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Uma outra dimensão deste mesmo processo exprime-se nos rituais de passagem que marcam a vida dos indivíduos e que, pela sua repetição, lidam com o tempo numa ambígua relação de celebração e de recusa. A circulação dos bens, a palavra e o gesto codificados, as performances, as máscaras e outros artefactos operadores do ritual, vão recorrentemente emergindo em gerações sucessivas, sinalizando os momentos decisivos que pontuam a vida do nascimento à morte, participando de uma temporalidade que permite lidar com a usura do tempo e o sofrimento da perda. Também aqui o efémero pode atingir o registo da excelência manifestando-se, tal como nos outros casos, na utilização de objectos cujo pleno sentido se encontra no acto da sua destruição. A exibição das vistosas comidas de uma boda de casamento, o bolo da noiva, as doçarias e o registo de inutilidade, excesso e transgressão que as envolve e as associa a dias e momentos festivos, encerram a plenitude do seu sentido quando estão a deixar de o ser, no próprio acto da manducação. Que faz o museu com isto, além de uma documentação em registo – fotografia ou filme – deslocados para o plano de um património imaterial que, no entanto, se constrói na materialidade mais física, presente e insinuante de uma mesa posta, das travessas plenas, da vistosa arquitectura em que se transformou um bolo diferente dos outros, habitado pelo casal em miniatura que o remata? A propósito de comida, e fazendo uma pequena pausa, como irá proceder o museu se quiser, por exemplo, constituir uma colecção da totalidade dos queijos portugueses no início do séc. XXI? Como desactivar os princípios da sua alteração ou decomposição? Como eliminar-lhes o cheiro? Como manter-lhes o cheiro, para os diferenciar e distinguir, descobrir as suas qualidades? Como conseguir manter a sua forma e volumetria, que o tempo naturalmente altera? E para quê constituir esta colecção? Numa recente exposição («La Louvre», 2008) do colectivo de artistas contemporâneos, Geli-

Another dimension of this very same pro­ cess expresses itself through rites of passage that mark people´s lives and that, through repetition, deal with time within an ambiguous relationship of celebration and refusal. The circulation of goods, the coded word and gesture, the performances, the masks and other artefacts as rites operators are recurrently emerging in successive generations signalling decisive life moments from birth to death, partaking of a temporality that allows for dealing with the usury of time and pain of loss. Here also, the ephemeral may reach excellence and manifest itself, just like the other cases, through the usage of objects whose sense exists within the action of destruction. The exhibition of lavish meals at a wedding party, the wedding cake, the sweet deserts and the expression of uselessness, excess and transgression that surrounds them and associates them to festive days and moments, bring to a close the wholeness of their sense at the very moment when they cease being it, through the very chewing action. What does a museum do with it, beyond documenting it through film or photography, displaced to an immaterial heritage plan yet built upon the most physical, present and ingratiating materiality of a displayed table, full serving plates, appealing architecture of a cake different from all the others and inhabited by a miniature couple on the top?

The paradigm of contemporary art and ethnographic objects

possam ser documentadas. Documentação essa que se torna cada vez mais importante e indispensável; e se deve tornar cada vez mais exigente no plano técnico, na metodologia, no exercício de um olhar criativo. Mas não se poderia ir para além da simples documentação? Voltarei a falar disso em breve.

Talking about food, and while making a short pause, how is a museum to proceed should it wish to, for example, gather a collection of the totality of Portuguese cheeses at the early 21st century? How to deactivate the principles of its changing or decomposing? How to eliminate their smells? How to keep their smells so as to differentiate them and distinguish, and find out their properties? How to achieve the maintaining of their shape and volume naturally changed through time? And why should such a collection be assembled at all? At a recent exhibition (“La Louvre”, 2008) of the Gelitin collective of contemporary artists I was able to visit in the Paris Museum of Modern Art, there was, among the works of one of the authors, a huge foot sculptured in cheese. There was a smell of cheese in the room. The fingers, slightly outward from the supporting base, were bent through the heat or through their own material mass making density. I have no further elements available to allow me a judgement on what the art15

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

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