Catálogo: "Azulejaria do séc. XVII"

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À descoberta das reservas do Museu Municipal Pedro Nunes

A Azulejaria Século XVII Setor de Arqueologia, Museus e Património Cultural

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O AZULEJO do Século XVII Chegado à Península Ibérica através da expansão islâmica, o azulejo teve a sua origem nos centros hispa-mouriscos de Valência, Sevilha e Marrocos, que o exportaram para Portugal durante os finais do século XIV, o século XV e a primeira metade do século XVI. Ainda que o não tenha inventado, os portugueses descobriram novas formas de utiliza-lo, recriando-o. Num país como Portugal, com uma importante tradição de trabalho do barro e de outros materiais cerâmicos, o reduzido custo do azulejo e a facilidade de o trabalhar proporcionaram, através da sua aplicação nas fachadas dos edifícios, uma visão mais rica e, sem dúvida, inovadora da arquitetura. Entre os séculos XV e XVII, o azulejo reveste interiores de igreja e palácios, tetos, claustros, salões, degraus, escadarias, bancos, fontanários e canteiros de jardim. Até meados do século XVIII as habitações particulares não utilizaram o azulejo a não ser em alguns registos nas frontarias, com a invocação de Santos. Após esta fase, esses registos multiplicaram-se, facto atribuível à crença dos proprietários em como estas imagens protegiam as suas habitações. Na segunda metade do século XIX o uso do azulejo na fachada tornou-se um dos elementos dinamizadores da arquitetura, concedendo um novo colorido à paisagem urbana. Surgiu como um fenómeno urbano, se bem que aliado a uma corrente de gosto, a par da crescente industrialização e desenvolvimento tecnológico, em que as fachadas principais eram revestidas por azulejos multicolores, por vezes complementadas com outro tipo de artefactos cerâmicos.

O azulejo é essencialmente uma presença, um brilho [...] o azulejo não se vê, mas sente-se [...] a maior parte das pessoas não vê as paredes, mas sente-as [...] isso é que é verdadeiramente importante. 1

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Sabia que... É acompanhando os primeiros exemplares hispano árabes, no início do século XVI, que se introduz o vocábulo azulejo. A palavra espanhola derivava de uma outra palavra Azzelij que significa pedra lisa ou polida, e era já usada para identificar os mosaicos romanobizantinos.

Apesar da palavra portuguesa azul provir de um termo persa aplicado à pedra preciosa Lápis -lazúlis, nunca se estabeleceu uma analogia entre esta rocha e o azulejo. Aquando da introdução da palavra azulejo em Portugal, já existiam outras designações para materiais de revestimento. É o caso do tijolo, usado em pavimentos e do ladrilho, quando a superfície era vidrada.

Azulejaria do Século XVII

Da palavra Azulejo derivaram outros termos como Azulejar, ato de decorar com azulejos. Azulejador, artífice que faz os azulejos e ainda Azulejeiro também conhecido por ladrilhador, responsável pela colocação dos azulejos. No século XVIII o termo Azulejador passa a designar o intermediário entre o cliente e o fabricante. O termo Azulejaria é mais recente e define a arte do Azulejo.

A palavra Azzelij resulta de uma série de evoluções etimológicas. A primeira palavra relacionada com superfície de pedra polida é Zufej, termo que significa o que é polido, ou brilhante. Dá origem ao vocábulo Zelij,e mais tarde surge a palavra Azzelij.O termo Azulejo surge, de forma definitiva no século XIII e, em Portugal está documentada já no século XVI.

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Durante o século XVI e até 1630 observa-se uma grande produção de azulejos de Padrão. O uso de azulejos de repetição centra-se nos modelos enxaquetados e de padrão italo-flamengos. Tendo em mente a técnica do Alicatado, na 2ª metade do século XVI, mas com mais expressão no século XVII, os ladrilhadores criaram formas geométricas dos enxaquetados, utilizando cores lisas como o azul, verde e branco.

Igreja do Convento de Santo António e Capela das Onze Mil Virgens

O azulejo de “Padrão” é a tipologia azulejar mais característica do século XVII. Foi uma época em que se delinearam os diferentes usos dos azulejos: o padrão, o figurativo e o ornamento. O azulejo seiscentista de “Padrão” policromado foi uma Arte Cerâmica capital na decoração da arquitetura civil e sobretudo sagrada. A sua evolução abrange os três primeiros quartéis do século XVII. Azulejo de “Padronagem”, azulejo de “Tapete”, azulejo de “Ramos” pela semelhança e aparente influência dos padrões dos tecidos orientais lavrados, muito em voga na época, utilizados pelas classes mais abastadas da Europa. A pintura dos ornamentos dos azulejos vai-se densificando, e na divisão ou emolduramento dos diferentes painéis e padrões, surgem novas cercaduras, frisos, barras e outros componentes cerâmicos ornamentados. No que respeita à paleta cromática usada no azulejo de “Padrão” durante o século XVII, pode dizer-se que a policromia foi usada durante o primeiro e segundo terços do século, e que no terço final dá lugar a pintura em azul e branco. A partir do 3º quartel do século XVII faz-se uma passagem da exuberante policromia para uma paleta de azul e branco, que irá caracterizar a azulejaria portuguesa até à primeira metade do século XVIII.

Em Alcácer do Sal ... Em Alcácer do Sál ...

Os modelos de azulejos enxaquetados que chegaram até hoje podem ser vistos na Capela das Onze Mil Virgens e num altar da Igreja do Espírito Santo. Serão produções de finais do século XVI e XVII. 5

Poderão vistos alguns exemplares de Azulejos de Tapete no Santuário do Senhor dos Mártires, Igreja da Misericórdia, Santa Maria do Castelo e Matriz do Torrão. 6


CRONOLOGIA Época Séc. XVI (1ª1/2)

Dados Históricos Início da produção de azulejos em Portugal. Importação de azulejos de caixilho – composição de xadrez e enxaquetado.

corrente/estética influências Renascimento Italiano – grotesco: Pintura decorativa baseada em motivos da Roma Clássica, figuras humanas, seres fantásticos, conchas, volutas… são dispostos em medalhões que se entrelaçam.

RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES Técnicas/Paleta cromática Majólica ou Faiança: Cobertura do azulejo com esmalte branco. Sobre a superfície cerâmica lisa podem ser pintados os motivos sem que as cores se misturem.

Azulejaria Italo-flamenga: Composições ornamentais de brutescos e ferroneries. Séc. XVI (2ª1/2)

Implantação definitiva das técnicas da majólica. Grande atividade dos centros cerâmicos portugueses

Séc. XVII (1ª1/2)

Aumento da produção nacional: Lisboa como maior centro cerâmico nacional. Painéis com azulejos de registo e de padrão feitos por artesãos

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Abandono da herança mourisca. Composições eruditas, início da padronagem de tapete: azulejos com composições geométricas ou vegetalista.

Influência oriental (fauna e flora exóticas). Frontais de altar; azulejos de padronagem, enxaquetados.

Cores mais usadas: azul, cobalto e amarelo sobre branco. Também o castanho alaranjado (óxido férrico); verde azeitona e tons acastanhados e arroxeados (óxido de manganês). Contornos a azul-cobalto

Azulejos em composição de tapete, padrão policromo de tons, azul, branco e amarelo, com centro formado por motivo quadrilobulado, circunscrevendo motivos florais e vegetalistas. Produção: Lisboa Século XVII

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RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES

RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES

Azulejos em composição de tapete, com motivos decorativos com florão composto. Cercadura policroma, de contorno e bordos a azul, desenvolvendo duas faixas delimitadas por filetes amarelos e separadas por outra azul. Uma faixa, a branco, dispõe duas pérolas amarelas intercaladas por losangos azuis. A outra faixa, dispõe uma sequência de folhas trifoliadas brancas com nervuras a azul e amarelo, sobre fundo azul. Produção: Lisboa Século XVII 9

Azulejos em composição de tapete, apresenta uma policromia a azul, amarelo e castanho sobre branco. Está decorado com motivos florais, vegetalistas estilizados e geométrico. Produção: Lisboa 1ª metade do século XVII

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AZULEJARIA SÉCULO XVII

RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES

Cercadura policroma e simétrica, de tons azuis e amarelos sobre branco, decorado com motivos florais , simulando "ferronnerie". Produção: Lisboa, Século XVII. Pode ver este tipo de elementos na igreja de Santa Maria do Castelo e no Santuário do Senhor dos Mártires

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Azulejos policromos pertencente a painel de azulejos de padrão Marvila. Apresenta aletas convergentes, de folhagem branca sobre fundo azul, encimadas por elemento vegetalista amarelo. Produção: Lisboa Século XVII. 12


RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES

Azulejos de padrão em tons azul e branco tipo maçaroca. Produção: Lisboa Séculos XVII/XVIII

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RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES

Cercadura em tons azul e branco, constituída por flores trifoliadas e por motivos vegetalistas e elementos florais estilizados. Produção: Lisboa Séculos XVII/XVIII

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RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES CERCADURA EXISTENTE NAS RESERVA

RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES AZULEJOS EXISTENTES NAS RESERVA

1º fragmento MADRE SO[ROR]/[M]/ANDOV FA[ZER] /TORNO 2º fragmento DA ROCH[A] /OBRA DO/ERA DE 168[ ] Madre Soror [...] da Rocha mandou fazer [...] Obra do [...] Torno [...] Era de 168[...]

Cercadura em tons azul e branco, constituída por folhas de acanto. Produção: Lisboa Séculos XVII/XVIII

Embora os fragmentos de azulejos estejam muito incompletos, a Dra. Maria Teresa Lopes Pereira, levanta as seguintes hipóteses fundamentadas: a) De que se trate da abadessa Joana Batista, uma vez que entre 1676 e 1690, só o nome desta prelada apareceu nos documentos. b) Dada o nexo entre os dois fragmentos – como se vê pelo material, espessura, coloração e aspeto – pode concluir-se que na década de 168[…] a Madre Soror Joana Batista mandou fazer obras, de que se destaca um torno. Refere também, a propósito da clausura, que, para além da roda, é muito citado o torno ou torninho, roda pequena por onde passava a comida confecionada no mosteiro, destinada aos padres que assistiam as freiras do ponto vista espiritual, habitando fora, no Hospício”. Proveniência: Convento de Aracoeli Século XVII

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RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES

RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES

CERCADURAS EXISTENTES NAS RESERVA

CERCADURA EXISTENTE NAS RESERVA

Cercadura polícroma de tons azul e amarelo em fundo branco. O elemento central é constituído por um óvulo. Produção: Lisboa Século XVII. Pode ver este tipo de elementos na igreja de Santa Maria do Castelo e no Santuário do Senhor dos Mártires.

Friso policromo, de tons branco e amarelo em fundo azul. Friso apelidado de dente de serra. Produção: Lisboa Século XVII

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Cercadura policroma e simétrica, de tons azul e amarelos sobre fundo branco, decorado com motivos florais, vegetalistas e volutas, simulando "ferronnerie". Produção: Lisboa Século XVII.

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RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES

RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES

CERCADURA EXISTENTE NAS RESERVA

AZULEJO EXISTENTE NAS RESERVA

Azulejo pertencente a uma Cercadura policroma de tons branco e amarelo sobre fundo azul, com ornatos de volutas atravessadas por pérolas e motivos vegetalistas recortados. Século XVII.

Azulejo com florão recortado a branco, com folhas nervuradas que que intercalam com outras amarelas, de remate em motivo lanceolado. Produção: Lisboa Século XVII

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RESERVAS DO MUSEU MUNICIPAL PEDRO NUNES

AZULEJARIA SÉCULO XVI E XVII

AZULEJOS DE TAPETE EM RESERVA

IGREJAS DO CONCELHO DE ALCÁCER DO SAL

Padrão policromo, de contorno azul, com três centros alternados criando uma malha de entrelaçados. Um dos centros é formado por um motivo quadrilobado amarelo de rebordo laranja, com os lóbulos rematados por enrolamentos opostos entre si. Outro centro é constituído por novo motivo quadrilobado, com dois lóbulos entrelaçados abertos e dois bifurcados, entrelaçados Produção: Lisboa 1ª metade do século XVII

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Capela das Onze Mil Virgens está revestida a azulejos enxaquetados a verde e branco. Século XVI

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AZULEJARIA SÉCULO XVI E XVII

AZULEJARIA SÉCULO XVI E XVII

IGREJAS DO CONCELHO DE ALCÁCER DO SAL

IGREJAS DO CONCELHO DE ALCÁCER DO SAL

Igreja de Santa Maria do Castelo (Capela do Santíssimo) Lambril em azulejos polícromos seiscentistas representando brutescos. Séculos XVI-XVII

Na Igreja do Espírito Santo (Museu Municipal Pedro Nunes) poderão ver no altar lateral esquerdo vestígios de azulejos enxaquetados em verde, branco e azul. Século XVII

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AZULEJARIA SÉCULO XVII

AZULEJARIA SÉCULO XVI E XVII

IGREJAS DO CONCELHO DE ALCÁCER DO SAL

IGREJAS DO CONCELHO DE ALCÁCER DO SAL

Igreja de Santa Maria do Castelo e Igreja Paroquial de Santa Susana Azulejos polícromos de padrão de maçaroca. Século XVII

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Igreja de Santa Maria do Castelo Azulejos polícromos decorados por volutas azuis e amarelas entrelaçadas , “simulando ferroniere”. Século XVII

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AZULEJARIA SÉCULO XVI E XVII

AZULEJARIA SÉCULO XVII

IGREJAS DO CONCELHO DE ALCÁCER DO SAL

IGREJAS DO CONCELHO DE ALCÁCER DO SAL

Igreja a Misericórdia (Alcácer do Sal).

Ermida do Senhor dos Mártires Azulejos polícromos de padrão de florão . Cercaduras caracterizadas por óvulos e motivos simulando "ferronnerie". Século XVII

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Padrão policromo, de contorno azul, com um centro e um elemento de ligação. O centro é formado por um motivo quadrilobado branco, circunscrevendo composição vegetalista sobre fundo amarelo. Esta apresenta entrelaçados azuis e brancos, que se unem, em cada lóbulo, através de anel gomado do qual se projectam duas volutas azuis e um trifólio com duas pequenas aletas. O entrelaçado dispõe quatro secções amarelas com trifólios brancos e azuis, e da sua intersecção resultam pequenas reservas fusiformes, amarelas e azuis. O elemento de ligação, sobre fundo azul, apresenta um florão recortado branco, disposto em aspa, com folhas nervuradas a amarelo, que intercalam com outras amarelas, de remate em motivo lanceolado. Das primeiras projectam-se volutas amarelas unidas por segmentos brancos. O núcleo, de formato circular e recortado, a branco, inscreve circunferência amarela e flor branca de centro azul, sobre fundo azul. Cronologia - século XVII

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AZULEJARIA SÉCULO XVII IGREJAS DO CONCELHO DE ALCÁCER DO SAL

BIBLIOGRAFIA

CARVALHO, Rosário Salema de, 2012. "A pintura do azulejo em Portugal [1675-1725]:autorias e biografias - um novo paradigma". Tese de Doutoramento. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. GOMES, Jim Robert Puga, 2011, Exemplos da azulejaria dos séculos XVI e XVII, em Coimbra , Dissertação de Mestrado. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. NUNES, Susana Maria Batalha Reis da Gama, 2014, Azulejos de padrão e relevo : uma proposta infográfica, Dissertações de Mestrado, Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Matriz do Torrão Padrão policromo, de contorno roxo, com três centros alternados criando uma malha de entrelaçados. Um dos centros é formado por um motivo quadrilobado amarelo de rebordo laranja, com os lóbulos rematados por enrolamentos opostos entre si. Esta forma define uma reserva de fundo azul circunscrevendo florão recortado branco, a que se sobrepõem nervuras amarelas dispostas em cruz e núcleo em quadrado sobre o vértice azul e amarelo. O centro amarelo é enlaçado pelos elementos do outro centro, brancos com rebordos amarelos, que se unem formando palmetas com nervura amarela, dispostas na diagonal. Outro centro é constituído por novo motivo quadrilobado, com dois lóbulos abertos e dois bifurcados. Os primeiros são os que se enlaçam no centro amarelo. Os segundos, definindo uma reserva de fundo azul, são entrecruzados por motivos vegetalistas amarelos, e apresentam no interior quatro palmetas brancas com núcleo lanceolado laranja, que convergem para um florão quadrangular amarelo com nervuras brancas. O último centro é formado por um florão recortado branco que é sobreposto por um motivo estrelado em aspa amarelo e por uma cruz, também em amarelo, com núcleo em quadrado sobre o vértice de bordos a azul e branco e motivo floral amarelo e branco, sobre fundo azul.

ROCHA Nisa Pereira Félix da Rocha (2015), Reflexo(s) do Porto: Processo de um guia de Azulejo na Cidade. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Letras da Universidade do Porto. SIMÕES, João Miguel dos Santos - Azulejaria em Portugal no século XVII. 2ª Edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997 Az Infinitum - Sistema de Referência e Indexação de Azulejo. Rede Azulejo

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