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Perante este parecer, a conservação da arte efémera revela-se absurda, porque uma vez que existem obras com determinada durabilidade, elas têm de desaparecer por definição. A acção artística efémera, sem futuro, permitiu que os artistas se exprimissem através de experimentalismos, de uma forma mais arriscada e gratuita. Foi uma crítica deliberada para a teorização de ideias e objectos, um desperdício revolucionário contrário à conservação. Obras deste tipo, aparentemente, não podiam coexistir com instituições como Museus, pois estes tendem a colocá-las num estado que vai contra o seu objectivo original. Mas este é apenas o início de um vasto problema: quantas vezes não existe o risco de afastar o artista da sua criação, quanto do seu momento original é perdido ao codificá-lo e inseri-lo em esquemas? A acção efémera atrai naturalmente o espectador e leva-o a concentrar-se e a capturar o momento exacto, após o qual restará apenas a memória. Só o artista pode decidir se o que foi criado em determinado momento pode ou não ser repetido, ou se apenas pode ser recordado por meio da memória. As documentações gráficas, fotográficas e de vídeo das obras efémeras assumem agora um valor fundamental como momento inicial da sua execução. O principal ponto a adquirir é a opinião do artista, a sua opção sobre a reconstrução de uma obra que inicialmente foi criada para não ser duradoura. Allan Kaprow foi o primeiro artista que realizou em 1959 um happening: ele acreditava que este acontecimento só podia existir uma vez [6]. Outros artistas, como Robert Morris, Bruce Nauman, permitiram a reconstrução das suas obras dando instruções precisas sobre o cenário a recriar. Museus e colecções acolhem cada vez mais obras não duradouras, e é evidente que as réplicas e as reconstruções tornaram-se valiosos objectos de documentação, em que o testemunho histórico tem um maior valor.

The paradigm of contemporary art and ethnographic objects

original. A única opção possível é a de conservar o original de forma que não deixe margem para dúvidas sobre a autenticidade.»

In this opinion, the conservation of ephemeral art seems nonsense, because since there are works with limited durability they have to disappear by definition. The ephemeral artistic action, without future, allowed artists to create in a more experimental way, in a more risky and free manner. It was a deliberate critique to the compelling theorisation of ideas and objects, a revolutionary waste contrary to conservation. Works of this sort could not apparently coexist with institutions such as museums, because they seem to put them in a contradictory status against their original statement. But this is only the beginning of a larger problem: how many times is there a risk to extraniate the artist from his creation, how much of the original moment is lost in codifying and inserting it in sharp schemes? The ephemeral action is naturally compelling for the viewer and makes him concentrate and catch the precise moment, after which there will be only memory. Only the artist can decide whether what was originated within a given moment can be repeated, or remembered only through memory. Graphic, photographic and video documentation of the ephemeral works assume now a fundamental value as the original moment of execution. The most important point is the artist’s opinion, his option about the re-proposition of a work initially created to be short lived. Allan Kaprow was the first artist who realised in 1959 an happening: he believed that this event could exist only once [6]. Other artists, as Robert Morris, Bruce Nauman, for instance, allowed the reconstruction of their works, giving precise instructions on the scenario to be recreated. Museums and collections host more and more non-lasting works of art, and it is evident that replicas and re-propositions have a value of documentation, where the historic testimony is the greatest value. But it is important to keep thinking about this theme, because at a distance of only a few years it is impossible to understand the surrondings where expressive movements as Body Art, Eat Art, Happenings and Process art developed. It is necessary to keep the memory alive through the testimony of collaborators, promoters and viewers who lived the moment directly.

[6] Allan Kaprow «Assemblage, Environment, Happening», Harry N. Abrams, Nova Iorque, 1966.

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A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

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