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O paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos

nal de Etnologia, trouxemos um exemplar de cada, tendo conseguido o cesto usado numa das aldeias por onde passámos, por troca com um novo comprado numa feira. A matéria orgânica que o reveste, no Museu, pode levantar problemas pela sua natureza e por ser muito friável, soltando-se com relativa facilidade. Mas é ela que exprime a dimensão mais profunda das condições de utilização deste objecto e o próprio contexto económico e religioso onde é usado: o excremento de um animal sagrado. Alguns recipientes, no decurso do seu uso, perdem a sua estanticidade, indispensável à função para que foram construídos, conter líquidos, conter cereais, passando a ser utilizados para outros fins. Acontece isso com objectos de tanoaria, de cestaria, recipientes em barro, folha-de-flandres ou alumínio, que vêem o seu uso reorientado para finalidades que vão do armazenamento de sólidos ao simples propósito decorativo. O Museu tem que ponderar a parcela de identidade que é captada no percurso de vida destes objectos e não apenas identificá-los a partir da sua função inicial, qualificando o estado da sua conservação como mau ou muito mau, por se encontrar fendido, fracturado, etc., pois esta última condição não impediu, antes conduziu, à sua utilização para outras finalidades. O caminho para a percepção do objecto torna-se mais exigente. Os bens etnográficos, nas relações sociais por onde passam, nas finalidades que se lhes destinam, na identidade que lhes é atribuída e que também perdem, descobrem-se na sua plenitude no terreno onde são colectados e o museu tem de saber restitui-los e remetê-los à sua historicidade concreta. O efémero pode revelar-se no olhar surpreendido pelo reaproveitamento de um objecto tornado inútil, devolvido agora à mais reconfortante e protectora das perenidades: a casa. Tomo como exemplo do que estou a dizer a panela de ferro fundido que, já sem pernas, deixa de ser utilizada para a finalidade que tinha, a preparação dos alimentos ao fogo da lareira, e agora é cravada na parede da casa, com a boca voltada para o interior da habitação, servindo para guardar pequenas coisas. Passa a ser um elemento da sua arquitectura. Esta panela, nesta função, como a trazemos para o museu? Como parte da parede com a sua expressão plástica? E tão importante que ela é como paisagem de gestos e afectos.

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own economic and religious context: the excrement of a sacred animal. Some recipients lose, during their use, isolation properties indispensable to their function and production purposes like keeping liquids or keeping cereals, and they move on to be used for other purposes. This happens to objects produced in cooperage, basketry, earth ware, tin can or aluminium made recipients that see their use reoriented to other ends, from solids storage to a simple decorative role. The museum has to evaluate the parcel of its identity captured over the life course of these objects and not merely to identify them by their original function, qualifying their conservation conditions as bad or very bad because it is fractured or damaged, etc., as this latter condition has not prevented, and on the contrary led them to their use for other purposes. The path to the perception of the object is becoming more demanding. Ethnographic objects, in their social relationships, in the purposes they are assigned to, in the identity allocated to them, that they also lose, find themselves at their fullest on the field where they are gathered and the museum has to know how to return them and send them back to their actual original history. The ephemeral can be seen in the eyes surprised by the recovering use of an object made useless and returned now to the more comforting and protecting of perenniality: the home. I take as an example of what I am saying, the iron pot that, once its legs are lost, ceases to be used for its original purpose, the preparation of food in wood-fire, and is now suspended from the wall of the house, its mouth turned towards the inner house space, by serving to keep small things. It moved on to become an element of architecture. This iron pot, in this function, how shall we bring it on to the museum? As part of the wall for its plastic manifestation? And so important that it is as a landscape of gestures and affections. Another example: the Wauja Indians, the great ceramists from Xingu in the Brazilian Amazonia. The most valued objects they produce are the very large pots where they boil manioc and fish at the time of gathering ceremonies that involve large numbers of people. Those pots, after being moulded, are painted with extreme care, resorting to pattern drawings and the creative ability of its maker. The result is an object that its

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

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