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Apresentação e Conservação Depois de ter criado a obra, Lourdes Castro manteve-a sempre activa em sua casa, mas a instalação da «Montanha de Flores» foi concebida por Manuel Zimbro, companheiro de vida de Lourdes Castro, para a exposição de 1992 na Gulbenkian, assumindo um olhar atento e interpretativo sobre a obra da autora, reforçando, intensificando e mesmo produzindo significados, ao ponto de não ser possível distinguir a obra de Lourdes Castro da «leitura» que dela fez Manuel Zimbro. Colocou-a sobre uma mesa com tampo de vidro, desenhada por si próprio, «fazendo atravessar toda a ‘montanha’ – os ramos, a jarra e as pétalas – por uma ‘luz que vem de cima’ e espelha numa superfície de vidro o reflexo de tudo, / projectando-se a sombra no chão, deixa-nos ver, sobre a sua superfície escura, /o reflexo da base por baixo» [8]. Aquilo que vemos sem qualquer encenação, o tubo de ensaio com água, com um pequeno ramo de gerânios de um cor-de-rosa muito vivo [9], as pétalas mortas ou semivivas da base, transforma-se, quando em exposição, numa imagem encantatória que leva até ao espectador, através do jogo da luz e da sombra, o que já lá estava mas que agora se mostra de forma particularmente atractiva, magnetizante, sob a luz zenital que a atravessa e lhe projecta a sombra, colocando-nos perante essa imagem misteriosa, etérea, levitante, aparentemente suspensa. A sua aparente suspensão é também a aparente suspensão do momento, desse presente que nunca se detém, que lentamente avança, contrariando o ingénuo desejo humano de estabilidade e perenidade. As questões de autoria ou co-autoria interessam imediatamente à conservação, dado que estão inextrincavelmente ligadas à ideia de autenticidade e autoridade. Importa sublinhar que para Lourdes Castro a obra ganhou com a instalação uma nova dimensão, dimensão essa que, de acordo com a autora, não se deve perder em futuras exposições [10].

The paradigm of contemporary art and ethnographic objects

A autora descreve o ciclo da «Montanha de Flores» e a sua manutenção de forma muito simples: «Não há um número determinado de flores. Não podem ser muitas, mas também não pode ser apenas uma» e a quantidade de líquido é apenas o «suficiente para que os pés fiquem dentro de água».

bition, showing a careful consideration of the artist”s work, underlining, intensifying and producing meanings, to a point where it is not possible to distinguish Lourdes Castro’s work from Manuel Zimbro’s “reading”. She placed it on a table, designed by herself, with a glass top, “a light that comes from on high” is made to pass through the whole “mountain” - the branches, the vase and the petals - and mirrors on a glass surface the reflection of it all, / projecting the shadow on the floor, it allows us to see, on the dark surface, / the reflection of the base underneath” [8]. What we see without any “staging” – the test-tube with water, with a small bouquet of geraniums of a very bright pink [9], the dead or almost alive petals at the base, transformed themselves, when exposed, into an enchanting image that offers the beholder, through a game of light and shadow, what was there but is now shown in a particularly attractive, hypnotizing way under a zenithal light that goes through it and projects its shadow, placing us before that mysterious, ethereal, levitating and apparently suspended image. Its apparent suspension is also the apparent suspension of that moment, of the present that one cannot grasp, that slowly moves, opposing the naïve human desire for stability and eternity. The issue of authorship and co-authorship are of the immediate importance to conservation, because they are inextricably linked to the idea of authenticity and authority. It must be noted that Lourdes Castro’s work gains a new dimension with the installation, which, according to her, should not be lost in future exhibitions [10]. What is fundamental is that the work is, above all else, continuity and in that sense requires special taking care of so that as a whole it works in perspective terms with all of its intensity, but also so that it is true to its meaning. For this to happen, there are quite a few details which are unattainable that require a much precise attention. For this reason, Lourdes Castro and Manuel Zimbro organized a small dossier, explaining the installation and maintenance of the “Mountain”. This includes a text written by Lourdes Castro, describing the piece with photographs from the first exhibition at Fundação Gulbenkian, the retrospective

[8] Manuel Zimbro, in Lourdes Castro. Sombras à volta de um centro, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, pg. 114. [9] Lourdes Castro escreve «Au commencement c’était un petit bouquet de fleurs, de geraniens roses mais d’un rose si vif on dirait fluorescent». Entrevista presencial, 21 de Janeiro, 2006. [10] Lourdes Castro, entrevista, 31 de Janeiro de 2006. [8] Manuel Zimbro, in Lourdes Castro. Sombras à volta de um centro, Lisbon, Assírio & Alvim, 2003, pg. 114. [9] Lourdes Castro wrote “Au commencement c’était un petit bouquet de fleurs, de geraniens roses mais d’un rose si vif on dirait fluorescent”. Personal interview, 21 January, 2006. [10] Lourdes Castro, interview, 31 January 2006.

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A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

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