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foto: JORGE LOPES

Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo do UniBH Ano 36 • Número 208 • Abril de 2018 • Belo Horizonte • MG


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DOSSIÊ CINEMA

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o que a mostra não mostRA

Guilherme Egydio Pedro H. de Oliveira Regiane Garcia Wallyson Telles São muitos os que gostam de ir às mostras de cinema, seja pelo amor ao diretor, ao produtor, pelo tema, ou pelo preço dos ingressos. O que poucos sabem é como acontece esse processo. Afinal, muitos filmes fazem parte de acervos dos grandes clássicos da Sétima Arte, e raramente são exibidos nas salas de cinema. Mostras como a de Tim Burton, Alfred Hitchcock, Martin Scorsese, entre outros, se tornam eventos não só para críticos e apreciadores, mas para o público à margem desta complexidade. Nesta reportagem, você descobrirá um pouco do que não é mostrado em um mostra de cinema. Na opinião de alguns fãs, as mostras se tornaram uma grande oportunidade de ver filmes de boa qualidade que estão fora do circuito comercial. Para um desses apreciadores, Matheus Bongiovani, há uma sensação de gratidão, já que raramente consegue assistir os filmes exibidos nas mostras

em uma tela grande, principalmente os mais antigos. Embora assíduo nesses eventos, Matheus não conhece o funcionamento de uma mostra. “Tenho vontade de saber mais sobre os bastidores, talvez até participar de alguma etapa desse processo. Seria um sonho”, conta, entusiasmado. Menos frequente, mas também muito interessada nas mostras, Nathalia Fischer faz parte do grupo que aproveita estes eventos para fazer “uma social” e também para ver os clássicos na telona. “Não frequento tanto quanto gostaria, geralmente por falta de companhia, mas me sinto feliz por ver filmes, diretores e estilos que aprecio serem valorizados e relembrados”. A mostra favorita de Nathalia foi Tim Burton e suas Histórias Peculiares. “Gostei muito da programação, não apenas pela seleção dos filmes, mas por oferecer palestras sobre o diretor, seu estilo cinematográfico, os filmes que o influenciaram. Foi uma diferença sensacional em relação a outras mostras”.

Organizadores Como qualquer ou-

tro evento, uma mostra exige mão de obra específica, para ser realizada. Ela pode vir de fanáticos pelo cinema que exercem suas respectivas funções de maneira amadora, ou de profissionais em instituições especializadas que providenciam tais espetáculos. Formado em Jornalismo, mas atuante como idealizador, curador, palestrante e produtor, Marcelo Miranda conhece como poucos a realidade das mostras de cinema no Brasil e sabe exatamente o caminho que uma obra percorre até chegar aos eventos. Para ele, o primeiro passo que um idealizador deve realizar é identificar o que será transmitido para o público. “Mostras de cinemas que acontecem no Cine Humberto Mauro, no Sesc Palladium, no Cine 104, no Cine Santa Tereza possuem recortes muito específicos de diretores, atores, movimentos, países ou épocas. O idealizador é quem vai escolhê-los.” Marcelo compara a mostra de Tim Burton a outra, do cinema americano dos anos 70, através de seus respectivos recortes. Para ele, é essencial delimitar o

que o idealizador deseja mostrar. “No caso do Tim Burton, o curador conseguiu quase todos os filmes, curtas e longas, tanto como diretor quanto produtor. No caso de uma mostra com um recorte muito maior – por exemplo, o cinema americano dos anos 70 –, eu não vou conseguir exibir todos os filmes daquela época, então seleciono os mais sintomáticos, os de maior ou menor sucesso, ou os filmes protagonizados por um determinado ator”, revela. Cada espaço cultural que recebe as mostras trabalha de uma maneira diferente e possui interesses próprios em relação ao tema. Arthur Benfica Senra, do Sesc Palladium, revela que as mostras são realizadas de acordo com o tema do mês e/ou semestre no Sesc. No mês de outubro de 2017, por exemplo, foi realizada a mostra Tim Burton, e, em novembro do mesmo ano, o foco foi a difusão da produção cinematográfica brasileira. Além das temáticas e de grandes cineastas, o Palladium também recebe mostras referentes ao cinema independente. Longe das grandes produções hollywoo-

dianas, o cenário indie se popularizou, de forma definitiva, na última década e conseguiu um grande apreço por críticos culturais, além disso, ganhou espaço em grandes eventos e/ou mostras de relevância no cenário nacional e internacional. Senra é um cineasta e realizador audiovisual, além de curador, programador e júri em festivais e em mostra de cinema. Trabalha como Analista de Serviços Sociais/Cinema, desde 2016, e é um dos grandes responsáveis pela chegada das mostras ao Palladium . A cor do dinheiro Outro fator que influencia no tempo de produção é o financeiro. Em tese, um curador ou idealizador de uma mostra precisa estar ciente do dinheiro que poderá ser gasto. O seguro e os direitos sobre os filmes pesam no balanço final, o que se reflete no tempo de produção. “Uma mostra com uma boa grana, de um cineasta que tem uns vinte filmes, você consegue produzir em três ou quatro meses, contando com uma boa equipe”, garante Miranda. Em mostras oficiais,

não é permitida a exibição de filmes sem os direitos – é necessário contatar a pessoa que detém esse direito. Ou o idealizador paga este valor ou recebe gratuitamente. A questão do seguro depende do formato de exibição: película ou digital. De acordo com Matheus Ferraz – biógrafo pela University of Buckingham e realizador da mostra “As três vidas de Pasolini”, em 2014, “a película é um objeto muito complicado e caro, porque é altamente inflamável, grande, pesada. Além disso, você tem que levar em consideração, que nem todo cinema atualmente possui o equipamento necessário para exibir o filme em película, e pior, uma pessoa qualificada para operar esse equipamento.”. Marcelo, por sua vez, afirma que a digitalização das obras é uma opção para a dificuldade gerada pelos rolos de filme, dada a maior praticidade e viabilidade financeira da tecnologia. “Muitos acervos estão sendo digitalizados para DCP (Digital Cinema Package) ou para BlueRay. Na mostra com obras de Hitchcock, todos os filmes que eram do BFI (British Film Institute), que detêm os direitos sobre os filmes britânicos do diretor, foram digitalizados. Eles já não liberam cópias físicas dos filmes, apenas as digitalizadas, então não se paga seguro. Agora, se você quer exibir a película, tem que bancar o seguro”, aponta Marcelo. As mostras, apesar de toda a dificuldade de produção, possuem grande valor artístico, social e cultural. São espaços propícios para que as obras cinematográficas exerçam seu papel de encantar, chocar e fazer refletir, que lhe é tão característico.


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TIRADENTES: O lugar!

Matheus Bongiovani Ao desembarcar em Tiradentes pela primeira vez, a sensação é de uma viagem no tempo, para o século XIX. Mas bastam alguns minutos na cidade para que esse sentimento de nostalgia, gerado pela beleza do centro histórico, seja substituído por uma grande expectativa. O que ajuda na localização no espaço-tempo é a impressionante estrutura montada para a Mostra de Cinema, e a vida noturna extremamente movimentada. Uma caminhada rápida pelas ruas do município já indica que a quantidade de pessoas vai muito além dos sete mil habitantes regulares. Afinal, durante a realização da tradicional Mostra, Tiradentes se torna o lugar onde todos os profissionais, jornalistas e amantes da sétima arte querem estar. O que atrai toda essa gente para o evento é uma programação extremamente variada, com exibição de filmes, palestras, debates e oficinas. Para os profis-

sionais do audiovisual, trata-se de uma oportunidade inigualável de mostrar seus talentos e conhecer pessoas com interesses em comum. Para o público, é a chance de apreciar obras inovadoras, que não poderiam ser encontradas em outros lugares. Além disso, o evento demonstra preocupação especial com a promoção de reflexão e debate sobre os filmes. Nos “Encontros com os filmes”, realizados no Cine-Teatro Sesi, os realizadores discutem a obra com um crítico convidado e um mediador. Engana-se quem pensa que o evento se limita a elogios formais e apertos de mão; as críticas também podem ser pontuais e contundentes.

A 21ª edição Em 2018, a cerimônia de abertura foi realizada em 19 de janeiro, dia do aniversário de 300 anos da cidade. O destaque foi a homenagem ao ator Babu Santana, mais conhecido por ter interpretado Tim Maia no filme homônimo de 2014. Já no pri-

meiro dia ficou evidente a singularidade do evento, povoado por pessoas que sabem valorizar uma obra audiovisual, a ponto de aplaudir no final das sessões. Ao longo de nove dias, foram exibidas obras relacionadas, de diversas formas, ao tema “Chamado Realista”. Mesmo com linguagens, estéticas e gêneros diferentes, todos os longas e curtas compartilhavam uma característica: retratavam algum aspecto da realidade social brasileira. Em “Baixo Centro”, por exemplo, um dos filmes mais comentados da mostra, o tema central são as conexões humanas e a relação do homem com o espaço, mais especificamente a cidade de Belo Horizonte. Com narrativa experimental, o longa conquistou o Júri da crítica e foi consagrado o vencedor da “Mostra Aurora”. Outro destaque do cinema mineiro foi o curta “A retirada para um coração bruto”, de Marco Antônio Pereira. Trata-se de uma

surpreendente ficção científica, ambientada no interior de Minas, que narra a história de um artista multitalentoso em busca de visibilidade para o seu trabalho. O filme venceu o prêmio do Júri Popular. Chama atenção, também, o pioneirismo da Mostra de Tiradentes na preocupação em dar

visibilidade a grupos minoritários. Um dos filmes mais aplaudidos da edição foi o documentário “Lembro mais dos corvos”. Com linguagem extremamente simples, o cineasta Gustavo Vinagre faz uma interlocução com a atriz transsexual Julia Katharine, que abre seu coração de

forma intensa, relatando alegrias e experiências traumáticas de sua vida. Ao final da experiência, o sentimento que fica é o “gostinho de quero mais”. A única frustração é a impossibilidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, para apreciar a programação de forma plena.

OS AGRACIADOS DE TIRADENTES

Confira os vencedores da 21a. Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada de 19 a 27 de janeiro, em diversos espaços da cidade mineira. Melhor longa - Júri Popular: “Escolas em Luta” (MG), de Eduardo Consonni, Rodrigo T. Marques e Tiago Tambelli Melhor longa - Júri Jovem, da Mostra Olhos Livres: Prêmio Carlos Reichenbach “Inaudito” (SP), de Gregorio Gananian Prêmio Canal Brasil Para Curtas: “Estamos Todos Aqui” (SP), de Chico Santos e Rafael Mellim  

Melhor longa da Mostra Aurora - Júri da Crítica: “Baixo Centro” (MG), de Ewerton Belico e Samuel Marotta. Prêmio Helena Ignez para destaque feminino: Julia Katharine, roteirista e atriz de “Lembro Mais dos Corvos” (SP) Melhor curta - Júri Popular: “A Retirada para um Coração Bruto” (MG), de Marco Antônio Pereira Melhor curta da Mostra Foco - Júri da Crítica:  “Calma” (RJ), de Rafael Simões


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Jéssica Vitorino Matheus Bongiovani Emoção, fascínio, medo, raiva, tristeza e alegria são sentimentos que a sétima arte nos proporciona. Essa magia começou a ser construída pelos irmãos Lumiére, em 1895. Naquele momento, eles não imaginavam que a invenção seria o início de uma das indústrias mais rentáveis do mundo. O cinematógrafo, máquina a manivela que possibilitava a movimentação de imagens, atraiu o público cada vez mais. O interesse popular logo transformou o cinema em negócio. Léon Gaumont – visionário criador da produtora mais antiga do mundo e ainda em atividade, a Gaumont Film Company – viu a possibilidade de lucro e, em pouco tempo, os filmes saíram da França, chegaram aos demais países europeus, alcançaram solos americanos e finalmente conquistaram o mundo. Desde os anos 1920, existe um grande mercado cinematográfico, tanto nacional quanto internacional, possibilitando uma ampla variedade de negociação dos filmes. Antes de entender os detalhes do funcionamento deste mercado, é preciso esclarecer as diferenças entre produção e distribuição, conceitos comumente confundidos por muitos espectadores. “A produtora faz os arranjos e a logística para um filme ser feito. Marca as locações, faz reservas de lugares, cuida da equipe como um todo, capta recursos diversos, etc. A distribuidora ‘entrega’ o filme pronto para os exibidores, faz a negociação com eles e, em grande parte, cuida da divulgação”, explica Letícia Vidal, ex-Assessora Regional de Marketing da Disney,

Processo trabalhoso A distribuição é uma etapa importante, porque só a partir dela o filme vai encontrar seu público. É quase sempre um processo caro e trabalhoso, que envolve muitas etapas, como a produção e transporte de cópias, e consolidação de contratos com as salas de exibição. “Eu cuidava das promoções relacionadas a cada lançamento, das parcerias, publicações na mídia, pré-estreias e até assessoria de imprensa”, esclarece Letícia. Essa etapa é vista como investimento pelos estúdios, afinal, pode ser o grande diferencial para o sucesso ou fracasso de um filme. Uma grande quantia é gasta pela distribuidora com o marketing do filme, após a sua finalização. Em alguns casos, esse custo é superior ao orçamento de produção do filme. No caso das produções independentes – realizadas com baixo orçamento, sem apoio de grandes estúdios os produtores não têm distribuição garantida antes de iniciar a produção e devem buscá -la posteriormente, o que torna essa etapa bastante desafiadora. Todo ano, centenas de boas produções não conseguem chegar ao circuito comercial e não encontram seu público. É neste contexto que se pode entender a importância dos festivais e dos cinemas alternativos, como o Cine Belas Artes e o Cine 104, em Belo Horizonte. Esses espaços são os que mais se esforçam para quebrar o monopólio hollywoodiano, priorizando produções inovadoras e fora do padrão comercial. “O foco do Cine 104 é apresentar ao público um mundo que vai muito além das salas de shopping, proporcionando acesso a filmes mais experimentais

FOTo: Mariane Fernandes

os caminhos do CINEMA até VOCÊ

e nacionais, para formação mesmo”, explica o diretor de programação Gustavo Ruas. Já os grandes filmes internacionais – chamados “blockbusters” – que sempre mobilizam um grande público, não têm problemas para conseguir distribuição. Afinal, são as grandes multinacionais, como Fox, Warner e Disney, que se encarregam disso. Essas empresas, aliás, cresceram tanto ao longo do tempo que passaram a assumir tanto a produção quanto a distribuição das obras. Após serem liberados pelos estúdios, inicia-se a fase de pesquisa de mercado e negociação com os exibidores. Thiago Basílio, diretor de programação do Cine TJ, de Belo Horizonte, explica que nessa etapa são tomadas as decisões sobre as especificidades da exibição que afetam o público diretamente. “É feita uma pesquisa quanto à aceitação do público e de rendas passadas. Se o filme é considerado grande, entra em mais de uma sala, senão, entra em uma sala apenas. O tempo em que permanece em cartaz é determinado pela renda arrecadada”, explica. A partir daí, entra em ação uma série de profissionais locais – desde os vendedores

de pipoca até o projecionista – que viabilizam de fato o acesso do público aos filmes e a toda a experiência de ver um filme no cinema. Além da venda de ingressos, existem muitas outras formas de uma produção cinematográfica gerar lucro para os distribuidores e produtores. Após o pe-

ríodo de exibição nos cinemas, o caminho natural dos filmes – que até alguns anos atrás eram as videolocadoras – são as cópias em BluRay, os canais de TV a cabo e as plataformas de Vídeo On Demand, como a Netflix. Também existe todo um mercado alternativo para quando a imagem

do filme se torna lucrativa, focado na venda de produtos como brinquedos, jogos e roupas. Isso explica o motivo de, muitas vezes, os grandes estúdios darem preferência a remakes e reboots, como no caso dos filmes de super-heróis que, geralmente, são autênticas “galinhas dos ovos de ouro”.

nos Bastidores Ao apagar das luzes, ele entra em cena. Começa o trabalho do projecionista. Ele verifica as instalações das salas, confere a exibição e a relação dos filmes. Também testa áudios e legendas das cópias e, finalmente, aperta o play. Quando o público compra o bilhete para assistir ao filme mais esperado do ano, o projecionista vai assistir a obra pela segunda ou terceira vez. Ao longo do tempo, a profissão sofreu várias alterações. No início, as máquinas eram analógicas e tomavam muito tempo do operador. Esse trabalho manual exigia do projecionista uma atenção especial na hora de testar as cópias. Atualmente, a maioria das cabines conta com equipamentos digitais que facilitam

muito o trabalho do projecionista. A redução do tempo na hora de testar as cópias trouxe para os operadores novas funções. Leonardo Fortinho, projecionista do Cine Cento e Quatro, conta que é responsabilidade dele preparar as salas para dos debates que acontecem depois de cada sessão. Todo esse trabalho e dedicação é recompensado pela companhia dos filmes. Um dia ele pode, sozinho, chorar com o drama mais comentado dos últimos tempos. No outro, pode sentir medo assistindo o filme de terror que acabou de chegar às salas de cinema. Ele, pode também rir com aquela comédia pastelão que vai ocupar a salas pelas próximas quatro semanas.

Para manter a magia da sétima arte, além de uma boa produção, roteiro, trilha sonora, projecionista também não pode faltar. Nos bastidores do cinema, os heróis não usam capas e os momentos de clímax são contornados graças a um trabalho ágil e dedicado dos operadores. As cópias a serem exibidas chegam com antecedência. Entretanto, às vezes, vem com algum defeito e precisam ser substituídas. “Quando dá defeito a gente entra em contato com a distribuidora, para eles enviarem uma nova cópia. Eles mandam com bastante antecedência, salvos algumas exceções quando o filme está em outro cinema e chega meio em cima do laço, daí fica corrido”, explica Leonardo.


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MÃE : um filme (QUEBRA) cabeça FOTO: divulgação

Após uma sessão, repórteres reúnem grupo eclético para discutir o polêmico longa de Darren Aronofski

Bárbara Souza Gabriela Guedes Gabriel Lacerda João Gabriel Batista Até horas atrás, não existia nenhum ponto comum entre as histórias dessas três pessoas. Agora, após duas longas horas mergulhados na incerteza de uma sala escura, e um curto caminho entre o cinema e o ponto de encontro, eles compartilham algo: o incômodo. A livraria era nosso Central Perk, célebre cenário de Friends. Um lugar para conversas

descontraídas e boas reflexões. Mas, diferentemente do seriado, eles não eram amigos, e assim permaneceram. A tensão entre os três era normal, afinal, até mesmo os críticos de cinema, acostumados com as mais variadas linguagens da sétima arte, estranharam a narrativa de Mãe!, filme mais recente de Darren Aronofsky. “É quase impossível assistir a um filme de Aronofsky e não relacionar a história com elementos subliminares”, diz Artur Vinicius, cinéfilo e dono

do canal “Cinema com o Brother”, no YouTube. O longa conta a história de um casal que vive em um casarão no campo. O lugar foi afetado por um incêndio, no passado, e, por isso, a jovem esposa, vivida pela atriz Jennifer Lawrence, passa os dias tentando restaurar a casa. Enquanto isso, o marido, alguns anos mais velho e vivido por Javier Bardem, tenta desesperadamente recuperar a inspiração para voltar a escrever os poemas, que, um dia, o tornaram famoso.

Contudo, os dias pacíficos se transformam em tormenta com a chegada de uma série de visitantes, que transformam a rotina do casal, além de esconder suas verdadeiras intenções. Denso, metafórico, enigmático e nada tradicional, Mãe! despertou reações divergentes em todo o mundo. Enquanto muitos o consideram uma obra-prima, outros o detestam. E ainda há quem julgue que a trama apresenta, de forma desrespeitosa, questões que envolvem o cristianismo.

A experiência reforçou que nossos préconceitos são a base para a interpretação de qualquer situação. Contudo, independentemente da religiosidade, esta é uma experiência que vai além das duas horas de filme. Exige pensamento e reflexão durante um bom tempo.

estaria julgando. Quando ela vê o filho morto, e quer matar quem está pela frente, o que significaria hoje? Val: Fiquei incomodada com a relação do homem com a mulher, e creio que a galera da religião tenha ficado. No mais, as mulheres são ensinadas a ser assim.

A escuridão A sala do cinema estava cheia quando entramos. O filme começa. Jennifer Lawrence abre os olhos em meio ao fogo e dá início àquele que pode ser o filme mais perturbador dos últimos anos. Antes de dez minutos, Gustavo já está totalmente envolvido e inicia uma série de perguntas. “Ela é a casa?”, “Eles estão no inferno?”. Tagarela, dispara questionamentos. Quinze minutos depois, Luciene entra na sala, após uma das cenas mais importantes. Gustavo, que está do seu lado, passa algumas informações sobre a trama. Após algum tempo, é Luciene quem lança uma interpretação surpreendente. Ao ver a casa inundada, ela pergunta: “é um dilúvio?”. Para Artur, é nesse momento que a maioria das pessoas que possuem algum conhecimento bíblico entende a história. Mesmo Luciene, que perdeu o início, foi capaz de fazê-lo. “Mas tudo, claro, depende do repertório da pessoa”, ressalta.

A religião Luciene: O filme é uma afronta. É um absurdo tentar retratar algo sagrado, mas não sei explicar.. Acredito que venha dos ensinamentos que aprendi desde criança. Gustavo:Temos que pensar “o que é sagrado?”, porque o que é para mim, pode não ser para você. Luciene: Da mesma forma que ninguém é obrigado a ler a bíblia, não sou obrigada a alimentar este mercado. Acho errado, ofensivo. Val: O problema é que nossa cultura só vê como afronta aquilo que atinge as igrejas católicas e evangélicas. Outras religiões são constantemente cutucadas e nada acontece, como os Kardecistas.

Primeiro olhar Luciene: O filme representa a Bíblia de outra forma, na qual a mulher é submissa. Infelizmente, são fatos tirados de lá. Não tem como desligar uma coisa da outra. Gustavo: A personagem principal é a sociedade. O pai, Jesus, a

Censura Val: Como artista, acho que a arte tem que causar algo, tem que fazer pensar. Nosso contexto político social é complicado demais. Luciene: Se uma coisa é sagrada para um grupo de pessoas, não cabe a mim ir lá e cutucar. Tem gente que leva tudo ao extremo. Isso é ruim, aliena. Gustavo: Nem sei o motivo do alvoroço em torno dessas exposições e filmes. Durante séculos vivemos expostos a obras desse tipo, afinal, elas devem representar o artista e o que ele pensa. Cabe à pessoa escolher ou não ir vê-las. Mas também é essencial respeitá-las.


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outros papos

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Tem poesia na roupa, Drummond fotos: mia rodrigues

Terra do poeta mineiro, Itabira é palco da obra do estilista Ronaldo Silvestre

Bárbara Souza Gabriela Guedes O pico de Itabirito foi realmente moído e exportado, Drummond. É bem verdade! Além disso, sua pequena Itabira, poeta gauche, tem buscado novas possibilidades para diversificar a economia. Trata-se de um grupo de mulheres que, dotadas de talentos manuais, passaram a produzir roupas para gente importante desse mundo, mundo, vasto mundo. Essa história – bonita como seus versos, Drummond – começou há dez anos, com um itabirano chamado Ronaldo Silvestre. Assim como você, ele produz arte – não com as palavras, mas com as mãos. Depois de vencer, em 2016, um concurso de talentos no Minas Trend – um dos principais eventos de moda na América Latina –, o estilista passou a revelar, nas passarelas, toda a cultura da pequena cidade no Vale do Aço. No ano passado, Ronaldo estrou no desfile principal do evento mineiro, com plumas, pompas e paetês. E acredita, Drummond,

que ele se inspirou no conto “Maio, a perigosa Yara”, de uma grande amiga sua? Isso, mesmo! A musa inspiradora do estilista foi Clarice Lispector. “Ela conheceu as ‘manualidades’ e começou a trabalhar isso. Quis transpor à figura da Yara, justamente, o pensamento das mulheres nordestinas, mineiras e do Brasil inteiro”, esclarece. Com trabalho aprofundado na cultura local, focado no resgate de mulheres que, à margem dos grandes centros, não conseguem adentrar o mercado de trabalho, Ronaldo almeja fazer da cidade mais do que uma fotografia na parede. “Itabira precisa perder o bairrismo de fazer somente para o itabirano. Quero mostrar o valor de nosso artesanato”. Tudo isso, claro, sem perder as raízes características do pequeno município. “Para mim, a moda é como um estilingue: olhar para minhas raízes lá em Itabira e ver minha mãe costurando e minha avó fazendo crochê. Aquelas lembranças sempre se traduziram no meu design, e eu soltei para o mundo”, explica.

Olhar feminino Ronaldo, contudo, não constrói, sozinho, as vitórias-régias e os mistérios da Yara, de Clarice. Para desvendar os segredos do olhar feminino da autora, precisou contar com a ajuda de “operárias do mar”. Ao criar texturas e bordados, o estilista recorreu às mulheres do Instituto Tecendo Itabira, organização sem fins lucrativos que profissionaliza e prepara profissionais, a partir dos 18 anos, para atuação nos mais variados ramos da indústria têxtil. O núcleo se estrutura em dois eixos. O primeiro se refere à capacitação profissional – que oferece qualificação básica em moda, design e artesanato, comunicação, gastronomia e artes. O outro diz respeito à incubadora de negócios para essas áreas. De mãos dadas a elas, o estilista fez da moda um agente de transformação social. E isso não seria uma rima, mas a solução para quem não tinha espaço no mercado de trabalho. “Não podemos ignorar a situação de mulheres carentes, com filhos nos presídios, que sobrevivem, com vontade de

vencer. Salário digno e cestas básicas ajudam muito a melhorar a qualidade de vida. Se a realidade do filho não mudar, pode ser que se transforme a vida de netos, vizinhos”, comenta. O mundo é grande.

Outra verdade. E, nessa de construir um futuro aqui e acolá, as operárias do mar chegaram longe! Imagine só: um vestido de Itabira ser destaque no tapete vermelho, em Hollywood. É chique “no úrtimo”, sô! A modelo Carol Ribeiro, filha de “The Rock”, astro de Velozes e furiosos, usou uma peça feita à mão por elas. Outra modelo, a Isabella Fiorentino, também mostrou a mineirice da roupa por lá. Para aquelas mulheres, foi um orgulho que só. “Quando vê uma celebridade como Isabella Fiorentino vestindo uma roupa feita por ela, a costureira fala assim: ‘Não acredito que fui eu quem fiz’. Vemos, então, o agente de transformação”, conta Ronaldo.

Natureza Construir uma rou-

pa dá muito trabalho, Drummond. E tem uma pedra no meio desse caminho: a natureza. Desde que o mundo é mundo, a moda está ligada ao consumismo, à futilidade e à vaidade. Para sustentar tudo, às vezes, é preciso devastar. “E agora, José?”. O bom, segundo Ronaldo, é que, na moda, tem gente preocupada em preservar nosso principal patrimônio. “No processo orgânico, desconstruí os tecidos”, explica. Por trabalhar com um projeto de desenvolvimento social, pensou: o que é descartado nas indústrias? “Com uma ‘tirazinha’ de jeans, pegamos o passante da calça e bordamos todas as peças. Aí, o produto chega ao mercado com outro olhar, e as pessoas pensam: é passante? É, uai!”, brinca.


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EXERCÍCIO POÉTICO

O VERSO DA PINTURA REPRODUÇÃO

Em exercício interdisciplinar, alunos de “Jornalismo Opinativo e Interpretativo” e “Jornalismo Especializado 2” criam ecfrases, releituras poéticas de obras emblemáticas das artes plásticas; leia nas próximas páginas Diante do fino, os cabelos cobertos escondem o segredo da sedução. Na pele de porcelana, ressalta a boca, um vermelho vivo e atrativo. Os olhos fazem um convite à descoberta. Do que escondem as roupas grandes e largas. Com brincos de pérolas, o toque sutil do sofisticado.

Bianca Lima

Moça singela, inocente e bela, Mal sabia ela que seu olhar era pérola. O brilho inocente da alma de maneira discreta trazia o azul da tranquilidade. Seus lábios rosados evidenciam sua mocidade. Seu turbante afirma sua força. O mistério de uma beleza oculta na singularidade da pele jovial. Sua pintura sublime define um quadro, que realça sua vaidade dourada, transpassando o fundo negro de uma arte sem vida.

Patrícia Luz

Em seu olhar vazio, é possível enxergar diversas faces. A face da alegria, de uma mulher contemplando o fruto que, durante nove meses, esteve em seu ventre germinando. A face da culpa, da gatuna responsável por atravessar o corpo robusto e roubar o coração daquele que, por horas, admira a sua beleza. A face do medo, ao receber a visita da figura misteriosa, que tem seu rosto coberto por um manto tão escuro quanto a noite, e que empunha com firmeza, em sua mão pálida, a navalha que corta o fio da vida entregue por Deus.

Igor Guedes

As dimensões do rosto de uma moça Se transpõem pela tela. Nos convocam à sutil rósea de sua boca, Que, entreaberta, pulsa por palavras, e seu olhar fixo e cativante rumina entregá-las. Feição anônima se torna palpável à luminosidade E a pureza de uma pérola. Que, magnificente e voluptuosa, Harmoniza vestes simples e exótico turbante azul ao refinamento.

Mia Rodrigues

Moça com brinco de pérola (Johannes Vermeer, 1665)

Linda jovem com pele de pêssego e olhos esverdeados Sua cara um pouco assustada é comovente. Mas uma coisa não entendi: será que aquele tom de amarelo faz parte do penteado, ou, no lugar de mostrar o lindo cabelo, o véu foi colocado? Mas, ao final, isso não importa, porque a aparência da menina é amável e graciosa. Seu brinco chama bastante atenção, pois, além de ser perolado, também é muito delicado. O fundo preto realça o contraste dos lábios rosados e também de seu olhar apavorado. Mas de tudo que mostrei nesta imagem O que eu mais gostei Nem foi tanto do seu brinco delicado E sim dos seus lindos olhos esverdeados.

Juliana Marques

Menina, Moça Cheia de desejos ou pouco se preocupando com algum? Mistério e pureza Uma pérola na orelha esquerda Te faz olhar para a direita Carisma, timidez, vulnerabilidade... Escondendo-se, abrindo-se em seus maiores anseios Ela pode te emocionar Te faz desviar o olhar, da direita à esquerda, Sob a luz e a escuridão, sem saber a direção Moça, Mulher Ninguém sabe quem é essa pessoa Talvez seja por isso que se torna o que é Saindo do banho ou simplesmente indo ao baile dançar Filha, irmã, esposa, amiga, companheira, vilã, protagonista Múltiplas em uma imagem, da direita à esquerda Sob incontáveis perspectivas Sem saber a direção Menina? Moça? Mulher? Não sabemos nada sobre essa pessoa Será que ela existiu mesmo? Não nos cabem mais todos esses adjetivos O que se tem certeza é a falta dela Mas ela te faz olhar da direita à esquerda

Márcio Junior


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EXERCÍCIO POÉTICO

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Diante do profundo azul A cidade torna-se pequena De uma forma brilhante Que ilumina a noite serena

Ignorando o murmúrio dos loucos Quando cada um adormeceu Na rotineira melancolia do hospício O cipreste da morte se ergueu

Tantas estrelas soltas E uma estrela presa Que admira a imensidão Em meio a sua tristeza.

Com carvão, movimento e angústia O céu também apareceu E distraiu-se em seus espirais Sem perceber que o sol nasceu

Leonardo Crizóstomo

Entre montanhas sinuosas, um vilarejo pacato. Nele predomina a noite sombria de um céu estrelado, Envolto em ondas de luzes que se entrelaçam naquela paisagem. Eis a simplicidade do lugar, que se contrapõe ao mistério. A torre da catedral contrasta com o tronco seco, O fim e o início da vida cotidiana. Novas raízes se findam sobre o vilarejo, De esperança eterna Entre o céu e a terra prometida, De uma nova vida que está por vir.

Ágatha Dumont

As estrelas, lá em cima, são como os vagalumes aqui embaixo. Ofuscam o brilho da noite, e, num mar de escuridão, sua beleza é o que predomina. Ah, quão belas elas são! Apreciar tal vista é uma das melhores sensações. A alma se faz leve e o corpo quer voar. É viagem infinita, numa espécie de hipnose. Céu estrelado, cintilante, é sinônimo de vida, de silêncio, de calmaria, de essência e de paz. Mas, entre vales e montanhas, surge algo também vistoso. Um lugarejo tímido, diante do horizonte desmedido, se nivela a uma migalha. É morada de gente afável, que observa com mansidão um céu de fulgor.

Gilcélio Lemes

O pintor já não vivia sozinho. Viu que tinha em sua companhia a loucura, loucura esta que o fez se isolar. Assim viviam, ele, a loucura e a tristeza. Somente os três. E em que momento a solidão fica maior? À noite. Isolado, Van Gogh tinha poucos locais para transitar. Tudo o que via do mundo era a partir de sua janela. E, por ela, ele via a noite. Para muitos, era apenas um céu com estrelas comuns, para ele era um espaço com estrelas e luas grandes, que cobria uma vila, onde moravam pessoas. Ou não. Ele não saberia, pois estava preso em seu canto. A partir de sua loucura misturada com a solidão, o pintor se familiarizou com a morte. Morte que era tão seu desejo, que foi a culpada por ele se encontrar em sua cela. O Cipreste, encontrado na obra, é uma árvore comum em cemitérios, local onde o pintor gostaria de estar.

Karina Amélia

E as linhas tímidas da luz Se impondo no meio do breu Acabando com a noite e com o frio Derrubando o império de Morfeu Então as montanhas clamaram seu espaço E o pintor flagelado lhes deu Nas linhas escuras e tortas da noite Embaixo do céu que pensava ser seu E as estrelas, mais tortas que as torres Brilhavam e brilhavam, cada vez mais forte Não se intimidaram com o brilho da lua Nem com o cipreste anunciando a morte Mas e a vila perdida no tempo? De onde surgiram as luzes acesas? Com o sino da igreja batendo às sete E a beata, velhinha, sozinha na mesa? Assim como a rota da orelha cortada A vila fantasma era mais um mistério Seria a vila do amado Gauguin? Ou a rota mais fácil pra casa dos adultérios? E ele a observava por trás do cipreste Da janela do hospício, apreciando a calma Com a dor no peito e a loucura na mente Ou a dor na mente e a loucura na alma?

que se apresenta e, mais uma vez, me faz companhia. A noite que cai, proporcionando beleza em cima das casas de um vilarejo tão simples, mas cheio de capataz.

Na vila fantasma, o bordel ruía Com uma orelha solta e a moça desmaiada E a cidade toda ardia em arruaça Enquanto ninguém via a noite estrelada

Daqui, todos se julgam normais, sem surtos, sem psicopatia, dentro de um mundo que é considerado normal. Mal sabem eles que todos são da mesma espécie, alguns avançados, outros, como eu, testemunhas de um quarto escuro e repleto de vultos revezando apenas em um local.

Well Mendes

Os bolsões de trevas pairam sobre a cidade Imersas na escuridão, as estrelas se explodem em claridade As distorções sugerem uma possível alucinação Ou talvez isso não sugira nada mais que a voracidade de sua solidão Os tons frios contornam os prédios que parecem vazios Ainda que algumas luzes indiquem famílias com esposas e filhos Uma cidade pacata onde o vento é o que mais a cala Uma relativa paz é o que acalenta de mãos dadas Com a escuridão e sua imensidão Posso até imaginar o vento cantando do lado de fora a fim de me ninar Ao som dos passos vagos e dos grilos, me perco no céu de giros De onde as trevas emergem, e de onde a lua encandece

Arthur Scafutto

Ora! Testemunhas, testemunhas de um mundo que termina em círculos, sejam eles de nossa própria vida, ou de nossa própria vontade!

Bruno Braga

Uma mistura de azuis se perdiam como ondas do mar. Estrelas pulsantes se espalhavam junto às ondas. A lua destacava se apoderando das feições do sol. Notavelmente um caos celestial perpetuava em sua mente. Em paralelo, a tranquilidade do vilarejo se contrapunha ao celestial. As casas pequenas e simples, em trabalho, com suas luzes acesas. Não observavam o cosmos acima de si. Entre caos e tranquilidade, um ponto de escape, Uma árvore colossal! Seria uma forma de mutuar entre as duas dimensões? O que se passava em sua mente naquela noite estrelada?

Olho o fim do dia, visto de uma testemunha janela,

Onde brilham as luzes,

Thais Castro


REPRODUÇÃO

EXERCÍCIO POÉTICO no olhar de quem as contempla A cor do céu mescla com a da cidade e, daqui, admiro com vaidade Todavia, o tom fúnebre chama minha atenção Algo triste, algo que, não sei por qual razão, traz angústia a meu coração Aprecio o sombrio junto ao silêncio A noite chega e traz a calmaria de uma vila adormecida As estrelas perdem o lugar para a total escuridão O lado escuro de um coração que só consegue, daqui, contemplar Quem sabe um dia, porventura, conseguirei estar lá.

Isa Cunha

A noite estrelada (Vincent Van Gogh, 1889)

Aquela mente se esvai. Onde pinto minh’alma, A calma das estrelas é ainda mais. De um lado um vilarejo, E suas luzes que me trazem paz. Do outro lado, um lampejo, Da esperança de dias reais... Aquela noite, aquelas estrelas, E a certeza de que tudo se desfaz.

Ana Rodrigues

Em uma noite iluminada Iluminam-se os pensamentos mais sombrios As estrelas brilham e alumbram as mentes pecaminosas julgadas por uma sociedade que beira o desatino A loucura deste povo cruel, que em meio ao reluzir do céu estrelado Mantém a mesma áurea preconceituosa, que conjectura os que pensam, ou os que se atrevam a pensar. Mas eles são sórdidos, movidos pela invídia, pela inveja E nenhum moribundo tem a mente mais brilhante que o pecador Pois o pecante tem a mente iluminada pela noite, pelo brilho das estrelas E a noite é do pecado, a noite é do pecante O escuro das trevas nada mais é que o caminho para o paraíso do fulgente E as estrelas no céu são os anjos do pecado

Victor Paixão

O brilho das estrelas perdura

iii

Abril de 2018 Jornal Impressão

Foi um pouco antes do entardecer, como já lhe era de costume, que ao seu quarto, no hospício, ele retornou. Resolveu, naquele dia, já entediado pela solidão, dar uma chance ao anoitecer. Na janela, aguardou, angustiado, o escurecer. No decorrer da espera, ficou a preparar sua tela, com tinta a óleo e pinceis em mãos, ele ainda aguardava o calar do sol. A noite então brilhou; ainda que turbulenta, era bem diferente das demais. A angústia, o tédio ou a solidão, por mais que estivessem ali, já não lhe trasbordavam mais. Da janela desse hospício, em uma tela, com pinceis enlouquecidos, com pinceladas em espirais, o céu, em um azul profundo, foi ganhando a mais bela forma. Como enfeites reluzentes de natal, pontos de luz visto de baixo lhe pareciam estrelas e faziam pulsar o coração. Toda a euforia do escurecer lhe mostrou a lua, que iluminava a vila lá embaixo. A tal vila resgatou-lhe, talvez, a infância. Que da torre mais alta, era possível ver. Sua mente, por vezes perturbada, não o fez, mais uma vez, cortar parte de seu corpo. Nessa noite, o cipreste que enfeitava a morte, balançado pelo vento, naquele momento, trazia para o artista, apenas, toda a sua fluidez.

Pâmela Andrade

Da janela do quarto observa- se um vilarejo reluzente, iluminado pelas estrelas e por todo charme da lua. Domina a mente um reflexo de sensibilidade em um azul infinito. Luzes cercam e deslumbram meus olhos, para que um dia eu possa vê-las mais de perto, distante de quatro paredes tão solitárias. Ao seu redor, a paisagem, com a presença marcante de montanhas e um grande pinheiro. As casas são românticas e iluminadas, a noite é minha única e melhor companhia. Contento-me em saber que um dia serei parte desta noite. Quem sabe como uma estrela que brilha? Poderei ver de tão perto, ao ponto de me sentir como uma dessas luzes nesse imenso azul. Tendo o prazer de todas as noites presenciar uma nova pintura sendo feita.

Hamilton Henrique

Mais um escurecer em meio à vasta mata,

o vento impetuoso rompe o silêncio de uma vila praticamente adormecida. O céu azul encontra a monotonia de uma noite iluminada. Amanhã, um novo começo, as estrelas carregam em si a esperança de uma imensidão de sonhos fora dali.

Mariana Monteiro

A noite estrelada e o tempo estão presentes... E o que Van Gogh, em uma janela de hospício, poderia observar além de uma linda noite estrelada? Observa a vida! Pensamentos longínquos que apenas a noite pode testemunhar. Pensamentos sem razão, pensamentos íntimos, pensamentos loucos. A loucura é diferente da razão, ela nos traz a realidade infeliz, as noites sombrias, sem estrelas brilhantes. Só o amor e a emoção farão desta noite estrelada a noite perfeita para um pestanejar... Movimento tranquilo, sem maiores pretensões que levará a observar, observar a melhor noite Talvez a única que possa entender o que se passa em nossas mentes, em nossos corações... Pouco importa a loucura de cada um, o que importa mesmo é a vista da janela de uma noite magnifica de estrelas, que a lua também concorda em abrilhantar.

Renata Rodrigues

Uma noite turbulenta. Estrelas ainda à vista, o sol está querendo brotar. Ventos em uma só direção, assim como a vida: Nascemos, vamos vivendo, envelhecemos e morremos. Solidão em movimento. Uma vila quieta ao fundo, movimento em seu entorno. Será que é uma miragem? Avisto luzes, mas será que é um conforto a solidão? Uma tristeza. Céu em movimento! Movimento da arvore, do mato... Quanto vento. Nasci, vivi, envelheci. Um quadro de prenúncio de morte?

Breno Ribeiro

O que vejo é uma obscuridade, que é esta colina. E um céu repleto de astros que parecem ter a obrigação de iluminar. É como ver o obscuro penetrado pela imensurável lua. E esta, por sua vez, é para a cidade durante a noite o que o sol é durante o dia. É possível sentir, também, o quanto algo grande é sempre mais expressivo do que algo colorido. A uma imagem que vi foi a torre obscura e negra. E lá embaixo existem cores. É sentir o vazio fúnebre, e ter maior visão do que uma cidade lotada de almas felizes. E, no fim, perceber que a noite é tão enigmática, misteriosa e capaz de mexer com o intocável e de revelar as mais belas artes. Tanto no quesito de inspirar quanto de expressar.

Rejane Paixão


EXERCÍCIO POÉTICO REPRODUÇÃO

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Abril de 2018 Jornal Impressão

A geometria que se desfaz na perda Cheia de forma, pórem tão cinza Ela parece aquilo que a gente herda Como é mesmo que se chama? Lembrei: se chama guerra! Com a guerra eu traço a morte Traço o gado, a luz, o homem, a espada e faço a arte Pinto o espanto e o desespero Pois, daqui, ouço o choro de uma mãe Que com o filho em seus braços torna-se Pietà

Erica Rodrigues

A dor que consome o corpo, afeta a alma, Ensurdece os ouvidos e cala a boca. Perplexos, vimos tudo acontecer, nem nada se pode fazer. No silêncio da humanidade, se esconde a falta de coragem. A lágrima escondida grita por justiça. Até quando, homens, ireis exterminar uns aos outros? O amor ao próximo morre pela ganância! Famílias dilaceradas, sem pai, sem mãe, sem rosto; Amores desfeitos pela ausência de retorno; Gritos tentam expressar um sentimento inexprimível! Guernica, guerra infinita que consome os pequenos. Guerra que explica a barbárie, Barbárie que denomina abominação, Abominação que exprime o sentimento, Sentimento que reflete a crueldade humana. Humanos, será que somos? Essência, será que temos? Compaixão, onde foi parar?

Lucélia Ribeiro

Vidas e almas despedaçadas pelo chão Ruas melancólicas choram mais que seus andantes Pedaços de desejos deixados ao léu Relembrando memória de júbilos vividos de antes Animais se fundem com humanos Buscamos por luz, mas onde encontrar o fim do labirinto? Gritos, lamentos, lágrimas de mães e bebês Não paro de indagar, não importa mais o que sinto Notícias tristonhas caligrafadas com sangue Corpo lançados como um traste descartável Sistema injusto e cruel, pautado pela guerra Luta de ambições e um desejo não afável Homens em busca de poderes Fazem de seus semelhantes Nada menos que míseros seres

Marcio Cotta

Em meio ao transtorno diário, A moça inconsolável no calvário Segura, firme, seu bebê imaginário. Entre demônios de cauda flamejante Pessoas se olham de forma intrigante, A esperança cada vez mais distante. Nem mesmo as luzes que brilham, E brilham de forma repetida, Trazem a paz que lhes era prometida.

Gustavo Barros

Guernica (Pablo Picasso, 1937)

Esbravejam aos quatro cantos: ódio e egoísmo como uma terapia Mas, ora, que terapia é essa?! Que não traz cura, mas mortes e agonia? Um povo assustado, ao céu clama por um agrado Se fosse para apostar, imagino que rogaram por paz e alegria Ah, ingênuos! Mal sabiam que, ali do alto, nenhum alívio viria Afinal, naquela época, nem Deus era capaz de conter O exército estava pronto para a guerra, e sem nada a Temer Pareciam até prever o futuro, em um paraíso do outro lado da Oceania Quando tropas invadiam comunidades e traziam ao povo agonia Ora, mas prever o futuro não é coisa real! Seria, então, o presente uma cópia do nazismo mortal? Olha, isso é exagero: as tropas de Hitler são, para a humanidade, o maior desespero! Cidades foram devastadas, vidas arrebatadas Crenças eram combatidas e preconceitos disseminados Por que, então, a comparação? Uma dica: estudar é caminho para - nas entrelinhas - entender Que, pouco a pouco, o diferente começou a desaparecer Enquanto isso, como passes de lebre, as tropas avançam com a destruição E, na boca dos generais, o fuzil inimigo da compaixão Covardes! Ainda se se apresentarem como pessoas de bom coração Ora, na minha terra, isso é falta de respeito e educação Ah, mas, que raio é esse de educação? Sem medo, respondo: Um clamor preso, há anos, no olhar da multidão!

Simon Nascimento

Medo, desespero, ódio e perseguição Aquele terror das trevas de todas as noites Bastava escurecer e ele insistia em aparecer Tirando minha paz e meu sossego Com ele, vinha o peso da maldição Disseminando ódio e contendas Fazendo guerras no meu lar, no meu coração Paz era o que eu pedia, Implorava e insistia. Lutarei até o fim Viver em paz é o que quero pra mim.

Daniela Gonçalves

E, numa noite estranha, um tumulto começou Gritos eram ouvidos, muitos eram os gemidos Todo mundo querendo algo e nada de vir um fidalgo Que pudesse ajudar o povo desolado Nada de harmonia, muita confusão Nada de cor e amor, muitos gritos de dor Nada de luz no meio da multidão Que buscava a paz para acalmar o coração O mundo estava louco, um conflito atrás do outro Gente pisando em gente, gente como a gente Gente buscando paz, e outras coisas mais Gente querendo viver, de um jeito que a gente entende Gente querendo dignidade, gente querendo igualdade Porque é isso que a gente merece, além de paz e felicidade.

Isabela Costa

Em um mundo insano, as almas gritam Gritam para aliviar uma dura rotina Gritam por deixar sua vida de lado Gritam por não poderem viver como sonharam Almas perdidas em si Perdidas nos sonhos alheios Perdidas em pleno capitalismo Perdidas por terem que realizar sonhos e anseios dos outros Querem afastar seus monstros Querem afastar seus medos Esquecer os problemas que sempre os rodeiam Querem poder, mas só têm tristezas e decepções E, cada vez mais, os gritos tendem a sair Para aliviar aquilo que não tem solução

Danny Ellen


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TRAMAS CONTEMPORÂNEAS

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CRUELMENTE BELO! Foto: Jorge Lopes

É possível aprofundar as conexões por meio de redes sociais? tagens chamou atenção da Editora Globo, que se interessou em publicar o livro. “A TCD não era só um número imenso de pessoas que acompanhavam as redes e liam os textos, era também porta-voz de uma geração que sente necessidade de ser compreendida. Às vezes somos essa ponte, esse caminho”, explica Igor. Intitulado com o mesmo nome da marca, o livro da TCD foi lançado em 2017, atingiu os mais vendidos da Livraria Saraiva e segue esgotando exemplares em livrarias.

Vitória Ohana “Relações pedem conexão e não o contrário”, diz um dos textos da TCD, abreviação para Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente. E foi com esse intuito que surgiu a página. Criada em abril de 2016, no Facebook, a TCD desafia a efemeridade das redes sociais e busca estabelecer relações mais profundas

entre textos e leitores. Em menos de um ano, milhares de pessoas já compartilhavam os textos e marcavam outras pessoas nas publicações, resultando nos números atuais. Atualmente, a marca conta com mais de 1 milhão de seguidores somente na fanpage, e outros milhares espalhados por outras redes, como Twitter, Instagram e YouTube.

Em entrevista, Igor Pires, escritor e fundador da página, explica o motivo da criação. “A ideia surgiu de um impasse: o Facebook é realmente uma rede social superficial? Queríamos colocar à prova a ideia de que não conseguiríamos atingir as pessoas com nossos textos”, conta. Redes sociais parecem não ser o lugar ideal para textos longos, profundos e que lidem com as dificuldades dos relacionamentos humanos, porém, essa foi justamente a surpresa que o coletivo literário teve. “O objetivo, hoje, é fazer com que as pessoas desmitifiquem a visão de que a literatura está apenas nos livros e oráculos da língua portuguesa; que ela pode habitar outros espaços, vestir outras formas e atingir outro público, de jovens leitores, por exemplo”, diz Igor. Atualmente, a TCD conta com mais de 1 milhão de seguidores somente na fanpage, e outros milhares espalhados por outras redes, como Twitter, Instagram e YouTube.

Apesar de ter sido inicialmente desenvolvida para as plataformas sociais, os Textos cruéis foram parar também nas livrarias.

Eu não vou me desculpar por sentir tudo à flor da pele, quando relações pedem conexão e não o contrário. que se desculpe você, que passou por mim e não se lembra o gosto do meu nome. O sucesso das pos-

Processo de criação Mais de dez revisões foram feitas até que a edição estivesse pronta, processo difícil para o jovem escritor, único responsável por produzir os inéditos que chegaram às mãos do público. A inspiração, diz ele, provém de um trabalho duro de pesquisas, leituras e referências. “Inspiração é o de menos quando encaro a escrita como parte de mim e do meu trabalho. É minha função”, relata. E ele não esperava que essa função pudesse alcançar tantas pessoas. No Twitter, por exem-

plo, cada postagem de 280 caracteres tem a média de 10 mil interações entre curtidas e compartilhamentos. Apesar dos bons números, essa não é a única preocupação da página. Paralelamente com o canal principal no Facebook, os administradores possuem um grupo privado na plataforma, cujo objetivo é que o público interaja entre si e compartilhe sentimentos e situações. Nesse espaço, os usuários podem oferecer ajuda e serem ajudados. Transformar-se em uma ponte entre outros escritores e os leitores também é uma das propostas da TCD. Ao usar a hashtag #vocênaTCD, os usuários podem ter suas publicações divulgadas na página principal, tornando o público coprodutor de conteúdo.   Despir a alma é como Igor define o escrever e o publicar. O autor adianta que a marca deve ter outro livro nas prateleiras até o fim do ano. Enquanto isso, os leitores podem acompanhar a fanpage, repleta de textos inéditos. E todos os dias.

DA WEB PARA AS LIVRARIAS Sucessos da web transformados em livros não são história exclusiva da Textos Cruéis Demais. O coletivo Indiretas do Bem ganhou notoriedade pelas frases curtas e positivas no Facebook. A marca hoje possui uma loja virtual e produz capas de almofadas, capinhas de telefone e livros reunindo as famosas frases. João Doedelein, conhecido como @akapoeta nas redes sociais, começou a divulgar o projeto Ressignificados em seu

Instagram. A ideia consiste em das novos significados a palavras já existentes, sempre com um toque de poesia. O projeto ultrapassou as fronteiras virtuais e se transformou no Livro dos Ressignificados. O mesmo aconteceu com o escritor Zack Magiezi, após grande sucesso nas redes sociais com as postagens da série Notas Sobre Ela, o livro de mesmo título revela escritos inéditos do autor sobre as particularidades femininas.


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OUTROS PAPOS

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PASSADO E PRESENTE, LAERTE foto: DivulgaCão

Em entrevista exclusiva, cartunista fala sobre a importância de deixar para trás grilos e personagens

Bê Franco Mariane Fernandes Stephanie Morgana Depois de décadas de trabalho, a cartunista Laerte Coutinho ainda se mantém presente por meio de sua arte, porém, dessa vez, com temática ainda mais forte e polêmica. Além da Folha de S.Paulo, passou pelas revistas Gazeta e Placar, lançou a saga Piratas do Tietê e virou tema do documentário Laerte-se. Nesta entrevista, a cartunista conversa sobre arte, política e sexualidade. IMPRESSÃO– Você trabalha com quadrinhos, e se tornou uma das mais influentes e reconhecidas artistas do país. Tem surgido muita gente com ideias boas? Laerte – Sim, o tempo todo. Não consigo muito enxergar uma fronteira delimitando

cada geração. Tem muita gente aparecendo, e muitas mulheres produzindo quadrinhos. As pessoas estão usando uma mídia meio “solvente”, a internet. Acho que isso estabelece uma diferença em relação aos tempos de papel impresso. Das parcerias com outros artistas, quais as mais marcantes, aquelas que tenham lhe influenciado na própria carreira? Parcerias, não tive tantas, mas acho que o Angeli e o Glauco foram as mais significativas. Quadrinistas são pessoas meio solitárias pra trabalhar. Já influências, tive e tenho milhares! Muitos fãs pedem a volta dos Piratas do Tietê. Você, porém, já destacou que as personagens devem ficar no passado. Em sua visão, quais seriam as relações daquelas

personagens com as temáticas da atualidade? Não faço ideia. De fato, deixei as personagens de lado. Aliás, fiz isso, justamente, por causa do problema implícito na sua pergunta: como criadora, me sen-

tia “a serviço” de criaturas que tinha imaginado. Não era um papel que me agradasse… Você costuma expressar pensamentos políticos – principalmente, nas redes sociais – e deixa visível

seu ponto de vista sobre o Brasil. Como alguém que enfrentou os anos de chumbo, de que modo enxerga artistas que, mesmo tendo vivido o período da ditadura militar, têm, hoje, uma visão completamente diferente da sua? Não estou a fim de julgar o pensamento político dos outros – mesmo que o faça, aqui e ali. Na época mais dura da ditadura “anterior”, até o meio dos anos 1970, não existia outra posição que não a de ser oposição ao governo e fazer de tudo pela volta da democracia. A evolução dos fatos veio trazer mais complexidade à cena. As coisas não eram mais preto-no -branco, novas posições se tornaram visíveis. O que se passa hoje no Brasil pode ser visto de muitas maneiras e gera análises bem diferentes – a muitas das quais me oponho. Você já se aven-

turou pela televisão, ao escrever roteiros. Como foi tal experiência? Sente-se confortável nesse meio? Pretende voltar? Foi muito importante e me fez crescer bastante, mas acho que a linguagem onde me sinto mais segura ainda é a do desenho e dos quadrinhos. De certa maneira, arrepende-se por não ter se assumido como transgênero em outros tempos, talvez por receio do conservadorismo que imperava à época – e ainda impera – na sociedade?  De qual “certa maneira” poderia me arrepender? Eu não fazia ideia de que se tratava de algo possível para mim! Ou, pra ser sincera, para qualquer pessoa. Também fui muito conservadora – além de não ter tido coragem para aceitar meu próprio desejo.


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OUTROS PAPOS

nas, e de modo superficial, as repercussões nas redes sociais do que acontecia. Achei interessante. Não sei dizer se as questões espelham as da vida das pessoas com fidelidade ou não. Soube que a Gloria Perez fez um bom trabalho de escuta e pesquisa antes de escrever. Antes de tomar a decisão de se assumir como transgêne-

ro, avaliou se haveria prejuízos em sua carreira de cartunista, devido, justamente, aos tabus e preconceitos sociais? Sim. Não foi nada tão planejado, mas sabia que corria um risco bem limitado ao me expor publicamente. A verdade é que já me sentia bastante segura do que fazia, graças a pessoas que me acompanhavam e com quem convivia –

gente da família, gente dos afetos. Acreditamos que a relação com seus filhos, no que diz respeito à aceitação pela orientação sexual, seja tranquila. Mas, e com seus netos, como é a relação? Meus netos são tão abertos ao entendimento quanto meus filhos. A seu devido tempo, eles vão compreendendo o

que é preciso compreender, sem nenhum impacto. Nas diversas entrevistas publicadas a seu respeito, percebemos que, ao longo do tempo, você já se considerou um homem que se veste de mulher, e, em outras, que é bissexual. Afinal, como definiria hoje a sua orientação sexual?

Acho que nunca me considerei um “homem que se veste de mulher”. Já falei isso? Não me lembro de ter falado. Lembro que falaram isso de mim, mas não concordei. Não sei...Às vezes, sou meio confusa. Minha orientação sexual... Puxa! O que importa agora? Sou bissexual, mas de que nos servem, hoje, essas palavras – homossexual, heterossexual, bissexual –, a não ser como marco identitário nos movimentos com que nos expressamos? Pessoalmente, acho que outros termos têm mais cabimento, quando se trata de qualificar o desejo – termos que não tragam embutido o julgamento normalizador sobre relações sexuais entre pessoas. Quando dizemos que alguém é heterossexual, estamos declarando algo sobre um ato sexual entre essa pessoa e outra – é quase inevitável trazer a questão para o campo moral. Outros termos podem tentar definir a atração que a pessoa sente: se é por homens, por mulheres, por ambas ou por nenhuma. Isso nos desobriga de considerar o sexo genital ou o gênero de quem estamos falando. fotos: reprodução

Como avalia o tratamento das questões de gênero pela maior emissora de TV do país, a Rede Globo, em suas novelas, minisséries etc.? Baseado em sua experiência, os dilemas interpretados por atores ou atrizes são semelhantes aos da vida, digamos, “real”? Não tenho muito o que dizer. Não acompanhei essas novelas; ape-

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Depois de criar inúmeras capas de revista, Laerte tornou-se, ela própria, tema das publicações, a partir do momento em que se afirmou como mulher transgênero


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Você já LEU ?

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pÁGINA INFELIZ DA HISTÓRIa Livro sobre sobreviventes de estupro no Haiti denuncia abusos sexuais praticados por militares na ocupação da ONU Thiago Fonseca Aquilo que resta de nós nos faz pensar sobre a impunidade. Sobre a raiva também. É forte e pesado. O livro já te prende logo pela capa impactante, pés descalços, sujos, acompanhados da frase: “Um pedido de socorro de haitianas estupradas por soldados da ONU”. As histórias são frutos da viagem do correspondente da agência de notícias russa Sputnik News, o brasileiro Igor Patrick, na cobertura do fim da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti, a Minustah.  Após descobrir escândalos de estupro e abuso sexual, implicando os soldados da missão desde 2007, Igor decidiu investigar o assunto, dar nome, rosto às histórias, ao sofrimento que não entra em números oficiais e acabou encontrando quatro mulheres: Régine, Martine, Fabiana e Jacquendia. Todas sobreviventes do estupro. A ideia inicial era fazer uma reportagem, mas Patrick ficou tão impressionado e tocado pelas histórias que as transformou em livro. O trabalho de sete meses foi divulgado em 148 páginas, escritas em 10 dias.  Além dos depoimentos das haitianas estupradas, “Aquilo que resta de nós” traz entrevistas com especialistas, defensores dos Direitos Humanos e ativistas de organizações internacionais. Os casos de estupro são relatados com detalhes. Igor mostra o que restou das mulheres após à violência sofrida. Um sofrimento sem fim para a sobrevivência ao ato abusivo e cruel.  A primeira história apresentada é a de Mar-

tine Gestimé. Em 2007 conhece um soldado brasileiro. Atraída para a base militar nacional com a promessa de um pacote de biscoitos, para saciar a fome, é estuprada lá dentro. Do crime, nasce Ashford. A haitiana é obrigada a sair de casa. Nunca mais teve nenhuma relação sexual e nem namorou ninguém. Ainda tem pesadelos do dia que foi estuprada. O abusador nunca foi encontrado e nada sofreu.

Crescer nessa favela é dividir o terreno com porcos e cachorros, que chafurdam o lixo a céu aberto em busca das poucas sobras deixadas por dezenas de milhares de famílias que lutam contra todas as adversidades na mais absoluta miséria” Do Nigeriano Samuel Jacquendia só carrega raiva e uma filha. Foi abusada em 2009 na base militar quando ia buscar doações para a igreja. Sua família nunca aceitou o caso e cogitou no casamento da jovem com o estuprador. Mas nada se concretizou. Jacquendia sabe nome, telefone e tem uma foto do abusador. Mas para a justiça, não há provas suficientes que o condene. Viu sua filha diante da imagem do pai dizer que o amava. Nunca vai perdoá-lo e nem a justiça. A terceira personagem é Régine Nelson. Muito vaidosa e sonhadora, queria estudar. O desejo foi interrompido em dezembro de 2013, quando foi abusada por um soldado Africano, cujo país nem sabe. Tudo aconteceu quando ela aceitou a fazer um programa com soldado,

mas na hora desistiu. Não foi suficiente e Régine foi estuprada. Hoje, vende o corpo para sustentar a filha Raudrey. Nunca esqueceu o abuso e nem perdoa a impunidade do africano. Izafana Désilus tem oito anos e não existe. Fruto do estupro de um soldado jordaniano a filha de Fabiana Désilus nasceu no final de 2009 e não foi registrada. A mãe foi abusada, assim como as outras, dentro da base da Minustah. Pela filha, seria capaz de perdoar o agressor, que não tem nem ideia do paradeiro. Hoje vive em um barraco simples com a ajuda da irmã e sonha por um futuro melhor para a filha.  As histórias são de mulheres diferentes, mas que se assemelham na forma, na crueldade e na impunidade. Toda a história de sofrimento Igor contextualiza o leitor através de fatos e dados, os motivos que levaram ao país as forças de paz. Apresenta os costumes e tradições de um povo sofrido, sem perspectiva, que luta pela sobrevivência diária. Igor procurou a justiça para tentar ajudar as quatro mulheres e outras. Ainda expõe as respostas obtidas pela ONU e pelos países citados. “Aquilo que resta de nós” também conta com gráficos e tabelas sobre o número de abusos e o desfecho de alguns casos.  Ao começar a ler os relatos o primeiro pensamento é: Como nunca ouvi falar desses casos? A lembrança que tenho do Haiti é das inúmeras tragédias que assolam o país, das tropas brasileiras escoltando a nossa seleção que fez um jogo histórico por lá, do quão os haitianos dependem das ações humanitárias de entidades como a

ONU e de pessoas como a brasileira Zilda Arns que morreu justamente em um terremoto no país. A tristeza que tomou conta de Igor durante a produção do livro é compartilhada com o leitor, para que ele possa refletir não apenas sobre o Haiti, mas também sobre os milhões de mulheres vítimas da violência sexual em todo o mundo. O livro escancara um lado sujo do patriarcado, alimentado pela misoginia entranhada, que não possui gentílicos ou bandeira.  Os casos de abusos deixam interrogações que, sabemos, nunca serão respondidas. Por que um pacificador

seria capaz de se aproveitar de difícil situação para estuprar alguém? Quantas vozes foram silenciadas e não figuram no livro? Quais outras não aceitaram a comida trocada como justificativa para a penetração forçada? Que medidas os países vão tomar para punir os suspeitos? Ao chegar ao fim da história, o leitor precisa de tempo para digerir o que foi contado. Me pe-

guei virando as páginas devagar, esperando angustiado que ao menos um capítulo terminasse com o final feliz, que nunca chegava. A vida real, é claro, é bem diferente dos contos de fadas ou da Disney. Ela exige esquecimento, segredo. Exige amar uma criança produto de umas das maiores violências que uma pessoa pode sofrer: o estupro.

Ficha Técnica Título: Aquilo que resta de nós Autor: Igor Patrick Lançamento: 2017 Editora: Páginas N. de páginas: 148


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Você já viu?

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O CINE NACIONAL RESPIRA! Tainá Silveira Sou suspeita para falar deste filme. Afinal de contas, dizem que “melancolia” é quase meu nome do meio. Isso mesmo que você leu: apesar dos atores principais, conhecidos por sua atuação no humor, Entre abelhas não é uma comédia. Nascido de uma parceria entre o diretor e roteirista do “Porta dos Fundos”, Ian SBF, e o roteirista e ator Fábio Porchat, o filme pode pegar vários fãs de surpresa. Não se engane: o longa não promete gargalhadas. Trata-se de um drama. Depois de se divorciar da esposa, Bruno (Fábio Porchat) entra em uma senhora bad. Ele volta a morar com a mãe (Irene Ravache), excessivamente protetora, mas não se conforma com a separação. Em meio ao sentimento de vazio, que se mantém constante no filme, Bruno começa a esbarrar em pessoas que não vê, a entrar em ônibus que param e ninguém

desce e até cai no chão do metrô depois de tropeçar com o nada. É aí que ele percebe que parou de enxergar as pessoas que ao seu redor. A fotografia de Alexandre Ramos é linda. Toda em tons de azul, cinza, preto e branco; se encaixando com a direção de arte e figurino, que pintam alguns tons de vermelho e marrom. Lembram o visual de outros longas como Ela (2013), A origem (2010) e O brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004). A estética do filme combina harmonicamente com o tom melancólico do roteiro, que também ganha densidade com a trilha sonora exclusivamente instrumental. O filme começa leve e meio bobo, mas à medida que Bruno se vê mais afundado na sua incapacidade de enxergar pessoas, a história ganha densidade. Apesar de não ser narrado em primeira pessoa, o roteiro e a filmagem nos faz mergulhar na

FOTOS: reprodução

Com equipe e elenco recheados de comediantes, Entre abelhas é um filme melancólico

cabeça de Bruno. Na maior parte das vezes, a cidade pelos olhos do personagem: vazia e cinza. A produção investe em dois principais planos de filmagem: os focados no rosto de Porchat e os planos gerais que mostram a cidade sem uma alma viva na rua. Os cortes são secos e simples, sem efeitos de transição. As transições de cenas ficam por conta de planos sequência ou câmeras sob uma grua. Um estilo que eu particularmente gosto. Não contem para ninguém, mas... Eu odeio efeitos de transição!

Comédia e drama As atuações de Porchat e Ravache são ótimas juntas e separadas. A relação construída entre Bruno e a mãe, que é a única pessoa próxima que sabe do problema do personagem, é de extrema importância. Uma das cenas mais impactantes da trama envolve os dois. Porchat passa os 76 minutos de filme sem esboçar o menor sorriso e tira de letra a cenas que esbarra com o nada ou olha através das pessoas. Em certa

medida, dá um tom cômico sem eliminar o incômodo que escorre pela tela. A personagem de Ravache constrói alívios cômicos sem ser óbvia e sem sorrir, nem por um segundo. Suas falas e, principalmente, sua atuação, mostram uma mãe real: preocupada, imperfeita e disposta a ajudar. Luis Lobianco, que interpreta Nildo, o garçom da pizzaria, funciona muito bem como alívio cômico e é a única interpretação que me lembra o universo do “Porta dos Fundos”. Já o psiquiatra, interpretado por Marcelo Valle, é o agente que reflete com Bruno metáforas e devaneios. Os diálogos dos dois são muito contemporâneos e sóbrios e fazem minha “pseudo-analista” interior vibrar e viajar na maionese. Quanto a Marcos Veras, que interpreta o melhor amigo de Bruno, e Giovanna Lancellotti, que interpreta a ex-esposa do protagonista, não tem como defender. Giovanna porque a atuação é ruim, e Veras porque, além de não ser muito bom, o roteiro não o ajuda. Giovanna Lancellotti parece não

estar preparada para um papel que exija tanta dramaticidade. Já Veras, que deveria ser um alívio cômico, funciona mais como um personagem para se criar aversão: clichê, machista e caricato. Além disso, a tentativa de construir uma subtrama para o personagem é ineficaz e não acrescenta nada na história.   Por fim o filme é cheio de metáforas e interpretações em aberto, o que, para mim, não alteram sua narrativa linear e bem construída. As pessoas

costumam odiar roteiros sem final, então, se você não gosta de narrativas sem início, meio e fim muito bem definidos, recomendo que ignore todas as minhas críticas construtivas sobre essa obra. Eu, como a ovelha negra que sempre fui, amo finais abertos a interpretação e gosto, até mesmo, de narrativas sem linearidade como 500 dias com ela. Entre abelhas é um dos meus filmes favoritos. Um desses que me fazem vibrar em um sonoro “Meu cinema nacional está vivo!”.

Ficha Técnica Título: Entre Abelhas Direção: Ian SBF Produção: Eliane Ferreira, Hugo Janeba, João Daniel Tikhomiroff, Michel Tikhomiroff Roteiro: Fábio Porchat Trilha Sonora: Gabriel Chwojnik Direção de Elenco: Daniel Wierman Elenco: Fábio Porchat, Irene Ravache, Marcos Veras, Luís Lobianco, Letícia Lima, Marcelo Valle, Sílvio Matos, Giovanna Lancellotti Gênero: Drama Ano: 2015 Duração: 76 minutos Receita: R$ 6,8 milhões


CRÔNICas

A mochila e o estudante

Felipe Figueiredo

Desconheço acessório que melhor caracterize um estudante do que a mochila. Talvez você considere o fichário e o uniforme mais condizentes com essa caracterização, mas não para mim. O fichário precisa ser abraçado e, francamente, me parece um objeto demasiadamente coxinha. O uniforme, depois que você sai da escola, vira pijama, roupa usada para pintar a casa ou para ir à padaria. A mochila possui algo a mais. Talvez sua maior qualidade seja o fato de, na maioria das vezes, possuir aquele item que virá a salvar o dia: seja uma moedinha para inteirar a passagem do ônibus, uma caneta em dia de prova, um carregador para celular, uma camisinha... Sempre que uma adversidade aparecer em seu caminho lembre-se: a resposta pode estar na sua mochila. Lembro-me perfeitamente de todas as mochilas que já tive, desde aquelas de rodinhas que eu usava quando criança, aquelas cheias de acessórios que eu usava durante a adolescência,

até essas mais sóbrias que eu utilizo na faculdade. Mas, mais do que minhas próprias mochilas, lembro de outras inúmeras mochilas que me marcaram durante o período escolar. A maior parte da minha vida estudei em escolas técnicas. Se você jamais estudou em uma escola técnica, é provável que não saiba, mas elas têm, em média, uns dez homens para cada rapaz. Avistar um espécime feminino era tão raro quanto encontrar petróleo no quintal da sua casa. Ok, talvez eu tenha aumentado um pouco, mas a proporção era de uns oito homens para cada mulher. Fato é que, ainda que raras, as mochilas femininas costumavam ser muito mais limpas e bonitas que as masculinas. Enquanto os rapazes usavam as suas para marcar o perímetro do gol, limpar as próprias mãos, ou como tela para suas artes à base de corretivo, as meninas tinham maior assepsia com as delas. Havia algo, porém que homens e mulheres faziam igual: entrar na sala de aula, colocar sua mochila sobre uma das cadeiras disponíveis

e deixar o recinto. Eu não conheço um único ser vivo que não tenha entrado em uma sala de aula e se deparado com um número incompatível de alunos em relação à quantidade de mochilas. Além disso, acredito que você também tenha tido esse diálogo uma vez na sua vida: – Com licença, esse lugar é meu. – Como assim? Não tinha ninguém aqui. – Essa mochila é minha. – diz o infeliz, apontando o objeto apoiado na cadeira que você estava utilizando. Olha, eu juro que nunca vi uma mochila apresentar uma procuração e dizer que está representando alguém, mas, para evitar o conflito, eu mudava de lugar. É incrível como esse acessório, além de servir para carregar objetos, também cumpre papéis tão diversos no cotidiano escolar: traves, guardanapo e até função representativa.. Confesso que nunca tive muito carinho pelas minhas mochilas, sempre as deixei jogadas em qualquer canto. Sempre ficaram caquéticas na minha mão e, por vezes, até precisava

ser lembrado de levá-la a escola. Mas a verdade é que agora que eu sei que esse acessório deixará de estar comigo com tanta frequência ao fim deste semestre, sinto-me como se algo de valor estivesse sendo

arrancado de mim. Grande parte das minhas amizades, minhas relações amorosas e minhas boas histórias foram adquiridas durante a escola e faculdade. Neste semestre, vou concluir de vez um ciclo

que ficou marcado por essa fiel indumentária. Sei que meus ombros agradecerão o descanso, mas é inegável que o fim desse relacionamento está sendo mais amargo e nostálgico do que eu podia imaginar.

e Tardelli dando show ou para papai, que olhava concentrado para o campo. Tudo certo, Galo campeão – ao melhor jeito: sofrido! – Tenho que agradecer tanta coisa pro Atlético, pois posso dizer que é a melhor forma de união que tenho com meu pai. Ah! Não poderia de esquecer aquele papelzinho que, após ser usado, todo mundo joga fora, mas, no meu caso, virou uma representação de um laço tão forte entre pai e filha.

Hoje, eu vejo o quanto aquele papel laranja com escrita em branco, já desbotado, representa para mim. Guardo o ingresso do dia 23 de julho de 2014, como parte da minha história. Quando me lembro desse dia, pego o ingresso e meus olhos chegam a encher d’água. Para muitos, é apenas uma lembrança de mais um jogo em que o pai leva a filha. Entretanto, ao meu ver, é a forma de lembrar que meu pai nunca esteve tão vivo.

O ingresso da vida Marianne Ribeiro Poderia ter sido apenas uma quarta feira comum, mas foi então que tudo mudou e passou a ser tão especial. Até mesmo um pedaço de papel ganhou um significado tão grande. Eu devia agradecer por aquele incidente, pelo coração de papai quase não aguentar e pelo destino unir, de uma vez por todas, pai e filha, por um amor em comum, o Atético-MG. Para mim, papai era

o exemplo de torcedor fanático, como eu queria me tornar ao crescer. Me recordo como se fosse ontem, o promessa que havia me feito e que nos uniria ainda mais. “Se eu sair vivo desse hospital, vamos ao campo ver a final do campeonato”, diz o pai. De certa forma seria loucura, mas seria a nossa loucura. Quem diria que um time poderia servir para unir ainda mais um pai e uma filha? “Pezão” queria aproveitar essa chance.

Ao sair do hospital, fomos direto para a fila pegar o tal pedacinho de papel que nos renderia tantas histórias e emoção. Conseguimos! Agora era apenas aguardar a tal quarta feira – vale ressalva que ainda não era a quarta feira do Goulart – e aproveitarmos nossa chance. Passou terça e enfim quarta! Ao acordar, a ansiedade tomava conta de mim e, claro, do meu pai, que não deixava transparecer. A noite foi se aproximando e meu

coração batia cada vez mais rápido. Pegamos nossas coisas e fomos para o Mineirão, que parecia nunca chegar. Olhava para papai e em seu rosto via a alegria de levar a filha a uma final, mas havia também o nervosismo e a apreensão pelo resultado positivo. Será que o coração ia aguentar? Bola rolando! A emoção tomou conta de mim, com os olhos marejados não sabia se olhava pro campo e via o Galo de Ronaldinho

gabriel andrade

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Abril de 2018 Jornal Impressão

Edição 208 - Caderno 2  
Edição 208 - Caderno 2  
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