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Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social do UniBH Ano 31 • número 193 • Novembro de 2013 • Belo Horizonte/MG


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Belo HorIzonte, novemBro de 2013

Cinema

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Do frenesi ao FOTOS: ANDRÉ ZULIANI

Como enfrentei as 32 horas da Maratona Hitchcock e saí exausto, mas fascinado André Zuliani COLABORADOR

Aglomeração e ansiedade dão o tom na entrada do Cine Humberto Mauro

Às duas horas da tarde, o público cativo já aguarda, ansioso, a distribuição de ingressos, que ocorrerá nos próximos 30 minutos. Alguns sexa e septuagenários, sobretudo senhoras, ocupam dois bancos de madeira juntos à parede de mármore branco que reveste o hall externo do Cine Humberto Mauro. Dentre elas, há as que destoam, inclusive, no figurino e na maquiagem. Algumas chamam a atenção pelo esticado da pele envernizada, sobrancelhas desenhadas, cabelos tinturamente pintados, que vão do preto asfalto ao vermelho Rita Lee. Nos dedos, vários pares de anéis dourados, ritmando com os colares. A fila, esguia e comprida como uma Rope, já atinge o pátio ao ar livre do Palácio das Artes. Nela se vê uma fauna variada, tanto etária quanto morfológica. De cabelos brancos a bigode postiço, de camisa do Pink Floyd à do filósofo Nietzsche. Todos na expectativa pela Maratona Hitchcock, marcada pela Fundação Clóvis Salgado para os dias 23 e 24 de agosto. Não posso deixar de orelhar conversas e comentários alheios. Um senhor, já beirando os 60, puxa assunto com uma mulher aparentemente 20 anos mais nova. “Cinema, para mim, é entretenimento, não me aprofundo. Isso é para as Ciências Humanas, eu sou das Exatas”. Um jovem rechonchudo e barba farta lê A Guerra dos tronos – As crônicas de gelo e fogo, porém é constantemente interrompido pelo amigo magro com camisa do Pink Floyd, que planeja estratégias para assistir ao maior número possível de filmes na maratona. Afinal de contas, está programada a exibição de 13 filmes em 32 horas corridas, de sexta à tarde até sábado à noite. Muitos deles com comentários de especialistas (críticos, estudiosos e até uma celebridade do cinema de terror brasileiro. Não conto ainda quem é para manter o suspense, ao melhor estilo Hitchcock). Ao abrir as portas de vidro, dois homens recolhem os ingressos e liberam a entrada do público para a sessão de Os 39 Degraus. Durante o filme, me preocupo com duas coisas: primeiro, que raios são os tais 39 degraus; segundo, será que conseguirei ingresso para o próximo


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Belo Horizonte, novembro de 2013

corpo que cai filme, Rebbeca, a mulher inesquecível? Sem descobrir o significado do primeiro, vou resolver o segundo. Para isso, saio um pouco depois da metade do longa para garantir Rebecca. Noto que, assim como eu, outros fazem o mesmo. Dilemas de uma maratona. A fila para a retirada de ingressos está formada. A angústia é em dobro, pois corro o risco de não descobrir sobre os 39 degraus e ainda não obter ingresso para a próxima sessão. Após pegar o ticket, retorno para ver o final do filme. Por sorte, obtenho êxito nas duas tarefas, descobrindo, enfim, o que são os desalmados degraus (não vou revelar por ser o desfecho do filme). Ao esvaziar da sessão, grande parte dos que estão saindo dirigem-se à bilheteria, mas apenas alguns conseguirão ver Rebbeca. Os demais vão embora ou já se alinham para assistir Ladrão de Casaca, às 19h15. Vendo e prevendo uma quantidade de hitchcockianos muito além dos 136 lugares que a sala comporta – ou melhor, 134, pois dois são destinados ao responsável pelas legendas –, o gerente do Humberto Mauro, Rafael Ciccarini, junto à programadora do cinema, Ursula Rösele, têm a ideia, de última hora, de projetar simultaneamente o mesmo filme em uma área externa do Palácio das Artes. Cadeiras brancas de plástico são distribuídas junto aos bancos de praça que compõem o ambiente ao ar livre. Um telão e um par de caixas de som improvisam uma sala aberta, que serve de consolo para os “excluídos” e de deleite para cinéfilos fumantes. Ao término de Rebecca, começa o comentário do filme, que conta com o nervosismo do pesquisador Fábio Feldman, ampliado pela discordância entre ele e uma figura carimbada do Humberto Mauro. O embate é sobre a origem da obra. Qual a autora? (Vinte e nove horas depois, ao chegar em casa, descobrirei que é Daphne du Maurier, como havia dito o estudioso). Fora o nervosismo inicial, Fábio se sai bem, mesmo com o curto tempo que tem para relatar suas anotações. Principalmente, na leitura de que o filme seria um pós-Cinderela, de que Rebecca é a vida da ex-gata borralheira que passou a morar em um palácio. Gatas e gatos

A fila para Ladrão de Casaca está formada e os ingressos esgotados. Porém, como sei da exibição simultânea ao ar livre, fico menos chateado. Até porque, faço questão de assistir Chantagem e confissão – um dos nove filmes mudos restaurados pelo Arquivo Nacional do Instituto do Filme Britâni-

co (BFI – British Film Institute) e que obrigatoriamente deve ser exibido com execução musical – como uma experiência na qual poderei vivenciar os primórdios do cinema mudo, com música ao vivo. Enquanto na sala a projeção de Ladrão de Casaca será em 35mm (e seguida de comentário) a outra, ao ar livre, passará em DVD. Está quase tudo preparado para o início do primeiro filme na sala aberta, não fosse a falta do projetor. Devido ao trânsito, o equipamento ainda não chegou. Isso faz com que o planejamento de alguns cinéfilos seja repensado, pois é bem provável que, para assistir aos filmes por inteiro, algum terá que ser sacrificado. Passados 20 minutos, o projetor chega e a exibição começa, mas sem som. Mais atraso. Aproveito o momento para ir ao banheiro. Como alguns pães e dou três generosas goladas no energético de dois litros que me acompanha. Por fim, começa Ladrão de Casaca, meia hora após o início da sessão que seria simultânea. O atraso, somado à quantidade de pessoas que não param de chegar, cria um prólogo de suspense, digno de Hitchcock. Cinéfilos se acotovelam para ingressar em alguma das filas. Sim, são três. Uma para pegar ingresso para a próxima sessão, Chantagem e confissão, e outras duas para obter entradas das principais sessões da maratona, Os Pássaros e Disque M Para Matar, esse último em 3D. O que impressiona é que está sendo exibido um filme e já há filas formadas para os próximos três, mesmo que a distribuição de ingressos só vá iniciar meia hora antes de cada sessão. Isso porque ainda nem são oito da noite e que o clímax da maratona ocorrerá entre 23h e 2h da madrugada. Esquecendo um pouco da movimentação, tento assistir ao Ladrão de Casaca, filme sobre furtos de joias cujo suspeito é o ex-ladrão

Cinema de primeira e com entrada grátis, o que poderá surpreender os adolescentes que pagam mais de 15 reais para assistir aos blockbusters nos circuitos dos shoppings centers

John Robie. Por seu passado e suas técnicas silenciosas e hábeis para subtrair às escondidas, recebeu o apelido de O Gato. Ele já se aposentou da profissão, mas os roubos voltaram a acontecer e o estilo do novo gatuno, se é que existe um, é idêntico ao de Robie. No prólogo, há uma sequência que chama a atenção. À noite, um gato preto anda sobre o telhado. Em seguida, o ladrão, de roupa preta, age em silêncio. Depois, o felino vai embora pelo mesmo telhado. Pela manhã, a vítima grita desesperada por ajuda e pela polícia. A sequência se repete, os planos são de outro furto, mas a montagem é semelhante. Os planos do gato metaforizam a sagacidade e a autenticidade do ladrão. Logo depois, um gato preto aparece deitado em um sofá sobre um jornal com a notícia dos roubos, e o possível suspeito, Robie, que está cuidando do jardim daquela casa. Entretido pela trama, sou surpreendido por um homem que pergunta que filme é aquele. “Ladrão de Casaca”, respondo. Ele, então, enfia a mão em sua mochila, pega uma Skol shot, abre e começa a beber. O chiado, tsiii, da cerveja é o primeiro de muitos sons de comes e bebes que viriam. Logo depois, uma sacola plástica sendo desamarrada. Ao meu lado, um homem, com as mãos dentro de uma mochila, abre uma vasilha, que pelo cheiro parece empadão de frango. Até aí, tolerável. Porém, um casal acende um cigarro cada. Acho melhor fazer algumas fotos. Faço um breve tour e regresso para o filme. Afinal, quero descobrir quem é o ladrão. Poucos minutos depois, percebo um gato, não O Gato, mas um gato que gateia sorrateiramente por entre as cadeiras do público e se descoluna às carícias de terceiros. Em certo momento, vejo o bichano sentado, olhando para o telão. Percebendo a semiótica, tiro a câmera da mochila e vou atrás da foto. Ao perceber minha intenção, ele, no auge de sua gatice, se envereda numas plantas, no pé de uma árvore. Com um olho no segurança e o outro no gato, tento, primeiro com o pé e depois com a água da garrafinha, enxotá-lo da moita e fazer a foto. Em vão. Sem a foto, decido entrar na fila para Chantagem e confissão. À minha frente, um casal conversa e a mulher decreta para o homem o significado de cinéfilo: “Gente sozinha, sem família, sem ninguém, que não tem mais nada pra fazer e vem aqui pra assistir a filmes. Isso aqui vai ter sessão às duas da manhã, às quatro e lota! Eles lotam todas”. A mulher sabe bem o que diz. Nos últimos anos, o Humberto Mauro tem atraído plateias recor-

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des, com sessões empapuçadas nas últimas mostras de cineastas como Charles Chaplin, Howard Hawks, entre outros. Cinema de primeira e com entrada grátis, o que poderá surpreender os adolescentes que pagam mais de 15 reais para assistir aos blockbusters nos circuitos dos shoppings centers. Ingresso retirado, volto para o Ladrão de Casaca. A fotografia do filme, assinada por Robert Burks, mostra a Riviera Francesa e o litoral sul da França, inclusive Cannes, em planos gerais tão belos quanto um primeiro plano de Grace Kelly. Quando o filme se encaminha para o final, sou obrigado a ir pra fila de Chantagem e confissão e tentar continuar assistindo de lá. Lamentavelmente, não consigo descobrir quem é o ladrão. Antes de entrar na sala, imagino um piano e alguns instrumentos de sopro para executar a trilha sonora do filme. Entretanto, sou surpreendido por uma mesa de som, um prato de condução, um chimbal, um surdo e um piano. Somos avisados de que a trilha será executada por Daniel Nunes, multi-instrumentista mineiro. Os vinte primeiros minutos da sessão são bastante perturbadores, não apenas pelo volume alto, mas pela prolongada inalternância de sons graves e, em seguida, o mesmo com os agudos. O que resulta em alguns braços cruzados, expressões de reprovação e duas fugas. Após esse período, os sons ficam mais suaves, em uma visão fílmica e longe da experimentação, mais condizentes com a trama. A intervenção não é apenas sonora, mas olfativa. Pela tubulação do ar condicionado transitam aromas das iguarias do Café do Palácio. Tortinhas de frango, cappuccinos e expressos fazem com o estômago o que a trilha faz com os ouvidos: perturbam. Terminada a sessão, me dirijo até o gerente, Rafael Ciccarini, e explico minha situação: sou repórter do IMPRESSÃO e o desejo de cobrir o evento todo. “Você vai ficar até o final?”, questiona. Respondo veementemente: “Vou”. Ele então pede para que eu permaneça na sala e não saia. Conseguir ingresso àquela altura da maratona seria impossível. Sentado na primeira fileira, converso com Tiago, rapaz formado em Cinema e que será responsável pelas legendas dos dois próximos filmes. Ele tinha aprendido no dia anterior e, agora, era o encarregado de legendar logo as duas sessões mais esperadas da maratona. Enquanto alguns funcionários e o músico desmontam os instrumentos e aparelhagens, aproveito para comer algumas bolachas recheadas, ou, como dizem os belo-horizontinos, biscoitos recheados e, claro, beber alguns goles de energético. Pássaros e aranhas

Sessão preparada. Contudo, nada do José Mojica Marins chegar. Saíram para chamá-lo, ele pede mais cinco minutos. Sou da geração que tinha medo da figura macabra de voz densa e teatralmen-

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Lendas e histórias: Zé do Caixão comenta filmes e diverte cinéfilos que encararam a maratona

te horripilante, mas que também tinha nojo e, “realmenti” (palavra constantemente utilizada por José Mojica), pavor das unhas longas, encardidas e caracólicas. Depois de uns quinze minutos, ele entra na sala pela saída de emergência. Um pouco encurvado pela idade, 77, e vestindo preto das costeletas aos pés, pois os cabelos praticamente se foram. As épicas unhas já não chamam a atenção – deixou de ser refém delas após 35 anos de servidão. Foram cortadas em 1998, quando suas mãos começaram a atrofiar – mas o cheiro de bebida alcóolica marca presença. Para descer dois degraus, é auxiliado de um lado pelo jornalista Marcelo Miranda e. do outro, por Ursula Rösele. Vendo e sentindo a cena, me questiono. Será que ele está “realmenti” velho, “realmenti” bêbado ou “realmenti” faz parte da persona que ele criou? Assim que Mojica se aloja, a entrada do público é liberada. Depois que todos se acomodam, Ciccarini pede que o convidado diga algumas palavras antes do filme. Mojica se levanta da cadeira, ao som dos aplausos, e se desloca até o palco, no canto esquerdo da plateia. Assim como chegou ao palco, de costas para o público, permanece, com o microfone na mão direita. Mestre do suspense que é, nos submete a um instante de silêncio antes de se virar e nos encarar com a voz marcante do Zé do Caixão, em um “BOOOA NOOITÍI!” em alto e mau som, pois a inflexão caixãozônica e a proximidade do microfone estoura o som. Mesmo assim, satisfaz a plateia que o aguardava. Durante o filme, reparo o nervosismo de Tiago em legendar corretamente o filme. Ao término de Os Pássaros, enquanto uma poltrona de couro na cor café é levada ao palco, ele come um chocolate de

avelã para aliviar a tensão. Após falar um pouco sobre o filme, Mojica inicia o bate papo. Contudo, antes de passar a palavra, avisa: “perguntas medíocres terão respostas medíocres”. E sorri, sarcasticamente. O público, pusilânime, não sei se pela deixa ou pela falta de questionamento (talvez os dois), demora para indagar. Um rapaz pergunta sobre a origem do personagem Zé do Caixão (ou, como Mojica gosta de falar e é mais reconhecido no mercado exterior, Coffin Joe). Ele conta que teve pesadelos com um homem que se vestia todo de preto e o levava para a cova. Com isso, criou, há 50 anos, o Zé do Caixão. Indagado como era ser cineasta na ditadura militar, Mojica diz que foi perseguido por 20 anos. “O Glauber (Rocha) me alertou para ir embora, senão eu morreria. Tive a sorte de ir a um baile de coronéis e começar a namorar a filha de um general. ‘Realmenti’, foi a minha sorte.” Um fã faz um paralelo entre Os Pássaros – cujos efeitos especiais se destacam para dar vida a inúmeras aves – e a épica cena de Esta noite encarnarei em teu cadáver, na qual 300 caranguejeiras invadem um quarto com seis mulheres dormindo. Na cena, as aranhas sobem pelas cobertas até as camas e rastejam sobre a pele das atrizes. O cineasta explica que a mesma pergunta foi feita em um festival na França. “Me perguntaram se a cena foi feita em CGI (Common Gateway Interface, imagem gerada por computador). Porra nenhuma! Aquilo foi real. Feito com aranhas de verdade. Eles se negaram a acreditar”, conta. Segundo Mojica, as atrizes estavam com medo de fazer a cena. “Aí pensei: vou pegar uma garrafa de conhaque! Depois de algumas doses, tranquilo”, explicando, assim, o apuro técnico de seus “efeitos especiais”.

Ainda sobre o mesmo festival em território francês, Mojica relembra a repercussão do visual de Coffin Joe. Na ocasião, “estava lá o ator que havia interpretado o Drácula (Christopher Lee em Drácula, O perfil do diabo) e na época era elogiado pela crítica. Eu gostei bastante do trabalho dele. Quando ele viu a minha unha, ficou com medo. O Drácula com medo da minha unha! Depois ele me disse que preferia filme de romance”, confessa, decepcionado. Além das inúmeras histórias que compõem a vida de um senhor quase octogenário, ressalte-se o desejo que ele relata à plateia, quase em forma de súplica: “Gostaria de ter um sucessor no gênero em que fiquei conhecido e fiz sucesso”. Óculos e Lentes

Fim do bate papo, aplausos para Mojica. Enquanto a sala esvazia, eu sorvo o agora quente energético. Antes de iniciar o próximo longa, Ciccarini avisa aos espectadores que estamos em uma sessão histórica para o Humberto Mauro, pois se trata da primeira exibição 3D da sala. Em seguida, informa que apenas quem ficar até o fim do próximo filme, Um corpo que cai, que será comentado por ele, receberá o vale café da manhã, marcado para logo após o filme, às sete horas da manhã de sábado. O público, com os óculos de lentes rubro-verdes, esperava ansioso por aquela oportunidade única. Sabendo disso, muitos esperaram mais de cinco horas na fila para poder garantir o ingresso para a sessão inesquecível. Toda inércia foi recompensada, pois é possível apreciar, em três dimensões, a genialidade de Alfred Hitchcock, que, já em 1954, experimentou o universo 3D. No começo do filme, Disque M para Matar, Grace Kelly aparece usando um vestido verme-


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lho que despertou suspiros. A cor vibrante do tecido que enroupa a atriz protagoniza uma imagem deslumbrante que somente um pintor poderia retratar: Hitchcock. Após a sessão, vou ao banheiro para retirar minhas lentes de contato, que, depois de vinte horas, começam a irritar meus olhos. Coloco os óculos e dou mais duas bicadas prolongadas no choco energético. Retorno à sala. Neste momento, os funcionários já sabem que estou ali cobrindo a maratona e meu ir e vir é natural. Pego os óculos 3D e me desloco até a primeira fileira. Um corpo que cai é considerado por muitos críticos não só o melhor filme de Hitchcock, mas o maior longa da história do cinema. Confesso que, mesmo com essa classificação, duvidei que uma sessão às quatro horas da manhã fosse capaz de ocupar os 134 lugares. Acredite, está lotada. E aí que me lembro da mulher da fila que definiu os cinéfilos, “Eles lotam todas.” Se o público marca presença, nem todos estão mesmo presentes. Durante o filme, é frequente ouvir um ronco ou três entre os diálogos de James Stewart e Barbara Bel Geddes. Sentado na primeira fileira, presencio dois homens que dormem à minha direita. O mais próximo ronca, claro. Uma senhora, à minha esquerda, ao ouvir o fragor do vizinho, olha e me mostra (como se eu não tivesse vendo e ouvindo) e ri. Após alguns minutos, sinto algo encostar em meu ombro, olho e a mesma senhora não só está dormindo como me usa de travesseiro. Penso: quem ronca primeiro, dorme melhor. Me mexo. Ela desperta e volta a ver o filme. Curioso para ver os rostos da plateia, assim como Amélie Poulain, me viro e

Cinema percebo que outros dormem, e mais, na fileira de trás um casal com um cobertor cinza se protege do ar condicionado. Quando o filme se aproxima do fim, o som cavernoso e áspero dos roncos é substituído por celulares despertando em intervalos de tempos curtos e/ ou longos. “Alarmes de um dia útil normal”, comenta Rafael Ciccarini, amparado por uma lata de coca zero, antes de falar sobre o filme. Ele explica que Hitchcock é um diretor que comenta a cena por meio da câmera. Sendo assim, na maioria das vezes, não importa o que está sendo dito, mas sim o que é mostrado. Além disso, o diretor faz filmes com várias camadas. Em Um corpo que cai, por exemplo, a primeira camada, a vista pelo público comum, é a morte. A segunda, o cinema, pois há uma auto-reflexão. A terceira, necrofilia, a metafísica, e a quarta camada, o desejo, o sexo. Com pouco ânimo para perguntas e muito para comer, a sessão é encerrada. Quem sai da sala recebe um vale café da manhã. Ao deixar a câmara escura com luzes artificiais, somos recebidos pela claridade das seis horas, que é ainda mais intensa devido ao branco predominante do Palácio das Artes. A fila para trocar o vale por comida está formada e nela percebo que, além de mim, há apenas um sobrevivente de sexta. Na angústia da fome, sou abordado por uma jornalista. Ela procura por uma fonte que estivesse na maratona desde o começo. “Eu”, digo à repórter. Respondo as perguntas corriqueiras, “desde que horas está na maratona? O que mais te chamou a atenção?”. Por fim, sou fotografado e indico outra fonte para a matéria do Estado de Minas. Após o café, vou ao banheiro

No começo do filme, Disque M para Matar, Grace Kelly aparece usando um vestido vermelho que despertou suspiros. A cor vibrante do tecido que enroupa a atriz protagoniza uma imagem que somente um pintor poderia retratar: Hitchcock e tomo mais energético. Retorno à fila e aguardo pela abertura das portas. Durante Pacto Sinistro, eu confesso que pesquei umas três vezes, sinal de que as bebidas não foram suficientes. Ao término do filme, sessão comentada e sorteio de brindes. Ganhei o catálogo da mostra Chaplin. Em seguida, um filme sobre o cinema que cinéfilo nenhum poderia deixar de assistir no grande écran, Janela Indiscreta. O longa se inicia com o descortinar de uma enorme janela, que moldura alguns prédios, portanto, delimitando e metaforizando uma tela de cinema. O protagonista, Jeff, inerte e fadado a um ponto de vista, representa a plateia e a vizinhança, à sua frente, é o mote. Logo depois, um filme que fazia questão de ver no cinema, mesmo contendo “apenas duas cenas e dez cortes”: Festim diabólico. Como já assisti várias vezes e até escrevi,

Não importa se por jovens ou idosos, todas as sessões da maratona contaram com lotação máxima

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em meu blog, acerca da representatividade das cores sobre os personagens, Brandon, Philip e Rupert, no desfecho do filme. Aguardo ansioso para o comentário, mas vejo que não está na programação. Posteriormente, três longas inéditos para mim, Sombra de uma dúvida, O inquilino sinistro e O terceiro tiro. Os dois primeiros assisto no automático, por causa do cansaço visual e físico, algo que melhora, até por questão psicológica, no próximo, pois era o último. Com fotografia fantástica de Robert Burks, mesmo prejudicado um pouco pela cópia do filme em 35mm, O Terceiro tiro é primoroso imagética e sarcasticamente. Além de comentar sobre o filme, Úrsula Rösele, completamente esgotada e cansada da loucura dos bastidores da maratona, revela que o público foi de duas mil pessoas durante as 32 horas. A plateia, apesar da exaustão, reconhece e reage com uma salva de palmas. Mesmo assim, Úrsula pede desculpas pelos atrasos de algumas sessões e é imediatamente replicada, por um senhor: “Minha querida, eu estou com vocês há dois anos. Tudo vindo de vocês é ótimo. Parabéns pelo seu trabalho”. Gratificante. Terminada a maratona, retorno pra casa. Tomo um banho e vou assistir ao restante de Ladrão de Casaca, que fui obrigado a perder no Humberto Mauro. Por incrível que pareça, o filme confirmou a minha suspeita. Deitado na cama, revejo a maratona na memória e me recordo do gato tricolor que gateava entre as cadeiras. No mesmo instante, lembro-me de uma música de Tião Carreiro que diz “gato de três cor ainda não nasceu”. Era como se a gata tricolor do Palácio me alertasse sobre a identidade do ladrão de casaca.


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Para se deslumb

Entre as ruas Tamoios e Espírito Santo, a escadaria da I

Hiago Soares 6º PERÍODO

Segunda-feira. O vento galopava por cima das árvores e percorria as linhas do corpo que descansava nos degraus. O sopro fresco atiçava os cabelos e remexia o ar penetrado pela fumaça dos carros apressados e dos cigarros acesos na rotina de um dia em setembro. Cravados no alto de um templo católico, os ponteiros escancaravam as horas: onze e meia da manhã. O garoto sentou-se no degrau mais alto em frente à Igreja São José, com frente para o Edifício Acaiaca, na avenida Afonso Pena. Centro da cidade. Vestia um uniforme escolar e sua mochila descansava entre as pernas. Os cabelos roçavam a testa, quase tapando os olhos que liam um grosso volume de uma história de reis, tronos e dragões. Quase meia hora depois, fechou o livro e desapareceu entre os carros estacionados no parque da igreja, dando as costas para alguns casais de namorados, três crianças falantes, um leitor de jornal e uma mulher que vendia artigos religiosos próximo às grades verdes e meio enferrujadas que separavam a rua da monumental escadaria – projetada por um holandês redentorista, Verenfrido Vogels. Residentes no Brasil desde 1893, os redentoristas holandeses, fixados em Belo Horizonte, assumiram o trabalho pastoral em 1900, quando na recente capital, que começava a crescer, habitava uma população de 14 mil almas. A Ordem, vigente até hoje, prega a redenção das almas e privilegia a assistência aos mais pobres. Missionários que propagam devoção e amor, comprometidos a uma opção de vida disponível a Deus

e aos chamados “irmãos”. Foram eles que, a partir de 1902, começaram os trabalhos na matriz São José. Para a Igreja Católica, São José é um santo que intercede pela virtude da castidade, traz vitória sobre as tentações, roga na hora da morte e dá às famílias a benção da prosperidade. No horário do almoço

Os óculos pousados no alto da cabeça de fios rebeldes, a brancura nascendo nas sobrancelhas, unhas pontudas e amareladas, a voz rouca de cigarro e uma das mãos abarrotada de colares com pequenas cruzes de madeira, pingentes e imagens de santos. Debaixo de um céu pesado, Rosa Maria aliviou o cansaço das pernas no ponto mais baixo da escadaria, onde oferece, há “mais ou menos” 20 anos, artigos religiosos – o preço é o cliente quem faz. Rosa Maria tem 50 anos e, num primeiro momento, disse ser a criadora dos itens que vendia. Com um pouco mais de conversa, uma pausa para cumprimentar conhecidos, outra parada para vender um colar para um estudante de Psicologia que cruzava a rua apressado (ele pagou R$ 5,00, mas há quem pague apenas R$ 1,00), uma espiada em quem passava fazendo, coreografado, o sinal da cruz no peito e beijando, em seguida, a ponta dos dedos, ela assumiu: “Vem pelo Sedex, de São Paulo”. Pediu licença, foi até um barzinho comprar um cigarro picado, voltou por um dos corredores em meio à extensa área verde, cruzou por quem estava ali “fazendo o quilo”, expressão para os que descansam nas escadas logo após o horário de almoço, e voltou a abordar quem passava perto.

Meio-dia

Escada: Origem da Palavra: Latim: Scalae: Subir: Deslocar. Escada é lugar para morar poça d’água. É onde sapato desvia de chiclete cuspido. Escada pode ser de azulejo. E de tinta e de pedra ou puro cimento. Acolhe a poeira, as pegadas, os pingos de sorvete que escapam dos copinhos de plástico e as notícias impressas em jornais, usados para não deixar que a


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brar ou esperar

Igreja São José carrega sentido maior que o de deslocar FOTOS: HIAGO SOARES

Caminho de penitência. Obstáculo. Redenção. Sacrifício. Transcendência: une o terreno ao divino. Contato. É onde se sobe para ficar mais alto. É onde se desce para se esconder. É ponto de encontro. É onde nascem histórias. É onde morrem as histórias. É onde os tombos deixam as nossas digitais. Nas novelas, as vilãs atentam contra mocinhas, parentes e affairs, empurrando-os escada abaixo para o caminho da morte. Pode dar um fim trágico. Pode até ser cômico. No cinema, a escadaria da cidade de Odessa foi cenário de um massacre antológico, dirigido por Sergei Eisenstein, onde seus personagens se desesperavam em uma correria pavorosa, sendo pisoteados e deixados no chão, enquanto um carrinho de bebê descia, cambaleante, pelos degraus ao som de tiros de fuzis. Na escadaria da igreja São José, por sorte (?), é aonde o vento chega de longe com o cheiro acentuado de um bom bife acebolado. Uma hora

roupa pegue a mancha alojada no chão. Escada é cama, cadeira, mesa e porta-retrato, onde amigos se achegam em um abraço à espera do toque que faz nascer uma fotografia. Pode ser enfeitada com corrimão, para ajudar e proteger a subida e a descida. Pode ser lugar de castigo, de superstição, de exercício físico na ausência de equipamento mais sofisticado, de ligação. Ou separação.

O ronco de três motos policiais atravessou o lugar. Cinco guardas no total. Um deles apressou o passo, munido de uma arma prateada, e, apontando-a para um rapaz que conversava com dois moradores de rua no último dos 34 degraus, bradou um sonoro “Mãos na cabeça, mãos na cabeça!”. De olhos arregalados, um susto tremendo nas mãos, o rapaz apontava para a bolsa fincada num canto: “Minha identidade tá ali”. Ajoelhou-se e foi revistado por um PM, enquanto outro revirava sua bolsa à procura de algo suspeito. Enquanto isso, malabaristas se exibiam no sinal, pássaros pisoteavam o gramado com suas pernas saltitantes, um homem

conversava ao celular, uma moça ouvia música pelo headphone, duas mulheres de azul retiravam os sapatos e expunham as meias brancas, formigas trilhavam seu caminho entre as plantas miúdas a crescer nas rachaduras. Nada encontrado, rodearam o garoto e travaram uma longa conversa. O olhar mirando o chão, a cabeça em concordância, pouco falante, o garoto escutava-os. Foi embora. “Feijão, cê perdeu!” – disse um dos moradores de rua para um companheiro que se aproximava. “Os homi chegou de metranca!”. “Ele ajoelhou”, continuou, referindo-se ao rapaz abordado anteriormente. “Ele foi muito humilde. Quase chorando. Ele foi um pouco vacilão”, falou, logo após uma cusparada na grama abarrotada de flores caídas do outono e um suspiro de decepção: “O moleque ia pagar meu almoço”. Gesticulava e interpretava a cena à sua maneira, emendando comentários sobre as manifestações de junho e políticos de Brasília. “Por que não estouram bomba de gás lacrimogêneo lá em Brasília?”, questionou, passando o restante de um cigarro de palha para um companheiro deitado ao seu lado, que fumou e apagou-o no chão de cimento, mantendo-se em silêncio. “Eles quer pegar os nego só no centro, por que eles não vão lá pra [favela da] Pedreira?”. As horas passavam. Alguns voltavam para o trabalho. Outros procuravam algum canto onde o sol não batesse. Turistas se contorciam para pegar o melhor ângulo da notável igreja – 60 metros de comprimento e 19 de largura –, e que, vista de cima, tem o perfeito formato de uma cruz. Sentados, com uma mão no queixo, cabeça prostrada, alguns pareciam “O Pensador”, de Rodin. Olham o tempo passar e voltam à posição estática de quem se deslumbra ou só espera.


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tramas contemporâneas

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Posso te pagar uma bebida? O álcool pode ser usado como interlocutor entre homens e mulheres. Tudo bem, beber não é crime. Mas violentar é FOTOS:DIVULGAÇÃO

Na DDuck, diferença entre gêneros não é levada em conta na entrada ou na hora do pagamento

Maria Beatriz de Barros 6º PERÍODO

É noite de sábado. Um grupo de amigas sai para se divertir e resolve ir a uma boate, que cobra das mulheres um valor menor que o dos homens para entrar. Nesta noite em especial, a entrada é off para elas, e melhor ainda: open bar também. Até meia-noite, nenhum homem pode entrar. Animadas, as amigas bebem, conversam, se distraem. Horas depois, chegam os caras: sóbrios, encontram muitas mulheres bêbadas. Se conhecem. Uma das meninas do grupo, Ana, bebeu demais e começa a passar mal. Um dos rapazes que ela conheceu se oferece para ajudar. Daí em diante, Ana já não se lembra claramente de mais de nada. No dia seguinte, acorda com vagas recordações sobre alguns copos d’água, barba arranhando o pescoço, um sofá no canto da boate, puxões e apertões inconvenientes e beijos forçados. Ao se encontrar com as amigas, pergunta: “O que aconteceu?”. Elas contam que Ana ficara com um rapaz. “Você não se lembra?”. Não. E o assunto termina ali. São muitas as “Anas” que já passaram por isso e simplesmente tomaram a situação como normal.

No contexto das casas noturnas, uma festa onde a palavra de ordem é se relacionar – não importa como ou com quem –, abusos e violência se tornam lugar comum. A jornalista Christianne Lasmar vai a boates com frequência e já teve de intervir para acudir uma amiga. “Ela estava muito bêbada e um cara chegou nela já puxando o cabelo para beijar. Ela tentava se esquivar, mas como estava muito alterada, não tinha força. Tivemos que afastar o sujeito”, conta. Conforme o sociólogo Everson Pires, tais casos são tratados com naturalidade pela cultura de estupro que existe no Brasil. “Existe a ideia de que a mulher tem que estar disponível sexualmente. Ela não pode querer sair para dançar, tem que ir preparada para ser consumida. Para o pensamento comum, é normal abusar de uma mulher fragilizada. Seja alguém com baixa autoestima, seja alguém que está bêbada.”, afirma. Quando contextualizamos estes acontecimentos dentro de boates, podemos apontar diversos fatores que levam ao abuso. Segundo o supervisor de marketing da Alambique Cachaçaria Fernando Costa, as mulheres pagam menos que os homens dentro de uma lógica heterossexual. “Nas nossas festas, as mulheres comparecem mais. São

mais festeiras e por isso atrairão mais homens. A lógica é que os homens virão em busca de paquera”, explica. A estudante Ana Bárbara Gomes acredita que o valor mais alto se deve apenas ao fato de as mulheres beberem menos. “Não vejo como algo relacionado a abusos ou menosprezo. Teoricamente, as mulheres bebem menos e, por isso, devem pagar menos”, pondera. No entanto, estudos apontam que as mulheres têm aumentado seu consumo de bebidas alcoólicas. De acordo com o Levantamento Nacional de Álcool realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), entre 2006 e 2012 a taxa de mulheres que bebem mais de cinco latas em duas horas cresceu 36%. Fernando afirma que o público da Alambique é, em sua maioria, heterossexual. Neste contexto, a mulher, querendo ou não, assume o papel de atrativo para os homens que frequentam a casa. Este é um dos malefícios que a estudante Raphaela Protásio, 23, vê nesse tipo de boate. “Logo no flyer já aparece uma mulher seminua convidando para a balada. Os homens são mais incisivos com mulheres nestas festas. Acredito que eles já saiam de casa sabendo que, por causa do preço, as mulheres que pagam me-

nos são como um ‘bônus’ de diversão”, avalia. A psicóloga Julia Almeida, 31, já passou por abusos enquanto estava alterada em razão do álcool. “Estava em uma dessas boates open bar. Fiquei muito bêbada e um cara passava a mão, me beijava, abraçava. Eu tentava me esquivar, mas não conseguia. No dia seguinte, relatei o acontecido para amigos, mas apenas ouvi que “eu sabia” o que poderia acontecer se bebesse. É como se beber fosse crime e estuprar não”, conta. A realidade da violência sexual é gritante e assustadora: de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada 12 segundos uma mulher sofre um estupro. Em cinco anos, os registros no país aumentaram em 168%. Segundo o Ministério da Saúde, entre janeiro e junho de 2012 cerca de 5.312 mulheres procuraram atendimento por causa de algum tipo de violência sexual. Everson Pires afirma que o Brasil é machista e ainda enxerga as relações heterossexuais como uma troca primitiva. “O homem ainda é o dominador e a mulher, a submissa. O homem pratica o abuso para se autoafirmar, já a mulher, na maioria das vezes, aceita, por medo da exclusão social que pode ocorrer ao se opor”, ressalta.


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tramas contemporâneas

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DANY STARLING

Pulando outros carnavais

A lógica dos ingressos diferenciados segue a linha do sistema binário de gênero (ou seja: se vale apenas da ideia de que existem homens e mulheres, sendo os dois gêneros heterossexuais). Mas nem todas as casas limitam-se a esses papeis sexistas. Pode ser que, por este motivo, boates voltadas ao público gay não diferenciem seus preços. Júlio Borges, proprietário da DDuck há três anos, afirma que a casa sempre está de portas abertas para um público heterogêneo. “Criamos a DDuck para dar uma alternativa às boates mainstream que vemos por aí. Algumas festas têm mais público gay e jovem, em outras temos pessoas mais velhas. Varia de acordo com o tema da noite”. A estudante de psicologia Laila Rezende, 29, prefere este tipo de casa. “Ali, podemos vivenciar relacionamentos autênticos. Nos sentimos acolhidos de forma que não somos em casas de predominância heterossexual”, afirma. Existem alternativas. A boate Nelson Bordello, por exemplo, situada embaixo do Viaduto de Santa Tereza, e que faz parte do cenário underground belo-horizontino. O dono, Bernardo Guimarães, define seu público como indefinido: “Criei a boate com a intenção de divertir o povo. É um público heterogêneo, pode vir quem quiser. Não importa a classe social, nem a orientação sexual. Somos desorientados”, brinca. Ele afirma que preços diferenciados para homens e mulheres são inaceitáveis. “Acho horrível! Não passa de uma armadilha para colocar a mulher numa condição de mercadoria. Se alguém quiser pagar para a amiga, para a namorada, tudo bem. Mas a casa não se colocará nessa posição indireta de cobrar isso”, afirma.

O que é violência sexual?

Segundo a Lei 12.015, de 7 de agosto de 2009, estupro é “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. Ou seja: o crime de violência sexual não é consumado apenas com a penetração. Desta forma, um beijo forçado (no linguajar jurídico, beijo lascivo ou

No Alambique e em outras casas da capital, presença feminina é estimulada com descontos ou gratuidades

com fins eróticos) é tomado como estupro e passível de penalização. Mas e se não houve violência ou grave ameaça? Acontece que abusar de pessoas bêbadas (desde beijar a força até praticar o ato sexual em si) é considerado “estupro de vulnerável”. A lei entende que “alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”, ou seja, está em estado de vulnerabilidade. Uma pessoa bêbada não tem capacidade para se defender ou consentir algo (tal qual menores de 14 anos) e, por isso, pode se considerar que foi vítima de estupro. Apesar das mudanças na lei, muitas pessoas ainda continuam com a antiga ideia de que estupros acontecem apenas em becos escuros, em ruas ermas e apenas se houver penetração. Mas a regra é clara: não há hierarquia ou contexto para violência sexual. Se foi sem consentimento, foi estupro e não deve ser tolerado.

Como proceder

O estuprador será punido dentro dos limites da lei. E a boate na qual ocorreu o abuso? Qual a responsabilidade do estabelecimento? Segundo o coordenador do Procon Assembleia Marcelo Barbosa, a obrigação da boate é oferecer mecanismos de segurança. “A violência sexual presume-se de uma série de atos que serão percebidos em uma cena. A obrigação da boate é oferecer um serviço que possa evitar que tais atos aconteçam”, afirma. Caso o estabelecimento falhe neste processo, a vítima pode requerer as devidas indenizações. A delegada Érika Alvarenga, que atua na Delegacia Especializada em Plantão de Atendimento a Mulher, ratifica que a culpa em si é exclusivamente do estuprador. Ela conta que, trabalhando com autoria desconhecida, apenas um caso de violência sexual em boates foi relatado este ano em Belo Horizonte, mas o número inexpressivo está longe de ser resultado de uma mudança -- é apenas o reflexo da

Flyers e outros tipos de propagandas destacam diferenciação entre homens e mulheres nas casas noturnas

forma turva pela qual as mulheres enxergam abusos sexuais. Caso você seja vítima ou veja alguém passando por situação de violência sexual, ligue 180 ou procure a delegacia mais próxima (de preferência, da mulher).

Glossário entrada off: Quando não se paga o ingresso Flyer: Material impresso de divulgação da boate/festa mainstream: Estilo/gosto corrente da população, familiar às massas. open bar: Quando não se paga o consumo de bebidas Underground: O oposto de mainstream. Lugar ou ambiente que foge a modismos e está fora da mídia.


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A proximidade do fim segundo Von Trier DIVULGAÇÃO

É uma Justine fragilizada, atormentada na depressão e isolamento. A entrega aos sentimentos melancólicos levam a um desequilíbrio emocional que a impede de realizar as mais básicas ações do cotidiano. A irmã, Claire, a principio a parte forte do relacionamento, presta assistência e socorre Justine nos momentos de crise depressiva. No segundo momento do filme, porém, Claire, que vive uma rotina solitária, se atemoriza cada dia mais com o fato do planeta Melancolia estar se aproximando da Terra. A destruição iminente sucumbe Claire a um desespero e angústia Justine, por sua vez, parece muito confortável com a ideia de destruição do planeta, transparecendo uma serenidade não antes identificada. A visão cética do fim, a morte, a solidão de não ter as respostas sobre o que será do depois e o existencialismo sombrio das angústias humanas são percebidos nas própias personagens, fotografia e trilha sonora instrumental. A fotografia da obra apresenta imagens em câmara lenta, que repetem cenas, lugares e personagens da trama. A foto ganha movimento e exprime uma ideia do que será exposto ao longo do filme. O cenário sombrio de uma beleza não convencional acompanha paralelamente os acontecimentos dos fatos que se desenrolam à medida que o planeta Melancolia se aproxima da Terra. A obra do sempre polêmico Von Trier abre margens às diversas interpretações e questionamento para os quais não há respostas no próprio filme e sim a abertura de um amplo espaço para reflexões sobre as emoções humanas. A maneira nada óbvia de tratar do tema central do filme – o fim do mundo – é um dos pontos que marca o perfil do diretor que a cada lançamento surpreende os espectadores apreciadores de suas obras.

Ficha técnica

Janaína Praeiro 6º PERÍODO

Melancolia, a última obra de Lars Von Trier, narra a história do fim do mundo de uma maneira nada convencional. Esqueçam as versões americanas com prédios em ruínas, milhões de pessoas sendo engolidas por tsunamis gigantescos e mocinho e mocinha que, juntos, tentam escapar de destruição e se protegem no último local seguro da Terra. O excêntrico diretor dinamarquês, que tem nas emoções humanas o foco de seu roteiro, constrói a trama em cima das angústias e aflições de duas personagens principais – Justine

e Claire. A primeira interpretada por Kirsten Dunst e a segunda Charlotte Gainsbourg. Considerando a impecável atuação das protagonistas, que invertem os papéis emotivos, o filme nos leva a uma reflexão sobre a consciência da existência do fim e a forma com que lidamos com as emoções de possíveis perdas, real felicidade e fuga de nossos própios sentimentos obscuros que sucumbem num vazio interno. Num primeiro momento, em que a protagonista da trama é Justine, o público conhece um cenário luxuoso, com casamento requintado e aparente felicidade. A noiva, ao mascarar o sofrimento de se entregar à formalidade do casamento por meio de sorrisos aos convidados, sofre um colapso que faz emergir a depressão.

Melancolia (Melancholia) Co-produção: Dinamarca, Suécia, França e Alemanha Ano: 2011 Gênero: Drama duração: 130 min Classificação: 14 anos diretor e escritor: Lars von Trier elenco: Alexandre Skarsgard, Jesper Christensen, Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Stellan Skarsgard, Rudolf Klein-Rogge, Udo Kier. mixagem: Dolby Digital Idioma: Inglês música: Richard Wagner


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Marte, Cronos e Totó FOTOS:DIVULGAÇÃO

Matheus Ferraz 6º PERÍODO

Originalmente publicado em 1950, quase vinte anos antes de o homem pisar na lua, As Crônicas Marcianas de Ray Bradbury é composto por uma série de relatos sobre a colonização de Marte pelos humanos. Variando bastante de tamanho (alguns textos não têm nem meia página; outros, mais de vinte) as crônicas são capazes de balancear bem o espírito meio fanfarrão da ficção científica da época com o lado sério e filosófico da nossa eventual chegada ao planeta vermelho. Ao narrar essa colonização, Bradbury prefere lançar mão de um estilo mais poético; às vezes melancólico, às vezes satírico, mas nunca frio e científico. Afinal de contas, trata-se de um livro escrito em uma época em que a viagem espacial ainda era um sonho, e que os parâmetros para descrever a conquista de outros mundos vinham de Júlio Verne, H.G. Wells e Meliès. Mas a grande inspiração de As Crônicas Marcianas é, sem dúvida, o conto Micrômegas de Voltaire, que narra a vida à Terra de uma dupla de aliení-

genas e os percalços filosóficos que se seguem. Essa história filosófica, escrita sem nenhum rigor científico no auge do Renascimento, volta os olhos de dois gigantes alienígenas para a Terra, e para como os habitantes desse pequeno planeta azul são minúsculos em corpo e em espírito. Esse estilo não era estranho a Bradbury, escritor eclético e dedicado ao estilo fantástico, no melhor sentido da palavra. Nascido em 1920 e falecido em 2012, Bradbury está ao lado de Richard Matheson e Phillip K. Dick como um dos grandes nomes da literatura de ficção científica. Os textos de As Crônicas Marcianas são capazes de tirar o sublime do aparentemente ridículo, o que fica claro em “Ylla” que é de uma melancolia poética e surreal. Ao narrar a história de uma dona de casa marciana presa em uma rotina infeliz, Bradbury deixa claro que essas histórias passadas em outro planeta são capazes de dizer muito sobre nós mesmos. Marte se torna um espelho da Terra. A colonização pode ser vista como paralelo da chegada dos europeus às Américas, mas com uma diferença sutil: os marcianos não se importam muito com o fato de

que pessoas de outro planeta estão chegando ao seu. O objetivo do homem é, a princípio, fazer contato pacífico, avisar aos marcianos de sua chegada e compartilhar conhecimentos. Mas para os marcianos aquilo nem vale a pena levar em consideração. Eles também estão presos na burocracia e no tédio do dia-a-dia, embora pareçam criaturas inocentes como índios a um olhar mais ingênuo. E é assim que em As Crônicas Marcianas, Bradbury se prova um verdadeiro cronista, no sentido estrito da palavra. A palavra “crônica” vem sido utilizada sem muito critério desde então (Vampirescas, Nárnia, Gelo e Fogo...) mas as histórias sobre a colonização do planeta vermelho feitas pelo autor americano se sagram como verdadeiros exemplares do estilo. Isso vem desde o primeiro texto, “O Verão do Foguete”, onde o simples lançamento de um foguete não tripulado se transforma em poesia pura. A chegada a Marte a princípio parece ser a oportunidade de um novo início acaba se mostrando apenas uma repetição imensa. Já Intermédio mostra o desperdício das possibilidades da chegada a um outro planeta, causada pela pequenez do homem: “Era como se, de muitas maneiras, um enorme terremoto tivesse soltado as raízes e os porões de uma cidadezinha de Iowa, e então, em um instante, um furacão de proporções dignas de Oz tivesse carregado a cidade inteira para Marte, para pousá-la sem nenhum sacolejo.” A citação a O Mágico de Oz não é apenas um capricho do autor. Ainda mais se nos lembrarmos de que na estória de Frank L. Baum os tios de Dorothy se escondem

no porão, e aqui mesmo o porão é levado para esse novo mundo. É possível perceber que não é apenas a juventude sonhadora que é arrancada da Terra para trazer seus sonhos a Marte. Além de Dorothy e Totó, todo Kansas, com o clima em preto e branco que vivia nos corações e almas dos seus cidadãos infelizes, é trazido para essa Oz utópica, cujo tom acabará inevitavelmente desbotando do vermelho para o pastel. As Crônicas Marcianas são, também, cronológicas. Começando no então longínquo ano de 1999 e terminando em 2026, vemos pouco a pouco como Marte se torna nosso segundo lar, e como os mesmos erros são inevitavelmente repetidos pelos humanos. Vendo assim, o título carrega uma fantástica associação mitológica. Ora, Cronos, o titã deus do tempo, na tentativa de se livrar do medo de ser subjugado pelos seus filhos, passou a devorá-los um por um. Entre esses filhos estava Ares, deus da guerra que, na mitologia romana, tornou-se Marte. Aqui Cronos engole Marte enquanto o tempo transforma o planeta vermelho em apenas outra extensão da Terra, onde os mesmos erros são inevitavelmente cometidos outra vez.

Ficha técnica

As crônicas marcianas Autor: Ray Bradbury Gênero: Literatura Estrangeira tradutor: Ana Ban 300 páginas Formato: 14 x 21 cm preço sugerido: R$ 38,00


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Crônicas

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Carta de um sudaco Guilherme Pacelli 5º PERÍODO

A carta abaixo, sobre o impasse na Síria, foi escrita por um cidadão americano a Barack Obama. No entanto, não se sabe por que, como tantas outras mensagens que fogem ao padrão considerado relevante pelos burocratas do seu centro de poder, nunca chegou às mãos do presidente e só vem à luz agora, quando o conflito da Síria já saiu das manchetes. Caro senhor Presidente, Apesar das circunstâncias, quero dizer que entendo o senhor. A intervenção militar na Síria que o seu país quer comandar não é surpreendente, e sim extremamente necessária. Afinal, se não fosse lá, de qualquer maneira haveria de ser em outro rincão desse mundo conflituoso, que os senhores, poderosos irmãos do norte, por dever manifesto têm que pacificar. Eu sei que, como afro-americano, o senhor superou muitos obstáculos. Em um país de tradição racista, e que não há muito tempo ainda tinha leis que segregavam as pessoas pela cor da pele, o senhor teve uma grande vitória, ao conseguir ser o líder máximo de sua grande nação. Surpreendeu dentro, e, mais ainda, fora de seu país. Surgiu como uma esperança no que diz respeito à postura externa de sua nação, que viveu um período decepcionante durante o governo de seu antecessor. Quebrou mesmo muitos paradigmas. Conseguiu até mesmo ser Nobel da Paz, apesar de estar comandando um país que ainda estava envolvido em guerras, em dois desses cantos longínquos e de tradições tão estranhas para nós, leigos cidadãos ocidentais. Mas compreendo o senhor. Pode até querer e, até mesmo tentar nos convencer de que é diferente dos outros que ocuparam o mesmo cargo, mas acima de tudo tem deveres, e não pode se esquecer de que é um norte-americano. Ou, como o senhor preferir, somente

americano, assim como eu, porque aqui no sul – nesse grande espaço que há séculos vem sendo o quintal de sua residência – também reivindico o direito “democrático” (com o perdão por usar assim, tão vulgarmente, um termo sagrado para vocês) de ser chamado de americano. Por isso acho que me senti à vontade para escrever ao senhor, um americano que quebrou tantos paradigmas, mas que apesar de tudo não podia decepcionar. Há tradições a serem preservadas e deveres a serem cumpridos. A economia do seu berço começa a se recuperar e um empurrãozinho para um setor da indústria historicamente tão importante, não só por aí, mas para todo o mundo que recebe a solidariedade de vocês, é perfeitamente normal. Não importa que para isso a bola da vez seja uma Síria, ou qualquer outro lugarzinho conturbado por aí. Afinal, mesmo sem o aval da comunidade internacional (e quem liga para ela, numa hora como essa?), vocês sempre sabem o que fazem, e nós confiamos em vocês, pois, como sempre nos ensinaram, o destino lhes reservou um lugar acima do bem e do mal. Nós, da América ao sul do Rio Bravo, agradecemos todos os dias, por seus antepassados nos terem livrado de caudilhos, coronéis opressores e golpes comunistas ao longo da nossa história. Afinal, que futuro teria a humanidade sem o auxílio da águia da democracia, sempre atenta e pronta para nos salvar? Tudo o que desejo é sorte na nova (velha) empreitada. O mundo esperava por isso, já que as proezas do espetáculo iraquiano e afegão estão ficando para trás. Fique tranquilo e dispense orações, pois o que conta são as intenções, e, como diferente das anteriores elas são realmente boas, a história o absolverá. Um cordial abraço, de seu irmão sudaco.

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Ensinando truque novo a cachorro velho Cristine M. Marques Leal 6º PERÍODO

Ganhei a Luna de presente no meu 13° aniversário. Na época não me passava pela cabeça que eu ou a pequena vira-lata envelheceríamos, mas o tempo passou, minha adolescência se foi e a Luna, que virou o xodozinho da família, já apresenta os primeiros sinais da velhice. Ela foi o filhote mais baderneiro que eu já conheci. Tem vários causos em seu currículo, entre eles: comeu metade do sofá da minha mãe e chupou uma bala Halls inteira. Sempre foi manhosa e relutante em obedecer a ordens. Tentei diversas vezes ensinar a ela algum truque que eu via na TV, mas ela era teimosa e eu não era insistente, portanto ela sempre ganhava. Outro dia olhando as notícias da

internet, deparei com uma que destacava uma escola, em Nova Iorque, que dá aulas de iPad para cachorros. Isso mesmo! E há toda uma metodologia, ensinando os amiguinhos de quatro patas a tocar a tela e até mesmo a apertar o botão home. Não pensei duas vezes, era hora de provar que o ditado “cachorro velho não aprende truque novo” era falso! Assoviei para que Luna viesse ao meu encontro. Depois de alguns passos de tartaruga, que eu não sei bem se era preguiça ou velhice, ela se deitou ao meu lado. Coloquei o tablet à sua frente para que começássemos a aula. Ela nem ao menos se mexeu. Tentei colocar um vídeo para que houvesse mais movimento no processo e ela se interessasse, mas foi em vão. Pensei que ela precisava apenas de um incentivo sonoro e coloquei uma músi-

ca qualquer para tocar. As orelhas se mexeram, eu até tive esperança, mas não passou disso. Foi então que eu tive uma ideia que parecia brilhante: coloquei o tablet para vibrar para ver se ela reagia. Tiro e queda! Ela se levantou e começou a latir como um cão que acha sua presa! Porém, mesmo em estado de alerta, Luna não teve interesse em tocar o tablet. Logo pensei, “aquela escola de Nova Iorque deve ser muito boa ou os cachorros de lá são mais inteligentes do que os daqui. Eu e a Luna somos duas tapadas!”. Guardei o tablet, afaguei minha companheira e deixei a história de lado. Passados alguns dias do episódio, no meio de uma manhã de sábado, a Luna começou a latir para a cabeceira da minha cama. Procurei o motivo, achei que era algum bicho. Ela ficou

em silêncio e eu voltei aos meus afazeres. Mais tarde, no mesmo dia, ela voltou a latir para a cabeceira. Fui conferir novamente o motivo da algazarra e mais uma vez não encontrei. Contudo fiquei intrigada: o que essa cachorra tem contra a minha cama? Foi então que eu achei meu celular com duas chamadas perdidas, que eu não tinha visto porque ele estava no vibra call. Decidi fazer um teste. Peguei o telefone fixo e liguei para o meu celular. Ao escutar o aparelho vibrando, a Luna voltou a latir. Ela pode até não ter aprendido a mexer no tablet, como os cães nova-iorquinos, mas aprendeu a detectar chamadas no vibra call e pra mim já está passando de bom! Afinal de contas, o cão velho aprendeu um truque novo e eu não preciso me preocupar mais em esquecer o celular no modo silencioso.

Edição 193 - Caderno 2  
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