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O ritual produz um efeito de repetição cíclica, marcando estações ou momentos do ano e dias festivos que dão a ver artefactos que só então são construídos ou exibidos e que, na maioria dos casos, são também destruídos. É este o pleno domínio do efémero, aquele onde se manifestam frequentemente as maiores capacidades de elaboração plástica e de projecção conceptual e simbólica do grupo e de criação individual de alguns dos seus membros, em obras que, no entanto, se torna muito difícil, senão impossível, guardar ou preservar. Elas celebram, numa exibição de beleza, excesso e artifício, a comunidade nos modos de se ver a si mesma e de se dar a ver aos outros. As armações das festas, os tapetes de flores, a pirotecnia, a recriação do espaço pela vegetação ou outros materiais perecíveis, as iluminações, os manjares cerimoniais, são exemplos de objectos que se podem incluir no amplo domínio das colecções etnográficas mas que os museus dificilmente podem guardar enquanto tais, e que só outras formas de registo e documentação permitem reter como memória e conhecimento. Do ponto de vista do museu, muitas adaptações, concessões, reduções, improvisações e outros acertos terão de ser feitos para as soluções de conservação, armazenamento e exposição destes objectos. Uma colecção de pirotecnia, por exemplo, terá de ser desactivada da sua perigosidade, é o invólucro que nos fica. Das obras elaboradas com matérias vegetais viçosas, o que fazer com elas par lhes manter a estabilidade estrutural, a densidade, a cor, a frescura que evoca os registos de diálogo e celebração cultural da natureza? E as elaborações gastronómicas, intenso e exaltante efémero que religa os indivíduos e constitui os grupos, como trazê-las para o museu? Claro que, em alguns contextos, a representação de si mesmas transforma-as já num registo de perenidade, como o colorido mostruário plastificado dos pratos dos restaurantes japoneses que assim se tornam expressivos objectos etnográficos enquanto modo de promover, comunicar, cativar e, sobretudo, dizer de uma forma rápida aos possíveis clientes os conteúdos que os compõem; e

Rituals produce an effect of cyclical repetition by marking seasons or moments of the year and festive days that give us artefacts that, only at that time, are construed or exhibited and whose vast majority is also destroyed. This is the full domain of the ephemeral, one where frequently the better capabilities for plastic elaboration as well as conceptual and symbolic projection and individual creation of some of its members in works of art become very difficult if not rather impossible, to keep or to preserve. Through an exhibition of beauty, excess and ingenuity, they celebrate a community of ways to see and show itself to others. The wire framings for fairs, the flower tapestries, pyrotechnics, the recreation of space through vegetation or some other perishable materials, lighting works, gastronomic ceremonies, these are all examples of objects that can be included in the wide domain of ethnographic collections but ones, however, that museums can hardly keep as such and ones that only some other recording and documental ways allow for retaining as memory and knowledge.

The paradigm of contemporary art and ethnographic objects

acompanham-no e, na sua materialidade e historicidade, são uma das figurações do próprio tempo. Já os primeiros surgem e desaparecem, sobretudo, em situações e contextos de grande ritualização. Começaremos por falar destes.

From the viewpoint of the museum, many adaptations, compromises, reductions, im­­­ pro­­visations and other adjustments will have to be made as solutions for conservation, storage and exhibition of those objects. A pyrotechnics collection, for instance, will have to be deactivated from its dangers and only their casing will remain. From works made from fresh vegetable materials, what to do with them so as to maintain the structural stability, their density, colour and freshness, evoking the registers of dialogue and the cultural celebration of nature? And what about the gastronomic elaborations, such an intense and exalting ephemeral that reconnects individuals and gathers groups, how to bring them to museums? Of course, in some contexts, the representations of themselves change them into a recording of perenniality, like the colourful plastic card charter of dishes at Japanese restaurants that thus become expressive ethnographic objects as a way to promote, communicate, appeal and, above all, to quickly say their content to possible customers; as well as an element of urban landscape. The festive wire frames began by being locally made with vegetable materials locally available, themselves being simultaneously a frame and a decoration, and turning into garbage by the end of the fair; in some places, they have become de­ 13

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

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