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Rothschild e Freshfields: impérios ligados à escravatura Dois dos maiores nomes da City beneficiaram do comércio de escravos e podem vir a sofrer as consequências passados 200 anos GONÇALO VENÂNCIO

goncalo.venancio@ionline.pt Niall Ferguson, distinto historiador de Harvard, chamou-lhes “profetas do dinheiro”. Eles são os Rothschild, uma dinastia de banqueiros judeus de origem alemã, com tentáculos genealógicos e financeiros espalhados um pouco por todo mundo. Nome grande da City londrina, o banco de investimento NM Rothschild & Sons é a cara do império fundado no século XIX por Nathan Mayer Rothschild. Relatos históricos sugerem que Nathan ganhou fama, prestígio e músculo económico na banca mundial depois de financiar o esforço de guerra do império britânico e dos exércitos de Wellington – nas operações contra as invasões napoleónicas em Portugal e Espanha. Sabe-se hoje que não foi apenas essa a alavanca do banco. Registos do Arquivo Nacional Britânico, revelados na edição de fim-de-semana do “Financial Times”, provam que Rothschild beneficiou financeiramente com o comércio de escravos. Não foi o único. James William Freshfield, fundador da Freshfields Bruckhaus Deringer, a quarta maior firma de advogados do mundo e um dos nomes mais cintilantes do magic circle (designação do grupo das mais poderosas sociedades de advogados londrinas), também tirou proveitos económicos de uma “área de negócio” que no século XIX ainda prosperava nas colónias britânicas e nas docklands do Tamisa. A história tem quase 200 anos mas, para azar do grupo Rothschild e da Freshfields, não pode ficar fechada no baú do Arquivo Nacional. Nos Estados Unidos, um dos principais mercados para

Nathan Rothschild terá sido muito beneficiado nos seus negócios com comerciantes de escravos 30

—29 Junho 2009

os dois gigantes, o tema da escravatura continua bem vivo. Ainda este mês, o Senado norte-americano passou uma resolução em forma de pedido de desculpa pela escravatura e pela segregação racial. Tanto Nathan Rothschild como James William Freshfield foram retratados, no seu tempo, como entusiastas opositores da escravatura. Aliás, lê-se numa nota da Freshfields, que James era um membro activo da Church Missionary Society, um movimento ligado ao abolicionismo. Mas os documentos sugerem que James e os seus filhos tinham como clientes vários comerciantes de escravos, especialmente nas Caraíbas. Escreve o “FT” que, com a abolição da escravatura, em 1830, Rothschild teve um papel essencial ao financiar aquela que foi, em percentagem da despesa nacional, a maior operação de resgate de um único sector de actividade económica alguma vez feita pelo governo britânico. Mas hoje as credenciais antiesclavagistas do banqueiro são postas à prova, depois de a documentação do arquivo nacional ter mostrado que o seu banco ganhava muito dinheiro nos negócios com os negreiros. Na opinião de Ferguson, autor de um livro sobre a família Rothschild, a publicação destes documentos prova “a importância da escravatura na formação da riqueza britânica” em 1830. Mais moderado, o académico da University College of London responsável pela análise dos documentos acredita ser possível “ultrapassar o fosso entre os que negam a importância da escravatura para a economia e aqueles que acreditam que o Reino Unido foi inteiramente erguido à custa de sangue escravo”, diz Nick Draper ao “FT”. Já em 2006, o então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, expressou o seu “profundo arrependimento” pelo envolvimento do Reino Unido no comércio de escravos. Se seguirem o exemplo de outros pesos pesados do mercado internacional também ligados à escravatura, o pedido de desculpas da Freshfields e do banco Rothschild pode custar muito dinheiro. Em 2005, a JP Morgan foi obrigada a pedir desculpas públicas pelas suas ligações à exploração da escravatura e materializou o arrependimento financiando uma bolsa de estudo de cinco milhões de dólares (3,5 milhões de euros) para alunos negros do Louisiana.

Em 1791 já havia mais de 400 mil abolicionistas no Reino Unido

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Banqueiros, judeus e filantropos: a família Rothschild

Freshfield, o advogado que fugiu à vida de relojoeiro

Nathan Mayer é o primeiro nome de uma dinastia de banqueiros judeus, fundador de um império com o nome da família: Rothschild. Nathan nasceu em Frankfurt, em 1777, e aos 21 anos já tinha o seu próprio negócio de têxteis, em Manchester. Faz-se homem de negócios importante e muda-se para Londres. Durante as guerras napoleónicas é ele o grande abastecedor de ouro e dinheiro que alimentam os exércitos de Wellington. A fortuna não pára de crescer e os Rothschild investem em qualquer sítio onde identifiquem uma oportunidade de negócio. A dimensão filantrópica está também sempre presente na vida da família que financiou a construção do Knesset, o parlamento israelita. Hoje, o banco de investimento Rothschild é um dos maiores do mundo e ocupa os lugares de topo nos rankings de M&A (fusões e aquisições), com uma fatia de mercado que ronda os 12%.

Vinte e sete escritórios, mais de 2700 advogados e 5500 empregados em todo o mundo. A facturação anual ronda os 1,4 mil milhões de euros. É este o impressionante retrato da Freshfields Bruckhaus Deringer, a quarta maior sociedade de advogados a nível mundial. A Freshfields tem as suas origens no final do século XVIII, tendo sido fundada por James William Freshfield, um advogado inglês que também fez carreira na política. Militante do Partido Conservador, chegou mesmo a sentar-se nas bancadas do parlamento inglês. Um percurso improvável para quem estava destinado – por imposição paterna – a ser relojoeiro em Berkshire. Cedo se dedicou, porém, à actividade jurídica e recebeu alguns dos casos mais mediáticos do seu tempo, tornando-se uma superestrela dos tribunais. James teve três filhos e todos se dedicaram ao Direito, na sociedade da família.


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