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É dando que se recebe Por Igor Patrick Silva Por quinze minutos, ela só faz chorar. Ensaia completar uma frase, mas a garganta arde e os olhos se enchem de lágrimas novamente. Sua mãe aperta sua mão, pede-lhe força e tenta, ela também, conter a tristeza na voz. Ana* é apenas um fantasma do que outrora fora. Seus cabelos ruivos agora pairam entre o laranja e o vermelho pálido, refletindo sem compaixão, o seu estado de espírito destruído e sua cabeça conturbada. Os lábios, antes frequentemente coloridos com alguma cor chamativa que lhes ressaltava o volume, agora estão rachados e sem vida. Ela pede desculpas por não ter se arrumado direito – o olho claro marcado a lápis mostra que ela de fato tentou –, e respira fundo, incontáveis vezes, como se o ar fosse lhe dar forças para expurgar os demônios que a assombram quando a noite cai e o escuro a deixa vulnerável aos seus medos. Contar o que Ana contou em três horas e meia de conversa não é simples; exige uma coragem muito grande frente ao medo do julgamento de valores que ela sabe que virá. Sua história é um segredo que, à exceção do seu psicólogo, só quatro pessoas conhecem e fazê-la falar foi um processo que levou quase duas semanas. Ao final, sua mãe, aqui nomeada como “Letícia”, a convenceu que se abrir sobre o que tinha acontecido poderia ajudá-la a lidar melhor com a situação. Isso não a eximiu de exigir seu anonimato e de se manter prostrada ao lado da filha do início ao fim da entrevista. Ana nem sempre foi assim. Houve uma época em que era apenas uma jovem de classe média-alta, dona de uma beleza chamativa e moradora da zona sul belo-horizontina. Estudava no Colégio Santo Antônio, frequentava as badaladas casas de festas da elite mineira e viajava frequentemente para a Itália, onde o pai, Engenheiro de Produção, trabalhava na filial de uma multinacional. Aos olhos desconhecidos, sua vida era perfeita. Não era. Desde os 15 anos, Ana lutava contra uma crise forte de depressão desencadeada pela morte do avô paterno, ao qual era muito ligada. Quando o senhor de 72 anos faleceu em junho de 2007, vítima de um segundo enfarto em menos de três meses, a jovem mergulhou de cabeça em um caminho de melancolia que a família acreditou ser sem volta. Começou a ter problemas de autoestima e, aos 16 anos, conheceu o álcool (e, embora nem ela nem a mãe admitam, alguns indícios em sua história evidenciam o uso de drogas ilícitas). Começo Ana para o relato e inclina a cabeça para a janela ao seu lado. O apartamento localizado no oitavo andar lhe confere uma bela visão da cidade. Seu olhar percorre as ruas. Tenta remeter a essa época que, apesar de ter se passado há apenas quatro anos, parece perdida em um passado que ela gostaria, mas não pode mudar. Com dificuldade, ela vai remontando com sílabas a vida que partiu com ações.


2009. Era mais uma noite de sexta-feira ou sábado – ela não sabe dizer com precisão –, e Carla*, sua prima, a chamou para sair. A mãe ainda estava preocupada com os recentes abusos de álcool cometidos pela filha, mas a incentivou. “Eu achava ruim porque ela ficava dentro do quarto olhando para o teto o tempo todo. Quando não era isso, ficava dormindo a tarde e passava a madrugada na frente do computador,” diz dona Letícia. “Sair era melhor que ficar assim, isolada, e minha sobrinha era responsável, conhecia a Ana”. Ana saiu com os amigos. A turma, composta por oito jovens, era formada quase que unicamente por universitários. Ela era a única ainda no Ensino Médio. “Eles estudavam com a Carla desde o início da adolescência. Como ela era minha vizinha, ela vinha aqui em casa quase todo dia. Depois que o vô morreu, ela deu um jeito de me incluir na turma para eu não ficar muito tempo só dentro de casa,” conta, ainda com a voz embargada. “A gente já tinha combinado de sair há um tempão, mas eu sempre dava bolo”. Nesse dia ela foi. E as coisas tomaram um rumo sem volta. Carla se afastou, trazendo logo depois dois conhecidos distantes da faculdade que tinha encontrado por acaso. Estavam na casa dos vinte e cinco anos. Um deles, Paulo*, engatou na conversa com ela. Ele falava muito e ela estava cansada. Sua cabeça começara a doer e a música alta não estava ajudando nem um pouco. “Quer sair daqui?”, Paulo perguntou, fazendo-a hesitar. Chamou pela prima, a essa altura já enroscada com o seu “ficante”, um cara com quem ela já saía há algumas semanas e que Ana jamais conheceu.Chegou com a boca próxima ao seu ouvido e perguntou, a voz esganada, abafada em parte pelo som. “O Paulo quer que eu saia com ele. É tranquilo?”. Carla ponderou. Olhou para Ana, para o Paulo e de volta para Ana. Talvez estivesse pensando que se alguma coisa desse errado, ela seria a responsabilizada, ainda que nada fizesse. “Não conheço ele, não sei dizer se é uma boa”, decidiu-se por fim. “Ele tem fama de pegador”, emendou o ficante da prima. Paulo insistiu uma vez mais. Estressada por causa da música, que a essa altura chegava ao êxtase do trance e tecno, decidiu ir embora. “Eu te levo até o táxi então”, ofereceu-se. Ao invés disso, eles foram até o caminho conversando. Paulo contou de alguns problemas familiares pelos quais estava passando, disse que tinha saído de casa para tentar esquecer um pouco. Logo depois perguntou a Ana o que ela estava fazendo ali. Provavelmente sem entender o motivo, ela confessou. “Eu disse pra ele que tinha


depressão e que precisava sair de casa, e ele me perguntou se eu não queria dar uma volta antes de voltar”. Ana jamais chegou a entrar no táxi. Foi até o carro de Paulo e de lá partiu para o apartamento dele. Fizeram sexo e, pela manhã, além do dinheiro do táxi de volta para casa, havia mais. Segundo Paulo, “era para pagar o incômodo”. Daí pra frente, os encontros se tornaram frequentes. Embora não transasse por dinheiro, Ana passou a gostar de receber ao final. “Eu gostava também porque ele me elogiava, dizia que eu estava bonita. Tem homem que sobe em cima da gente e só quer terminar logo para o lado dele, mas ele se importava comigo, era todo cuidadoso,” conta Ana. Transcorreram-se alguns meses e Paulo arrumou uma namorada. “Ele me ligou e disse que ainda queria ficar comigo mesmo assim”. Ela entendeu o recado; ele a queria para sexo – e a pagaria por isso. Foi assim que Ana se tornou prostituta. Um ano na Guaicurus A calçada suja e o cheiro forte de lixo putrefato que entulha as calçadas preenchem a rua. Os prédios, a maioria com sua pintura descascada ou empretecida pelas intempéries do tempo, se elevam por dois ou três andares, bloqueando parcialmente a luz do sol. Entre os transeuntes, espécimes masculinos, na maioria das vezes com a testa reluzindo o suor provocado pelas andanças no centro, das mais variadas aparências, classes sociais e estilos. Eles entram e saem dos “hotéis de alta rotatividade” com um objetivo claro: pagar por alguns minutos de prazer. Este é o cenário da Rua Guaicurus, nicho boêmio de Belo Horizonte, famosa nacionalmente por ter abrigado a produção global “Hilda Furacão”. Dentro dos hotéis, prostitutas vestidas com roupa-íntima se oferecem à frente dos seus quartos para as dezenas de homens que sobem as escadas em busca de sexo. Algumas falam sacanagem para os clientes em potencial. Outras esperam, com a porta aberta e as nádegas para cima, deitadas na cama, enquanto simulam olhares supostamente voluptuosos para os que as avaliam. Vez ou outra, um cliente olha pela fresta da porta; eles não se preocupam em esconder a expressão de enojados quando assim se sentem. Três anos antes, Ana jamais sonharia cair em um lugar como esse. Mas o mundo gira, as coisas mudam e a cabeça também. O dinheiro de João vinha fácil. Não era como se ela precisasse disso para sobreviver, mas ela gostava de sexo e ele gostava de pagar. Para Ana, a relação era boa e benéfica para ambos. Foi quando João ficou noivo da namorada. Agora focado em construir uma família após o casamento iminente, ele decidiu que não havia meios de continuar com aquilo. Ligou para Ana, explicou-lhe a situação e sumiu. Para sempre. “Eu tinha me acostumado tanto com essa vida que fiquei perdida. Dei um jeito de continuar,” diz ela. Colocar anúncio em jornal estava fora de cogitação (“eu tinha vergonha de ligar para o jornal e dizer o que queria anunciar”), colocar fotos suas em


sites de agenciamento de prostitutas, menos ainda. Ela podia ser reconhecida e era a última coisa que queria. “Acabei conhecendo por acaso uma menina que já tinha feito programa na Guaicurus. Nem sei se naquela época ela ainda tava lá, porque ela atendia em casa também”. Arrumar um hotel onde se prostituir não foi difícil. Em um dia, fechou com um agenciador que alugava quartos; por R$40 a diária, ela teria direito a uma cama e um banheiro improvisado, onde receberia seus clientes. Concomitantemente, saiu de casa na zona sul da cidade. Disse que queria liberdade, espaço e os pais aceitaram. Foi morar no Centro. A rotina na Guaicurus era estafante. Chegava sempre às 11 da manhã, pagava adiantado a diária, vestia uma calcinha e um sutiã minúsculos e grudava seu corpo à porta, mostrando ao cliente o que tinha a oferecer. Quando era escolhida, praticava rapidamente a felação, abria as pernas, esperava ele fazer o que tinha de ser feito e em 10, no máximo 20 minutos, tinha R$30,00 na mão. Por lá circulava todo tipo de homem. Velho, novo, rico, pobre, negro, branco, bonito ou feio. Ana não fazia distinção, desde que lhe pagassem. Entretanto, logo ficou evidente que havia um tipo específico de cliente que não era bem visto por parte das prostitutas que ali trabalhavam: os deficientes. Geralmente, eles só eram recebidos pelas mulheres mais velhas, que ficavam em um corredor lá no fundo e eram consideradas “em fim de carreira”. Por cobrarem bem menos que todas as outras mulheres, elas eram reconhecidas por toparem qualquer coisa desde que lhe pagassem. “Claro que as outras também atendiam, mas só se não houvesse opção. Uma comentava com a outra que deficiente dava trabalho porque tinha que ficar se ajeitando de um lado pro outro pra ele dar conta de fazer,” conta Ana. “Alguns até ofereciam para pagar mais, só pra serem atendidos”. Ana começou a notar o padrão. Ao contrário das colegas, não se importava de atender deficientes. “Nunca tive pena de nenhum deles não, mas se a pessoa tá ali, tem que ser atendida como todo mundo. E eu sentia que fazia uma coisa boa para eles porque ficar com uma prostituta considerada ‘de primeira’ lá na Guaicurus aumentava a autoestima deles,” conta. O que antes era apenas uma predileção por fazer o cliente deficiente se sentir satisfeito, acabou por se tornar sua marca registrada. Quando um cliente subia as escadas descascadas do hotel de prontidão já diziam: “manda pra Ana, a Ana atende”. Seu gesto foi seguido por mais duas colegas, Júlia* e Patrícia*. Elas ficaram conhecidas como “trio aleijadinho”. O cara da mancha


Nos dois meses seguintes, Ana, Júlia e Patrícia receberam todo tipo de gente. Era homem sem braço, sem perna, sem uma das mãos, surdo e até cego. (“Tendo o que interessa a gente atende,” brincava Júlia). “Nesse tempo eu conheci muita gente. A maioria dos clientes ‘comuns’ nem ligava muito pra gente não, mas essas pessoas com deficiência são muito carentes, né? Acabava que tinha vez que a gente mais conversava que transava. Tinha que por até freio em alguns, senão ficavam falando o dia todo e a gente perdia cliente,” lembra Ana. “Teve uma vez que um me contou que perdeu uma parte da perna em um acidente e depois disso, a mulher não quis mais ter relação com ele. Eu fiquei feliz de saber que não era só abrir as pernas, o que eu fiz por ele realmente o ajudou de alguma forma”. Foi em meados do ano passado que a má sorte chegou para ela. Um homem de pose distinta bateu-lhe a porta. Ela ainda atendia a outro cliente e esperou que ele finalizasse, antes se limpar rapidamente com uma tira de papel higiênico e abrir. Júlia estava ocupada e Patrícia não tinha ido trabalhar naquele dia. Dentre o “trio aleijadinho”, só lhe restava Ana. O homem tinha no rosto uma enorme mancha escura que descia o pescoço e terminava em algum ponto cuja blusa escondia (com o tempo, ela descobriria tratar-se de um melanoma em estágio avançado). Ana logo viu que ele não pertencia àquele lugar. Primeiro porque se vestia com roupas caras, coisa rara dentre os clientes que costumeiramente frequentavam a casa. Segundo porque estava visivelmente embaraçado com a situação. “Quanto custa?”, perguntou, sem encará-la em nenhum momento. Só o que existia era seu sapato e dele não desgrudou os olhos. “Trinta reais, quarenta caprichado e sem pressa”, proferiu a resposta padrão de todas as meninas com quem trabalhava. Já tinha repetido essa fala tantas vezes que, agora, ela surgia na sua boca como mera obrigação profissional; tão costumeiro quanto o “volte sempre” de um funcionário do McDonalds. Voltar não faz a mínima diferença para ele, da mesma forma como pagar ou não um pouco mais não fazia grande diferença para Ana. O cliente não lhe disse nada. Abaixou o zíper, mostrou-se seu membro e esperou que ela completasse o serviço, enquanto ele olhava para algum ponto para além da janela. Ao final, fechou a calça, jogou-lhe uma nota de cinquenta em cima da cama e saiu. Acostumada a ser tratada com indiferença, Ana pegou a nota, guardou na pequena bolsa preta que escondia todos os dias debaixo da cama e esperou pelos próximos clientes até que terminasse o dia. No sábado não foi trabalhar e domingo nunca dava muito movimento, a não ser alguns feriados. Quando chegou na sexta, seu agenciador lhe deu o recado, tão logo pagou sua diária.


“Aquele homem da mancha veio aqui te procurar no final de semana. Talvez venha aqui hoje,” informou. A notícia era incomum, mas não totalmente estranha. Não seria o primeiro cliente a procurá-la mais de uma vez. Afinal, não eram muitas as opções para aqueles que ela costumava atender. Foi para seu quarto, ajeitou-se na pequena lingerie como sempre fazia e começou a trabalhar. Lá pelo final da tarde, ele voltou. Dessa vez não tirou o pênis para fora. Perguntou se ela podia ser fixa dele, deixando claro que pagaria bem se o fizesse. Não ficou para ouvir a resposta, deixando um cartão com nome e telefone em cima da cama. Amor O cara da mancha se chamava André*. Tinha 49 anos. Bancário, pai de dois filhos com os quais não morava, divorciado, portador de melanoma metástico em grau muito avançado. Melanoma metástico não tem cura e André ainda sobrevivia graças a caras sessões de quimo e imunoterapia. A doença tinha lhe dado um aspecto horrível, que incluía inchaços visíveis no braço, a tal mancha no rosto, além de uma série de caroços que se espalhavam pelas costas como se fossem verrugas. Bastante previsível a razão de ter procurado Ana. Ela, por sua vez, ponderou muito antes de aceitar a proposta. Nunca gostara da Guaicurus, é verdade, e aquele homem lhe oferecia uma mudança de vida. Além disso, o que ele depois demonstrou disposto a pagar era o suficiente para cobrir todo o mês de trabalho nos hotéis da rua. Em uma noite voltou, abraçou suas amigas e saiu pela porta da frente. Desde então, nunca mais voltou. André queria que Ana morasse em seu apartamento, um imóvel localizado nas proximidades do BH Shopping, em Nova Lima, cidade da região metropolitana conhecida pelos condomínios de luxo e apartamentos milionários que abriga. “Expliquei que ainda precisava manter meu endereço no centro, mas ficava lá a semana toda,” conta ela. “Ele que fez a proposta, mas no início achava estranho porque era estranho ter uma mulher que não conhecia morando no mesmo lugar que ele”. No início, André se mostrava relutante. Não conseguia mais trabalhar, mas tampouco saía do quarto. Comprava o almoço e o jantar de Ana pelo delivery e a procurava pela noite. Essa relação durou até o momento em que a doença começou a lhe causar dores severas que cortavam a madrugada. André dividiu os últimos sofridos dias de sua vida com uma garota de programa. Garota essa que acabou se apaixonando por ele. Ana acompanhou o desenvolvimento da doença. Quando esta se espalhou para o cérebro e para os vasos sanguíneos, foi ela a única a ouvir os gemidos abafados de dor do bancário durante a noite. Em alguns casos, o grito era tão genuíno que ela se amaldiçoava por ter escolhido tal profissão.


“Dava uma dó muito grande, parecia que a doença estava em mim. Eu não gostava de ‘ver ele’ (sic) sofrendo daquele jeito e pensava que se eu não fosse prostituta, não precisaria conviver com aquilo.” A convivência acabou se tornando amor genuíno. Nos últimos meses, Ana não mais cobrava. Cuidou de André até o último suspiro. Ele a abraçou e agradeceu por ter cuidado dele noite passada, quando teve uma hemorragia. Em um momento estava ali. No outro, fechou os olhos e não mais abriu. Ana tocou seu rosto e naquele momento, é provável que pensasse na sua vida como um filme. Ana encontrou o amor: mas na hora errada e com o tipo errado de pessoa. Ela ainda tentou chamar a ambulância, mas quando chegaram não havia muito a ser feito. A família, que não a conhecia, a tratou como usualmente se trata uma prostituta: com desprezo e olhares de reprovação. Ela foi proibida de ir ao velório e só conseguiu ver de longe o enterro daquele que já não tinha, mas ia embora a impregnando de morte. Ao final da (longa) entrevista, depois de contar toda a história ela não se despede nem derrama uma única lágrima. Apenas olha pra mim como alguém que guardava muito e agora que tinha dito, se sentia vazia. Lançou-me um olhar triste e calmamente caminhou até seu quarto. De onde estava, ouvi a porta se fechando com pesar, dando-me conta de que Ana havia morrido. O que lhe restou era uma mulher aos pedaços, inconsciente sobre onde estava e porque sofria. Uma mulher que a noite ia sonhar com melanomas, sangue e gritos de misericórdia proferidos por um moribundo a um deus que em algum momento, deixou de ouvir. *Os nomes foram trocados para preservar as fontes.


É dando que se recebe