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Irão

Déjà vu. Prisão de diplomatas abre conflito entre Londres e Teerão Irão prendeu nove funcionários da embaixada britânica, à semelhança do que sucedeu com os diplomatas americanos em 1979. União Europeia lança avisos e ameaças CARLOS FERREIRA MADEIRA

carlos.madeira@ionline.pt O regime iraniano abriu ontem mais uma frente de conflito após prender nove funcionários da embaixada britânica em Teerão, acusando-os de instigar a rebelião interna que se seguiu às eleições presidenciais de 12 de Junho, cujo vencedor oficial foi Mahmoud Ahmadinejad. O caso relembra o sequestro dos diplomatas norte-americanos em Novembro de 1979, uma das mais séries crises políticas que opuseram o Irão aos Estados Unidos, que terminou a 28 de Janeiro de 1980 quando, após 444 dias de cativeiro, os 52 reféns foram libertados. David Miliband, ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, exigiu ontem a “libertação imediata” dos britânicos e voltou a negar o envolvimento dos ingleses no protesto pós-eleitoral. Miliband participou ontem no encontro dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, em Corfu, e enviou uma mensagem forte a Teerão: “Este tipo de perseguição e intimidação é inaceitável. Pretendemos ver [os funcionários da embaixada] ilesos e em liberdade rapidamente.” Os 27 apoiaram a posição de Londres. Jan Kohout, ministro dos Negócios Estrangeiros da República Checa, que ocupa a presidência rotativa da UE, disse: “Deixámos claro às autoridades iranianas que haverá uma resposta forte e colectiva [da Europa] face à prisão e intimidação dos funcionários estrangeiros e iranianos que trabalham nas embaixadas europeias.” Os ministros trocaram impressões sobre os novos passos diplomáticos e alguns defenderam mesmo a imposição de sanções ao Irão. O FOSSO ENTRE LONDRES E TEERÃO Nas

últimas duas semanas, os iranianos detiveram várias pessoas com passaportes britânicos. A agência Fars citou uma fonte governamental que garantia “o papel activo dos ingleses na provocação da recente rebelião”. Os nove diplomatas ingleses foram presos no sábado à noite. Um deles é o principal conselheiro do embaixador britânico no Irão, o homem que mais sabe sobre a complexa teia de poderes da política do país. O regime iraniano decidiu, entretanto, libertar quatro pessoas. A acção iraniana surge na sequência

Na crise dos reféns americanos no Irão, em 1979, Teerão entrou em confronto com Washington de um conflito que se arrasta com a GrãBretanha há anos, sobretudo desde a presidência de Ahmadinejad. Em Janeiro de 2009, a BBC lançou o seu canal de televisão persa, o que irritou o regime e levou ao encerramento do consulado do Reino Unido em Teerão – provocado por alegadas “perseguições dos iranianos”. O correspondente da BBC em Teerão foi expulso na última semana, após as duras palavras do aiatola Ali Khamenei: “Nesta rebelião, os britânicos comportaram-se muito mal e é justo acrescentar ao slogan ‘Abaixo a América’ o slogan ‘Abaixo a Inglaterra’”. DIVISÃO NO APARELHO Apesar da forte repressão policial e paramilitar sobre os manifestantes de Teerão, três mil pessoas concentraram-se ontem numa das praças da cidade para apoiar o candidato da oposição, Hossein Mousavi, informou a Associated Press. A manifestação foi duramente reprimida com bastões e gás lacrimogéneo, mas foi a primeira que, nos últimos cinco dias, mobilizou milhares de pessoas

Fracturas entre o Irão e a Inglaterra Ocupação e conflito • Ingleses e soviéticos ocupam o Irão em 1941: o xá simpatizava com a Alemanha • O MI6 e a CIA preparam um golpe de Estado contra Mossagehd, em 1953, após a nacionalização da petrolífera que daria origem à BP. O xá Reza Phalavi fica no poder • O Reino Unido apoiou o Iraque na guerra contra o Irão (1980-1988) • A Grã-Bretanha apoiou o escritor Salman Rushdie, condenado à morte no Irão (1989) • O Irão sequestrou 15 marinheiros ingleses em 2007, argumentando que tinham entrado em águas iranianas

REZA/ REUTERS

nas ruas. O aparelho de segurança do regime parecia ter dominado a rebelião interna. No entanto, no fim-de-semana, os apoiantes do candidato da oposição, Mir Hossein Mousavi, mobilizaram-se novamente. Esta manifestação sucede dois dias depois de Mousavi ter declarado que não aceita “uma recontagem parcial dos votos” e não cede “a pressões e ameaças”. O político continua a afirmar que o regime roubou os seus votos e deu a vitória a Ahmadinejad. A batalha das ruas também se trava nos bastidores do regime, entre as elites políticas. A principal clivagem opõe os conservadores ortodoxos aos reformistas, que começaram já a ser purgados das posições de poder: foi o caso de 17 guardas da revolução e do ministro do Petróleo, Akbar Torkan, que escreveu um artigo num jornal da oposição. O aiatola Rafsanjani está a tentar destituir o aiatola Ali Khamenei do órgão que o nomeia: a Assembleia de Peritos (88). Pretende nomear uma comissão de três aiatolas que dividiram o poder hoje concentrado num único homem.

—29 Junho 2009

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