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Sinopse: Quando duas vidas incomuns se encontram, muitos dirão que é o destino, agindo com suas artimanhas inexplicáveis. Mas o que dizer, quando dois mundos avessos se entrelaçam pela imprevisível corda do tempo? Uma Serafim, Aniah, generala de várias legiões celestes. O braço da justiça divina de Elohim (Deus). E, um homem, Isaac. Marcado pelas atrocidades do mundo moderno. Mal saberiam, que todas as suas diferenças, da santidade a descrença. Completar-se-iam em uníssono, na consoante melodia do universo. Entre o céu e o inferno: a chave da sedução caminha a passos firmes pela estória do céu, não se esquecendo das contendas de um comum. Então abriremos as páginas, para que falem. Contando-nos a seu modo, suas próprias batalhas, e que as palavras respondam por si só, todas as nossas dúvidas.


CAPÍTULO I [Aniah] Ao som das trombetas

Antes mesmo de a alvorada iluminar os belos e sinuosos corpos das musas, antes da estrela Febo aprisionar com seus ardis de mulher fogosa vários planetas, subjugando-lhes apego eternal. Quando o nada era o que de mais importante existia. Fora nessa época que nascemos. Ungidos pela própria força das forças, batizados como as criaturas de Javé. Nós os malachins, seres eviternos, nem eternos, justamente por sermos criados, nem temporais, de modo a não estarmos sujeitos a seus males. Os guardiões celestes, dos ventos, da água, e de qualquer elemento vindo do universo. Por muitos e muitos milênios convivemos num ambiente tão prazeroso quanto a brisa a beira-mar, e sequer as esplêndidas constelações poderiam ofuscar toda aquela perfeição. Os costumes eram joviais, fazendo-me sentir envolta pelo manto de uma seda tão delicada quanto terna. Essa, oferecida aos raros bem aventurados de uma família afortunada. Fato, nenhum pouco convencional, composta de filhos em demasia, e um único progenitor. Mas agraciada pela magia inigualável da simplicidade, unindo a todos seus entes, até mesmo os mais distantes, a mesa farta de especiarias divinas, o maná. A causa para tanta celebração, mostrava-se tão nobre quanto a maior de todas. Sabíamos que não merecíamos tanta gratidão, laureando vibrantes, o imenso presente a nós ofertado. 1


Cada qual exercia harmoniosamente sua tarefa de destino, e por longo período após a criação assim fora. Os seres do firmamento, de origem dotados do que a ser humano busca em sua breve experiência terrena, a luz. Contemplávamos a obra de nosso causador, tentando compreende-la com paixão. Ainda lembro, desse tempo com enorme pesar, todos os irmãos provenientes da mais perfeita das operas. Bem antes a Adão e o surgimento da civilização. Como uma grande oliveira exalando beleza, valendo-se de seus inúmeros frutos ricos em sabor, éramos milhões. Todavia a paz que parecera infindável seria abalada, alterando para sempre o destino de todo o universo. Rumores de guerra passavam a ecoar por todos os sete céus, trazendo consigo a intranquilidade. No inicio tentara me afastar da conjuntura, convoquei o exército de soldados alados, saindo para um suposto treinamento isolado. Num pedaço afastado da criação, muito estimado por nosso pai, que o tratava como seu diamante mais raro. Este se chamava Terra. Por anos ali permaneci, totalmente alheia ao que ocorria nos reinos superiores, apreciando a graça do ambiente em constante mudança. Uma atmosfera em formação, com um turbilhão de gases a se fundir. Regiões cada vez maiores, emergindo por entre chamas de vulcões majestosos. Nessa época jamais imaginara, tendo esse cenário como guia, que este pequenino lugar se tornaria límpido, habitável para sueltos de espécies. Meus irmãos por perto resplandeciam felicidade, experimentando a delicada lapidação que o pequeno planeta, situado num longínquo canto de uma galáxia, recebia.

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Anseios que ate então nunca sentira, começaram a me preencher, sabia que não tardaria para que a disputa viesse nos atingir. Nesse clima de destempero, o inevitável ocorrera. Quando o manto de Vilon estava a se fechar, e a estrela Apolo que iluminava a humilde porção, já desaparecia acanhada por entre os montes incandescentes de magma. Da paisagem de crepúsculo, uma luz que certamente invejaria até mesmo o próprio astro. Viera na minha direção, numa velocidade tão grande quanto a da claridade, o indivíduo que a irradiava. A sua presença aguda me deixava aturdida, esparzindo sobre todo ambiente, um odor de orvalho da madrugada – Quem poderia ser? Capaz de estremecer as faculdades de um serafim. – Irmã Aniah, nosso pai precisa de você, tome sua responsabilidade e guie sua legião – ecoou incitante, da massa reluzente de energia que se aproximava. O clamor inconfundível, que aquece os corações de guerreiros em noites tempestuosas, inebriava meus soldados que o nunca havia escutado. Agraciados com a presença do arcanjo mensageiro, Gabriel. Todos se ergueram, deixando de lado o que estavam a fazer para admira-lo. Querubins, potestades, principados e anjos da guarda, as castas que compunham um exército celestial, dispostos por armaduras fortificadas e lanças de ouro. A partir daí, o fulgor de seu corpanzil, formara uma esfera mística ao nosso redor. Sinal de conversa pessoal e peremptória. Saudei-o, com um leve movimento de pescoço para baixo, com cordialidade. – Querido irmão, rei dos reis do céu, estou com medo. O que todos esses boatos profanam seria verdade? As aves de rapina hão de comer nossos 3


iguais? – Estourei para o soberano, com tom desesperador, iniciando o colóquio. Totalmente consumida e esgotada pela situação, como tantos outros já passaram na história humana, convocados para guerra, e consequente frígida morte. – O som das trombetas, já foi tocado por nosso pai. Ele, mais que você e eu, encontra-se arremessado no vale da tristeza. Talvez nem mesmo o criador, onisciente em toda a vastidão, imaginasse que sua obra seria coberta com sangue de seus filhos – explicou o arcanjo, carregando pesar em suas palavras. – Mensageiro do altíssimo, por que faremos a guerra? Com ela abalaremos a delicada consonância do destino, seremos os responsáveis pela destruição? – Indaguei desalentada. Estava sobejamente confusa. Por mais que tentasse, não conseguia compreender o desejo de medir forças com quem repousa a seu lado e canta os hinos de fidelidade. Então Gabriel compassivo a aflição, fechara suas longas asas, argênteas feito o aço. Que nos distinguiam. Para assim se aproximar de meu coração indeciso.

Descoberto por sua aura natural pude admirar aquele

ser. Seus cabelos eram negros, pouco mais que sua pele morena. Suavemente enrolados em seu fim. Ajaezados por uma coroa de louros de material metálico, mais brilhante e nobre que a própria prata. A forma era salientada por entre a couraça da justiça. Metalina, resistente a qualquer mal. Uma túnica vermelha completava sua vestimenta superior. Grevas protegiam suas canelas e topo do joelho, aiastambém cometidas do sensível cintilante.

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Fiz o mesmo, desfigurando minhas seis asas adejadas, e nos abraçamos vigorosamente, como quando a criança assustada corre em direção ao protegido ninho, o colo de seu pai. Seu aroma orvalhado me embevecia. – Não pedira nada disso. Mas alguns de nossos familiares, ávidos por poder, desejam subir ao trono da eternidade – explanou Gabriel, afetuoso. Seu rosto estava colado em meu pescoço. Mesmo que abafando sua linda voz. Não me impedia de sentir suas palavras vibrando em todo meu ser. – Nosso irmão, O portador da luz, de beleza inigualável e poder ameaçador. Virou-se contra nosso criador, seus planos já iludem vários entre nós – concluiu enfatizando as palavras. Heylel apesar de pertencer à ordem dos Querubins, os melhores entre todos em batalhas, fora ungido com a graça e poder do altíssimo. Sendo entre todos, o mais próximo ao criador. – Mas por que ele assim o fizera? Acredito que nem mesmo você, Rafael ou Miguel, os dirigentes dos anjos. Despertaram tanto a estima de nosso admirável rei – Repliquei ainda não satisfeita. – Não diga isso bela Aniah, Nosso causador ama a todos por igual, esse talvez tenha sido um de seus maiores atos desde a criação – Advertiu-me, olhando com expressão assisada. – Heylel fora amado como qualquer outro. A despeito de sua classe, sentava-se entre nós, os arcanjos. Nos louvores e cantorias, sendo o mais notável no reino divino. Assimilei seus versos afastando um pouco o rosto de Gabriel. Logo retorqui: – Qual o propósito disso Gabriel, dar poder a seu inimigo?

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Gabriel parou por alguns instantes, fitando toda a legião de guerreiros a esperar o fim da situação. Nítidos indícios de que nem mesmo um dos mais próximos a Javé, saberia a resposta. – Indagas como essa se perderão nas estrelas, sem encontrar resposta. Mas o que posso lhe garantir, é que a contenda já iniciara. Venho a você, pedir ajuda para restituir a santíssima paz – disse Gabriel, com um semblante de dúvida. – Irmão, nunca lhe negaria ajuda, conhecendo-o como o faço. Acreditaria em você, mesmo se estivesse cega para impor o juízo sobre uma situação – decidindo, sem pestanejar, que iria lutar pela causa de Elohim. Em jubilo, o mensageiro, com sutil gesto, assinalou para o céu, ressaltando: – Sabia de todo o coração, que poderia contar com sua espada. Porém, a partir de agora, não confie em mais ninguém. Lute por nosso pai e pela criação. Não haveria mais para onde fugir, esconder-se, a batalha era iminente. E, estava em meu destino, erguer a lâmina nos campos celestes em prol desta causa. – Muitos dos que aqui nos cercam, tentarão afiar suas armas em nossa garganta para nos infligir a morte. Não espere que todos os seus soldados lhe entregarão a vida. Mas valorize com fervor os que ficarem – alertou o mensageiro abaixando seu braço. Indicando a tropa de anjos que aguardava. – Um mar de armaduras e asas, preenchendo a planície.

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Ao fim do discurso, o emissário das escrituras, com a mesma mão que abalizava para os soldados. Agraciou meu rosto, desaparecendo, fazendo de sua forma uma linda nuvem de poeira brilhante.

CAPÍTULO II [Isaac] Amaldiçoados por nascimento

Quando era criança desejava crescer para conseguir enfrentar o mundo de igual para igual, sem ser desqualificado por alguns palmos de altura, que lhe arrancam o respeito em qualquer querela mais séria. Consegui viver em tantos lugares, que passei a ser um eterno viajante, um nômade que perambula atrás de sobras por extensas planícies. Para ser sincero, esse sentimento de não pertencer à coisa alguma, por mais que os anos tenham tentado devorar, ainda persiste dentro de mim. Nasci onde nenhum ser dotado de anseio esperaria, e quando isso alego, não penses que o inferno será menos fétido e nojento que um lar de subúrbio como o de minha puerícia. Como se tivéssemos a opção de escolher o local de nosso nascimento, ou a família que nos abrigara. Filho de pais

drogados,

verdadeiros

moribundos

que

mais

pareciam

zumbis

anestesiados pelo uso constante de entorpecentes. Dos pesadelos que sonho invariavelmente, grande maioria nasceu nessa época, frios, agonizantes e profundamente tristes. Fui retirado do seio materno muito cedo, se é que nessa situação, tão branda palavra possa se encaixar, sem soar como sarcasmo. A partir daí, 7


criara uma aversão a esse submundo que se alastra como uma epidemia. A lepra da industrialização, consumindo todos os que não suportam a pressão de viver em uma sociedade amplamente desnivelada. Um simples desvio de caráter, inocente, cevado por esse ambiente, faz pessoas se tornarem verdadeiros assombros, e isso você, refletindo rapidamente, pode garantir. Certo dia surgira uma rosa delicada, de pétalas multicoloridas e de fragrância inigualável, essa divindade, vinda diretamente dos campos Elíseos, já nos primeiros passos de vida olhara para o lado e vira somente destruição em uma atmosfera negra. Nos primeiros anos, ainda pura brilhara para todos os que assim quisessem ver. Mas isso de nada adiantou, pois a luz mal conseguia nutri-la, diante à imensa sombra. E ela foi cansando, e cansando... Aos nove anos de idade já convivia com semelhantes em um orfanato, por sorte ainda era relativamente novo, e as chances de encontrar alguma família com poucos problemas, disposta a ampliá-los, era um pouco maior. Nesse universo onde o tempo atua como vilão, condenando vários jovens à eterna espera. Fui um privilegiado, moreno, parrudo, com aspecto altamente sadio perante aos demais concorrentes. Três meses no orfanato, para um moço acostumado a constante agonia da fome, assemelhou-se a um SPA, frequentado por barões de altas classes sociais. Ali fiquei menos de um ano, tempo suficiente para fazer uma grande amizade, João, menino franzino de uma brancura cintilante. Outro como eu, vindo de mais um teto assolado pela marginalidade de seus progenitores.

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No ultimo refugio para almas mal nascidas não existia a distinção entre cor e etnia, pelo menos entre nós. Habitantes do casebre, nomeado pelas religiosas que dele cuidavam como “morada temporária”. Mesmo hoje, anos depois, lembro-me de conversas que tínhamos nos quartos onde nos amontoávamos para dormir. Eram todos supostamente pintados, porém tão surrados que a tinta se cansara de ali ficar. De quando em quando algum habitante acordava no meio da noite rechaçado por goteiras violentas em tempestades mais hostis. Muitos beliches tão achegados quanto pudessem. Análogo a prateleiras de supermercados arrebatadas de produtos iguais. Uma imagem religiosa enfeitava a parede, onde a entrada para o dormitório ficava. Nessa única divisória não coberta totalmente por madeira dos tálamos estruturados, jazia essa gravura, um anjo com asas enormes, que ensejavam imponência. Um olhar de bondade, não infantil beirando a bobeira,

e sim

decidido,

reconfortante, desses

que lhe transmitem

segurança. Meditava por horas e horas o ser mitológico. Muitas vezes descrente de sua existência, por já tão novo conhecer na própria pele os retoques de maldades de nosso mundo. João e eu dividíamos um dos beliches próximos à porta e do anjo, e apesar do toque de recolher imposto pelas pequenas monásticas, sussurrávamos em conversar que varavam as noites. Entre tantas, recordo-me de uma em especifico: passado o jantar, as rezas, estávamos lá deitados. Olhava para o local ainda com alivio, já fazia seis meses desde que fora retirado de minha família problemática. – Isaac, você está feliz? – João sussurrou receoso com as vigilantes. 9


– Oi? Como assim? – Pego de surpresa, escorreguei na interrogação repentina. – É que vi na televisão, o destino de jovens como nós, quando não conseguem ser adotados... – pausando para engolir um pouco de saliva, sinal de nítido desconforto com o assunto. Ainda não havia pensado a respeito, estava somente a aproveitar os deleites de uma cama e comida gratuita. No entanto, João já possuía idade mais avançada, beirava seus quinze anos, quase um adulto. O que para os padrões de adoção, o fazia parecer à serpente Píton vencida por Apolo. – O que acontece? – Perguntei, erguendo as sobrancelhas. – Falava algo sobre a falta de vagas, e como somos largados ao mundo cada vez mais cedo – comentou se remechando na cama superior. Nesse instante, vagarosamente virei o pescoço para fora da cama. Para que pudesse fitar João. – Cara, esquece isso! – Exclamei, elevando o grau da voz. Essas são àquelas horas em que devemos respirar fundo, buscando no fundo da alma, algumas palavras de incentivo. Todavia, agora que João havia tocado no assunto, passei também a me preocupar. Alguns minutos de silencio, e a preocupação que nossa conversa incitava já me deixava inquieto. Apreensão de fato bem menor que no passado, quando fugia para não apanhar de um alcoólatra alienado. Empunhando em uma das mãos a cinta, e na sobra à garrafa. Mas ainda assim considerável. – Será que meu pai me aceitaria de volta? – Desabafou o companheiro, logo se dando por vencido.

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Pensei em lhe dizer, que a loucura o havia consumido, sabia por experiência própria que essa atitude não deveria ser a mais correta – no entanto, seria preferível, regressar a Geena, ou ser abandonado, sem trabalho, alimentação e moradia num dia qualquer? – Acredito que por ele ser seu pai, sim – afirmei, num tom que transpassava indecisão. E o nefasto sossego novamente se apossou do local, dessa vez não sendo interrompido, então adormecemos. Dois dias depois, João havia sumido por entre os muros do abrigo. Na oportunidade, ainda cedo estávamos a nos encaminhar as atividades matinais propostas. Coisas corriqueiras, algumas aulas intermináveis, orações que instigavam a letargia. Todos os rapazotes que já sabiam andar, guiados pelas freiras de fisionomia pouco amigável, atarracadas, cobertas por panos negros de cima a baixo. Éramos agrupados em filas, na ordem crescente de tamanho. No alvoroço

formado,

somente

observei

o

rapaz

extremamente

pálido,

desvencilhar-se de seu espaço, um dos últimos na série de cabeças masculinas. Tomando um rumo diferente do habitual. Nessa hora já sabia que não o veria mais, meu primeiro amigo verdadeiro, João, protetor dos desamparados. Após sua fuga a paz desmoronou por entre o piso gasto e gelado do casebre. Os mais velhos que até então me ignoravam, em grande parte devido à proteção de João, passaram a ter carta branca para me fazer provocações. Como também, brincadeiras de péssimo gosto.

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Baltazar, menino gordo de aparência maléfica, era quem me pregava as maiores peças. Seja derrubando a bandeja de almoço, e com ironia profunda se desculpando. Ou lavando minhas roupas, nas imundas águas de privadas malcheirosas. Sabia que denuncia-lo de nada adiantaria, e que sem provas, a punição cairia sobre mim. Regozijando mais ainda o marginal.

Do mato a maca

Certa vez andando por entre o quintal arborizado da instituição, passava das cinco da tarde, estava cansado. Havia lavado todos os banheiros de minha ala, como corretivo pelas inúmeras bandejas que eu derrubara no refeitório, com auxilio pessoal de Baltazar. O crepúsculo estava lindo, a lua envergonhada começava a dar sua graça, excitando as noites de amantes por toda a cidade. Desligado, refletindo sobre a situação, a fuga de João e suas ultimas palavras no ocaso. Quando de repente ouço algumas risadas,e junto a elas quase que na mesma velocidade que o som me acometera, avistei Baltazar e seus comparsas de travessuras para com os mais novos. Vinham em minha direção, como abutres após a caçada de lobos, certos de comida fácil. Sorvendo o ar pesado ao redor, percebi que naquela condição era a presa dos brutamontes. Tencionei correr, mas certamente seria pego. Já que a presteza dos mesmos perante a minha, seria como o cão de Céfalo, o famoso Lélape a correr atrás de um cervo coxo. No tempo desperdiçado para esse pensamento, os inimigos já me cercavam. Em algum canto do imenso jardim, que necessitava de cuidados. 12


– Olha quem encontramos escondido por essas bandas – comentou Baltazar para seus guardas. Com uma alegria funesta. – Oi Baltazar... – Cumprimentei temeroso, os amaldiçoados. Tentando resolver a pendenga por ato diplomático. Arrisquei proceder, como quando encontramos um conhecido na rua em dias de atraso, e o tempo não nos permite uma pausa. Obrigando-nos a um simples aceno de cordialidade, numa saída de supetão. Contudo, o cerco se fechara. Os outros dois juntos a Baltazar eram Beltrão e Anton. O primeiro era forte, negro bem como os legítimos descendentes africanos, trajava roupas que assemelhavam um “rapper”. De seu lado o outro moleque era menor, porém tão quanto lunático, pelo ódio recolhido. Baltazar fora o primeiro a investir, empurrando– me em direção a Beltrão. Como se estivesse a brincar de passar, só que no caso, a bola seria eu. Beltrão com sua robustez descomunal continuou a brincadeira. Quando notei, já estava arremessado aos pés sujos de Anton. Jamais fui um covarde, estava acostumado a pelejar desde cedo. Confesso que os gongos núncios de uma batalha, sempre me incitaram. Vi na ocasião, uma oportunidade de escapar. Já que num embate com Anton, as possibilidades poderiam ser favoráveis. Desamparado ao chão, com o odor do malfeitor me causando náusea. Num solevante extintivo, empurrei suas pernas atirando-o na grama. Tão depressa, estava sob o rapaz. A natureza de guerreiro tomava conta de minha carne, adormecendo os membros. Não pensara em mais nada, começando a lhe proferir golpes ininterruptos. Foi a primeira vez que a chama da cólera, dominara por completo meus sentidos. Estava fora de 13


mim, como se um espírito alheio, ou o próprio mal estivessem feito uma marionete, a controlar os movimentos de um boneco. Os

alaridos

traduziam

a

dor

de

Anton.

De

forma

alguma

sensibilizando meu surrado coração. Com muito custo, os outros dois conseguiram me retirar de cima de seu parceiro. Beltrão recolhera uma pedra por entre o mato, acertando com a dura rocha bem na minha fonte, fazendo-me recuperar o juízo abalado. Cai ao lado do inimigo, estava embebido pelo suor do esforço passado. As manchas vermelhas de sangue se prolongavam, como marcas de guerra por todo o rosto. A cabeça atingida com o objeto maciço não aguentara. A visão passou a se embaçar, vultos deram lugar à nitidez habitual, então desmaiei. Ainda que desacordado, rendido pela fúria dos jovens. Os próprios perplexos com o ocorrido, não paravam de afligir contra minha carcaça, e, viver agora já não mais eu que decidiria.

CAPÍTULO III [Aniah] A guerra

Com a presença do próprio arcanjo, a me acalmar a alma, preenchendo-a com imensa coragem. Virei para os que ali estavam, eram muitos. Na época, comandava várias legiões, que ultrapassavam o número de abelhas que há em uma colmeia. Insinuando com olhar severo, a atenção de todos.

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– Caros irmãos que aqui se encontram, até hoje somente temos de agradecer a nosso pai por todos os seus presentes. Pelos poderes de vagar por toda sua obra e subjulgar qualquer outra espécie. Que já existe ou virá para o futuro – discursei, com voz forte e decidida, dessas que um líder deve utilizar para com seus subordinados. – Mas hoje ele nos pede sua ajuda, em ato humilde, para fazer a guerra pela paz – continuei tentando manter a entoação. Não podia mais esconder dos soldados, apesar de crer que, em maioria, já sabiam. O que se passava na esfera superior da hierarquia. Logo, um alarido de confusão penetrou na centena de anjos, fazendo-os semelhantes a uma manada desatinada, por um ataque súbito de predador. Novamente recobrei a atenção de todos. Desembainhando a espada de diamante puro, elevando-a ao céu. Forçando a garganta para levar o chamado a todos, perfilados sob mim: – Sou sua comandanta por direito divino, nasci para guia-los – sorvendo o ar da coragem que minhas palavras pediam. – Sei que alguns daqui inclinarão suas espadas em favor do inimigo. Porém, com todo o amor que ofereço, sei também que serão poucos os desgraçados que isso farão. Todos os guerreiros olhavam-me petrificados, talvez nunca os despertasse

tanta

admiração.

Observava

em

seus

semblantes,

a

determinação deprecada a soldados em batalha. – É com misericórdia, que a estes digo para irem embora ao meu sinal. Pois não quero ainda destruí-los – asseverei, atingindo seus corações. – Mas advirto que na próxima vez que me encararem, enfrentarão a minha ira cingida pela fúria do altíssimo. 15


Laziel, subordinado imediato, com suas três faces de leão faminto, lançou suas asas ao ar, que saiam do dorso pardo, esbelto. Indo a minha direção. Ensaiando a legião sedenta, um hino de guerra: – Viva ao senhor! Nunca imaginara que tantos não o acompanhassem. Conhecendo que mesmo em meu seio, haviam corrompidos. – A esses que ignoram o chamado do arcanjo – praguejei desolada, alastrando tempestades pelos cantos do planeta inabitado. – Vão e sejam assolados por seus próprios passos, antes que eu, sua dirigente, mude de ideia. Vários então voaram para o destino, enquanto os remanescentes choravam. Desentendendo, como eu mesma, o destoante da situação. Dali para frente o que se viu foi morte e destruição, guiei os meus em inúmeras batalhas. Nas quais, o que menos parecia, é que um dia todos esses foram considerados irmãos.

A tentativa frustrada

Permanecia na fronte de combate. Induzida por informações que garantiam que os generais do motim, estavam escondidos a norte de Maon. O Quinto Céu, onde as multidões de malachins habitam. E num passado já distante, enalteciam com cantoria a graça de nosso pai. Os traidores já se encontravam muito próximos à morada do altíssimo. Uma vez que no desenrolar do conflito, ganharam força, marchando a passos rápidos rumo ao poder. Com um exército organizado e liderado por Heylel. 16


Precisava de ajuda imediata, meu séquito reduzido pelas baixas inevitáveis, estava encurralado. Ao nosso redor, somente os escombros de moradas de mármore e telhas de ouro, do que um dia fora um recanto habitável. Um deserto ermo de chão ressecado, com marcas de erosão que o esfarelavam, muito distante dos lindos campos floridos de outrora. Éramos atacados por fortes lufadas de fuligem, que encobriam com negrume nossas vestimentas de guerra. Toda essa, proveniente de piras e mais piras de anjos abatidos. Monumentos com metros de altura, espírito sobre espírito, asa sobre asa. A arquitetura fidedigna a circunstância que enfrentava. A notícia de nossa presença, próxima aos comandes contraventores havia vazado. Nossa ofensiva surpresa, tida como trunfo de combate, virou-se contra seus articuladores. Aos que ainda garantia confiança, podia contar nos dedos. O mundo angelical havia apodrecido, olhe o que uma única fruta corrompida, num pomar de milhões pode fazer. Destaco entre esse poucos, Laziel, querubim inigualável em virilidade, dando-me cobertura a todo o momento. Enfrentávamos as forças do Lorde sombrio, Yekun, astuto e traiçoeiro, o abastado. Responsável por corromper hordas inteiras de anjos em seu favor, juntamente a ele, seus cerca de cem soldados hiantes. Em quantia bem inferior, não passávamos de trinta, e contando regressivamente o número de cabeças que a lança ainda não havia sido atravessada. Agrupei o bando para tentar conter os assaltos, com flechas flamejantes lançados a distancia. Nossos escudos sucumbiam cansados, ao passo que a luta corpoa-corpo também ocorria.

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Em atitude desesperada, pensara em utilizar o resto de minhas energias para retirar a tropa da contenda, fugindo para qualquer estrela distante. Porém sabia que devido à proximidade do inimigo, e o fácil rastreamento, somente adiaria por poucos segundos o embate. Com a espada inimiga prestes a separar nossas cabeças do tronco a que pertencem. Prometi para mim mesmo, que não permitiria esse destino a meus semelhantes, por mais inabalável que fosse o oponente. Suplicava aos chamados do altíssimo, mas nada. Compreendia que essas seriam em vão, Rafael o anjo curador, estava a salvar a vida de milhões, fuzilados na batalha. Do mesmo modo, Gabriel aguentava por anos, junto a Zadkiel, as ofensivas dos insolentes a Machon, o sexto céu. Onde se escondem todas as periculosidades que o mundo já viu, e poderá ver. Neste local de clima sinistro, furacões ocorrem tão frequentes quanto os pássaros voam em idas a árvores frutíferas. Terremotos cicatrizam a paisagem cortando ao meio o solo, coberto de neve e granizo, em diversas direções. E, inúmeras pragas se escondem por entre as florestas secas, somente os mais poderosos conseguiam conviver nesse ambiente bruno. Deste modo perde-lo, seria entregar ao inimigo as armas da ira de Elohim ao condenar as transgressões. Zadkiel o príncipe das dominações, executores das ordens mais emergenciais da providência. Carregava junto a sua espada, o poder da chama violeta, capaz de transmutar todas as coisas do universo. Não me admiro que apenas os dois seres superiores, formassem uma barricada intransponível aos adversários.

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Atentando novamente a nossa querela, suportávamos a investida das lanças, e as fagulhas das

labaredas

desviadas pelo

broquel. Que

rechaçavam minha pele fazendo-a ferver, como se fosse atirada a boca de um dragão. Estávamos rodeados, como um grande alvo. Observava os inimigos sobre a nossa cabeça, camuflados pelo céu negro de auras angelicais se esparzindo com a morte. Os guerreiros se protegiam com o que tinham, tornando o fenecimento, apenas uma questão de tempo. Sentia que uma atitude precisava ser tomada, notando para a miserável situação instaurada. – A todos que aqui se encontram, os que não foram tomados pelas falsidades da serpente, entrego o mais profundo respeito. Mas peço que me deixem para os abutres, e com isso fujam sem olhar para trás – Falei para os soldados dominando suas mentes. De tudo que discorrera, este seria o único revés plausível para salvar os anjos, ludibriando o oponente, ao entregar a cabeça de um comandante numa bandeja coberta de sangue. – Isso é uma ordem. Vão! – Terminando a triste alocução, com firmeza. Prontamente, concentrei todo o poder reservado, utilizando até mesmo a parte destinada a manter a chama da vida acessa, esperando a hora certa. Ergui-me em voo isolado, espalhando rochas de demolição para os lados, abandonando para longe o escudo que tanto me protegera. Quando os perversos iniciaram um novo ataque de flamas sequenciadas, utilizando todo o ânimo que meu ser esfacelado possuía, fizera o que tantos julgavam impossível.

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Com as asas eriçadas pelo ódio da perda, ergui a espada, emanando a mesma energia cósmica conhecida somente pelos mais elevados. Inclinando a ponta das flechas devastadoras, que inflamavam a paisagem com clarões, a um movimento em curva, regressando a seus atiradores. Os oponentes mais modestos, abalados pelo absurdo que presenciavam, foram facilmente atingidos com o próprio veneno, acometidos pela morte que a pouco tentavam. E, muitos caíram. Inequívoco, que para os mais ardilosos, companheiros íntimos da batalha, o problema seria resolvido com uma simples esquiva. Mas já era tarde, o objetivo fora alcançado. Garantindo aos comuns, tempo suficiente para uma fuga a qualquer constelação mais distante quanto o universo permitisse. O corpo não obedecia mais os pensamentos, devastado como os de cavalos de guerra, que morrem pelo esforço de carregar os canhões. Assim passei a cair para o destino de morte. Contudo apesar da dor, estava feliz, e faria tudo novamente se fosse necessário.

Adeus irmão

O cadáver esperava paciente o encontro com o solo rochoso que decretaria o fim, mas infelizmente não fora isso que ocorrera – Laziel, querubim indomável, por que ousas me desobedecer? Agora em minha direção, além dos famintos a se aproximar, o desobediente

anjo.

Voando

com

sua

importância

que

em

batalha

transformava-se em leão, num rasante tão veloz que acalorava o ambiente.

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Fui salva por meu irmão, em atitude ensandecida. Este, ao me pegar em seus braços rígidos, espreitou-me com paixão. – Perdão por não te ouvires, mas nunca te entregaria a esses devoradores que não merecem sua bondade, Aniah – sussurrou cedendo lagrimas sinceras sobre meu rosto. Mantendo o ímpeto veloz até encontrar o plano amorreado por escombros, descendo-me levemente.

Ao fundo da cena de ternura, uma

risada medonha ecoava, junto a ela se acendia a imagem de Lorde Yekun, cercado pela tropa de caídos. – Laziel, vejo que a loucura tomou conta de seu altivo espírito, irmão. Por que não fugiu junto aos seus, semelhantes a servos temerosos de ataque? – O ser maligno, de asas sujas, tão negras quanto à noite, carregava amarrado a seu peito a chave da sedução, um dos motivos de nossas perdas. – Seu tirano, não me iguale a você, há muitos e muitos sóis não somos mais irmãos, besta cruel – bramiu Laziel em alarido de fúria. – Ofereço-te, e nada mais, a lâmina de minha espada de puro ouro, para arrancar esse olhar de escárnio – Acrescentou ainda o querubim. Yekun

admirava

a

situação

com

desprezo,

desmerecendo

completamente as ameaças que recebera. – Noto que em você, a chave não possui efeito. Seu amor pela justiça age como muralha a meus encantos – disse o anjo negro reconhecendo a firmeza do inimigo. – Mas sabes melhor que ninguém, apesar de sua eficácia em combate, que poderia me alvejar se assim estivesse só, nada poderá fazer contra esse grande número de soldados.

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Nessa iniciativa, vários anjos voaram para abordagem a Laziel, o querubim, lançara aos ares suas três cabeças de leão. Calcinando com o fogo que esguichava a todos que se aproximavam de mim. Ruliel, Atkiel, Enael, e mais de dez inimigos. Foram afetados pela potencia do imponente subordinado, virando pó porquanto eram incinerados pela chama celeste. Sabia que o protetor, não sucumbiria tão cedo aos maléficos, e por dias e noites inteiras, espantou a leva cada vez maior que o atacava, parecendo um búfalo protegendo seus filhotes contra ataques de felinos. Yekun divertia-se observando toda a conjuntura. De quando em quando, tentando Laziel a se ajoelhar perante seu poder, e unir-se a seus propósitos. Para o malfeitor, soldados valiam menos que os grãos de areia que sujavam as vestes, assim as mortes assistidas, somente vinham a apimentar sua farra. No entanto, assim como a mesma piada contada por várias vezes perde a graça. O chefe inimigo cansara da diversão. – Percebo que não se inclinaras a nenhuma de minhas tentativas, de te convencer perante minha causa. Estou a me divertindo com suas atitudes, porém já não tenho mais tempo. – Sentenciou o Lorde, como se estivesse a ler uma condenação inquisitiva. – Agora irei enfim deixa-lo descansar por milênios, em seu leito de morte. Assim Yekun abrira os lábios de um roxo apodrecido, recobertos por um elmo escuro imitando a cabeça de um bode. Impelindo contra o esgotado querubim, uma horda de serpentes, cada qual com vários metros e veneno devastador. Laziel tentou resistir, retalhando-as com seus próprios dentes, mas eram muitas as abominações, que pouco a pouco o deixavam imóvel, seja pelo veneno paralisante, ou pela pressão que realizavam em seus 22


membros ao se enrolar. Tão cruel quanto sagaz fora o sombrio, agindo feito os lobos quando perseguem preias por horas para cansa-las, entoando uivos que causam pavor. Abriu mão de vários de seus escravos para prostrar Laziel, e, interromper-lhe a vida vagarosamente. Por entre à desesperadora cena, tentava me mover, no entanto a carcaça moribunda não atendia essa vontade. Um choro aprisionado me consumia, vislumbrando a morte de meu melhor amigo. Jamais em toda existência senti tamanha dor, quanto no dia em que admirei o olhar obliquo da morte.

Miguel, o salvador.

A lança reservada a preencher minha carne, não mais a temia, aliás, a desejava. Talvez com ela, a lâmina rija, conseguiria arrancar a amargura da perda. Não podia fazer nada, estava imóvel, sem qualquer reação, precisaria de muito maná – a energia milagrosa que restabelecia as forças angelicais – para me reestabelecer. Regozijando com tanta destruição, Yekun viera em minha direção, estava deitada por entre destroços de batalha. Pedras de mármore escurecidas pelo pó da morte, de um antigo altar de Maon, que nada lembravam o local guardado nas lembranças. – É chegada sua hora, serafim – profetizou o maligno, apertando com suas botas meu estomago. – Poderia sentir sua tristeza a quilômetros. Pois não fique assim, asseguro que será rápido. Mas da dor. Não posso e nem quero te privar. 23


Então, o anjo negro desembainhou sua espada, que ansiava por morte. Ergueu-a sobre os olhos, insinuando ser um ato de vanglória, perante os subordinados que assistiam sedentos. Com o fim inevitável, lembro-me que apenas rezei para que aquilo tudo não fosse em vão – tanta matança e destruição, em prol de uma disputa débil. Passados alguns segundos, percebi que o maligno, ainda encontravase na mesma posição de a pouco, com a espada erguida pronta a desferir o golpe final, alguma coisa ali estava errada. Juntamente a isso, o ambiente nebuloso do Quinto Céu tomara tons inexplicáveis, de um vermelho brando. A chuva acompanhando esta mudança passou a cair forte, em pingos graúdos. Esses, igualmente, não menos surpreendentes eram feitos de sangue, encharcando a terra ressequida. De onde quer que viesse a estranha potencia, não conhecia precedentes. O ar ficou pesado, deixando a todos na imensa porção, ofegantes. Seria o próprio Elohim? Do horizonte da paisagem inesperada, formava-se pela água chovida, uma figura ainda desconhecida. Todos que ali estavam, estremeciam como bambos em ventanias, tomados pelo medo do misterioso. Tentavam desesperados, fugir como o coelho da raposa. Contudo a mesma pujança que cessara o ataque do príncipe maldito, os aprisionava no espaço. Permitindo-lhes somente o movimento dos olhos. Quem sabe, para que com esses pudessem perceber a imagem que se formava aos poucos. Enquanto o rio de seiva emanava do céu, convergindo num vórtice rubro a nossa frente, materializava a figura enigmática, de poder sem precedentes.

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Já podia ver um manto que acobertava a corporatura por inteiro, como um gigante, sugerindo ser um guerreiro. Assim a chuva parou, projetando o indivíduo misterioso a esconder sua identidade por entre um capuz de tecido delicado. Tonando níveo, cor de neve recém-caída. – Quem é você estranha criatura? Como ousa se intrometer em assuntos do grande Heylel, o futuro rei dos céus? – Advertiu Yekun, exalando ódio. O varão nada disse, trocando um punhado de vãs palavras por atitudes. Propelindo seu disfarce para cima, revelando-se para quem tivesse coragem de encara-lo.

Deveras tão imponente quanto seu indumento de

combate. Uma excêntrica armadura de placas, com peitoral de diamante, brilhantes como sol em seu zênite. Escarcela – lamelas que cobrem o abdome – de ouro. Acobertava seus ombros largos, o espaldar ataviado por espinhos de metal amarelo, de onde nascia o tecido vermelho de uma capa longa, tremeluzida pelos ventos. Suas feições de uma beleza austera, ofuscadas por um elmo com a heráldica em relevo de um escudo atravessado por uma espada, símbolos do vigor insuperável da mais divina das criaturas celestes. Donde somente seus grandes olhos azuis safira ficavam a mostra. O soberano empunhava com suas áureas manoplas, uma espada, que ultrapassava a altura de um homem comum no comprimento. Cintilando da lâmina, uma luz tão intensa quanto à de uma fornalha em plena atividade. Impossibilitando o olhar direto a besta celestial. Toda a manifestação era colorida por cor cianótica, energia mais pura e poderosa, a que incita a coragem no coração dos guerreiros. Dizem que somente Elohim e Miguel poderiam manipula-la.

Não

sendo o pai, a figura sibilina, era mesmo o filho primeiro da criação, o que 25


nenhum de nós ousaria desafiar. Miguel, o arcanjo, contemplava a todos que ali se encontravam. – Bastam a vocês traidores, morrerão por sua audácia, pois não existe perdão capaz de salvá-los – Miguel prenunciou, retirando da cabeça o elmo, esvoaçando as madeixas cor de cobre, para encara-los com rispidez. Nesse descerrado desejo, esparziu ao ar a vida dos malditos. Viraram areia todos, esfacelando os membros aos poucos, de baixo para cima, para que pudessem assistir suas partes indo embora para longe. Sendo levados pelo intenso vendaval que ocorria, formando ao horizonte, montanhas de caco que ornavam a paisagem. O único que ainda se mantinha de pé era Lorde Yekun. O astuto que mesmo imóvel, provera ao seu redor uma égide mística, protegendo-o do ataque lançado pelo arcanjo. Miguel ao primeiro instante ignorou o insignificante sobrevivente, indo de encontro a mim, entregue aos escombros. O homem forte, de braços roliços e aparência severa. Recolhera de Maon toda sua manifestação, devolvendo os ares de destruição à moradia dos anjos. E assim, parecendo um habitante qualquer, a não ser por sua altura e beleza, pegou-me no colo, sem fazer grande esforço. Sua aura energética, ao mesmo tempo que me erguia do solo imundo, revigorava todo meu ser, agora já podia abrir os olhos. Pouco depois, nem mesmo a poeira comum nas vestes existia em mim. Ganhara uma nova oportunidade de viver, no já tido como certo, leito de morte.

O destino do arcanjo 26


Na presença do supremo anjo da corte, totalmente revigorada do conflito anterior. Que imenso poder ele possuía, capaz de puxar dos braços da morte a carne marcada. Cercada por entre sua virilidade, sentia exalar da armadura, um cheiro agradável, paternal. Que tentava aplacar minhas intranquilidades. Parecia campestre, como terra molhada. Laziel não tivera tanta sorte, assim sai desajeitada para encontrar os restos do audaz querubim. Vaguei por instantes, procurando qualquer rastro por entre os entulhos das batalhas travadas em Maon. Mas nada encontrei, parecia que as aves já o haviam devorado, retirando de mim, sua melhor amiga, o direito sagrado de uma despedida. – Aniah, quem procuras já se foi, e sempre será lembrado por sua coragem – articulou o anjo oloroso, cessando meu voo desordenado. – Por que você não o salvou arcanjo? Laziel, que deu a vida pela causa – Obtemperei duramente o imenso. Uma vez que as soluças de tristeza faziam-me me esquecer de com quem falava. Ignorando o ocorrido, o arcanjo principal se aproximou, entregando em minha mão uma pena azulada que surgia repentinamente. – Guerreira do senhor, com seus atos você fez os olhos, de um esquecido, vislumbrarem a luz. Nessa imensa escuridão a que fomos lançados – Discorreu, demonstrando em seu aspecto introvertido, grande gratidão. – Dando-me esperança. Nunca imaginei que os anjos superiores acompanhassem nossas jornadas. Entretanto, mesmo sendo coberta com elogios suntuosos, O nobre leão guerreiro, exposto à extinção cruel, persistia nos pensamentos. 27


– Miguel, o que posso fazer para salvar Laziel? – Perguntei, gesticulando todo tronco, evidenciando que aquilo para mim, era verdadeiramente importante. – Dou-te minha alma, se isso for necessário, pois já não sei se sou capaz de conviver com o estol de Laziel. Muitos anos depois, vi que essas palavras mostram-se tão respeitosas quanto falsas, pois o tempo, ao passo que corre na ampulheta do destino. Derrama sobre todos a cura para essas moléstias. E a diferença de tratamento entre um simples abalo emocional, e uma verdadeira tragédia. Está na dose que necessitamos desse remédio. Um dia, um mês ou como eu, séculos. É valido dizer, que algumas feridas intensas, causam cortes em nossa alma, provocando a todos os que a possuem, uma marca eterna. Mas ainda assim, na medida em que as estações passam. Florescendo pétalas policromadas na primavera, e os cedros entregam suas folhas ao solo no outono, tornam-se cicatrizes. – Infelizmente Aniah, o que já deixou de existir, não pode meramente voltar, como seu estimado – complacente disse o arcanjo, tocando na pena que eu segurava, com os dedos. – Graças a vocês, a sanidade de outrora regressou a meu ser. Antes consumido pela mágoa e descrença perante todos – desabafou com olhares carregados de tristeza. Nem ele, nem ninguém, suportava mais a situação belicosa. Uma carnificina despudorada, sem precedentes. – O que faremos? – Perguntei a Miguel, enrugando a testa. – Desço do trono, do portão que resguarda a entrada do sétimo céu, morada de nosso pai. Para por um fim nisso tudo – disse Miguel, cerrando os punhos, obstinado. – E lhe peço um ultimo favor. 28


Apenas com um leve acenar, indiquei que continuasse. – Voe com toda rapidez, e ocupe lugar na guarda a Aravoth – encarando-me intensamente – Se não voltar do destino traçado por nosso pai. Lute com bravura para protegeres as bênçãos do santuário divino. Diante de tamanha responsabilidade, fiquei sem reação. – Deves estar a me confundir com outros, mais nobres. Não sou nenhuma princesa do firmamento para ter a honra dessa missão. – Sua honra não tem tamanho Aniah. Conheço como soberano dos anjos, suas qualidades – afirmou o gigante, com aparência mais severa que a natural, a de um armipotente prestes a adentrar em combate. – Por isso estou a te escolher por entre todos. Minha feição emanava intranquilidade, com a nova ordem. – Aceite o presente que a pouco lhe entreguei, uma pena de minha própria asa, use-a com cautela – mudou de assunto, o arcanjo, percebendo minha aflição. Muitas das lendas, contam que as asas de Miguel foram as primeiras entre todas, e que Deus ficara dias e noites fortificando-a no fogo abrasador da explosão inicial. Quem as visse diretamente, perderia a visão no mesmo instante. Assim o arcanjo só as exibia para os seres mais poderosos entre os mundos. Sem mais palavras, o anjo resplandeceu sua luz aos quatro cantos do universo, alçando voo para seu destino.

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Contra o Céu eo Inferno