na prova, se levantou, entregou a folha em branco e foi fumar um cigarro. “Sabia nada, bicho!”, esclareceu mais tarde. Assim que o outro semestre iniciou, Israel, Bruno, Manoela, Vinícius e eu nos juntamos aos calouros para fazer o primeiro período. Guilherme foi para casa, em Governador Valadares, passar as férias de fim do ano e por lá ficou. Logo no meio do semestre, Israel largou a faculdade (ainda bem) e sabe se lá onde foi citar Hitler. No semestre seguinte, Vinícius mudou para a PUC para fazer psicologia, ao passo que Manoela fazia matérias em períodos diferentes. Seguimos então, regularmente, Bruno e eu. Devido ao rodízio de turmas e períodos a que éramos submetidos, primeiro os pares depois os ímpares, tivemos a oportunidade de conhecer várias pessoas e ser intermediários de algumas amizades entre as salas. Íamos juntos, até que no sétimo período o Bruno decidiu trancar a matrícula. Resumo da ópera. Dos nove que entramos no conturbado ano de 2009 – quando, inclusive, fui coroado com a fratura da mão direita e por isso tive que operar, o que me rendeu mais um semestre na faculdade – eu serei o primeiro e único da turma a me formar em jornalismo, no final desse ano. Mas isso já é assunto de outra crônica, que, por coincidência, está escrita na próxima página.

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CRÔNICA

o que será

que será? Texto de Leilane Stauffer

É curioso perceber como sonhos, etapas e rotinas vêm embalados num pacote de expectativas e, automaticamente, são movidos por elas. É como quando a gente era pequeno e queria muito um brinquedo. Chegava pro pai, pra mãe, pra avó e para quem mais estivesse por perto: "no dia em que eu tiver isso...” e começam os planos, inclusive aquele de ser a pessoa mais feliz do mundo. Quando o brinquedo chegava, a gente não sabia, por alguns instantes, o que fazer com ele ou nem conseguia descrever as impressões. Deve ser mais ou menos assim dizer sobre as sensações de querer se formar e, de fato, formar e ir para o que esperamos ou não encontrar e encantar. É intrigante se dar conta que falar sobre términos nos remete a começos. Com a graduação não poderia ser diferente. Lembro o primeiro dia em que pisei na faculdade que, pelo que tudo indicava, seria o destino das manhãs até o ano de 2013. Curiosamente, esse dia não coincidiu com o primeiro dia de aula para os calouros. Em uma manhã de janeiro de 2010, minha mãe e eu estávamos atravessando a avenida Antônio Carlos para encontrar, na Diamantina 567, o coordenador do curso de Jornalismo, que descia do sexto andar, que nos chamou pelo nome e se apresentou como Luciano. Durante o trajeto, eu tentava imaginar como eram os laboratórios – principalmente o impresso, o de rádio e o de TV –, o tamanho da biblioteca, se haveria algum lugar na vizinhança do prédio que me fizesse lembrar o que eu estava deixando para trás – Freud explica –, se existiria alguém que também não fosse de Belo Horizonte e como seriam as pessoas que dividiriam espaços comigo – Durkheim explica. Tudo isso para dizer que o ciclo de quatro anos na faculdade pode terminar da mesma maneira como começou: cheio de especulações, caminhos e possibilidades. A primeira e mais imediata delas aparece cada vez que um capítulo da monografia é entregue. O despertador, daqui a alguns meses, não tocará tão cedo, às 5h30. As horas de sono, que provavelmente não serão recuperadas por completo, não precisarão ser divididas

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com infinitos trabalhos acadêmicos. De toda forma e independentemente do horário, os dedos continuarão cruzados durante qualquer trajeto pela cidade, para que o ônibus passe menos cheio, o metrô não amanheça em greve e o caos no trânsito esteja controlado. Viver a rotina de uma metrópole, para muitos, continua não sendo fácil. Há também as apostas internas se os amigos feitos no percurso vão encontrar motivos para se encontrar e seguirão juntos. E os devaneios sobre a vida financeira. O dinheiro da mensalidade, do lanche, do xerox, dos trabalhos, do transporte poderão ser investidos em outras serventias – fica a cargo de cada um descobrir quais. A bolsa dos estágios, com expectativas positivas e quase milagrosas, poderá se transformar em um salário que nos dê liberdade de pensar o que fazer com tanto! dinheiro. O investimento em tempo também deverá ser convertido em novas atividades, ou mesmo aquelas básicas que não fazemos como antes: comer com calma, dormir mais cedo, e no caso de nós, garotas, cuidar dignamente do cabelo e das unhas. Junto à euforia de especular as mudanças na vida de retinas ainda não tão fatigadas, algumas dúvidas permanecem. Além do mercado, o que a sociedade espera de uma jornalista, em tempos em que ética e verdade parecem estar escondidas em algum relicário? O que dizer e como dizer com qualidade? Que estilo de escrita assumir? Depois da faculdade, o que e onde mais estudar? Louvável que as dúvidas pairem por um (bom) tempo. O tempo da maturação. Os últimos quatro anos foram materializados em professores, amigos, professores amigos, livros, notícias, trabalhos em grupo, intervalos com direito a badernas e gargalhadas. E, agora, a clichê frase “tão difícil como começar uma fase é encerrar outra” passa a ter vida própria e mais sentido. Enquanto o cronômetro da contagem regressiva aparece na mente acompanhado de confabulações, a faculdade parece ir treinando para me dizer: “pode soltar minha mão e vai. E, por favor, não me decepciona”.


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Revista do Jornal Laboratório do UniBH