Page 8

ENTREVISTA

om à letra

8

stava um dia chuvoso, para uma caminhada na rua João de Barros. Ainda assim, correu-se o risco. Valia a pena. Três da tarde. Chegada ao edifício da Rádio Nova. Só se ouvia o telefone a tocar. Mas, no meio de toda aquela azáfama diária, característica de qualquer rádio, estava o locutor Isidro Lisboa, completamente disposto a demonstrar um lado que os ouvintes raramente têm acesso: o seu lado pessoal. O desafio foi aceite. Com o olhar dividido entre os ouvintes e o gravador, Isidro Lisboa, respondeu a TUDO que lhe foi questionado.

“Acho

que já não existem pessoas como eu”

Deixando de parte o Isidro profissional, como se define como pessoa? [hesitação] É um tipo dinâmico, pelo menos ele gosta de o ser. Não se sente bem estagnado, parado, impávido e sereno. Não…gosto de estar em plena actividade. Profissionalmente sempre foi assim. Enquanto estudava, meti-me na rádio. Ou seja, tenho que arranjar sempre algo mais àquilo que faço. Sinto-me bem quando consigo uma fasquia bem elevada de actividade. Profissionalmente acho que sou também um bocado esquizofrénico. Gosto de estar aqui, mas daqui um bocado gosto de estar ali [aponta para outro ponto da sala], a fazer outra coisa dentro do mesmo ambiente, mas às tantas completamente diferente.

O Isidro profissional é completamente diferente do Isidro social? Ou existe paralelismo? Existe algum paralelismo. [pausa] Sou um pouco eléctrico. E quando estou em contacto com as pessoas, há sempre aquela ideia de falar muitas coisas, muito rápido, de falar isto e aquilo e ramificar para todos os lados. É um pouco isso. Não há uma grande diferença. Eu costumo dizer que sou uma pessoa extremamente honesta. Às vezes tramo-me por isso. Mas vem de família. Somos muito frontais, muito lúcidos, muito transparentes, mas muito honestos também. E naquilo que faço, seja na televisão, na rádio, seja a escrever, seja em público, isto é, no meu âmbito profissional, não vejo grande alteração. Quando estou em contacto com as pessoas ou com a família, não me apercebo de grandes alterações. Existe por vezes, enquanto profissional, da rádio, da televisão, uma postura que se eleva, um nariz que se levanta, um umbigo que cresce. [com ar pensativo] Acho que já não existem pessoas como eu …(risos) …Estou a brincar (risos), mas é um pouco isso. Eu há pouco quando dizia que às vezes me tramo por ser honesto, passa um pouco por isso… Não consigo pôr uma máscara e fazer agora de o senhor profissional da rádio, técnico da comunicação, e manter uma postura mais formal e séria. Nem vou falar em estrelato, não tem nada a ver com isso. Mas não, acho que a minha simplicidade e a minha forma de estar enquanto pessoa, acho que está também presente quando

abro o microfone e quando digo alguma coisa às pessoas.

tendências/estilos) que andei a ouvir num dia inteiro “DJango” Reinhardt , eles começam a olhar para mim de lado como a dizer :”Este tipo não é normal” (risos). Mas tão depressa posso estar Desde quando a música está presente na ouvir Reinhardt como o novo álbum, por exemplo do sua vida, de uma forma mais séria, diria até mesmo apaixonada? Houve influência de Camané que acho que é um disco tremendo, fantástico, ou como também posso estar a ouvir a alguém em especial? coisa mais ruidosa como o último disco dos AC-DC. A paixão surgiu por volta dos oito, nove Não posso dizer um estilo em concreto anos. [breve hesitação] Houve uma influência do meu tio-padrinho. Mas… existem alguns estilos que não gosto Era baixista numa banda de uma espécie de rock tanto, como um rock mais duro, um heavy metal, progressivo, uma coisa estranha para a altura. Ele mais aquelas variantes. pôs-me lá em casa um gira-discos portátil, algo que Em resumo, tenho uns “filtros“ muito não devia ter feito. Devia-me ter oferecido às largos (risos). tantas uma bola, ou uma bicicleta. Começou, sobretudo a partir daí. Já havia Tem algum hobbie que queira destacar em uma ligação. Lembro-me que já ouvia muito rádio. particular? Não sei explicar porquê. Mas lembro-me de ouvir Passo discos em bares e em discotecas. É um muito rádio . gozo tremendo fazer com que as pessoas se Mas acho que o meu tio-padrinho é um dos agitem um bocadinho. Pegando na resposta anterior, a forma como principais culpados. Ele tinha uma série de profissões, entre elas era cabeleireiro. Lembro-me eu organizo as músicas abrange vários estilos diferentes entre si. Eu tento manter um de estar na barbearia, ele tocava para lá umas ambiente de festa. músicas e pedia-me para cantar. Eram aquelas Mas, tanto posso passar uma música da músicas infantis, tipo “atirei o pau ao gato”. (risos) década de setenta, como posso estar a passar Depois, há desde logo uma ligação precoce algo perfeitamente actual. E gosto de fazer essa oscilação. Pegar quem sabe, numa peça com os discos, e a possibilidade de me deixarem pequena de dois, três minutos dos anos trinta, mexer neles, riscá-los e partir agulhas. quarenta, festiva, e encaixar com alguma Acho que sempre me senti muito tocado sanidade ali. Não sou rocker, louco por pop ou pela música, e nem tanto pelos livros. por heavy metal. Gosto de música acima de tudo.

Na adolescência verifica-se um verdadeiro culto à música e a um estilo em específico. Sentiu essa realidade actual, na sua adolescência?

[hesitação] Essa paixão pela música levoume a um desejo de conquista, de querer saber mais, de me aproximar de diferentes estilos e não um em particular. Acho que nunca consegui fazer uma triagem dos diferentes estilos, nem de ter a minha “prateleira”. Eu consigo ouvir de tudo. Posso dizer, por exemplo, que no último fim-de-semana ouvi uma colecção das primeiras ramificações jazzísticas à base do Jean "DJango" Reinhardt, que é um dos nomes que eu gosto imenso, pelo ritmo e pela execução da guitarra. Se eu comentar com os meus amigos mais próximos (que sabem que eu ando sempre à procura das músicas novas, para onde a música electrónica vai, quais são as novas

Não teve nenhum CD que o tenha incitado cada vez mais à investigação musical, ou que o tenha marcado de alguma forma?

[breve hesitação] Essa é complicada... é a velha história. Para quem gosta tanto de música, devora tantos discos… Eu vou dar um exemplo: eu tenho em casa uns largos milhares de títulos em vinil e em CD. Se há discos marcantes …há. Posso dizer que na altura dos oito, nove anos, quando apareceu o gira-discos, que havia um vizinho meu mais velho que me ofereceu L.A Woman dos Doors. Posso dizer que foi um disco marcante, porque foi algo estranho. Imaginese um catraio a ouvir este disco, difícil, Outros exemplos…talvez os Pixies. Inglaterra, América… Dos Pixies é difícil dizer um disco marcante. A banda em si marcou-me muito, e continua a ser das minhas favoritas.

Profile for Irene  Leite

Edição 0 Som à Letra  

O primeiro jornal do projecto Som À Letra

Edição 0 Som à Letra  

O primeiro jornal do projecto Som À Letra

Advertisement