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Ainda um exemplo: a roca com que a lã e o linho são fiados pela mulher que nas noites de Inverno se senta à lareira, é também o objecto com que se mexe na cinza, arrumando as brasas, compondo o fogo e, por isso, se vai queimando na extremidade inferior da haste. Esta ponta negra e queimada é imediatamente evocadora de um espaço habitado, íntimo, da família em torno da lareira, e é um elemento profundamente significativo da leitura do próprio objecto e os contextos sociais onde ele é usado. Ao observar estes

owner keeps with pride and gives him immense prestige when, in a ritual context, can offer it to Indians from other villages, something that happens, for instance, at the time of the Javari burial ritual celebrations. However, these pots are not only meant to be exchanged as gifts. They are in fact used for preparation of food when placed directly over the fire. When this happens, the drawings disappear and the pot becomes blacked over. Here we are faced with a plastic elaboration of great investment for the ability and knowledge involved and for the results and profits to be expected. And yet it is their immediate use that eliminates the beauty that had built up its value. It is a reflexion on the ephemeral and on the life of objects that can be developed only within the particular context of a culture. Here, art is understood as a commissioning of forces, according to the definition proposed by Alfred Gell (1998), that institutes at a distinguished place an artefact that asserts itself in the social space. And it is reabsorbed or diluted in one of the effective uses of the object: food preparation through fire. The Wauja collection we have assembled at the Museu Nacional de Etnologia has sought out to have examples of the two conditions of these pots in their plastic expression, fresh from the hands that made them and with the cumulative use of food crusts from its normal use. The crusts are also an element of the daily ephemeral that we seek to preserve.

The paradigm of contemporary art and ethnographic objects

Um outro exemplo: os índios Wauja são os grandes ceramistas do Xingu na Amazónia brasileira. Os objectos mais valorados que produzem são as panelas de grande dimensão onde é cozida a mandioca e o peixe no momento da realização de cerimónias que envolvem muitas pessoas. Essas panelas, depois de moldadas, são pintadas com extremo cuidado, recorrendo a desenhos padronizados e à capacidade criativa do seu executante. O resultado é um objecto que o seu possuidor guarda com orgulho e lhe vai dar um imenso prestígio quando, em contexto ritual, o pode oferecer a índios de outras aldeias, o que acontece, por exemplo, na altura da celebração do ritual funerário do Javari. Mas as panelas não são apenas para ser trocadas como bem de prestígio. Elas são efectivamente utilizadas na preparação dos alimentos, colocadas directamente sobre o lume. Quando tal acontece os desenhos desaparecem e a panela fica enegrecida. Estamos perante uma elaboração plástica de grande investimento, pela habilidade e conhecimento que é posto e pelos resultados e proveitos que dele se podem esperar. E, no entanto, é o seu imediato uso que elimina a beleza que construiu esse valor. É uma reflexão sobre o efémero e sobre a vida dos objectos que só no contexto específico de uma cultura pode ser desenvolvida. Aqui a arte é entendida como um agenciamento de forças, tal como a definiu Alfred Gell (1998), que institui num lugar destacado um artefacto que se afirma no espaço social. E é reabsorvida ou diluída num dos usos efectivos do objecto: preparar alimentos ao lume. A colecção Wauja que constituímos no Museu Nacional de Etnologia, procurou ter exemplares dos dois estados destas panelas na sua expressão plástica, acabada de sair da mão de quem as fabricou e com o uso acumulado em crostas de comida da sua normal utilização. As crostas são também um elemento do efémero quotidiano que procuramos preservar.

Another example: the spinning rock for wool and linen to be woven by the woman that sits by the fire on winter evenings, is also the object used for shaking the ashes and raking the coals, helping the fire heat, and therefore it is getting burned at its end. This burnt and blackened end is immediately evocative of an inhabited, intimate family space around the fire and it is a profoundly meaningful reading element of the object itself and of the social contexts in which it is used. While observing theses gestures in the villages of Trás-os-Montes where I have been and do know better, and while looking at the collection of spinning rocks in the museum, I question myself about where they came from, when they are not burnt? In what place, would those women weave? How were their houses? Because that small burning mark is a presence of gesturing signs that it is the ephemeral itself, difficult to capture, except for other means that follow the gesture and record it and that here have been fixated on the object itself. 21

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

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