Issuu on Google+

Clipping UFJF – 16 e 17 de outubro de 2012 publicada em: 17 de outubro de 2012 - visualizada pela 18º vez

Veículo: Tribuna de Minas Editoria: Cidade Enem redefine política de acesso à UFJF Especialistas e instituições do ensino médio se preocupam com processo de nacionalização e fim dos regionalismos nas provas Por Júlia Pessôa Pela primeira vez, a UFJF vai utilizar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) integralmente como processo de admissão, sem realização de vestibular, reservando 75% das vagas para os candidatos inscritos nesta prova. Os outros 25% são destinados a discentes que participam do Programa de Ingresso Seletivo Misto (Pism), a avaliação seriada da universidade, realizada ao longo dos três anos de ensino médio. Até o ano passado, o exame era adotado como substituto à primeira fase do vestibular. Para o pró-reitor de Graduação da instituição, Eduardo Magrone, uma das transformações mais significativas com o fim do vestibular é a sua substituição por um tipo de prova aplicada em todo território nacional. “No modelo anterior, cada instituição tinha seu vestibular, e isso atribuía às universidades funções que não eram essencialmente delas, como toda a logística de segurança durante a elaboração, aplicação e correção das provas. Embora as instituições ainda tenham um grau de responsabilidade sobre as questões operacionais, o Enem permite que elas se atenham ao papel primeiro das universidades: a atuação na propriedade intelectual.” Uma das preocupações no que concerne a este processo de “nacionalização” do exame refere-se à perda da identidade regional da prova. “A tendência generalista que o Enem pode adquirir é um mau sinal. No caso do acesso à UFJF, isso pode significar que o ensino médio deixe de dar prioridade a conteúdos como a literatura típica de Minas Gerais, com importantes expoentes de Juiz de Fora, como Murilo Mendes, além de questões locais de história e geografia. Vale lembrar que o vestibular também sempre teve dificuldades em priorizar questões regionais, mas, no caso do Enem, essa dificuldade é institucionalizada e pode fazer com que a formação do ensino médio não permita que os alunos se integrem à sua realidade”, pondera Magrone. Nos cursinhos e colégios de ensino médio, tentativas de valorizar circunstâncias regionais em uma prova realizada em todo o país também causam apreensão. “Já houve edições em que contextos muito específicos de uma região foram abordados. Uma favela carioca, de morro, não é a mesma coisa que uma favela da região Norte, sobre palafitas, por exemplo. Questões que abordem estas situações regionais acabam favorecendo certos candidatos e eliminando outros”, opina o diretor do Cave, Lawrence Gomes. O diretor pedagógico do Colégio Stella Matutina, Francisco Bessa, também defende que a regionalização do Enem poderia até facilitar a logística de realização do teste. “Fazer provas por região diminuiria o distanciamento entre os conteúdos referentes a uma e outra. Além disso, seria mais fácil evitar falhas com a aplicação dos testes, pois o monitoramento não seria nacional, mas regional.” Já o professor da área de políticas públicas da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), Remi Castioni, chama atenção para uma questão importante: a necessidade de reformulação da educação nacional para adequação à proposta de um exame como o Enem, que afeta todo o país. “É preciso definir o que queremos que os alunos adquiram de conhecimento no ensino médio. Já não fazemos isso no ensino fundamental. Temos que ter uma política do ensino médio que permita possibilidades de ingresso diferenciadas.” Alunos temem maior pressão na disputa


Por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que ranqueia os candidatos usando o Enem como critério de pontuação, é possível concorrer a uma cadeira em qualquer instituição cadastrada do país. Se por um lado cresce a chance de ingresso no ensino superior, abrindo o leque de opções de universidades, por outro, a disputa por uma cadeira na faculdade desejada pode ficar mais acirrada. “Antes, a concorrência era somente com pessoas de Juiz de Fora e da região mesmo. O fato de o Enem ser nacional põe a UFJF na mira de alunos de todo o país, e isso aumenta a pressão sobre nós”, afirma o aluno do Stella Matutina Lucas Costa, 17 anos, que pleiteia uma vaga em direito, um dos cursos de mais alta demanda. Para o pró-reitor de Graduação da UFJF, Eduardo Magrone, a nacionalização das vagas deve ser relativizada. “Isso está começando a ocorrer em cursos muito concorridos, como medicina e direito, mas, ainda assim, é uma realidade que só poderá ocorrer a longo prazo. Acredito que os estudantes tendam a ficar nas instituições mais próximas de onde moram, por isso, a maioria dos alunos da UFJF deverá continuar sendo de Juiz de Fora e região.” Apesar disso, o especialista vê como um avanço a possibilidade de o candidato batalhar por uma cadeira sem limites territoriais. “Poder disputar qualquer vaga sem precisar pagar é um avanço. Por outro lado, muitos continuam não tendo condições de se manter muito longe de casa. Acho que, a longo prazo, pode-se criar um aumento de concorrência sim, e a maior vantagem é o aumento da qualidade de quem ingressa no ensino superior.” É o que também observa Mariana Hallack, 17, aluna do Stella Matutina. “Mesmo que pouca coisa tenha mudado na prática, acho que os alunos têm procurado se preparar mais, o que aumenta a concorrência, mas eleva o nível da disputa.” Em comparação ao vestibular, modelo de seleção utilizado anteriormente pela UFJF, Magrone garante que o Enem continua permitindo o ingresso dos concorrentes mais qualificados. “Pelos levantamentos que fizemos, todos os alunos que são aprovados via Enem teriam também passado no vestibular, o que mostra que o mérito do candidato não é afetado. A forma de selecioná-lo é diferente e revela outras competências e virtudes que o vestibular não permitia avaliar.” Formato de exame divide opiniões de especialistas Na visão do pró-reitor de Graduação da UFJF, Eduardo Magrone, a proposta do Enem em avaliar habilidades e competências em vez de conteúdos curriculares precisa ser acompanhada com atenção pelas universidades e instituições de ensino médio. “O Enem chegou a executar esta promessa, mas o modelo não foi consolidado. O que muitos críticos deste formato apontam é que a avaliação de competências cognitivas não é um instrumento ‘preciso’ de seleção, o que não é verdade.” Para o diretor do Cave, Lawrence Gomes, o método de avaliação proposto inicialmente não existe mais. “Quando o Enem se tornou uma forma de ingresso nas universidades, a prova passou a seguir o modelo dos vestibulares antigos. Com isso, o que se tem hoje é cobrança de conteúdo mesmo, sem trabalhar o raciocínio e assimilar conhecimentos, como era a intenção.” Já o diretor pedagógico do Stella Matutina, Francisco Bessa, defende que o teste nacional representa uma evolução. “As questões têm muito texto, por isso a preparação dos alunos envolve muita leitura, o que tem demonstrado reflexos positivos na educação. Além disso, acho que os itens cobrados trabalham, sim, com conhecimentos mais contextualizados, que requerem uma formação menos curricular, que promove e busca a integração dos saberes.” Aluno do colégio, Estevão Paes de Souza, 17, também vê o Enem como um teste mais abrangente e menos conteudista, mas aponta limitações. “É preciso estar ligado em atualidades para resolver qualquer questão, e há muitas situações que retratam o dia a dia. Mas ainda há deficiências, como o tempo limitado para resolver a prova, o que acaba sendo um critério eliminatório e vai contra essa linha mais reflexiva.” ‘Falhas na formação’


Segundo o professor da Universidade de Brasília (UnB), Remi Castioni, a disfunção entre os eixos de habilidades que se pretende avaliar no Enem e o currículo do ensino médio está se refletindo na qualidade da formação dos universitários. “Antigamente os alunos entravam nas exatas e faziam ‘cálculo um’. Hoje tivemos de criar o ‘pré-cálculo’.” Para o especialista, além de elevar a qualidade da educação fundamental e média, diminuindo a discrepância entre o que é praticado e o que é cobrado no ingresso ao ensino superior, é preciso ainda reformular as políticas de acesso e manutenção dos discentes nas instituições. “Hoje os alunos demoram dois anos para se encontrar na universidade, quando conseguem. Depois disso já estariam na metade do curso. Se não tiverem supervisão, se não se envolverem em grupos de pesquisa e outras iniciativas, terão falhas na sua formação. É preciso ter, nos primeiros dois anos, acompanhamento dos alunos e uma supervisão mais estreita no resto do curso. Para que isso ocorra, temos de reorganizar nosso formato de ingresso.”

Fonte: http://www.ufjf.br/secom/2012/10/17/clipping-ufjf-16-e-17-de-outubro-de-2012/


Clipping UFJF