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Duas eleições, um mês de campanha

Opinião JOÃO CARDOSO ROSAS

27 de Setembro O Presidente da República, Cavaco Silva, anunciou este fim-de-semana que as eleições legislativas vão realizar-se no dia 27 de Setembro. A campanha oficial arranca a 14 de Setembro 11 de Outubro Dias antes do anúncio da Presidência da República, o governo tinha anunciado a marcação das eleições autárquicas para 11 de Outubro. A campanha oficial arranca a 28 de Setembro, um dia depois de se conhecerem os resultados das legislativas PSD vencido O PSD foi o único partido que defendeu a marcação das duas eleições para a mesma data, por entender que o prolongamento do período de campanha irá “fragilizar o país”. Os restantes partidos defenderam a marcação de eleições para datas diferentes, por entenderem que a realização simultânea das duas eleições poderia confundir o eleitorado

José Sócrates e Ferreira Leite afinam estratégias para Setembro MIGUEL A. LOPES/LUSA

dade civil através do fórum Novas Fronteiras. Depois de uma reunião dedicada aos jovens, no último sábado, o partido vai organizar em Julho mais três fóruns dedicados ao desenvolvimento económico, às políticas sociais e à cultura. Mas o essencial das medidas a anunciar até Setembro vai girar em torno de uma classe média, “essencial para a retoma económica do país”, antecipa João Tiago Silveira. “O programa do PS vai incidir na ajuda aos portugueses e às PME, lançando as medidas necessárias para ultrapassar o cenário de crise e apresentando uma estratégia para o país para quando for ultrapassado este período”, avança o porta-voz . Entre os exemplos práticos do caminho que o partido defende para Portugal, o responsável aponta a “aposta na qualificação dos portugueses e na melhoria dos seus estudos” ou os “investimentos no desenvolvimento das energias renováveis”.

Em Fevereiro deste ano, Manuela Ferreira Leite iniciou a estratégia de confronto à aposta do governo em grandes obras públicas e apresentou um pacote alternativo de 20 medidas para reforçar a competitividade das PME e combater a crise em Portugal. Na ocasião, a líder socialdemocrata considerou um erro estratégico não colocar este tecido empresarial no centro das políticas económicas a desenvolver para o país, considerando que ser aí que se centra a grande capacidade de gerar competitividade e emprego. Mas um dos pontos que a campanha socialista vai reforçar nos próximos meses é o facto de os eleitores já conhecerem “o rumo que o PS defende para o país” nesta matéria. “O PS não esconde as suas ideias e tem anunciado e discutido várias medidas”, diz. Por contraponto, o porta-voz do PS critica um PSD que “esconde o seu programa” e “anuncia apenas aquilo que não quer fazer, empurrando para o período de férias a divulgação das suas propostas”.

Segundo o porta-voz do PS, a divergência entre os dois partidos em matéria de investimentos públicos é um exemplo claro da diferença de posicionamento entre PS e PSD quanto ao futuro do país. E também uma oportunidade para desmontar o discurso de verdade invocado pelos social-democratas. “Ferreira Leite não diz o que quer fazer, só diz o quer não quer fazer. E depois não fala verdade quando diz que os grandes investimentos públicos só geram emprego em grandes construtoras: em 2009 esses projectos empregaram 26 mil pessoas de PME e 6500 pessoas de grandes empresas”, defende Tiago Silveira. Um “faltar à verdade” que o porta-voz do PS estende às críticas do PSD contra às linhas de apoio às PME lançadas pelo actual governo: “O PSD diz que as medidas anticrise não estão a beneficiar essas empresas, mas o que Manuela Ferreira Leite não comenta é o facto de essas linhas de crédito, lançadas por este governo, já terem concedido três mil milhões de euros a 28 mil PME”, afirma o responsável socialista. Confrontado com a promessa da líder social-democrata de “romper com todas as soluções adoptadas pelo PS em termos de política económica e social”, Tiago Silveira considera “lamentável” que o PSD queira acabar com algumas “medidas históricas” alcançadas pelo actual governo: “Essa posição significa que o acordo que o governo conseguiu negociar, em concertação social, para o aumento do salário mínimo não é bem recebido pelo PSD. Ou seja, se o PS continuar no governo, em 2011 o salário mínimo nacional será de 500 euros. Mas, se o PSD for para o governo, os portugueses ficam a saber que essa meta não será cumprida.”

O sim e o não A LUTA POLÍTICA ESTÁ agora mais interessante. Está também mais radicalizada. Os principais actores – Manuela Ferreira Leite e José Sócrates – abandonaram as subtilezas e decidiram entregar-se a uma lógica binária: a partir deste momento existirá apenas um “sim” e um “não”. O PSD centrará o seu discurso no “não” a Sócrates. O passado recente é para rasgar. O PSD trará à liça a retórica do corte com o antecedente, do começar de novo, da inauguração da política da verdade. Para o PSD é necessário dizer “não” ao que temos, é preciso limpar a tela para pintar a nova paisagem. Mas o enfoque do PSD, mais do que a nova paisagem que se pretende criar, será mesmo o da limpeza da tela. A única possibilidade de futuro consiste em dizer “não” a Sócrates. É para isso que servem as próximas eleições. Neste contexto, o PS será o partido do “sim” às políticas seguidas, às reformas empreendidas, ao combate à crise. O PS irá apresentar-se pela positiva, como o partido que age e tem capacidade para dar a volta às coisas, contra o pessimismo diante do que temos e o quietismo face ao que podemos fazer que caracterizam o PSD. O PS tentará demonstrar que, ao contrário dos seus adversários políticos, é responsável e sabe para onde vai. À partida, a estratégia do PSD é mais prometedora que a do PS. A crise internacional, que começou por favorecer aqueles que ocupavam o poder, está agora a tornar-se aliada das oposições. O “não” tornou-se mais sedutor do que o “sim”. Mas os portugueses são naturalmente cépticos. Não será fácil convencê-los a trocar o seguro pelo incerto. Historiador

—29 Junho 2009

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