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Número 36/II Série - 2019

ORIENTE OCIDENTE


Índice 03 | Editorial Jorge H. Rangel 04 | O corte e o restabelecimento das relações diplomáticas Luso-Chinesas (1949-1979) Pedro Catarino 16 | Escola Portuguesa: 20 anos em Macau Manuel Peres Machado e Elsa Botão Alves 24 | Macau abre novos caminhos para o futuro da China Marco Carvalho (texto) e António Sanmarful (fotografias) 32 | Linguística contemporânea e Tribunais António Santos Carvalho 34 | A imagem dos portugueses na mira dos chineses e dos macaenses Álvaro Rosa e Ana Cristina Alves 44 | Principais festividades tradicionais da comunidade macaense Alexandra Sofia Rangel 52 | Padre Tomás Pereira - O jesuíta do Imperador Joaquim Magalhães de Castro 58 | Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau: um guião para o futuro de Macau Louise do Rosário

68 | Uma arca de tesouro marítima: Museu de Guangdong alberga barco naufragado há 800 anos José Simões Morais 74 | Os nossos parceiros: Associação Amigos da Nova Rota da Seda Fernanda Ilhéu 76 | IIM – 2018: principais actividades 97 | Edições IIM – 2018

Ficha técnica

ORIENTEOCIDENTE – N.º 36/II Série - 2019 (publicação anual) Director: Jorge H. Rangel | Coordenação: José Lobo do Amaral | Editor e proprietário: Instituto Internacional de Macau Sede: Rua de Berlim, Edifício Magnificent Court, 240, 2º (NAPE) – Macau – Tel: (+853) 2875 1727 / 2875 1767 | Fax: (+853) 2875 1797 Site: www.iimacau.org.mo | Email: iim@iimacau.org.mo | Delegação em Lisboa: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, 11, 1150-320 Lisboa | Tel: (+351) 21 324 1020 | Fax: (+351) 21 324 1029 | E-mail: iimlisboa@iim.com.pt | Tiragem deste número: 1.000 exemplares | Design e produção gráfica: Maisimagem II | Impressão e acabamento: ACD Print | Depósito legal: 377103/14 – Os números anteriores ao n.º 31 foram produzidos e distribuídos na RAEM.

O Acordo Ortográfico é usado ou não pelos Autores segundo o seu próprio critério. Com o apoio da

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Editorial

Sempre que concluímos a preparação de mais um número da Oriente/Ocidente, dois sentimentos se manifestam, de imediato, em nós: o de satisfação, por termos podido dar continuidade, com coerência e eficácia, a um projecto cultural de reconhecido mérito, e o de gratidão, à pequena equipa que, sem qualquer benefício material, assume a sua concepção e coordenação, à Maisimagem, que assegura, com profissionalismo, a sua produção e, sobretudo, aos autores dos artigos que lhe dão conteúdo de elevada qualidade. É esta exemplar conjugação de esforços que nos permite ir sempre mais longe, quer no que respeita à execução da revista, quer na realização bem conseguida dos múltiplos estudos e programas de acção que desenvolvemos e que são, resumidamente, referidos nas páginas finais deste nosso órgão de informação e difusão cultural. A propósito do 40.° aniversário do acordo firmado em 1979 por Portugal e pela República Popular da China, este número tem como principal tema, tratado com a desejada profundidade pelo Embaixador Pedro Catarino, o corte e o restabelecimento das relações diplomáticas luso-chinesas (1949-1979). Também

é dada especial atenção ao 20.° aniversário da Escola Portuguesa de Macau, instituição educativa relevantíssima para a manutenção e o reforço do ensino em língua veicular portuguesa e para viabilizar a necessária permanência da comunidade portuguesa na RAEM. E, no âmbito do ensino superior e da investigação científica, julgámos útil promover a divulgação de alguns dos mais notáveis trabalhos em curso nos laboratórios especializados da Universidade de Macau, no que concerne a avançadas tecnologias. Outros oportunos assuntos agora incluídos são a tradução linguística no contexto jurídico, um interessante estudo sobre a imagem dos portugueses na mira dos chineses e dos macaenses, a identificação das principais festividades tradicionais da comunidade macaense, a exaltação de uma das mais influentes figuras estrangeiras na corte de Pequim – o Padre Tomás Pereira, embaixador, músico, antropólogo e etnólogo, uma apreciação crítica, séria e objectiva, do significado e da dimensão do ambicioso projecto de desenvolvimento integrado regional denominado a Grande Baía Guangdong – Hong Kong – Macau, recentemente anunciado, e um

fascinante relato da recuperação de um junco, com a sua arca de tesouro, construído na dinastia Song do Sul (1127-1279), naufragado a poucas milhas da costa, no Mar da China Meridional, descoberto no fundo do mar em 1987 e trazido à superfície duas décadas depois, para ser instalado no moderno edifício do Museu da Rota da Seda Marítima de Guangdong, em Hailang, a cerca de 280 quilómetros de Macau. Como é habitual, também damos a conhecer mais um dos muitos parceiros que firmaram protocolos de cooperação com o IIM, sendo desta vez contemplada a Associação Amigos da Nova Rota da Seda, formalmente registada em Lisboa, em Dezembro de 2016. A revista encerra com uma súmula das mais significativas actividades levadas a efeito no último ano pelo IIM e com uma resenha das nossas edições, cuja qualidade e diversidade são enaltecidas nos círculos académicos. Cumprir a missão que escolhemos é um propósito irrecusável.

Macau, Agosto de 2019 Jorge A. H. Rangel

Presidente do Instituto Internacional de Macau

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O corte e o restabelecimento das relações diplomáticas Luso-Chinesas (1949-1979)

Pedro Catarino Embaixador

A minha intervenção, não sendo eu um académico nem historiador, vai ser sobretudo fruto da minha experiência profissional, que me pôs em contacto com Macau, Hong Kong e a China e me permitiu acompanhar de forma continuada os desenvolvimentos relativos à região durante as últimas 3 décadas do século passado. As nossas relações com a China foram sempre dominadas, naturalmente – ainda hoje o são – pelo nosso estabelecimento em Macau desde meados do Século XVI. Daí que seja necessário enquadrálas nos desenvolvimentos históricos relativos a Macau e percebermos como as devemos perspetivar. Para o fazermos devemos ter em conta que é sempre delicado evocar a história, perante um país como a China. A China é um país tradicionalmente virado para si próprio. Desde tempos imemoriais que se assumiu como centro do mundo, desvalorizando tudo o que se passasse para além das suas fronteiras, exceto o que pudesse afetar a sua segurança e tendendo a minimizar o impacto e a influência dos fatores externos, em relação aos quais manteve sempre uma enorme desconfiança. A China foi sempre um país fechado, procurando o seu isolamento, cioso

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Encontro com o Presidente Jiang Zemin.

dos seus usos e costumes, da sua maneira de viver e assegurando-se da sua integridade e da sua segurança.

sobretudo depois com Deng Xiaoping e a sua política de reforma e abertura.

Quando foi forçada a abrir-se a partir de meados do Século XIX – 1841 com as guerras do ópio – todas as desgraças lhe caíram em cima.

Segundo Deng Xiaoping, um país fechado e atrasado economicamente é um país fraco e vulnerável, à mercê e presa fácil de eventuais inimigos. Para ele, era preciso abrir o país, aceitar o investimento estrangeiro, aprender com os outros países, desenvolver as tecnologias, aumentar o comércio internacional.

A queda do império, a guerra civil, as lutas intestinas, a invasão por forças estrangeiras. Foi um longo período, inglório, de subjugação, de sofrimento, de destruição, de servidão e de humilhações. Este quadro negro só se alterou com a revolução comunista em 1949 e

Hoje a China, na senda de Deng Xiaoping, o grande responsável e impulsionador da modernização do país, tornou-se uma potência global, com relações com todos os países


O corte e o restabelecimento das relações (...) Luso-Chinesas (1949-1979)

do mundo, com uma nova confiança, que olha para o seu passado imperial com orgulho, que volta a valorizar o confucionismo como fundamento da identidade chinesa. Onde antes via só aspetos negativos, a China começa a ver na História motivos de inspiração e sinais da grandeza do país e a distinguir e a fazer a diferenciação do bom e do mau. É assim com a sua própria história, mas também com o relacionamento com outros povos e países. Sinal dessa nova atitude é a recuperação da Rota da Seda. É bom que tenhamos uma correta perceção desta evolução, ao tentarmos compreender e apresentar o caso de Macau. Falar das relações diplomáticas com a China é, como já salientei, falar de Macau que constitui, desde os primórdios, o elo entre os 2 países e a razão de ser das suas relações. Foi assim no princípio, assim se manteve durante mais de 4 séculos e assim é hoje. É Macau que constitui o fator da nossa diferenciação e da especificidade do caso português, no contexto das relações dos países europeus com a China. Felizmente – e devemos congratularmo-nos com isso – a história moderna veio criar as condições para que a China possa respeitar, por um lado, a autonomia e singularidade de Macau como região administrativa especial nos termos da Declaração Conjunta e o legado histórico de Portugal, e apoiar, por outro lado, o papel de Macau na estratégia do seu relacionamento externo, valorizando ao mesmo tempo, o fator histórico nas suas relações recíprocas com o nosso país.

Momento histórico: os embaixadores de Portugal e da China, respectivamente António Coimbra Martins e Han Kehua, assinam em Paris, em 8 de Fevereiro de 1979, o acordo de estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países.

A diplomacia teve um papel importante para criar essas condições e é justo que tal seja reconhecido.

em Pequim que foi encerrada em 1949 com o advento do comunismo.

Desde os primeiros tempos do estabelecimento de Macau que houve sempre uma teia de relações com as autoridades regionais e nacionais chinesas que podemos qualificar de relações diplomáticas e que acompanharam e apoiaram o exercício da administração e governo daquele Território.

Não vou fazer o historial detalhado do nosso relacionamento com a China, mas acho que é importante dar uma ideia do contexto que constituiu o pano de fundo das nossas relações diplomáticas. Vou descrever esse contexto, baseado na minha observação e experiência pessoal.

Realizámos, nomeadamente, desde o século XVI, várias embaixadas a Pequim, com maior ou menor sucesso, e durante largos anos, os Governadores de Macau eram ao mesmo tempo os nossos Ministros junto do Governo Central da China, e os cônsules em Cantão eram funcionários destacados de Macau, respondendo perante os Governadores.

Em 1972, tinha eu acabado a minha comissão no cumprimento do serviço militar obrigatório em Macau, onde estive 2 anos, em que exerci também a profissão de advogado, quando regressei ao serviço diplomático e fui colocado na Divisão Política da África, Ásia e Oceânia. Um dos pelouros que me foi atribuído foi naturalmente o pelouro de Macau.

Só no limiar do Século XX tivemos uma legação diplomática sediada

A RPC, tinha assumido na AGNU, em outubro de 71, o lugar da China

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na Organização e no CS como membro permanente. Portugal tinha, curiosamente, votado a favor da moção processual prévia, considerando a questão da admissão da RPC e expulsão de Taiwan como uma questão importante e, portanto, sujeita a uma maioria de 2/3. Essa moção foi derrotada (55 votos a favor, 59 contra) e o nosso voto foi resultado de um insistente pedido dos EUA, nosso importante aliado que não desejávamos nem estávamos em posição de hostilizar. Portugal, todavia, votou já favoravelmente a resolução admitindo a RPC e expulsando Taiwan, que foi aprovada por 76 votos a favor, 35 contra, 17 abstenções, 3 países ausentes. Aqui jogou o desejo de agradarmos a Pequim e correspondermos positivamente a uma diligência informal transmitida pelo Sr. Ho Yin, líder da comunidade chinesa em Macau, dizendo que o nosso voto favorável seria bem acolhido na capital chinesa. Não tínhamos, por outro lado, razão especial para sermos agradáveis com Taiwan, cujos votos na ONU nos eram sistematicamente desfavoráveis. No seguimento da sua admissão, a RPC enviou uma carta em 8 de março de 1972, assinada pelo seu Representante Permanente, Huang Hua, e dirigida ao Presidente do Comité Especial de Descolonização, o tanzaniano Salim Salim, referindo-se às questões de Hong Kong e Macau. Dada a importância histórica desta declaração quer para a definição do futuro de Macau quer para o restabelecimento de relações diplomáticas, dou dela conta “ipsis verbis”.

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E cito: “Como é do conhecimento de todos, as questões de Hong Kong e Macau pertencem à categoria de questões resultantes de tratados desiguais deixados pela história, tratados esses impostos pelos imperialistas à China.

Hong Kong e Macau são parte do território chinês, ocupados pelas autoridades britânicas e portuguesas. A resolução das questões de Hong Kong e Macau está inteiramente dentro do direito soberano da China e não se enquadra na categoria de “territórios coloniais”. Consequentemente, não deverão ser incluídos na categoria de “territórios coloniais incluídos na Declaração sobre a concessão da independência a países e povos coloniais. Em relação às questões de Hong Kong e Macau, o Governo chinês tem consistentemente defendido que elas deverão ser resolvidas de uma forma adequada quando as condições estiverem maduras. As Nações Unidas não têm o direito de discutirem estas questões. Pelas razões acima indicadas, a delegação chinesa opõe-se à inclusão de Hong Kong e Macau na lista dos territórios coloniais cobertos pela declaração e solicita que a referência errónea segundo a qual Hong Kong e Macau se incluem na categoria dos assim designados “territórios coloniais”, seja imediatamente retirada dos documentos do Comité Especial e de quaisquer outros documentos das Nações Unidas”. Fim de citação. A Grã-Bretanha, perante as recomendações do relatório do Comité Especial de Descolonização aceitando as injunções chinesas e a sua aprovação pela AGNU, limitou-se a observar, numa carta do seu Repre-

sentante Permanente, que não existiam razões para continuar a fornecer às NU informação sobre HK e que a resolução aprovada não alterava o estatuto legal da colónia Britânica. Quanto a Portugal, não tugimos nem mugimos. A nossa política era não levantarmos ondas e, no fundo, a exigência chinesa de retirar Macau da lista dos territórios coloniais, até coincidia com a política portuguesa da unidade pluricontinental da Nação portuguesa. A declaração da China nas Nações Unidas não causou surpresa, nem se pode dizer que tenha sido inesperada. A China não desejava nem a internacionalização das questões de Hong Kong e Macau, nem que se formassem quaisquer movimentos defendendo a autodeterminação dos 2 territórios. Por outro lado, sempre defendera que HK e Macau eram parte integrante da China e na devida altura, sem pressas e de acordo com os interesses chineses, as questões seriam resolvidas. Esta posição era agora declarada “urbi et orbi“, no fórum das NU. Alto e de forma clara. Sem margem para qualquer discussão.

Alea jacta est. Os dados estavam lançados. No que nos diz respeito, ouvimos bem e tirámos as devidas consequências. Não foi o caso dos ingleses, que levaram algum tempo a aceitarem a posição da China, mas que, no final, acabaram por ter de o fazer. Mas voltemos à minha modesta intervenção como jovem diplomata.


O corte e o restabelecimento das relações (...) Luso-Chinesas (1949-1979)

Regressado de Macau ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, fui solicitado pelo Gabinete do Ministro, que era então Rui Patrício a fazer uma informação de serviço sobre os títulos jurídicos da nossa soberania sobre Macau. Ele queria ter uma visão esclarecida sobre a matéria. Fi-lo em forma de apontamento, datado de 6 de julho de 1973. Nele fiz uma resenha da evolução histórica de Macau desde os primeiros contactos entre portugueses e chineses, do estabelecimento dos portugueses em Macau, das limitações e constrangimentos sempre impostos pelos chineses, do exercício “de facto” da soberania a partir de 1849 com o Governador Ferreira do Amaral, e da assinatura, finalmente, de um tratado em 1887 e ratificado em 1888 em que a China “confirma a perpétua ocupação e governo de Macau por Portugal”. Por último, referi os desenvolvimentos mais recentes da forma como se exerceu a soberania portuguesa em Macau, antes da conclusão final. Resumo os pontos principais: 1. Sobre o estabelecimento dos portugueses em Macau os dados documentais são pouco precisos e por vezes contraditórios e não existe qualquer documento da época que ateste ou comprove como os portugueses se estabeleceram em Macau. Resta o facto, esse indiscutível, de nos termos instalado em Macau desde a segunda metade do século XVI e de ali termos permanecido ininterruptamente, com o acordo, ou pelo menos, com a tolerância dos chineses. Instalação essa que não se deveu ao emprego da força, a um ato de guerra, de conquista.

Deng Xiaoping recebe o Presidente da República Portuguesa, António Ramalho Eanes, em 21 de Maio de 1983.

Como poderia ser? 2. Sobre as condições da nossa soberania, desde cedo os chineses nos impuseram toda a espécie de limitações, constrangimentos e condicionamentos: pagamento de um foro, estabelecimento de uma alfândega chinesa, intervenção de um mandarim na administração, imposição de uma jurisdição chinesa, etc., etc. Existiu quase sempre uma relação de conflito, latente ou aberto, em que se confrontaram por um lado a ação portuguesa no sentido de consolidar os seus poderes e por outro uma pressão por parte dos chineses no sentido de restringirem o espaço de ação da jurisdição portuguesa, nomeadamente para que tal não pudesse pôr em causa a soberania chinesa. Para os chineses, Macau era, e deveria permanecer, como um território aforado e emprestado. Em várias ocasiões, esse confronto suscitou incidentes ou conflitos mais

ou menos graves, mas dos quais, apesar da dependência total do território da benevolência e tolerância dos chineses, nunca resultou a expulsão dos portugueses.

Et pour cause. A China sempre retirou importantes benefícios e proveitos da existência de Macau. E apesar de todos os constrangimentos, Macau viveu períodos de total acalmia e pôde desempenhar o papel de entreposto privilegiado para o comércio internacional da China e de porta de entrada para o Império Celeste. 3. Com as guerras do ópio e a subjugação dos chineses ao poder militar dos ingleses, a correlação de forças, senão com Portugal, mas certamente com os países estrangeiros, alterou-se. Daí que a partir de 1849, com o Governador Ferreira do Amaral, a soberania portuguesa se tenha afirmado no plano dos factos, com o

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fim do foro e expulsão da alfândega chinesa. Mas o certo é que os chineses continuaram sempre a contrariar a afirmação da nossa soberania. Sempre se opuseram às nossas diversas tentativas para a celebração de um acordo que reconhecesse os nossos direitos. Por serem ilustrativos da resistência dos chineses, aqui vos deixo alguns excertos da correspondência trocada com os nossos negociadores. Encarregado de concluir em 1862 um tratado com a China, o Governador de Macau, Isidoro Guimarães, confessa o seu desalento e a inutilidade dos seus esforços para conseguir que o Governo chinês considere definitivamente Macau como território português. E acrescenta: “Tenho procurado em todos os arquivos documentos que possam ser-

vir-me para a difícil tarefa …, porém não acho um só título com que possa estribar as nossas pretensões e em contrário encontro-os aos montes”. Por sua vez, o Governador Visconde de São Januário, em ofício de 25 de Abril de 1872 para o MNE Andrade Corvo, escreve “o governo Chinês só à força consentirá, num tratado, a alienação, por mínima que seja, de uma parte do território do Celeste Império”. Mas os chineses viriam finalmente a ceder, ainda que com relutância e reticências, em 1887, levados a isso pelo estado de necessidade em que se encontravam dada a fraqueza das suas finanças e por precisarem da cooperação lusa na cobrança de direitos sobre o comércio do ópio. O tratado foi negociado da parte chinesa por um inglês, Sir Robert Hart, Inspetor Geral das Alfândegas chinesas e pelo seu adjunto James Campbell, que curiosamente che-

gou a alvitrar a ideia da venda do nosso território, logo, contudo, abandonada. Conforme este “Tratado de Amizade e Comércio” de 1887, “a China confirma a perpétua ocupação e governo de Macau por Portugal”, obrigando-se Portugal a nunca alienar Macau sem acordo com a China. O tratado deixa a questão dos limites de Macau para futuras negociações, que nunca chegaram a resultados concretos. Diga-se de passagem que a parte portuguesa no GLC levantou no meu tempo a questão da definição das águas territoriais. A parte chinesa opôs-se a que a matéria fosse tratada no GLC uma vez que recaía na esfera da soberania chinesa e seria tratada só após a reversão do território para a China. Apesar dos termos do tratado de 1887 a China continuou a defender que o mesmo não consubstanciava o reconhecimento da soberania portuguesa sobre Macau. Para os chineses Macau era há mais de mil anos parte integrante da China, fazia parte dos bens materiais da Nação chinesa, inalienáveis. O tratado de 1887 acabaria, como vimos, por ser qualificado como um tratado desigual, no mesmo plano de outros tratados impostos à China pelos países imperialistas. Perante este contexto e tendo em conta as condições de Macau a conclusão a que chego no meu apontamento e que submeti ao Ministro, foi de que uma argumentação jurídica em defesa dos nossos direitos de soberania seria irrelevante e, portanto, inútil.

Rui Medina e Zhou Nan trocam os documentos rubricados no Palácio do Povo, em 26 de Março de 1987.

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Esta minha conclusão está sintetizada na frase, que transcrevi no meu apon-


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tamento, inserta no jornal de Macau em língua chinesa Tai Chong, na sua edição de 18 de junho de 1971: “Sem dúvida Hong Kong e Macau são partes integrantes da China e a sua recuperação, mais cedo ou mais tarde, depende da política da nossa Pátria. Assim, qualquer profecia ou conjetura a esse respeito é supérflua e pouco prática”. Uns escassos 9 meses depois da data do meu apontamento deu-se a revolução do 25 de Abril e iria pôrse à consideração dos nossos governantes, num novo contexto político, a questão de Macau e das nossas relações com a China, que tinham sido interrompidas em 1949. Vejamos como chegámos a essa situação. Nos últimos anos do século XIX, a degradação da situação interna na China agravou-se, mergulhando o país num período de contínua conflitualidade: derrota na guerra com o Japão, revolta dos boxers, intervenção das grandes potências e imposição de concessões e direitos de extraterritorialidade, o estertor da dinastia Ching e a implantação da República em 1912. Entretanto deu-se em Portugal a proclamação da República em 1910. A mudança de regimes em Portugal e na China, quase ao mesmo tempo, não veio alterar as posições dos 2 países quanto a Macau. Neste sentido, refira-se, teve lugar uma troca de comunicações oficiais quando, em 16 de outubro de 1913, Yuan Shi-Kai, que tinha assumido o poder em substituição de Sun Yatsen, foi eleito Presidente da República pela Assembleia Nacional Chinesa. O MNE Sun Pao-Shi envia, nesse mesmo dia, uma nota infor-

mando da eleição o Ministro português em Pequim, que lhe responde logo que a República Portuguesa reconhece a República da China. No seguimento desta troca de Notas, Yuan Shi-Kai telegrafa ao Presidente Manuel de Arriaga agradecendo o apoio de Portugal ao novo regime e manifestando o desejo de que Portugal e a China mantivessem e estreitassem as suas relações de amizade. Pouco depois, em 1916, morre Yuan Shi-Kai e, em 1925, morre Sun Yatsen. A China continua durante toda a primeira metade do século XX num estado de insurreição permanente e de ausência de autoridade com sucessivas mudanças políticas. Embora em 1928, Chiang Kaishek consiga uma reunificação precária da China, a agitação política e social contínua, acompanhada de uma campanha para a abolição dos tratados desiguais e dos direitos extraterritoriais, bem como a guerra civil entre os nacionalistas e comunistas e a partir de 1931 e depois de 1937, a guerra e ocupação pelos japoneses. Durante estes anos negros da história da China, Macau procurou manter a neutralidade não só em relação aos conflitos internos, mas também durante a ocupação da China pelo Japão, período particularmente difícil no nosso território. Macau serviu, contudo, de refúgio e base de revolucionários e reformistas que ali foram desenvolvendo as suas atividades em diversos períodos do final do século XIX e princípios do século XX. Durante os anos de turbulência na China, a vida em Macau prosseguiu

em altos e baixos, com períodos de tensão e incidentes mais ou menos graves, e períodos de acalmia com contactos e comunicação normal, muitas vezes cordial, com as autoridades provinciais chinesas. A questão dos limites territoriais e marítimos de Macau e as nossas pretensões em relação às ilhas da Lapa, Montanha e D. João, nunca satisfeitas, continuaram na ordem do dia, bem como a resistência chinesa a tudo o que pudesse ser entendido como extensão ou afirmação da nossa soberania. Com o fim da ocupação japonesa da China, e o assomo de nacionalismo que se lhe seguiu, Macau viveu horas de incerteza com manifestações das populações, exigindo a restituição à China de Macau e Hong Kong e declarando o boicote ao nosso território. O Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês terá mesmo chegado a telegrafar ao Ministro da China, em Lisboa, com instruções para notificar o Governo português da intenção da China de recuperar Macau. (Não cheguei a confirmar esta informação, constante do livro “Macau 400 Years, de Fei ChengKong). A mesma intenção foi declarada pelas autoridades de Guangdong que chegaram a enviar tropas para apoiar o bloqueio de Macau e a solicitar uma decisão ao Governo Central. No entanto, a intervenção de Chiang Kaishek fez cessar a campanha para a devolução de Macau à China, por entender que os problemas de Macau e Hong Kong deveriam ser resolvidos simultaneamente, como um todo e reconhecer que existiam dificuldades em reganhar Hong Kong.

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É curioso notar o que se passou então com Hong Kong. Roosevelt, embora não tenha assumido qualquer compromisso, tinha dado a entender a Chiang Kaishek que ele não se oporia a que, após a derrota do Japão, houvesse uma negociação com vista à retrocessão de Hong Kong, em consonância com a política americana de pôr fim aos direitos extraterritoriais e concessões estrangeiras na China. Chiang pretendia assim que os japoneses se rendessem em Hong Kong, considerada como parte da China, perante ele, na sua qualidade de Generalíssimo do Teatro da China. Os Britânicos mostraram-se dispostos a que um representante de Chiang Kaishek estivesse presente na cerimónia de rendição, mas não a aceitar a interpretação de Chiang Kaishek segundo a qual Hong Kong fazia parte da China e que fosse a China a aceitar a rendição. Attlee, que entretanto substituíra Churchill, despachou rapidamente uma força naval para Hong Kong para aceitar a rendição das forças japonesas e restaurar a administração britânica e telegrafou ao Presidente Truman para que este instruísse o General MacArthur, Comandante Supremo Aliado, para garantir que a rendição se fizesse ao Comandante da Força Naval britânica, Almirante Harcourt, à sua chegada à colónia. Chiang Kaishek reagiu, sugerindo como compromisso que os japoneses se rendessem perante um seu representante, que estaria autorizado, por sua vez, a autorizar as forças britânicas a recuperarem a “ilha de Hong Kong”.

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Truman respondeu que a questão era sobretudo de carácter operacional e que o mais razoável era que a rendição se fizesse às autoridades da nação que exercia anteriormente a soberania na área, aquando da ocupação japonesa. Chiang Kaishek, teimosamente, respondeu que aceitava delegar a sua autoridade no Comandante britânico para este aceitar a rendição, devendo representantes da China e dos EUA participar na aceitação da rendição. Mas os britânicos recusaram-se a aceitar esta sugestão: deveria ser o Comandante das Forças Britânicas a aceitar a rendição; quando muito, podiam representantes da China e EUA estar presentes e assinar, mas apenas como testemunhas. Chiang Kaishek insistiu, chegando mesmo a notificar o Embaixador britânico que delegava a sua autoridade no Comandante das Forças Navais britânicas e solicitou ao Presidente Truman que transmitisse a este último as necessárias instruções. Ao mesmo tempo, informou Truman que não era intenção do seu governo enviar tropas chinesas para ocupar Hong Kong, não desejando alterar o status quo da colónia britânica. Chiang queixou-se ainda da atitude dos ingleses que qualificou de imperialista, dominadora e imprópria de um membro das Nações Unidas, ao ameaçarem com o uso da força não só em Hong Kong e Kowloon, mas noutras partes da China. Truman nada fez e a rendição dos japoneses acabou por ser feita ao Almirante inglês Harcourt, em seu nome próprio, o que não impediu

os chineses de, nos seus registos, incluírem Hong Kong entre as rendições feitas à China. Com o fim da ocupação japonesa em 1945, reacendeu-se de imediato a guerra civil que acabaria com a vitória dos comunistas em 1949 e a debandada dos nacionalistas para Taiwan. Mais uma vez surgia uma situação de grande incerteza em relação ao futuro de Macau. Daí que a questão do reconhecimento do novo regime e do estabelecimento de relações diplomáticas, tivesse sido objeto de cuidadosa ponderação por parte dos governantes portugueses. Chou Enlai, no próprio dia 1 de outubro de 1949, endereçou uma carta circular ao Ministro de Portugal na China, dando conhecimento da proclamação da RPC e afirmando que o seu governo estava disposto a estabelecer relações diplomáticas com qualquer governo estrangeiro que respeitasse os princípios da igualdade, benefício mútuo e respeito mútuo pela integridade territorial e soberania. Outra condição seria, evidentemente, não terem relações com Taipé. Quer o Ministro de Portugal na China, Ferreira da Fonseca, quer o Cônsul em Cantão, Calvet de Magalhães, quer o Governador de Macau, Albano de Oliveira, defenderam a conveniência para Portugal, devido sobretudo à questão de Macau, em reconhecer a nova situação e estabelecer relações diplomáticas com Pequim. Salazar, prudentemente, a conselho nomeadamente do MNE Caeiro da


O corte e o restabelecimento das relações (...) Luso-Chinesas (1949-1979)

Mata, quis aconselhar-se com os ingleses e ver como os outros países ocidentais iriam proceder, nomeadamente os EUA. Estes últimos eram naturalmente hostis ao novo regime, devido à sua ideologia e militantismo anti-imperialista e porque entendiam que a nova situação não era democrática, nem oferecia garantias de respeito pelos tratados e obrigações internacionais. A Grã-Bretanha, com a preocupação de proteger os seus interesses comerciais em Hong Kong, decidiu por seu lado reconhecer o novo regime, que fora, entretanto, imediatamente reconhecido pela União Soviética e países comunistas. Nesse sentido, comunicou ao Governo de Pequim o seu desejo de troca de embaixadores logo em 6 de janeiro de 1950. O Governo chinês recusou, porém, o pedido, tendo apenas aceite que um funcionário do Foreign Office se deslocasse a Pequim e consentindo, após negociações, na abertura em 1954 de uma representação a nível de encarregado de negócios, o que a seu ver não constituía relações diplomáticas formais.

verno português tinha dado a mais cuidada atenção à comunicação recebida e que desejava manter e desenvolver no futuro relações amigáveis que desde sempre existiram entre os povos de Portugal e da China. Em tais circunstâncias, tínhamos a esperança que pudessem ser estabelecidas relações informais com as autoridades consulares portuguesas na pendência do estudo da situação descrita na comunicação recebida e proclamação anexa. Tendo em conta a situação de Macau e a sua total dependência da China e as opiniões expressas atrás referidas, o Conselho de Ministros discutiu o assunto, tendo chegado a acordar, em princípio, proceder ao reconhecimento. No entanto Salazar continuava a hesitar, tendo acabado por decidir não avançar com o reconhecimento. Terão pesado uma variedade de razões. Dos países ocidentais, tinham reconhecido o novo regime apenas a GrãBretanha (com os resultados referidos), a Suíça e os países nórdicos.

As relações, a nível de embaixadores, foram apenas estabelecidas em 1972.

Não o fizeram os EUA, nem o Canadá e a Austrália, nem a França (esta apenas o fez em 1964, no tempo de De Gaulle, e suscitando ásperas críticas dos americanos).

Note-se que a atitude da Grã-Bretanha não impediu as manifestações em 1967 em Hong Kong e que a sua representação diplomática em Pequim tivesse sido na altura atacada e incendiada.

Por nosso lado, razões ideológicas devem ter pesado fortemente e porventura, também o receio de que a Embaixada da China fosse utilizada como um ninho de propaganda contra Portugal e a sua política colonial.

Entretanto, Portugal manteve uma atitude expectante, tendo sido dadas instruções ao Ministro Ferreira da Fonseca para responder à missiva de ChouEnlai declarando que o Go-

Por outro lado, não desejávamos que as nossas alianças, nomeadamente a recém-criada NATO (abril de 1949), fossem postas em causa, não podendo nesse caso sequer

atuar como contrapeso de qualquer ação chinesa contra nós em Macau. Finalmente a eclosão da guerra da Coreia e a intervenção chinesa fizeram certamente pesar a balança contra o nosso reconhecimento. Neste contexto, a nossa embaixada, que estava sediada em Nanking, encerrou, não tendo sido transferida para a nova capital em Pequim. Que eu saiba não houve qualquer nota diplomática, formalizando o corte ou a cessação das relações diplomáticas. Aliás com a proclamação da República Popular da China, cessaram pura e simplesmente as relações com os países que não reconheceram o Governo de Pequim, deixando as autoridades chinesas de reconhecer os diplomatas em posto e as suas funções oficiais. Os representantes diplomáticos e consulares passaram a ser considerados meros residentes estrangeiros, desprovidos de quaisquer títulos oficiais. O Ministro Ferreira da Fonseca já tinha, entretanto, partido para o novo posto e o Encarregado de Negócios Simões Affra, seguira para Macau. Quanto a Xangai, que caíra sob o domínio comunista em maio de 1949, o nosso consulado terá igualmente sido encerrado e os arquivos e registos transferidos para o Consulado em Hong Kong, onde eu os fui encontrar quando fui transferido para este posto em abril de 1979. Foram, mais tarde, quando o posto foi encerrado em 2003, enviados para o MNE em Lisboa. Quanto a Cantão, que só foi ocupado pelos comunistas 15 dias após

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a proclamação da RPC, o Cônsul, que era o Dr. Calvet de Magalhães, foi mantido numa situação peculiar, como ele próprio refere no seu livro “Macau e a China no Após Guerra”, até setembro de 1950, sem qualquer estatuto nem possibilidade de praticar quaisquer diligências junto das autoridades chinesas nem de exercer o seu múnus profissional.

vadas, sobretudo, das atividades dos nacionalistas refugiados em Macau.

Não foi, contudo, objeto de maus tratos, para além das costumadas exigências e formalidades burocráticas.

Os acontecimentos mais graves tiveram lugar no final de 1966, por ocasião da revolução cultural.

Depois da partida do Dr. Calvet foi mantido em Cantão o Sr. Eugénio Miguel, que ali permaneceu até 1966, altura em que, na efervescência da revolução cultural, os guardas vermelhos atacaram o edifício do velho consulado, defenestrando o recheio e arquivos e expulsando o Sr. Miguel, que foi transferido então para o consulado em Hong Kong, onde o fui encontrar quando ali cheguei em 1979. Pouco depois de eu ter chegado o Sr. Miguel morreu de um ataque de coração. Quanto à Embaixada da China em Lisboa, essa continuou até 1974, mas como representação diplomática de Taiwan. Preocupados com as ambições de Taiwan e dos nacionalistas de recuperarem o poder e com a consolidação do seu próprio poder, e depois envolvidos na Guerra da Coreia, os comunistas não mostraram pressa em alterarem o status quo quer de Hong Kong quer de Macau, até porque eles representavam importantes fontes de informações, comércio e divisas, para além de serem pontos de passagem do contrabando de produtos sujeitos ao embargo americano. Continuou tudo como dantes, com alguns incidentes e questões deri-

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De notar os incidentes da Porta do Cerco em 1952 e em 1955, o cancelamento das comemorações dos 400 anos do estabelecimento dos portugueses em Macau devido às objeções chinesas.

O embargo de uma escola comunista na ilha da Taipa, levou a tumultos e a uma prova de força que acabou na humilhação da Administração portuguesa com o Governador a fazer o Kow Tow, a apresentar desculpas, a assumir responsabilidades e a pagar pesadas indemnizações às vítimas chinesas. Tudo resultou do ardor e fúria dos guardas vermelhos e da imprevisão e insensibilidade de uma administração portuguesa ineficiente e desajeitada. A China aproveitou para deixar bem claro que a soberania do território era chinesa, para neutralizar as organizações afetas a Taiwan, conseguir uma “capitis diminutio” da Administração portuguesa e reforçar o controle da comunidade chinesa e do próprio território. Mas conseguidos esses objetivos, a China, mais uma vez, mostrou que não estava interessada em alterar o “status quo” e correr com os portugueses e que para ela a altura da restituição de Macau ainda não tinha chegado. Nas judiciosas e perspicazes palavras do Dr. Calvet de Magalhães, e cito: “nunca houve intenção do Governo de Pequim de ocupar militar-

mente Macau, o que seria fácil. Macau não foi na altura salva por ninguém do nosso lado. Se alguém salvou Macau foi a própria China. Enquanto esta não decidisse recuperar Hong Kong que lhe foi arrancada pela força nunca iria perder a face apoderando-se da presa fácil de Macau”. Fim de citação. Em apoio desta posição, permitome referir a conversa tida em fevereiro de 1972 entre Chou Enlai, Nixon e Kissinger, cujos registos foram abertos ao público em 1999. A certa altura Chou Enlai refere a questão das colónias portuguesas em África para perguntar a Nixon porque é que os EUA não persuadiam Portugal a deixar Angola e Moçambique, demasiado grandes para um país tão pequeno como Portugal. Nixon respondeu que a sua influência era mínima dada a inflexibilidade de Portugal. Para o nosso país, Angola e Moçambique faziam tecnicamente parte de Portugal e não eram tratados como colónias. Portugal, por outro lado, era aliado dos americanos e uma atitude de contenção da parte dos EUA, dava a este país uma melhor possibilidade de influenciar o governo português. ChouEnlai, a certa altura, diz, e cito: “Portugal tem mesmo uma minúscula parte do território da China, “a very small place called Macau” a que chama parte de Portugal e que foi adquirido há 400 anos. Muitos dos nossos camaradas dizem que com um simples piparote podíamos recuperar o território, mas temos mantido uma atitude contida e desejamos esperar ainda algum tempo”. Fim de citação. Após os acontecimentos de 66/67, tudo voltou à tradicional placidez do


O corte e o restabelecimento das relações (...) Luso-Chinesas (1949-1979)

território. Macau caiu de novo num torpor lânguido e debilitado. Em 1974, com a revolução do 25 de Abril, o contexto político alterou-se radicalmente da nossa parte e desde cedo nos mostrámos desejosos de estabelecer relações diplomáticas com a China e dispostos a romper com Taiwan e a resolver a questão de Macau. Isto mesmo foi desde cedo objeto de uma nota oficiosa emanada do MNE, em 6 de janeiro de 1975, na qual o Governo Português declara “considerar do maior interesse estabelecer relações normais com a República Popular da China”. No parágrafo seguinte, acrescenta: “Portugal considera que a Formosa (Taiwan) é parte integrante da República da China”. Lapso incrível dos serviços do MNE uma vez que “República da China” era a designação da China antes da vitória comunista e que foi herdada por Taiwan. O país, com a vitória dos comunistas, passara a designarse “República Popular da China”. Sinal de alguma confusão que reinava então no Ministério. Não foi, como veremos, a última vez que lapsos deste tipo se verificaram. No mesmo dia em que foi emitida a Nota, o Encarregado de Negócios de Taiwan, Sr. Benjamin Tu, foi convocado ao MNE pelo Secretário-Geral, Embaixador Tomás Anderson, e foi informado do teor da Nota e da intenção de Portugal de reconhecer que Taiwan era parte integrante da República Popular da China. Seguiu-se o encerramento da Missão de Taiwan e o termo das suas relações diplomáticas com Portugal, em 27 de março de 1975.

Cerimónia de assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa, em 13 de Abril de 1987.

Dias depois, em 1 de Abril de 1975, o New York Times publica uma notícia intitulada “Lisbon and Peking at odds on Macau”, dizendo que Portugal tinha tentado devolver Macau à China. A notícia foi desmentida por Almeida Santos e Garcia Leandro, como não tendo o mínimo fundamento e nunca ninguém veio à liça indicar o canal ou a personalidade envolvida. Foi obviamente aquilo a que agora chamamos uma “fake news”.

E diz que, se isso sucedesse, a China ver-se-ia obrigada a aceitar e nesse caso a questão de Hong Kong imediatamente seria levantada. Nessa altura, contudo, a China estava ainda no meio da revolução cultural e os distúrbios de 1967 em Hong Kong estavam ainda frescos na memória das pessoas. Haveria assim o perigo de se cair no caos.

Mas não deixa de ser curioso notar como a notícia foi tomada pela China.

O Sr. Wong continua dizendo que era preciso persuadir o Governo português a não suscitar a questão, mas que seria impróprio para o governo chinês apresentar tal proposta.

É o Sr. Wong Man Fong, antigo alto funcionário da Agência de Notícias Nova China, que nos conta no seu livro “China’s resumption of sovereignty over Hong Kong”, publicado em Hong Kong em 1997.

Daí que o assunto tivesse sido comunicado informalmente junto do Presidente da Assembleia Legislativa de Macau, para que fizesse chegar ao Governo português o pensamento chinês.

O Sr. Wong refere que trabalhava em 1974 no Departamento de Análise da Xinhua e que foi enviado para Macau, por 3 meses, em virtude dos rumores quanto à entrega do território por Portugal à China.

O assunto ficou assim adormecido tendo voltado a ser abordado apenas em 1979 aquando das negociações para o estabelecimento de relações diplomáticas entre os 2 países.

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Acho que este testemunho é ilustrativo do desejo da China de manter o status quo em Macau e tratar da questão conforme o seu planeamento, sem ser sujeito à pressão de fatores que não fossem os ditados pelos seus próprios interesses e no calendário por si estabelecido. Entretanto, o Governo português desdobra-se em diligências e declarações públicas procurando, com alguma ânsia, uma aproximação com a China, expressando ao mesmo tempo a sua disposição de ir ao encontro dos desiderata chineses, quanto à resolução da questão de Macau. Diligências em Nova Iorque através da nossa Missão nas Nações Unidas, mensagens do Presidente da República e do Primeiro-Ministro, convites para visitas oficiais, tudo foi feito para que o processo das relações diplomáticas viesse a arrancar e a avançar. Ao mesmo tempo, a nossa Constituição, que entrou em vigor em abril de 1976, considera já Macau como um território sob administração portuguesa, já não fazendo parte do território nacional, nem constituindo um círculo eleitoral próprio para as eleições nacionais. Mas a hora não tinha ainda chegado para a China, que mostrou sempre uma grande prudência, dando uma resposta delicada, mas evasiva, às nossas diligências. A China concordou, contudo, como passo intermédio, na abertura, em Lisboa, de um escritório da agência de notícias Nova China, que funcionou como uma representação oficiosa da RPC enquanto não existiram relações diplomáticas. Várias razões explicarão as reticências chinesas.

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ORIENTEOCIDENTE

A China encontrava-se ainda em plena Revolução Cultural, aguardando-se uma clarificação política que só se deu em 1978, com o processo do “gang dos quatro” e a emergência de Deng Xiaoping.

racter mais semântico que substancial, mas que se puderam facilmente ultrapassar, numa altura em que os chineses já estavam desejosos de avançar com a normalização das relações.

O mesmo se passava em Portugal, na visão dos chineses. Aguardavam que o período do PREC evoluísse para uma situação estável, que a descolonização se fizesse de maneira a emergir uma situação clara, que a influência soviética, que suscitava a maior desconfiança dos chineses, nomeadamente em relação à descolonização, fosse reduzida ou neutralizada.

O acordo foi assinado em 8 de fevereiro de 1979, tendo sido acompanhado por uma Acta secreta que referia um terceiro país, a União Soviética, e a que, portanto, não convinha dar publicidade.

No fundo, aguardavam que Portugal se tornasse para eles um parceiro fiável, com quem fosse possível negociar com segurança e numa atmosfera de estabilidade, sem interferências indesejáveis. Tal acabou por suceder em 1978, tendo sido escolhido o palco de Paris e as embaixadas dos 2 países naquela capital para as negociações que então puderam avançar. A questão de Macau, com a aceitação da soberania chinesa sobre aquele território e de que o mesmo deveria ser restituído à China, através de negociações, foi fulcral para o acordo alcançado, da mesma forma que a questão de Taiwan e da política de Uma China. Mas, tudo isso já estava decidido, nessa altura. Os chineses quiseram ainda uma garantia que o território de Macau não pudesse servir de base a atividades hostis à RPC, por parte da União Soviética e de Taiwan. No final do processo, ainda houve alguns soluços devido a um pedido de alterações, de última hora, pelo Primeiro-Ministro Mota Pinto, de ca-

Seguiu-se a abertura das duas embaixadas em Pequim e Lisboa. Em abril de 1979, foi despachado para Pequim com cartas de gabinete, o jovem diplomata João de Deus Ramos e, em 10 de setembro, chegava à capital chinesa o Embaixador António Ressano Garcia, que apresentaria credenciais no dia 19 do mesmo mês. Estava assim completado o processo do restabelecimento de relações diplomáticas e aberto o caminho para a resolução da questão de Macau e o começo de um novo capítulo, no relacionamento entre os dois países. Ao fim de mais de 4 séculos do estabelecimento de Portugal em Macau e de cerca de um século e meio da presença da Grã-Bretanha em Hong Kong, estavam criadas as condições para que o processo de restituição dos 2 Territórios pudesse entrar numa fase final de concretização, que seria iniciada cerca de três anos depois, com as negociações sinobritânicas sobre Hong Kong. Tudo feito segundo o calendário e planeamento chinês. Duas observações: Alguns autores alegam que fomos longe de mais, abrindo mão de po-


O corte e o restabelecimento das relações (...) Luso-Chinesas (1949-1979)

sições sem contrapartidas e desvalorizando a nossa força negocial. Penso que não têm razão. Fomos sim realistas e aceitámos como premissas básicas as posições de princípio da China quanto a Macau. Sabíamos que não eram negociáveis para os chineses e assumimos bem a consciência de que estávamos perante o curso inelutável da história. Compreendemos que tudo aconselhava a uma boa colaboração com a China para que os interesses da comunidade portuguesa de Macau pudessem ser salvaguardados e garantidos os seus direitos e liberdades, para que os interesses de Portugal na área saíssem beneficiados, para que as nossas relações com a China pudessem ser reforçadas e para que pudesse ter lugar uma transferência de poderes em Macau condigna. Para além das referidas premissas básicas, haveria muito a fazer e muito a negociar e só havia vantagem em que as negociações se processassem numa atmosfera de confiança mútua e de um bom entendimento. Mas esta é já matéria que sai do âmbito desta conferência. Deixo aqui, porém, o repto de que é altura de produzirmos um “livro branco” sobre o processo das negociações, seus antecedentes e condicionantes e período de transição, que fique a constituir uma base documental sólida para as gerações futuras e para uma correta compreensão dos factos. Para terminar, vou-vos contar um “fait divers” passado comigo em Hong Kong, que mais parece uma anedota do que um facto real, como efetivamente é.

Deng Xiaoping concede uma audiência ao primeiro-ministro português.

Enquanto eu era Cônsul Geral em Hong Kong foi nomeado um novo Vice-Cônsul, Sr. António José Pereira, infelizmente já falecido. O facto deve ter-se passado no ano de 1980.

seja, ao Presidente de Taiwan, que nós não reconhecíamos, com que tínhamos cessado as relações diplomáticas e que nada deveria ter a ver com a colónia britânica de Hong Kong.

Conforme o procedimento habitual, o MNE, quando é nomeado um agente consular, emite um pedido de “exequator”, num documento formal em papel especial e escrito numa caligrafia desenhada especialmente por um calígrafo, assinado pelo Presidente da República, Primeiro-Ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros e dirigido ao Chefe do Estado com jurisdição sobre o território em que o agente consular vai desempenhar as suas funções.

Devolvi assim o documento recebido, num ofício confidencial para o MNE, chamando a atenção para o lapso, que me fez recordar o lapso que tinha acontecido com a Nota Oficiosa de 6 de janeiro de 1975.

O Chefe do Estado a quem o pedido é dirigido emite o “exequator”, reconhecendo o agente consular e garantindo os direitos e privilégios das suas funções. Quando o pedido de “exequator” do Senhor António José Pereira chegou ao consulado, verifiquei que ele estava dirigido, pasme-se, ao Presidente da República da China, ou

Passados uns tempos, recebi um novo pedido de “exequator”, devidamente assinado pelo Presidente da República, Primeiro-Ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros e já dirigido a Sua Majestade a Rainha Isabel II.

[Por gentil deferência do Embaixador Pedro Catarino, este importante e oportuno texto foi adaptado de uma comunicação por si proferida na Sociedade de Geografia de Lisboa, por iniciativa da sua Comissão Asiática, em Abril do corrente ano, para assinalar o 40.° aniversário do restabelecimento das relações diplomáticas luso-chinesas.]

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Escola Portuguesa: 20 anos em Macau Manuel Peres Machado Presidente da Direção Elsa Botão Alves Assessora da Direção A Escola Portuguesa de Macau, que atravessa, no corrente ano, o seu vigésimo aniversário de funcionamento, foi criada em 1998 estabelecendo no seu projeto educativo, antes de mais, “a missão de garantir aos alunos que a frequentam uma escolarização de nível e efeitos iguais aos que proporciona qualquer outra escola integrada no sistema educativo português”. Fundação da Escola A criação de uma escola portuguesa na futura RAEM, discutida ao mais alto nível, conduziu à publicação do Decreto-Lei 89-B/98, de 9 de abril, que instituiu, pelo Estado Português, pela Fundação Oriente e pela Associação Promotora da Instrução dos Macaenses uma fundação denominada Fundação Escola Portuguesa de Macau (FEPM) com o objetivo de criar as condições de funcionamento e de desenvolvimento de uma escola portuguesa em Macau. Com alvará concedido pela Direção dos Serviços de Educação e Juventude de Macau em 21 de agosto de 1998, a Escola Portuguesa de Macau (EPM) iniciou a sua atividade, como instituição educativa particular sem fins lucrativos, em 1 de setembro de 1998, com uma população discente superior a 1.000 alunos, ainda sob governação portuguesa, pois a transferência da administração do Território de Macau para a

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ORIENTEOCIDENTE

Entrada principal da Escola Portuguesa de Macau (EPM).

República Popular da China ocorreria em 20 de dezembro de 1999. A EPM constituiu-se como herdeira de prestigiadas instituições de ensino que a precederam: o Colégio D. Bosco, a Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva, a Escola Comercial Pedro Nolasco, a Escola Preparatória do Dr. José Gomes da Silva e a Escola Secundária Infante D. Henrique – tradicionalmente designada por Liceu de Macau – as quais acolheram a quase totalidade dos jovens que fizeram a sua formação escolar em língua veicular portuguesa no Território de Macau até à criação desta instituição. Localizada na península de Macau, no sudoeste da República Popular da China, viu a sua primeira pedra

ser lançada no dia 18 de abril de 1998 pelo então Primeiro Ministro de Portugal Eng. António Guterres. Presentes nesta cerimónia estiveram ainda diversas individualidades, sendo de salientar o General Vasco Rocha Vieira, Governador de Macau, o Professor Doutor Marçal Grilo, Ministro da Educação de Portugal, o Dr. Jorge Rangel, Secretário Adjunto para a Administração, Educação e Juventude, o Eng. Roberto Carneiro, Presidente da Fundação Escola Portuguesa de Macau e a Dra. Maria Edith da Silva, futura Presidente da Direção da EPM. Utilizando as antigas instalações da Escola Comercial Pedro Nolasco, acrescidas de uma nova ala a ser construída no mesmo local, na sequência da cerimónia inaugural, cria-


Escola Portuguesa: 20 anos em Macau

ram-se, deste modo, as condições para a escola entrar em funcionamento, pondo em prática um projeto educativo que desse corpo à herança do ensino da língua e cultura portuguesas em Macau, projetando-as no futuro. Projeto educativo Concretizada a criação da Escola Portuguesa de Macau, como uma instituição vocacionada para os ensinos básico e secundário, definiu-se o seu projeto educativo, cujas linhas orientadoras foram estabelecidas pelo Conselho de Administração da Fundação Escola Portuguesa de Macau, o qual, desde sempre, mereceu um acompanhamento próximo por parte das mais altas individualidades do Estado Português que, ao longo dos seus vinte anos de existência, têm vindo a brindar a EPM com as suas visitas. A afirmação de Portugal na sua história, na sua cultura, na sua língua e no seu posicionamento no mundo; a interpretação da confluência e do cruzamento civilizacionais e culturais entre a Europa e o Oriente e, mais especificamente, entre Portugal e a China; a promoção da interculturalidade e a afirmação de uma escola de prestígio, constituem-se como alguns dos princípios orientadores que marcam, desde então, o rumo da EPM. Enquadrado por estas linhas basilares, o percurso da instituição vai pautar-se por um conjunto de valores assentes no primado da pessoa e na qualidade do serviço educativo. Neste contexto a escola tem vindo a acolher alunos oriundos das mais variadas partes do mundo. A Escola Portuguesa de Macau, arrogando a elevada e nobre responsabilidade de representar Portugal, a sua cultura e os seus valores na Região

Cerimónia de lançamento da primeira pedra da EPM (18 de abril de 1998).

Administrativa Especial de Macau, da República Popular da China, assume, portanto, um projeto educativo holístico que, a par do conhecimento, honra a dimensão humana e as suas idiossincrasias, a identidade dos seus alunos e o respeito que lhes é devido. Dadas as características que a definem, a EPM alicerça o seu currículo

na língua portuguesa, aposta no seu reforço e promove, simultaneamente, a aprendizagem do mandarim e do inglês, viabilizando, assim, o enquadramento dos jovens, local e internacionalmente. Também às tecnologias de informação é dado um lugar de primordial importância no processo de ensino e aprendizagem, tendo como prin-

Alunos da EPM.

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cipal objetivo fornecer aos alunos ferramentas que lhes permitam valorizar e alargar os conhecimentos, bem como integrar-se plenamente no mundo contemporâneo.

NACIONALIDADES ANO LETIVO 2018/2019

Na verdade, as políticas e os valores educativos consagrados no projeto educativo da Escola Portuguesa de Macau, por um lado, e a abertura à comunidade envolvente numa perspetiva de permuta e serviço, por outro, privilegiando a comunicação entre culturas, têm levado a que esta instituição venha sendo procurada e reconhecida por um público cada vez mais vasto. Ponto de partida O primeiro ano de funcionamento da Escola Portuguesa foi marcado pelas obras de ampliação das suas instalações, pelo que as atividades decorreram em dois locais distintos: nas antigas instalações do Complexo Escolar de Macau e no edifício da antiga Escola Comercial Pedro Nolasco, atual sede da instituição. À data, a equipa dirigente era constituída por cinco elementos: Dra. Maria Edith da Silva, Presidente, Drs. Maria Farinha Simões e Pedro Roberto Xavier, Vice-presidentes, e Drs. Maria Gabriela Anselmo e Manuel Peres Machado, Adjuntos, que no seu conjunto acompanhavam o funcionamento dos diferentes ciclos de ensino. Ao acolher uma população proveniente de diferentes escolas – alunos e professores – a diversidade marcou a EPM desde o seu primeiro momento e nela se enraizou o projeto educativo que haveria de marcar o percurso a trilhar. A título de exemplo refira-se que, em 1998/1999, coexistiam vinte e uma nacionalidades e um multilinguismo que se mantém até hoje.

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ORIENTEOCIDENTE

OUTRAS NACIONALIDADES ANO LETIVO 2018/2019 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

SUECA ALEMÃ ITALIANA PORTO-RIQUENHA AUSTRALIANA ESTADUNIDENSE

2 2 2

TAIWANESA FILIPINA CABOVERDIANA

3 3 3 3

4

RUSSA

6

9

BRASILEIRA 0

2

4

Uma leitura dos dados referentes a esses primeiros tempos de existência da Escola permite ter uma ideia da diversidade de então: dos mais de mil alunos inscritos, cerca de metade das turmas pertencia ao ensino secundário, sendo o português a primeira língua falada pela grande maioria dos alunos, uma realidade que se viria a alterar com o tempo.

6

8

12 10

12

Nos anos subsequentes a população discente vê o seu número diminuir. Contudo, a escola procurou sempre fazer face à realidade, ajustando a sua oferta educativa por forma a ir ao encontro daquilo que entendeu dever ser uma escola portuguesa no Oriente no intuito de contribuir para a continuidade das relações desenvolvidas ao longo de quase quinhentos anos. Assim, nos primeiros tem-


Escola Portuguesa: 20 anos em Macau

pos de funcionamento, embora o currículo fosse em tudo muito idêntico ao de Portugal, foi sendo pontualmente enriquecido e ofereceu-se, desde logo, a língua chinesa (mandarim), todavia enquanto atividade extracurricular.

1200

1000

rindo entre si relativamente à oferta da língua chinesa, a qual, na Via A, passaria a ser frequentada do 1º ao 12º ano de escolaridade, bem como os cursos científico-humanísticos de Ciências, Humanidades e Artes. Simultaneamente, no âmbito do

Desde sempre foram oferecidas aos alunos variadas atividades complementares, de âmbito cultural e desportivo, enriquecendo o currículo e promovendo, dessa forma, quer a formação holística dos alunos, quer a sua integração sociocultural.

 EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE ALUNOS DE 1998 A 2019 1132

969 832

800

754 694

600

648 599

583

569 517

482

466

462

466

475

519

555

551

567

577

609

400

200

0

Após os primeiros dez anos de existência, e já com muita experiência acumulada, realizaram-se em janeiro de 2009 diversas reuniões de trabalho no Ministério da Educação de Portugal, no sentido de se vir a criar legislação própria que regulamentasse a organização curricular da EPM, do primeiro ciclo do ensino básico ao final do ensino secundário. Em resultado dos trabalhos realizados, foi publicada a Portaria nº 940/2019, de 20 de agosto, a qual aprovou os princípios orientadores da organização e da gestão do currículo próprio da Escola Portuguesa de Macau ao nível do ensino básico e dos cursos científico-humanísticos do ensino secundário, bem como as respetivas matrizes curriculares e planos de estudos. Foram, então, formalmente criadas as duas vias de ensino, A e B, dife-

guesa de Macau a partir do ano letivo de 2005-2006. Do mesmo modo, e com o objetivo de ir ao encontro da organização curricular das escolas da RAEM, estendeu-se até ao 12º ano o ensino da língua inglesa, bem como o da informática.

Estudo do Meio, 1º ciclo, e na disciplina de História, 2º e 3º ciclos, introduziram-se temas relacionados com a História e Geografia de Macau e da China e ratificaram-se as alterações já introduzidas nas matrizes curriculares pela Escola Portu-

Na linha do tempo Nos seus vinte anos de funcionamento, a realidade da EPM foi-se alterando, numa perspetiva pluridimensional. Este dinamismo suscita uma monitorização constante bem como o desenhar de estratégias que possibilitem o cumprimento do seu objetivo primeiro: o desenvolvimento integral e equilibrado dos seus alunos. Cada vez mais procurada por alunos não falantes de língua portuguesa, a Escola tem disponibilizado um Ano Preparatório, desde 2009/2010. Trata-se de um ano de aprendizagem intensiva de língua portuguesa,

Classe de ginástica.

ORIENTEOCIDENTE

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ALUNOS DE PLNM A FREQUENTAREM O 1º ANO DE ESCOLARIDADE 60

64%

50

49%

40% 49

19%

10 0

20

22

32

30% 20%

32

10%

8 2013-2014

0% 2014-2015

2015-2016

orientado por uma professora especializada no ensino de Português como língua estrangeira. A oralidade é o grande foco deste projeto, com a aprendizagem de vocabulário e a consolidação da construção frásica em situações de contexto. Todavia, também se desenvolve a leitura e a escrita com estratégias adequadas à idade e ao ano letivo. As atividades são diversificadas e procuram ir ao encontro da motivação dos alunos num momento privilegiado, visto trabalharem em pequeno grupo de aprendizagem e com o mesmo objetivo. Este programa tem como grande finalidade a aquisição da necessária proficiência e autonomia no quotidiano escolar, a fim de que os seus destinatários possam integrar os planos curriculares da EPM no ano letivo seguinte. Do mesmo modo, visando a aprendizagem da língua portuguesa falada e escrita, iniciou-se em 2007/2008 o projeto de Dinamização da Leitura. A iniciativa, que abrange todos os alunos do 1º ciclo, visa a organização de atividades diversas sob a orientação de um mediador de leitura, em ambiente informal, de modo a permitir o contacto com diferentes géneros literários e estimular o interesse e a formação de bons hábitos de leitura.

20

50%

32%

30

70% 60%

43%

40

20

54%

ORIENTEOCIDENTE

2016-2017

2017-2018

2018-2019

A partir do ano de 2014 a Escola Portuguesa desenvolveu o projeto de Filosofia para Crianças e Adolescentes, no qual participam os alunos do primeiro ao nono ano. Esta atividade, cujo objetivo é o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo, caracteriza-se pelo aprofundamento da forma como se conhece, como se pensa e como se constrói e se utiliza a linguagem. Através do diálogo exercitam-se ferramentas do pensamento, procuram-se conexões entre perspetivas diversas e encoraja-se a valoração do pensamento do outro com o intuito de oferecer uma educação mais enriquecedora, mais fundamentada e criticamente mais autónoma.

Alunos numa aula de ciências.

A EPM opta também pelo desenvolvimento linguístico através da oferta de atividades de cariz prático, introduzidas no primeiro ciclo, tais como as Ciências Experimentais e a Programação e Robótica. Valorizando a curiosidade natural das crianças, criam-se contextos comunicativos diversificados que, sendo aliciantes para os alunos desta faixa etária, impulsionam a sua capacidade de comunicação em português. O projeto de Programação e Robótica vem encorajar uma postura experimental e crítica relativamente ao uso da programação enquanto ferramenta de aprendizagem e de conhecimento, através da resolução de problemas e do desenvolvimento do raciocínio lógico e do pensamento crítico, da criatividade e da capacidade de planear e de decidir. Através do trabalho cooperativo e colaborativo, este projeto procura, tal como os anteriores encorajar uma atitude crítica e construtiva através das atividades propostas. Confrontando os alunos com diversos processos científicos, e encorajando a descrição de observações e


Escola Portuguesa: 20 anos em Macau

É de sublinhar que a concretização de todo este processo de mudança assim como a capacidade de resposta aos desafios que se vão colocando muito devem ao financiamento do Governo Português, da Direção dos Serviços de Educação e Juventude e da Fundação Macau, os quais abrangem áreas vastas que atravessam tanto os recursos humanos como os materiais.

Aula de informática.

a comunicação de resultados entre pares, estes projetos aliam a observação e a compreensão de experiências científicas ao desenvolvimento linguístico. A pluridimensionalidade que carateriza a EPM envolve, também, um dedicado acompanhamento dos alunos com necessidades educativas especiais. Face a estes alunos a perspetiva da EPM é manifestamente inclusiva, estando a escola na linha da frente nos recursos alocados ao apoio a estas crianças e jovens. A EPM foi uma das primeiras escolas em Macau a ter um Serviço de Psicologia, Orientação e Ensino Inclusivo com uma psicóloga a tempo inteiro, desde a sua fundação. Contudo, nos últimos cinco anos, houve um incremento de alunos acompanhados por este serviço, pelo que os recursos humanos e materiais aplicados nesta área seguiram esta dinâmica. Importa realçar que, neste âmbito, a EPM trabalha em parceria com instituições existentes na comunidade. São

disto exemplo o Instituto de Ação Social, a Santa Casa da Misericórdia de Macau e, de forma muito direta, a própria DSEJ, através do Centro de Apoio Psico-Pedagógico e Ensino Especial (CAPPEE), neste caso no que diz respeito quer à avaliação e monitorização dos alunos referenciados pela escola, quer à viabilização e formação dos intervenientes no processo.

A EPM, enquanto escola portuguesa sediada em Macau observa, em matéria de educação, a legislação vigente na República Portuguesa e na Região Administrativa Especial de Macau. Por esta razão, o dinamismo que marcou a sua evolução curricular ao longo dos anos continua a ser uma das suas características atuais. Assim, a escola tem vindo a integrar nos seus planos de estudos as diretrizes no âmbito do Quadro da Organização Curricular da Educação Regular do Regime Escolar Local, em curso na RAEM, bem como os princípios orientadores da mais recente legislação portuguesa, tendo em vista que todos os alunos consigam alcançar as competências

Aula de música.

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previstas à saída da escolaridade obrigatória. Garante das condições de funcionamento e do desenvolvimento de uma escola portuguesa na RAEM a Fundação Escola Portuguesa de Macau viu os seus estatutos alterados em 2016. Daqui resultou uma nova constituição do Conselho de Administração que passou a integrar cinco elementos: o Presidente, Professor Doutor Roberto Carneiro; o Vice-Presidente, Dr. Miguel de Senna Fernandes; e os Vogais Dr. José Luís Sales Marques, Dr. Raúl Capaz Coelho e Arqº André Ritchie. Com esta alteração estatutária foi criado o Conselho de Curadores constituído por ilustres personalidades: Dra. Maria Edith da Silva, Presidente; Dra. Anabela Ritchie; Dr. António Freitas, Dr. Jorge Rangel, Dr. Leonel Alves, Dra. Maria Amélia Saldanha, Dr. Rui Cunha, como membros ordinários; Professor Doutor Eduardo Marçal Grilo, General Vasco Rocha Vieira, Dr. Ambrose So e Professor Doutor Lei Heong Iok, como membros honorários. O Conselho Fiscal manteve a sua constituição tendo como membros o Dr. João Monteiro, Presidente, e o Professor Doutor José Passos e a Dra. Edith Jorge como Vogais. A vitalidade que tem caracterizado a EPM desde a sua fundação tem-se evidenciado através da evolução do enquadramento legal que a rege, do enriquecimento curricular e extracurricular, da sua aposta nas línguas, da construção de um plano anual ambicioso e diversificado e, ainda, da variedade de estruturas de apoio que têm viabilizado o sucesso dos seus alunos ao longo destes vinte anos. Trata-se de uma presença que tem vindo a cativar a comunidade em que a EPM se insere e cujo interesse por esta instituição se tem acentuado.

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Abertura ao exterior O dinamismo da EPM vai além das paredes da escola, materializando-se através de protocolos estabelecidos com diversas entidades, quer na RAEM quer fora desta região administrativa. São exemplos desta cooperação os acordos assinados com a Direção dos Serviços de Educação e Juventude, o Instituto Politécnico de Macau, a Universidade de S. José, a Escola Portuguesa de Díli e a Escola Primária Nº 1 de Hengqin. Enquanto polo difusor da língua e da cultura portuguesas, a escola procura corresponder ao interesse por elas manifestado, oferecendo, em estreita articulação com a DSEJ, o Curso de Português como Língua Estrangeira, em horário pós-letivo e direcionado para os alunos das escolas do ensino secundário da RAEM, bem como o Curso de Verão que proporciona a jovens não falantes de português um primeiro contacto com a língua e cultura, durante o mês de julho. A colaboração institucional traduz-se, por um lado, na admissão direta

a programas de licenciatura por parte dos alunos da Escola Portuguesa que cumpram todos os requisitos formais exigidos pelas instituições de ensino superior. Além disso, ainda no âmbito da cooperação na área pedagógica, a EPM abre as suas portas à concretização da componente letiva dos estágios frequentados, por jovens professores, nas instituições parceiras do ensino superior. Por outro lado, através da contratação de docentes para o ensino em português, a FEPM, em geral, e a EPM, em particular, asseguram parte dos recursos humanos necessários quer em algumas das escolas da RAEM, quer na Escola Primária Nº 1 de Hengqin. Para além das fronteiras da RAEM, a EPM tem laços de cooperação com a Escola Portuguesa de Díli no sentido de maximizar as potencialidades de ambas as instituições relativamente ao ensino do português a alunos de língua materna não portuguesa. Este trabalho, que se entende de mútuo interesse para ambas as escolas, está a ser desenvolvido sob a forma de inter-

O Dr. Jorge Rangel, Presidente do IIM, e o Dr. Manuel Machado, Presidente da Direção da EPM, à data da entrega do Prémio Identidade.


Escola Portuguesa: 20 anos em Macau

câmbio de conhecimentos e de partilha de recursos de aprendizagem. Num âmbito mais alargado, em termos de cooperação entre o Governo da República Portuguesa e a Região Administrativa Especial de Macau, foi atribuída à EPM, desde 2013, a responsabilidade de reconhecer as habilitações literárias dos finalistas do ensino secundário complementar de língua veicular não portuguesa da RAEM, a fim de poderem frequentar os cursos universitários da República Portuguesa. Identidade e desenvolvimento Cientes da importância das linhas que têm conduzido o projeto da EPM ao longo dos últimos vinte anos, diversas instituições premeiam

anualmente o trabalho e o mérito dos alunos desta escola. A DSEJ, a Casa de Portugal em Macau, a Associação dos Antigos Alunos do Liceu de Macau, o Instituto Internacional de Macau, o Instituto de Estudos Europeus, a Santa Casa da Misericórdia de Macau, a Fundação Macau, as Fundações Choi e Henry Fok, a Fundação Jorge Álvares e a Associação de Pais reconhecem desta forma o valor do trabalho realizado e a sua importância para a vida futura. O sucesso alcançado pelos alunos da EPM, quer ao longo da escolaridade obrigatória, quer no trajeto académico subsequente consubstancia, da melhor forma, as linhas basilares que enformam o projeto educativo desta instituição. Este percurso estruturado pela língua e pela

cultura portuguesa em Macau, bem como pelo posicionamento de inclusão face à multiculturalidade desta região, constitui a essência da Escola Portuguesa de Macau, à qual, em 2014, foi atribuído o Prémio Identidade pelo Instituto Internacional de Macau. Reconhecida como instituição de prestígio e procurada pelas mais diferentes culturas, a Escola Portuguesa de Macau manter-se-á atenta à permanente mudança do mundo contemporâneo e trabalhará para continuar a responder aos desafios que se lhe colocam, mantendo a qualidade do serviço educativo que tem prestado à comunidade, a fim de cumprir o seu objetivo primordial: o desenvolvimento integral e equilibrado dos seus alunos.


Macau abre novos caminhos para o futuro da China Marco Carvalho (texto) António Sanmarful (fotografias) Macao Magazine Imagine: um chip que aproveita a energia do ar, um outro que utiliza o movimento do corpo e a temperatura para se recarregar, e um terceiro que permite a transferência de energia entre vários dispositivos, sem fios. O trabalho realizado pelos investigadores do Laboratório de Referência do Estado da Universidade de Macau para transformar esta visão em realidade, pode desempenhar um papel crucial nos esforços da China para desafiar a superioridade tecnológica dos Estados Unidos.

Vista aérea da Universidade de Macau.

O jogo é um grande negócio em Macau, mas as melhores fichas que a cidade tem para oferecer podem não ser as das mesas de jogo dos muitos casinos da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). Por detrás de todo o glamour e esplendor dos animados resorts, está a ser realizado um grande trabalho

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de investigação para ajudar a China a cumprir um dos seus objetivos mais ambiciosos: tornar-se numa potência tecnológica, capaz de rivalizar e desafiar o domínio dos Estados Unidos em campos como a biomedicina, a transmissão de dados e até a transmissão de energia sem fios prevista há mais de um século por Nikola Tesla.

No campus de Hengqin da Universidade de Macau (UM), um grupo de investigadores locais tem vindo a trabalhar durante quase uma década num projeto cujo objetivo é ajudar a China a depender menos da tecnologia estrangeira, designadamente no que respeita aos chips e aos semicondutores norte-americanos.


Macau abre novos caminhos para o futuro da China

O trabalho conduzido por Pui-in Mak, Seng-Pan U, Sai-Weng Sin e outros, destacou-se no passado mês de abril, quando o segundo maior fabricante chinês de equipamentos para a indústria das telecomunicações (ZTE), com sede em Shenzhen, foi proibido de comprar componentes tecnológicas aos EUA durante sete anos por supostamente ter violado um acordo e infringido as sanções dos Estados Unidos contra o Irão e a Coreia do Norte. A empresa e o governo dos EUA chegaram finalmente a um acordo que permite à ZTE continuar a comprar chips e circuitos integrados a empresas norte-americanas. Mas o incidente evidenciou uma certa vulnerabilidade por parte da China em matéria de tecnologia e inovação. “A principal importação da China são os circuitos integrados, não o petróleo. As pessoas pensam que a China compra muito petróleo aos seus parceiros, mas compra muito mais silício (areia modificada), utilizado para o fabrico de chips”, explicou Rui Martins, vice-reitor de Investigação da UM, acerca a dependência de Pequim dos chips fabricados no estrangeiro. Em 2016, a China importou circuitos integrados no valor de 227 mil milhões de dólares, um valor mais elevado do que o conjunto das importações de petróleo bruto, minério de ferro e plástico. O governo central considera o desenvolvimento de chips essencial para o programa “Made in China 2025”, cujo objectivo é reforçar os conhecimentos e as capacidades tecnológicas relativamente aos seus rivais mais desenvolvidos, tais como os EUA, Japão, Coreia do Sul e Europa. Apresentada em 2015, a política “Made in China 2025” define dez

Rui Martins, vice-reitor de Investigação da UM.

sectores, que incluem a robótica, os semicondutores e a tecnologia médica avançada, nos quais se espera que as empresas chinesas possam vir a dominar o mercado nacional e competir a nível mundial.

“Todos os anos, o Congresso Nacional do Povo da China estabelece uma série de prioridades tecnológicas. Actualmente, a tarefa de promover a indústria chinesa de circuitos integrados está no topo da lista”, recordou Martins.

Com este ambicioso esforço, o governo pretende que até meados da próxima década os chips nacionais representem pelo menos 40 por cento de todos os chips de que a China necessita. Alcançar este objectivo significaria que o trabalho que está a ser realizado por Martins e os seus alunos no Laboratório de Referência do Estado de Sinais Analógicos e Mistos VSLI (microeletrónica), apoiado por Pequim, será especialmente suportado pelas políticas tecnológicas chinesas dos próximos anos.

O vice-reitor, que também dirige o laboratório, afirma que estimular a inovação foi sempre uma preocupação das autoridades chinesas, apesar de no passado os fabricantes chineses se terem empenhado mais em copiar os chips importados do que em desenvolver inovações independentes. Há cinco anos, mais precisamente em 2014, quando o Presidente Xi Jinping visitou o laboratório, inspirou os cientistas a “liderar pela inovação”, o que, de acordo com Mar-

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VSLI integram o pequeno grupo de cientistas de elite amplamente reconhecido na Conferência Internacional sobre Circuitos do Estado Sólido, o mais importante acontecimento mundial na área da concepção de chips. Na recente edição que teve lugar em São Francisco, a UM apresentou sete trabalhos (e o mesmo número de circuitos integrados) à comissão organizadora, tornando o laboratório numa das primeiras seis instituições do mundo na conceção de chips de última geração.

tins, a instituição tem vindo a fazer desde o seu início. Talento ‘Made in Macau’ Jovens, laboriosos e sérios, os investigadores que trabalham para assegurar a autonomia tecnológica da China não são os típicos peritos tecnológicos. São pouco conhecidos em Macau, mas encontram-se entre os melhores desenhadores de chips. Durante a maior parte da última década, e supervisionados por Martins, o seu trabalho permitiu transformar a Universidade de Macau numa das instituições mundialmente mais respeitadas nos campos da microeletrónica e da conceção de circuitos integrados. Com um total de 30 patentes registadas só nos EUA, os investigadores do Laboratório de Referência do Estado de Sinais Analógicos e Mistos

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“A ISSCC é uma referência na área da microeletrónica e um evento no qual é extremamente difícil publicar trabalhos”, referiu Martins. “A percentagem dos trabalhos que são aceites é muito reduzida: a comissão organizadora só recebe 30 por cento dos trabalhos apresentados por universidades ou iniciativas comerciais. Nós apresentámos onze e sete deles foram aceites e debatidos na conferência”. O maior estabelecimento de ensino superior de Macau foi apenas ultrapassado por gigantes tecnológicos como a Samsung e a Intel Corporation e por um punhado de prestigiadas universidades de investigação com as quais ambas as empresas têm acordos de cooperação, tais como o Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia, a Universidade de Tecnologia de Delft nos Países Baixos e o Instituto de Tecnologia da Geórgia nos Estados Unidos. Tal demonstração no principal evento mundial sobre circuitos do estado sólido e concepção de chips mostra que a UM é líder no campo de microelectrónica entre as universidades da Ásia em geral, e da China em particular.

A par de um prémio atribuído a um pré-doutoramento e de três antevisões de investigações realizadas por alunos, uma equipa do laboratório recebeu o prestigiado Prémio Takuo Sugano 2017 destinado ao melhor trabalho proveniente do Extremo Oriente. O prémio, concedido pela primeira vez a uma equipa chinesa, reconhece o projeto e o correspondente chip, um “transcetor bidirecional reconfigurável sem fios, com modo de carregamento de corrente máxima e de eficiência bateria-a-bateria de 58,6%”. Não é fácil para um leigo compreender semelhante título, mas é possível que por detrás dos termos técnicos se encontre o futuro de dispositivos muito importantes para as nossas vidas. O projecto pretende concretizar os progressos tecnológicos desenvolvidos há mais de 120 anos por Nikola Tesla, o cientista sérvio-americano que sonhou criar uma forma de fornecer energia sem quaisquer fios. Tesla esteve quase a alcançar o objectivo quando as suas experiências o levaram a desenvolver a chamada bobina de Tesla, um dispositivo que conseguiu produzir correntes alternas de alta tensão e alta frequência a distâncias curtas, sem ter sido capaz de aproveitar essa energia. Actualmente, a transferência de energia sem fios parece estar num ponto crítico de crescimento explosivo e os cientistas prestes a conseguir que os dispositivos móveis sejam capazes de se carregarem uns aos outros sem qualquer hardware adicional. “Se pensarmos nisso, não há nada de especial na possibilidade de carregar dispositivos sem a utilização de fios. Nesta altura, a maior parte dos telemóveis já têm tecnologia


Macau abre novos caminhos para o futuro da China

que permite transferir dados sem fios. Se, por qualquer motivo, não conseguir utilizar os seus dados, eu posso transferir alguns dos meus para o seu dispositivo”, explicou Martins. Martins prevê um futuro próximo no qual os telemóveis também tenham pontos de acesso à energia. Não voltará a ser necessário andar com fios e carregadores ou andar à procura de uma tomada. Os pontos de acesso à energia permitirão uma transferência sem fios entre dois dispositivos independentes. Este, e outros êxitos tecnológicos desenvolvidos pelos investigadores do laboratório estatal deverão repercutir-se de forma decisiva nas tendências do futuro próximo e em conceitos como a internet das coisas (IdC) ou em projectos para transformar as cidades lineares e analógicas em cidades planas e inteligentes. O futuro, afirma Martins, estará na autonomia, e nos últimos anos os doutorados da UM têm vindo a trabalhar em soluções compactas de última geração, permitindo que os dispositivos do futuro possam operar sem necessidade de fontes de energia externas ou complementares: “No Laboratório de Referência do Estado estamos a trabalhar para fabricar chips e circuitos integrados totalmente autónomos”.

Rui Martins, vice-reitor de Investigação, e Pui-in Mak, director associado de investigação do Laboratório de Referência do Estado.

A IdC, uma rede de dispositivos que partilham energia para gerir processos e melhorar resultados, não pode funcionar correctamente se tiver de depender de fontes externas de energia. “Terão de aproveitar a sua própria capacidade de gerar a energia que os conservará ligados à rede e ao mundo”, sublinhou Martins. Aproveitar a energia à nossa volta A maior parte do trabalho realizado no laboratório estatal da UM baseiase na premissa de que a energia nos rodeia por todos lados. Portanto,

trata-se simplesmente de a captar e processar de forma adequada, quer utilizando o corpo como uma central de energia natural quer desenvolvendo a capacidade de adquirir e transformar o fluxo de energia que rodeia todas as coisas. Dois dos trabalhos aceites numa recente edição da referida conferência centraram-se precisamente nos chips autossustentáveis, capazes de operar com energia bioeléctrica ou com outras fontes de energia de baixa frequência. “Um dos trabalhos recebido pela Conferência sobre Circuitos do Estado Sólido referiu-se a um receptor

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da China deverá dar luz verde a um novo laboratório, com base na UM, que centrará a sua atenção nas cidades inteligentes e na IdC. O MUST albergará o segundo laboratório que se dedicará à ciência planetária. “Liderar pela inovação” é o principal objectivo da equipa de investigação dirigida por Rui Martins no laboratório estatal, mas não o único da instituição. Para além de preparar o futuro em áreas tais como a tecnologia de carregamento sem fios ou a biotecnologia, os investigadores do laboratório têm vindo a formar licenciados chineses no desenvolvimento de pesquisas independentes que possam tornar a China numa potência líder no desenvolvimento tecnológico.

Bluetooth de baixo consumo que é praticamente um semicondutor de tecnologia Bluetooth que recolhe energia do mundo exterior”, referiu Martins. “Outro tratou de um retificador de captação de energia bioelétrica, um circuito concebido para receber e transformar a energia do corpo humano, através do seu próprio movimento ou temperatura”. Yan Lu, Seng-Pan U e Martins da UM, realizaram um trabalho conjunto com o professor Mo Huang da Universidade de Tecnologia da China Meridional, para tratar do desenvolvimento de um microchip que permitirá que os telemóveis e as tabletes possam carregar as suas baterias através de outros dispositivos. E este é só um dos projectos que estão a ser realizados na UM. A maior e mais antiga universidade de Macau está a trabalhar para reforçar o objectivo de Pequim, o de desafiar a superioridade tecnológica de Washington por forma a alterar as regras do jogo em áreas que vão do

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mundo nano dos chips até à impressionante expansão do cosmos. Desenvolvendo ideias e inovações Para além de promover uma China que rivalize com a supremacia dos Estados Unidos em termos de microelectrónica, os dois Laboratórios de Referência do Estado da cidade – o outro está dividido entre a UM e a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) e, a partir de 2010, centra-se exclusivamente na medicina tradicional chinesa – podem ajudar Macau a diversificar a sua economia, que mantém uma inegável dependência das fichas de jogo que se apostam nas mesas da cidade. Alimentada pelos resultados alcançados por ambas as instituições nos últimos oito anos, Macau está em processo de estabelecer mais dois laboratórios ao nível do estado. O Ministério de Ciência e Tecnologia

“Somos um estabelecimento de ensino e temos de entender e centrar a nossa posição. Se uma universidade abandonar o ensino, quem vai ensinar as próximas gerações?”, questiona Pui-in Mak, director associado de investigação do Laboratório de Referência do Estado. Na sua opinião, o principal papel do laboratório é precisamente o de ser uma incubadora de pensamento crítico para a nova geração de investigadores. “Produzimos conhecimentos, preparamo-nos para a indústria, e isso é o mais importante que fazemos. Criamos sabedoria, ideias e pessoas qualificadas. Se, em vez disso, nos centrássemos na fabricação, que fariam as empresas?”, acrescenta Mak. No entanto, considera que os estudantes que abandonam o laboratório – nos últimos anos vários deles juntaram-se às fileiras de gigantes tecnológicos como a Qualcomm ou MediaTek – devem estar preparados para se destacarem não só como investigadores mas também como empresários, caso escolham esse caminho.


Macau abre novos caminhos para o futuro da China

A transformação de um cientista em empresário demora tempo e representa um esforço financeiro significativo. Mas o dinheiro parece não ser problema numa China desejosa de crescer e progredir. Os investigadores do laboratório estatal não se podem queixar do financiamento. A partir de 2011, o Fundo de Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia concedeu ao laboratório entre MOP9,7 milhões (US$1,2 milhões) e MOP20,2 milhões (US$2,5 milhões) por ano, mais do que os montantes atribuídos a universidades semelhantes da China continental. Não obstante, o orçamento das instituições será reforçado nos próximos meses, após Pequim ter anunciado que, de acordo com novas diretrizes do Presidente Xi, os dois Laboratórios de Referência do Estado sediados em Macau – e os 16 que operam em Hong Kong – terão um maior acesso ao financiamento do Estado. Apesar de importante, o financiamento nunca foi um problema para a equipa de investigação de Martins. Pelo contrário, a transferência de tecnologia – ou a capacidade de transformar trabalhos de investigação promissores em produtos revolucionários – tem sido o maior desafio para os investigadores. A equipa de direção do laboratório estatal de microelectrónica, tem vindo a tentar lidar com a transferência de tecnologia de duas formas: por um lado, fornecendo apoio técnico a antigos alunos que estão interessados em iniciar o seu próprio negócio, e por outro lado, realizando acordos de cooperação com empresas do continente, como a HiSilicon, uma filial do gigante tecnológico Huawei.

“Estamos a trabalhar num projecto com a Huawei na área de conversão do analógico para o digital. Essa conversão é muito importante”, referiu Mak, e “o laboratório é muito bom a executar esse trabalho, já que se trata de um dos principais focos do nosso conhecimento. O trabalho que realizamos com a Huawei é muito importante”. Mak não pôde revelar pormenores sobre o projecto, referindo apenas que os seus objectivos são “muito ambiciosos” e que os êxitos da política “Made in China 2025” dependem dessa tecnologia. Da qualidade mundial à quantidade nacional Para o Laboratório de Referência do Estado, a melhor forma de cumprir o dever de ajudar a China passa por se manter fiel ao lema “Localmente, da qualidade mundial à quantidade nacional”.

Na última década, a instituição tem vindo a operar ao abrigo de um slogan que sintetiza não só a sua ambição, mas também o seu principal objectivo como centro de investigação estatal: “Localmente, pois a maior parte dos nossos investigadores nasceram e foram criados em Macau. Qualidade mundial, porque o nosso trabalho tem sido amplamente reconhecido nos eventos mais importantes do campo da microelectrónica. E quantidade nacional, porque como laboratório estatal, temos o dever de contribuir para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia na China”, explicou Martins. Martins, que foi de Portugal para Macau em 1992, considera que o laboratório reforça de forma significativa o avanço da tecnologia na China, transferindo os conhecimentos que produz para empresas chinesas com recursos financeiros e transformando as suas ideias em algo de tangível. “Se continuarmos por este caminho e conseguirmos

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Vista de uma zona interior da UM.

manter o know-how da China, daqui a dez anos não teremos de importar mais chips dos Estados Unidos”, afirmou Martins. Apesar do reconhecimento internacional do seu trabalho, os chips galardoados desenvolvidos na Universidade de Macau estão ainda longe de se tornarem em soluções facilmente disponíveis para os utilizadores. A exceção mais evidente surge num campo inovador no qual que a UM é líder mundial. “Nos últimos anos, desenvolvemos uma nova área que faz a ligação entre a biologia e a microeletrónica. Somos líderes mundiais nesse domínio. Um antigo aluno nosso está actualmente em Harvard a desenvolver projectos nessa área”, refere Martins. “No nosso laboratório já desenvolvemos alguns protótipos capazes de detectar vírus e de fazer diagnósticos médicos de forma mais rápida e menos agressiva. Viu o CSI? Este dispositivo permitirá obter diagnósticos parecidos aos dos investigado-

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res da série, mas sem grandes equipamentos”, explicou. O projecto atraiu a atenção da Comissão de Ciência e Tecnologia da vizinha província de Guangdong. A organização estatal financiará parte da produção do dispositivo que será realizada por uma empresa privada e supervisionada por vários antigos alunos do Laboratório de Sinais Analógicos e Mistos VLSI. Mak Pui-in considera que o projecto talvez possa vir a desencadear uma revolução na forma de fornecer serviços de saúde. “Com este dispositivo pretendemos descentralizar os cuidados médicos. Estamos a falar de um pequeno dispositivo portátil, do tamanho de um telemóvel. Só é necessário inserir nele uma pequena amostra e esperar os resultados. O dispositivo informará rapidamente sobre muitas doenças”, afirmou. “Esta é uma perspectiva muito ambiciosa, não só para a China, mas também para continentes como o africano, onde a maior parte dos ha-

bitantes vivem muito longe de hospitais centrais. Em Macau, também servimos como plataforma para os países lusófonos. Este dispositivo pode contribuir muito para os Países de Língua Portuguesa”, disse Mak. O dispositivo tem ainda um longo caminho a percorrer antes de alcançar a utilização generalizada prevista por Mak. A fiabilidade, referiu, é essencial, e muitas vezes marca a diferença entre o sucesso e o fracasso de projectos desta envergadura. “O que queremos é uma solução bastante robusta, e isso pode demorar muito tempo. O principal desafio é que o dispositivo não falhe. Tem de ser muito fiável. Temos de garantir que o dispositivo terá a mesma qualidade depois de ser produzido em massa”, indicou. Caso venha a ter êxito, Macau estará a um passo da visão de Martins sobre o futuro da cidade onde reside há já quase trinta anos. “Macau foi sempre conhecida pelos casinos. Agora, é possível que venha a ser conhecida pelos chips electrónicos” afirmou Martins, com um sorriso.


Linguística contemporânea e Tribunais António Santos Carvalho Juiz Conselheiro Jubilado

Edifício do Tribunal Superior de Macau.

1. Nos tribunais, segundo a lei orgânica, magistrados, a secretaria e os cidadãos que recorrem a juízo usam as línguas oficiais. Nos ordenamentos uni-linguísticos o problema da tradução de uma língua para a língua oficial está localizado e não levanta dúvidas. Mais complexo se torna, todavia, nos ordenamentos pluri-linguísticos, onde são aceites várias línguas oficiais. Na ordem internacional existem vários, por exemplo, são assim o caso, na Europa, da Suíça e da Bélgica, e, na África, de quase todas as nações, onde coexistem línguas de recorte universal com línguas regionais e outras de milhões até de falantes, mas menos académicas. Uma delas é língua comum de várias nacionalidades da costa oriental africana, veí-

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culo dos primeiros, da comunicação e pensamento sem fronteiras. Macau, neste domínio, fornece um exemplo e uma experiência muito importante. Os tribunais de Macau têm-se erguido de há longos anos no domínio da língua chinesa e do português. Deve fazer-se um estudo de caso, quanto a este tema: os resultados importam às preocupações do tempo presente, universal. 2. Com efeito, de há poucos anos atrás ocorreu um salto qualitativo no âmbito e alcance da tradução linguística, tanto de secretária, como tradução simultânea. Em 1886, o arqueólogo britânico Arthur Evans encontrou, provinda de Creta, no mediterrâneo, uma pedra antiga com inscrições numa língua desconhe-

cida. Logo depois, procurou e foram-lhe parar às mãos pedras e tabuletas semelhantes. Apresentaram à decifração dois roteiros distintos e Evans, com outros, falharam, contudo, todas as tentativas: permaneceu, um, por se dar a decifrar até 1953. Foi neste ano que Michael Ventris conseguiu essa grande conquista. O segundo roteiro revestiu, porém, um dos grandes problemas da linguística até há pouco tempo, quando, em apenas alguns anos, o estudo da disciplina foi revolucionado pela disponibilidade informática de enormes bancos de dados anotados e pelas técnicas de fazer com que as máquinas aprendam com eles. Enfim, a tradução automática de um idioma para outro tornou-se habitual, inaugurando uma forma totalmente nova de pensar sobre a linguagem. 3. Importa aqui citar os autores que têm contribuído para esta revolução: Jiaming Luo, Regina Barzilai e Yuan Cau – desenvolveram um sistema de ensino-aprendizagem da máquina capaz, no limite, de decifrar idiomas perdidos. 4. A hegemonia da tradução automática, tornada rotina, parte do conceito de uma transmissão de ideias relacionadas umas com as outras e nas palavras ou signos, de uma maneira similar, independentemente da linguagem envolvida, onde o processo começa no mapa das relações estabelecidas entre os idiomas específicos sob o propósito de tradu-


Linguística contemporânea e Tribunais

ção. É tarefa que requer extensos bancos de dados de texto, nos quais a máquina procura a frequência com que aparece cada palavra ou signo, ao lado de todos os outros signos ou palavras. Este padrão define o objecto da procura num espaço de parâmetro multidimensional. Pode o signo linguístico ser pensado como um vetor dentro desse espaço e esse vetor constrange-o a aparecer em qualquer tradução que a máquina produza, sob regras matemáticas simples. E uma preposição pode ser pensada como um conjunto de vetores que seguem um após o outro em termos de uma trajectória através daquele espaço dado. Aqui, o principal inciso que possibilita a tradução automática está no que os signos linguísticos, em diferentes idiomas, ocupam os mesmos pontos nos respectivos espaços de parâmetros. Eis a possibilidade de conseguir o mapa de uma língua inteira noutro idioma, com uma correspondência de um para um. E é assim que o processo de tradução de afirmações se torna no processo de encontrar, e só, trajectórias semelhantes nesses espaços, sem necessidade de a máquina precisar alguma vez de adquirir o que significam as frases. 5. Entretanto, todo este processo dependia de cruciais grandes conjuntos de dados, mas há alguns anos investigadores alemães demonstraram que uma abordagem equivalente com bancos de dados muito

menores poderia e pode ajudar a traduzir linguagens até muito mais raras, por via de ser utilizada um ponto de vista que restrinja a abordagem da máquina e não dependa do banco de dados. Depois, a equipa liderada por Luo foi ainda mais longe: a tradução automática pode decifrar línguas totalmente perdidas, através de restrições que tenham a ver com as modalidades de evolução das linguagens ao longo do tempo. A proposta foi a de qualquer linguagem poder mudar de maneiras certas, por exemplo, os símbolos em idiomas relacionados aparecem como similia. 6. Vem tudo isto dito com o propósito de situar o problema da tradução judicial de uma língua para outra, sobretudo em fase de audiência de instrução processual e de julgamento. Quando a tradução automática, como acima vimos, produziu, nos seus desenvolvimentos contemporâneos, uma revolução linguística tão notável, não tem amparo racional qualquer dúvida sobre a boa justiça praticada nos ordenamentos multi-linguísticos. Muito pelo contrário, a experiência tida e acumulada antes de ter emergido este novo paradigma da ciência da linguagem, deve ser tida em conta e, antes de mais, terá de ser entesourada em estudos académicos sistemáticos, orientados à perfeição quer científica, quer, no que mais nos importa, ao bom e justo julgamento das causas. 7. Estamos já na época em que qualquer falante de uma língua estrangeira ou diferenciada, mediante a utilização de transístores, leves máquinas que traz consigo deixou o receio de comunicar pela fala ou leitura e de não ser entendido. Um aperfeiçoamento destes sistemas é desejável e virá a impor-se nos tribunais multi-linguísticos, sendo

certo que a repetição de padrões que a genealogia dos encadeamentos de frases, no quadro do sentido normativo, próprio à juridicidade, dominada e que domina os interlocutores, permite, com solidez, sem qualquer tipo de dúvida, fazer aceder à boa tradução imediata da defesa e intento de qualquer litigante ou carecido das justiças. 8. Ora, no tempo histórico, hic et nunc de uma mundialização, ano a ano, mais “precoce” e avassaladora, esta habilidade de tradução de uma para outra língua e sobretudo tradução simultânea, é na verdade essencial à convivência justa nesta novidade de confederação das nações. Factor essencial da harmonia, serenidade e paz entre os viageiros do mundo a terem o respaldo de um sistema judicial internacional, ou que funcione em rede continental, independente e perante quem se possa exprimir na língua materna com a confiança de poder ser apercebido de imediato ou quase, através da tecnologia linguística protocolada da tradução simultânea.

9. De todo o modo, mesmo a sofisticação tecnológica a que me tenho vindo a referir, não põe de parte, antes exige, como protagonistas, nos tribunais e na lide, a presença dos tradutores oficiais, ajuramentados numa deontologia de perfeição do saber linguístico e operacional a que felizmente passaram a ter acesso, hoje em dia.

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A imagem dos portugueses na mira dos chineses e dos macaenses

Álvaro Rosa Ana Cristina Alves Docentes Universitários

Lisboa vs. Macau.

Os manuais da Economia ensinamnos que o progresso económico de um país é espelhado, em larga medida, no poder de compra da classe média desse país. A aplicação deste conceito à realidade chinesa responde à evidência de que o desenvolvimento económico da China nos últimos trinta anos tem gerado uma classe média que se estima rondar os 180 milhões de pessoas. É bom sinal para o mundo, pois, são mais 180 milhões a consumir, a viajar e a instalar-se nos hotéis. Segundo as estatísticas oficiais, visitam Portugal, por ano, cerca de 300 mil chineses. A este número somam-se uns dois milhares de estudantes e existem mais de 20 mil os que decidiram fixar-se por cá. Bem longe do tempo presente que corre em que vemos chineses por tudo quanto é sítio, a nossa opinião sobre os chineses já estava bem formada. Os arquétipos mais comuns

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que os portugueses têm relativamente a esta nação asiática são: “os chineses comem arroz”, “são pacientes” e “praticam artes marciais”. É importante que se diga que arquétipos são ideias baseadas em observações de uns quantos, em regra polarizadas num determinado sentido e não correspondem, na maior parte das vezes à realidade. Por exemplo, no caso do arroz, apenas os chineses das regiões meridionais da China consomem arroz regularmente, porquanto que os chineses nortenhos, consomem muito mais pão ou massa. Quanto à “paciência do chinês”, diríamos que são tão impacientes quanto o são os portugueses, apenas são menos reativos. No que respeita às artes marciais, em termos proporcionais, serão tantos os chineses a praticar o kung fu quanto os portugueses que praticam karaté. Porém, a discussão que propomos neste trabalho não se centra na

nossa perceção do chinês, mas antes, a perceção que os chineses têm de nós, da nossa cultura e do nosso comportamento na sociedade. A este propósito, um artigo interessante de Fok Kai Cheong (1987), natural de Macau, publicado em livro, dava-nos as primeiríssimas perceções que os chineses tinham dos portugueses do século XVI. Dizia o Professor Fok que os portugueses eram assustadores! Com certeza, basta recordarmo-nos que foram os portugueses os primeiros ocidentais a chegar às costas da China. À exceção dos homens do mar, até aí, os nativos locais nunca tinham visto um ocidental. Conta a história que foi Jorge Álvares o primeiro navegador a acostar o sul da China, algures no delta do rio das Pérolas, no ano 1513. E, três anos mais tarde, o capitão Fernão Peres de Andrade chega a Cantão


A imagem dos portugueses na mira dos chineses e dos macaenses

e tentará levar uma embaixada liderada por Tomé Pires até ao Imperador, por volta do ano 1520, a fim de estabelecer relações comerciais formais com a China, façanha que redundará em falhanço, devido a vários motivos, entre os quais, intrigas criadas pelo deposto rei de Malaca junto da corte imperial chinesa. Nos anos de 1521 e 1522, houve novas tentativas da parte portuguesa em estabelecer relações comerciais com a China, porém, nada de frutífero foi possível por que a China entendeu banir todo e qualquer negócio com estrangeiros. Como resultado, a chegada dos primeiros portugueses à China foi recheada de incidentes e infelicidades. Logo, as primeiras impressões deixadas não podiam ser favoráveis. Fok dizia que os primeiros registos das impressões chinesas da altura davam conta de que os portugueses eram uma espécie de goblin, “portadores de apenas parecenças superficiais com o ser humano normal e… descendiam de antigos canibais”. Os seus corpos tinham formas estranhas, os seus trajes bizarros e o seu comportamento abjeto. Os mesmos registos descreviam, ainda, os portugueses como enormes de “sete pés”, com nariz grande, tez clara, boca em bico e olhos de gato. A sua barba era farta e encaracolada, enquanto que a cor dos cabelos se aproximava do vermelho. Mas, também havia outros que eram carecas e com barba feita. O que mais causava impressão aos chineses era o comportamento dos portugueses. Como estes não cumpriam o preceito tradicional da cultura chinesa, os locais igualavam as gentes lusas a animais. Diziam que os portugueses só se pareciam com humanos quando estavam bem-dispostos e que “a sua natureza animal

Coreto – típico em jardins portugueses.

prevalecia quando perdiam a boa temperança” (Fok, 1987). Os portugueses eram tão mal vistos que os indígenas locais os consideravam canibais – comiam crianças ao pequeno-almoço. Fok argumentava que a violência dos portugueses e o seu ímpeto de resolver tudo à espada e às armas de fogo fizeram com que tivessem essa imagem tão negativa. Efetivamente, os portugueses foram proibidos de todo o comércio na costa chinesa desde os incidentes de 1521-1522 e só voltaram a acostar nessas margens depois de 1550. Esses tempos já lá foram. Hoje, à força de sucessivas vagas de globalização, os povos aproximaram-se. O comércio foi e continua a ser o grande veículo de aproximação dos povos. A reboque, vem o turismo que desperta para o conhecimento do desconhecido, para o deleite dos nossos sentidos e, para a experimentação de novas vivências. Na nossa era, nenhum povo jamais espantará pela aparência física de qualquer outro, contudo, cada

sociedade mantém os seus traços culturais ancestrais e quando elas se comunicam concorrentemente denotam-se as respetivas diferenças. Ora, o português tem uma estrutura mental e uma base cultural muito distinta da do chinês. Quando um chinês decide viver em Portugal, a ele exige-se uma adaptação ou, pelo menos, uma compreensão do modo de estar e de agir do português para que lhe seja possível lidar com o dia a dia. E, neste caminhar da compreensão (ou de adaptação) cria-se uma determinada imagem do que é o português. Queremos sublinhar que a imagem que o chinês tem da gente lusa não tem de coincidir com a imagem que o japonês ou o austríaco tem de nós. Serve-nos de exemplo a questão da pontualidade. Para nós, a hora acordada é simplesmente uma referência temporal – marcar um jantar para as 19 horas significa que a partir dessa hora nos encontramos para a refeição. Ninguém se aborrece se chegamos 15 ou 20 minutos mais tarde. Naturalmente, sabemos que para um alemão, essa dilação é uma ofensa, no entanto, para um amigo nosso

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Elemento água – típico em jardins chineses.

do Brasil, 19h20 é a hora correta de sair da casa porque o jantar é o início do convívio que durará a noite toda. É imprescindível aceitar que diferenças culturais não implicam a noção de bem ou de mal. Nunca podemos dizer que estes povos estão certos ou aqueles errados. Entender a cultura significa tão simplesmente como perceber que diferentes sociedades têm comportamento e estrutura mental diferentes.

Cultural standards A imagem que os chineses têm dos portugueses que aqui queremos apresentar vem de estudos científicos interculturais com base na metodologia conhecida como cultural standards. Esta metodologia científica procura identificar as diferenças culturais de um povo para outro sem procurar determinar perfis culturais extensíveis a quaisquer outros grupos. Em termos procedimentais da metodologia cultural standards, são recolhidas entrevistas em elevado número e os dados tratados com técnicas de análise de estudos qualitativos. E, finalmente, os resultados

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são apresentados e discutidos com os entrevistados com o fito de avaliar o grau de fiabilidade das conclusões alcançadas. Este procedimento tem por princípio evitar a formação de estereótipos sempre indesejáveis. Dos estudos que conhecemos onde largo número de chineses por cá residentes foram entrevistados, extraímos seis dimensões presentes em todos os estudos, ou seja, seis aspetos culturais em que os chineses se consideram muito ou totalmente diferentes dos portugueses. A imagem dos portugueses aos olhos dos chineses Em primeiro lugar, é o ritmo de vida. Para os chineses, o ritmo quotidiano dos portugueses, seja no âmbito profissional, seja no âmbito individual ou familiar, é muito menos ritmado que o dos chineses. Os entrevistados fazem notar que para além de filas infindáveis nas diversões da Disney em Shanghai ou em Hong Kong, não existem filas na China, nem nas grandes cidades ou quando existem dispersam-se instantaneamente. Por cá, as pessoas aceitam como normal a existência de filas e o ter de esperar. E, há filas por todo

o lado: nos transportes, no supermercado e até para comprar bilhetes para os espetáculos. Os chineses acham que os nossos jantares são demasiado demorados e entediantes. Até a «comida fast » tem a mesma dinâmica que o resto ao contrário do que se possa encontrar na China. Os chineses têm dificuldade em compreender porque se leva duas ou mais semanas para emitir um cartão bancário ou porque se leva dois dias para receber um pacote enviado por correio rápido ou, porque as entrevistas e encontros são marcados com uma dilação de vários dias. Assim acontece porque é este o modo de estar das pessoas, um ritmo relaxado de vida e da aceitação de «ter de esperar». É evidente que este ritmo pausado da vida é responsável pelo nosso baixo nível de produtividade, e quando comparado com a Europa, a nossa produtividade é das mais baixas de toda a União Europeia, não porque sejamos menos capazes, mas sim, devido à nossa cultura de vida pausada. O segundo aspeto cultural, referido pelos chineses, que os distancia de nós é a relativa falta de ambição das pessoas de cá. Segundo os entrevistados, os portugueses não se importam com o seu próprio desempenho e nem com a sua própria progressão social. De facto, estudos de outros estudiosos de assuntos interculturais, como por exemplo, Hofstede, indicam que os chineses são muito mais competitivos do que os portugueses. O sentido de sucesso material está sempre presente nas mentes chinesas ao passo que os portugueses preferem o bem-estar e uma vida sossegada. O terceiro ponto onde as culturas se distanciam muito é a cultura do lazer. Os portugueses preferem ati-


A imagem dos portugueses na mira dos chineses e dos macaenses

vidades «outdoor» e os chineses, ao invés, preferem entretenimentos «indoor». Estes admiram como os portugueses conseguem estar horas a fio na praia, sem fazer nada. É verdade que nas nossas praias vemos apenas um por cento das pessoas a nadar e outro um por cento a jogar à bola! Os outros noventa e oito por cento estão deitados a apanhar sol! Os chineses são incapazes desta forma de lazer, se não nadam, têm de comer, se não comem, têm de jogar, se não jogam, têm de dançar, mas parados não conseguem ficar! Efetivamente, os orientais são muito mais inclinados para o entretenimento dentro de portas, como sejam o karaoke ou jogos de cartas, nomeadamente o «mahjong». A quarta dimensão apontada pelos chineses como sendo diferente dos portugueses é a cultura gastronómica. Como se sabe, existem muitos pontos de contato entre as duas cozinhas, nomeadamente, a preferência pelo marisco, o recurso em larga medida a galináceos, o uso regular de leguminosas e vegetais em geral na alimentação quotidiana e, riqueza e variedade de pratos. Abundam, ainda assim, diferenças culturais na relação com a comida: os portugueses preferem comida pouco condimentada, preferem o realçar do sabor original dos alimentos, ao contrário dos chineses que preferem comida cozinhada com muito óleo e com muitos molhos. O trigo é o cereal principal na produção de pão cá em Portugal e os portugueses consomem muito pão; na China, o pão é feito, essencialmente, de farinha de arroz ou farinha de feijão de soja. O seu consumo varia geograficamente. No mundo das bebidas quentes, o uso do chá na China tem o seu con-

Tomando café numa esplanada tipicamente portuguesa.

traponto em Portugal no uso do café. Como é sabido, a expressão massiva do chá na China, tanto no apreço como nos efeitos (a teína, presente no chá, tem o mesmo efeito que a cafeína no café, pois atua como inibidor de sono) tem uma correspondência similar ao papel do café em Portugal: os chineses bebem tanto chá quanto os portugueses bebem café. Também podemos dizer que se bebe muito chá em Portugal. O que certamente não fazemos é chá com leite – os chineses adoram esta mistura, como também, chá com limão (às rodelas) açucarado ou com mel. Esta é uma bebida que é usada frequentemente após a refeição do almoço ou ao lanche. Outro pormenor cultural é a arte do chá. Não obstante, os chineses não praticarem a arte do chá com a minúcia e folclore como acontece no tradicional «cha-no-yu» japonês, os apreciadores de chá executam o que se chama de «kung fu cha», o que se pode traduzir por “preparação laboriosa de chá”. Esta prática requer equipamento adequado e taças de porcelana de chá de boa qualidade e um bom conhecimento das diferentes nuances de folhas de chá bem como de tempe-

raturas de água para atingir os melhores resultados. Outra diferença notória entre os dois povos é o serviço e disposição da refeição. Os portugueses, como todos os povos ocidentais, utilizam mesas quadradas ou retangulares para a refeição e, cada indivíduo tem a porção servida no seu prato. Os chineses comem em mesas redondas e os pratos são servidos todos ao mesmo tempo, colocados no centro da mesa, em jeito de partilha. Os chineses referem ainda que a refeição à portuguesa, sobretudo em ambiente mais formal, é bastante demorada, por um lado, porque é assim que as pessoas apreciam, e por outro, porque a comida é servida de modo sequencial – primeiro, a entrada, de seguida, a sopa, o prato principal que pode ser repartido em peixe e depois a carne, e por fim, a sobremesa. O costume chinês é servirem os pratos todos ao mesmo tempo, incluindo a sopa – as pessoas comem a sopa ao mesmo tempo que comem a restante comida, e em regra, não há sobremesa, porque toda a comida chinesa tem um ligeiro sabor adocicado de modo que não

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dos portugueses. Acrescem que isso também acontece entre os portugueses. Por outras palavras, em termos sociais, o grupo de pessoas chegadas é sempre um grupo muito pequeno e muitas vezes, restringese unicamente à família. Dizem os chineses que os portugueses, no seu dia a dia, apressam-se para jantar em casa com a família, ao passo que eles preferem não cozinhar e encontrar-se com amigos em restaurantes.

Uma casa de chá em Macau.

se sente a necessidade de sobremesa no final do repasto. A quinta dimensão que os chineses consideram muito distante dos portugueses é o conservantismo e a falta de propensão para a inovação. Os chineses referem que os portugueses são muito zelosos no cumprimento das regras e regulamentos, acomodam-se ao estabelecido, o que os torna pouco flexíveis à mudança e à aceitação da diferença. Como consequência, o nível de inovação e empreendedorismo é reduzida em Portugal. Os chineses, pelo contrário, acham-se sempre em constante procura de novas soluções para velhos problemas, aceitam a mudança com naturalidade e dispõem-se a experimentar tudo o que é novo. Apesar de os chineses não apreciarem o conservantismo português reconhecem que este tem efeitos positivos. Entre outros, referem que por os portugueses acatarem as leis com naturalidade, a sociedade portuguesa é mais ordeira, como o ato das pessoas validarem os seus títulos de transporte mesmo sem terem

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de passar por nenhum sistema de controlo de acesso. O relacionamento com os portugueses é fácil e agradável porque consideram que somos previsíveis, diretos na comunicação, sem ambiguidades no uso da palavra e a lógica intrínseca é bivalente – ou é ou não é. Este aspeto é fácil de compreender, sabendo que os chineses são um povo que utiliza a linguagem indireta e contextualizada. Um exemplo disso é no léxico chinês não contém a palavra “não” per si, e como tal, nunca dizem que não, preferindo explicar a rejeição através de exposições não lineares com imagens e afins. A sexta e última dimensão encontrada é os chineses acharem que os portugueses são entusiastas, mas superficiais no relacionamento interpessoal. Os chineses referem que os portugueses, no seu relacionamento com estrangeiros, são positivos, otimistas e confiantes. Demonstram enorme vontade de ajudar e são simpáticos. No entanto, e apesar dos beijinhos com que presenteiam aos novos conhecidos, os chineses acham que é difícil pertencer ao círculo de relações chegadas

Os chineses apercebem-se de um facto interessante da cultura organizacional em Portugal: os portugueses esforçam-se para criar um ambiente harmonioso (mas superficial) no local do trabalho, onde procuram dar-se bem com os colegas e também com o seu superior hierárquico mas que não têm o mesmo respeito, veneração e consideração que eles (chineses) têm pelo seu superior hierárquico. Acham que os portugueses obedecem aos seus superiores por razão de dever e nunca de corpo e alma. É curioso essa observação por parte dos chineses leva-nos a perceber como intuitivamente praticamos o velho ditado que diz: «manda quem pode e obedece quem deve»! Simbologia e outras impressões de Portugal no olhar dos chineses e macaenses: Uma experiência concreta A experiência foi realizada com estudantes na sua grande maioria vindos de Macau e da China do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no ano letivo de 2015/2016, de nível Avançado do Curso Geral de Português, na disciplina de Portugal através dos Média. As imagens culturais resultantes destes orientais, sobretudo dos chineses e dos macaenses1, concordam, em


A imagem dos portugueses na mira dos chineses e dos macaenses

grande medida, com as de muitos estudiosos portugueses que possuem um olhar atento em relação à sociedade portuguesa. Os aspetos culturais salientados nas imagens construídas, tanto os positivos como os negativos, são retirados de diários que foram sendo elaborados a título de tarefas caseiras ao longo do primeiro semestre do referido ano letivo. Estes foram redigidos em estilo autobiográfico, contendo as impressões dos alunos sobre a prosperidade ou a pobreza, o engenho ou a falta do mesmo, as festas, a família e o sistema socipolítico português, tendo sido posteriormente organizados e divididos em oito áreas temáticas: Gastronomia; Simbolismo; Impressões; Tradições e/ou Hábitos; Geografias; Migrações; Filosofia e Utopia. Assim, aos seis aspetos culturais analisados anteriormente se vêm juntar mais oito relativos às áreas temáticas pesquisadas. * Comecemos pela gastronomia, e pelas imagens gastronómicas suscitadas em Macau, onde como já foi referido, sobressaem as diferenças culturais, mas com a introdução de um novo e importante dado para análise, vindo da parte dos alunos macaenses, quer pertencentes à comunidade chinesa stricto sensu quer à que constitui a dos portugueses do Oriente, os filhos da terra macaenses. Distingue-se então uma gastronomia de fusão que vai desde os pastéis de nata às mais diversificadas misturas com paladares de antigos territórios portugueses, criando uma cozinha típica da Região Especial que contrariou as expetativas de os estudantes a poderem vir encontrar em Portugal. Diz-nos Francisca (Lam Iok Heng, T18, Macau, 2 de outubro, 2015):

“Os pratos macaenses sofreram influência da culinária de vários países, e alguns vieram de países lusófonos. Pensava que a Galinha à portuguesa, o Joelho de Porco Assado com mel, a Galinha à Africana eram pratos típicos de Portugal. No entanto, reparei que aqui não existem, pelo menos com esse nome.” Pelo que quando é dada aos estudantes a possibilidade de escolherem entre gastronomia da diferença total ou aquela que advém do cruzamento de culturas, optam pela culinária da fusão, a que lhes traz saudades e os transporta à terra natal ou onde vivem há longo tempo. O que acaba de ser afirmado não pode deixar de conduzir à questão de saber quem considerar macaense. Não pretendendo entrar por esse campo, de alto valor sociológico, mas lateral ao estudo, há no entanto a especificar que aqui se incluem nesta categoria todos aqueles que nasceram em Macau, fruto do encontro dos portugueses com chineses ou outras etnias asiáticas, ou ainda, os que vindos da China, aí vivem há longo tempo. ** À gastronomia da fusão, segue-se um conjunto de figuras simbólicas portuguesas, distinguidas por estes alunos chineses e macaenses, que mantêm um laço interessante com a tradição, já que ainda hoje são apontadas grandes figuras do futebol, e sobretudo Cristiano Ronaldo, tal como na tradição sucedera com Eusébio ou Amália Rodrigues. Também o fado aparece como símbolo cultural de eleição, mas não ligado a um qualquer fadista em particular. As áreas culturais mais referidas, pela positiva, são as que dão origem aos três “Fs”: Fátima, Futebol e o Fado. O futebol encarnado na figura simbólica de Cristiano Ronaldo, muito enaltecido como o melhor jo-

gador do mundo, é ainda pretexto para mostrar como os portugueses não podem receber o rótulo de preguiçosos, muito negativo a olhos chineses, já que o CR7 é a prova viva do contrário.2 São ainda mencionados símbolos artísticos como a filigrana ou o azulejo. Entre os trabalhos simbolicamente mais relevantes encontram-se as obras em azulejo e filigrana, cujas tradições são enaltecidas, surgindo o nome da artista Joana Vasconcelos associado a esta última arte, em “Coração Independente Dourado” de 2004.3 Há ainda outros símbolos físicos tão palpáveis e concretos como os cafés, ponto de encontro duma cultura que elege o exterior como espaço privilegiado do lazer. Há, porém, um símbolo na mira de chineses e macaenses, mais que geográfico, assume um valor cultural incondicionado em Portugal: o mar, ou melhor, o espírito do mar. Este, enquanto espaço de aventura e descoberta, conduziu os portugueses a todos os cantos do mundo; segundo Minga (Zhou Liumin, T18, China, 11 de outubro, 2015): “Foi por causa dos descobrimentos que os portugueses lançaram e que tiveram origem nos desejos impregnados na alma de se aventurarem. Hoje em dia há milhões na diáspora, que têm sido inspirados pelo espírito do mar que anima este povo, sempre pronto a descobrir mundos diferentes.” E se hoje somos um povo de emigrantes, e por alguns chineses considerados os ciganos da Europa, tal se fica a dever, na leitura destes estudantes, à absorção do espírito do mar que nos anima e orienta para e pelo mundo, numa descoberta incessante de novos povos e suas culturas.

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Pão tipicamente português e baozi chinês.

*** No que respeita às impressões de Portugal, vemos desenhar-se um aspeto cultural levemente racista, porque, dizem eles, os portugueses no contacto com os outros povos, além da imagem que transmitem, já referida, um tanto superficial e simpática nos relacionamentos, manifestam um certo racismo sobretudo ao estabelecerem contacto com asiáticos e africanos. É ténue, não é grave nem mortal, mas incomodou alguns destes estudantes. Diz Clara (Ho Hio Teng, Macau, 24 de outubro, 2015): “Mais duma vez, fui discriminada pelos portugueses. Eles apontaram-me o dedo, mas apenas passei na rua sem fazer nada de ofensivo. Houve um português que nos sugeriu o regresso à nossa terra, deixando Portugal de vez. Outro fez os olhos dele mais pequenos para nos incomodar, visto que somos asiáticos e temos olhos de dimensões mais reduzidas.” E a aluna acrescenta que muitos dos países ainda estão a lutar por condições sociopolíticas semelhantes às que se vivem na Europa, pelo que remata quanto a expressões racistas:

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“A liberdade de expressão é muito valiosa, há imensos países que ainda estão a lutar por ela. Espero que as pessoas com este direito o possam valorizar, sem o desperdiçarem em algo estúpido.” (Ibidem).

nomicamente para a família. É ainda salientado o facto de quanto ficam sozinhas, continuarem a lutar. Há até quem coloque a hipótese de a futura presidência da república portuguesa ser entregue a uma mulher.4

Há quem vá mais longe considerando que este tipo de racismo se pode encontrar por toda a Europa, abrangendo também árabes. Contudo, a maioria dos estudantes prefere saliantar a costela simpática e inclusiva dos portugueses.

Entre as impressões mais negativas conta-se a provocada pelas greves. Os estudantes, embora reconheçam o valor dos sistemas políticos ocidentais, parecem pouco dispostos a aceitarem as consequências práticas dos mesmos. Pelo que as manifestações e as greves, sobretudo em setores-chave como a educação e a saúde, são resssentidas como abusivas e destabilizadoras da ordem e harmonia sociais. É ainda na relação dos portugueses com o trabalho que surgem impressões e imagens mais negativas. Os estudantes chineses não percebem por que razão os portugueses não possuem atitudes ativas, por exemplo, quando perdem o emprego e como reação se põem a dizer mal do governo ou vão passear para a praia, como se nada fosse.

Os valores, saídos das revoluções americana e francesa são no geral enaltecidos e considerados importantes, sobretudo no que se refere à educação, sendo muito sentida a pressão que as crianças e jovens chineses sofrem numa sociedade altamente competitiva, o que, na perspetiva de muitos deles, torna os meninos infelizes por não terem o tempo de lazer necessário a um desenvolvimento equliibrado. Também a posição de mulher portuguesa na sociedade é vista com muito agrado e louvado o seu estatuto profissional e independente do marido no casamento. Muitos estudantes veem como algo de positivo as mulheres não abdicarem da sua personalidade e contribuírem eco-

Mais? Grande é ainda a impressão provocada pela beleza e limpeza do metro de Lisboa, cujas estações são consideradas verdadeiras obras de


A imagem dos portugueses na mira dos chineses e dos macaenses

arte para as quais grandes nomes de artistas portugueses têm vindo a contribuir, criando uma excelente e muito aprimorada impressão artística nos estrangeiros em geral e nestes estudantes chineses em particular. **** Na produção de imagens relativas a hábitos e tradições distinguemse, além dos hábitos gastronómicos do café a Ocidente e do chá a Oriente, ou da vontade de partilha física, económica e espiritual, à mesa chinesa, versus o individualismo português, o consumismo que se estabeleceu no Oriente, sobretudo em Macau e na China em torno das principais festividades ocidentais, tais como o Natal. É construída ainda uma imagem positiva em torno do civismo português, visto como um hábito altamente salutar e expresso, de acordo com estes estudantes, na paciência com que os condutores tratam os peões nas ruas. Célia (Chan Un Man, T 17, Macau, 5 de dezembro, 2015) refere-o por contraste à aventura em que se transforma atravessar uma rua em Macau: “Pelo contrário, os condutores portugueses normalmente têm muita paciência, ou seja, estão muito educados em termos de condução. Além de pararem sempre nas passadeiras, às vezes deixam os pedestres passar embora o semáforo esteja verde. Lembro-me duma vez que o condutor não me viu, e depois de ter passado, parou e me pediu desculpa. Acho que este é um hábito que vale a pena ser seguido pelos condutores do mundo inteiro.” ***** Que imagens culturais nos revelam estes estudantes chineses da geografia portuguesa? Quais os símbo-

los geográficos que distinguem? Dentro da geografia humana, encontramos na linha da frente, a paisagem arquitetónica em honra dos Descobrimentos, tal como a Torre de Belém ou o Padrão dos Descobrimentos. Mostram ainda grande propensão para valorizar meios de transporte como o Ascensor da Glória, que os conduz a um Portugal antigo com uma cultura diversificada, além de apontarem para cafés e esplanadas que normalmente contrapõem às casas de chá chinesas. Referem ainda a calçada portuguesa, apelidada uma verdadeira obra de arte. Calçada esta que muitos deles já haviam encontrado em Macau, sob administração portuguesa por mais de 400 anos, como refere Kathy relativamente ao Centro Ecuménico de Kum Iam, arquitetado por Cristina Leiria pouco antes da transição de Macau para a China, e acrescenta uma reflexão sobre a importância de prevalecer uma ordem mundial pacífica. 5 O facto de a Região de Macau ter estado sob administração Portuguesa deixou as suas marcas no terreno, ainda que Portugal saia a ganhar por ser menos poluído, já que a poluição é uma preocupação constante na geografia mental destes alunos. Diz-nos Clara (Chan Hoi Leng, T17, Macau, 5 de dezembro de 2015): “Lisboa faz-me recordar o ambiente anterior de Macau. Dantes o Território também possuía ar fresco, céu limpo e tranquilidade. Ontem li uma notícia sobre a poluição do ar em Portugal, a qual será a causa de maior número das mortes no futuro. Mas o país ainda consegue manter a qualidade do ambiente, sendo uma terra confortável e maravilhosa. Acho que os portugueses devem preocupar-se com este problema.”

Também o tempo é considerado uma verdadeira bênção divina6, que fica gravada em turistas de todo o mundo, não escapando os chineses à regra. Estes têm vontade de regressar a Portugal só para poderem contemplar o magnífico azul do céu. A cidade de Lisboa é ainda considerada pela grande maioria um excelente sítio para se viver pela calma, paz e qualidade de vida que proporciona, difícil de encontrar em muitos países asiáticos, ainda que algumas cidades chinesas, como Tianjin, nas palavras duma das alunas tianjinenses, simultaneamente professora no Instituto Confúcio, se lhe possa comparar7. ****** As imagens culturais relativas à migração, e portanto ao acto de viajar, bem como às oportunidades que proporciona, não podiam ser mais positivas. Viajar permitiu a muitos destes estudantes abrir horizontes, favorecendo oportunidades existenciais únicas. Porque vieram até Portugal, puderam escapar à rotina de acabar o curso e imediatamente começar a trabalhar, a fim de comprar casa e constituir família. Como tal, por viajar podem entrar em contacto com modos de vida diferentes, sendo os Estados Unidos da América também apontados como um exemplo de excelência para se cultivar formas alternativas de estar, pouco conservadoras, até do ponto de vista sexual, que lhes permite encontrar formas distintas da organização familiar tradicional. Mas os portugueses situam-se em primeiro plano no olhar destes estudantes por serem viajantes eméritos susceptíveis de conceder ótimos exemplos de vida. Eles quando não viajam, leem, dando verdadeiras lições de vida a uma geração de chineses e macaenses condicionada pela informática e seus múltiplos jo-

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Grande Ponte Hong Kong, Zhuhai e Macau. A cognição cultural é a ponte para a aproximação de sociedades de características culturais diversas.

gos. Alguns dos alunos chineses referem o ter vindo até Portugal como motivador da reaprendizagem do hábito da leitura. Um dos alunos, Mário (Hoi Tang U, T18, Macau, 20 de novembro de 2015) encontrou mesmo a possibilidade de classificar a sociedade portuguesa segundo a etiqueta “3 Ls”: São “Os “3 Ls” mais representativos da comunidade portuguesa, a saber: Leite, Leitura e Ladrão.” ******* Os estudantes chineses e macaenses parece privilegiarem os valores transmitidos pela filosofia ocidental. Consideram os nossos idosos muito mais desportistas do que os chineses e pensam que fazer desporto prolonga favoravelmente a vida dos mais velhos8 . Também apreciam o facto de os ocidentais estarem menos preocupados em comprar casa e constituir família, parecendo tirar melhor partido da vida por não se preocuparem tanto com o trabalho e com as questões financeiras9.

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A poluição na China e em Macau é uma preocupação constante nestes estudantes, o que os leva a defender valores filosóficos ecológicos, formando uma imagem cultural muito positiva dos portugueses neste domínio.10 Um outro aspeto cultural muito valorizado é a globalização, pelo que os estudantes chineses consideram hoje menor a diferença cultural entre ocidentais e orientais, ainda que com um predomínio dos valores dos primeiros sobre os segundos, ou seja, a globalização segue o padrão ocidental. Segundo Emily (Huang Jingting, T18, China, 15 de outubro de 2015): “Um dia comum dum cidadão duma metrópole qualquer pode ser assim: Levanta-se quando o despertador do Iphone toca. Depois de tomar um duche com champô de P&G, toma um copo de café da Nestlé. Conduz até ao trabalho no seu Mercedes, onde almoça. Compra um cheesebur-

ger no McDonald’s que engole na frente de um computador Mac. Para jantar, convida os amigos por whatsapp e juntam-se todos num restaurante duma grande cadeia. Acaba dia deitado numa cama do IKEA.” Resumindo, atualmente pensamos quase todos da mesma maneira, porque há um modo de vida geral que aceitamos, muito condicionado por um determinado modelo económico, que nos padroniza, mesmo inconscientemente, pelo que os estudantes se sentem muito próximos uns dos outros, sejam asiáticos, europeus, africanos ou americanos: grande parte aspira ao mesmo, dentro e fora da escola ou no trabalho: estarem ligados a uma qualquer rede informática, terem muitos amigos online e inúmeros apetrechos informáticos, de computadores a iphones, passando pela comida simples e rápida, bem como por casas práticas e funcionais.


A imagem dos portugueses na mira dos chineses e dos macaenses

******** Por fim, conclui-se com um sonho utópico, expresso por um chinês, acredito que partilhado por muita gente ao longo dos tempos, que é o desejo dum mundo pacífico, harmonioso, espontâneo e não hierarquizado, evidenciando uma ordem fraterna e universal, tal como é descrita por Jesse (Jianxin Guo, T21, China, 15 de janeiro, 2016): “Os países e governos desaparecem, a Terra é casa para toda a gente; o dinheiro e a propriedade privadas desaparecem, ninguém trabalhará para viver por não ser necessário fazê-lo. Ha-

verá máquinas que o fazem perfeitamente por nós. Ninguém terá problemas de alojamento ou comida, as pessoas podem trabalhar, mas só por amor ou para gozar a vida. As cidades e a família desaparecem, porque haverá novos meios de transporte que podem levar as pessoas para qualquer sítio da Terra num segundo, e toda a terra será uma família (...) Na utopia, vive-se mais de 1000 anos (...) Ninguém come carne, toda a gente é vegetariana, mesmo os animais são vegetarianos, por exemplo, os tigres, leões entre outras feras só comem vegetais, as pessoas e

animais vivem em harmonia e felicidade.” Seguindo o raciocínio de Jesse, seria bom que nos tivéssemos na mira um dos outros não para nos rotularmos ou dispararmos uma série de preconceitos e ideias feitas, mas para que nos procurássemos entender cada vez melhor, para convivermos o mais perfeitamente possível, no respeito uns pelos outros, dum modo vário, global quanto baste, em que a única postura de facto universal fosse de aceitação dos outros e suas maneiras de ser e de pensar. Acreditamos que o presente artigo é mais um passo conjunto nessa direção.

_________________ 1

Havia outros estudantes no curso, vindos de diferentes partes da Ásia, da América do Norte e do Sul, de África e do Médio Oriente, ainda que se encontrassem em minoria, além de não constituírem fonte de produção de imagens culturais relevantes para o domínio do presente estudo centrado em Macau e na China.

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Mário (Hoi Tang U, T18, Macau, 10 de outubro, 2015): “Não concordo que os portugueses sejam preguiçosos. O Cristiano Ronaldo já o provou e ele é um exemplo para incentivar as pessoas que tentam alcançar os seus objetivos.”

3

Ester (Un Pui Seong, T18, China, 25 de outubro de 2015) “Já em Portugal e no século XXI, a artista plástica Joana Vasconcelos recorreu ao imaginário da filigrana para elaborar uma obra de arte chamada Coração Independente Dourado, em 2004, por isso vejo que a tradição da filigrana continua viva no país.”

4

Lisa (Guo Li Sha, T18, China, 1 de novembro de 2015): “É possível que o próximo presidente de Portugal seja uma mulher!”

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Kathy (Lam Ka Man, T21, Macau, 3 de outubro de 2015): “Após a segunda guerra mundial, os países colonizados foram-se tornando independentes. Em 1999, a soberania de Macau também foi transferida de Portugal para a China. Desejo que, de agora em diante, não haja mais guerras nem colonizações. Todo o mundo pode aprender a respeitar diferentes culturas e religiões de todas as raças.”

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Ester (Un Pui Seong, T18, China, 22 de novembro de 2015) “Ontem, perguntei a uma amiga minha que já regressou à Malásia se ela tinha saudades de Portugal. Ela respondeu-me que estava com saudades do clima. Acho que é certo que as pessoas, seja o povo, sejam os turistas, todos gostam muito do clima. Mal chegam aos países deles querem regressar a Portugal. E, sim, o clima português é um símbolo do país e uma benção de Deus.”

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Júlia (Wang Guangzhu, T17, China, 13 de outubro, 2015): “Penso que Tianjin e Lisboa têm muitas semelhanças, ambos os lugares são tranquilos, sendo adequados para viver. Muitos amigos de cá me disseram que Lisboa é uma cidade muito pequena. Porém, para mim, Lisboa é todo um mundo. Porque aqui o ambiente é agradável, há árvores e flores em toda parte, além disso, o rio Tejo e o mar atraem-me muito. Gosto imenso das praias em volta da cidade, tipo Cascais.”

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Mário (Hoi Tang U, T18, Macau, 30 de novembro de 2015): “Depois de voltar para Macau, vou partilhar o dia-a dia dos idosos portugueses com o meu avô, para o convencer a começar a fazer mais desporto e a lutar pela longevidade.”

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Kathy (Lam Ka Man, T21, Macau): “Quando comparo as sociedades ocidental e oriental, vejo que a sociedade ocidental não dá tanto ênfase aos resultados da escola e aos valores familiares como sucede no Oriente. Os pais encorajam os filhos a aprender com a vida diária, e não só nos livros escolares. Embora o dinheiro seja muito importante na nossa vida, acredito que a vida é para ser vivida, e não só para ser sobrevivida.”

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Pedro (Chan Hangbin, T17, China, 30 de outubro de 2015): “Comparando com os países europeus, como Portugal, o governo de Macau tem muitos menos sensibilidade para a proteção ambiental e não tem uma atitude ativa para a implementação de políticas relevantes.”

Referências Bibliográficas FOK, K. C. (1987). Early Ming Images of the Portuguese, Portuguese Asia: Aspects in History and Economic History (Sixteenth and Seventeenth Centuries), P. Ptak (ed.), Suttgart: Franz Steiner Verlag Wiesbaden GmgH. Turmas 17, 18 e 21: Diário de Bordo do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa da Faculdade de Letras de Lisboa para o mundo no ano letivo de 2015/2016. Coordenação de Ana Cristina Alves.

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Principais festividades tradicionais da comunidade macaense Alexandra Sofia Rangel Investigadora académica, autora do livro “Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje” A forma como uma comunidade se organiza e participa colectivamente em festas e festividades, revivendo as suas tradições ou assinalando datas com especial significado, constitui também um elemento identitário que importa assinalar. A comunidade macaense habituouse, ao longo da sua história, a participar muito activamente em festividades, quer portuguesas, quer chinesas. Ainda hoje, quase duas décadas depois da transferência do exercício da soberania, em Dezembro de 1999, é assim, tanto no território, como na diáspora macaense. Os feriados oficiais incluíam, na vigência da administração portuguesa, datas respeitantes a grandes acontecimentos nacionais portugueses, festividades tradicionais chinesas e também festas da Igreja Católica. Após a transição, foram eliminados os feriados respeitantes a altos momentos históricos portugueses, tendo sido, porém, mantidas algumas das festas religiosas cristãs, que têm especial significado para a comunidade macaense, como a Páscoa, o Dia da Imaculada Conceição e o Natal. Em outros tempos, sensivelmente até meados do século XX, também foi amplamente participado, pela

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Baile de Carnaval nos anos 50 do século XX.

comunidade macaense, o Carnaval, o que tornou a cidade de Macau diferente das outras daquela área geográfica:

Em épocas passadas, Macau ria a bandeiras despregadas. Vestia-se de fantasia e andava pelas ruas, cantando, galhofando, palhaçando, em gestos e atitudes de truão. Os sons alegres das tunas e os risos festivos do rapazio explodiam em melodias ensaiadas durante muitas semanas e em gargalhadas estridentes, provocadas mui-

tas vezes pela visão das máscaras, engraçadas e originais. (…) As festas carnavalescas punham uma nota viva, interessante e chistosa no viver pacato e monótono de Macau (Machado 2002: 147150). As festividades chinesas que mais atraem os macaenses são o Ano Novo Chinês, o Festival do Barco Dragão e o Festival de Outono. Para os chineses de Macau, são também importantes o Ching Ming (Dia do Culto dos Antepassados), o Dia do


Principais festividades tradicionais da comunidade macaense

ções lindíssimas, com desenhos muito diversificados, tornando-se em objectos muito apreciados, sendo mesmo coleccionados por crianças portuguesas e de outras nacionalidades, atraídas pelo seu exotismo. As donas de casa, chinesas e macaenses, compram ramos de pessegueiro e narcisos para decorar a casa, assim como arranjos florais elaborados, imitações de panchões e papéis e dísticos vermelhos para afugentar os maus espíritos.

Baile de Carnaval nos anos 50 do século XX.

Buda e o Chong Yeung (Dia dos Antepassados), sendo de registar que o culto dos antepassados é celebrado duas vezes por ano. São festas móveis segundo o calendário lunar. Apesar de já não serem feriados oficiais, duas datas continuam a ter o maior significado para a comunidade macaense: o 10 de Junho, Dia de Portugal, e o 24 de Junho, antigo Dia da Cidade de Macau, a data em que a população de Macau se defendeu com sucesso do último ataque dos holandeses, em 1622. As novas autoridades escolheram para Dia da Região Administrativa Especial de Macau o dia 20 de Dezembro, data do seu estabelecimento, cujas celebrações contam também com o envolvimento de instituições da comunidade macaense. Para este estudo, foram identificadas quatro datas particularmente relevantes para os macaenses: o Ano Novo Chinês, o 10 de Junho, o 24 de Junho e o Natal.

Ano Novo Chinês Devido ao grande entusiasmo com que é celebrado pelo grupo dominante da população de Macau, o Ano Novo Chinês faz parte da vida de qualquer macaense. Sendo a maior de todas as festas realizadas na China e na vasta diáspora chinesa, também os macaenses a comemoram, mesmo quando residentes no estrangeiro. É impossível sair à rua nesta altura sem assistir às celebrações, cheias de cor e movimento, que incluem danças do leão e do dragão, exposições artísticas e de flores, banquetes, espectáculos musicais e a queima quase incessante de panchões. Uma tradição do Ano Novo Chinês é a oferta de lai-si, pequenos envelopes vermelhos contendo dinheiro, que são dados por pais a filhos, patrões a empregados e casados a solteiros. Os macaenses também participam neste costume, e a entrega de lai-si é tão popular entre eles que costumam oferecê-los nos aniversários dos filhos, netos e sobrinhos. Os lai-si têm, muitas vezes, decora-

Outra tradição é jogar nos casinos, em busca da sorte neste período auspicioso para todos. Muitos habitantes e turistas chineses vindos de Hong Kong, Taiwan ou do continente chinês enchem estes locais de jogos de fortuna e azar, e dão à cidade uma imagem de alegria e prosperidade económica, participando, activamente, nos festejos e adquirindo as guloseimas, flores, roupas, brinquedos e outros artigos

Um exemplo de “lai-si”.

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Uma lenda muito antiga contava que Buda resolveu chamar à sua presença todas as espécies de animais que existiam na Terra, a fim de lhes dar conselhos no que dizia respeito ao modo como teriam que lidar com os homens. De todos os animais existentes na Terra só compareceram doze: o tigre, o dragão, o cavalo, o carneiro, o galo, a serpente, o rato, o boi, o coelho, o macaco, o cão, e o porco.

Um outro exemplo de “lai-si”.

habitualmente consumidos nesta ocasião. Mesmo os menos afortunados procuram usar roupas novas e integram-se completamente neste ambiente de festa. Nesta altura do ano também os serviços, os escritórios, as obras públicas e muitas casas comerciais cessam completamente a actividade durante vários dias. Até os pescadores, com as suas embarcações embandeiradas, recolhem ao porto de Macau e vêm para terra. Outro hábito salutar é o pagamento das dívidas até à véspera do Ano Novo Lunar. Nenhum homem de negócios, por uma superstição que a todos favorece, transfere para depois dessa data qualquer das suas dívidas, o que é, de facto, muito benéfico para a economia local. Cada novo ano é referido a um animal do zodíaco chinês. Leonel Barros, em Macau – Coisas da Terra e do Céu, explica assim esta lenda:

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Grato com a presença desses animais, Buda determinou que para cada ano fosse designado um dos doze animais. Assim, cada ano passou a ser conhecido por um dos doze animais do zodíaco chinês divididos em dois grupos, em conformidade com os elementos da teoria dualística da criação, base da concepção chinesa do Universo (...) Pertencem ao ramo Yang – elemento viril e activo – o tigre, o dragão, o cavalo, o carneiro, o galo, e a serpente (…) No ramo Ying – elemento feminino passivo – englobam-se o rato, o boi, o coelho, o macaco, o cão, e o porco (Barros 1999: 73-74). Com toda a sua carga simbólica e o seu significado, esta é e será, provavelmente, sempre a maior festa chinesa, que nem regimes mais autoritários conseguiram suprimir ou limitar:

São tradições milenares que resistem ao tempo e às mudanças, não se deixando vencer por vanguardismos de qualquer cor política ou por modas, sempre passageiras. Na China, nem o regime comunista nas suas mais demolidoras fases conseguiu modificar hábitos e ritos de antanho ligados às festividades do Ano Novo. Chamando-lhe Festa da Primavera ou dando-lhe outro nome,

essas festividades continuaram no dia-a-dia da vida do povo chinês e os altos dirigentes políticos voltaram a conviver em lautos banquetes nesses dias de festa, que acabaram por ser oficialmente aceites como comemorativos do Ano Novo Lunar. E, não obstante as grandes transformações verificadas, esta é e será sempre, também, a maior de todas as festas da população de Macau (Rangel 2009: 50). 10 de Junho O Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas tinha no tempo da administração portuguesa um significado especial para os macaenses, pois, como refere Henrique de Senna Fernandes,

Camões, no coração dos macaenses, foi sempre o símbolo da Pátria distante. Esta convicção não era apenas alimentada pela romagem anual à Gruta, onde diante do Busto do Poeta desfilaram gerações de estudantes. (…) era costume presentear-se a todo aquele que ingressasse, pela primeira vez, no Liceu, com um volume de “Os Lusíadas”. Eu recebi o meu. Na mesma época, quando as escolas primárias eram da responsabilidade do Leal Senado da Câmara, era costume premiar o melhor aluno finalista, em cerimónia simples mas cheia de significado. O prémio que lhe depositavam nas mãos, era também um volume de “Os Lusíadas” (Fernandes 1999: 60). Esse significado estendeu-se para além da transição. De facto, Luís de Camões representou para sucessivas gerações de macaenses a sua ligação a Portugal, da qual nunca se esqueceram apesar da enorme distância entre Macau e a então


Principais festividades tradicionais da comunidade macaense

ele que enalteceu o vulto imortal do poeta e a sua emoção foi tão profunda que desatou a chorar, tendo de interromper o discurso” (Teixeira 1999a: 67-68). Ainda hoje, todos os anos, instituições de matriz portuguesa, nas quais se incluem associações macaenses, e escolas de Macau, incluindo, como não podia deixar de ser, a Escola Portuguesa de Macau e o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, continuam a participar na cerimónia do 10 de Junho, desfilando perante o busto do maior poeta português e colocando flores no respectivo pedestal. Alunos da Escola Portuguesa de Macau e da Escola Secundária Luís Gonzaga Gomes declamam sonetos de Camões em, respectivamente, português e cantonense e grupos de danças e cantares actuam no local.

O busto de Camões no jardim dedicado ao Poeta.

Metrópole. Nos dias que correm, mesmo havendo facilidade em viajar de Macau para Portugal, Camões continua a simbolizar para muitos de nós as nossas origens, o nosso passado e o país que é a nossa segunda casa. Luís de Camões tem um grande jardim em Macau com o seu nome, onde se situa a famosa Gruta de Camões, contendo o seu busto. A primeira romagem à Gruta foi feita em 1923 por iniciativa do então Governador de Macau, Rodrigo Rodrigues, “(…) um patriota exaltado e fervoroso cultor de Camões (…) que logo no primeiro ano da sua chegada a Macau convidou as escolas e as forças armadas para irem à Gruta homenagear o épico. (…) foi

Reza a tradição que Camões terá escrito parte de Os Lusíadas nesta Gruta. No entanto, a partir do século XIX, foram-se levantando vozes contrárias, pondo em causa até a passagem de Camões por Macau. Mas o Padre Manuel Teixeira, respeitado historiador que viveu em Macau, comenta que “Os que negam a estada de Camões em Macau baseiam-se no argumento do silêncio do poeta sobre Macau, alegando que Macau não existia. Se isto fosse verdade, tudo aquilo que ele não mencionaria não existiria” (Teixeira 1999b: 21). Nas suas obras A Gruta de Camões em Macau (Teixeira 1999a) e Camões esteve em Macau (Teixeira 1999b) ele refuta essas opiniões, apresentando factos e excertos de documentos que deitam por terra os argumentos contrários à estada de Camões em Macau, o que não foi difícil, uma vez que os textos dos contestadores estavam repletos de erros históricos, erros que eles foram copiando uns dos outros, demonstrando uma ignorância sobre os pri-

mórdios da história de Macau (Teixeira 1999b: 65-78). Contudo, o que interessa aos macaenses não é a polémica criada à volta da estada de Camões em Macau, mas sim, como já foi referido atrás, o que o poeta representa para a comunidade:

Macau só tem que se orgulhar de ter sido a primeira possessão ultramarina portuguesa a erigir um busto a Camões. Antes mesmo da capital do Império! Porque se não estivera em corpo, o espírito do Poeta, em cá chegando, nunca de cá saiu! Por aqui ficou a impregnar cada um dos descendentes dos portugueses que partiram em demanda de honra e proveito, na Índia e mais além, mesmo muito mais além da Taprobana… E disso, todas as gentes de Macau, de espírito aberto e ecuménico, neste pluriculturalismo que está na sua génese, devem estar orgulhosas. Porque, na obra de Camões, já encontramos a concepção globalista do mundo baseada no encontro entre duas culturas diferentes, que é justamente o que está na base do estabelecimento de Macau. Camões é a chama que nos une, é o símbolo da simbiose do Ocidente com o Oriente (Ribeiro 2007: 26) Um busto de Camões já se encontrava na Gruta em 1794, pois é mencionado por Sir George Staunton no diário de viagem da Embaixada de Lord Macartney à China em 17921794 (Teixeira 1999a: 67). Dito isto, vem a propósito relembrar algumas das referências que um dos maiores escritores portugueses, dos raros que tiveram contacto directo

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com o Extremo Oriente, Camilo Pessanha, fez à Gruta de Camões e à permanência do vate em Macau, em “Macau e a Gruta de Camões”, incluído na compilação Camões nas Paragens Orientais – Textos por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais:

Quanto à grandeza gigantesca de Camões, e à da assombrosa epopeia marítima que culminou na formação do vasto império português do século XVI, estão acima de qualquer discussão. Resta apenas ponderar se Macau, esta exígua península portuguesa do Mar da China ligada ao distrito chinês de Heong-Shan, tem qualidades que a recomendem para assim andar associada à memória dessa epopeia e à biografia do poeta sublime que a cantou. Ora essas qualidades tem-nas Macau como nenhum outro ponto do Globo. Macau é o mais remoto padrão da estupenda actividade portuguesa no Oriente nesses tempos gloriosos. (…) É a Gruta de Camões (…) esse lugar sobre todos prestigioso dedicado ao culto de Camões, que é também o culto da Pátria. Culto e prestígio que não podem extinguir-se enquanto houver portugueses; e enquanto não se extinguem, há-de ser verdade intuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, meditou, em Macau (…) (Pessanha 1927: 13-15). 24 de Junho Macau foi sempre um ponto estratégico nas rotas comerciais, o que gerou a cobiça por parte dos holandeses no século XVII, como afirma Austin Coates:

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Os Holandeses cedo chegaram à conclusão de que o lucro do comércio com o Japão dependia da quantidade de seda chinesa disponível, e cujo monopólio Macau detinha, satisfazendo amplamente a insaciável procura japonesa. Assim, restava-lhes apenas a seda que iam obtendo dos piratas chineses, a intervalos irregulares, e sempre após longas e difíceis negociações. Gerou-se, pois, no seio dos Holandeses um crescente movimento de apoio àqueles que propunham a conquista de Macau pela força (Coates 1991: 76). Em período de União das Coroas da Península Ibérica, os inimigos de Espanha passaram a ser os mesmos dos portugueses e, estando Filipe III de Espanha “(…) naturalmente mais interessado em salvaguardar as colónias fundadas pelos Espanhóis que em dar resposta aos pedidos de reforços lançados pelos Portugueses” (Coates 1991: 73), nada fez para contestar a constituição de Companhias das Índias Orientais por parte dos ingleses e holandeses, estes últimos especialmente interessados nas colónias portuguesas. A primeira investida dos holandeses deu-se em 1601. Como a cidade ainda não estava fortificada, entraram facilmente, mas a população rapidamente os deteve, acabando esta primeira tentativa de ocupação com o enforcamento de dezoito holandeses e a retirada dos seus barcos (Coates 1991: 74). Seguiram-se mais tentativas de tomar Macau, mas as hostilidades terminaram temporariamente com o Tratado de Antuérpia em 1609, decretando tréguas entre a Holanda e a Espanha (e, por consequência, Portugal). Neste período foi desenvolvido um

plano de defesa em Macau e construíram-se fortificações militares:

É desta época que datam os fortes da colina da Barra, à entrada do Porto Interior (a sul da península), bem como outros dois fortins, construídos nas duas extremidades da Praia Grande, para controlo do Porto Exterior. Os preparativos da cidade mobilizaram toda a população, incluindo os Jesuítas. Com efeito, toda a área ocupada pelos seus jardins e edifícios no cume do monte foi integralmente coberta por espessa muralha (que ainda hoje ali se ergue), fazendo-se a comunicação com o Colégio e a Igreja de São Paulo, que lhe eram adjacentes, por uma passagem secreta. Foi também estabelecida uma fundição, cujo mestre era Manuel Bocarro, peça importante (se bem que ignorada) na transformação das tradições bélicas do Extremo Oriente, com os seus magníficos canhões (comprados por todos os países da região), bem como com outros artefactos (os melhores do género produzidos em toda a Ásia) (Coates 1991: 75-76). Todos estes preparativos provaramse essenciais, já que, findo o período de tréguas, os holandeses atacaram Macau outra vez em 1622. Os confrontos tiveram início em 23 de Junho, com fortes bombardeamentos sobre a cidade, que se encontrava desguarnecida, pois a maioria dos soldados estava fora a auxiliar tropas chinesas. Por consequência, “(…) só cerca de mil pessoas se encontravam na cidade, e, dessas, apenas oitenta europeus estariam aptos a pegar em armas” (Coates 1991: 77). A batalha continuou no dia seguinte, 24 de Junho, dia de São João Bap-


Principais festividades tradicionais da comunidade macaense

defesa mais eficaz residia na intensidade e na frequência do fogo de artilharia. Mas tal deficiência veio a ser compensada pela pontaria certeira de um padre-soldado. De facto, quando o inimigo se acercava já do sopé do Monte, o padre Rho começou a disparar o seu canhão, cujas balas caíram certeiras sobre os carroções que transportavam a pólvora da força holandesa, que rebentaram com estrondosa explosão. (…)

Monumento que assinala a vitória sobre os holandeses em 1622.

tista, com mais bombardeamentos e o desembarque dos holandeses. Austin Coates relata:

(…) a escassa população de Macau – leigos e clérigos, homens livres e escravos – ergueu-se para a defender. Os Jesuítas rapidamente desalojaram os canhões dos seus postigos originais, posicionando-os ao longo da mu-

ralha norte do seu seminário-fortaleza. Refira-se a propósito que os padres jesuítas eram peritos em balística, habituados que estavam a lidar com a corte de Pequim (…). Neste embate brutal era grande a escassez de armas e homens que as manejassem, especialmente numa ocasião em que a

O grito de batalha lusitano, “Por Sant’Iago!”, brotou a certa altura de um qualquer peito, sendo um segundo depois gritado em uníssono por todas as gargantas, como em uníssono avançou a multidão, inspirada por uma força comum, caindo de todos os lados sobre o invasor holandês. (…) A coberto da mais intensa fuzilaria, a vanguarda portuguesa enfrentava já o inimigo em luta corpo a corpo. (…) O comandante da força invasora foi o primeiro a cair, após o que o resto das tropas holandesas, perdendo de vista o seu líder, vacilaram por completo. Momentos depois, tomados de pânico, batiam em retirada, desfazendo-se das armas, acossados pelos Macaenses, que os perseguiam pelos campos trespassando com as espadas tantos quantos podiam. Uma mulher africana, vestida de homem, matou dois deles com uma forquilha (Coates 1991: 77-78). Após a estrondosa derrota dos holandeses, decidiu-se comemorar todos os anos o Dia de São João Baptista como agradecimento e recordação deste feito importante na história de Macau, algo que foi feito ao longo de quase quatro séculos, celebrado como o Dia de Macau até 1999. No entanto, apesar de já não ser feriado, os macaenses não se esquecem desta

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data e, todos os anos, através das suas associações com sede no território ou no estrangeiro, continuam a comemorar este dia com uma missa e um chá gordo, mantendo em pleno o seu significado para a comunidade. Há datas que são marcos fundamentais de qualquer comunidade. O 24 de Junho é uma data inapagável da memória macaense: “A vitória de 24 de Junho de 1622, sobre os invasores holandeses, marca um dos mais brilhantes feitos do povo de Macau e um imorredoiro padrão nas tradições desta Cidade do Nome de Deus” (Machado 2002: 137). Sendo uma data específica relacionada com a história de Macau, é opinião generalizada na população que não deveria ter sido retirada dos calendários oficiais após a transição de administração. Natal A comunidade macaense é tradicionalmente católica, uma herança dos pais portugueses de tempos de outrora, e vive numa cidade repleta de igrejas e capelas, algumas existentes desde os primeiros tempos do estabelecimento de Macau. Renelde da Silva justifica a religiosidade dos macaenses da seguinte forma:

Face à sua pequenez numérica num ambiente de omnipotência política da vizinhança e do relativo abandono da Metrópole, os macaenses aprenderam a contar consigo próprios, para enfrentar as situações difíceis, por que tiveram de passar. Para além das suas forças, só podiam contar com Deus. Daí a sua religiosidade (Silva 2001: 94). Como para muitos outros católicos, para os macaenses, o Natal é uma festividade muito importante e am-

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Convívio de Natal.

plamente participada. Mas nunca foi só uma festa de família, pois foi sempre vivido também com intensidade em estabelecimentos de ensino, em organismos associativos, em empresas, em serviços públicos e em instituições de solidariedade social (Rangel 2007: 319). O escritor macaense Henrique de Senna Fernandes descreve assim o Natal no seio da sua família:

O Dezembro era um mês festivo. O primeiro domingo era dedicado à Primeira Comunhão, uma cerimónia tocante na Sé Catedral (…). Logo a seguir, vinham os preparativos para o Natal, as donas de casa atarefadas na cozinha, na confecção do aluar, dos coscorões, empadas e fartes, os costumados doces da época. Encomendavam-se o peru e outras carnes de Hong Kong e, em casa do meu Avô materno, não podia faltar o empadão gelatinado de peças de caça, o famoso “gamepie” do Lane Crawford. Encomendavam-se também à Loja de Omar Moosa, mais conhecido por Kassam, figura prestigiosa e mais destacada da larga comunidade “Moura” de Macau (…).

A “missa do galo” desse tempo, o jantar de Natal, o deslumbramento dos brinquedos, a mesa repleta de iguarias, onde se comia à tripa forra, a alacridade e as gargalhadas dos familiares, ainda se repercutem na minha saudade. Os dias seguintes até os Reis, com quebra do dia do Ano Bom, eram dedicados a amigos e conhecidos (Fernandes 1999: 65). Outro autor dá-nos o seu testemunho deste modo:

À missa do galo iam as famílias católicas, a que se seguia a ceia e o ansiado momento de abertura das prendas. As festas prolongavam-se no dia de Natal, com almoço e jantar especialmente confeccionados para a ocasião, onde não faltavam o peru e outros pratos escolhidos pelas donas de casa, elas próprias quase sempre excelentes cozinheiras. Apesar das grandes modificações operadas nas últimas décadas, muitas destas tradições mantiveram-se. A quadra festiva também era e é aproveitada para familiares se reencontrarem e para cada um se lembrar dos amigos, sepa-


Principais festividades tradicionais da comunidade macaense

rados pela distância e pelo tempo (Rangel 2006: 278). Eis um outro sugestivo relato de um velho residente, José Silveira Machado, originário dos Açores e exprofessor da Escola Comercial Pedro Nolasco, ao relembrar o seu primeiro Natal em Macau:

Ainda hoje recordo essa noite de festa e de emoções, que me deu a oportunidade de vir a conhecer, ao longo da minha vivência em Macau, a forma tradicional e muito especial como os macaenses preparavam e celebravam esta data tão festiva. Católicos por tradição, convicção ou devoção, na senda dos hábitos e costumes que os missionários, navegadores e comerciantes para aqui trouxeram das terras de Por-

tugal, punham um carinho muito especial nas comemorações do nascimento do Menino de Belém. (…) À noite todos se preparavam para assistir à Missa do Galo, enchendo-se de fiéis todas as igrejas da cidade e das ilhas, que, em noites de frio, se embiocavam em agasalhos grossos, porque não havia meios de transporte para os resguardar da inclemência do tempo. (…) Terminada a Missa e o beija-pé ao Menino, regressavam todos a casa para a consoada em família, em que tomavam parte alguns parentes ou amigos mais chegados. O que se fazia em primeiro lugar, era acender as velas e rezar diante

do presépio e pedir graças para toda a família, presentes e ausentes. Vinham então para a mesa grande perú, capão, presunto e todas as outras iguarias que faziam a delícia de todos (…) (Machado 2002: 139-140). Devido à proximidade de Hong Kong, certos hábitos ingleses natalícios foram adoptados por algumas antigas famílias macaenses, como apagarem-se as luzes quando se serve o tradicional Christmas Pudding (pudim de Natal), em chamas, no Dia de Natal. Festa universal, comemorada de forma muito idêntica por milhões de pessoas, o Natal tinha e tem as suas especificidades próprias no seio das velhas famílias macaenses.

Bibliografia BARROS, Leonel (1999). Macau – Coisas da Terra e do Céu. Macau: Serviços de Educação e Juventude. COATES, Austin (1991). Macau – Calçadas da História. Trad. Luísa Guedes. Lisboa: Gradiva e Instituto Cultural de Macau. FERNANDES, Henrique de Senna (1999). “Macau de Ontem” in Luís Sá Cunha (org.) (1999). Macau di nôs-sa coraçám – Memorandum afectivo para os participantes no III Encontro das Comunidades Macaenses. Pp. 51-69. Macau: Fundação Macau. MACHADO, José Silveira (2002). Macau na Memória do Tempo. Macau: Edição do Autor. PESSANHA, Camilo (1927). “Macau e a Gruta de Camões” in Luís Sá Cunha (org.) (1999). Camões nas Paragens Orientais – Textos por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais. Reedição anastática do opúsculo editado em 1927. Pp. 12-15. Macau: Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau. RANGEL, Jorge A. H. (2006). Falar de Nós: Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro. Volume II. Macau: Instituto Internacional de Macau. RANGEL, Jorge A. H. (2007). Falar de Nós: Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro. Volume III. Macau: Instituto Internacional de Macau. RANGEL, Jorge A. H. (2009). Falar de Nós: Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro. Volume IV. Macau: Instituto Internacional de Macau. RIBEIRO, Eduardo (2007). Camões em Macau – Uma certeza histórica. Colecção Ensaios do Meio. Macau: COD. SILVA, Renelde Justo Bernardo da (2001). A Identidade Macaense / The Macanese Identity. Macau: Instituto Internacional de Macau. TEIXEIRA, Padre Manuel (1999a). A Gruta de Camões em Macau. Macau: Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau. TEIXEIRA, Padre Manuel (1999b). Camões esteve em Macau . Macau: Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau.

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Padre Tomás Pereira O jesuíta do Imperador

Joaquim Magalhães de Castro Jornalista Fotos do autor Entre os séculos XII e XIII, em pleno período da Pax Mongolica , foram vários os frades dominicanos e franciscanos que viajaram por terra da Europa até à corte dos cãs das estepes. Depois, com a implantação do Islão em todo o Médio Oriente e na Ásia Central, seguiu-se um longo período de vários séculos em que as viagens através dessa região se tornaram, senão impossíveis, pelo menos extremamente difíceis. Por essa altura, os portugueses iniciavam as Descobertas, e na sequência delas surgem as aventuras relatadas por Fernão Mendes Pinto, que nas suas deambulações, muito provavelmente palmilhou essas remotas paragens, se bem que muito desse itinerário seja posto em causa pelos estudiosos da sua magnífica obra Peregrinação. No relato da viagem de Bento de Góis extraído da Istoria de la China i Cristiana Empresa Hecha en ella por la Compania de Jesus de Matteo Ricci, há referências às tribos nómadas de mongóis conhecidos na altura como tartáros, que aterrorizavam a região. São feitas importantes observações acerca do seu modo de vida e modo de operar, não tendo ficado esquecida a Grande Muralha, erguida pelos chineses precisamente para conter a expansão dessas temidas tribos. Músico e Embaixador Teríamos de esperar até ao século XVII, para que surgisse uma figura

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admirava o ouvido absoluto do jesuíta, a quem bastava escutar um trecho uma só vez para o transpor para a pauta. Foi esse desejo do imperador, de aprender a arte e a ciência da música europeia, que o levou a convidar Tomás Pereira a acompanhá-lo numa viagem de caça à Tartária, em 1685. A partir daí, seriam várias as jornadas que o português efectuaria a essa região, na companhia ou em nome do imperador.

Aspecto exterior de um dos templos lamaístas que Tomás Pereira presenciou durante a sua jornada.

portuguesa que comprovadamente esteve na Mongólia, e por duas ocasiões. Estamos a falar do padre jesuíta Tomás Pereira, minhoto de São Martinho do Vale, freguesia de Vila Nova de Famalicão, que na sua deslocação à Tartária (assim se chamava a Mongólia de então) redigiu um diário onde descreve as suas impressões sobre a paisagem, a fauna, a flora e a vida dos nómadas. Pereira, que era conselheiro pessoal e amigo do imperador manchu Kangxi, foi um reputado astrónomo e a primeira pessoa a divulgar na China e na Ásia Central a teoria e as práticas musicais do Ocidente. Kangxi nomeou-o professor de música privado, pois

Em 1689, Pereira seria nomeado para acompanhar a delegação chinesa que se deslocou a Nerchinsky, onde foi assinado o primeiro tratado de paz russo-chinês, um gesto de diploma cia sem precedentes naquela época. Na opinião de alguns estudiosos, esse tratado condicionou as actuais fronteiras do território mongol, que passaria a ser um estado tampão entre dois gigantes, a China e Rússia. Ambas estas nações tinham uma necessidade absoluta de conterem os nómadas e as imprevisíveis alianças destes com um ou outro império, consoante as conveniências e interesses do momento. Tomás Pereira foi enviado nessa viagem por recomendação do padre Ferdinand Verbiest, célebre astrónomo na corte imperial, que procurava dessa forma prestar serviços valiosos aos russos e assim obter a sua gratidão e confiança, que por sua vez os induziria a autorizar que os seus colegas jesuítas viajassem através da Sibéria. Este era o objectivo pelo qual Verbiest tinha trabalhado


Padre Tomás Pereira – O jesuíta do Imperador

tantos anos em Pequim, já que se pretendia abrir uma residência jesuíta em Moscovo. No entanto, a pior pessoa para cumprir esse desígnio era o padre Pereira, pois representava os interesses de uma nação que se opunha à abertura de uma rota terrestre para o Oriente. Já antes de Nerchinski, Tomás Pereira era um forte opositor da rota trans-siberiana, à semelhança dos outros missionários portugueses. Apesar de ter sido extremamente útil aos russos, ao ponto do representante Golovin ter expressado profunda gratidão, tanto dele como em nome do czar, Pereira nunca mencionou a questão da rota por terra. Sabendo disso, porque é que Verbiest, que era flamengo, o recomendou para tal missão? Talvez o tivesse já nomeado antes de se inteirar da sua posição sobre esse assunto. Seja como fôr, Pereira, pela sua longa experiência na corte, assim como pelo respeito que nutria junto do imperador, era o natural candidato para a delegação de paz, independentemente da sua intenção de não beneficiar os interesses que Verbiest esperava que defendesse. Pereira era português e um missionário do Padroado Português do Oriente. Dentro de si existia um conflito entre duas lealdades: a lealdade para com os interesses da Missão, de que era membro, e os seus superiores que tentavam salvaguardar esses desejos, e a lealdade para com a Coroa de Portugal e os seus interesses estabelecidos. Foi graças ao papel preponderante de Tomás Pereira no tratado de Nerchinsky, que, em 1692, seria decretado o famoso Édito de Tolerância para a cristandade. O religioso português recebeu-o directamente das mãos do imperador, tendo agradecido esse especial favor, em seu nome e em nome de todos os jesuítas a operar na China.

A vida dos nómadas foi pormenorizadamente descrita no diário que o padre Tomás Pereira nos legou.

Antropólogo e Etnólogo No seu diário de viagem, redigido em 1690, Tomás Pereira revela um apurado sentido de observação sobre a pátria dos derradeiros nómadas asiáticos. A respeito deles, escreve o seguinte: «Aque las por serem terras desertas, quase tudo areias, sem moradores, mais que acaso de trinta e mais léguas uma ou mais tendas de pastores que comboiando seus carneiros, vacas e cavalos, de cujo leite sem excepção se sustentavam, sem nenhum modo de cultura de tantas terras e muito pouco de pessoas, vivendo mais entre seus pastoreios grosseiramente, sem saberem nome ao pão e muito menos ao arroz.» Entre muitas outras coisas, Pereira repara na ausência de vegetação na estepe mongol e a utilização de excremento de animais como combustível. Diz o jesuíta que «em muitos meses que andamos nestes desertos

não vimos um pau de lenha nem árvore para queimar; servia-nos de perfume quotidiano aos comeres que cozíamos o cheiro de excremento de cavalo, do qual usávamos em lugar de lenha». Faz ainda uma chamada de atenção para a qualidade da água que se ingeria, um problema sempre actual: «sendo obrigados pela canícula a beber cosida e fervente, por sendo crua e fria, ser o perigo, da saúde evidente. Donde veio que tendo eu o nome de bom bebedor de água, fui obrigado a rigorosa abstinência dela entre tantas para se não me dar em culpa o sobredito» Convém lembrar que Tomás Pereira foi talvez o primeiro ocidental a mencionar a existência do raríssimo takhi, também conhecido como cavalo de Przewalski. O jesuíta descreve com algum detalhe o animal – «neste cerco se acharam várias mu-

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em um formoso padrão de mármore branco se acha ainda bem esculpido em sínicos caracteres. Havia vários tomos de suas escrituras diante do ídolo, mas já está tudo arruinado, dos quais trouxemos alguns em letras que parecem ser do Tibete.» Um percurso de vida

O Lago Khuvsgul, a grande massa de água encarada pelo mongóis como um verdadeiro oceano.

las de mato, em tudo semelhantes às que entre nós se cavalgam, grandeza do corpo, cabeça, orelhas, pescoço, pernas, cascos e tudo o mais; a cauda, cabelos e coma, e outras partes, que para admiração da natureza observei, e ainda o mesmo excremento, só não ouvi a suavidade da voz e garganta» – e admiralhe a extrema velocidade: «Se as ovelhas nasceram para correr, parece terem as mulas nascido para voar, pois se não podem alcançar, nem ver de perto. A cor em todas é a mesma, não branca, nem preta, mas como de cinza. Na circunferência da cauda têm uma malha sobre branca, todas do mesmo modo. Criando-se mansas (o que dificilmente se alcança) se não deixam cavalgar de nenhum modo. É coisa verdadeiramente digna de admiração na natureza. Os Tártaros comem da sua carne e eu provei também, a qual é muito grosseira e só acomodada aos seus dentes.»

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O minhoto faz ainda referência aos lagos que abundavam na região e à variedade de vida selvagem, contando-nos que «aos vinte e sete chegamos a uma formosa lagoa por nome Tual que fica pouco mais de dois dias de caminho a noroeste do célebre monte Pe Cha onde vai ordinariamente o imperador à caça de veados pelo Outono e Verão, como já escrevi em outra ocasião em uma relação que mandei da viagem que em sua companhia fiz à dita caça por ocasião de apetite que ele tinha e ainda tem de aprender a arte e ciência da nossa música». Não se esquece também de realçar essa tão peculiar forma de budismo que é o lamaísmo, dizendo-nos que «não muito longe desta lagoa achámos ruínas de um pagode, que tinha sido fundado há 400 anos no reinado sobredito dos Tártaros Ocidentais por um mandarim do tribunal interior do palácio, cuja memória

Descendente da nobre família minhota dos Costa Pereira, o nosso jesuíta nasceu em 1645, e, após a instrução primária e os estudos secundários no colégio jesuíta de Braga, entrou na Companhia de Jesus, em Coimbra, em 1663, tinha então 18 anos, abandonando no processo o seu nome de baptismo Sancho para adoptar o nome Tomás. Três anos depois, estava de partida para a Índia onde teve uma passagem muito fugaz por Goa, tendo seguido depois para Macau. Sabe-se que nessa cidade concluiria os cursos de Letras Humanas e de Teologia, no já afamado Colégio de São Paulo, tendo posteriormente recebido o grau de Mestre em Artes e leccionado Letras Humanas durante dois anos. Tomás Pereira encontrava-se ainda em Macau, quando, em 1672, o imperador chinês Kangxi o mandou chamar para a corte, após ter ouvido excelentes referências a seu respeito da parte do influente Ferdinand Verbiest. Como esclarece Francisco Rodrigues na sua obra Jesuítas Portugueses Astrónomos na China, o imperador tomaria essa decisão «depois de ter ouvido falar dos seus dotes e qualidades morais, da sua ciência e particularmente da sua perícia e habilidade rara para a música e maquinaria». Era tal a importância que o imperador dava ao assunto, que enviou propositadamente uma embaixada liderado por dois mandarins para conduzir o religioso português de


Padre Tomás Pereira – O jesuíta do Imperador

Macau a Pequim. A comitiva chegaria à capital do Império do Meio em Janeiro de 1673, tendo sido alvo de manifestações de respeito por parte de todas as autoridades das cidades por onde passaram.

falecer em Pequim, com 64 anos, a 24 de Dezembro de 1708, sendo o seu corpo sepultado no cemitério de Chala, após um funeral que mereceu as maiores honrarias.

A informação oficial a seu respeito enviada de Pequim para Roma, em 1700 e em 1703, descrevia-o do seguinte modo: «Ele é dotado de uma capacidade excepcional para a resolução de assuntos. Com virtudes morais e prudência num grau extraordinário, é humilde, zeloso e um amante da pobreza e obediência, mas também possui um carácter um pouco agreste».

Do Édito Imperial, transcrito na lápide evocativa do seu túmulo, hoje desaparecida, constava o seguinte: «Nós lembramo-nos, em jejum e abstinência, de ti, Xu Risheng, que vieste de longe e aqui trabalhastes por muitos anos. Fostes um perito em música e no calendário, os instrumentos que construístes foram todos oportunos. Nada fizestes senão mostrar seres diligente e esforçastete ao máximo no cumprimento das tuas tarefas. Por natureza íntegro, sem adornos e sem falhas, tu devotavas-te do princípio ao fim e da manhã à tarde. Como a tua lealdade e sinceridade de coração eram de dia para dia mais reconhecidas, Nós vínhamos há já longo tempo a expressar a nossa estima por ti. Quando Nós ouvimos falar da tua doença, nós tínhamos ainda esperança que pudesses recuperar. Contudo falecestes inesperadamente e nós ficamos muito entristecidos com a notícia. Concedemos-te 200 taéis de prata e dez grandes rolos de seda como expressão da nossa simpatia e compaixão por um súbdito que veio de longe. Este é o Nosso decreto.»

A luta entre franceses e portugueses prosseguiu sem tréguas durante uma década, até à chegada do núncio papal, Charles Millard de Tournon, altura em que ambos esqueceram as suas diferenças para defenderem interesses comuns. A dureza do carácter de Pereira viria de novo ao de cima e o jesuíta português seria o primeiro alvo da ira de Tournon. O conflito com o nunciato seria, de acordo com o padre Francisco Rodrigues, a principal causa da última doença de Tomás Pereira que viria

Tomás Pereira, o ilustre Xu Risheng, como era conhecido entre os chineses, ficaria imortalizado numa rua e numa rotunda da ilha da Taipa, em Macau, junto ao antigo campus universitário. Uma justa homenagem pela sua residênca na Cidade do Santo Nome de Deus, no Colégio de São Paulo, a primeira universidade da Ásia, por onde passariam também outras ilustres figuras das letras, da matemática e da astronomia que viriam a destacar-se no Império do Meio.

Entre o jovem imperador e Tomás Pereira estabeleceu-se desde logo uma enorme empatia que cedo se transformaria em amizade, e, ao longo dos 36 anos de permanência na Cidade Proibida, o português jamais deixaria de estar nas boas graças do Filho do Céu, que, após a morte de Verbiest, em 1688, o designou como Presidente do Tribunal das Matemáticas, embora ele tenha declinado essa honra. Os seus talentos eram também reconhecidos e apreciados pelos superiores da ordem jesuíta. Em 1687, o visitador das províncias JapãoChina, Simão Martins, nomeou-o vice-visitador para o sector de Pequim da vice-província chinesa, e, entre 1688 e 1691, ocuparia o cargo de reitor do Colégio dos Jesuítas na capital, tendo sido ainda vice-provincial da vice-província da China da Companhia de Jesus entre Junho de 1692 a Junho de 1695. O minhoto demonstrou as suas capacidades técnicas e um enorme talento para a arquitectura ao reconstruir a igreja que o padre Adam Schall tinha mandado erguer em 1650, a denominada igreja de Nantang, também conhecida como «igreja dos portugueses». A rudeza do seu carácter seria evidenciada com a chegada dos padres franceses à China, tendo os jesuítas portugueses tudo feito para evitar a entrada desses intrusos que vinham à revelia do Padroado. O padre Pereira seria particularmente zeloso nesse aspecto. Curiosamente, um dos seus rivais, o padre Francis Gerbillon, acabaria por ser o seu com-

Um velho monge budista envergando a veste tradicional dos mongóis, o "del".

panheiro durante a viagem a Nerchinsky.

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Documentar a experiência asiática de Tomás Pereira Quando tomei conhecimento das viagens de Tomás Pereira, decidi voltar a visitar a Mongólia, desta feita para confrontar a minha visão com a visão seiscentista do jesuíta, através da produção de um documentário televisivo. O meu amigo cubano Daniel, verdadeira conexão latina numa Ulan Bator com cada vez mais expatriados norte-americanos e australianos, funcionários das multinacionais que exploram as ricas jazidas de minério existentes no país, pôs-me em contacto com alguém entendido na matéria. A mongol Khulan Zumbee viveu em Cabo Verde, falava português e trabalhava numa empresa brasileira de exploração de minério. Culta, com espírito crítico, conhecedora da história e das tradições do seu país, Khulan era a pessoa ideal para me ajudar a conhecer ainda melhor a Mongólia. Encontrámo-nos na praça central da cidade, dedicada ao conhecido herói da revolução, Sukhbator – «mais um nacionalista do que um idealista», na opinião de Khulan – e, ao que consta, envenenado pelos senhores feudais ou pelos monges, não se tem bem a certeza. A praça estava cheia de gente, maioritariamente idosos envergando vestes tradicionais e casacos de onde pendiam imensas medalhas. Eram veteranos de guerra, alguns deles de provecta idade, e celebravam os 60 anos da batalha que travou a invasão japonesa na Manchúria. Na colina de Zaibal, a sul da cidade, foi erguido um memorial que honra a aliança entre russos e mongóis durante a Segunda Guerra Mundial. Muito naturalmente, Khulan acabaria por sugerir uma visita ao interior do país, onde o modo de vida e a paisagem, verdade seja dita, pouco se alterou desde a passagem do padre jesuíta. Interessava-lhe fazer essa viagem, pois ao dar a conhecer-me as diferentes realidades geográficas e culturais do seu país – «para que as fotografes e as descrevas» – estava a contribuir para que os portugueses conhecessem melhor a história da Mongólia. Fazia mesmo questão de que a figura de Tomás Pereira fosse divulgada entre os seus, e inquiriu-me sobre a possível existência de outros personagens lusos associados a viagens feitas anteriormente na Mongólia. Khulan desejava, acima de tudo, que se desvanecessem as ideias feitas acerca dos mongóis, e não escondia uma natural afinidade com o mundo lusófono. Das novidades que retive dessa viagem saliento o asfaltamento de muitas das estradas (um sinal claro de um forte investimento chinês) e o encontro com um grupo de nómadas que ainda faziam a mudança de acampamento utilizando iaques e carros feitos inteiramente de madeira: uma raridade nos dias que correm. Os nómadas da actualidade transportam os seus haveres em camiões e recorrem a motos para vigiar e recolher os seus animais. Destacaria ainda as ruínas do mosteiro de Ovgon Khiid, em pleno parque de Khogno Khan Uul, construído em 1660, precisamente no dealbar do século em que Tomás Pereira por aqui andou. Vivia ali uma mulher idosa, misto de monja e xamã, que as pessoas procuravam para resolver problemas de saúde. Não muito longe dali, junto à Mongol Els, uma longa duna que «viajou» até aqui directamente de deserto de Gobi, alguns camelos, para turista alugar, anunciavam uma transição de paisagem... O camelo foi um dos animais utilizados para o transporte da comitiva imperial chinesa encarregada das negociações em Nerchinsky. A respeito deste resiliente animal, escrevia Tomás Pereira: «Aos 13 de Junho 689, dia felicíssimo do prodigioso Santo António saímos desta corte com muito maior número de gente e muito mais de cavalos, carneiros, bois e camelos oriente (porque todo o sustento de cinco meses era necessário levar em comboio) andando até os 26 vários rumos que, cotejados uns e outros, se resolvem quase ao norte com pouca inclinação ao leste.» O documentário em questão intitula-se “De um lado para o outro - Diários da Mongólia”.

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Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau: Um guião para o futuro de Macau Louise do Rosário Macao Magazine

A Comissão para a Reforma e Desenvolvimento Nacional e os governos de Guangdong, Hong Kong e Macau assinaram a 1 de Julho de 2017, em Hong Kong, as “Linhas gerais do planeamento para o fortalecimento da cooperação no desenvolvimento da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau.” O plano de desenvolvimento para a Área da Grande Baía GuangdongHong Kong-Macau entrou em vigor a 18 de Fevereiro de 2019, delineando de uma forma clara o posicionamento estratégico e os objectivos de desenvolvimento da região. Conhecido mais simplesmente por Plano, os seus 11 capítulos abrangem dados de base, princípios básicos, esboço espacial, um centro de inovação e tecnologia, infra-estruturas de inter-ligação, um sistema industrial moderno, conservação ambiental, área residencial de qualidade, participação na iniciativa Faixa e Rota, plataformas de cooperação económica bem como um dedicado à sua aplicação. O Plano cobre no curto prazo o período de tempo que vai da actualidade até 2022, que se alarga até 2035 no longo prazo. A AGB engloba as duas regiões administrativas especiais (RAE) de

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Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau.

Hong Kong e de Macau e nove cidades da província de Guangdong – Cantão, Shenzhen, Foshan, Dongguan, Zhaoqing, Jiangmen, Zhongshan, Zhuhai e Huizhou. As duas RAE e as nove cidades têm uma área combinada de 56 mil quilómetros quadrados e tinham uma população de 70 milhões de pessoas no final de 2017. Nesse mesmo ano o Produto Interno Bruto da região atingia 1,5 biliões de dólares. A sociedade

Morgan Stanley Asia estima que a região, já a mais desenvolvida da China com os níveis mais elevados de investimento directo estrangeiro e de rendimento per capita, atinja em 2030 uma produção económica com um valor compreendido entre 3,2 biliões e 4,1 biliões de dólares. Tendo por base os dados actuais, tal produção faria com que a região fosse uma das cinco principais economias do mundo, quando neste momento já se encontra entre as 15 primeiras.


Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau: Um guião para o futuro de Macau

Macau é uma das quatro cidades nucleares da região, em conjunto com Hong Kong, Cantão e Shenzhen. Base económica robusta A Área da Grande Baía (AGB) encontra-se na liderança do desenvolvimento económico do país. Dispõe de um sistema industrial abrangente, com uma vantagem clara de agrupamentos e uma forte complementaridade económica. A AGB aplicou de uma forma intensa uma estratégia de desenvolvimento centrada na inovação. Guangdong, Hong Kong e Macau dispõem de capacidades excepcionais na pesquisa científica e nas respectivas aplicações comerciais. As três regiões dispõem de muitas universidades, centros de pesquisa científica, empresas de alta tecnologia e projectos científicos de nível nacional, com importância nacional e mesmo global. Um nível elevado de internacionalização posiciona a AGB para um crescimento continuado, ao passo que a base de forte cooperação entre os seus 11 membros assegura a evolução da parceria produtiva. Contudo, a AGB enfrenta muitos desafios, desde a instabilidade externa ao crescente proteccionismo até ao excesso de capacidade e ao desequilíbrio e incompatibilidade entre a oferta e a procura. Os diferentes sistemas sociais e juridícos de Guangdong, Hong Kong e Macau, territórios com sistemas alfandegários separados, também criam obstáculos. O relacionamento dos mercados necessita de ser melhorado para que se alcance um fluxo eficiente dos factores de produção. Continua a existir uma lacuna de desenvolvimento relativamente ampla

Cantão.

no âmbito da AGB, pelo que a coordenação e a compatibilidade terão de ser reforçadas. Competição homogénea e incompatibilidade de recursos existem em certas regiões e sectores. O crescimento económico contínuo em Hong Kong carece de apoio sustentável e estável, enquanto a estrutura económica de Macau é relativamente homogénea, com recursos limitados para o desenvolvimento. A estrutura da economia de mercado nos nove municípios do Delta do Rio das Pérolas requer melhorias.

mundial que é vibrante e altamente inovador num ambiente agradável.

O desenvolvimento regional enfrenta vários estrangulamentos, incluindo restrições crescentes em recursos e fontes de energia, aumento da pressão sobre o ambiente e uma redução gradual do dividendo demográfico.

A construção da AGB terá como motores para o desenvolvimento regional Hong Kong, Cantão e Shenzhen.

Em 2022, a força combinada da AGB deve aumentar substancialmente, com uma cooperação mais profunda entre Guangdong, Hong Kong e Macau. O resultado será uma estrutura para uma área de baía internacional de primeira classe e um aglomerado urbano de classe

Em 2035, a AGB será um sistema económico apoiado pela inovacão com maior competitividade internacional. Os mercados no seio da AGB deverão estar intimamente relacionados, com um grau muito eficiente de fluxo de vários recursos e dos factores de produção. A promessa anunciada de uma região internacional de primeira classe para viver, trabalhar e viajar deve estar plenamente realizada nessa altura.

O Plano apela ao fortalecimento dos papéis de liderança de Hong KongShenzhen, Cantão-Foshan e MacauZhuhai, aprofundando a cooperação entre Hong Kong e Shenzhen, e entre Macau e Zhuhai, e acelerando o desenvolvimento integrado de Cantão e Foshan. A AGB contará com uma rede de transporte rápida envolvendo comboios interurbanos de alta veloci-

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dade, auto-estradas, portos e aeroportos para formar uma rede espacial bem interligada das principais cidades. O Plano afirma a necessidade de melhor utilizar a ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, acelerar a construção de infra-estruturas de transporte importantes (como a ponte Shenzhen-Zhongshan e a linha de caminho-de-ferro ShenzhenMaoming), melhorar o desenvolvimento na margem ocidental do rio das Pérolas e promover a sinergia entre as margens leste e oeste desse rio. A construção da AGB assentará em quatro cidades, Hong Kong, Cantão, Shenzhen e Macau, que serão os motores do desenvolvimento regional. Os objectivos do Plano para as quatro cidades são os seguintes: - Macau desenvolver-se-á como um centro de turismo e lazer de classe mundial e uma plataforma de serviços de cooperação comercial e económica entre a China e os países de língua portuguesa. Deverá ainda promover um nível adequado de desenvolvimento económico diversificado e desenvolver-se como base para o intercâmbio num cenário em que diversas culturas coexistem com uma cultura predominantemente chinesa. – Hong Kong deverá consolidar e fortalecer o seu estatuto de centro financeiro, de transportes e comercial internacional. Deverá fortalecer o seu papel de plataforma global de negócios em CNY bem como do desenvolvimento do corredor de inovação tecnológica e de centro internacional de gestão de activos. Deverá desenvolver as indústrias inovadoras e tecnológicas, apoiar as indústrias emergentes, estabelecer um centro de arbitragem legal e de resolução de conflitos internacional na região da Ásia-Pacífico.

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Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau: Um guião para o futuro de Macau

– Cantão deverá desenvolver o seu papel como uma cidade-núcleo nacional e uma cidade de entrada integrada, fortalecer as suas funções como um centro internacional de comércio e indústria e um centro de transportes integrado e melhorar as suas funções como um centro tecnológico, educacional e cultural. – Shenzhen deverá desenvolver o seu papel de zona económica especial, de cidade-núcleo nacional em termos económicos e de inovação, acelerar a sua transformação numa cidade internacional e tudo fazer no sentido de se transformar numa capital de inovação e de criatividade com influência global. Plataforma de inovação e tecnologia O Plano pretende fomentar as funções das comissões de cooperação tecnológica e científica entre o continente e Hong Kong e entre o continente e Macau. Pretende igualmente promover a integração de Hong Kong e de Macau no sistema nacional de inovação, fazendo com que as regiões administrativas especiais (RAE) possam desempenhar um papel mais activo, bem como apoiar o desenvolvimento do corredor tecnológico de inovação Cantão-Shenzhen-Hong Kong-Macau. O Plano promove a abertura gradual a Hong Kong e Macau das principais estruturas nacionais de pesquisa e desenvolvimento bem como dos respectivos equipamentos localizados na província de Guangdong. Apoia ainda a integração da indústria, dos centros académicos e de pesquisa de Guangdong, Hong Kong e Macau. O Plano apoia o desenvolvimento contínuo dos principais laboratórios nacionais em Hong Kong e Macau.

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elevar a competitividade dos aeroportos de Cantão e de Shenzhen como plataformas internacionais e fortalecer as funções de aeroportos tais como os de Macau e Zhuhai. O Plano apoia a construção de um sistema de três pistas no Aeroporto Internacional de Hong Kong e a expansão do aeroporto de Macau. Apoia igualmente trabalhos de reconstrução e de expansão nos aeroportos de Cantão e de Shenzhen. Apela também à expansão e modificação dos troços mais movimentados das auto-estradas nacionais, como a Shenyang-Haikou (G15) e a Pequim-Hong KongMacau (G4).

Hong Kong.

Apela por outro lado a que os institutos de pesquisa e desenvolvimento de Hong Kong e de Macau em Guangdong beneficiem do mesmo tratamento que os restantes institutos do género existentes no continente.

tes na AGB através do reforço do desenvolvimento de infra-estruturas, fomentando o inter-relacionamento, optimizando as operações e estabelecendo uma rede com um traçado racional.

Apoia ainda o desenvolvimento de incubadoras de empresas tecnológicas de Hong Kong e de Macau nos nove municípios do delta do rio das Pérolas.

Apoia ainda os esforços no sentido de aumentar a competitividade internacional do aglomerado de portos do delta do rio das Pérolas. O estatuto de Hong Kong enquanto centro marítimo internacional será alargado, com a RAE a desenvolver serviços marítimos de elevada qualidade, como sejam a gestão e a locação de navios, o financiamento de navios, seguros marítimos, aconselhamento legal e resolução de conflitos.

O Plano pretende aumentar a protecção e a utilização da propriedade intelectual, a fim de capitalizar os mecanismos de colaboração de Hong Kong – Guangdong, Macau – Guangdong e a região do delta do rio das Pérolas, bem como fortalecer a cooperação em questões relacionadas com propriedade intelectual e a formação de quadros nesta área na AGB. Inter-relacionamento infraestrutural O Plano visa construir um sistema moderno e abrangente de transpor-

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O Plano pretende desenvolver um aglomerado de aeroportos na AGB. O estatuto de Hong Kong enquanto plataforma de aviação internacional será consolidado, em simultâneo com o fortalecimento do seu papel como centro de formação de gestão aérea. Serão desenvolvidos esforços no sentido de

O Plano contempla a construção de uma rede rápida de transportes na AGB, ligando o continente a Hong Kong e a Macau, bem como entre as margens ocidental e oriental do delta do rio das Pérolas. A rede consistirá em comboios de alta velocidade, ligações ferroviárias inter-cidades e auto-estradas para reduzir o tempo de viagem entre as principais cidades da AGB para menos de uma hora. O Plano irá adoptar novos modelos para os procedimentos de desembaraço alfandegário a fim de fazer melhor utilização da ligação ferroviária expresso Cantão-ShenzhenHong Kong e da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau. Prevê a construção de novos postos fronteiriços no ponto de controlo Liantang /Heung Yuen Wai, a nova fronteira Guangdong-Macau (ponto de controlo Qingmao), Hengqin (com a possibilidade de transferir o posto fronteiriço do Cotai) e a estação de Kowloon Ocidental da linha de caminho-de-ferro expresso CantãoShenzhen-Hong Kong.


Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau: Um guião para o futuro de Macau

O Plano pretende fortalecer os sistemas de ciber-segurança e o desenvolvimento de uma nova geração de infra-estruturas de informação, expandindo a largura de banda de acesso à Internet na AGB, bem como elaborando um planeamento abrangente para a próxima geração de endereços IP (IPv6). Sistema industrial moderno O Plano apoia o desenvolvimento em Macau de uma plataforma China-Países de língua portuguesa para fornecer serviços financeiros, um sistema de seguros de crédito à exportação e um centro de liquidação em CNY para aqueles países. Serão desenvolvidos esforços a fim de fomentar os pontos fortes de Macau como a sede do Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China-Países de língua portuguesa. Uma zona inter-fronteiriça MacauZhuhai de demonstração da cooperação financeira poderá vir a ser estabelecida. O Plano apoia Macau a desenvolver produtos e serviços financeiros especiais, tais como a locação. Pretende igualmente explorar a viabilidade do estabelecimento em Macau de um mercado de títulos denominado e compensado em CNY, uma plataforma financeira verde e uma plataforma de serviços financeiros China-Países de língua portuguesa. O Plano apoia instituições bancárias e de seguros elegíveis em Hong Kong e Macau na montagem de operações em Qianhai (Shenzhen), Nansha (Cantão) e Hengqin (Zhuhai). Também apoia Macau a acelerar o desenvolvimento de uma plataforma

Shenzhen.

de comercialização e de distribuição de produtos alimentares dos países de língua portuguesa. Desenvolvimento de uma plataforma educativa e de quadros qualificados O Plano apoia Macau a estabelecer uma base de formação e quadros bilingues que sejam fluentes em chinês e em português, bem como no fomento das experiências e pontos fortes na formação e educação turística e na promoção da sua indústria turística. O Plano apoia a execução de projectos culturais importantes, como sejam o intercâmbio cultural de jovens Guangdong-Hong KongMacau, o esquema de financiamento para o intercâmbio de jovens de Hong Kong no continente e o Programa dos Mil Talentos de Macau. O Plano apoia Macau a aprofundar as suas características próprias como um local onde diversas cultu-

ras do Oriente e do Ocidente se integraram e coexistem há muito tempo, acelerando o desenvolvimento das indústrias culturais e do turismo cultural e desenvolvendo um centro de intercâmbio cultural entre a China e os países de língua portuguesa. Uma baía que seja uma área de lazer O Plano promove diversos produtos turísticos, incluindo cultura e história, lazer e férias, saúde e bem-estar e viagens de cruzeiro e de iate na AGB. Procura igualmente enriquecer os itinerários de viagens “boutique” para Guangdong, Hong Kong e Macau e produtos turísticos multidestinos em comboios de grande velocidade. O Plano apoia os esforços de Macau para se tornar num centro de turismo e lazer de classe mundial, através do estabelecimento em Macau de uma aliança de cooperação turística com outras cidades da AGB e na partilha de recursos tu-

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rísticos regionais entre Guangdong, Hong Kong e Macau. O Plano pretende estabelecer a marca turística AGB, desenvolver produtos turísticos criativos e melhorar em termos globais a qualidade do turismo e do lazer. O Plano promoverá a aplicação efectiva de um esquema individual de viagem de iates em Guangdong, Hong Kong e Macau, acelerará a melhoria das instalações deste tipo de actividade e procurará criar um porto livre para o turismo internacional de iates. Faixa e Rota Ao abrigo do Plano, a AGB aumentará a sua participação na iniciativa Faixa e Rota, com uma cooperação aprofundada entre Guangdong, Hong Kong e Macau.

Ponte Hong Kong-Zhuai-Macau.

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O Plano apoia os esforços para fortalecer o intercâmbio e a cooperação judicial das cidades da AGB como o desenvolvimento de um mecanismo multifacetado de resolução de disputas. Apela também ao desenvolvimento de um centro de arbitragem internacional, apoia intercâmbios e cooperação entre organizações de arbitragem e mediação em Guangdong, Hong Kong e Macau e promove serviços de arbitragem e mediação na AGB. Integração de mercados O Plano apoia a execução dos Acordos de Parceria Económica (CEPA) com Hong Kong e Macau, em sectores como finanças, educação, direito e resolução de lsitígios, transportes marítimos, logística, transportes ferroviários, telecomunicações, medicina chinesa, construção e engenharia.

Apoia uma maior liberalização ao abrigo do CEPA, permitindo aos profissionais e empresas de Hong Kong e de Macau beneficiar de tratamento nacional em maior número de sectores no continente. Apoia a expansão do reconhecimento mútuo de qualificações profissionais entre o continente, Hong Kong e Macau, ao abrigo do sistema "um exame, três certificações" – ou seja, passar um exame unificado para obter uma qualificação profissional a nível nacional bem como em Hong Kong e Macau. O Plano pretende fortalecer o estatuto de Hong Kong enquanto uma plataforma “offshore” global de negócios em CNY e apoiar a participação de Macau no Fundo da Rota da Seda, no Fundo de Investimento para a Cooperação China-América Latina, no Fundo de Capacidade


Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau: Um guião para o futuro de Macau

Industrial China-África e no Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas. O Plano apoia os laços de Macau com os países de língua portuguesa e os esforços para capitalizar a Plataforma de Serviços Comerciais e de Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Esforça-se por assegurar o sucesso do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau) e reforçar as funções do Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China-Países de Língua Portuguesa. Apoia serviços profissionais (como finanças, direito, comércio e informação sobre investimentos, indústria e cooperação regional) para a

Macau.

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promoção do intercâmbio entre países lusófonos e as empresas do continente, de Hong Kong e de Macau. Todos podem, em conjunto, explorar os mercados daqueles países. Plataformas de cooperação O esboço do plano visa acelerar o desenvolvimento das principais plataformas económicas existentes, como Qianhai (Shenzhen), Nansha (Cantão) e Hengqin (Zhuhai), sendo esta última de grande importância por ser limítrofe de Macau. Hengqin Para complementar o desenvolvimento de Macau num centro mundial de turismo e lazer, Hengqin, em Zhuhai, será uma ilha internacional de lazer e turismo de elevada qualidade. O Plano prevê a elaboração de um estudo sobre medidas para

facilitar a deslocação de visitantes entre Hengqin e Macau, permitindo que os profissionais de turismo de Macau prestem serviços em Hengqin. Apoia o desenvolvimento coordenado de Hengqin, Zona de Comércio Livre de Zhuhai e a área de Hongwan, bem como o desenvolvimento de um parque logístico de Guangdong-Hong Kong-Macau. O Plano apoia igualmente importantes projectos de cooperação, como o Vale do Empreendedorismo de Jovens de Macau-Hengqin (Inno Valley Hengqin) e o Parque Industrial de Cooperação GuangdongMacau, bem como a realização de um estudo sobre a criação de um centro de informação GuangdongMacau. O Plano propõe um maior desenvolvimento do Parque Industrial de Ciência e Tecnologia da Medicina

Tradicional Chinesa entre Guangdong e Macau, bem como permitir que pessoal médico elegível de Hong Kong, Macau e do estrangeiro possa trabalhar directamente em Hengqin. O Plano apoia Zhuhai e Macau a desenvolver em conjunto projectos com serviços integrados, incluindo cuidados a idosos, vida, educação e cuidados de saúde em Hengqin. Sugere, por outro lado, a realização de um estudo para o alargamento do serviço de saúde e de segurança social de Macau a tais projectos. Propõe a realização de um estudo sobre a possibilidade de ter profissionais e empresas de Macau a participar no desenvolvimento e na gestão de tais projectos. Será também estudado o estabelecimento de um fundo de cuidados de saúde que ofereça protecção sanitária aos residentes de Macau que recebam tratamento médico em Hengqin e escolas para os estudantes de Macau. O Plano apoia Hengqin e Macau a desenvolverem em conjunto uma plataforma de cooperação económica e comercial China – América Latina e a estabelecer canais internacionais de comércio internacional entre o continente e os países da iniciativa Faixa e Rota. Hengqin fornecerá o enquadramento necessário para que Macau desenvolva o comércio electrónico industrial trans-fronteiriço e para facilitar a entrada de produtos dos países de língua portuguesa no continente através de Macau.

Entrada no túnel subaquático da ponte.

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O Plano propõe finalmente a realização de um estudo para analisar a possível delegação de competências nas autoridades de Hengqin no que se refere à emissão de autorizações de residência a estrangeiros.


Uma arca de tesouro marítima: Museu de Guangdong alberga barco naufragado há 800 anos

José Simões Morais Macao Magazine

A recuperação do navio é uma história fascinante que teve início há mais de 30 anos. No princípio dos anos 80, um empregado da United Kingdom Ocean Survey Company leu uma notícia num documento da coleção do Museu Marítimo dos Países Baixos: no século XVIII, um navio da Companhia das Índias Orientais, carregado com caixas de prata e centenas de toneladas de peltre, tinha naufragado no Mar da China Meridional.

Museu Marítimo de Guangdong, em Hailing.

É um dos museus mais admiráveis da China – o edifício ultramoderno foi construído junto a uma praia para albergar os restos de um junco chinês que naufragou há oito séculos. O junco foi descoberto no fundo do mar em 1987 mas só trazido à superfície 20 anos mais tarde. O museu também mostra os objetos encontrados no barco, entre os quais se encontram anéis e pulseiras de ouro, bem como porcelana em surpreendente bom estado. O Museu da Rota de Seda Marítima de Guangdong fica em Hailing, na província de Guang-

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dong, a quase 280 quilómetros de Macau. O navio Nanhai I (Mar do Sul Número Um) é a embarcação mais antiga e mais bem preservada alguma vez encontrada junto da costa chinesa. Foi construído durante a dinastia Song do Sul (11271279) e naufragou a poucas milhas da costa, no Mar da China Meridional em viagem rumo à Índia ou ao Médio Oriente na Rota da Seda marítima, carregado com dezenas de milhares de peças de porcelana. Tinha três mastros, 30,4 metros de comprimento e uma capacidade de 80 toneladas.

A empresa pediu à Administração Nacional de Património Cultural da China (ANPC) autorização para resgatar o barco e, com a participação da Agência de Resgate e Salvamento de Guangzhou (ARSG), o pedido foi aprovado. O contrato estabeleceu que a ARSG supervisionaria a recuperação do navio e o lado britânico suportaria os custos da operação e do equipamento. Os barcos e os mergulhadores seriam alugados à China. Se fossem encontradas relíquias culturais ou históricas, pertenceriam à China. Caso se encontrasse ouro ou prata, seriam vendidos à China a preços de mercado; e se fosse encontrado peltre, este seria vendido e o produto da venda dividido entre os dois lados. A equipa começou a trabalhar ao largo da Ilha de Nanpeng no dia 10 de junho de 1987. Com um radar acústico, examinaram áreas extensas do leito marinho, mas não encon-


Uma arca de tesouro marítima: Museu de Guangdong alberga barco...

traram nada até ao dia 5 de agosto. Nesse dia, os mergulhadores estavam numa zona de pouca visibilidade, a 24 metros de profundidade, quando, com a luz de uma lanterna, encontraram um pedaço de madeira de dois metros, que parecia ser o resto de um mastro. Mas o contrato estava quase no fim. Por isso, e também para reduzir os custos, a empresa britânica decidiu dragar o leito. Com um guindaste de uma tonelada, conseguiram trazer à superfície 247 objetos, entre os quais se encontravam moedas de bronze, um cinto banhado a ouro com 1,7 metros e 575 gramas de peso, e muita porcelana, a maior parte da qual partida, devido ao método utilizado. As descobertas foram enviadas à ANPC da China. Os seus arqueólogos concluíram que as peças eram da dinastia Song e, como nada tinham a ver com o navio procurado pelos britânicos, o governo mandou parar os trabalhos de prospeção. Isto ocorreu no dia 12 de agosto, tendo toda a equipa voltado para Guangzhou. Obstáculos para a recuperação do navio Em novembro de 1989, conscientes de que se tratava de restos de um navio naufragado há oito séculos, a China decidiu fazer um novo levantamento da zona, em parceria com o Instituto de Arqueologia Subaquática do Japão, mas os trabalhos não avançaram devido à falta de verbas e ao mau tempo. O governo decidiu então preparar uma equipa de mergulhadores especializados e investir no estudo da arqueologia subaquática. Em 2001, depois de anos de estudo e preparação, conseguiram revitalizar o programa chinês de arqueologia subaquática. Em abril desse ano, a

Fachada principal do Museu Marítimo.

equipa voltou à zona, munida de um mapa comprado a um inglês que tinha participado no levantamento original e que indicava o local exato das descobertas.

cunhadas entre as dinastias Han Occidental e Song.

Com o patrocínio da Hong Kong Association of Underwater Archaeology Research and Exploration e da ANPC, após de um mês de prospeção, a equipa conseguiu encontrar uma peça de porcelana, que, depois de analisada, se concluiu provir da primeira operação de dragagem. Isto permitia-lhes localizar o navio naufragado entre as ilhas de Shangchuan e Xiachuan, a 20 milhas marítimas do porto de Dongping.

A equipa pôde, portanto, determinar as medidas da embarcação perdida, um navio mercante de tamanho médio: 30,4 metros de comprimento e 9,8 metros de boca, com uma altura de 4 metros da quilha ao convés principal, sem contar com os três mastros. O plano original da equipa de mergulhadores era o de apenas recuperar os bens. Mas depois de descobrir que a estrutura do navio estava completa e a madeira em boa condição, decidiram recuperar a embarcação completa.

Em maio de 2002, os mergulhadores começaram a encontrar objetos enterrados a mais de um metro do fundo do mar. Depois de escavarem uma cova de um metro quadrado, retiraram 6 mil peças de porcelana, das quais 4 mil estavam intactas, isto para além de objetos laqueados, peças de metal e bronze, e moedas

Para lançar uma operação de tal envergadura, o governo tinha de juntar muitas entidades, incluindo o Departamento de Cultura de Guangdong, o Instituto Provincial de Relíquias Culturais e de Arqueologia de Guangdong, o Museu Nacional da China, a Agência de Salvamento do Ministério de Comunicações, a Uni-

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guindaste, construído ao longo de três anos em Shanghai por 600 milhões de yuans (US$88 milhões), estava pronta para a grande operação de salvamento. Foi lançado um batelão de 530 toneladas, que custou 70 milhões de yuans (US$10 milhões), a fim de transportar para terra o contentor com o navio resgatado.

Já no Museu, a preservação do Nanhai I requer as mesmas condições físicas que o preservaram durante séculos no mar.

versidade de Tecnologia da China Meridional e a CCCC Fourth Harbour Engineering Co. Ltd. Em outubro de 2003, o governo tomou a decisão de trazer o barco inteiro para terra. Em novembro desse ano, o governo provincial de Guangdong também decidiu construir o Museu Marítimo de Guangdong na cidade de Yangjiang, pondo fim às deliberações sobre a localização do museu projetado: em Zhuhai, Jiangmen ou Yangjiang. Em junho de 2006, depois de receber a aprovação da ANPC, o Departamento de Cultura de Guangdong assumiu a responsabilidade de recuperar o Nanhai I. No dia 8 de dezembro de 2006, assinou um contrato com o Instituto Provincial de Relíquias Culturais e de Arqueologia de Guangdong e a Agência de Salvamento de Guangzhou, dando início às operações.

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O salvamento do Nanhai I Em fevereiro de 2007 a equipa de salvamento fez as últimas verificações das medidas, localização e posicionamento da embarcação. Em abril, dois barcos chegaram ao local para limpar a zona circundante e confirmar que não havia nenhuma rocha enterrada que pudesse dificultar o processo de salvamento. Durante esta fase, fizeram-se novas descobertas: anéis de ouro, ossos de porco e duas caveiras de serpente, bem como uma pedra que fazia parte da âncora e media 3,5 metros de comprimento, 0,35 de largura e 0,15 de altura. Esta foi a âncora mais pesada e de maior dimensão da dinastia Song alguma vez encontrada. A madeira estava praticamente destruída, restando apenas uma pequena peça na junta com a pedra, na qual estavam embutidas algumas conchas, terra e até fragmentos de porcelana. Em maio de 2007, uma enorme plataforma flutuante com um poderoso

Começou então a fase mais difícil do projeto Nanhai I. O guindaste colocou na água um contentor de aço sem fundo nem teto. As paredes mediam 35,7 metros de comprimento, 14,4 de largura e 12 de altura. O guindaste fez descer muito devagar o contentor até uma profundidade de 24 metros, posição exata do navio no fundo do mar, envolvendo todo o barco. A seguir, carregou em cima do contentor uma carga muito pesada, para o enterrar. A zona circundante de lodo e areia foi retirada por meio de sucção, para assim submergir o contentor 12 metros abaixo do leito marinho. A equipa posicionou sensores nos quatro cantos do contentor, que foram ligados a um computador para verificar que toda a embarcação estava dentro do contentor e para medir a pressão. Durante dois meses, mantiveram-se as quatro paredes do contentor escoradas entre si para assegurar a estabilidade. Depois de selado por baixo, o contentor foi cortado a meio, içado à superfície e hermeticamente selado. O trabalho no leito marinho ficou terminado a 26 de novembro de 2007 e o Nanhai I pronto a ser levado para terra. No dia 22 de dezembro, as condições meteorológicas favoreceram a operação, na qual um navio de 16 mil toneladas – Zhong Ren 1601 – levaria o contentor até à costa.


Uma arca de tesouro marítima: Museu de Guangdong alberga barco...

No dia seguinte, o Nanhai I começou uma lenta viagem até a Ilha de Hailing, tendo chegado à praia de Zhapo quatro dias mais tarde. Uma doca e uma estrada de betão foram construídos na praia, para receber a preciosa carga. A partir daí, o contentor foi transportado para o museu em grandes almofadas de ar e toras de madeira, para proteger o seu frágil conteúdo, tendo sido conduzido para um enorme tanque. No dia 18 de agosto de 2009, a equipa retirou mais de 200 objetos bem preservados do lado superior do contentor que se manteve aberto, descobrindo também que havia ainda muita porcelana no fundo do casco. Segundo o diretor do museu, Ma Hongzao, a operação para retirar o navio do fundo do mar custou no total 150 milhões de yuans (US$22 milhões). “As características da água do tanque onde o contentor foi colocado com os restos do navio são as mes-

mas da água que rodeou o barco no fundo do mar durante oito séculos,” disse Ma. Explicou que, dentro do navio, havia ainda aproximadamente 70 mil peças de porcelana em perfeitas condições, muitas delas com as cordas que as ataram, e que, na parte superior, se encontravam muitos pregos e panelas. “Certamente o barco tinha excesso de carga e por isso naufragou. Tendo em conta os objetos de ouro que levava e as caveiras de duas serpentes, o proprietário do carregamento seria, provavelmente, um indiano ou um árabe”, concluiu. Quanto ao barco, era um junco mercante de tamanho médio com três velas. A maior parte dos peritos consideram que é do tipo Fuchuan, da província de Fujian. Porém, alguns historiadores dizem que podia ser do tipo Guangchuan, da província de Guangdong. Os dois tipos de navio têm um casco em forma de V. O museu exibe numa das suas salas um modelo da embarcação, com

remos, semelhante aos navios de Guangdong dessa época. Guangzhou – centro de navegação da China Meridional na dinastia Song A partir da época da dinastia Han (século III a.C) ou mesmo antes, Guangzhou foi um dos portos mais importantes na China meridional e o ponto de partida da Rota de Seda marítima. No fim do século VIII, durante a dinastia Tang, milhares de navios mercantes chegaram todos os anos ao porto de Guangzhou, cidade que tinha 100 mil residentes estrangeiros, muitos deles árabes, hindus e persas. Durante as dinastias Tang e Song, grandes quantidades de porcelana foram exportadas através da plataforma de Guangzhou. No século XII, durante a dinastia Song do Sul, juncos mercantes chineses zarparam de Guangzhou no final de novembro e, com ventos favoráveis,

Alguns exemplares dos muitos milhares de peças encontrados no Nanhai I.

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de areia prateada que bordeiam o mar azul. O edifício tem a forma de um barco virado ao contrário e não tem paredes planas. Visto de dentro, o edifício sugere aos visitantes o interior de um barco. A partir do exterior, tem uma arquitetura ousada e modernista, como se de um filme de ficção científica se tratasse. Alguns consideram-no um dos edifícios mais modernos da província de Guangdong.

O barco na sua “arca” que permitiu trazê-lo à superfície.

chegaram a Sumatra. Ficaram ali até à primavera, quando os ventos permitiram de novo a navegação até ao Golfo Pérsico. Tinham de navegar mais de 5 mil milhas marítimas no meio do oceano ao longo de dois meses, com a ajuda de uma bússola, dispositivo inventado no século XI. Voltariam à China entre maio e junho. Segundo o livro Song Shi (História da dinastia Song), a China exportou produtos tais como seda, porcelana, chá, chumbo e peltre. Por isso, a moeda chinesa era aceite em todos os portos por onde viajavam. Novos horizontes para a arqueologia subaquática chinesa A descoberta do Nanhai I e as investigações realizadas para salvar a embarcação conduziram a novas possibilidades no campo da arqueologia subaquática chinesa e à promessa de novos conhecimentos sobre a história marítima. O salvamento do navio levou à criação de equipas de mergulhadores especializadas na recuperação de

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tesouros afundados e a grandes progressos na navegação e salvamento de navios em risco de naufragar. Até então, a China tinha pouca prática em arqueologia subaquática e resgate de barcos e cargas encontrados no fundo do mar. Agora e após esta operação, encontra-se entre os países mais bem preparados para realizar tais operações. Do fundo do mar até ao museu No dia 24 de dezembro de 2009, o museu construído por 220 milhões de yuans (US$32 milhões) para exibir a embarcação abriu as suas portas ao público, no aldeamento turístico de Zhapo na Ilha de Hailang, a 50 quilómetros da cidade de Yangjiang. Recebe uma média de 1.500 visitantes por dia, tendo capacidade para receber 6 mil. O museu foi projetado pela Guang zhou Han Hua Architectural Design Company Ltd e construído ao lado da praia de Zhapo, três quilómetros

Com uma área de 19 mil metros quadrados, o museu tem dois andares e oito secções. No hall de entrada, um enorme ecrã de televisão mostra continuamente um filme sobre a operação de salvamento do barco. Toda a exposição é acompanhada por notas explicativas e placas escritas em chinês e inglês. Objetos encontrados na cidade de Yangjiang são apresentados numa sala grande no rés-do-chão, para além de outras peças tais como vidro colorido da dinastia Tang e minerais de várias regiões. As exposições incluem cópias de mapas antigos, tais como o Oikumene (o mundo habitado) elaborado por Heródoto no ano de 450 a.C., um mapa de terras estrangeiras realizado na dinastia Song e referências à história da navegação dos Fenícios. Também há alusões aos deuses marinhos de civilizações da antiguidade como o Poseídon dos gregos, a deusa taoista Mazu (A-Má) da costa oriental da China Meridional e os deuses do Mar do Sul. O pavilhão central do edifício, o Palácio de Cristal, alberga o contentor com o navio e mede uns extraordi-


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nários 60 metros de comprimento, 40 de largura e 12 de profundidade. A água que enche o tanque do museu é extraída do mar para depois passar por vários processos químicos que inibem o desenvolvimento de bactérias que possam vir a danificar a embarcação. O museu faz um grande esforço para reproduzir todas as características da água do local onde o barco permaneceu durante mais de 800 anos. Há zonas de observação situadas nos dois lados do tanque, para que os visitantes possam ver o contentor e a água em volta do navio. Uma entrada de estilo árabe leva os visitantes a uma sala cheia de mapas e pinturas, com temas como “A época dos descobrimentos” ou “O comércio marítimo”, e imagens de estrangeiros que visitaram a China, entre os quais se encontram São Francisco Xavier, Matteo Ricci, Ibne Batuta e Bodhidharma, o monge indiano que introduziu o budismo na China.

Os viajantes chineses também se encontram representados, entre outros, pelo monge Yijing (635-713), que visitou o Ocidente em peregrinação, viajando numa embarcação persa que zarpou de Guangzhou. Mais adiante, um mapa mostra as viagens do navegador e almirante Zheng He entre os anos de 1405 e 1433, quando visitou 30 países entre a China e a África Oriental. As salas mais importantes do museu estão no andar superior, com os objetos mais impressionantes encontrados no barco. Há mostras de porcelana e de outros objetos como anéis e pulseiras de ouro. O cinto dourado recuperado do navio afundado é hoje exibido no Instituto Provincial de Relíquias Culturais e de Arqueologia de Guangdong, enquanto que outros 4 mil objetos retirados do barco em 2004 se encontram no Museu Nacional da China em Pequim. A porcelana encontrada suscita uma série de questões. As formas de muitos dos pratos não eram as utili-

Peças em exposição.

zadas na China daquela época, o que leva a concluir que foram realizados por encomenda para clientes do Golfo Pérsico. O navio continha peças de porcelana de quatro fornos diferentes: Hutian, em Jingdezhen (província de Jiangxi); Longquan (Zhejiang); Cizao, a sul das cidades de Quanzhou e Dehua (Fujian); e um forno no condado de Minqing (Fujian). E o esforço continua... O trabalho no navio continua todos os dias. Os especialistas retiram a areia e o lodo, com a esperança de poder finalmente expor uma das atrações mais significativas da arqueologia subaquática do mundo. Talvez ainda demorem alguns anos a finalizar os trabalhos e a recuperar os milhares de objetos que permanecem dentro do barco.

Perspectiva do Nanhai I, já em doca seca.

A extraordinária operação de recuperação deste navio da dinastia Song já nos ensinou muitas coisas: a importância da China antiga como potência comercial e produtora de bens manufaturados e as extensas redes da sua marinha mercante, séculos antes de que os países europeus se lançassem ao alto mar.

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Associação Amigos da Nova Rota da Seda Fernanda Ilhéu Presidente da Associação Amigos da Nova Rota da Seda

A Associação Amigos da Nova Rota da Seda (ANRS) em chinês 新丝路协 进会 foi formalmente registada em Lisboa no dia 21 de Dezembro 2016, e é uma Associação com fins não lucrativos que tem por objetivo cooperar de uma forma proactiva na construção da iniciativa chinesa Uma Faixa Uma Rota e a Nova Rota da Seda Marítima do Século XXI, através do conhecimento, informação e divulgação de contributos válidos sobre a iniciativa e possíveis projetos de colaboração entre Portugal e a China e entre Portugal, a China e Terceiros Países, nomeadamente Países de Língua Portuguesa no âmbito dessa iniciativa. O grupo de sócios fundadores reúne pessoas da sociedade civil portuguesa e chinesa, que aderiram em

nome pessoal e cuja motivação é trabalhar para o desenvolvimento dos laços de amizade e cooperação entre a China e Portugal em várias áreas da atividade económica, cultural e social. Presentemente a ANRS tem cerca de 65 associados, incluindo sócios individuais, empresas e associados honorários. São associados honorários as seguintes entidades: Fundação Casa de Macau, Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados Sociedade de Advogados; Professor António Pires Caiado, Sociedade BTOC - Assessoria Financeira, Fiscalidade, Contabilidade e Recursos Humanos e a APS Administração dos Portos de Sines e do Algarve, S.A. A ANRS utiliza nos seus trabalhos uma metodologia think tank. Os

Grupo de amigos na viagem à Antiga Rota da Seda Chinesa em setembro de 2018.

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Assinatura do protocolo entre o IIM e a ANRS por Jorge Rangel e Fernanda Ilhéu.

seus associados constituem grupos de reflexão que estão orientados pelas seguintes áreas de temáticas: • Educação, ciência, inovação empreendedorismo, networks de think tanks Faixa e Rota • Saúde e bem-estar • Logística, transportes, infraestruturas e parques industriais • Cluster do mar • Comércio • Financiamento de projetos, ligação dos instrumentos financeiros Faixa e Rota à UE • Ligação entre os povos, cultura, arte, media, viagens. A ANRS tem já associados em Macau, Pequim e Angola e estes tenderão a constituir grupos de trabalho para análise das temáticas de cooperação que considerarem mais relevantes.


Os nossos parceiros

A ANRS assinou em 31 outubro de 2018 um Protocolo de Cooperação com o Instituto Internacional de Macau, com vista a potenciar ações de promoção da iniciativa Faixa e Rota e a Nova Rota da Seda Marítima do Século XXI, em Portugal, Macau, China e Países de Língua Portuguesa. A ANRS tem também uma estreita colaboração como o Governo Regional da Madeira com quem assinou um Protocolo de Cooperação em 24 março 2017, com o objetivo de contribuir para a internacionalização da economia da Região Autónoma da Madeira junto do mercado chinês e ali divulgar as potencialidades da Região nas áreas de comércio e de investimento. A ANRS tem organizado e participado em muitas conferências, seminários e encontros com objetivo de transmitir informação atualizada sobre a Nova Rota da Seda e de entre estas podemos destacar a Conferência Financing Belt & Road que se realizou em Lisboa a 23 março 2018 e que reuniu representantes das principais instituições financeiras chinesas e internacionais envolvidas no financiamento da Iniciativa Uma Faixa Uma Rota e as mais elevadas figuras da diplomacia portuguesa e chinesa em Lisboa assim como importantes entidades públicas e privadas portuguesas e chinesas no desígnio da participação de Portugal na Nova Rota da Seda. Para uma melhor compreensão desta iniciativa a ANRS tem também publicado artigos em vários media incluindo na Revista Oriente Ocidente e editou em parceria com o IIM o livro A China e a Revitalização das

Lançamento no Grémio Literário em Lisboa do livro “A China e a Revitalização das Antigas Rotas da Seda – Novo Vetor do Comércio Global” Leonor Janeiro, Jorge Rangel, Fernanda Ilhéu, António Costa e Silva.

Antigas Rotas da Seda - Novo Vetor do Comércio Mundial. Com esse objetivo foi também realizada em 2018 uma visita de estudo à antiga rota da seda chinesa de Xian a Kasghar percorrendo 4000 km pelo corredor de Gansu e pela Província de Xinjiang. A ANRS participou na 1ª CIIE - China International Import Fair Expo que se realizou em Shanghai de 5 a 10 Novembro 2018. Esta exposição da iniciativa do Ministério do Comércio da China pretende ser a grande feira de importação da China ao nível nacional. A presença da ANRS decorreu integrada

no Pavilhão da AICEP e promoveu a cooperação da China com Portugal no setor da Saúde e Bem Estar. A ANRS tem desenvolvido uma relação muito positiva com o Governo Português, a Embaixada da China em Lisboa e o Fórum de Cooperação Económica e Comercial da China com os Países de Língua Portuguesa em Macau, transmitindo-lhes sugestões para que Portugal construtivamente desenvolva projetos de cooperação com a China e Países de Língua Portuguesa na construção da Nova Rota da Seda Marítima do Século XXI.

Assinatura do Protocolo de Colaboração entre a Associação Amigos da Nova Rota da Seda e a Secretaria Regional de Economia, Turismo e Cultura da Madeira (Funchal, 27/03/2017).

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IIM – 2018: principais actividades Seminários e Encontros MACAU E O INTERCÂMBIO SINO-LUSO-BRASILEIRO – X SEMINÁRIO Sessões no Rio de Janeiro

No dia seguinte, deu-se início à sessão de abertura do “X Seminário: Macau e o intercâmbio sino-lusobrasileiro”, com a colaboração do Real Gabinete Português da Leitura (RGPL) e apoio da Fundação Macau. A sessão, que decorreu no salão do RGPL, contou com uma palestra de Paulo Duarte sobre o tema “A Faixa e Rota chinesa – a convergência entre Terra e Mar”, título de um recente livro seu, editado pelo IIM, tendo usado da palavra Francisco Gomes da Costa, presidente do RGPL, Severino Cabral, presidente do IBECAP, e José Lobo Amaral, vice-presidente do IIM. Durante a sessão, foi lançado o livro “Colecionismo orientalista como resultado de um processo de interação cultural entre China, Macau e Portugal”, de Carolina Pires Ting, em resultado de um trabalho de investigação apoiado conjuntamente pelo IIM e pelo RGPL, tendo a apresentação sido feita pelo investigador Carlos Francisco Moura, autor de importante bibliografia sobre as relações históricas entre o Brasil e a China e Macau.

Entre 26 e 28 de Setembro, realizaram-se no Rio de Janeiro várias actividades em torno do papel de Macau como plataforma do intercâmbio sino-luso-brasileiro. A participação do IIM iniciou-se com uma recepção do Cônsul-Geral da República Popular da China, no dia 26 de Setembro de 2018, em comemoração do dia da República Popular da China. O IIM esteve representado pelo seu vice-presidente, José Lobo do Amaral.

Por fim, no dia 28 de Setembro de 2018, teve lugar uma importante sessão na Escola Superior de Guerra, integrada no seu Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia. A assistência foi constituída por 87 participantes inscritos no Curso de Estratégia, sendo 53 generais e oficiais superiores dos três ramos das Forças Armadas do Brasil, 5 militares das forças estaduais, 4 oficiais estrangeiros (EUA, México, Perú e Paquistão)

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IIM – 2018: principais actividades

Os temas-chave debatidos centraram-se na iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, no 40º aniversário da implementação da política de reforma e abertura da China e no 15º aniversário do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Entre os oradores, estiveram os embaixadores de Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, que discursaram na abertura da Conferência. Durante o evento foi ainda apresentado o “Relatório de Desenvolvimento dos Países de Língua Portuguesa (2016-2017)” e assinados três protocolos de cooperação entre o CCEPLP e algumas organizações ali presentes.

e 25 civis. Esta colaboração prestada pelo IIM à Escola Superior de Guerra tem sido por ela muito bem recebida, merecendo ter continuidade.

O IIM, representado pelo seu presidente e vice-presidente, apresentou comunicações sobre o papel de Macau no contexto da Faixa e Rota e da Grande Baía, tendo sido também referidas as recentes edições do IIM sobre estes temas. Por fim, discursaram Severino Cabral, presidente do IBECAP e Fernanda Ilhéu, académica e presidente da Associação Amigos da Nova Rota da Seda, criada recentemente em Portugal. No dia seguinte, 25 de Outubro, a mesma conferência prosseguiu em Xangai, na Universidade de Estados Internacionais de Xangai (SISU). Com os temas focados no mecanismo dos BRICS e dos Estudos Lusófonos em Xangai, a conferência contou com discursos da directora e da vice-directora do Departamento de Português (SELAS, SISU), Xu Yixing e Xin Jiongium. Entre os oradores e convidados, intervieram ainda Severino Cabral, presidente do IBECAP, Jorge Rangel e José Lobo do Amaral, do IIM, Fernanda Ilhéu, Zhang Weiqi, Zhang Minfen, Fu Hanyu, Zhang Chenlin, Lu Jiaqi, da SISU e ainda Wang Cheng’an e Wen Zhuojun, da “University of International Business and Economics” (UIBE) de Pequim.

Sessões em Pequim e em Xangai Decorreu, no dia 24 de Outubro, uma sessão do X Seminário em Pequim, na Universidade de Economia e Negócios Internacionais, a qual ficou integrada na segunda edição de uma Conferência Anual de Estudos Conjuntos dos Países de Língua Portuguesa. A organização desse evento resultou de uma colaboração conjunta do Centro Chinês de Estudos dos Países de Língua Portuguesa (CCEPLP), do Instituto Internacional de Macau (IIM) e do Instituto Brasileiro de Estudos de China e Ásia-Pacífico (IBECAP). Participaram mais de 200 personalidades ligadas ao mundo académico, económico e social da China e representantes de países de língua portuguesa.

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Sessão de encerramento O encerramento do X Seminário: O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro realizou-se no auditório do IIM em Macau, no dia 29 de Outubro. Foram oradores Fernanda Ilhéu, Severino Cabral, e José Lobo do Amaral, tendo a sessão sido moderada por Jorge Rangel.

O MUNDO GLOBAL, A NOVA ROTA DA SEDA E MACAU NO CLUBE MILITAR DE MACAU

No dia 30 de Outubro, decorreu no Clube Militar de Macau um colóquio-seminário sobre o tema “O mundo global, a nova rota da seda e Macau”, que contou com a presença e apresentação do General José Eduardo Garcia Leandro, presidente da Fundação Jorge Álvares e exGovernador de Macau, que estava de visita ao Território. Foram lançadas nesta sessão várias novas publicações: o último número da revista Oriente/Ocidente, o livro “Colecionismo orientalista como resultado de um processo de interação cultural entre China, Macau e Portugal”, de Caroline Pires Ting, e o livro “A China e a Revitalização das Antigas Rodas da Seda – Novo Vector do Comércio Mundial”, coordenado por Fernanda Ilhéu e Leonor Janeiro.

Esta sessão teve como convidado de honra o antigo Governador de Macau (1974-79), General José Eduardo Garcia Leandro.

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A sessão foi moderada pelo presidente do IIM, Jorge Rangel, e contou ainda com intervenções de Fernanda Ilhéu e José Luís Sales Marques, presidente do Instituto dos Estudos Europeus de Macau. O tópico principal do colóquio-seminário teve o enfoque nos novos desafios lançados no âmbito da Nova Rota da Seda e da Grande Baía, onde Macau poderá ter um papel importante como plataforma de cooperação.

A sessão incluiu ainda uma homenagem ao General José Eduardo Garcia Leandro pela sua muito relevante acção como Governador de Macau num período difícil de mudança histórica em Portugal e pela sua continuada actividade em prol de Macau.


IIM – 2018: principais actividades

PALESTRA SOBRE O PAPEL DE MACAU NAS RELAÇÕES ENTRE A CHINA E PORTUGAL

diversificação cultural e económica, e o envolvimento da China na construção das infra-estruturas no território.

A palestra “As relações da China com Portugal e a Lusofonia e o papel de Macau no âmbito da nova Rota da Seda Chinesa”, foi proferida por Dr. Rui Lourido, director cultural da UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e presidente do Observatório da China em Portugal, no auditório do IIM, no dia 22 de Outubro.

No final da sessão, participaram todos num agradável convívio com comida macaense, preparada pela Chef Dorothy Oliveira.

SERÃO MACAENSE SOBRE HISTÓRIA DE MACAU

O palestrante, na sequência de mais uma visita à China, fez a contextualização histórica e uma reflexão sobre as potencialidades actuais de Macau e do seu Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. O IIM é membro associado da UCCLA.

SIMPÓSIO: MACAU E REFLEXÕES SOBRE A EXPERIÊNCIA MACAENSE

No dia 29 de Agosto, o Centro Cultural de Macau na Califórnia acolheu um simpósio que contou com mais de 60 participantes, numa colaboração daquele Centro, dos três clubes macaenses na Califórnia e do IIM, com o apoio da Fundação Macau. Os principais oradores foram António M. Jorge da Silva e Davis Hou Nam Ip, com uma introdução proferida pelo professor Ming. K. Chan da Universidade de Stanford e prestigiado colaborador do IIM, entretanto falecido. António Jorge da Silva, que dedicou os últimos 20 anos a documentar a história dos macaenses, falou sobre o seu livro “Macaenses: The Portuguese in China” (2015), o qual foi recentemente revisto e traduzido em língua chinesa, por Davis Ip, com publicação prevista para 2019 por uma editora de Hong Kong. António Jorge da Silva comentou que “muitos historiadores escreveram sobre a história de Macau, mas poucos têm referido a comunidade macaense e os seus descendentes, agora dispersos em todo o mundo”. O seu livro lança luz sobre estes assuntos. Também aproveitou para dar conhecimento da sua próxima obra intitulada “The Portuguese Community in Macau, a pictorial history”, que o IIM irá publicar em 2019. Davis Ip, jovem colaborador do IIM, com formação na Universidade de Macau e pós-graduações em universidades da Holanda e Londres, referiu, na sua intervenção, o apreço pelo autor ao traduzir o seu livro para a língua chinesa, partilhando depois as suas reflexões sobre Macau nos dias de hoje, desde o seu desenvolvimento nestas últimadas décadas ao papel dos casinos, a importância da Ponte Hong-Kong-Zhuhai-Macau, os portugueses como importante trunfo para Macau, na

Uma sessão promovida pelo IIM, intitulada “A invasão holandesa em Macau e o dia de São João Baptista”, teve lugar no auditório da Escola Portuguesa de Macau, no dia 24 de Maio. João Guedes e José Basto da Silva apresentaram a história deste acontecimento, desenvolvendo episódios da invasão dos holandeses em 1622, factos respeitante do monumento da Vitória no actual Jardim da Vitória, a missa que se celebrava, assim como o festejo do dia milagroso de São João Baptista, no dia 24 de Junho até ao ano de 1999, da transição de Macau para a soberania chinesa. No final, não deixou de ser destacada pela assistência, durante o espaço de reflexão, a importância da continuação da celebração do Dia de São João, uma festa que muitos consideram importante para a história de Macau. Por isso, o IIM tem apoiado iniciativas organizadas por várias Casas de Macau, que ainda consideram o Dia de S. João como o Dia da Cidade de Macau e o dia das Casas de Macau. Durante a efeméride, foi também promovido o Arraial de São João, evento que decorreu no fim-de-semana de 23 e 24 de Junho. Esta iniciativa tem vindo a ser realizada desde 2007, pelas associações de matriz portuguesa em Macau. Lançou-se igualmente um concurso destinado aos alunos da Escola Portuguesa, para redigirem trabalhos sobre o tema, que poderão integrar uma publicação do IIM.

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JOVENS MACAENSES NO IIM

HOMENAGENS AO PROF. MING CHAN

No dia 27 de Outubro de 2018, em articulação com o programa do Encontro Juvenil Macaense, o antigo Governador de Macau (1974-1979), General José Eduardo Garcia Leandro, protagonizou uma sessão com os jovens participantes da diáspora macaense das Casas de Macau provenientes dos vários cantos do mundo, em que falou sobre o tema “Macau e o futuro da comunidade portuguesa na RAEM”. A sessão foi realizada pelo IIM, em colaboração com a Associação dos Jovens Macaenses (AJM) e com o apoio da Fundação Macau.

No dia 2 de Dezembro, foi realizada uma cerimónia na Califórnia, no Centro Cultural de Macau, numa colaboração conjunta com o Instituto Internacional de Macau (IIM), e com o apoio da Fundação Macau, para prestar homenagem ao falecido professor Ming K. Chan, da Universidade de Stanford. Estiveram presentes mais de 80 participantes, incluindo dirigentes e membros das Casas de Macau nos Estados Unidos. Também em Hong Kong foi organizada uma sessão de homenagem a este saudoso académico, a qual contou com a participação do IIM, representado pelo seu secretário-geral. Foi distribuída, na ocasião, uma publicação evocativa da vida e obra daquele académico, que deu valiosa colaboração ao IIM. Essa publicação incluiu um artigo do presidente do IIM.

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IIM – 2018: principais actividades

Publicações O Ano de 2018 foi muito profícuo para o IIM em termos de edições, cujos títulos estão indicados mais adiante. VERSÃO CHINESA DE “MACAENSES – THE PORTUGUESE IN CHINA” Foi feita uma tradução para a língua chinesa desse livro, publicado pelo IIM originalmente em inglês, de António Pacheco Jorge da Silva. A Universidade de Macau tinha-se comprometido a cobrir o encargo da sua edição, mas conseguiu posteriormente interessar a Chung Hwa Publishing, uma editora de Hong Kong, na realização deste projecto, devendo a edição sair do prelo no decurso do ano de 2019.

Apresentação de livros LANÇAMENTO DO LIVRO “CHINA’S BELT AND ROAD INITIATIVE – THE ROLE OF MACAO AND THE PORTUGUESESPEAKING COUNTRIES”

Decorreu no dia 16 de Maio de 2018, no ConsuladoGeral de Portugal em Macau, a sessão de lançamento do estudo “China’s Belt and Road Initiative – The role of Macao and the Portuguese-speaking countries”. A edição do IIM, em língua inglesa, cuja produção foi assumida pela Agência de Informação e Notícias Macaulink, sob a coordenação de Gonçalo César de Sá, integra análises de Thomas Chan, Paul Mooney, Paulo Figueiredo e José Luís Sales Marques sobre a ambiciosa iniciativa chinesa, que é provavelmente o mais importante

projecto diplomático, político e económico da actualidade, pela sua dimensão geográfica e pelo valor dos investimentos envolvidos. A iniciativa “Uma Faixa Uma Rota” e o papel de Macau e dos países de língua portuguesa são tema deste livro, numa altura em que o assunto merece destaque pela sua ligação ao projecto da Área da Grande Baía, que integrará Guangdong, Hong Kong e Macau. Com o enfoque no papel de Macau e dos países de língua portuguesa neste contexto, o livro apresenta ainda a versão oficial chinesa da “Visão para a cooperação marítima no âmbito da iniciativa Faixa e Rota”, tornada pública pelo governo central da China em Junho de 2017. A sessão foi apoiada pela Fundação Macau, coordenada por Jorge Rangel, presidente do IIM, e contou com a presença do então Cônsul-Geral de Portugal, Embaixador Vítor Sereno, e com apresentações de Francisco Leandro, professor da Universidade Cidade de Macau e de José Luís Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau. Este livro foi produzido depois nas línguas chinesa e portuguesa.

ÚI DI GALÁNTI, DE CARLOS COELHO

Decorreu no dia 12 de Setembro de 2018, no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, o lançamento do livro “Úi di Galánti”, publicado com o apoio da Fundação Macau, contendo textos em Patuá de Carlos Gracias Coelho, mais conhecido entre a comunidade macaense por “Néu-Néu”. Considerando a precariedade do patuá e a escassez de (bons) escritos nesse idioma nativo de Macau, o IIM foi recolher os melhores textos deste autor para um apropriado registo do doce linguajar do crioulo português de Macau. Com esta sessão, apresentada

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por Miguel de Senna Fernandes, Fernando Gomes e Rufino Ramos, secretário-geral do IIM, prestou-se igualmente uma homenagem póstuma a Carlos Coelho, figura singular entre a comunidade macaense. Os textos foram extraídos de postagens da conta de Carlos Coelho no Facebook que a família do extinto graciosamente cedeu para reprodução. O grupo informal macaense chamado Partido dos Comes e Bebes de Portugal também autorizou a transcrição de vários artigos que tinham sido publicados na sua revista. No final da sessão, houve ainda tempo para uma visualização de um vídeo, onde foram seleccionados alguns breves mas bons momentos teatrais de Carlos Coelho havidos durante espectáculos do grupo Dóci Papiaçám di Macau.

“INSTRUMENTOS MUSICAIS CHINESES” LANÇADO EM LISBOA E EM MACAU

Procedeu-se, no dia 11 de Abril, em Lisboa, ao lançamento do livro “Instrumentos Musicais Chineses – Coleção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau/Lisboa”, uma obra publicada no âmbito da cooperação estabelecida pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) com a Universidade Católica Portuguesa (UCP). O Centro Científico e Cultural de Macau é um

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instituto público do Estado Português criado em 1999 por iniciativa do último Governador do território.

Este trabalho resultou da adaptação da melhor tese de mestrado apresentada na UCP em 2016, na área de estudos chineses, sendo seu autor Enio de Souza, personalidade ligada há mais de três décadas a instituições culturais e centros de investigação académica cujo objecto principal tem a ver com estudos de Macau, nas suas diversificadas vertentes, sendo hoje um reconhecido especialista em diversas matérias neste domínio. Com o apoio da Fundação Macau, esta circunstância feliz permitiu que a UCP, o CCCM e o IIM ficassem envolvidos num relevante projecto editorial conjunto que contou também com o apoio da Fundação Jorge Álvares. O lançamento teve depois lugar em Macau, no dia 21 de Maio, no Albergue SCM. A sessão contou com as apresentações do autor, do presidente do Albergue SCM, Carlos Marreiros, e do presidente do IIM, Jorge Rangel.

APRESENTAÇÃO DO LIVRO SOBRE A FAIXA E ROTA CHINESA NO CCCM


IIM – 2018 principais actividades

como o destaque do papel activo que estes autores de língua portuguesa desempenharam no diálogo cultural entre a Europa e o Oriente. Enquanto que “Antero de Quental teve um contacto indirecto com o Oriente cultural, sobretudo através de traduções, já Silva Mendes, que viveu em Macau durante cerca de três décadas, teve um diálogo directo e contínuo com orientais”.

Já lançado em Macau, na Livraria Portuguesa, no ano passado, o IIM promoveu também a apresentação em Lisboa da obra “A Faixa e Rota Chinesa – A convergência entre Terra e Mar”, de Paulo Duarte. Este é o primeiro livro do género em língua portuguesa a explorar este muito relevante tema. A obra foi apresentada pelo general Garcia Leandro e pela professora Fernanda Ilhéu, numa sessão que teve lugar no dia 5 de Julho, no Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa.

O segundo livro “Manuel da Silva Mendes”, da colecção “Mosaico” do IIM, é da autoria do investigador António Aresta, resultando de uma selecção de importantes artigos que publicou na imprensa sobre Silva Mendes. No prefácio deste livro, Ana Cristina Alves, outra conhecida professora e investigadora, destaca que Aresta tem procurado recolocar a obra de Manuel da Silva Mendes no lugar cimeiro que lhe é devido, com a divulgação de “diversas facetas deste sinólogo português que tanto tempo viveu em Macau”. Silva Mendes é reconhecido por António Aresta como o primeiro mentor da “Macaulogia”, ao lado de vários companheiros de saber que estiveram em Macau nas primeiras décadas do século XX.

DUAS NOVAS EDIÇÕES DEDICADAS A MANUEL DA SILVA MENDES

Duas novas edições do IIM dedicadas a Manuel da Silva Mendes foram lançadas no Clube Militar de Macau, no dia 17 de Maio. O primeiro livro intitulado “O Oriente na Literatura Portuguesa – Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes”, da colecção “Suma Oriental” do IIM, resultou de uma profunda investigação do professor do Instituto Politécnico de Macau, Carlos Botão Alves, em que identificou um conjunto de ideias e de conceitos oriundos das correntes sapienciais do pensamento oriental, que foram tomados por Antero de Quental nos seus sonetos, e por Manuel da Silva Mendes nos seus ensaios, assim

Com o apoio da Fundação Macau e colaboração do Clube Militar de Macau, as apresentações dos livros contaram com a presença de um dos autores dos referidos livros, professor Carlos Botão Alves, da professora de língua e literatura da Universidade de Macau, Ana Cristina Alves, de José Rocha Diniz, administrador do Jornal Tribuna de Macau e ainda com a coordenação da sessão por Jorge Rangel, presidente do IIM.

EDIÇÕES CHINESAS DOS MISSIONÁRIOS EM MACAU O auditório da Diocese de Macau foi o local adequado para o lançamento, no dia 10 de Julho, das primeiras três edições em língua chinesa da colecção “Missionários do Século XXI”, dedicadas ao Padre Lancelote Rodrigues, a D. Arquimínio Rodrigues da Costa e ao Padre Mário Acquistapace. A sessão contou com apresentações do Reverendo bispo da Diocese, D. Estêvão Lei,

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do vigário-geral da Diocese, Pe. Pedro Chung, e também de Rufino Ramos, secretário-geral do IIM. A sessão, apoiada pela Fundação Macau, contou ainda com a brilhante actuação do Coro de S. Tomás, uma colaboração entre o IIM com a Associação dos Antigos Alunos do Seminário de S. José de Macau.

26 de Julho, no CCCM em Lisboa, revela visões do autor em relação ao quotidiano de Macau, com 43 pequenos textos compilados. Este livro é um convite à reflexão sobre a cidade, o seu crescimento, as comunidades em presença e alguns desafios do presente e do futuro.

LANÇAMENTO DO LIVRO “STEPS OF GREATNESS – THE GEOPOLITICS OF OBOR”

LIVRO DE ANTÓNIO CONCEIÇÃO JÚNIOR LANÇADO EM LISBOA

O Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) e o Instituto Internacional de Macau realizaram o lançamento do livro “Quotidianos”, de António Conceição Júnior. A obra, apresentada por António Aresta, no dia

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Foi realizado no dia 29 de Novembro o lançamento do livro “Steps of Greatness – the Geopolitics of OBOR”, no Clube Militar de Macau. A sessão contou as apresentações do Professor Tak-Wing Ngo da Universidade de Macau (UM), José Luís Sales Marques, Presidente do Instituto de Estudos Europeus (IEEM), Jorge Rangel, presidente do IIIM e ainda Francisco Leandro, autor do livro. O livro, publicado pela Universidade de Macau, é uma edição conjunta da UM, do IEEM e do IIM, com um profundo estudo sobre a iniciativa “Uma Faixa Uma Rota”. Esta obra é o desenvolvimento da tese de doutoramento do autor.


IIM – 2018: principais actividades

A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA NO GRÉMIO LITERÁRIO A Associação Amigos da Nova Rota da Seda e o Instituto Internacional de Macau realizaram o lançamento do livro “A China e a revitalização das Antigas Rotas da Seda, Novo Vetor do Comércio Mundial” (coordenação de Fernanda Ilhéu e Leonor Janeiro), no Grémio Literário, em Lisboa, no dia 18 de Dezembro. Esta publicação resulta duma parceria entre aquela Associação e o IIM. Composta por nove capítulos da autoria de sócios da ANRS, a edição conta também com ilustrações em aguarelas de Leonor Janeiro. O livro pretende fazer chegar ao grande público informação geral mas essencial para o entendimento do que foi a Rota da Seda e do que actualmente está a acontecer no mundo do comércio, a fim de redesenhar percursos com objectivos e meios de comunicação actuais. As ligações entre o Oriente e Ocidente constituem o tema central destes nove capítulos, que abordam temas da maior pertinência para a compreensão das Rotas da Seda. O evento foi co-presidido por Jorge Rangel, presidente do IIM e por Fernanda Ilhéu e a apresentação da obra foi feita pelo Professor António Costa e Silva.

sidente do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, José Tavares, a directora da Direcção dos Serviços de Turismo, Helena de Senna Fernandes, Vong Chi Iong, em representação da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Leong Pui Kuan, em representação do Instituto Cultural e ainda Maria Edith Silva, presidente da Assembleia Geral do IIM. Carlos Dias, fotógrafo local com credenciais e prémios internacionais, aceitou o convite do IIM para esta iniciativa, com trabalhos únicos que têm merecido nos últimos anos a atenção de inúmeros seguidores nas redes sociais. Ex-funcionário público, dedicou-se à fotografia quando tinha 26 anos de idade. Desde então, dotado de uma privilegiada capacidade de observação e jeito em captar imagens, foca sobre temas essencialmente de Macau, com especialidade em fotografias nocturnas, nos dias de chuva ou quando a água produz reflexos do chão molhado nas ruas de Macau. Na era digital, as suas fotografias têm-se popularizado após serem inseridas nas redes sociais, contando actualmente com mais de 7.000 seguidores no Facebook. Carlos Dias tem captado Macau com o seu estilo próprio, retratando em especial as suas ruelas, travessas, os eventos, as festividades e tradições, únicas, que pertencem a esta terra.

Exposições EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS E LANÇAMENTO DO LIVRO DO FOTÓGRAFO MACAENSE CARLOS DIAS

O IIM pretendeu com a exposição manter viva esta magia, retratada em imagens dos vários cantos desta cidade, que vão para além das atracções turísticas de Macau. A exposição esteve patente ao público até ao dia 11 de Maio, no pavilhão Chun Chou Tong do Jardim Lou Lim Ieoc, tendo sido visitada por cerca de 5.000 visitantes. Numeroso público ocorreu, no dia 2 de Maio, à inauguração da exposição de fotografias “A Magia das Ruas de Macau”, do macaense Carlos Dias. A iniciativa foi promovida pelo Instituto Internacional de Macau e teve o apoio da Fundação Macau. Estiverem presentes na inauguração o presidente do IIM, Jorge Rangel, o pre-

No mesmo ano, no dia 27 de Setembro, a cerimónia de lançamento do livro “A Magia das Ruas de Macau” teve lugar no auditório do Museu de Macau. A edição é do IIM e teve apoios da Fundação Macau e do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, tendo a produção sido coordenada pela Macaulink.

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500 ANOS DE MACAU, NA CALIFÓRNIA

Resultante da estreita colaboração desenvolvida entre o Club Lusitano de Califórnia e o Instituto Internacional de Macau, a exposição contou com o patrocínio da Fundação Macau.

EXPOSIÇÃO DE CALIGRAFIA CHINESA EM LISBOA E AVEIRO

Foi inaugurada uma exposição no dia 9 de Junho em Silicon Valley, no Museu Histórico Português, no “History Park San Jose California”, sobre os 500 anos da história de Macau, com uma mostra detalhada desde o estabelecimento dos portugueses no território até Macau se tornar numa Região Administrativa Especial da República Popular da China.

Inaugurada no Dia de Portugal, celebrado entre as comunidades portugueses em todo o mundo, contou só no dia da inauguração com cerca de 5.000 visitantes e esteve patente ao público até Junho de 2019.

A cidade de Aveiro acolheu a inauguração de uma exposição de caligrafia chinesa “Um Janus Cultural: A complexidade de Macau em exibição caligráfica”, que teve lugar no Museu de Sta. Joana, no dia 18 de Maio. Estiveram presentes o novo reitor da Universidade de Aveiro, Paulo Jorge Ferreira, o vereador para a Cultura do Município, Luís Capão Filipe, directores do Instituto Confúcio da referida Universidade, alunos e docentes da mesma, além do próprio autor das obras, Ambrose So. Esta mostra tinha estado patente no Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa, até 13 de Maio. As obras expostas versam temas sobre Macau, poemas ou escritos antigos sobre a cidade que o artista fez bem em evocar, especialmente poemas e comentários de letrados chineses sobre a coexistência pacífica entre as comunidades e sobre o modo de vida de macaenses. O respectivo material de publicidade, cartazes e catálogos, foi traduzido pelo Instituto Internacional de Macau, que facultou também em Lisboa o apoio logístico ao evento. Outros co-organizadores foram a Fundação Jorge Álvares e o Instituto Milénio de Macau.

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IIM – 2018: principais actividades

EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA NO RIO DE JANEIRO

MOSTRA FOTOGRÁFICA EM SYDNEY Na Festa do Natal da respectiva Casa de Macau, realizada no dia 9 de Dezembro, em Sydney, no Clube Ryde Eastwood Leagues, uma mostra de fotografias de Macau esteve exposta durante o evento, para os 130 convidados presentes. As fotografias foram uma selecção de alguns dos melhores trabalhos provenientes do concurso de fotografias do Património desse ano do IIM. O evento foi uma colaboração com a Casa de Macau na Austrália, que contou também com o apoio da Fundação Macau.

ITINERÂNCIA DE OUTRAS EXPOSIÇÕES

No dia 28 de Setembro, com a colaboração da Câmara de Comércio Rio-Macau, teve lugar a Exposição Fotográfica do IIM “Macau – Uma História de Sucesso” que se realizou no Instituto Europeo di Design-IED Rio, tendo terminado a sessão de inauguração com um almoço de comida macaense, preparado sob a direcção da presidente da Câmara de Comércio Rio-Macau, Silvana D’Assumpção, que também é membro da Casa de Macau naquela cidade.

Estiverem presentes no evento o cônsul-geral da RPC, o vice-cônsul de Portugal, o cônsul honorário do Sri Lanka, o general comandante da Escola Superior de Guerra acompanhado do Comando da Escola Superior de Guerra, o presidente do Real Gabinete Português da Leitura, professores da Escola Superior de Guerra, o presidente da Câmara de Comércio Indústria e Turismo Brasil-Macau, membros da Casa de Macau, e um antigo embaixador do Brasil em Pequim, entre vários ilustres convidados.

Prosseguiu a itinerância de várias outras exposições do IIM, em Portugal e no Brasil, em centros culturais, universidades e escolas secundárias.

Concursos e Distinções CERIMÓNIA DE ENTREGA DO PRÉMIO IDENTIDADE 2018 O Prémio Identidade 2018 foi partilhado ex-aequo por Frederic “Jim” Silva e António Manuel Pacheco Jorge da Silva, Ambas as personalidades são residentes nos Estados Unidos da América, e distinguiram-se pela sua continuada contribuição para o reforço do sentimento de pertença a Macau. Os órgãos sociais do Instituto Internacional de Macau deliberaram atribuir este Prémio a ambos, que dedicaram o melhor dos seus anos a servir a comunidade macaense na diáspora, tendo eles desempenhado funções de presidente, respectivamente, na União Macaense Americana e no Lusitano Clube da California. Jim Silva foi profissional da área financeira em Hong Kong e, depois de se radicar nos E.U.A., foi presidente da UMA – União Macaense Americana e preparou textos que foram publicados em livros sobre as suas memórias da guerra do Pacífico e os seus conhecimentos sobre o

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patuá, a religião, a culinária e o legado cultural dos seus avós, elementos esses agregadores de uma comunidade. Jim Silva fez publicar seis livros, dos quais se destacam “All our Yesterdays” e “Reminiscences of a wartime refugee in Macau”. Também redigiu em inglês uma introdução à História de Portugal para divulgação entre a juventude macaense da diáspora.

Por sua vez, António Manuel Pacheco Jorge da Silva, que exerceu funções de arquitecto em Macau, Hong Kong, Reino Unido e Estados Unidos, dedicou-se, após a aposentação, a escrever a gesta dos descendentes dos portugueses em Macau, incluindo as suas experiências em muitas regiões da China e integração nos países da diáspora, analisando as suas implicações sociais e culturais. Entre as suas obras contam-se “The Portuguese Community in Hong Kong (2 volumes)”, “The Portuguese Community in Shanghai”, “Macaense Cuisine – Origins and Evolution”, “Macaenses – the Portuguese in China”, que está a ser vertida também para a língua chinesa. De forma desinteressada e persistente, têm ambos dedicado grande parte da sua vida a este esforço consequente de divulgação da história e da cultura de Macau, impulsionando a valorização e o reforço da Identidade Macaense.

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O Prémio Identidade, instituído desde 2003 por deliberação dos órgãos sociais do IIM, visa galardoar pessoas ou instituições que, de forma continuada, hajam contribuído para o reforço e valorização da identidade macaense. Entre os contemplados incluem-se figuras como o Monsenhor Manuel Teixeira, Henrique de Senna Fernandes e Arnaldo de Oliveira Sales, e instituições como a Diocese de Macau, a Santa Casa da Misericórdia, a União Macaense Americana, a Casa de Macau em Portugal, a Universidade de Macau, a Escola Portuguesa de Macau e outros organismos, locais e do exterior, ligados à diáspora macaense. A entrega dos troféus e diplomas realizou-se numa cerimónia singela em Fremont, no Centro Cultural de Macau, no dia 2 de Dezembro, com a presença de cerca de uma centena de convidados. Neste mesmo mês, foi igualmente realizada uma cerimónia em Sydney onde cerca de 50 participantes assistiram à entrega do troféu e diploma do Prémio Identidade 2017 ao Prof. Henrique D’Assumpção.


IIM – 2018: principais actividades

CONCURSO E EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS DO IIM “MACAU – PATRIMÓNIO, GASTRONOMIA E TRADIÇÕES”

CERIMÓNIA DE ENTREGA DO PRÉMIO JOVEM INVESTIGADOR 2018

Decorreu de 6 a 11 de Novembro a exposição de fotografias resultantes do concurso “Macau – Património, Gastronomia e Tradições”, uma iniciativa conjunta do Instituto Internacional de Macau, em co-organização com a Associação de Fotografia Digital de Macau e Clube Leo Macau Central, e com o patrocínio da Fundação Macau, que teve este ano uma participação significativa de jovens estudantes e do público. Cerca de 200 fotografias foram apresentadas a concurso que visava estimular o conhecimento da população, especialmente entre os mais jovens, das riquezas patrimoniais, da gastronomia local e das tradições que enformam a cultura de Macau.

Decorreu no dia 31 de Janeiro de 2019, no Instituto Internacional de Macau (IIM), a cerimónia de entrega do Prémio Jovem Investigador 2018.

Após avaliação das fotografias pelos membros do júri deste concurso, foram classificados nos primeiros lugares, da categoria de estudante, Choi In Chong, Ao Ieong Kuok Un e Ao Ieong Kin Hou, enquanto que na categoria geral, foram classificados respectivamente nos lugares cimeiros Lei Heong Ieong, Che Io Cheong e Chan U Long. Uma vintena de obras foram premiadas com menção honrosa e com um prémio especial para sócio da Associação de Fotografia Digital de Macau. Fizeram parte do júri, Au Thien Yn, Kuok Heang San, e Cheong Mui Chi Gigi, membros representantes da referida Associação, António R. J. Monteiro e Tong Ka Kei Charlene, respectivamente em representação do IIM e do Clube Leo de Macau Central. A sessão de inauguração da exposição contou igualmente com a presença, entre os participantes, vencedores e júris do concurso, da Administradora do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, Isabel Celeste Jorge, e do Director do Museu de Macau do Instituto Cultural do Governo da RAEM, Loi Chi Pang. A mostra das fotografias esteve patente no pavilhão Chun Chou Tong do Jardim Lou Lim Ieoc.

O prémio tem por objectivo incentivar estudantes, professores, recém-licenciados e criativos à investigação e ao aprofundamento dos estudos visando o desenvolvimento da Região Administrativa Especial de Macau, essencialmente nos sectores estratégicos da economia e da diversificação, do património e da identidade, das ciências aplicadas, e da História de Macau. Apoiado pela Fundação Macau, este galardão, constituído por um diploma e um prémio monetário de vinte cinco mil patacas, tem vindo a ser atribuído desde 2001 e pretende estimular uma maior participação das novas gerações, destinada a diversificar a intervenção social, criar oportunidades e expandir o âmbito do conhecimento. Através do concurso realizado, foram premiados ex aequo Cheong Iok Kei com um trabalho sobre “Parenting stress, parental self-efficacy, social support and the quality of life with Macao SEN’s parent”; e Lai Chi Ian, com outro trabalho intitulado “The Impacts of Colonial Transition on the Development of Higher Education in Macau, with reference to Hong Kong”, ambos na área de Ciências Sociais. Os vinte e sete trabalhos apresentados foram analisados por dois professores universitários, Mok Kai Meng e Chan Ka Wai.

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Promoção com Recurso a Meios Digitais NOVA PÁGINA ELECTRÓNICA O IIM lançou em 2016 uma nova página electrónica (www.iimacau.org.mo), com visual mais moderno e prático para os visitantes internautas. Disponível em chinês, português e inglês, a página encontra-se concebida para melhor distribuir os conteúdos das notícias, nomeadamente o seu boletim informativo, que se encontra na plataforma “Issuu”. Com acesso à página do Facebook, fica facilitado o acompanhamento das actividades do IIM. Para melhor promover Macau, encontra-se disponível na sua galeria um conjunto de fotografias e vídeos sobre as mais recentes actividades, podendo ser utilizadas versões em língua chinesa e inglesa.

FACEBOOK Mais recentemente, o IIM tem recorrido a esta plataforma electrónica para divulgar a realização de eventos, dar notícias, bem como promover as suas publicações. O recurso a este meio de publicidade está na fase experimental, tendo-se verificado que não só os custos são menores do que outros meios mediáticos mas também o segmento de mercado a alcançar é mais focado e económico. Estima-se que, através do Facebook, tiveram acesso a nossas notícias mais de 10.000 seguidores, no ano de 2018.

de novas edições. A página do IIM Bookshop possui também uma página no Facebook, para melhor acompanhar as últimas publicações lançadas pelo Instituto. Recentemente, negociou-se com a Caixa Económica Postal um acordo mediante o qual podem ser adquiridos livros nesta plataforma mediante o uso de cartões de crédito aceites pela CEP, o que não só possibilita o processo e reduz os custos para ambas as partes. Em breve se incluirão publicações de outras editoras locais privadas que não tenham possibilidades nem circuitos e as queiram distribuir pelo estrangeiro.

PLATAFORMA DA COZINHA MACAENSE Considerando que Macau foi designada como a cidade criativa da UNESCO em Gastronomia, o IIM criou uma página electrónica da cozinha macaense, para promover a história e as receitas da cozinha única de Macau. A plataforma servirá ainda para interagir junto de utilizadores registados, que permitirá partilhar e introduzir receitas tradicionais de pratos macaenses, através de ilustração e textos em blogue, criando uma interacção dinâmica no mundo virtual. A plataforma, inicialmente criada em língua inglesa e com o objectivo de chegar a toda comunidade da diáspora macaense, disponibilizará igualmente informação nas línguas chinesa e portuguesa e com capacidade para visualização de vídeos promocionais sobre a cozinha macaense. Foram introduzidos, em 2018, cerca de 20 pratos. Foi contactada a D.S. Turismo no sentido de dar apoio técnico para a sua continuidade. O sítio pode ser visionado no www.macanesecuisine.com.

PLATAFORMA PARA VENDA DE LIVROS VÍDEO SOBRE A DIASPORA MACAENSE

O IIM Bookshop nasceu em 2016 e encontra-se em funcionamento dentro da nova página electrónica (www. iimacau.org.mo/bookshop), onde estão centrados os conteúdos das publicações do IIM num só sítio digital, facilitando a visualização dos conteúdos das antigas e novas publicações do Instituto e dispensando a existência de um catálogo impresso, face ao contínuo acréscimo

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Baseado nas entrevistas conduzidas pelo jornalista Joaquim Magalhães de Castro, numa viagem que fez às Américas, em 2016, com o apoio do IIM e da FM, num guião concebido por Mariana Pereira e em imagens editadas por António Pinto Marques, foi feito um vídeo de cerca de 35 minutos sobre a Diáspora Macaense, ocorrida no período pós-Guerra do Pacífico. Este vídeo, sendo a primeira parte de uma série de quatro, será ulteriormente visionado nas Casas de Macau e nas comunidades macaenses, e eventualmente nos meios de comunicação cibernética, sendo legendado em português, inglês e chinês. A apresentação-estreia desse vídeo, intitulado “Macaenses: uma Odisseia (parte um)”, foi feita durante uma das sessões do Encontro de Jovens da Comunidade Macaense, realizada no IIM. A 2.ª parte deverá estar pronta no 3.º trimestre de 2019.


IIM – 2018: principais actividades

Outras Actividades IIM NA FEIRA INTERNACIONAL DE MACAU (MIF 2018)

mento do IIM, há cerca de 20 anos, foram realizadas muitas acções no âmbito do estudo da cultura local e na promoção das características do território, o que permitiu criar diversas publicações, bem como organizar seminários e outras actividades académicas, a fim de divulgar e promover Macau ao exterior. O mesmo responsável disse acreditar que as referidas acções têm contribuído para a promoção da imagem da RAEM no domínio internacional.

Entre 18 a 20 de Outubro, o IIM participou na Feira Internacional de Macau (MIF), no Venetian Macao. Organizado pelo Instituto de Promoção do Comércio do Investimento de Macau (IPIM), o IIM expôs e promoveu as suas mais recentes edições na Exposição de Produtos e Serviços dos Países de Língua Portuguesa.

IMPORTANTES ENCONTROS ENTRE O IIM E O CHEFE DO EXECUTIVO E O SECRETÁRIO PARA OS ASSUNTOS SOCIAIS E CULTURA DA RAEM O Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), Chui Sai On, recebeu no dia 17 de Maio, na Sede do Governo, o presidente do IIM, Jorge Rangel, e uma delegação para trocar impressões sobre a promoção cultural de Macau. De acordo com um comunicado do governo local, o Chefe do Executivo manifestou a sua satisfação pela realização do encontro e disse que após o estabeleci-

Já Jorge Rangel expressou igualmente a sua satisfação e agradeceu o apoio prestado, ao longo dos anos, pelo Governo da RAEM ao IIM. Foi feita uma breve apresentação dos trabalhos realizados pelo Instituto, nomeadamente as obras publicadas sobre Macau e os estudos sobre o papel que a cidade pode vir a desempenhar ao participar na construção da iniciativa de “Uma Faixa, Uma Rota” e no planeamento da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. O IIM referiu ainda que, em 2019, será celebrado o 20.º aniversário do estabelecimento da RAEM e do

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Instituto Internacional de Macau, desejando por isso poder continuar a obter o apoio do governo para realizar acções comemorativas no exterior. E por esta ocasião o Instituto irá organizar uma série de actividades académicas e culturais, promovendo a cidade, através de instituições no exterior, nomeadamente as Casas de Macau e outras que estabeleceram parcerias com o IIM.

oportunidades de desenvolvimento servem para Macau desempenhar funções específicas, no sentido de impulsionar uma maior diversificação económica.

Relativamente ao desenvolvimento de Macau, pelo qual considera que o Instituto se tem mostrado atento, o Chefe do Executivo afirmou ainda que o País autorizou a participação e o apoio da RAEM na iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” e, para o efeito, recentemente, chefiou uma delegação numa visita ao Camboja e à Tailândia, com o objectivo de aprofundar as relações da RAEM com esses países. Quanto ao planeamento da Grande Baía GuangdongHong Kong-Macau, o mesmo responsável revelou que aguarda a divulgação oficial, em que as duas regiões administrativas especiais e outras nove cidades irão participar em conjunto. Acredita que estas grandes

Neste mesmo dia, foi também realizada uma visita ao Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam, tendo o IIM mostrado interesse em continuar a trabalhar, principalmente para o sector cultural de Macau, através da ampla linha editorial da instituição, bem como através de várias promoções a níveis local e internacional. Fizeram parte da delegação do IIM, além do seu presidente, a presidente da Assembleia Geral, Edith Silva, o vogal da direcção, Rui Paulo da Silva Martins, e o vogal da direcção, António Monteiro.

ARRAIAL DE SÃO JOÃO 2018

O Arraial de São João celebrou-se nos dias 23 e 24 de Junho na Calçada da Igreja de São Lázaro. O evento foi organizado por associações de matriz portuguesa

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IIM – 2018: principais actividades

de Macau, entre as quais, a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, a Associação dos Macaenses, a Casa de Portugal de Macau, o Instituto Internacional de Macau, a Associação de Reformados e Aposentados de Macau e a Associação dos Jovens Macaenses. A cerimónia de inauguração contou com a presença de um dos subdiretores da Direcção dos Serviços de Turismo de Macau, entidade governamental que apoiou o evento.

No mês de Março, foi realizada a assinatura do protocolo de cooperação entre o IIM e o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) do Governo da RAEM (actual Instituto para os Assuntos Municipais), firmando a promoção e venda das edições do IIM e cooperações em actividades entre as duas instituições. Desde Abril do mesmo ano que as edições do IIM se encontram também disponíveis para aquisição na loja de lembranças do actual IAM, no edifício do antigo Leal Senado.

FÓRUM SOBRE PUBLICAÇÕES SHENZHEN, CHINA

DE EDIÇÕES DIGITAIS EM

No dia 11 do Maio, o IIM foi convidado pela China National Knowledge Infrastructure (CNKI) para a cerimónia de lançamento da “Plataforma de Publicação de Livros Digitais, Seminário de Serviços de Conhecimento Incorporado da CNKI e Fórum de Desenvolvimento Integrado de Média e Publicação, de Gestão e do Conhecimento”, com lugar em Shenzhen, na República Popular da China. O IIM patrocinou um concurso de video promocional apresentado pelo púiblico, tendo atribuído três prémios aos melhores classificados, escolhidos por um júri da organização. Foi possível assistir a um variado programa de concertos e muita música, juntamente com actuações tradicionais de folclore, entre muita comida tradicional portuguesa e macaense, trabalhos de artesanato e ainda publicações sobre Macau.

PROTOCOLO DE COOPERAÇÃO ENTRE O IIM E O IACM

Durante a cerimónia, os organizadores apresentaram a “Plataforma de Publicação de Livros Digitais”, e vários editores presentes partilharam experiências no uso desta plataforma. Além disso, a CNKI e os editores convidados de Hong Kong e de Macau, entre os quais o IIM, e os especialistas das bibliotecas das universidades discutiram formas do desenvolvimento de publicações, sua gestão e a possibilidade de implementação digital em Hong Kong e em Macau.

BOLSAS

A INVESTIGADORES

Em colaboração com o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, o IIM voltou a oferecer três bolsas de investigação de $18.000 reais cada, a pesquisadores juniores, com a duração de 12 meses, para trabalhos em áreas do relacionamento económico, cultural, político ou outro, entre o Brasil, a China e Macau. Para 2018, foram selecionados Edivan Azevedo Costa da Silva (“Brasil, China e Macau: Redes migratórias e comerciais macaenses na região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro”), Giovanna do Carmo Cezar (“Região Administrativa Especial de Macau: Potencialidades e perspectivas para o Brasil”) e Jéssica Ohara Pacheco Chuab (“De Macau ao Rio de Janeiro: um percurso visual”).

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FEIRA DE LIVROS 2018 NO TAP SEAC

O IIM expôs as suas edições durante a Feira de Livros 2018, uma iniciativa da Livraria Seng Kwong, levada a efeito entre os dias 23 de Março e 1 de Abril, com bastante público interessado, no Pavilhão do Tap Seac em Macau.

VISITA DA ACADEMIA DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA CHINA

ao papel de Macau como plataforma de intercâmbio económico e comercial entre a China e os países de língua portuguesa e, especialmente, sobre a sua opinião em relação aos 15 anos de actividade do Fórum de Macau. O IIM explicou o papel da instituição na difusão de um conhecimento mais esclarecido sobre as funções culturais de Macau, as estreitas colaborações e apoios que mantém junto de diferentes entidades das áreas académicas, políticas e sociais daqueles países, e junto das comunidades macaenses da diáspora; a vantagem de haver uma colaboração sinergética entre o IIM e o Fórum Macau; e ainda o extenso número de publicações que editou sobre temas que retratam a China contemporânea, designadamente no que respeita ao projecto da Grande Baía e da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”.

DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

Uma comitiva da Academia de Ciências Sociais da República Popular da China (CASS), dos seus Institutos de Política e Economia Mundiais (IWEP) e dos Estudos da América Latina (ILAS), visitou o IIM no dia 20 de Março, e foi recebida pelo seu secretário-geral, Rufino Ramos, e colaboradores. Representados por individualidades da área académica, entre professores e investigadores, e acompanhados pelo vice-presidente da Associação de Investigação da Organização Mundial do Comércio da China, Wang Cheng’an, que exercera funções de Secretário-Geral do Fórum de Macau, os visitantes quiseram obter informações mais detalhadas sobre as actividades académicas e culturais do IIM, localmente e no exterior, especialmente no que respeita

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O IIM voltou a associar-se, juntamente com outras instituições de matriz portuguesa, à romagem à Gruta de Camões, no dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Ca-


IIM – 2018: principais actividades

VISITA DO EX-SECRETÁRIO DO ESTADO DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS AO IIM

mões e das Comunidades Portuguesas, uma actividade de grande simbolismo para Macau. As actividades do Dia de Portugal são coordenadas pelo Consulado-Geral de Portugal.

No dia 19 de Janeiro, o Dr. José Cesário, ex-Secretário do Estado das Comunidades Portuguesas, esteve reunido com a Direcção do Instituto Internacional de Macau (IIM). Nesta visita de cortesia e de trabalho, o parlamentar, eleito pelo círculo de fora da Europa, ficou a conhecer as últimas actividades e projectos desenvolvidos pelo Instituto, no espaço lusófono, com a República Popular da China, com a diáspora macaense e em Macau.

PRÉMIOS A ALUNOS DA ESCOLA PORTUGUESA DE MACAU

Por verbas próprias, continua o IIM a atribuir prémios monetários a alunos da Escola Portuguesa de Macau, nas disciplinas de Inglês e História, para os melhores classificados dos 6.º, 9.º e 12.º anos. Foram contempla-

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COLABORAÇÃO DO IIM COM ENTIDADES CULTURAIS EM PORTUGAL

dos este ano Diogo Kong Farinha Simões, Marco Zeferino Sousa Aguiar, Leonor Ferreira Martins da Silva Lopes, Luísa Filipa Cravo Dias Vilão e Mariana dos Santos Silva Pereira Menezes.

O IIM manteve relações de cooperação em 2018 com entidades sediadas em Portugal, como a CPLP Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, onde tem o estatuto de observador consultivo, a AULP - Associação das Universidades de Língua Portuguesa, a UCCLA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, o Observatório de Língua Portuguesa, a Comissão Temática da Língua Portuguesa da CPLP, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, a Sociedade de Geografia de Lisboa, a Fundação Jorge Álvares, a Fundação Casa de Macau, a Casa de Macau em Portugal e o Centro Científico e Cultural de Macau.

DELEGAÇÃO DO IIM EM LISBOA APOIO A INVESTIGADORA E BOLSEIRA EM MACAU

O IIM continuou a manter em funcionamento em Lisboa, no Palácio da Independência, por acordo com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, uma delegação, a qual é chefiada pelo vice-presidente do IIM, José Lobo do Amaral. Esta delegação permite uma ligação mais próxima e eficaz do IIM a instituições com sede nos países de língua portuguesa e na Europa, com as quais são desenvolvidas acções de cooperação, intercâmbio e permuta.

ASSEMBLEIA GERAL DO IIM (ABRIL 2018) O Instituto Internacional de Macau realizou em Abril a sua Assembleia Geral anual para discussão e aprovação do Relatório e Contas da actividade referente ao ano de 2017, assim como para apreciar a proposta das linhas de acção para 2019, tendo os documentos apresentados sido aprovados por unanimidade. Entre os meses de Julho e Setembro, o IIM prestou apoio logístico a Caterina Paiva, estudante no mestrado internacional de Antropologia, no Instituto de Antropologia da “East China Normal University” em Xangai. Para além do apoio logístico prestado, foi-lhe igualmente prestada assistência para a realização de entrevistas e recolha de informações necessárias para a sua investigação: “Identidade Macaense, Perspectivas do Eu e da Memória”. A investigadora recolheu informações necessárias junto de pessoas desta comunidade, ligadas a associações de matriz portuguesa em Macau, como a Associação dos Macaenses, a Associação Promotora de Instrução dos Macaenses, a Associação dos Jovens Macaenses e a Casa de Portugal em Macau.

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Mais uma vez, como é já hábito, a assembleia realizou-se na sede do IIM em Macau, com a presença de muitos associados, tendo-se muitos outros que residem fora da RAEM feito representar através de procurações.


Edições IIM – 2018 REVISTA

COLECÇÃO “MISSIONÁRIOS PARA O SÉCULO XXI”

Oriente / Ocidente (Nº 35)

Fr. Luis Ruiz Suarez (edição chinesa)

Padre Áureo Nunes e Castro (edição chinesa)

AUTOR: Leong Chi Chao Nº de páginas: 148 ISBN: 978-99965-59-24-2 Com ilustrações

AUTOR: João Guedes Nº de páginas: 96 ISBN: 978-99965-59-25-9 Com ilustrações

EDITOR: Instituto Internacional de Macau Nº de páginas: 128 Com ilustrações

Revista de publicação anual, de abrangência universal, os artigos vertidos na Oriente/Ocidente, de reputados académicos e investigadores, constituem apoios relevantes aos leitores que pretendem aprofundar os conhecimentos do papel e da importância que Macau tem tido, ao longo da história, como plataforma de ligação de universos tão distintos que aqui se cruzam. A revista dá conta ainda das acções que o Instituto Internacional de Macau desenvolve nas várias áreas em que intervém e das edições que promove.

Não podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Padres, missionários, mártires letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. A colecção “Missionários para o Século XXI” do IIM tem o propósito de levar a este conhecimento, tendo publicado várias obras em língua portuguesa. Agora também em língua chinesa, o IIM dedica esta obra traduzida aos Padres Luis Ruiz Suarez e Áureo Nunes e Castro.

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COLECÇÃO “MOSAICO”

Da Rota da Seda à ponte entre a China e a Europa (edição chinesa) AUTOR: Prof. Fok Kai Cheong Nº de páginas: 24 ISBN: 978-99965-59-13-6 Sem ilustrações

A iniciativa chinesa “Uma Faixa Uma Rota” é explicada através de dois artigos publicados pelo Centro de Estudos “Um País, Dois Sistemas” de Macau, que analisam e ilustram as origens do conceito e do projecto, nas vertentes económica e política. Além disso, recorda a influência de Macau como plataforma na Rota da Seda durante os séculos XVI e XVII.

Úi di Galánti! AUTOR: Carlos “Néu-Néu” Gracias Coelho Nº de páginas: 96 ISBN: 978-99965-59-18-1 Sem ilustrações

Carlos Gracias Coelho, conhecido por ser um dedicado professor do ensino primário e de danças folclóricas portuguesas, foi também um notável artista do teatro amador, de patuá, sem falar de várias artes e ofícios em que se empenhava com todo o afinco e êxito. “Néu-Néu” deixou também vários escritos em patuá, crioulo português de Macau, registados nas redes sociais. Considerando a precariedade do patuá e a escassez de (bons) escritos nesse idioma nativo de Macau, o Instituto recolheu os melhores textos de Carlos Coelho para o público leitor apreciar o doce linguajar antigo de Macau.

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Colecionismo orientalista – como resultado de um processo de interação cultural entre China, Macau e Portugal AUTOR: Caroline Pires Ting Nº de páginas: 84 ISBN: 978-989-54193-0-2 Com ilustrações

Caroline Pires Ting fez um estudo sobre o coleccionismo orientalista português e o fascínio sinófilo em Macau baseado na análise das colecções de José Vicente Jorge e Camilo Pessanha, e realizado no âmbito de uma bolsa de investigação atribuída a estudantes universitários do Rio de Janeiro pelo Instituto Internacional de Macau através de um protocolo de cooperação com o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro.


Edições IIM – 2018

Estória, tradições e costumes em torno de Pátio, Becos e Travessas de Macau

De Patane a Lilau – Pátios, Becos e Travessas de Macau

AUTOR: Manuel V. Basílio Nº de páginas: 92 ISBN: 978-99965-59-19-8 Com ilustrações

AUTOR: Manuel V. Basílio Nº de páginas: 80 ISBN: 978-99965-59-23-5 Com ilustrações

Durante séculos, a cidade de Macau, sobretudo nas zonas mais antigas, cresceu de forma desordenada, sem estar sujeita a um plano ou traçado urbanístico e, deste modo, muitas casas foram construídas ao longo de servidões ou passagens relativamente estreitas, que hoje constituem travessas, pátios e becos.

O segundo volume de “Pátios, Becos e Travessas de Macau” tem o enfoque em algumas das ruas mais antigas do bairro chinês e da cidade cristã, que são as zonas mais emblemáticas da cidade, do Patane ao Lilau. O tempo mudou muito, fazendo desaparecer marcos, de que nem resta a memória.

As estórias, tradições e costumes em torno de Pátios, Becos e Travessas de Macau, são contadas pelo autor, Manuel Basílio, nesta edição do IIM.

Para as gerações vindouras ficam estes escritos e algumas das fotografias de Manuel Basílio, que podem ilustrar o “inexorável progresso” da civilização que afectou aquela pequena, fotogénica e simpática mas saudosa “Macau” dos tempos idos.

Os portugueses nos mares da China na primeira metade do Séc. XVI (edição bilingue – português e chinês) AUTOR: Isabel Horta Lampreia Nº de páginas: 68 ISBN: 978-99965-59-22-8 Com ilustrações

Esta pequena edição em português e traduzida em língua chinesa, de Isabel Horta Lampreia, reúne um conjunto de materiais que oferece um testemunho multifacetado da presença portuguesa no espaço chinês, antes do estabelecimento de Macau, e que sinaliza igualmente os primeiros tempos da existência do entreposto luso-chinês.

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COLECÇÃO “SUMA ORIENTAL”

Para uma Literatura da Identidade Macaense – Autores/Actores

A China e a Revitalização das Antigas Rotas da Seda – Novo Vetor do Comércio Mundial

Pioneers of Macau – The story of 14 Chinese who helped to make the city (edição inglesa)

AUTORA: Maria Barras Romana Nº de páginas: 200 ISBN: 978-989-99457-7-7 Sem ilustrações

COORDENAÇÃO: Fernanda Ilhéu e Leonor Janeiro Nº de páginas: 160 ISBN: 978-989-54193-4-0 Com ilustrações

AUTOR: Mark O’ Neil Nº de páginas: 176 ISBN: 978-99965-59-20-4 Com ilustrações

Foi em Macau, onde Maria da Conceição Barras Romana passou oito anos como técnica superior dos Serviços de Educação e Juventude, que ela começou a dedicar-se mais intensamente à investigação académica de temas como “Da Relação da Grande Monarquia da China” (sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade Aberta) e “Para uma Literatura da Identidade Macaense, Autores /Actores” (tese de doutoramento apresentada na Universidade de Beira Interior, que mereceu a nota máxima do júri). Reconhecendo a importância e a oportunidade deste trabalho académico, em que é explicado o papel da literatura como contributo para a construção da identidade duma comunidade singular, o IIM assumiu a sua edição e integrou-o no seu já vasto acervo editorial, enriquecendo a sua prestigiada colecção intitulada “Suma Oriental”.

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Esta publicação resulta duma parceria entre a Associação Nova Rota da Seda (ANRS) e o Instituto Internacional de Macau. É composta de nove capítulos da autoria de sócios da ANRS sob coordenação de Fernanda Ilhéu, autora do Capítulo IX, e Leonor Janeiro, que também é autora da Capítulo I e das aguarelas que constituem grande parte das ilustrações.

Macau foi o primeiro entreposto europeu na Ásia Oriental, um encontro de civilizações com mais de 450 anos de história. Durante esse período de tempo, muitas pessoas notáveis deixaram a sua marca nesta cidade histórica.

O livro pretende fazer chegar ao grande público informação geral essencial para o entendimento do que foi a Rota da Seda e do que actualmente está a acontecer no mundo do comércio, a fim de redesenhar percursos com objectivos e meios de comunicação actuais.

Este livro faz o perfil de 14 dessas pessoas – o “pai” dos caminhos-de-ferro da China, o primeiro bispo católico chinês, dois magnatas do jogo bem-sucedidos, o compositor do hino de guerra da China durante o conflito com o Japão, um euro-asiático que foi um dos “compradores” mais bem sucedidos da sua geração e a primeira vigária da Igreja Anglicana que socorreu centenas de refugiados durante a II Guerra Mundial.

As ligações entre o Oriente e o Ocidente são o objecto central destes 9 capítulos, que abordam temas da maior pertinência para a compreensão das Rotas da Seda.

Através das suas vidas, o leitor pode obter uma compreensão pormenorizada da história de Macau e dos seus períodos dramáticos de riqueza e de pobreza.


Edições IIM – 2018

Macau – um diálogo de sucesso AUTOR: Fernando Lima Nº de páginas: 200 ISBN: 978-989-54193-5-7 Com ilustrações

“Macau – um diálogo de sucesso” é a reedição revista do segundo volume da obra do autor “Macau – as duas transições”, publicada em 1999 com o apoio da Fundação Macau. Contém um novo capítulo e um prefácio do Embaixador António Martins da Cruz. O volume é dedicado ao processo negocial entre Portugal e a República Popular da China que conduziu, em 1987, à aprovação da Declaração Conjunta sobre a Questão de Macau. Vinte anos depois da criação da Região Administrativa Especial de Macau, a execução daquele compromisso formal entre os dois países evidenciou a sabedoria dos negociadores portugueses e chineses nas soluções encontradas para garantir ao território estabilidade e aproveitamento do potencial ao seu alcance.

Figuras de Jade II – os Portugueses no Extremo Oriente AUTOR: António Aresta Nº de páginas: 136 ISBN: 978-989-54193-6-4 Sem ilustrações

Este segundo volume das Figuras de Jade, à semelhança do primeiro volume editado em 2014, é um singelo roteiro de afinidades, saberes e sensibilidades dos portugueses, ou estrangeiros com ligações à cultura portuguesa, no extremo oriente. Figuras de Jade simbolizam igualmente uma valoração das histórias de vida de um conjunto de personalidades, umas mais conhecidas do que outras, mas todas importantes, porque cada qual com a sua sabedoria e protagonismo intrínseco. Com elas poderemos esboçar uma reavaliação da história cultural de Macau em todas as suas dimensões, visto que lutar contra o esquecimento é um vero exercício de pedagogia e de liberdade. São vozes que contam histórias e que interrogam o destino de Macau.

Dating à Chinesa – A comercialização do casamento na China contemporânea AUTORA: Shenglan Zhou Nº de páginas: 112 ISBN: 978-99965-59-09-9 Com ilustrações

O texto, baseado na dissertação de Mestrado em Estudos Asiáticos que a autora elaborou entre 2015 e 2017, insere-se num conjunto de trabalhos incidentes sobre o programa de estudos asiáticos que tem vindo a público desde 2011, de entre os quais se destaca o livro da investigadora Chao Yang, Television and Dating in Contemporary China: Identities, Love and Intimacy , publicado em 2017. Para além de questões metodológicas, a nível de conteúdo apresenta várias abordagens originais sobre questões como o culto do dinheiro como valor patrimonial e o impacto da intervenção do governo sobre programas televisivos deste género, realizada em 2010, na orientação de valores matrimoniais.

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FORA DE COLECÇÃO

Faixa e Rota, uma iniciativa da China – O papel de Macau e dos países de língua portuguesa (edição chinesa)

Faixa e Rota, uma iniciativa da China – O papel de Macau e dos países de língua portuguesa

AUTORES: Thomas Chan, Paul Mooney, Paulo G. Figueiredo, José Luís Sales Marques Nº de páginas: 116 ISBN: 978-99965-59-16-7 Com ilustrações

AUTORES: Thomas Chan, Paul Mooney, Paulo G. Figueiredo, José Luís Sales Marques Nº de páginas: 140 ISBN: 978-99965-59-21-1 Com ilustrações

“Faixa e Rota, uma iniciativa da China – O papel de Macau e dos países de língua portuguesa” apresenta os desafios e o papel de Macau e dos países lusófonos no âmbito de um dos projectos mais importantes da actualidade. A iniciativa, que Pequim apresentou ao mundo em 2013, tem como objetivo refazer o mapa económico e político mundial, ao mesmo tempo que procura reformular o modelo de desenvolvimento eurocêntrico convencional. A obra tem edição em português, chinês e inglês, e é publicado pelo Instituto Internacional de Macau, com o apoio da Fundação Macau e produção da Macaulink.

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Bos podi papiah ku yo? AUTOR: Sílvio Moreira de Sousa Nº de páginas: 40 ISBN: 978-99965-59-12-9 Com ilustrações

O livro procura divulgar e explicar o crioulo português de Malaca, ainda falado pela comunidade lusodescendente ali residente. O livro é trilingue (malaio, inglês e português) e resultou de uma colaboração conjunta do IIM com o Instituto Camões e Korsang di Melaka - Coração em Malaca - Heart in Malacca e com o apoio da Fundação Macau.


Edições IIM – 2018

A Magia das Ruas de Macau (edição trilingue – português, inglês e chinês) AUTOR: Carlos Dias Nº de páginas: 116 ISBN: 978-99965-59-17-4 Com ilustrações

Carlos Dias aprendeu bem cedo a tirar e a revelar as imagens a preto e branco, algo que constituiu a sua paixão de fotógrafo. Já na era digital, o fotógrafo macaense passou novamente a calcorrear as ruas de Macau, a aguardar as mudanças extremas do tempo para

captar momentos de que mais gosta e a registar as múltiplas facetas da vida da cidade. Em Maio de 2018, Carlos Dias acedeu a expor uma centena das suas novas obras para um público rendido à sua

arte, depois de as ter visto nas plataformas sociais. Essa mostra foi reproduzida neste livro, publicado pelo IIM, com a coordenação da Macaulink, e com o apoio da Fundação Macau e do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais.


Número 36/II Série - 2019

ORIENTE OCIDENTE

Revista ORIENTE OCIDENTE N. 36 2019 - INSTITUTO INTERNACIONAL DE MACAU  

Revista ORIENTE OCIDENTE N. 36 2019 - INSTITUTO INTERNACIONAL DE MACAU A revista anual do IIM Macau.

Revista ORIENTE OCIDENTE N. 36 2019 - INSTITUTO INTERNACIONAL DE MACAU  

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