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O paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos

Teremos nós consciência de que o transitório e o efémero perseguido pelos artistas contemporâneos os leva a escolher materiais perecíveis e susceptíveis de modificações e rápida degradação? De que «musealizámos» objectos rituais ou funerários, que sabemos seguramente serem sagrados e secretos? Aqueles de que tanto fala Myriam Clavir. Temporalidade, fragilidade extrema dos ma­teriais, fugacidade, são algumas das noções ligadas à produção artística contemporânea ou aos bens etnográficos. Conservar estas obras não é só sinónimo de salvaguarda material mas implica também o respeito pela intenção do artista/criador que, por vezes, paradoxalmente exige ou determina uma degradação irreversível do objecto, ou mesmo a sua destruição. A arte efémera é, pois, um manancial imenso de reflexão conceptual para o museólogo e o conservador-restaurador. Os problemas que coloca levam-nos a equacionar questões como a da legitimidade de uma conservação alternativa (a documental), da validade de princípios de originalidade, unicidade e reprodução e da inquestionabilidade dos problemas de au­­ tenticidade. Este Encontro foi pensado como uma abordagem ético-filosófica à questão da efemeridade e na forma como interfere, condiciona ou até restringe a actuação do conservador-restaurador. Discussão de conceitos, de opções e critérios de intervenção; e ainda, de alternativas que o avanço científico e tecnológico põem à nossa disposição. Um sem-número de leituras possíveis, que teremos, certamente, a oportunidade de explorar em conjunto. Por último, resta-me agradecer a todos os que tornaram possível este Encontro: as instituições parceiras, os oradores, que aceitaram o nosso convite, entre os quais Alberto Carneiro, que amavelmente nos cedeu a fotografia que o ilustra e que é a súmula do que se pretendia: arte contemporânea, materiais etnográficos e, decididamente, uma obra efémera. Gostaria ainda de agradecer o estímulo e incentivo que, para nós, representa a presença da Sr.ª Secretária de Estado da Cultura aqui.

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terity something that has been created so as not to survive or, sometimes, not to be seen? Are we aware that the ephemeral and the transitory pursued by our contemporary artists leads them to choose materials that are perishable and susceptible to changes and fast degradation? Are we aware that we have been housing ritual or funerary objects that, as we know for sure, were sacred and secret? Those which Myrian Clavir talks so much about. Temporality, extreme fragility of materials used, fugacity, are just a few of the notions linked to contemporary artistic production or to ethnographic artifacts. Conserving these works is not only a synonym for material safeguarding but also implies respecting the intention of the artist/creator who, sometimes, paradoxically, demands or determines an irreversible de­gradation of the subject or even its destruction. Ephemeral art is, therefore, a huge source of conceptual reflexion for both the museologist and the conservator-restorer. The problems it raises lead us to creating issues such as the legitimacy of alternative conservation (documental), the validity of principles on originality, uniqueness and reproduction and also the unquestionability of the problems of authenticity. This Meeting has been thought out as an ethical-philosophical approach to the question of the ephemeral and the way it interferes, conditions or even restricts the performance of the conservator-restorer; a discussion on concepts, choices and criteria for intervention; and, also, on alternatives made available to us by scientific and technological advance. These are countless possible views which, surely, we will have the opportunity to explore together. Lastly, I would like to thank all those who made it possible to put together this Meeting: the partnership institutions, the speakers who have accepted our invitation, among them, Alberto Carneiro, who kindly has sent us his illustrating photo, one that encapsulates what we were looking for: contemporary art, ethnographic materials and, definitively, an ephemeral work. I would also like to thank the encouragement and incentive that it represents for us

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

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