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E contudo, tal como Harald Szeemann sugeriu em 77, o museu pode ser «o lugar central para expor o frágil e testar novas relações». Szeemann entendeu bem que, e volto a citar, «a exposição é um incomparável lugar de liberdade que oferece oportunidades extra­ordinárias» [5]. Falava precisamente das opor­tunidades para problematizar a arte desses anos cuja pre­­­servação hoje nos preocupa. Referindo-se ao mesmo período, no contexto da exposição «Live in your Head», o artista Michael Craig-Martin comentou: «ninguém sa­bia quais eram as regras nem se o que faziam era arte. Nem sabiam como mostrá-lo».

The paradigm of contemporary art and ethnographic objects

guram necessariamente a conservação física e conceptual das obras expostas. O tempo, esforço e meios consideráveis necessários para organizar são tipicamente orientados para os resultados visuais imediatos e nem sempre têm em conta a perspectiva de longo prazo. Em consequência, os procedimentos de conservação mais apropriados nem sempre são seguidos: por vezes o trabalho de restauro é reduzido ao mínimo e não é devidamente registado, outras vezes a intenção inicial do artista não é respeitada pelas estratégias expositivas adoptadas, outras vezes ainda a reconstrução de uma obra por um artista para uma determinada exposição não é devidamente documentada e a obra perde-se de novo após o final da exposição.

that offers extraordinary opportunities” [5]. He was speaking precisely of opportunities to question the new art of those years about whose preservation we are concerned today. In relation to the same period, in the context of the exhibition Live in your Head, artist Michael Craig-Martin said “No one knew what the rules were, or whether or not what they did was art. Nor did they know how to present it”. Well, today we are sure that it is art. As to how to show it, I think that we are still in the process of finding out the possibilities of this medium that is the exhibition, to explore not only the multiple ways in which this art is relevant today but also to look at the exhibition not just as a moment of further risk of degradation of these objects but as an opportunity to reinvent new strategies for its survival.

Ora bem, hoje temos a certeza que é arte. Quanto a como mostrá-la, penso que estamos ainda em processo de descoberta das possibilidades de potenciar o veículo que é a exposição para não só explorar as múltiplas relevâncias que essa arte continua a ter no presente mas também para, ao contrario de a considerar sobretudo como um momento de desgaste e de risco adicional de degradação para esses objectos, encarar e utilizar a exposição como uma oportunidade de reinventar ainda outras estratégias para a sua sobrevivência.

[5] Harald Szeemann, Écrire les Expositions, Bruxelles, La lettre volée, 1996.

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A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos  

Macedo, Rita; Silva; Raquel Henriques da, A arte efémera e a conservação: o paradigma da arte contemporânea e dos bens etnográficos/ Ephemer...

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