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DO!S

Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social do UniBH Ano 30 • número 189 • Outubro de 2012 • Belo Horizonte/MG

Desvendamos o corredor literário de Belo Horizonte PÁGINAS 6 e 7


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Belo Horizonte, outubro de 2012

Acessibilidade reprodução

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Cultura sem

barreiras As dificuldades e as conquistas do acesso à arte Marcela Martins Raquel Braga 6º Período

Edição: Dany Starling Tornar a cultura acessível talvez seja o grande projeto dessa década – tanto que os eventos culturais gratuitos têm crescido em número e tamanho, especialmente em Belo Horizonte. O sem número de projetos promovidos por governo e iniciativa privada também reforçam a máxima de que se tornou definitiva a consciência de que a cultura é um direito de todos. Mas quem são todos? A pergunta nos faz repensar se o olhar sobre as minorias tem sido tão includente quanto deveria. Não só do aspecto econômico vive a igualdade – o cardápio cultural deve atender também a quem tem outros tipos de limitações. As físicas, por exemplo. O artigo 12 da Lei nº 10.098, também conhecida como Lei da Acessibilidade, prevê que “locais de espetáculos, conferências, aulas e outros de natureza similar deverão dispor de espaços reservados para pessoas que utilizam cadeira de rodas e de lugares específicos para pessoas com deficiência auditiva e visual, inclusive acompanhante, de acordo com a ABNT, de modo a facilitar-lhes as condições de acesso, circulação e comunicação”. Mas será que os 45,6 milhões de brasileiros que possuem deficiência conseguem realmente usufruir dos espaços culturais? Convidamos a cadeirante Cláudia Andrade de Barros e a deficiente visual Ana Pereira Borges para nos ajudar a fazer uma leitura urbana. Elas visitaram conosco dois dos principais espaços culturais da cidade: o Palácio das Artes e a Praça da Liberdade. Os desafios encontrados por elas são vividos, diariamente, pelos portadores de deficiência que querem participar da agenda cultural em Belo Horizonte. Embora a capital esteja caminhando para um nível considerado bom de acessibilidade, de acordo com o coordenador municipal de Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência, José Carlos Dias Filho, muitos espaços fizeram adaptações, mas ainda deixam a desejar. Para Cláudia Barros, um dos maiores problemas é receber informação de que um lugar é adaptado e perceber, na prática, que ainda existem muitas falhas. “O que mais me incomoda é acessibilidade pela metade”, ressalta. Dias Filho reforça que o conceito de acessibilidade é mais abrangente do que a simples eliminação de barreiras físicas. “Antigamente, predominava essa ideia, mas hoje a acessibilidade incluiu também as barreiras de comunicação”, explica. A Lei determina, por exemplo, que os espaços culturais possuam intérprete de libras,

audiodescrição, adaptação de materiais de divulgação e sites acessíveis. O problema é que, embora a Lei de Acessibilidade tenha sido instituída em 2000, a realidade ainda está distante do ideal. A Assembleia Legislativa aprovou, no último dia 25, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) apresentada pelo deputado estadual Dalmo Ribeiro (PSDB), que prevê que as atividades e os serviços a cargo do Estado na busca da equidade no espaço público devem ser articulados com os municípios. “Essas ações devem prezar pela inclusão social das pessoas com deficiência”, diz Ribeiro. No interior, as atrações culturais acessíveis são ainda mais raras do que na capital. Atualmente, a efetivação das medidas previstas na Lei depende, essencialmente, de uma fiscalização eficaz. “A fiscalização começa de forma educativa. Cada órgão deve agir nas áreas de sua competência. O Ministério Público, a Defensoria Pública e o Procon ficam responsáveis por fiscalizar de todos e pela autuação”, explica Dias. Caso as alterações necessárias não sejam feitas pelo local notificado, são aplicadas multas. Mas é de extrema importância que os cidadãos também atuem como fiscalizadores e levantem a bandeira da acessibilidade. Leitura urbana Com ajuda da cadeirante Cláudia e da deficiente visual Ana, visitamos o Palácio das Artes e a Praça da Liberdade. O Palácio foi escolhido por ser o grande centro cultural da cidade, e a praça por receber os principais eventos artísticos da capital. Cláudia coordena o Centro de Educação Ambiental do Bairro Serra Verde, em Belo Horizonte, e Ana estuda Jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBh).

Não só do aspecto econômico vive a igualdade – o cardápio cultural deve atender também a quem tem outros tipos de limitações. As físicas, por exemplo.


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Palácio, a excelência da acessibilidade Fotos: Marcela Martins e Raquel Braga

Avaliação do Palácio foi positiva, mas há espaço para melhorias

É bem no coração da cidade que fica o espaço cultural mais famoso de Belo Horizonte. O Palácio das Artes é

mesmo majestade no quesito programação cultural: recebe os principais shows, peças e exposições do circuito

nacional e internacional. Mas será que esse reinado é para todos? Chegamos ao Palácio das Artes pouco depois das 10h e o local nos recebeu de portas abertas e largas, adequadas para a passagem de cadeirantes. A entrada também conta com uma rampa e corrimão. Bem em frente ao local, duas vagas são reservadas para deficientes. Cláudia e Ana avaliaram o hall do Palácio como um local bem adaptado, sem desníveis e sinalizado. Ana só fez uma ressalva: “O piso é muito escorregadio”. O relações públicas Oliver Zuccoli foi convidado a nos acompanhar na visita. “Para fazer visita guiada, basta agendar um horário”, comenta. Segundo Zuccoli, a parte administrativa do prédio ainda possui a estrutura original, mas a parte externa foi toda adaptada. O Grande Teatro possui rampas de acesso e poltronas reservadas para cadeirantes. Deficientes visuais são orientados pelos seguranças do local, que os acompanham até as poltronas. Ana não teve dificuldade para acessar o piso inferior; foi pela escada, que tem corrimão e piso antideslizante. Já Cláudia passou aperto no elevador para deficientes. “Ele é aberto. A úni-

ca segurança da pessoa é segurar num apoio. Além disso, é muito apertado, corre o risco do pé do cadeirante ficar preso entre a parede e o chão do elevador na hora da subida”, afirma. Segundo ela, um vidro fechando o elevador resolveria o problema. Já os banheiros estão de parabéns, na opinião das duas. As portas são largas, o apoio está bem posicionado e existe uma pia mais baixa. O Cine Humberto Mauro está totalmente preparado para receber Cláudia, mas Ana não conseguiria ter acesso aos filmes: a sala não conta com o recurso de audiodescrição. “Não conheço nenhuma sala em Belo Horizonte que seja adaptada para deficientes visuais”, conta a estudante de jornalismo, que vai ao cinema, mas só consegue acompanhar a parte falada dos filmes. Na opinião de Zucolli, o Palácio recebeu no ano passado uma exposição sensorial, mas eventos desse tipo ainda são pouco comuns. Por fim, chegamos ao café e aos dois jardins, onde encontramos lixeiras e bebedouros adaptados. Os jardins são muito usados para eventos ao ar livre, um convite à vivência da arte – que, felizmente, se estende também aos deficientes físicos.

Liberdade para quem? Quae sera tamen, a acessibilidade vai ter de chegar à Praça da Liberdade. Contudo, na opinião de quem vive o problema, a adaptação já está mais do que tardia. Não é para menos: o local é um dos mais movimentados e populares espaços culturais da capital, mas ainda é uma opção que deficientes físicos têm de descartar. Logo que chegamos à praça, surgiu o primeiro problema: a calçada ao lado da vaga de deficientes era mais alta do que o adequado, o que exigiu mais esforço de Cláudia. Ela aproveitou para dar seu testemunho a respeito de estacionamentos na capital. “Quase sempre as vagas estão ocupadas por pessoas sem deficiência. É um absurdo. Antes eu brigava com o governo, que não reservava os locais, mas agora tenho que reclamar da população, que não respeita”, desabafa. Atravessar a rua foi outro problema: toda a calçada da praça é cercada por uma canaleta de água, o que a torna ainda mais alta. Não existe rampa para cadeirantes nem nenhum tipo de sinalização para deficientes visuais. Na praça, Ana falou que sua principal dificuldade é ter noção de onde está. “Não há nenhum tipo de orientação, nada que me permita saber se ainda estou na praça, ou se desci para a avenida”, explica. Além disso, o piso próximo aos jardins é rebaixado, inclusive nos lugares onde havia bocas de lobo. Para atravessar de um lado para o outro da praça, mais problemas. Existe uma rampa de acesso, porém muito íngreme. O calçamento do corredor central é de pedrinhas, o que faz com que a cadeira fique trepidando. A solução é simples: basta colocar uma faixa de cimento. Outra faixa deveria ser feita verticalmente no corredor, para que o cadeirante pudesse se movimentar de forma mais ágil. “Durante um evento, preciso subir a rampa no início do corredor e me movimentar pela praça, normalmente lotada, para chegar na outra rampa, já no final”, explica Cláudia.

Para elas, muitos dos espaços culturais no entorno da praça apresentam problemas na estrutura. “Existe um degrau logo na entrada do Museu das Minas e do Metal”, observa Cláudia. Ana afirma que não sabe de nenhuma atração adaptada para deficientes visuais no circuito cultural da Praça da Liberdade, que foi inaugurado recentemente, no que deveria ser a era da acessibilidade. Por fim, depois de um passeio cheio de percalços, chegamos ao coreto central, onde só pode subir quem encara uma escada, sem piso tátil. Nós ficamos do lado de baixo: a Liberdade ainda não é para todos.

Apesar dos avanços, cadeirantes ainda enfrentam dificuldades para transitar pela capital


Perfil

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Pequeno grande mineiro Ator Glicério Rosário se destaca na TV e no cinema reprodução

Glicério em ação na peça São Francisco de Assis à Foz

Sheila Fernandes 6º Período

Edição: Dany Starling Ele é mineiro, tem 40 anos, 23 dedicados à arte. O trabalho desse polivalente artista é reconhecido e premiado em Belo Horizonte com justiça, pois domina como ninguém a atividade que escolheu como ofício. Seu trabalho se divide em atuar, dirigir e escrever o próprio texto. Sua versatilidade pode ser comprovada também nas criativas campanhas publicitárias, para as quais o ator é muito solicitado. Glicério Rosário fez sua estreia em teatro com uma montagem amadora na escola em que estudava, com o texto Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado, em 1989. Ali, o jovem, então com 17 anos, encantou-se com a possibilidade de ser artista e poder se comunicar com o mundo de um modo diferente e totalmente novo. Logo depois, participou da montagem de um texto do escritor Guimarães Rosa, Primeiras Estórias, em 1992, sob a batuta do diretor João das Neves. Dessa experiência, surge o primeiro grupo de teatro de que fez parte, Reviu a Volta, então amador. Mas naquela época existia uma barreira que separava o teatro amador do profissional. O próprio ator tinha seus preconceitos: “Quando comecei, havia uma visão mais aguerrida dos palcos, por causa do trabalho em grupo. No mercado, existia forte dicotomia em relação ao teatro feito dessa forma e aquele realizado por produtores. Eu só havia trabalhado assim e tinha uma posição carregada de pré-conceitos. Além disso, via com desconfiança toda

atividade teatral que envolvesse dinheiro. Mas após passar por movimentos e festivais, consegui mudar meu modo de ver as coisas. Não só minha visão ficou mais flexível, como também a realidade político-cultural mudou. Hoje, entendo que grupos de teatro podem ser ótimos produtores e, ao mesmo tempo, consigam provar suas qualidades artísticas”. Foi exatamente o trabalho em grupo que amadureceu o ator e o preparou para sua estreia como profissional, em 1992, com a Cia. Sonho e Drama no espetáculo Caminho da Roça, dirigido por Cida Falabella. Após esse trabalho, vieram novos desafios. Nos anos de 2006 e 2007, Glicério participou de dois longas metragens: Batismo de Sangue e Pequenas Histórias, produções mineiras com direção de Helvécio Ratton. Com corpo miúdo e cabelos ruivos, Glicério se agiganta quando está no palco. Prova disso é seu recente trabalho, São Francisco de Assis à Foz, peça teatral que concebeu, assim como criou a montagem, em parceria com Geraldo Octaviano. O espetáculo recebeu, na premiação do Sesc Sated 2011, de uma só vez, os prêmios de melhor ator, diretor e espetáculo. Devido às impecáveis apresentações, o ator chamou a atenção de produtores de elenco da Rede Globo. Em 2010, foi convidado a viver o Setembrino em Cordel Encantado, novela que foi ao ar às 18h. Antes disso, já havia participado de outras novelas na TV e minisséries, mas em participações menores. Foi em Cordel que o ator teve a chance de mostrar seu trabalho para o grande público e, também, usufruir da oportunidade de contracenar com ato-

res de nome, como Marcelo Novaes e Marcos Caruso. O trabalho em TV foi decisivo para sua carreira. “Fazer novela derrubou vários preconceitos meus quanto à qualidade de interpretação do ator em televisão. Mostrou-me a necessidade de uma técnica específica (atuar para a câmera) e as possibilidades de se fazer um trabalho com qualidade”, avalia. “Consegui entender o quanto o teatro auxilia a interpretação para a câmera, mas o quanto é necessário fazer a distin-

ção de um e outro veículo. Trabalhar com atores tarimbados ajuda muito para quem está pouco habituado à linguagem. No meu caso, devo ter dado muita sorte, pois tive relacionamentos profissionais muitos saudáveis, mesmo com aqueles que são considerados celebridades. Destaco a parceria e o companheirismo do Marcelo Novaes, com quem fiz dupla na novela. Aprendi bastante com ele”, completa. Glicério, porém, não sossega. Mal terminou de fazer a novela e já está se preparando para encarar mais um desafio. “Estou ensaiando com o ator Claudio Marcio uma nova montagem com a direção de Geraldo Octaviano. É uma criação inspirada em Edgar Allan Poe e seu famoso poema ‘O corvo’. A ideia é fazer um espetáculo cômico que homenageia o estilo trágico. A previsão é estrear no fim de outubro deste ano. Em cinema, vou participar do longa de Helvécio Ratton, O segredo dos diamantes, que será rodado na cidade do Serro”. Toda essa dedicação ao trabalho mostra o entusiasmo do autor com a cena cultural de Belo Horizonte e com o fortalecimento das políticas culturais, como investimentos em pesquisas, leis de incentivos e programas de governo que favorecem a arte e estimulam a capacidade criativa dos artistas mineiros. De acordo com Glicério, “a criação teatral está menos polarizada que há 10 anos. Fatores como campanhas de popularização do teatro, festivais nacionais e internacionais, leis de incentivo e captação influem muito nisso. Creio que, hoje em dia, apesar das dificuldades que ainda existem, as montagens realizadas conseguem ter mais recursos que viabilizam a pesquisa, a produção e a circulação. Isso contribui para a quantidade e a qualidade do que é feito”.


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Literatura

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Para gost

Livrarias Ouvidor, Scriptum e Quixote transformam um pedacinho d fotos: jéssica amaral

a passear”. A chegada de mais uma livraria tornou a rua ainda mais atraente. Quixote está há nove anos na Fernandes Tourinho; Scriptum, há 11. Ambas, contudo, consideradas jovens quando comparadas com a Ouvidor. Pioneira, tal como o explorador português que dá nome à rua onde está instalada, ela desbravou o local em 1974. O que garante ao menos três gerações de clientes fiéis, que passam, de pai para filho, o gosto pela leitura e pela convivência entre os livros. Quem conhece bem essa história é o atendente Adriano dos Santos, que chegou à Ouvidor quando ainda era adolescente. Hoje, 26 anos depois, ele viu boa parte de sua clientela crescer. “Muitos meninos, que vinham trazidos por seus pais, chegam, hoje com seus filhos, que vão escolher e comprar seus primeiros livros. A renovação é muito grande. E gratificante também”, conta. Experiente, Adriano viu a chegada das outras livrarias na vizinhança. O que, para ele, não é problema. “A concorrência estimula. Talvez não trabalhássemos tanto para manter a qualidade da loja e do atendimento se elas não estivessem por aqui”, entende o vendedor, que comemora o aumento na circulação de clientes. “A pessoa sai de casa para ir a uma livraria, mas acaba passando nas outras, não tem jeito”. Para Welbert Belfort, o Betinho, dono da Scriptum, a circulação de clientes é importante sob dois aspectos. “Você conjuga cultura e economia. Ter três livrarias tão próximas é um chamariz muito forte. O público transita pelas lojas, compra um livro aqui, outro acolá. Todos saem ganhando”, afirma o livreiro, que trabalhou na Livraria Leitura por dois anos antes de investir em um negócio próprio.

Pioneira: Livraria Ouvidor está na Fernandes Tourinho desde 1974

Dany Starling 7º Período

Edição: João Luís Chagas Acordar mais tarde, sem a correria do dia a dia e a obrigação de chegar cedo ao trabalho ou na escola. Colocar uma roupa mais despojada, confortável, um sapato que não aperte os pés. Dirigir por ruas mais vazias, livres do costumeiro trânsito infernal. Encontrar os amigos e, em meio a um café, botar o papo em dia. As manhãs de sábado são um autêntico convite à liberdade, à indolência e ao prazer. Nos últimos anos, os belo-horizontinos encontraram uma alternativa agradável para aproveitar essas manhãs. Fora dos parques, praças e clubes, o ponto de encontro é na Savassi, bairro tradicional da capital mineira, famoso pelos barzinhos com mesas nas calçadas, mas também por suas livrarias. Charmosas, modernas e intimistas, elas proporcionam um lazer incomum, porém saboroso, aos moradores da cidade. São dezenas delas, espalhadas pelas ruas e avenidas do bairro. Mas um pedacinho em especial pode ser considerado o circuito cultural da Savassi. Afinal, são três livrarias num espaço de pouco mais de 150 metros. Do começo da Rua Fernandes Tourinho, cruzando a Pernambuco, até a esquina com a Getúlio Vargas, estão a Scriptum, a Quixote e a Ouvidor. Verdadeiro deleite para os amantes dos livros. Nem só de livros, contudo, vive a tríade da Fernandes Tourinho. Afinal, eles podem ser comprados em qualquer lugar. Na internet, pelo telefone ou nas insossas megastores dos shopping-centers. Mesmo nas livrarias de rua o cliente encontra um clima aconchegante, atendentes simpáticos e que conhecem do assunto, além de obras que fogem à mesmice dos best sellers e dos títulos de autoajuda. A Quixote vai além. Enquanto escolhe qual livro vai comprar, o cliente pode tomar café, suco, cerveja

ou, até mesmo, um bom vinho. Numa dessas manhãs de sábado, um frequentador degustava uma cachacinha, enquanto lia O Terceiro Reich em Guerra, último volume da trilogia sobre a Alemanha Nazista. Concorrência saudável Se não possuem o serviço de bar e lanchonete, a Ouvidor e a Scriptum têm boas opções gastronômicas em seus vizinhos de porta. Mesinhas nas calçadas misturam sucos, salgados e tortas apetitosas com livros das mais variadas espécies. A união agrada aos consumidores, que, muitas vezes, saem de casa de barriga vazia e deixam para tomar o café da manhã junto à sua leitura favorita. “Como trabalhamos com obras selecionadas, o preço influencia muito pouco na decisão de compra. É o mesmo praticado na internet ou nas grandes redes. Mas, na livraria de rua, o cliente encontra, além do livro, um lugar especial, com música ambiente agradável e a opção de tomar seu café, sua cerveja e encontrar amigos. É um espaço de convivência”, avalia o dono da Quixote, Alencar Perdigão. Há nove anos na Fernandes Tourinho, Alencar revela que a presença da Scriptum e da Ouvidor – além do Café da Travessa, fechado este ano – influenciaram na decisão quando escolheu o ponto de sua loja. “Já era um lugar registrado, um verdadeiro corredor cultural de Belo Horizonte, onde as pessoas estavam habituadas

Eventos e obstáculos Se uma simples visita às livrarias já é divertido, os eventos promovidos pela Ouvidor, Scriptum e Quixote despertam a atenção do público habitual e atraem mais visitantes. Os sábados são marcados por lançamentos de livros, debates com autores, leituras

Livros, cafés e guloseimas. Quixote se transforma em espaço de conviv


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Literatura

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tar de ler

da Rua Fernandes Tourinho em corredor cultural de Belo Horizonte de textos ou oficinas literárias, muitas vezes, nas três lojas ao mesmo tempo, de modo a unir centenas de pessoas nos dois quarteirões. “O sábado já se tornou característico e os clientes se habituaram. Trazem a família, os amigos. Outros autores aparecem para trocar ideias, iniciar um novo projeto”, explica Betinho. Alencar e Betinho se orgulham do trabalho realizado pelas livrarias, mas lamentam a falta de incentivo público. “Os governantes gostam de apontar a Savassi como circuito cultural de Belo Horizonte, mas não fazem nada para ajudar. Não temos nenhum tipo de apoio, seja do governo municipal ou estadual. As livrarias só permanecem graças à resistência dos donos”, revela Betinho. Alencar faz coro com o colega. “A concentração de livrarias não ganha menção sequer no catálogo da Belotur e não aparece nos guias de turismo. Se a administração pública se preocupa com a cultura, deveria atentar para esse ponto. Na França, por exemplo, o governo subsidia aluguéis e dá incentivos fiscais. Em BH, nós não temos nenhum tipo de ajuda”, lamenta. A reforma da Praça Diogo de Vasconcelos também foi criticada, não somente por ter provocado o fechamento da Travessa. “Tiraram 300 vagas de estacionamento da região. No rotativo, esse número ganha muito mais proporção. O beneficiado com tudo isso foi o [shopping] Pátio Savassi”, reclama Betinho, entre um cigarro e outro. Betinho revela que os donos de livraria estão se unindo para levar essas questões ao poder público. “Já fizemos uma reunião prévia e outra será feita agora no fim de outubro”. Além das queixas aos governantes, os livreiros discutem a possível formação de uma pessoa jurídica única para fins de importação, compras em maior volume, maior rapidez na chegada de lançamentos e redução dos custos. Se os problemas são grandes e as despesas aumentam sem parar, onde os livreiros encontram motivação para continuar com seus negócios? “Na satisfação de ver o cliente achar a obra que procurava há tempos e não encontrava. Seja para seu lazer ou trabalho. Isso

vência

Scriptum, livraria e editora: 75 títulos lançados nos últimos sete anos

faz valer a pena”, diz Betinho. Para Alencar, “viver no meio dos livros é fundamental. Promover ideias, fazer parte do circuito. Mesmo com a ansiedade de não poder ler tudo que gostaria”. Ao contrário de outras capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro, em Belo Horizonte ainda é possí-

vel encontrar livrarias de rua. Talvez não tanto como se gostaria. Ainda se lê muito pouco no Brasil e, na capital mineira, os números não fogem da média nacional. Mas, abnegadas, Ouvidor, Scriptum e Quixote seguem firmes. Verdadeiros baluartes, refúgios da cultura, da arte, da leitura. Para o nosso bem.

Conheça as principais livrarias da Savassi Ouvidor, Scriptum e Quixote não são as únicas livrarias da Savassi. Confira os pontos bacanas de cultura literária na região. Livraria Capitu Rua Inconfidentes, 1.169 Tel: 3261-4634 Status Café Cultura e Arte Rua Pernambuco, 1.150 Tel: 3261-6045 www.livrariastatus.com.br Mineiriana Rua Paraíba, 1.419. Tel: 3223-8092 www.mineiriana.com.br Companhia do Livro Rua Paraíba, 1.342. Tel: 3227-3957 Livraria Ouvidor Rua Fernandes Tourinho, 253 Tel: 3221-7473

Livraria Scriptum Rua Fernandes Tourinho, 99 Tel: 3223-1789 www.scriptum.com.br Café e Livraria Quixote Rua Fernandes Tourinho, 274 Tel: 3227-3017 www.livrariaquixote.com.br Café com Letras Rua Antônio de Albuquerque, 781 Tel: 3225-9973 www.cafecomletras.com.br Livraria Leitura Avenida Cristóvão Colombo, 167 Tel: 3287-5206 www.leitura.com.br


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Dossiê Hip Hop

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A cidade discute a cidade Diversidade de opiniões marca debate sobre o movimento Hip Hop em Belo Horizonte Natanael Vieira

Daniel “Perna” Felippetto prefere transmitir paz e alegria nos seus grafittes

Leilane Stauffer Natanael Vieira 6º Período

Edição:Dany Starling “A cidade se explica pela possibilidade da diferença. E a diferença se sustenta pela possibilidade de construção de espaços de cultura em comum”. Inspirado pelo raciocínio de Aristóteles, o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Paulo Carrano, acredita que a cidade deve se constituir de pessoas e coletivos diferentes. Tais espaços precisam ser postos em contato, a fim de construir um ambiente dialógico, sem perder as peculiaridades. Exemplo das tramas urbanas, inerente à ideia de Carrano, é o movimento Hip Hop, que constitui-se de expressões em várias áreas, com voz, cor e forma. Ao mesmo tempo em que mediam a comunicação entre os participantes dessa cultura com a sociedade, o grafite, a dança e o rap – pilares do movimento – promovem a busca do exercício da cidadania. Em BH, o Hip Hop tem se destacado pelo surgimento ou reafirmação de muitos jovens articuladores, que participam do Duelo de MCs. O evento ocorre nas noites de sexta-feira, embaixo do Viaduto Santa Teresa, e leva ao “palco” dois duelistas, que improvisam versos. O encarregado de estoque Douglas Nascimento, conhecido como “MC Douglas Din”, reflete no rap sua noção particular de cidadania. Ele acredita na força do exemplo. “Nasci e vivo na favela. Sei que muitos que estão nas drogas e no crime já receberam conselhos. Meu exemplo é prático. Procuro saber das questões da cidade e das pessoas e, em cima disso, discuto os temas”, argu-

menta o MC. Além das visões otimistas, as tramas contemporâneas também abrem espaço à crítica. A professora e pós-doutora em Cidades e Culturas Urbanas Regina Helena Alves, titular do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não identifica o Duelo de MCs como fonte de irradiação e ação da cidadania. Para ela, a expressão da inconformidade dos participantes com o suposto descaso do poder público, em relação a problemas que assolam a região onde ocorre o Duelo – conhecida pelo consumo de

drogas –, perdeu a potência política. “Eles podem falar da cidadania porque a cidadania é uma palavra vazia de conteúdo. Você não sabe o que significa isso, exatamente. Estão dizendo o quê, afinal? Que a luta política é ter o banheiro?”, problematiza Regina, ao citar pedidos dos participantes à prefeitura: banheiros químicos e iluminação embaixo do viaduto. Questões amplas, como a violência, a corrupção, a prostituição ou a ação da polícia nas favelas seriam, na visão de Regina, mais importantes de serem discutidas. No entanto, avalia que o

problema não diz respeito, especificamente, ao movimento Hip Hop, de maneira geral, mas a outro de ordem maior. “Existe uma institucionalização da marca, da imagem cultural da periferia”, explica. A professora acredita que o uso dessa figura – da periferia pobre, dos jovens que tentam melhorar o padrão por meio de shows de rap ou funk, ou pela pintura –, entre outras coisas, acabou por criar um produto de troca ou venda, que nada tem a ver com a expressão da cidadania. “Há quem ganhe com isso”. Já a história do almoxarife Daniel Felippetto ilustra de que maneira o Hip Hop mudou sua forma de expressão. “Eu desenhava algumas coisas em casa, mas, nas ruas, só pichava. E fazia por ibope, status ou para ganhar respeito. Não havia uma mensagem”, admite. “Perna”, apelido usado por Daniel para assinar seus grafites, passou a observar o traçado dos desenhos a spray nos muros e começou a se aprimorar. “Fico feliz quando alguém olha para um grafite meu e diz que é arte”. Hoje, desenvolvendo estilo próprio, ele procura transmitir, nas cores e nas formas, alegria e paz, ou mesmo um protesto, dependendo da ocasião. Recentemente, inclusive, o desenhista teve uma personagem reconhecida pela Biblioteca Nacional. Sua criação foi patenteada e, agora, sonha em ver seus desenhos em camisas, blusas e bonés. Para Regina Alves, o grafite está institucionalizado e perdeu potência contestadora e de subjeção. “O grafite hoje é primitivo. Existe uma ação política para promovê-lo, por meio de ONGs e projetos, porque o pichador incomoda. Não quer dizer que isto seja ‘menor’. É claro que o cara é um artista. O que perdemos foi o lugar da mistura da contestação”.

O debate da juventude que oKupa a cidade Pluralidade, convergência de ideias e opiniões acerca da cidade que se constrói todos os dias. O movimento A Juventude oKupa a Cidade?, criado em 2002 pelo Observatório da Juventude (OJ), da UFMG, é fruto dessas características presentes no espaço urbano de Belo Horizonte. Motivado pela percepção de que “a cidade está privatizada”, o pós-doutor em Ciências Sociais e coordenador do OJ, Juarez Dayrell, organizou, por meio do oKupa, o ambiente de encontro e diálogo para os movimentos que levam em seu discurso a ocupação do espaço coletivo. “A perspectiva de Belo Horizonte hoje é a tentativa de se construir a cidade para poucos”, acredita o professor, citando eventos “públicos” em que são cobrados ingressos. “O espaço público é público, mas aqui

há uma tentativa de constrição. Da forma como vêm agindo nossos governantes, a leitura sobre democracia pouco vai resolver. Acho que essa deficiência se relaciona à questão da postura política e do projeto de ser humano que se pretende”, lamenta. Dayrell acredita no exercício de uma cidadania que nasce no seio da própria sociedade e não daquela que é apresentada pelos meios oficiais. Assim, constrói-se o sentido da ocupação do espaço público. “Se cada qual se segmenta no seu espaço, a tendência é estimular a violência. Por que, assim, não há o exercício da convivência com a diferença”, completa. Desta forma, o espaço urbano de Belo Horizonte presencia o encontro, o confronto e a convivência com as particularidades por meio de mobilizações de cidadãos, principalmen-

te de jovens, para ocupar a cidade. “Praia da Estação”, “Fora Lacerda”, “Contra Copa”, “Duelo de MCs” são exemplos de movimentos juvenis belo-horizontinos que trazem consigo o direito de repensar e recriar a cidade. A necessidade de agregar eventos como esses e promover a troca de experiência e ideias entre eles motivou o OJ a criar o “oKupa”. No início, as atividades propostas seguiam a linha de debates de temas considerados, pelos organizadores, relevantes para a juventude. Com caráter mais acadêmico e voltado para educadores, pessoas desenvolviam teses e se apresentavam. Passado algum tempo, Juarez Dayrell lembra que “os próprios jovens começaram a questionar e demandar espaço próprio”.


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A arte do improviso nas ruas do interior

Movimento de Rua leva elementos do Hip Hop às cidades da Região Metropolitana Rafael Arruda João Luís Chagas Thalvanes Guimarães 6º Período

Fundado há pouco mais de um ano em Igarapé, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o Movimento de Rua busca promover os elementos da cultura Hip Hop nos municípios que ficam próximos à capital. Danças, grafites, músicas, rimas improvisadas e desenhos são apresentados ao público, que, a princípio, demonstra certo receio em relação ao conteúdo, porém, se familiariza assim que conhece de maneira mais profunda. Desse modo, as cidades de Betim, Brumadinho, São Joaquim de Bicas e Santa Luzia acompanham um trabalho que busca descobrir talentos, incentivar manifestações culturais e quebrar preconceitos. O projeto é baseado no coletivo Família de Rua, de Belo Horizonte, criado em 2007 e que promove, entre vários eventos, o duelo de MCs sob o Viaduto Santa Tereza, no Centro da cidade. Principal idealizador do Movimento de Rua, o DJ e MC Allan Belchior, de 22 anos, é o porta-voz do grupo. Bem articulado, conta como foram seus primeiros passos no mundo Hip Hop. “Tudo começou na esquina da rua da minha casa. Ali, conheci os garotos mais velhos, que gostavam de fazer rima. Ouvia os versos e pensava:

como eles conseguem fazer isso? Achava impossível. Porém, com o passar do tempo, fui treinando e sentindo que poderia melhorar. Hoje, tenho facilidade no improviso”, afirma Allan, conhecido como Two-Pé. Para ser um bom MC, é preciso ter muita criatividade. Saber ouvir músicas e ter gosto pela leitura de livros, jornais e dicionário. Até a Bíblia ajuda a ampliar o repertório do rapper. Durante o duelo, cada participante tem 45 segundos para apresentar sua rima. No total, são dez sequências por combate – cinco para cada MC. A decisão do vencedor é dada pelo voto dos jurados e do público. Se houver empate, um terceiro jurado é chamado. Aos que desejam aprender a rimar, Allan dá um conselho. “Não fiquem pensando no que vão falar. Simplesmente deixem a imaginação fluir na hora. Ouvir rimas de outros compositores também é importante. Leitura, então, nem se fala. Tudo isso vem para acrescentar à fluência do MC no duelo”, disse. Além de Two-Pé, outros talentos foram revelados no Movimento de Rua, como os MCs Game, Roque Junior e Lilrinox, o b-boy (dançarino) Daniel e o grafiteiro Bomb. O grupo demorou um bom tempo para se consolidar na região. No começo, apenas um boombox – caixa de som portátil – era utilizado para fazer as mixagens das composições e pouca gente acompanhava o trabalho

dos integrantes. Porém, em setembro deste ano, durante a realização da quinta apresentação na Praça da Matriz, em Igarapé, mais de quinhentas pessoas acompanharam a vitória de MC Crizim, de Belo Horizonte, que bateu 12 adversários no duelo de rimas. Criatividade e ousadia não faltaram nas improvisações protagonizadas pelos talentosos rappers, que levantaram o astral do público presente na praça. Embora os eventos realizados tenham recebido aceitação positiva do público em geral, Allan afirma que o apoio das autoridades ainda é fraco. “Em Igarapé, a única coisa que consegui foi o alvará da prefeitura para colocar o duelo de MCs em correto funcionamento. Fui até a administração de Igarapé, apresentei os projetos que, em minha opinião, podem mudar muitas coisas para melhor, mas eles não deram ouvidos. Todas as edições dos duelos de MCs que apresentamos foram sem apoio. Equipamento, estrutura, organização, divulgação, foi tudo por conta dos integrantes do Movimento de Rua”, revelou. Assim como ocorre em Igarapé, nas outras cidades o apoio dos governantes também não é o esperado. Em Betim, Allan conta que existe um espaço próprio para a realização dos duelos de MC’s, mas a administração local não se responsabiliza pela coordenação. “Em Betim, existe o local adequado. reprodução

Desafio de MCs na Praça da Matriz, no centro de Igarapé

Porém, é como se você jogasse um osso para dezenas de cachorros e deixasse que eles se virassem, para ver quem ficaria com a comida. Lá é a mesma coisa, não tem a organização que nós gostaríamos. Mas não podemos reclamar, só de ter o espaço, já é um passo positivo”, comentou. Preconceito e Orgulho Tanto a Família de Rua, em Belo Horizonte, quanto o Movimento de Rua, nas cidades da Região Metropolitana, já foram alvo de preconceito. Recentemente, em nota publicada em um jornal da capital, um famoso colunista social disse que “o desempenho de cantores de rap assustou os convidados do Baile da OAB, sobretudo as mulheres”. O baile, realizado na Serraria Souza Pinto, aconteceu no mesmo dia em que uma edição do Duelo de MCs, que sempre ocorre sob o Viaduto Santa Tereza. Para ir de um local até o outro, basta atravessar a Avenida dos Andradas, via que os separa. O colunista, infeliz em seu comentário, deu a entender que o evento de Hip Hop atrapalhou a festa da alta sociedade voltada para os advogados. Uma coisa que contribui para a visão preconceituosa é justamente o uso de drogas em locais públicos. Como o duelo de MCs é um evento que ocorre nas ruas, qualquer um pode chegar e fazer o uso de entorpecentes no meio de dezenas de pessoas. “Todos nós somos totalmente contrários ao uso de droga durante o evento, justamente para não afastar as boas pessoas do convívio. Porém, é difícil fazer o controle. A gente não pode impedir quem usa cocaína, loló, maconha. Se de dez pessoas presentes no Duelo, apenas uma utilizar esses tipos de drogas, o restante é mal visto pelas pessoas. Infelizmente, o mundo é assim”, afirma Allan. Para Dyonatan Antunes, de 21 anos, também conhecido como MC Game, vai ser difícil ocorrer a quebra total do preconceito por parte de algumas pessoas. “O preconceito sempre existiu, em qualquer lugar e classe. Depende muito do modo como enxergamos as coisas. Em minha opinião, talvez pelo fato de o rap ser um som que vem das ruas, criado muitas vezes por jovens de periferia, visando a cultura da liberdade de expressão e descrevendo a realidade do nosso país”, analisou. Segundo Game, muitas pessoas julgam e condenam o Hip Hop sem conhecer os modos em que os MCs encontram as informações das composições. “Muitas pessoas entendem de maneira errada os recados transmitidos pelos MCs. Isso acaba prejudicando um pouco a imagem do rap nacional e, por esses motivos, bons compositores acabam perdendo seus espaços”, disse.


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Belo Horizonte, outubro DE 2012

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Cabo do Medo Rafaella Arruda 8º Período

Edição:Dany Starling Na atual cidade de New Essex, Estados Unidos, um homem recém-saído da prisão retorna à liberdade com o desejo único de vingança. Condenado a 14 anos após estuprar uma jovem, Max Cady (Robert De Niro) parte em busca de Sam Bowden (Nick Nolte), advogado que havia assumido sua defesa no caso e, logo após, abandonado ao tomar conhecimento do grave estado em que a moça atacada se encontrava. Na cadeia, Cady descobre que informações acerca da vida promíscua da vítima, capazes de reduzir sua pena, haviam sido omitidas pelo ex-advogado. Agora, nas ruas, ele quer se vingar, e para isso não medirá consequências. Bowden, a esposa Leigh (Jessica Lange) e a filha adolescente Danny (Juliette Lewis) serão os alvos desse violento psicopata, em uma trama surpreendente sobre traição, vingança e assassinatos. A estrutura narrativa linear de Cabo do Medo revela de, forma gradual, o perfil dos personagens. Em fragmentos breves, apresenta os protagonistas que constituem um único núcleo narrativo: Max Cady e a família de Sam Bowden. A partir da primeira virada violenta e dramática da história, com o estupro da amante de Bowden, Lori Davis (Illeana Douglas), as ameaças de Cady tornam-se fatos, o que garante expectativa e suspense para os próximos acontecimentos. O vilão revela sua perversidade e deixa claro do que realmente é capaz. Irônico e destemido, Cady não teme as leis e a possibilidade de retornar à prisão. Violento, usa de toda a força física para agredir e matar. Cruel, lança mão de tortura psicológica ao fazer ameaças constantes e sugerir às suas vítimas as mais constrangedoras situações. O corpo forte e coberto por tatuagens constitui-se numa arma letal, resultado da preparação durante os anos na cadeia. Fanático religioso, recita trechos da Bíblia em momentos cruciais da trama, como durante a agressão encomendada por Bowden ou no embate final, na casa flutuante. A forte ligação com a religião e a visão estranha que possui de Deus, inclusive, contribuem para tornar Cady um personagem interessante e curioso não apenas do ponto de vista físico, mas também moral e psicológico. Ele surpreende em atitudes não esperadas, como ao se esconder sob um carro em fuga ou ao se disfarçar com as roupas da empregada da família,

após assassiná-la. Também ao se aproximar de Lori e Danny, sem revelar quem realmente é, Cady gera grande expectativa sobre quando e como se manifestará. A sequência entre Cady e Danny na escola é um desses exemplos. Ao se encontrarem – após uma tragédia bem planejada pelo vilão –, a jovem não tem consciência da ameaça a que está submetida, o que garante a tensão da conversa do início ao fim. Sabemos do mal que Cady quer fazer, mas ainda não sabemos de que maneira. Sabemos do que ele é capaz, enquanto ela acredita estar apenas conversando com um professor. Com diálogos inteligentes e repletos de subjetividades, a inocência de Danny, brilhantemente representada por Juliette Lewis, se contrapõe à malícia de Cady em uma sequência envolvente. Ela representa o estereótipo da adolescente em fase de transição e questionamentos, e seus trejeitos físicos, andar e olhares, nos fazem percebê-la como uma jovem imatura e inexperiente, presa fácil para uma mente perversa como a de Max Cady. Sam Bowden, apresentado como um frio advogado e pai de família, também revela mais de seu caráter ao longo da trama, ao trair a esposa e ter problemas de relacionamento com a filha. Enquanto alega sensatez ao ter abandonado a defesa de Cady 14 anos antes, Bowden se vale de métodos ilegais para capturá-lo, quando paga capangas para agredir seu algoz. Assim, à medida que as ameaças de Cady aumentam e Bowden sente-se acuado, percebemos nele grande determinação em proteger sua família, nem que, para isso, semelhante ao rival, vá até as últimas consequências. Nos aspectos técnicos de direção, o uso de violência extrema (mostrada com realismo), a abordagem de conflitos familiares, a tensão psicológica íntima vivida pelos personagens e a submersão destes em uma atmosfera de traição e assassinatos são elementos que confirmam o estilo de Martin Scorcese. Basta lembramos de Taxi Driver, Os Bons Companheiros e Touro Indomável, obras de destaque do cineasta. Por tratar-se de um suspense, Cabo do Medo prioriza a surpresa e a expectativa e tem na trilha sonora e na fotografia elementos essenciais de reforço do gênero. Cabo do Medo representa mais um suspense hollywoodiano de qualidade. Com uma trama envolvente, personagens fortes e um clima sombrio e ameaçador, é mais um exemplo da condução fascinante de Scorcese em parceria com o brilhante

Robert de Niro e Nick Nolte duelam em Cabo do Medo, de Martin Scorsese

Título em português: Cabo do Medo Título original: Cape Fear Pais: Estados Unidos Ano: 1991 Gênero: Suspense Direção: Martin Scorcese Roteiro adaptado: Wesley Strick, a partir do romance de John D. MacDonald Remake de Círculo do Medo, de 1962, com direção de Jee L. Thompson

Robert De Niro. Fotos: reprodução


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Leveza e liberdade no novo álbum de Thaís Gulin reprodução

Marina Fráguas 6º Período Edição: João Luís Chagas Pisar na avenida do samba pela primeira vez é algo indescritível para a maioria dos sambistas, afins e qualquer mortal que se preze, goste de samba ou não. Estar no “chão de esmeraldas” da Mangueira pode mudar o rumo de muitos bambas e, para Thaís Gulin, rendeu um belo trabalho e uma identidade bem definida. Nascido de uma fantasia de Tropicália, sob aborrecimentos dos amigos que diziam que sua distração atrapalharia todo o desfile da Sapucaí, surgiu o “anti-samba” ôÔÔôôÔôÔ, no qual Thaís teve a inspiração para mesclar samba com batidas de rock no final. Da música, surgiu um álbum inteiro. Em ôÔÔôôÔôÔ, título que também dá nome ao álbum, o desempenho da moça com cara e jeito de menina foi revelado, bem como toda sua força, expressividade, sensualidade e uma voz bela e surpreendente. Sua banda, pertencente à classe de novos bons artistas da MPB, é composta por Fernando Caneca (guitarra e violão), Lancaster Lopes (baixo), Leo Brandão (teclados e acordeom), Thiago Silva (bateria) e Johnson Almeida (trombone). Essa moça tá diferente Mesmo antes de ôÔÔôôÔôÔ, Thaís se mostrou influenciada por artistas livres, como ela mesma define. Até se tornar cantora, Gulin estudou teatro, atuou no cinema, participou de musicais e, após um tempo no exterior, aos 17 anos, foi morar no Rio de Janeiro. A curitibana ruiva, misteriosa e com jeito despojado, fez várias peças até enveredar de vez para outros palcos. Na cidade maravilhosa, montou seu repertório, conheceu pessoas do meio e conseguiu descobrir seu talento também como compositora. A cantora preparou-se muito bem para essa estreia fonográfica. Estudou canto e violão no Conservatório de MPB de Curitiba. Lá, montou seu repertório, conheceu pessoas do meio e conseguiu descobrir seu talento como compositora. Bacharelada em Música Brasileira na Uni-Rio, a moça simpática e de sorriso fácil, demorou três anos para conceber, formatar e, finalmente, gravar seu primeiro disco, em 2007, intitulado Thaís Gulin, pela gravadora carioca Rob Digital. Com o lançamento do CD, Thaís apresentou, então, com muita consistência e qualidade artística o novo nome da música brasileira. Thaís tem uma voz forte, capaz de alternar entre a agressividade e a sutileza, o que lhe conferiu o status de revelação musical por críticos da Rolling Stone Brasil e Folha de S. Paulo. A cantora também foi indicada à categoria “cantora revelação” no Prêmio Rival BR de Música Brasileira. No entanto, seu álbum ôÔÔôôÔôÔ e sua turnê de lançamento, na estrada desde o ano passado, foi o que adquiriu mais notoriedade na imprensa e lançou um repertório mais marcante e alegre, mesclando sambas a psicodélicas canções. Hoje, Thaís vem causando surpresa e interesse com seu último trabalho, muito elogiado pela crtica. Assumindo referências musicais como Tom Zé, Björk, Gal Costa, Nara Leão, Ney Matogrosso, passando também por Cássia Eller e João Gilberto, a cantora conseguiu tornar autêntico um trabalho que reuniu diversas influências diferentes. O disco, que retrata os dez anos em que viveu no Rio, mistura a fantasia da atmosfera carioca ao realismo e à agressividade da cidade encarnados na sociedade. Sem atrapalhar o enredo Contendo composições de sua autoria, como

“Horas Cariocas”, o álbum conta com os parceiros Kassin e Alê Siqueira no jazz instrumental “The Glory Hole”; Moreno Veloso - embalador e convidativo “Frevinho” me deixa te mostrar pro mundo, eu quero te ensinar a festa - em que o arranjo perfeitamente equilibrado mostra o perfeccionismo da cantora na produção do seu trabalho. Adriana Calcanhotto também contribui de forma formidável para a canção “Encantada”; e Ana Carolina, que mostrou que pode fazer diferente do que vem sendo apresentado em sua carreira, com seus ótimos versos em “Quantas Bocas”. No time dos veteranos, Tom Zé garante humor e a imersão no universo lúdico com “Ali sim, Alice” – feita especialmente para Thaís. Segundo ela, a canção de Tom Zé se deu por meio de um pedido. “Liguei para ele e a sua esposa atendeu ao telefone. Disse a ela que queria muito que ele fizesse uma música para este segundo CD e ela mesma respondeu: ‘Sim, claro! Ele irá fazer, com certeza!’”, conta, descontraída. Apesar de linguagens diferentes, “Horas Cariocas” se comunica, incrivelmente, com “Se Eu Soubesse”. Nessa última, Chico Buarque oferece à amada a bela e biográfica canção em que ambos participam nas gravações. “O Francisco disse que queria fazer uma canção para meu novo álbum. Eu respondi que sim, que seria ótimo”, conta. Certamente, Chico e Tom Zé imaginaram uma menina linda, meiga dançando balé ao som de uma caixinha de músicas. Thaís coloca seus anos de teatro e sua carreira de atriz em prática, mesclando talentos diversos e que

se completam de forma surpreendente. Ao longo do disco, o espectador vai conhecendo a cantora, que transmite suavidade, combinada com suas características bem definidas. Em “Cinema Americano”, Thaís coloca sua sensibilidade e força irradiada da alma, e a mesma firmeza é possível notar, em sua presença, a sensualidade e o traço forte de “Revendo Amigos”. Para Thaís, o álbum conseguiu pegar os timbres que as sensações causam. A harpa, os pianos agudos, a guitarra distorcida, tudo isso é capaz de gerar a sensação de amor, dor, mistério, tudo aquilo que inebria. Os arranjos se encaixaram muito bem em todas as faixas e, não podendo esquecer das menções honrosas às faixas “Água” e sua malemolência, e ao indie de “Little Boxes”. Thaís, que possui o selo Slap, da Som Livre, dedicado à divulgação de novos artistas, embora esteja fora do cenário independente, se insere na peculiaridade e autenticidade do gênero contemporâneo, que não foca no comercial. Longe de estereótipos clássicos como “nova MPB”, e de ser taxada como jovem artista que se espelha em seus precedentes, a cantora deixa claro seu estilo e proposta definidos. Para aqueles que esperam nada mais do que uma jovem bela e com boa voz, para a imprensa que não se cansa de referir-se a ela como “a namorada do Chico”, e para os demais que querem conhecer melhor seu trabalho, as músicas cantadas por Thaís deixam todos boquiabertos e duplamente atônitos pela surpresa e pela vontade de cantar todas as músicas do álbum.


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Crônicas

Belo HorIzonte, outuBro de 2012

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Meus heróis João Luís Chagas 6º PeRíodo

Dia 13 de agosto de 2012. Este foi, possivelmente, um dos dias mais felizes da minha vida. O motivo? A confirmação do show de um certo senhor que atende pelo nome de Robert Plant. Para os que não conhecem, ele foi o vocalista da maior banda de Rock que esta pequena bolota azul já viu: o LED ZEPPELIN. Desculpem-me os fãs dos Beatles, mas essa é a mais pura verdade. Enquanto John Lennon se trancou em seu mundinho com Yoko Ono, o Led Zeppelin fazia shows arrebatadores. Multidões assistiam aos espetáculos psicodélicos promovidos por Robert Plant, Jimmy Page, John Bonham e Paul Jones. Os acordes, as letras e as melodias do Led fizeram a cabeça de muita gente nos anos 70. Meu pai foi um dos que foram tocados pelo som “maluco, pesado e poético” produzido pelo quarteto. Se existe uma pessoa responsável pelo meu gosto musical, essa pessoa é papai. Ele me apresentou a todos os clássicos do rock dos anos 60 e 70. Foi ouvindo Led Zeppelin que aprendi as maiores lições que meu velho ensinou. A primeira delas foi quando, acidentalmente, arranhei um CD do Led que ele tinha acabado de comprar. Meu pai ficou nervoso, afinal de contas, ele tinha encomendado o disco para um amigo que tinha ido aos Estados Unidos. Naquela época, 1992, achar discos de bandas estrangeiras

não era fácil como hoje. Mas acho que ele ficou nervoso, mesmo, porque eu coloquei a culpa na minha irmã. Nesse dia, achei que tomaria uma surra daquelas, mas não foi o que aconteceu. Ele me sentou no colo e me deu uma lição de moral e vida daquelas que a gente nunca esquece. Anos mais tarde, quando já tinha meus 13 anos, fui pego tentando roubar um CD em uma loja. O CD era uma coletânea do Led Zeppelin. Da polícia eu escapei, mas da surra em casa não teve jeito. O “telefone” que tomei dói até hoje, mas a tristeza do meu pai eu jamais esquecerei. Depois de uma semana sem falar direito comigo, o velho me surpreendeu, me presenteou com o CD que eu tentei roubar dias antes. Quando me entregou o disco, olhou nos meus olhos e disse, “O que é seu, É SEU. O que é dos outros, É DOS OUTROS”. Com 20 anos, chutei o balde. Estava cansado da faculdade que tinha escolhido, do curso que tinha escolhido, da vida que estava escolhendo. Vendi o carro e me mandei para a Inglaterra. Lá, lavei banheiros, servi cervejas, troquei carpetes, dirigi vans, fiz entregas de pizza e todo tipo de serviço que me dessem. Com o dinheiro que ganhei, pude presentear meu pai com uma das coisas que ele sempre quis ter, mas que nunca pudera comprar, um LP. Tratava-se do LED ZEPPELIN IV, que tinha sido lançado em 1971. No dia em que o presenteei, os olhos se encheram de lágrimas. Nos abraçamos e, naquele dia, lá no aeroporto, percebi o quanto aquele homem frio, ríspido e rabugento era importante na minha vida.

Sonhar custa caro Jade Vieira 6º Período Estou no 6º período da faculdade e uma coisa está me incomodando muito: a formatura. Não apenas formar – o que gera muito pânico, por não saber como será minha entrada no mercado -, mas o baile propriamente dito. Que mulher nunca sonhou com festa de quinze anos, baile de formatura e festa no casamento? O ritual dos quinze anos nunca quis ter, e não tive. No meu casamento, quero uma coisa linda, mas pode ser bem simples. Mas o baile de formatura... Ah, esse é o meu sonho! Só que ele está sendo frustrado em 5,4,3,2,1... já! Primeiro me imaginei na faculdade com aquela turma de 50 pessoas, lindas e maravilhosas. Fail! Na minha sala não vão se formar nem vinte. Segundo: abri o portal do jornal Estado de Minas e me deparei com a seguinte notícia: “Preço de aluguel de salão de festas em BH varia até 647%”. E o valor oscila entre

R$ 2 mil e R$ 14 mil. O quê? Estou chocada! Bem que meu salário do estágio podia variar assim também. E não é só o lugar que me preocupa e me ameaça o bolso. Iluminação, decoração, banda, buffet, convites, cerimonial, fotografia e filmagem... É muita coisa pra pouco tempo e dinheiro. Se a comissão da sala tivesse organizado isso logo no começo do curso, até que daria para pagar em suaves prestações. Ou não. Porque mesmo com todo o dinheiro desembolsado, roubado ou emprestado, não seria o suficiente para pagar toda a festa. Ainda teríamos que arrecadar grana com venda de rifas, festas e brindes. Você está entendendo? Além de me virar para arrumar dinheiro para parcelar, teria que arregaçar as mangas para conseguir mais! Assim não sobraria nem blusa. Mas, ainda assim, eu queria essa festa mais que tudo. Mesmo que fosse igual aos eventos aterrorizantes de Formaturas Infernais – um livro que reúne contos de terror que envolvem o tão esperado baile. Porém, até para acontecer toda essa diversão assustadora,

precisaria muito dinheiro. A morte, os vampiros e os fantasmas também querem luxo na hora de aterrorizar, ou você acha que não? Ok! Estou voltando para a realidade, já que estes seres jamais iriam a minha festa. Tenho que pensar numa solução, não posso deixar minha formatura ir por água abaixo ou ficar viajando na maionese... Isso! Formatura, água, viajar... Cruzeiro Marítimo! A questão toda não é reunir a galera e curtir a festa? Então podemos fazer isso numa viagem pelo litoral, com muita diversão. E ainda conhecer vários lugares bacanas. Um cruzeiro de nove dias, passando pelo Rio de Janeiro, Itajaí, Buenos Aires e Punta Del Este sairia por aproximadamente R$1.100 por pessoa, podendo parcelar em até 10 vezes sem juros. Com esse valor, provavelmente, não pagaríamos nem o salão do baile. É isso! Tenho que convencer minha turma. Vão me perguntar: “E a família e os amigos?”. Fácil, estes poderão aproveitar a colação de grau e, talvez, um jantar depois da entrega dos diplomas. O baile? Deixo esse sonho para os meus futuros filhos.


Edição 189 - Caderno 2