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O paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos

Canadá, como antepassados a sepultar nas suas próprias terras. Mas este não é o aspecto mais central da nossa reflexão, apesar das questões conceptuais que levanta sobre o museu e as legitimidades com que acede e usa os bens que guarda e a própria transformação em coisa da parte material que resta da figuração do sujeito. Os ritmos que estruturam o calendário, a sua sazonalidade e expressão cíclica, continuam a acompanhar-nos na modernidade das estações e dos dias da grande cidade. Para além do próprio mundo natural que a cidade comporta e que lhe dá as cores e as temperaturas da estação do ano, ela própria se constitui em natureza, que gera a sua paisagem, os seus próprios ritmos e a sua ciclicidade. Manifesta-se, por exemplo, nas linguagens e expressão plástica que constroem o espaço urbano nos grandes placards ou paredes cobertas de publicidade, relativa às épocas que abrem e encerram os espectáculos (touradas, cinema, revista, ano escolar, etc.). A publicidade conjuga as duas dimensões inseparáveis da questão que nos ocupa. A sua presença é constante, situa-nos num universo de desejos partilhados, de utopias, e também de consumos e quotidianos concretos e, no entanto, ela é fugaz pelos produtos que se sucedem e que em cada corte temporal nos dão também a expressão de uma época ou de um curto momento, com efeitos que participam da elaboração da nossa identidade individual, pela sua hábil, insinuante e recorrente presença. Numa leitura sobre a cidade, as paredes dos cartazes publicitários e a sua acumulação e sobreposição são bens etnográficos preciosos que não temos sabido guardar, a não ser na individualidade solta e fria do cartaz antes de colado. E, no entanto, os criadores fizeram-no como pode ser ilustrado pela exposição de Jacques Villeglé, «La comédie urbaine» (2008), apresentada no Centro Georges Pompidou, artista que construiu toda a sua obra nesse processo de arrancar a espessura acumulada de cartazes sobrepostos nas paredes de Paris e outras cidades. A moda é igualmente um campo extremamente elucidativo. Ela é um acontecimento marcado pela ousadia, vestida em traços de arrogância e da expressão de um poder que escapa ao habitante comum. Diríamos que ela é um efémero eufórico que fabrica o tempo, e esse processo de fabricação resulta da preocupação de diferença

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the transformation itself into a thing from what remains of the figure of subject. The rhythms that structure the calendar, the season and cyclical expression go on accompanying us throughout the modernity of our seasons and days in the big cities. Beyond the natural world within the city, the one that gives it the colours and temperatures of the season of the year, the city itself becomes nature generating its own landscape, its own rhythms and cycles. It shows itself, for example, through the languages and plastic expression that raise the urban space on the large placards or walls covered by advertising, related to the social seasons that open and close shows (bullfighting, movies, boulevard theatre, school year, etc.). Publicity combines the two inseparable dimensions of what we are discussing. Its presence is constant, it places us in a universe of shared desires, utopias and also of clear and daily consumptions, and yet it is fleeting through the products that, one after the other, at each time slice, also giving us the expression of an age or of a short moment, with effects that take part in the making of our individual identity by its able, ingratiating and recurrent presence. On any reading of a city, the walls of advertising posters and their accumulation and papering over are precious ethnographic objects that we have not known how to keep except for its loose and cold individuality before being pasted on. And yet, creators have done it, as is demonstrated in the exhibition presented at the George Pompidou Centre by Jacques Villeglé, ��������������� “La comédie urbaine” (2008), an artist that has developed all his works through the process of pulling up all the cumulative thickness of posters over posters, from street walls in Paris and other cities. Fashion is equally an extremely revealing field. It is an event marked by audacity dressed up in traces of arrogance and an expression of power that eludes the commoner inhabitant. We could say that it is one euphoric ephemeral that creates time and that making process results from the difference of materials, shapes, colours, bodies, languages, in relation to previous years, even when retaking up something from a more or less recent past. And in this way, it allows itself to handle time and to retake ownership for the topicality it creates. Yet, while both differing each and every year and as a differentiated work from each and

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

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