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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Departamento de Ciências da Comunicação

Igor de Souza Pinto E3804

“SIMULACROS E SIMULAÇÃO (1991)” UMA SÍNTESE DO VAZIO

Braga 2010


“Simulacros e simulação” (1991): uma síntese do vazio 1. Introdução Colocado entre os teóricos da era pós-moderna, embora não compactuasse com tal fato, Jean Baudrillard (1929 – 2007) tem inspirado de modo persistente o pensamento sociológico e filosófico contemporâneo. Influenciado pela Escola de Frankfurt1, Baudrillard ficou conhecido pelas suas teorias desconfortantes e apocalípticas sobre o rumo que a sociedade tomou com o fortalecimento exponencial dos media e, por conseguinte, do fetiche pela imagem iniciado no século XX. Em sua obra “Simulacros e simulação” (1991), o filósofo aponta o fato citado acima como uma das causas do falecimento da realidade, do real, o qual foi substituído pelo “hiper-real”, onde os signos reinam. Inaugura-se, assim, a era da simulação, na qual simulacros das verdades instauram um mundo sem sentido, sem o aspecto social, um mundo de máscaras e de fingimentos. Um mundo vazio, movido pela nostalgia, pelo consumo e pela domesticação ofertada pelo sistema. 2. Desbravando os conceitos: as ideias e exemplos bases Entender a ordem do simulacro e da simulação pela ótica de Baudrillard é se afastar da analogia com os verbos “fingir” e “representar”. Um simulacro não finge o real e nem o representa, tal como um signo, pela semiótica de Peirce, o faz. Para o filósofo pragmático Charles Sanders Peirce, o homem e o universo das mensagens que o cercam são pautados pelo pensamento, e o pensamento só é possível em signos (MARCONDES, 2004, p. 64). Assim, todo o processo de significação no mundo é mediado pelos signos e, para entendê-los, Peirce funda a sua teoria semiótica partindo da fenomenologia. Na semiótica, qualquer coisa pode funcionar como signo sem deixar de ser a coisa em si, desde que a sua base de representação (representamen) perpasse as propriedades formais que habilitam a existência do signo, que são: a sua qualidade ou potencial de sugerir algo (quali-signo), a sua existência no espaço e no tempo (sin-signo) e a sua capacidade de se generalizar em uma sociedade (legi-signo). Mas, quando os signos já não possuem a equivalência com a coisa representada no plano real, então surge o simulacro, que instaura a anulação da referência original, adquirindo partes dela, porém, o que prevalece é sempre a simulação, a perfeita reprodução técnica, o simulacro ao invés 1

Associada, principalmente, aos pensadores Max Horkheimer e Theodor Adorno, a Escola de Frankfurt foi precursora da Teoria Crítica, fundada na idéia de que o progresso oriundo do positivismo foi deturpado pelos regimes autoritários do século XX (nazismo, fascismo e o stalinismo na Rússia). Assim, a preocupação dos pensadores estava no sentido de compreender de que forma o indivíduo se tornou insensível à dor do autoritarismo, negando a sua própria postura ativa perante às possibilidades das transformações sociais. Neste sentido, a Teoria Crítica utiliza-se de pressupostos marxistas (explicar o funcionamento da sociedade e a estrutura de classes) e da Psicanálise (explica a formação do indivíduo como elemento do corpo social).


do real. A ausência do referente se dá através de um processo de simulação de fatos, o que torna possível a constituição de uma sociedade baseada no “hiper-real” - uma nova ordem da realidade, a intensificação do real, o excesso de perfeição causado pela simulação por imagens, modelos cuja referência dos signos deixa de ser a realidade: Assim é a simulação, naquilo em que se opõe a representação. Esta parte do princípio de equivalência do signo e do real (mesmo se esta equivalência é utópica, é um axioma fundamental). A simulação parte, ao contrário da utopia, do princípio de equivalência, parte da negação radical do signo como valor, parte do signo como reversão e aniquilamento de toda a referência (BAUDRILLARD, 1991, p.13).

O filósofo acrescenta que há três categorias de simulacro. A primeira é a naturalista, oriundo do valor de uso da natureza em um estado harmonioso do fingimento, da imitação, sendo resguardada a referência com o real. A segunda é a produtivista, oriunda da dominação da natureza na era industrial e baseada no valor comercial e da reprodução, incitando o desejo e provocando alienação. Por fim, a categoria de simulacro de simulação, cuja base é a cibernética, o digital, o que implica na total operacionalidade dos modelos e controle do real, em que os signos são a pura simulação. Entre os exemplos demonstrados por Baudrillard em sua obra, destaca-se o da Disneylândia: uma land da terceira categoria do simulacro que, junto com a indústria cinematográfica que lá se instala, foi capaz de eclipsar a “real” América, a “real” Los Angeles, transformando-a em um cenário, em um espaço de circulação de fantasmas, de sonhos, por isso, um espaço vazio, artificial. As pessoas vão lá para sonhar, para regenerar o imaginário perdido ao acreditar que as máquinas, os brinquedos, a tecnologia, o mundo fantástico da Disney é tão mais real que o próprio real porque satisfaz a nossa imaginação. Vamos à Disney para consumirmos nossas próprias fantasias, as quais não temos acesso no mundo real, somente por meio do simulacro Disneyland. A história foi outra vítima do eclipse do simulacro. Saiu do âmbito do mito, da narração simbólica dos fatos para povoar a hiper-realidade do ecrã. Dessa forma, cinema e TV criam simulações perfeitas, minuciosas dos acontecimentos, mas o sentido se esgota nos efeitos especiais, na rapidez da narrativa, mesmo porque a nossa relação com o tempo mudou, se tornou mais veloz com a presença dos media em nossas vidas. Queremos memorizar tudo ao mesmo tempo e acabamos não memorizando nada, queremos antecipar os fatos antes mesmo de acontecerem, e os media nos ajudam nesse aspecto a partir da profusão de informações e de construção de modelos. Como não há memória, não há razão para haver história, por isso ela está em estado de greve. O que temos em seu lugar é o espetáculo, seja ele cinematográfico ou televisivo, ou seja, conhecemos a “história” por meio de uma montagem artificial dos fatos que possui uma experiência em si fundada em imagens, diferente da experiência do “real”. Em suma:


É que o próprio cinema contribuiu para o desaparecimento da história e para o aparecimento do arquivo. A fotografia e o cinema contribuíram largamente para secularizar a história, para a fixar na sua forma visível, “objetiva”, à custa dos mitos que a percorriam (BAUDRILLARD, 1991, p. 65)

Não só a história, mas o social foi subjugado às diretrizes dos media. Quem desconhece as informações, as mensagens mediáticas, não está socializado, “está dessocializado, ou é virtualmente associal”, tal como afirma Baudrillard (1991, p. 104). A problemática deste fato, segundo o filósofo, é o declínio do sentido e da comunicação a um nível da encenação, porque já não há a comunicação em si, a mediação, a dialética entre a realidade do emissor e a outra realidade, a do receptor. Assim, ao evocar Marshall MacLuhan, Baudrillard decreta a dissolução dos dois pólos da famosa afirmativa “o meio é a mensagem”, e, por conseguinte, a implosão do social, da comunicação e do sentido dela proveniente, ou seja: Numa palavra, Medium is message não significa apenas o fim da mensagem mas também o fim do medium. Já não há media no sentido literal do termo (refiro-me sobretudo aos media electrónicos de massas) – isto é, instância mediadora de uma realidade para uma outra, de um estado do real para outro. Nem nos conteúdos nem na forma. É esse o significado rigoroso da implosão (BAUDRILLARD, 1991, p. 108).

O sentido da mensagem se esgota na disseminação do hiper-real, ou seja, entre nós e o mundo há os meios tecnológicos de comunicação os quais simulam as informações à sua maneira, hiperrealizam o mundo e o transformam em um espetáculo, fazendo-nos reagir somente dentro do espetáculo, porque esse passa a ser, agora, o real. E, no espetáculo, não somos um corpo social, somos massa unida pela solidão e melancolia. Um exemplo ilustrativo da ideia acima reside na transmutação da publicidade. Antes, a mercadoria era a mensagem, a sua própria razão de publicidade. Hoje, a publicidade é a mensagem e o meio ao mesmo tempo. É a publicidade absoluta da marca e do valor que determina as nossas escolhas, e não a mercadoria real em si. A publicidade afeta não só o âmbito do indivíduo, mas o mundo moderno também, quando “apaga’ a cidade e sua profundidade, quando anula a arquitetura com os infindáveis outdoors, e, finalmente, quando satura o cotidiano e instaura a procura pelo vazio: “Já não há cena da mercadoria: não há mais que a sua forma obscena e vazia. E a publicidade é a ilustração desta forma saturada e vazia” (BAUDRILLARD, 1991, p. 120). 3. Baudrillard e o contemporâneo Baudrillard estrutura a sua teoria sobre a simulação /simulacro em vários, senão em todos os níveis da vida humana. Assim, a articulação com outros autores é pertinente para se compreender a nossa contemporaneidade. Em sua viagem pela América, no intuito de entender o conceito de “deserto do real”, é visível a similaridade com a teoria de Paul Virilio sobre o predomínio da


velocidade em nossas vidas, assim como nos remete aos pensamentos de Marc Augé sobre as nossas relações com o espaço e o surgimento dos “não-lugares”. Baudrillard afirma que a América é puro deserto, “uma rede de circulação incessante, irreal” (1991, p. 21). Analisada por Miranda (1998), a reflexão de Baudrillard em correlato aos outros autores citados é melhor sintetizada assim: Apesar do espírito de sublime com que percorre as cidades americanas (“não podeis encontrar diferença entre um deserto e uma metrópole”), é o deserto que tudo organiza. Trata-se de uma paisagem anulada pela velocidade pura que elimina o viajante apresentando-se como cenário [...] (MIRANDA, 1998, pp. 53-54)

Em certos aspectos, a teoria de Baudrillard nos remete para os pensamentos de Walter Benjamin, pois toda a questão da simulação, da perda da verdade, ecoa similarmente ao que Benjamin ressaltava sobre a perda da aura na era da reprodutibilidade técnica. Cruzando pensamentos, o simulacro é um análogo do conceito de cópia, e o original nos remete ao próprio conceito de real, que já não tem lugar no mundo de simulações. Isso é evidente quando Baudrillard discorre sobre a questão do corpo e sobre o anseio pelo simulacro do clone na atualidade: [...] é o que acontece ao corpo quando já não é ele próprio concebido senão como mensagem, como stock de informação e de mensagens, como substância informática. Nada se opõe então à sua reprodutibilidade serial nos mesmos termos que emprega Benjamin para os objectos industriais e as imagens mass-mediáticas (BAUDRILLARD, 1991, p. 129).

Trabalhar os conceitos de Baudrillard é trabalhar com o processo de “desencantamento” com o mundo. Com a simulação/simulacro, já não há mais a sedução da ilusão, o prazer do imaginário. Tudo se perdeu com a hiper-realidade das imagens, do holograma, do clone, do protótipo perfeito, da cópia substitutiva. A nossa utopia passa a ser a busca pelo “real” perdido, pelo “real” que serve agora como justificação para o reino de manipulações provenientes da simulação. Os media são o “alvo” principal de Baudrillard porque é a expressão máxima dessa hiper-realidade que engendra a famosa “sociedade do espetáculo” teorizada por Debord, em 1967. Em “Simulacros e simulação”, temos uma pista do que nos transformamos: em voyeurs de um real que se tornou vazio, porque “Tudo isso vem aniquilar-se no ecrã da televisão. Estamos na era dos acontecimentos sem consequências (e das teorias sem consequências)” (BAUDRILLARD, 1991, p. 201).

Referências

BAUDRILLARD, J., (1991) (1971). Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio d'Água. BRAGANÇA DE MIRANDA, J., (1998). Traços - Ensaios de crítica da cultura, Lisboa: Vega. MARCONDES, C., (2004). Até que ponto, de fato, nos comunicamos? São Paulo: Paulus.


Simulacros e simulação - uma síntese do vazio  

Resumo da obra Simulacros e simulação (1991)

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