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Ano II — Nº 66

30 de Novembro a 06 de Dezembro de 2013

Deus sempre se coloca ao lado dos perseguidos e nunca do lado de quem persegue.

Caríssimos/as amigos/as do IPDM, saudamos a todos desejando-lhe saúde e paz. Estamos entregando a vocês nosso informativo número 66. Como vocês poderão observar, o conteúdo deste exemplar diferencia-se dos anteriores no que se refere aos artigos, opiniões e reflexões sobres temas variados. Estamos destacando, atendendo a inúmeros pedidos recebidos, dois assuntos que ocuparam a mídia mundial nos últimos dias, ambos ligados às ações do Papa Francisco e as mudanças por ele sinalizadas para a Igreja. O primeiro, trata do documento preparatório para a III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, que será realizada em Roma entre os dias 05 e 19 de Outubro de 2014. Referido documento contém um questionário que versa sobre questões concernentes a diversos aspectos da vida familiar. Intitulado “Os desafios pastorais sobre a família no contexto da Evangelização”, o questionário se divide em 9 tópicos com várias perguntas em cada um deles totalizando 38 questões. Trata-se de um marco histórico para a Igreja. Um Papa se dirige diretamente aos leigos pedindo-lhes sua colaboração e participação. Em muitos países, grupos estão sendo organizados diretamente nas paróquias para responderem ao questionário e encaminhando suas resposta diretamente para o Vaticano. Nós do IPDM estamos propondo à vocês que façam o mesmo, que participem conosco da formulação das respostas às questões apresentadas e juntos as enviemos ao Vaticano. Para que nosso trabalho seja feito em harmonia, disponibilizamos para vocês as questões, orientações e algumas respostas já formuladas que podem nos auxiliar em nossa tarefa. Veja tudo em detalhes a partir da página 06. No decorrer da semana que se encerra, foi publicada a primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco. A Evangelii Gaudium. Poderia ser uma “simples” Exortação Apostólica Pós-Sinodal, como muitas outras. Mas o Papa Francisco escreveu uma que representa um documento chave do seu Pontificado. Em primeiro lugar está a “Alegria do Evangelho”, como diz a versão original escrita em espanhol. Mas o Papa Francisco falou praticamente de tudo: economia, bem comum, comunicação, tecnologia, ciência, antropologia, política, ecologia, linguagem, religiões. E fez também esboços concretos sobre os temas que mais interessam ao mundo contemporâneo: violência, crise, exclusão, busca da dignidade, respeito à vida, liberdade, exploração, diálogo, entre outros. Como se não bastasse, ele também explorou a psique humana e comportamentos sociais como o egoísmo, individualismo, espiritualidade, comodidade, avareza, prazer, autossatisfação, perda de sentido e solidão. E propôs perspectivas para abordar âmbitos sociodemográficos precisos: mulheres, pobres, povos indígenas, jovens, vítimas das novas formas de escravidão, ministros, consagrados etc. Mais parecida com uma encíclica, esta exortação apostólica oferece muitas pautas, mas a primeira e talvez mais importante é a humildade: “Nem a Igreja possui o monopólio da interpretação da realidade social ou da apresentação de soluções para os problemas contemporâneos”. Leia mais na página 04. Você irá observar também, que mudanças foram feitas na seção “Liturgia”. A partir desta semana, traremos para vocês não somente as reflexões propostas por nossos teólogos para o final de semana, mas também, para a semana seguinte. Neste número, trazemos as reflexões dos Padres Alberto Maggi e José Antonio Pagola para este domingo, o Primeiro do Advento. Maggi nos fala sobre as perseguições que o cristão sofre e nos alerta para a promessa de Jesus. Em sua visão, Deus jamais se colocará ao lado dos perseguidores. Leia a reflexão na íntegra na página 02. Pagola por sua vez, chama nossa atenção para vivermos em vigilância constante a fim de enxergarmos para lá dos nossos pequenos interesses e preocupações, lembrando-nos que a espiritualidade cristã não consiste apenas num olhar para o interior, pois o seu coração está atento a quem vive abandonado à sua sorte. Veja na página 03. Padre Libânio, brinda-nos com uma reflexão maravilhosa sobre a Imaculada Conceição de Maria que a Igreja celebrará no próximo domingo, dia 08 de dezembro. Também na página 3. Desejamos a todos ótima leitura.

Professor Waldir A. Augusti


LITURGIA

1ª: Is 2, 1-5 2ª: Rm 13, 11-14ª

Sl: 121 (122) Ev: Mt 24, 37-44

Padre Alberto Maggi São os últimos discursos de Jesus e o evangelista Mateus os carrega de grandes significados teológicos. Infelizmente, estes trechos, fora de contexto, não podem apresentar todas as suas belezas. Vamos ver com calma o que podemos entender. Primeiro: a leitura de hoje começa com o versículo 37; porém sem o versículo 36, não fica claro. De fato no versículo 36 Jesus disse: "quanto a este dia e essa hora ninguém sabe nada, nem mesmo os anjos do céu, nem o Filho. Somente o Pai é quem sabe ". O que significa isso? Se, a respeito de Jerusalém Jesus tinha assegurado que: "Eu garanto a vocês: tudo isso acontecerá a essa geração” - a destruição de Jerusalém acontecerá, de fato, no ano em 70 - sobre o fim de cada geração, Jesus se remete ao Pai. Para cada geração há um fim no tempo. Portanto fala-se a respeito do fim das pessoas. E Jesus continua: “A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé”. Jesus junta a sua proposta de salvação àquela feita por Noé e aponta a uma mudança de época: amadurecimento da humanidade e a salvação apresentada em uma nova forma. O dilúvio não foi, de fato, o fim do mundo, mas o início de uma nova comunidade, de uma nova humanidade que foi renovada. Então Jesus une os dias de Noé aos dias do Filho do Homem. Temos aqui duas propostas de salvação: Noé com a arca, Jesus com o reino de Deus. “Porque, nos dias antes do dilúvio todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento”. Portanto, alimentar-se, casar- se, dar-se em casamento são ações ordinárias da normalidade da vida; porém, Jesus adverte, podem trazer o risco de não perceber e se dar conta do caráter extraordinário dos eventos que estão para acontecer. De fato Jesus diz: “E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio, e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem”. Então, Jesus nos convida para estar acordados, atentos, para não ficar presos na rotina da vida ordinária. “Dois homens estarão trabalhando no campo...”. E aqui a tradução não ajuda “um será levado, e o outro será deixado”. A palavra grega usada pelo evangelista é “paralambano” que significa também "levar", mas no sentido de “receber - acolher”. A mesma palavra a encontramos no início do Evangelho de Mateus, quando o anjo diz a José "não tenha medo de receber a Maria como esposa" (Mt 1,20). Portanto “não levado” e sim “será recebido, acolhido” para a salvação. “Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada, a outra será deixada”. Também aqui: “acolhida” e não “levada”. O que é que o evangelista quer nos dizer com estas imagens? Como a Arca de Noé não acolheu, não recebeu a todos, mas apenas os que tinham percebido a catástrofe iminente, assim no reino de Deus são acolhidos, recebidos, aqueles que aceitam a mensagem de Jesus A salvação oferecida por Deus é para todos, mas não é de todos, porque para acolhê-la é preciso escolher a conversão, a mudança dos valores que regem a conduta do homem e especialmente escolher a primeira bem-aventurança, "Deles", diz Jesus na primeira bemaventurança, isto é: daqueles que escolhem voluntariamente a pobreza "Deles é o reino do céu”. Portanto, não se trata de imagem negativa: "levado", e sim "aceito para a salvação”. E depois Jesus convida a estar vigilantes. “Portanto, fiquem vigiando”! - este convite para vigiar será repetido três vezes até chegar ao Getsêmani e, portanto Jesus o associa já agora à perseguição - “Porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor de vocês”. O momento da verdade é o tempo de perseguição, o momento da captura de Jesus, da sua morte, o momento da perseguição dos discípulos, são estes os momentos onde se vê quem aceitou a mensagem de Jesus e quem não a aceitou. E Jesus continua: “Compreendam bem isto: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente ficaria vigiando, e não deixaria que a sua casa fosse arrombada”. A qualquer momento, adverte Jesus, pode desencadear-se a perseguição, e esta será tanto mais violenta quanto mais inesperada será a sua proveniência. Jesus já tinha dito que os discípulos teriam sido odiados e mortos por seus próprios familiares. E aqui está a conclusão: “Por isso, também vocês estejam preparados. Porque o Filho do Homem virá na hora em que vocês menos esperarem”. Portanto o evangelista resume e reformula as duas bem-aventuranças. (Mt 5,1-10) A primeira bem-aventurança: para ser recebido na salvação é preciso acolher e viver a bem- aventurança da pobreza, que permite ter Deus como rei. Desta maneira os efeitos negativos da pobreza são eliminados. Depois a última bem-aventurança: aquela da perseguição por causa da fidelidade a esta mensagem. Também neste caso, os perseguidos têm Deus como rei, porque Deus sempre se coloca ao lado dos perseguidos e nunca do lado de quem persegue.


Padre José Antonio Pagola

As primeiras comunidades cristãs viveram anos muito difíceis. Perdidos no vasto Império de Roma, no meio de conflitos e perseguições, aqueles cristãos procuravam força e alento esperando a pronta vinda de Jesus e recordando as suas palavras: Vigiai. Vivei despertos. Tende os olhos abertos. Estai alerta. Significam todavia algo para nós as chamadas de Jesus a viver despertos? Que é hoje para os cristãos colocar a nossa esperança em Deus vivendo com os olhos abertos? Deixaremos que se esgote definitivamente no nosso mundo secular a esperança numa última justiça de Deus para essa imensa maioria de vítimas inocentes que sofrem sem culpa alguma? Precisamente, a forma mais fácil de falsear a esperança cristã é esperar de Deus a nossa salvação eterna, enquanto viramos as costas ao sofrimento que há agora mesmo no mundo. Um dia teremos que reconhecer a nossa cegueira ante Cristo Juiz: Quando te vimos faminto ou sedento, estrangeiro ou nu, doente ou na prisão, e não te assistimos? Este será o nosso diálogo final com Ele se vivemos com os olhos fechados. Temos de despertar e abrir bem os olhos. Viver vigilantes para ver para lá dos nossos pequenos interesses e preocupações. A esperança do cristão não é uma atitude cega, pois não esquece nunca os que sofrem. A espiritualidade cristã não consiste apenas num olhar para o interior, pois o Seu coração está atento a quem vive abandonado à sua sorte. Nas comunidades cristãs temos de cuidar cada vez mais que o nosso modo de viver a esperança não nos leve à indiferença ou ao esquecimento dos pobres. Não podemos isolarnos na religião para não ouvir o clamor dos que morrem diariamente de fome. Não nos está permitido alimentar a nossa ilusão de inocência para defender a nossa tranquilidade. Uma esperança em Deus, que se esquece dos que vivem nesta terra sem poder esperar nada, não pode ser considerada como uma versão religiosa decerto otimismo a todo custo, vivido sem lucidez nem responsabilidade? Uma busca da própria salvação eterna de costas aos que sofrem, não pode ser acusada de ser um subtil “egoísmo alargado para mais longe”? Provavelmente, a pouca sensibilidade ao sofrimento imenso que há no mundo é um dos sintomas mais graves do envelhecimento do cristianismo atual. Quando o Papa Francisco reclama “uma Igreja mais pobre e dos pobres”, está a gritar-nos a sua mensagem mais importante aos cristãos dos países do bem-estar.

REFLEXÕES PARA O PRÓXIMO DOMINGO

Padre João Batista Libânio A festa de hoje confunde muitos cristãos, sobretudo por causa do Evangelho, que fala da concepção virginal de Jesus no seio de Maria. Muitos pensam que a festa de hoje é essa, mas não é. Hoje celebramos a concepção de Maria no seio de sua mãe – a Imaculada Conceição. Como não há nenhum relato bíblico sobre a concepção de Maria, lemos esse texto. Quando Maria foi concebida, Jesus não existia. Ninguém sabia que aquela menina um dia seria a mãe de Deus. Nada foi escrito sobre a sua concepção. A Liturgia toma outro Evangelho para dizer que, se Maria foi imaculada na sua concepção, foi pela concepção que ela teria de Jesus. Para nós isso não é possível. Como podemos, antes de acontecer determinada realidade, fazer com que essa realidade atue em nós? Ninguém pode fazer com que o fato que irá acontecer daqui a dez anos tenha influência em nossa vida hoje. Mas para Deus é diferente. Temos que pensar Deus como alguém que tem diante de si toda a história. Mais ainda: desde toda a eternidade, a Trindade já tinha Jesus Cristo diante de seus olhos. E é diante desses olhos que o mundo foi criado. Há 15, 20 bilhões de anos, o mundo já foi criado marcado por Cristo, pela sua humanidade. Deus já tinha o seu grande projeto. Os primeiro homens e as primeiras mulheres, também eles foram marcados por Cristo. Todos nós fomos marcados por cristo. Só que a maneira como cada um foi marcado é diferente. Em nós, essa marca não nos purificou radicalmente. Trouxemos para nossa história, para as nossa tradições, a marca do mal, que chamamos de pecado original. Já nascemos com uma história imensa, dentro de uma história imensa. Todo mal cometido antes de nós passa para todos nós. Mas Deus reservou à Maria uma exceção, uma exceção totalmente humana. Alguém que, de certa maneira, interrompeu o fluxo de pecado que continua até hoje. É como uma mancha que suja todos nós. Mas Ele separou Maria para que fosse a mãe de seu filho. Nela não se tocou nada que pudesse manchá-la. Essa é a maneira de Deus demonstrar o seu amor. Quando queremos demonstrar amor às pessoas, procuramos dar a elas poder, glória. Deus não faz assim. Essa é a sua maneira diferente. Ele não glorifica quem ama. Jesus viveu simples, humilde, morreu crucificado, foi perseguido. A maneira de Deus mostrar a sua força é amar. Ele ama tanto uma pessoa que ela se transforma num foco de amor. Isso é muito mais do que podemos medir. Em geral, pedimos emprego, casa, um carro novo. Nada disso é importante. O que é importante é pedir a Deus que Ele nos ame, que o seu amor nos envolva, nos pegue por dentro e, envolvidos nesse amor, possamos irradiá-lo. Desde o instante em que Maria foi concebida, o amor de Deus a envolveu. Devia ser fascinante encontrar aquela menininha nos seus 5, 10, 20 anos. Em qualquer idade em que a encontrássemos, estaria irradiando amor, beleza, paz, porque o amor de Deus a fazia, a constituía. Ela não tinha nada, era uma mulher simples, provavelmente analfabeta, mas irradiava tanto amor, que é a mulher mais maravilhosa que jamais existiu. Amém.


Poderia ser uma “simples” Exortação Apostólica Pós-Sinodal, como muitas outras. Mas o Papa Francisco escreveu uma que representa um documento chave do seu Pontificado. Em primeiro lugar está a “alegria do Evangelho”, como diz a versão original escrita em espanhol. “A alegria do Evangelho”, lê-se nas primeiras linhas da Exortação, “enche o coração e a vida inteira dos que se encontram com Jesus. Quem se deixa salvar por Ele é liberto do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo sempre nasce e renasce a alegria”. Enquanto “o grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração acomodado e avarento, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada”. Inclusive muitos crentes caem nessa armadilha, “convertem-se em seres ressentidos, queixosos, sem vida”. Ao contrário, “quando alguém dá um pequeno passo ao encontro de Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada”. Experimentar e propor aos outros a salvação alegre que Cristo ressuscitado oferece e os meios dos quais se serve são a vocação de todos os cristãos, além da razão de ser da Igreja. A experiência do encontro pessoal com Cristo é “o manancial da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu esse amor que lhe devolve o sentido da vida, como pode conter o desejo de comunicação a outros?” Por isso, a evangelização nunca deve ser entendida como “uma heroica tarefa pessoal, já que a obra é, sobretudo, d’Ele, para além do que possamos descobrir e entender. Jesus é ‘o primeiro e o maior evangelizador’. Em qualquer forma de evangelização, o primado é sempre de Deus”. Se a missão própria dos cristãos é a de anunciar a alegria do Evangelho, o próprio objetivo configura também as formas nas quais esta se manifesta. Todos “têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de anunciá-lo sem excluir ninguém, não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem compartilha uma alegria, assinala um belo horizonte, oferece um banquete desejável. A Igreja não cresce por proselitismo, mas ‘por atração’”. A alegria do Evangelho é missionária que “sempre tem a dinâmica do êxodo e do dom, do sair de si, do caminhar e semear sempre de novo, sempre para mais além”. A comunidade evangelizadora que mergulha “na vida cotidiana dos outros, encurta distâncias, abaixa-se até a humilhação, caso for necessário”. Ela “acompanha a humanidade em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam. Conhece as longas esperas e a paciência apostólica. A evangelização patenteia muita paciência, e evita deter-se a considerar as limitações. Fiel ao dom do Senhor, sabe também ‘frutificar’. A comunidade evangelizadora mantém-se atenta aos frutos, porque o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e não perde a paz por causa do joio”. O objetivo declarado da Exortação Apostólica é “propor algumas diretrizes que possam encorajar e orientar, em toda a Igreja, uma nova etapa evangelizadora, cheia de ardor e dinamismo”. E neste percurso que o Papa propõe a todos “não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar ‘descentralização’”. Além disso, a “transformação missionária da Igreja” prefigurada por Bergoglio passa por uma renovação eclesial definida como “impostergável”. Trata-se de uma aventura que envolve toda a Igreja em “uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’, em todas as regiões da terra”. O principal critério desta renovação não é uma teologia particular nem nenhuma linha de pensamento eclesial, mas “uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda estrutura eclesial se tornem um canal adequado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação”. A pastoral ordinária, as paróquias, os movimentos, a hierarquia foram convidados a ter uma atitude de “saída”. O próprio exercício do mistério petrino, segundo o Papa Francisco, está imerso no dinamismo da renovação “em chave missionária”; Bergoglio anuncia também uma “conversão do papado”, para torná-lo “mais fiel ao significado que Jesus Cristo quis dar-lhe e às necessidades atuais da evangelização”. E fala da intenção de descentralizar “alguma autêntica autoridade doutrinal”, posto que “uma excessiva centralização, mais que ajudar, complica a vida da Igreja e sua dinâmica missionária”. Hierarquia das verdades Ao ter como pontos cardeais a Constituição conciliar Lumen Gentium (sobre a natureza da Igreja), os textos montinianos Ecclesiam Suam e Evangelii Nuntiandi, além do Documento de Aparecida, a rota que Bergoglio agora traça concentra-se sobre alguns pontos nevrálgicos. De acordo com o Papa Francisco, é necessário rever a forma como é oferecido o anúncio evangélico. Por exemplo, coloca-se em discussão uma espécie de intervencionismo “midiático-eclesial” que se concentra nas questões morais. Com a seleção interessada dos conteúdos que normalmente os meios de comunicação levam a cabo, “a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e reduzida a alguns de seus aspectos secundários”. Isto acontece quando algumas questões que fazem parte do ensino moral da Igreja são propostas constantemente “fora do contexto que lhes dá sentido”. Segundo o Papa Francisco, o enfoque sobre a ação moral não pode prescindir da luz própria da vida iluminada pelo Evangelho. Uma pastoral em chave missionária “não está obsessionada pela transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de insistir. Quando se assume um objetivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem exceções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e ao mesmo tempo mais necessário”. Citando Santo Tomás, o Papa repete que no âmbito específico das ações exteriores, a maior das virtudes morais para a inteligência humana iluminada pela fé é a misericórdia. Além disso, a missão de anunciar a todos a alegria do Evangelho manifesta-se dentro dos limites humanos e toma em consideração as condições nas quais vivem os homens (marcada pelo pecado original e pelo fluxo dos condicionamentos que nos rodeiam). “Há normas ou preceitos eclesiais”, reconhece o Papa, “que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida”. Santo Tomás de Aquino destacava que os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos ao povo de Deus “‘são pouquíssimos’”. Além disso, é preciso “acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia. Aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível. Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades”. Não à “alfândega sacramental” A Igreja, explica o Papa Bergoglio, apresenta-se ao mundo como “uma Mãe com os braços abertos”. Uma das amostras desta abertura é deixar abertas, materialmente, as portas das Igrejas e dos lugares de oração. Mas, segundo o Papa, “nem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer”. Isto, obviamente também é válido para o batismo. Mas também para a eucaristia, acrescenta o Papa: “não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa”. As tentações dos “agentes de pastoral” Em seu apelo à conversão missionária da Igreja, o Papa Francisco expõe uma detalhada sintomatologia da autorreferencialidade na qual é


fácil tomar direções que inclusive caracterizaram momentos recentes da Igreja, sob a influência da “cultura globalizada atual”. Vai-se desde a sensação de derrota que se instala em pessoas consagradas e leigas, uma espécie de “pessimismo lamuriante” indicado por Bergoglio, que utiliza as palavras de João XXIII sobre os profetas de desgraças, aqueles que “não veem senão prevaricações e ruínas”. A raiz dos piores males que afligem a Igreja é identificada por Francisco com “o mundanismo espiritual, que se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja, é buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal”. Bergoglio relaciona com esta atitude as novas expressões de um gnosticismo (que nunca desapareceu) ou do neopelagianismo “de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado”. As palavras do Papa criticam duramente esses ambientes eclesiais nos quais “alimenta-se a vanglória de quantos se contentam com ter algum poder e preferem ser generais de exércitos derrotados antes que simples soldados dum batalhão que continua lutando”, sonhando “com planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais derrotados”. Um mundanismo asfixiante que se esconde sob “roupagens espirituais ou pastorais”, e que pode ser curada somente “saboreando o ar puro do Espírito Santo”. Bergoglio cita o clericalismo que penaliza os leigos e que os mantém “à margem das decisões” ou que os absorve em “tarefas intraeclesiais, sem um compromisso real com a aplicação do Evangelho na transformação da sociedade”. E reconhece que as reivindicações dos direitos das mulheres “colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente”. O sacerdócio reservado aos varões “é uma questão que não se põe em discussão, mas pode tornar-se particularmente controversa se se identifica demasiado a potestade sacramental com o poder”. Uma Igreja plural Diante destes cenários, Bergoglio insiste em que a missão evangelizadora não é uma questão de especialistas ou de “roupas de elite”. Quem anuncia a alegria do Evangelho deve ser todo o Povo Santo de Deus, “santo por esta unção que o torna infalível in credendo”. Um povo “com muitos rostos” reunido pela graça de Deus e não segundo homologações culturais. O anúncio cristão – reconhece o Papa Francisco – não se identifica com nenhuma cultura, nem sequer com as que “estiveram estreitamente ligadas à pregação do Evangelho e ao desenvolvimento de um pensamento cristão”. Por isso, “não podemos pretender que todos os povos dos vários continentes, ao exprimir a fé cristã, imitem as modalidades adotadas pelos povos europeus num determinado momento da história, porque a fé não se pode confinar dentro dos limites de compreensão e expressão de uma cultura particular”. “Emergência da homilia” Quanto às formas primárias mediante as quais se transmite o anúncio evangélico, o Papa Francisco acentua o valor da vida da devoção popular, com a qual o povo “se evangeliza continuamente a si mesmo”, expressando o seu afeto por Jesus, pela Virgem e pelos santos. Depois, o Bispo de Roma, ao assinalar um tema delicado, dedica 23 parágrafos (em 18 páginas) a um dos instrumentos ordinários da pregação, o das homilias durante a missa. Segundo Francisco, a homilia “deve ser breve e evitar que se pareça com uma conferência ou uma aula”. A pregação “puramente moralista ou doutrinadora e também a que se transforma numa aula de exegese reduzem esta comunicação entre os corações que se verifica na homilia e que deve ter um caráter quase sacramental”. Na homilia, assim como na catequese – sugere Bergoglio –, sempre se deve anunciar ou indicar o núcleo central do anúncio cristão: “o primeiro anúncio ou querigma deve ocupar o centro da atividade evangelizadora e de toda a tentativa de renovação eclesial”. Porque é “prévio à obrigação moral e religiosa”, e é repetido como um tesouro inesgotável que se descobre constantemente. Fé e compromisso social De acordo com o Papa Francisco, a missão evangelizadora se desfigura caso não se apreciar ou então se enfraquece o “laço indissolúvel entre a recepção do anúncio salvífico e um efetivo amor fraterno”. Palavras que anulam as falsas dialéticas daqueles que, nos últimos anos, insistiram no risco da “redução” da missão do anúncio à mera atividade de promoção social. A opção preferencial pelos pobres reforça-se sem meias palavras como um traço inocultável do amor de Cristo pelos homens, como indica o Evangelho. Não escutar o grito do pobre quer dizer colocarse “fora da vontade do Pai e do seu projeto”. Trata-se de uma “preferência divina” que “tem consequências na vida de fé de todos os cristãos, chamados a ter “os mesmos sentimentos de Jesus Cristo”. Francisco acrescenta, além disso, na Exortação Apostólica julgamentos não genéricos sobre a “idolatria” da economia especulativa e sobre as dinâmicas que condicionam o desenvolvimento e produzem a pobreza. Convida para não confiar nas “forças cegas e na mão invisível do mercado”, na hora de tomar decisões econômicas como “remédios”, que, pelo contrário, “são um novo veneno, quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos”. A opção evangélica pelos pobres está afastada, se poderia dizer “geneticamente”, de “qualquer ideologia, de qualquer tentativa de utilizar os pobres a serviço de interesses pessoais ou políticos”. Literalmente, entre os pobres estão todos os indefesos, os excluídos e os fracos dos quais a Igreja deve se ocupar com predileção. Entre os citados anteriormente o Papa Francisco inclui os que ainda não nasceram, “que são os mais indefesos e inocentes de todos”. Sua defesa está relacionada com a defesa de qualquer direito humano que reconhece cada um dos seres humanos como sagrado e inviolável. “Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana”. Mas, ao mesmo tempo, o Papa reconhece que “é verdade também que temos feito pouco para acompanhar adequadamente as mulheres que estão em situações muito duras, nas quais o aborto lhes aparece como uma solução rápida para as suas profundas angústias”. A vertigem da graça Depois de ter definido o imenso campo de trabalho da “conversão missionária” à qual a Igreja foi chamada, Francisco, na parte final do documento, que termina com uma oração a Maria, retorna sobre a única fonte que pode propiciar e alimentar essa tão desejada saída da autorreferencialidade. Uma aventura por terras desconhecidas, que acarreta uma certa “vertigem”, pois depende inteiramente do agir de Cristo Redentor e de seu Espírito. Na história da Igreja, desde a época de Jesus, é o Espírito que “faz os Apóstolos saírem de si mesmos e transformaos em anunciadores das maravilhas de Deus”. O verdadeiro missionário, “que não deixa jamais de ser discípulo, sabe que Jesus caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa missionária”. A missão não é “um negócio nem um projeto empresarial, nem mesmo uma organização humanitária, não é um espetáculo para que se possa contar quantas pessoas assistiram devido à nossa propaganda”. Precisamente, depender inteiramente da Igreja “pode causar-nos alguma vertigem: é como mergulhar num mar onde não sabemos o que vamos encontrar. Eu mesmo o experimentei tantas vezes. Mas não há maior liberdade do que a de se deixar conduzir pelo Espírito, renunciando a calcular e controlar tudo e permitindo que Ele nos ilumine, guie, dirija e impulsione para onde Ele quiser”. Leia a Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” na íntegra clicando em http://pt.radiovaticana.va/news/2013/11/26/primeira_exorta%C3%A7%C3%A3o_apost%C3%B3lica_de_papa_francisco;_texto_na_%C3%AD ntegra_de_e/bra-750057

Papa Francisco


documento preparatório para a III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, que será realizada em Roma entre os dias 05 e 19 de Outubro de 2014, contém um questionário que versa sobre questões concernentes a diversos aspectos da vida familiar. Intitulado “Os desafios pastorais sobre a família no contexto da Evangelização”, o questionário se divide em 9 tópicos com várias perguntas em cada um deles totalizando 38 questões. Nós, do IPDM, queremos atender ao chamado do Papa Francisco respondendo ao questionário e enviando-o à Roma dentro do prazo estabelecido que se encerra no final de Janeiro de 2014. Mas, queremos fazê-lo com a participação máxima de nossos amigos e nossas amigas que sempre estão reunidos conosco em nossos encontros e que recebem nosso informativo semanalmente. Para tanto, apresentamos a seguir a íntegra do questionário dividi do em blocos temáticos com suas questões pertinentes e, para auxiliar nas reflexões de cada um, trazemos as respostas já apresentadas pelo Teólogo e escritor espanhol José Arregi como subsídio para seus estudos. Reúna-se com seus familiares, seu grupo de estudos, sua comunidade ou paróquia e busque responder às questões. Este, é um pedido direto do Papa Francisco que espera conhecer a opinião direta dos leigos e leigas do mundo inteiro sobre tão importantes assuntos. Participe. Envie suas respostas até o dia 20 de Janeiro de 2014 para: prowaldir2013@uol.com.br. Caminhemos juntos com o Papa Francisco na construção do Reino de Jesus que também é nosso.

I – O Sínodo: família e evangelização

em relação a quantos lhes são confiados e a toda a família humana.

A missão de pregar o Evangelho a cada criatura foi confiada diretamente pelo Senhor aos seus discípulos, e dela a Igreja é portadora na história. Na época em que vivemos, a evidente crise social e espiritual torna-se um desafio pastoral, que interpela a missão evangelizadora da Igreja para a família, núcleo vital da sociedade e da comunidade eclesial.

II – A Igreja e o Evangelho sobre a família

Propor o Evangelho sobre a família neste contexto é mais urgente e necessário do que nunca. A importância deste tema sobressai do facto que o Santo Padre decidiu estabelecer para o Sínodo dos Bispos um itinerário de trabalho em duas etapas: a primeira, a Assembleia Geral Extraordinária de 2014, destinada a especificar o “status quaestionis” e a recolher testemunhos e propostas dos Bispos para anunciar e viver de maneira fidedigna o Evangelho para a família; a segunda, a Assembleia Geral Ordinária de 2015, em ordem a procurar linhas de ação para a pastoral da pessoa humana e da família. Hoje perfilam-se problemáticas até há poucos anos inéditas, desde a difusão dos casais de facto, que não acedem ao matrimónio e às vezes excluem esta própria ideia, até às uniões entre pessoas do mesmo sexo, às quais não raro é permitida a adoção de filhos. Entre as numerosas novas situações que exigem a atenção e o compromisso pastoral da Igreja, será suficiente recordar: os matrimónios mistos ou inter-religiosos; a família monoparental; a poligamia; os matrimónios combinados, com a consequente problemática do dote, por vezes entendido como preço de compra da mulher; o sistema das castas; a cultura do nãocomprometimento e da presumível instabilidade do vínculo; as formas de feminismo hostis à Igreja; os fenómenos migratórios e reformulação da própria ideia de família; o pluralismo relativista na noção de matrimónio; a influência dos meios de comunicação sobre a cultura popular na compreensão do matrimónio e da vida familiar; as tendências de pensamento subjacentes a propostas legislativas que desvalorizam a permanência e a fidelidade do pacto matrimonial; o difundir-se do fenómeno das mães de substituição (“barriga de aluguel”); e as novas interpretações dos direitos humanos. Mas sobretudo no âmbito mais estritamente eclesial, o enfraquecimento ou abandono da fé na sacramentalidade do matrimónio e no poder terapêutico da penitência sacramental. A partir de tudo isto compreende-se como é urgente que a atenção do episcopado mundial, “cum et sub Petro”, enfrente estes desafios. Se, por exemplo, pensarmos unicamente no facto de que no contexto atual muitos adolescentes e jovens, nascidos de matrimónios irregulares, poderão nunca ver os seus pais aproximarse dos sacramentos, compreenderemos como são urgentes os desafios apresentados à evangelização pela situação atual, de resto difundida em todas as partes da “aldeia global”. Esta realidade encontra uma correspondência singular no vasto acolhimento que tem, nos nossos dias, o ensinamento sobre a misericórdia divina e sobre a ternura em relação às pessoas feridas, nas periferias geográficas e existenciais: as expectativas que disto derivam, a propósito das escolhas pastorais relativas à família, são extremamente amplas. Por isso, uma reflexão do Sínodo dos Bispos a respeito destes temas parece tanto necessária e urgente quanto indispensável, como expressão de caridade dos Pastores em relação

A boa nova do amor divino deve ser proclamada a quantos vivem esta fundamental experiência humana pessoal, de casal e de comunhão aberta ao dom dos filhos, que é a comunidade familiar. A doutrina da fé sobre o matrimónio deve ser apresentada de modo comunicativo e eficaz, para ser capaz de alcançar os corações e de os transformar segundo a vontade de Deus manifestada em Cristo Jesus. A propósito das fontes bíblicas sobre o matrimónio e a família, nesta circunstância apresentamos somente as referências essenciais. Também no que se refere aos documentos do Magistério, parece oportuno limitar-se aos documentos do Magistério universal da Igreja, integrando-os com alguns textos emanados pelo Pontifício Conselho para a Família e atribuindo aos Bispos participantes no Sínodo a tarefa de dar voz aos documentos dos seus respectivos organismos episcopais. Em todas as épocas e nas culturas mais diversificadas nunca faltou o ensinamento claro dos Pastores, nem o testemunho concreto dos fiéis, homens e mulheres que, em circunstâncias muito diversas, viveram o Evangelho sobre a família como uma dádiva incomensurável para a sua própria vida e para a vida dos sues filhos. O compromisso a favor do próximo Sínodo Extraordinário é assumido e sustentado pelo desejo de comunicar esta mensagem a todos, com maior incisividade, esperando assim que «o tesouro da revelação confiado à Igreja encha cada vez mais os corações dos homens» (DV 26). O projeto de Deus Criador e Redentor A beleza da mensagem bíblica sobre a família tem a sua raiz na criação do homem e da mulher, ambos criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 24-31; 2, 4b-25). Ligados por uma vínculo sacramental indissolúvel, os esposos vivem a beleza do amor, da paternidade, da maternidade e da dignidade suprema de participar deste modo na obra criadora de Deus. No dom do fruto da sua união, eles assumem a responsabilidade do crescimento e da educação de outras pessoas, para o futuro do género humano. Através da procriação, o homem e a mulher realizam na fé a vocação de ser colaboradores de Deus na preservação da criação e no desenvolvimento da família humana. O Beato João Paulo II comentou este aspecto na Familiaris consortio: «Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26 s.): chamando-o à existência por amor, chamou-o ao mesmo tempo ao amor. Deus é amor (1 Jo 4, 8) e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão (cf. “Gaudium et spes”, 12). O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação de cada ser humano» (FC 11). Este projeto de Deus Criador, que o pecado original deturpou (cf. Gn 3, 1-24), manifestou-se na história através das vicissitudes do povo eleito, até à plenitude dos tempos, pois mediante a encarnação o Filho de Deus não apenas confirmou a vontade divina de salvação,


mas com a redenção ofereceu a graça de obedecer a esta mesma vontade. O Filho de Deus, Palavra que se fez carne (cf. Jo 1, 14) no seio da Virgem Mãe, viveu e cresceu na família de Nazaré, e participou nas bodas de Caná, cuja festa foi por Ele enriquecida com o primeiro dos seus “sinais” (cf. Jo 2, 1-11). Ele aceitou com alegria o acolhimento familiar dos seus primeiros discípulos (cf. Mc 1, 29-31; 2, 13-17) e consolou o luto da família dos seus amigos em Betânia (cf. Lc 10, 38-42; Jo 11, 1-44). Jesus Cristo restabeleceu a beleza do matrimónio, voltando a propor o projeto unitário de Deus, que tinha sido abandonado devido à dureza do coração humano, até mesmo no interior da tradição do povo de Israel (cf. Mt 5, 31-32; 19.3-12; Mc 10, 1-12; Lc 16, 18). Voltando à origem, Jesus ensinou a unidade e a fidelidade dos esposos, recusando o repúdio e o adultério. Precisamente através da beleza extraordinária do amor humano – já celebrada com contornos inspirados no Cântico dos Cânticos, e do vínculo esponsal exigido e defendido por Profetas como Oseias (cf. Os 1, 2-3,3) e Malaquias (cf. Ml 2, 13-16) – Jesus confirmou a dignidade originária do amor entre o homem e a mulher. O ensinamento da Igreja sobre a família Também na comunidade cristã primitiva a família se manifestava como “Igreja doméstica” (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1655): nos chamados “códigos familiares” das Cartas apostólicas neotestamentárias, a grande família do mundo antigo é identificada como o lugar da solidariedade mais profunda entre esposas e maridos, entre pais e filhos, entre ricos e pobres (cf. Ef 5, 21-6, 9; Cl 3, 18-4, 1; 1 Tm 2, 8-15; Tt 2, 1-10; 1 Pd 2, 13-3, 7; cf., além disso, também a Carta a Filémon). Em particular, a Carta aos Efésios identificou no amor nupcial entre o homem e a mulher «o grande mistério», que torna presente no mundo o amor de Cristo e da Igreja (cf. Ef 5, 31-32). Ao longo dos séculos, sobretudo na época moderna até aos nossos dias, a Igreja não fez faltar um seu ensinamento constante e crescente sobre a família e sobre o matrimónio que a fundamenta. Uma das expressões mais excelsas foi a proposta do Concílio Ecuménico Vaticano II, na Constituição pastoral Gaudium et spes que, abordando algumas problemáticas mais urgentes, dedica um capítulo inteiro à promoção da dignidade do matrimónio e da família, como sobressai na descrição do seu valor para a constituição da sociedade: «A família – na qual se congregam as diferentes gerações que reciprocamente se ajudam a alcançar uma sabedoria mais plena e a conciliar os direitos pessoais com as outras exigências da vida social – constitui assim o fundamento da sociedade» (GS 52). Particularmente intenso é o apelo a uma espiritualidade cristocêntrica dirigida aos esposos crentes: «Os próprios esposos, feitos à imagem de Deus e estabelecidos numa ordem verdadeiramente pessoal, estejam unidos em comunhão de afeto e de pensamento e com mútua santidade, de modo que, seguindo a Cristo, princípio da vida, se tornem pela fidelidade do seu amor, através das alegrias e dos sacrifícios da sua vocação, testemunhas daquele mistério de amor que Deus revelou ao mundo com a sua morte e a sua ressurreição» (GS 52). Também os Sucessores de Pedro, depois do Concílio Vaticano II, enriqueceram mediante o seu Magistério a doutrina sobre o matrimónio e a família, de modo especial Paulo VI com a Encíclica Humanae Vitae, que oferece ensinamentos específicos a níveis de

princípio e de prática. Sucessivamente, o Papa João Paulo II, na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, quis insistir na proposta do desígnio divino acerca da verdade originária do amor esponsal e familiar: «O “lugar” único, que torna possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimónio, ou seja o pacto de amor conjugal ou escolha consciente e livre, com a qual o homem e a mulher recebem a comunidade íntima de vida e de amor, querida pelo próprio Deus (cfr. Gaudium et spes, 48), que só a esta luz manifesta o seu verdadeiro significado. A instituição matrimonial não é uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, nem a imposição extrínseca de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de amor conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo, para que seja vivida assim a plena fidelidade ao desígnio de Deus Criador. Longe de mortificar a liberdade da pessoa, esta fidelidade põe-na em segurança em relação ao subjetivismo e relativismo, tornando-a participante da Sabedoria criadora» (FC 11). O Catecismo da Igreja Católica reúne estes dados fundamentais: «A aliança matrimonial, pela qual um homem e uma mulher constituem entre si uma comunidade íntima de vida e de amor; foi fundada e dotada das suas leis próprias pelo Criador: Pela sua natureza, ordena-se ao bem dos cônjuges, bem como à procriação e educação dos filhos. Entre os batizados, foi elevada por Cristo Senhor à dignidade de sacramento [cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Gaudium et spes, 48; Código de Direito Canónico, cân. 1055 § 1]» (CCC, n. 1660). A doutrina exposta no Catecismo refere-se tanto aos princípios teológicos como aos comportamentos morais, abordados sob dois títulos distintos: O sacramento do matrimónio (n. 1601-1658) e O sexto mandamento (n. 2331-2391). Uma leitura atenta destas partes do Catecismo oferece uma compreensão atualizada da doutrina da fé, em benefício da atividade da Igreja diante dos desafios contemporâneos. A sua pastoral encontra inspiração na verdade do matrimónio visto no desígnio de Deus, que criou varão e mulher, e na plenitude dos tempos revelou em Jesus também a plenitude do amor esponsal, elevado a sacramento. O matrimónio cristão, fundamentado sobre o consenso, é dotado também de efeitos próprios, e no entanto a tarefa dos cônjuges não é subtraída ao regime do pecado (cf. Gn 3, 1-24), que pode provocar feridas profundas e até ofensas contra a própria dignidade do sacramento. «O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimónio. Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os cônjuges se podem unir numa só carne (cf. Gn 2, 24) e são capazes de gerar uma nova vida, manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio de amor. Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projetos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada» (LF 52). «A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade» (LF 53).

As seguintes perguntas permitem às Igrejas particulares participar ativamente na preparação do Sínodo Extraordinário, que tem a finalidade de anunciar o Evangelho nos atuais desafios pastorais a respeito da família.

1 - Sobre a difusão da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja a propósito da família a) Qual é o conhecimento real dos ensinamentos da Bíblia, da “Gaudium et spes”, da “Familiaris consortio” e de outros documentos do Magistério pós-conciliar sobre o valor da família segundo a Igreja católica? Como os nossos fiéis são formados para a vida familiar, em conformidade com o ensinamento da Igreja? b) Onde é conhecido, o ensinamento da Igreja é aceite integralmente. Verificam-se dificuldades na hora de o pôr em prática? Se sim, quais? c) Como o ensinamento da Igreja é difundido no contexto dos programas pastorais nos planos nacional, diocesano e paroquial? Que tipo de catequese sobre a família é promovida? d) Em que medida – e em particular sob que aspectos – este ensinamento é realmente conhecido, aceite, rejeitado e/ou criticado nos ambientes extra eclesiais? Quais são os fatores culturais que impedem a plena aceitação do ensinamento da Igreja sobre a família? Resposta (José Arregi) 1. Se o ensino da Sagrada Escritura e do Magistério hierárquico sobre a sexualidade, o matrimônio e a família é conhecido e aceito entre os crentes. Talvez não seja bem conhecido, mas certamente é mal aceito ou simplesmente ignorado. Constatamos que nas últimas décadas têm ido crescendo até um grau crítico a fresta, mais ainda, a ruptura entre a doutrina oficial e o sentir amplamente maioritário dos/das crentes. É grave e dói-nos. Mas sinceramente acreditamos que a razão da ruptura crescente não é a ignorância e menos ainda a irresponsabilidade dos crentes, senão mais bem o fechamento da hierarquia em esquemas do passado. Os tempos mudaram muito em pouco tempo em tudo o que tem a ver com a família, o matrimônio, a procriação, e a sexualidade em geral. Nós sabemos que são temas delicados, que o mais sagrado está em jogo, que o maior cuidado é necessário. Mas não se pode cuidar a vida repetindo o passado. Acreditamos profundamente que o Espírito da vida segue falando-nos desde o coração da vida, com suas alegrias e tristezas. cremos que a Ruah vivente não não pode ser encerrada em nenhuma doutrina nem texto nem letra do passado, e que segue inspirando o sentir de todos os crentes e de todos os homens e mulheres de hoje. Nunca nada deve ficar fechado.


2 - Sobre o matrimónio segundo a lei natural a) Que lugar ocupa o conceito de lei natural na cultura civil, quer nos planos institucional, educativo e académico, quer a nível popular? Que visões da antropologia estão subjacentes a este debate sobre o fundamento natural da família? b) O conceito de lei natural em relação à união entre o homem e a mulher é geralmente aceite, enquanto tal, por parte dos batizados? c) Como é contestada, na prática e na teoria, a lei natural sobre a união entre o homem e a mulher, em vista da formação de uma família? Como é proposta e aprofundada nos organismos civis e eclesiais? d) Quando a celebração do matrimónio é pedida por batizados não praticantes, ou que se declaram não-crentes, como enfrentar os desafios pastorais que disto derivam? Resposta (José Arregi) 2. Sobre o lugar que ocupa entre os crentes o conceito de “lei natural” em relação ao matrimônio. Dir-lhe-emos com toda simplicidade e franqueza: para a imensa maioria dos pensadores, científicos e crentes da nossa sociedade, o conceito de “lei natural” já não ocupa nenhum lugar. Sim, a natureza que somos tem uma ordem maravilhosa, umas leis maravilhosas, e graças a elas a ciência é possível. Mas a lei da natureza é a sua capacidade de transformação e novidade. A natureza é criadora, inventiva. Dessa capacidade criadora e inventiva, dessa criatividade sagrada, são fruto todos os átomos e moléculas, todos os astros e galáxias. Delas somos fruto todos os viventes, todas as línguas e culturas, todas as religiões. Dela serão fruto, durante milhares de milhões de anos ainda, infinitas novas formas que ainda desconhecemos. A natureza está habitada pelo Espírito, pela santa Ruah que pairava sobre as águas do Gênese, que segue vibrando no coração de todos os seres, no coração de cada átomo e de cada partícula. Tudo vive, tudo respira, tudo se move. Tudo muda. Também a família foi mudando sem cessar, desde os clãs primeiros até a família nuclear, passando pela família patriarcal que conhecemos até há bem pouco. Diante dos nossos próprios olhos, o modelo familiar segue mudando: famílias sem filhos, famílias monoparentais, famílias com filhos de diversos pais… E seguirá mudando, não sabemos como. Tudo é muito delicado. Há muita dor. Pedimos à Igreja que não fale mal das novas formas de família, pois bastante elas têm com viver cada dia e sair adiante, no meio das maiores ameaças que nos vêm de um sistema económico cruel, inumano. Não lhe corresponde à Igreja ditar, mas antes de tudo acompanhar, aliviar, incentivar, como o Sr. mesmo tem afirmado. 3 – A pastoral da família no contexto da evangelização a) Quais foram as experiências que surgiram nas últimas décadas em ordem à preparação para o matrimónio? Como se procurou estimular a tarefa de evangelização dos esposos e da família? De que modo promover a consciência da família como “Igreja doméstica”? b) Conseguiu-se propor estilos de oração em família, capazes de resistir à complexidade da vida e da cultural contemporânea? c) Na atual situação de crise entre as gerações, como as famílias cristãs souberam realizar a própria vocação de transmissão da fé? d) De que modo as Igrejas locais e os movimentos de espiritualidade familiar souberam criar percursos exemplares? e) Qual é a contribuição específica que casais e famílias conseguiram oferecer, em ordem à difusão de uma visão integral do casal e da família cristã, hoje credível? f) Que atenção pastoral a Igreja mostrou para sustentar o caminho dos casais em formação e dos casais em crise? Resposta (José Arregi) 3. Sobre como a fé, a espiritualidade, o Evangelho, são transmitidos nas famílias. Questão sumamente importante. Sim, constatamos com dor que as famílias estão deixando de ser “igrejas domésticas” onde se ora, se cultiva, se respira, se transmite a boa notícia de Jesus. Mas não acreditamos que seja justo culpar disso às famílias. A crise da religião e da transmissão da fé na família tem a ver em primeiro lugar com a profunda transformação cultural que estamos vivendo. E constitui um grande desafio não apenas nem, tal vez, em primeiro lugar para as próprias famílias, mas para a própria instituição eclesial: assumir as novas regras espirituais e formas religiosas que o Espírito está inspirando nos homens e nas mulheres de hoje. 4 – Sobre a pastoral para enfrentar algumas situações matrimoniais difíceis a) A convivência ad experimentum é uma realidade pastoral relevante na Igreja particular? Em que percentagem se poderia calculá-la numericamente? b) Existem uniões livres de facto, sem o reconhecimento religioso nem civil? Dispõem-se de dados estatísticos confiáveis? c) Os separados e os divorciados recasados constituem uma realidade pastoral relevante na Igreja particular? Em que percentagem se poderia calculá-los numericamente? Como se enfrenta esta realidade, através de programas pastorais adequados? d) Em todos estes casos: como vivem os batizados a sua irregularidade? Estão conscientes da mesma? Simplesmente manifestam indiferença? Sentem-se marginalizados e vivem com sofrimento a impossibilidade de receber os sacramentos? e) Quais são os pedidos que as pessoas separadas e divorciadas dirigem à Igreja, a propósito dos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação? Entre as pessoas que se encontram em tais situações, quantas pedem estes sacramentos? f) A simplificação da praxe canónica em ordem ao reconhecimento da declaração de nulidade do vínculo matrimonial poderia oferecer uma contribuição positiva real para a solução das problemáticas das pessoas interessadas? Se sim, de que forma? g) Existe uma pastoral para ir ao encontro destes casos? Como se realiza esta atividade pastoral? Existem programas a este propósito, nos planos nacional e diocesano? Como a misericórdia de Deus é anunciada a separados e divorciados recasados e como se põe em prática a ajuda da Igreja para o seu caminho de fé? Resposta (José Arregi) 4. Sobre como a Igreja deve enfrentar algumas “situações matrimoniais difíceis” (noivos que convivem sem terem-se casado, “uniões livres”, divorciados voltados a casar…). Obrigado de novo, papa Francisco, simplesmente por ter querido recolocar estas questões! Obrigado por querer escutar-nos e nomear a misericórdia em suas perguntas! O Sr. conhece bem a complexa e mutante história do “sacramento do matrimônio” desde o começo da Igreja. A história tem sido muito mutável, e o seguirá sendo. Olhe, por exemplo, o que acontece entre nós, nesta Europa ultramoderna. Nossos jovens não dispõem nem de casa nem de meios económicos para se casarem e viver com seu companheiro/companheira até os 30 anos no melhor dos casos: como pode a Igreja pedir-lhes que se abstenham de relações sexuais até essa idade? As formas mudam, mas acreditamos que o critério é muito simples e que Jesus estaria de acordo: “Onde há amor há sacramento, casemse os noivos ou não, e onde não há amor não há sacramento, por canonicamente casados que os dois estejam”. Tudo o mais é acréscimo e se o casal está em dificuldades, como acontece tantas vezes, só será de Deus aquilo que lhes ajude a resolver suas dificuldades e a voltar a se amarem, se podem; e só será de Deus aquilo que lhes ajude a separar-se em paz, se não podem resolver suas dificuldades nem voltar a amar-se. Elimine, pois, lhe pedimos, os obstáculos canónicos para que aqueles que fracassaram em seu matrimônio possam refazer a sua vida com outro amor. Que não siga a Igreja acrescentando mais dor. E que de nenhum modo os impeça de compartilhar o pão que reconforta na mesa de Jesus, pois Jesus não lhe impediu a ninguém.

5 - Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo a) Existe no vosso país uma lei civil de reconhecimento das uniões de pessoas do mesmo sexo, equiparadas de alguma forma

ao matrimónio? b) Qual é a atitude das Igrejas particulares e locais, quer diante do Estado civil promotor de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, quer perante as pessoas envolvidas neste tipo de união?


c) Que atenção pastoral é possível prestar às pessoas que escolheram viver em conformidade com este tipo de união? d) No caso de uniões de pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças, como é necessário comportar-se pastoralmente, em

vista da transmissão da fé? Resposta (José Arregi) 5. Sobre as uniões com pessoas do mesmo sexo. O dano causado pela Igreja aos homossexuais é imenso, e algum dia deverá pedir-lhes perdão. Tomara que o papa Francisco, em nome da Igreja, lhes peça perdão por tanta vergonha, desprezo e sentimento de culpa carregado sobre eles durante séculos e séculos! A imensa maioria dos homens e mulheres da nossa sociedade não podem hoje compreender essa obsessão, essa hostilidade. Como podem seguir sustentando que o amor homossexual não é natural, sendo que é tão comum e natural, por motivos biológicos e psicológicos, entre tantos homens e mulheres de todos os tempos e de todos os continentes, e em tantas outras espécies animais? Nesta causa, como em tantas outras, a Igreja deveria preceder, mas é a sociedade que nos precede. Celebramos que sejam cada vez mais numerosos os países que reconhecem os mesmos direitos à união de personas do mesmo sexo que à de pessoas sexo diferente. E o que impede que se chame “matrimônio”? Não é assim, por acaso, que se chamam aquelas uniões heterossexuais que, pelo que seja, não vão ter filhos? Mudem, pois, os dicionários e o Direito Canónico, amoldando-se aos tempos, atendendo às pessoas. E o que impede que chamemos sacramento a um matrimônio homossexual? É o amor o que nos faz humanos e o que nos faz divinos. É o amor o que faz o sacramento. E todo o mais são opiniões e tradições humanas. 6 - Sobre a educação dos filhos no contexto das situações de matrimónios irregulares a) Qual é nestes casos a proporção aproximativa de crianças e adolescentes, em relação às crianças nascidas e educadas em famílias regularmente constituídas? b) Com que atitude os pais se dirigem à Igreja? O que pedem? Somente os sacramentos, ou inclusive a catequese e o ensinamento da religião em geral? c) Como as Igrejas particulares vão ao encontro da necessidade dos pais destas crianças, de oferecer uma educação cristã aos próprios filhos? d) Como se realiza a prática sacramental em tais casos: a preparação, a administração do sacramento e o acompanhamento? Resposta (José Arregi) 6. Sobre a educação dos filhos no seio de situações matrimoniais irregulares. Acreditamos que esta linguagem –regular, irregular– é equivocada, mais ainda prejudicial. Prejudica a uma criança que nasceu ou que vive no seio de um matrimônio ou de uma família “irregular”. E prejudica a seus pais, seja, eles quem forem. O que prejudica não é ser exceção, mas ser censurado por ser exceção. De resto, todos sabemos que basta que se multipliquem os casos para que a exceção se converta em norma. Em qualquer caso, a Igreja não é para definir o que é regular e o que é irregular, mas para acompanhar, animar, sustentar a cada pessoa tal como ela é ali onde está. 7 - Sobre a abertura dos esposos à vida a) Qual é o conhecimento real que os cristãos têm da doutrina da Humanae vitae a respeito da paternidade responsável? Que consciência têm da avaliação moral dos diferentes métodos de regulação dos nascimentos? Que aprofundamentos poderiam ser sugeridos a respeito desta matéria, sob o ponto de vista pastoral? b) Esta doutrina moral é aceite? Quais são os aspectos mais problemáticos que tornam difícil a sua aceitação para a grande maioria dos casais? c) Que métodos naturais são promovidos por parte das Igrejas particulares, para ajudar os cônjuges a pôr em prática a doutrina da Humanae vitae? d) Qual é a experiência relativa a este tema na prática do sacramento da penitência e na participação na Eucaristia? e) Quais são, a este propósito, os contrastes que se salientam entre a doutrina da Igreja e a educação civil? f) Como promover uma mentalidade mais aberta à natalidade? Como favorecer o aumento dos nascimentos? Resposta (José Arregi) 7. Sobre a abertura dos cônjuges para a vida. Felizmente, são poucos entre nós os crentes com menos de 60 anos de idade, que ouviram falar da Humanae Vitae, aquela Encíclica Paulo VI (1968) que declarou pecado mortal o uso de qualquer método contraceptivo "não-natural", qualquer método que não fosse a abstinência ou a adequação ao ciclo de fertilidade feminino. Mas fez sofrer demais a quase todos os nossos pais. Essa doutrina, adotada contra o parecer de grande parte do Episcopado, foi infeliz no seu tempo e não é menos lamentável que tenha sido mantida até hoje. Hoje ninguém a compreende e quase ninguém, entre os mesmos católicos, a cumpre. E são poucos os sacerdotes e bispos que ainda ousam expô-la. Já não tem sentido afirmar que a relação sexual tenha que estar necessariamente aberta à reprodução. Já não tem sentido seguir distinguindo entre métodos naturais e artificiais, e menos ainda condenar um método porque seja “artificial”, pois pela mesma razão teria que se condenar uma vacina ou uma injeção qualquer. Assistimos em nossos dias a uma mudança transcendental em tudo o que tem a ver com a sexualidade e a reprodução: por vez primeira depois de muitos milênios, a relação sexual deixou de ser necessária para a reprodução. É uma mudança tecnológica que traz consigo uma mudança antropológica e requer um novo paradigma moral. A sexualidade e a vida continuam sendo tão sagradas como sempre e é necessário cuida-las com suma delicadeza. Mas o critério e as normas da Humanae Vitae não ajudam nisso, mais bem dificultam. Que a palavra da Igreja seja luz e consolo, como o Espírito de Deus, como o foi a palavra de Jesus em seu tempo e o seria também no nosso. 8 - Sobre a relação entre a família e a pessoa a) Jesus Cristo revela o mistério e a vocação do homem: a família é um lugar privilegiado para que isto aconteça? b) Que situações críticas da família no mundo contemporâneo podem tornar-se um obstáculo para o encontro da pessoa com Cristo? c) Em que medida as crises de fé, pelas quais as pessoas podem atravessar, incidem sobre a vida familiar? Resposta (José Arregi) 8. Sobre a relação entre a família, a pessoa e o encontro com Jesus Acreditamos que Jesus sai ao nosso encontro em todos os caminhos, em todas as situações. Em qualquer modelo de família, em qualquer situação familiar. Acreditamos que Jesus não faz distinção entre famílias regulares e irregulares, mas atende a cada situação, com sua graça e sua ferida. Acreditamos que fechados em nós mesmos (nossas ideias e normas, nossos medos e sombras) é o único que nos separa do outro e de deus. E acreditamos que a humildade, a claridade, a confiança nos aproximam cada dia do outro, e cada dia nos abrem à Presença do Vivente, estando onde estamos e sendo como somos. E acreditamos que uma Igreja que anunciasse isto, como Jesus, seria uma benção para a humanidade em todas as situações. 9 - Outros desafios e propostas Existem outros desafios e propostas a respeito dos temas abordados neste questionário, sentidos como urgentes ou úteis por parte dos destinatários? Vamos juntos atender ao chamado do nosso querido Papa Francisco. A Igreja somos nós. Envie suas respostas para: prowaldir2013@uol.com.br


Aula Palestras programadas para Novembro de 2013

Dia 29 de Novembro – 19h30 JUCA FERREIRA Secretario de Cultura da Cidade de São Paulo Tema:

Pontos de Cultura – Casas de Cultura Conselho Regional de Cultura da Zona Leste Vamos debater com o Secretário de Cultura os temas apresentados e outros assuntos pertinentes às questões Culturais que atingem diretamente a Zona Leste. Participe. As aulas acontecem todas as Sextas-Feiras às 19h30 no Salão da Igreja São Francisco de Assis Rua Miguel Rachid, 997 – Ermelino Matarazzo – Zona Leste – São Paulo – SP Para maiores informações fale com Luís: franca-luis@uol.com.br ou Deise: deisecassijvc@gmail.com

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JUVENTUDES EM FOCO: por políticas públicas inclusivas na educação, trabalho e cultura é o tema do Curso de Verão de 2014. Juventudes, no plural, enfatiza a diversidade do fenômeno juvenil do ponto de vista das classes sociais, do contraste entre o urbano e o rural, entre a periferia e as áreas urbanizadas nas cidades. Gênero, cor, raça, etnia, inclusão ou exclusão digital, qualidade do ensino, acesso a equipamentos culturais e de lazer e ao mercado de trabalho compõem o leque das múltiplas desigualdades que afetam os jovens. O curso oferece um espaço de diálogo, aprofundamento e compromisso em torno a temas que mais preocupam a juventude: da violência ao extermínio de jovens negros; da disseminação das drogas ao desemprego juvenil; da baixa qualidade do ensino à desagregação familiar; da perda de sentido à crise ecológica. O curso refletira sobre os caminhos para se remover os obstáculos para o protagonismo juvenil na sociedade, nas igrejas e no estabelecimento de políticas públicas transformadoras. Para Maiores informações acesse o site:

www.ceseep.org.br


Carta do Movimento Pro-Descentralização da Prefeitura de São Paulo Ao Prefeito de São Paulo: Fernando Haddad, aos 55 Vereadores/as e aos 32 Partidos Políticos São Paulo é uma cidade com mais de 11,3 milhões de habitantes espalhados por uma região com 1523 km2, com previsão orçamentária para 2014 cerca de 50 bilhões de reais. São Paulo tem 32 Subprefeituras (32 Cidades com mais de 350 mil habitantes). São 96 Distritos e centenas e centenas de Vilas/Jardins. São inúmeras as dificuldades para que uma cidade com estas proporções seja administrada a contento a partir de um único centro administrativo instalado no Vale do Anhangabaú.

Assim, nós Abaixo Assinados, defendemos a Descentralização da Administração da Cidade de São Paulo. Neste processo, apoiamos e defendemos: 1. QUE O ORÇAMENTO MUNICIPAL seja dividido proporcionalmente para as Subprefeituras respeitando a necessidade real de cada uma. Atualmente são os BAIRROS CENTRAIS E MAIS ABASTADOS que recebem a maior parte dos RECURSOS DE TODA CIDADE. As periferias (que elegeram o Prefeito Haddad e os Vereadores) ficam com migalhas e quase nada para SAÚDE, MORADIA, EDUCAÇÃO, CULTURA, LAZER... 2. QUE OS CONSELHOS MUNICIPAIS de cada Subprefeitura tenha o caráter deliberativo; 3. QUE AS DECISÕES DE INVESTIMENTOS DO ERÁRIO PÚBLICO sejam tomadas a partir de consultas feitas à comunidade local e não a partir de gabinetes distantes; 4. QUE TODAS AS SECRETARIAS MUNICIPAIS sejam descentralizadas para as Subprefeituras e a partir delas sejam administradas as questões pertinentes a cada uma. Esta CENTRALIZAÇÃO DOS RECURSOS, na Cidade mais rica do Brasil, favoreceu, historicamente, corrupções, exclusões e aumento das desigualdades sociais. 5. É URGENTE A DECENTRALIZAÇÃO PARA ACABAR COM AS BRUTAIS DESIGUALDADES SOCIAIS. A Cidade mais rica do Brasil (aonde os ricos ficam mais ricos) não pode continuar convivendo com 1,3 milhão em favelas (e a cada dia aumentam as FAVELAS na Cidade mais rica do Brasil), 150 mil Crianças sem Creche e outras milhares fora da Escola. 91% não se sente segura em São Paulo. A insatisfação chega ao ponto de 56% declararem que mudariam de cidade se pudessem, espera de 66 dias para ser atendido em consulta médica, 86 dias para fazer exames clínicos e 178 dias para conseguir procedimentos mais complexos. Dos 96 distritos, 45 não têm sequer uma biblioteca, 59 não oferecem um Centro Cultural, em 59 não há Cinema, 71 não abrigam Museus, 52 não têm Sala de show e concerto e 54 não oferecem Teatro a seus moradores. Em São Paulo, 56 distritos não têm uma unidade com equipamentos públicos de esporte. A desigualdade entre os indicadores das poucas regiões mais ricas e das mais pobres chega a centenas e até milhares de vezes. A pesquisa está, na íntegra, no site www.nossasaopaulo.org.br. 6. ADMINISTRAR UMA CIDADE COM 11,3 MILHÕES tem que se inovar, descentralizar, envolver a população, os Movimentos, Entidades. É o direito à Cidade. Cidade para todos/as com QUALIDADE. Isso é novo...

Dia: 13 de Dezembro de 2013, Sexta-Feira, 19,30 horas, Entrega do Abaixo Assinado ao Prefeito, Vereadores e Partidos Políticos, no Salão da Igreja São Francisco de Assis Rua Miguel Rachid, 997 – Ermelino Matarazzo - Zona Leste. Informações e participação: movimentoprodescentralizacaosp@gmail.com

Colete as assinaturas atrás desta FOLHA E entregue na Escola da Cidadania, nos Movimentos Sociais, nas Entidades compromissadas com uma Cidade humana, justa, participativa, cidadã... Reproduza quantas cópias você precisar. Precisamos reunir o maior número de assinaturas possível. Unidos alcançaremos esta vitória.


REUNIÕES PADRES - RELIGIOSOS - RELIGIOSAS AGENTES DE PASTORAL As reuniões entre os padres, religiosos, religiosas e Agentes de Pastoral serão realizadas sempre na última Sexta-Feira dos meses pares. A próxima será realizada excepcionalmente, na quarta-feira, dia

21 de Fevereiro de 2014 As reuniões serão realizadas sempre às 9h30 no CIFA Paróquia Nossa Senhora do Carmo de Itaquera - Rua Flores do Piauí, 182 - Centro de Itaquera

Os endereços eletrônicos abaixo indicados contêm riquíssimo material para estudos e pesquisas. Por certo, poderão contribuir muito para o aprendizado de todos nos mais diversos seguimentos. www.adital.org.br - Esta página oferece artigos/opiniões sobre movimentos sociais, política, igrejas e religiões, mulheres, direitos humanos dentre outros. O site oferece ainda uma edição diária especial voltada aos jovens.Ao se cadastrar você passa a receber as duas versões diárias. www.amaivos.com.br - Um dos maiores portais com temas relacionados à cultura, religião e sociedade da internet na América Latina, em conteúdos, audiência e serviços on-line. www.cebi.org.br - Centro de estudos bíblicos, ecumênico voltado para a área de formação abrangendo diversos seguimentos tais como: estudo bíblico, gênero, espiritualidade, cidadania, ecologia, intercâmbio e educação popular. www.cnbb.org.br - Página oficial da CNBB disponibiliza notícias da Igreja no Brasil, além de documentos da Igreja e da própria Conferência. www.ihu.unisinos.br - Mantido pelo Instituto Humanitas Unisinos o site aborda cinco grandes eixos orientadores de sua reflexão e ação, os quais constituem-se em referenciais inter e retrorrelacionados, capazes de facilitar a elaboração de atividades transdisciplinares: Ética, Trabalho, Sociedade Sustentável, Mulheres: sujeito sociocultural, e Teologia Pública. www.jblibanio.com.br - Página oficial do Padre João Batista Libânio com todo material produzido por ele. www.mundomissao.com.br - Mantida pelo PIME aborda, sobretudo, questões relacionadas às missões em todo o mundo. www.religiondigital.com - Site espanhol abordando questões da Igreja em todo o mundo, além de tratar de questões sobre educação, religiosidade e formação humana. www.cartamaior.com.br - Site com conteúdo amplo sobre arte e cultura, economia, política, internacional, movimentos sociais, educação e direitos humanos dentre outros. www.nossasaopaulo.org.br - Página oficial da Rede Nossa São Paulo. Aborda questões de grande importância nas esferas políticoadministrativas dos municípios com destaque à cidade de São Paulo. www.pastoralfp.com - Página oficial da Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de São Paulo. Pagina atualíssima, mantém informações diárias sobre as movimentações políticas-sociais em São Paulo e no Brasil. www.vidapastoralfp.com - Disponibilizado ao público pela Paulus editora o site da revista Vida Pastoral torna acessível um vasto acervo de artigos da revista classificados por áreas temáticas. Excelente fonte de pesquisa. www.paulus.com.br – A Paulus disponibiliza a Bíblia Sagrada edição Pastoral online/pdf. www.consciencia.net— Acervo Paulo Freire completo disponível neste endereço. www.news.va/pt - Pronunciamentos do Papa Francisco diretamente do Vaticano.

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