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4. Negrinho do Pastoreio ~ Tradlção popular da zona pastoril do Rio Grande do Sul. Um mo­ leque, eScravo de um rico estancieiro, perdeu a tropilha de cavalos baias que estavam sob sua guarda. O amo mandou espancã.l0 e atirá-lo den tro de um formigueiro, onde o negrinho faleceu. O rato reapareceu como lenda: à noife seu fantas~ ma montando um baia conduz uma lropilha invl­ sivel, mas reconhecível pelo ruido do trotar dos cavalos. Afilhado de Nos­ sa Senhora, ele tem o poder de fazer reapare· cer os objetos perdidos, a quem lhe oferece velas. Sua área de projeção al cançou todo o Sudeste Brasileiro. Pelo fenõme~ no da migração das po­ pulações, encontramos esse mito religioso em vários pontos do País, M

M

5. Bernardo V1eira de Mello, militar. natural de Muribeca (PE), nasceu na segunda metade do século XVU, Chefiou uma

Da prática sádica desses senhores surgiu a lenda do Negrinho do Pastoreio, que foi mandado surrar barbara­ mente pelo amo, e, ainda sangrando, foi atirado semicons­ ciente em um formigueiro, onde faleceu após horrível sofri­ mento', Nessa esfera, muitos senhores tiranos não hesita­ ram em exercer o ius vitaa at macis do direito romano, ou seja, o direito de vida e morte sobre as pessoas que esta­ vam sob sua dependência consultando o consilíum domesticum, tal como fez Bernardo Vieira de Mello'. Desconfiado de que sua nora cometera adultério, reuniu um conselho de família, e condenou-a à morte, man­ dando incontinente que fosse cumprida a sentença. Apesar da divulgação do crime, feita pelo próprio Bernardo Vieira de Mello, a justiça não tomou qualquer providência. Em torno do poder patriarcal gravitavam os agrega­ dos, que, ao lado da família, gozavam do favoritismo do senhor. A figura do agregado, na sociedade escravocrata bra­ sileira, não deve ser confundida com os vassalos do regime feudal europeu. Estes, tinham status e função qualificada, o agregado era simplesmente um homem livre, branco ou mestiço, que por favoritismo se juntava ao senhor em bus­ ca de proteção e beneficios, e que retribuía o teto e a mesa rendendo-lhe lealdade e submissão, prestando-lhe alguns serviços: acompanhando-o e zelando pela sua segurança, exercendo a função de capataz e feitor, quando não, auxili­ ando-o na administração dos bens. Porém, na maioria das vezes, o agregado não passava de um parasita sem qual­ quer encargo, provendo sua sobrevivência e segurança gra­ ças à arte de bajulação. Manter ao redor de si tal clientela e ostentar uma vida de luxo, era forma de exibir o poder e firmar um status aristocrático. A casa grande era o centro vital da propriedade ru­ ral, residência do senhor patriarcal, uma enorme e robusta edificação de arquitetura simples, mas imponente, desta­ cando-se na paisagem agricola. Complementada pela sen­ zala e pela capela foi o símbolo de todo o sistema econômi­ co, social e politico, como define Gilberto Freyre: de prOdu­ ção (a monocultura latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro de boi, o bangüê, a rede, o cavalo);

Revista do IHGP - Vol. 10  

Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

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