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Poder-se-á admitir que a probabilidade de haver combustão da pólvora presente no barco possa ser reduzida, hipótese suportada pela chegada do objecto até nós. De qualquer modo não podemos negligenciar que a sua presença em contexto museológico constitui um perigo potencial para outros bens culturais, para funcionários e para visitantes. Estado de conservação O material pirotécnico constitui a evidência mais imediata de que estamos na presença de um objecto de carácter efémero. Há no entanto outros aspectos que demonstram que esta réplica de um barco das flores não foi concebida para perdurar no tempo, e de onde também resultaram problemas para a sua conservação. Se, por um lado, parece ter havido por parte do artesão a preocupação com questões estéticas, com a fidelidade da réplica e com o seu funcionamento enquanto artefacto pirotécnico, regista-se também a utilização intencional de materiais de fraca qualidade e, por conseguinte, pouco duráveis. A presença de papel de baixa qualidade [9], a utilização de ferro, de ligas de cobre e de estanho em contacto com o papel e as tensões causadas pela heterogeneidade entre o comportamento do papel e a estrutura de bambu contribuíram para a degradação do barco. Inicialmente, o barco encontrava-se inclinado para o lado esquerdo devido à fractura de uma das varetas de bambu, no casco, o

The paradigm of contemporary art and ethnographic objects

va a haver deposição de material na parte inferior do barco. Este facto constituía um problema na medida em que a pólvora encontrava-se exposta, a sua presença encontrava-se generalizada a outras áreas do barco e o seu manuseamento implicava a deposição de material pirotécnico nas luvas ou nas mãos. Como já foi referido anteriormente o barco foi manufacturado de forma a que a combustão da pólvora se propagasse por todo o objecto. Como a maioria dos materiais utilizados na manufactura são inflamáveis, nomeadamente o papel, a seda e o bambu, seria espectável que, em caso de activação do material pirotécnico, todo o objecto fosse rapidamente consumido pelo fogo. É provável que a combustão dos engenhos pirotécnicos viesse a causar danos no espaço evolvente caso não se encontrasse devidamente isolado, sendo a extensão destes danos é difícil de prever.

paper, silk and bamboo, you would expect that as soon as the pyrotechnic material was activated, the entire object would go up in flames. It is likely that the combustion of the pyrotechnic devices would cause further damage to the surrounding space, should it not be isolated. However, the extension of this damage is difficult to ascertain. While assuming the likelihood of combustion of the gun powder present on the boat might be minimal, we cannot neglect the fact that its presence in a museum context offers potential danger to other cultural objects as well to staff and visitors. Conservation condition The pyrotechnic material is the most immediate evidence that we are in the presence of an object of ephemeral purpose. However, there are other features to demonstrate that this reproduction of a flower boat has not been a long lasting creation and some conservation problems have resulted from these. If, on one hand, there seems to have been a concern for aesthetics considerations on the part of the artisan, as well as for the faithful reproduction and its workings as a pyrotechnic artefact, on the other hand, there has also been an intentional use of poor quality materials and therefore, short durability. The presence of low quality paper [9], the use of iron, copper and tin alloys in contact with the paper and the tensions caused by the heterogeneity between the behaviour of paper and the bamboo structure have contributed to the degradation of the boat. Initially, the boat was slightly tilted to its left side due to the fracture of one of the hull´s bamboo sticks, something that originated tensions over other areas of the structure and over some paper elements and has been at the origin of ripping. The progressive oxidation of wires joining the bamboo sticks, their consequent loss of flexibility and fracture has also aggravated the fragility problem of the structure. Several silk and paper elements also showed loss of flexibility and cohesiveness, mainly the ornaments at the boat´s stern, the calligraphic papers at front entrance, the woodcut paper applied on the upper deck and a large part of the paper enveloping the “panchões”. In many of those cases,

[9] O papel manufacturado a partir de fibras de bambu, mais curtas e com menor quantidade de celulose, degrada-se geralmente mais depressa do que, por exemplo, o papel xuan, feito de sândalo ou o papel de amoreira. Estes são, no entanto, mais dispendiosos. Esta selecção de materiais é comum na China, em objectos que se destinam a ser queimados, permitindo baixar substancialmente o custo de produção [18]. [9] Paper manufactured from bamboo fibres, which are shorter and lower cellulose quantity, usually degrades faster than, for example, xuan paper, made from sandalwood, or mulberry paper. These, however, are more expensive. This selection of materials is usual in China for objects designed to be burnt and it allows substantially lowering the production cost [18].

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A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

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