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O paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos

científica. A preocupação é manter a leitura daquele fragmento enquanto documento da sociedade de onde saiu. Uma limitação, julgamos nós; e, por vezes, um erro, pois nega o papel do museu como gerador das condições do olhar e como criador de objectos. Outra liberdade tem o artista plástico que, pegando no mesmo fragmento, se apropria dele e o faz explodir em múltiplos sentidos. Os pedaços de parede cobertos de fuligem ou das sucessivas camadas de cal, poderiam ser excelentes exemplos para reflectir sobre a diversidade dos olhares, das questões formuladas, das propostas e dos exercícios de revelação num museu onde se guardam os objectos etnográficos ou na oficina do criador plástico. Ou de este último a propor no museu a transfiguração do objecto etnográfico e a construção de sentidos que o museu tem, por vezes, dificuldade em revelar por motivos que se prendem, por exemplo, com a auto limitação que decorre dos modos de lidar com o efémero e com os procedimentos da sua conservação. Estas notas, forçosamente soltas, sobre os objectos que nos rodeiam, deambulações, manhas e partidas que nos fazem, apontam sobretudo para territórios da hesitação e da dúvida, de ambiguidades e paradoxos que são sempre extremamente fecundos para pensar os modos de nos relacionar com os objectos e o que fazemos com eles quando os guardamos, documentamos e damos a conhecer. E talvez seja nesta última vertente que o museu pode ir mais longe em relação às questões que coloca quanto à conservação dos bens etnográficos e quanto à confrontação e problematização do efémero. Refiro-me às exposições que realiza. Estas começam por ser, em si mesmas, o exercício do efémero, pelas linguagens que não se repetem, pelo esforço das transfigurações que propõem, pelo gesto criador que convive e se articula com a aparente neutralidade do discurso expositivo. Neutralidade que, na realidade, nunca existe. Os objectos estão sempre apresentados numa rede de configurações, pelas relações que entre si se estabelecem, pelas iluminações, que os revelam, ocultam e hierarquizam, pelo envolvimento cenográfico do espaço, mesmo quando o texto nos quer explicá-los como coisa estável que o museu traz junto do público. Vimos vários exemplos onde provavelmente só na sala de exposição o objecto pode recuperar as fulgurações do efémero pelos elementos que o trabalham: a luz, o som, os níveis e desníveis da arquitectura,

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could be excellent examples to reflect about the diversity of eye views, of issues raised, propositions and exercises of revelation in a museum, where ethnographic objects are kept, or in the workshop of a plastic creator, and also, when the latter proposes, in the museum, the transfiguring of the ethnographic object and the building of senses that the museum sometimes finds it difficult to reveal, for motives associated, for example, to self-limitations resulting from ways to deal with the ephemeral and with conservation procedures. These necessarily loose notes about the objects that surround us, their digressions, craftiness and tricks they play on us, point out above all to the territories of hesitation, doubt, ambiguities and paradoxes that are always extremely fecund to think out the ways for us to relate to the objects and what we may do with them when we keep them, document them and show them. And maybe it is within this latter approach that the museum can go furthest in relation to the questions it asks about conservation of ethnographic objects and about confronting and problem raising the ephemeral. I am referring to the exhibitions it organises. These begin by being in themselves an exercise of the ephemeral for the languages that don´t repeat themselves, for the effort of the proposed transfigurations, for the creative gesture that cohabits and articulates with the apparent neutrality of the exhibitive discourse. Neutrality, in reality, does not exist. The objects are always displayed as a network of configurations through the relationships established between them, through the lightings that reveal them, disguise them and create an hierarchy for them, through the scene setting involved around the space, even when the text wants to explain it to us as being a stable thing that the museum is bringing to the public. We see several examples where probably only in the exhibition room the object can recover the fulgurations of the ephemeral through its working elements: the light, the sound, the levels and unbalances of architecture, the cleanliness or the paradox form in which it communicates or subverts. And it is this work that, in museums with ethnographic collections, in general, is very timid for the assumption of normative procedures that capture objects under forms where they no longer move around. Therefore, the creative work of an artist can propose an anthropology that, while not being for-

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

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