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estado de solidão equivalente, para efeito de intercambiar as experiências do narrador, fisicamente ausente. Na solidão opera-se o circuito do saber compartilha­ do. O leitor não está só. Pressente algo tensionante no diá­ logo silencioso, que o envolve num mistério intrigante. Ou­ tro algo, semelhante a uma chama, conquanto dotado de certo componente de sedução, garante o nível de interes­ se. Ambos fazem com que o leitor se renda à emoção, pas­ sando a querer descobrir os segredos do texto, apoderar­ se dos personagens, conhecer o fim da narrativa sem se aperceber de que fora submetido a uma bateria de informa­ ções cientificas, que participara de uma aula silenciosa, que o amigo invisivel com quem partilhara a reflexão e a compa­ nhia solidária não era outro, senão o mestre historiador, figura em simbiose com a Literatura. O Romance Histórico adquiriu expressividade na Li­ teratura do século XIX, assegurando os seus direitos no in­ terior da produção cultural do Ocidente, longe de ser um entretenimento burguês. Victor Hugo dele serviu-se para as suas aulas magistrais sobre a História da França, pós-revo­ lucionária. Contemporaneamente, o medievalista Umberto Eco, logrou unânime aceitação com o célebre policial das trevas, O Nome da Rosa. Pouco cultivado no Brasil, pas­ sou a despertar, recentemente, a curiosidade dos intelectu­ ais (mais por modismo do que por seu valor intrinseco), gerando certa polêmica entre os produtores de literatura; até mesmo, despertando a simpatia e a compreensão da­ queles que cultivam os cânones da ortodoxia cientifica no campo da História. No primeiro momento, eu o conceituaria como um produto teórico da consciência, enquanto se virtualiza no interior de uma construção narrativa. O campo da elabora­ ção mental circunscreve a sua evolução processual, da gê­ nese ao discurso, e, deste, ao momento prático em que adquire explícita manifestação literária'. Esse produto conserva a marca da sua singularida­ de. Busca sempre realizar uma performance numa catego­ ria de tempo passado, conquanto a intenção seja comuni­ car o saber em tempo presente com visitas ao futuro. Si­ multaneamente, desenvolve estratégias de seduzir (cativar) o leitor e enseja questionamentos que o levam à reflexão

2.Adam SCHAFF. Hi.!ó­ ria. e Verdade, p. 97.

Revista do IHGP - Vol. 10  

Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

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