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ENTREVISTA

om à letra Aqui corta muito o social. A pessoa às tantas quer ir ao cinema ou a um jantar, e depois pensa que no dia seguinte tem de acordar mais cedo. Talvez nessa altura andasse um pouco em desequilíbrio. Mas este horário não representa grande problema. Repare-se que é um horário das 14.00h às 18.00h. De manhã deixo o rapaz na escola e a mais pequena na avó. Ou seja, consigo conciliar as coisas mais ou menos. O caso de ontem é um exemplo. O meu puto anda a dar uns pontapés na bola e ontem ainda tive tempo para assistir ao resto do jogo, ir buscá-lo, levá-lo para casa… dá para conciliar. Nós, às vezes é que perdemo-nos um bocadinho… No caso dos festivais de verão por exemplo, querse ver os dias todos, mas é difícil.

Consegue imaginar-se noutra profissão?

10 Quais são para si as vantagens da rádio relativamente a outros media?

A rapidez… continua a ser por muito que não se queira admitir. Se estiver-se na Avenida dos Aliados e rebentar uma conduta, num espaço de segundos consegue-se transmitir a informação para os ouvintes. A televisão não consegue fazer isso, pelo menos não com imagem. Depois, o facto de a rádio ser só com som…acho que dá mais trabalho, mas é um desafio simultaneamente. Claro que mudaram-se os tempos, mudaram-se os hábitos de ouvir, informar... Eu discordo muito da rádio que agora temos aqui em Portugal.

Porquê?

Ensinaram-me desde muito novo que a rádio deveria formar, informar e vice-versa. Informar para formar sociedades…. Tal não se efectua hoje em dia. Acho que actualmente estamos a atrofiar cada vez mais as rádios. Existe cada vez mais censura, em todos os aspectos. Há tanta música para as pessoas conhecerem, e nós estamos a passar sempre as mesmas. E não muda. É algo complicadíssimo. As rádios tornaram-se empresas. Está presente a lei do menor esforço e o “não vamos ser ousados”. É como se a base de dados estivesse atrofiada (risos). Ainda assim, a Rádio Nova, no meio de toda esta postura comercial, consegue dar uma lufada de ar fresco com a transmissão por exemplo, da nova música do Beck. De qualquer das formas, o português comum não tem a noção dos discos que saem.

Não me consigo imaginar à frente da caixa de um banco, de uma secretária, ou de uma caixa registadora de um supermercado. Estar sem música para mim… eu explico. Quando acordo às sete, a primeira coisa que faço é ligar um dos trinta, quarenta rádios que existem em casa, para saber o que tem acontecido enquanto estive a dormir. Se não sou eu, agora são os miúdos. Chego ao carro. Hoje obrigam-me a conhecer músicas infantis, como a galinha patareca do Serafim e Companhia, o hit que roda lá no carro (risos). De uma forma ou de outra está sempre presente a música. O leitor de mp3 tornou-se moda na nossa sociedade. Eu sou do tempo das cassetes. Eu passava vinil para cassete, e andava com o walkman. Quando faço uma viagem de autocarro, o Qual seria para si o uso ideal deste mp3 serve. Sempre que é necessário ouvir música veículo? O investimento na nova, adianta serviço. Não palavra. Uma Acho que uma larga parte dos dá para fugir. Há sempre rádio que tivesse a música presente. muita gente, que Eu por exemplo, acabei de portugueses não tem pudesse lançar sair de uma consulta de otorrinolaringologia, e o possibilidade para gastar cerca novos discos, que permitisse a novas meu médico cravou-me bandas cantarem para dar uma ajuda numa de 15 euros por mês num disco. POR ao vivo para os festa das comemorações ouvintes, mostrar do centenário do sector, o seu talento. com voz off e até trabalhar o som ambiente.

Portanto, há sempre uma ligação. Eu também não a quero evitar. (risos)

Recorda-se da primeira emissora de rádio onde trabalhou?

Sim, ao todo foram sete já. Lembro-me que comecei a dizer as minhas primeiras asneiras, os meus primeiros erros ortográficos, os meus pontapés na gramática na rádio Independente de Castelo de Paiva, muito cedo, talvez pelos meus 16 anos, um pouco antes das autorizações das rádios por volta de 1986,1987. Passei também pela rádio Penafiel, uma contratação milionária (risos) já depois das autorizações. Estive também numa rádio em Cinfães. Depois precisava de mais agitação, actividade, e estive em Paredes na rádio Terra Verde cerca de 7 anos. Depois a Rádio Nova Era comprou a estação onde estive. Trabalhei lá cerca de um ano. Depois envolvi-me num projecto brasileiro em Vila nova de Gaia, onde estive também cerca de um ano. Uma rádio com um formato meio brasileiro, mas dinâmica. Nessa altura foram os euros que falaram mais alto. Depois essa rádio foi comprada por uma seita qualquer e eu vim parar aqui à Rádio Nova.

Actualmente verificou-se um recrudescimento de interesse pelo vinil por parte dos jovens. Acha que é apenas uma moda, ou veio para ficar?

promocionais. Mandam apenas um link para se descarregar a música em formato mp3. Muitas vezes tem-se uma capa do CD-R, uma cópia, quando se abre um envelope promocional de uma editora. Para mim é uma coisa estranha… (risos) Não vou descansar enquanto não substituir esse CD-R, essa coisa estranha, pelo CD original, com as fotografias, as letras, todo aquele trabalho que está ligado à edição de um disco.

É contra a pirataria? Não completamente. Acho que os preços dos discos são uma tristeza. Acho que uma larga parte dos portugueses não tem possibilidade para gastar cerca de 15 euros por mês num disco. Por isso, façam downloads, ao menos têm acesso às músicas que não passam nas rádios. Agora, sou fã de objectos físicos, dos originais, sejam em vinil ou CD.

Mas apresenta alguma predilecção pelo CD em relação ao vinil, ou vice-versa?

[pausa] Depois também… é o lado prático das coisas. Por exemplo, para se deslocar para longe, de forma a passar músicas, torna-se complicado levar tudo. Se reunir as músicas em compilações legais … num pequeno saco, leva-se tudo. Mas, havendo capacidade financeira para se ter bons equipamentos de som e tirar partido da envolvência que é ouvir um disco em vinil… se houver essa possibilidade é óptimo. O prazer é diferente. O perito refere que se o CD tiver a masterização quase não se nota a diferença… Não sou tão tradicionalista quanto isso. Mas, há ali mais qualquer coisa. Tirar o plástico, tirar o vinil dentro da sua capa, tirar a agulha, são mecânicas que me acompanharam desde sempre.

Mas como DJ, prefere o vinil em relação ao CD? Lá está, é a questão prática de novo. Hoje em dia há leitores de CD que permitem grande velocidade. Gosto de levar tudo alinhado e consegue-se tirar um CD e pôr outro. Mas se estiver numa postura mais descontraída, venha o vinil.

Como DJ, em 2006 foi um dos responsáveis pelo bar disco volante. Qual é o balanço deste projecto que entretanto terminou?

Foi uma aventura assim um pouco estranha, mas que ia de encontro a uma série de sonhos. Lançaram-me o desafio de assumirmos [juntamente com Joaquim Horta] os bares do Acho que não...É óptimo em termos profissionais cinema batalha. Tínhamos o lado da música trabalhar-se com música em formato mp3, fantástico. Chega-se a qualquer lado. Por exemplo, enquanto ambiente sonoro, o lado do DJ, festas, aqui, antes era uma confusão de máquinas, cheio de lançamento de bandas. E com uma agravante, ter CD´s, vinil. Entretanto desapareceu tudo. Tem-se uma sala de espectáculos logo ao nosso lado. Foi aqui uma mesa de mistura, o monitor, microfone e durante algum tempo interessante, mas não atingiu sequer os mínimos do que nos tinham dito que iria uns auscultadores. É fantástico, de uma eficácia ser. Em termos financeiros preferimos afastarmotremenda. Facilitou imenso a vida. Causou muito desemprego, é claro para os técnicos. Por exemplo, nos deste projecto. Mas, de qualquer das formas, permitiu-me estar perto dos músicos. Constituiu aqui na Rádio Nova já não estão nem metade dos mais uma ligação nocturna. funcionários que estavam há dez anos. Agora, há o lado mau de tudo isto. Acredito que Consegue estabelecer comparações entre a tem-se actualmente muitos animadores de rádio profissão de DJ e a de radialista? A que às tantas anunciam um single sem visualizar a atitude por exemplo, ao nível da interacção capa do disco. com o público difere? Para quem gosta realmente da música, aprecia ter Na rádio mudou tudo. Na altura em que havia o lado físico. programas de autor, podíamos partilhar. Agora Uma das coisas que me tem desesperado hoje em não, é locução de continuidade. Antes tínhamos a dia, é o facto das editoras, com esta queda da sensação de que estávamos a contribuir para algo. indústria discográfica, deixarem de mandar os

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Edição 0 Som à Letra  

O primeiro jornal do projecto Som À Letra

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