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PRECIOSO CHテグ

Jacques antunes

fotos

R e n at o b a r r o s

TEXTOS


PRECIOSO CHテグ

Autores:

Jacques Antunes Renato Barros


Ficha técnica: fotos :

Jacques Antunes

Texto:

Renato Barros

Projeto Gráfico: Tríad comunicação

Produção:

Silêda Franklin/Jacques Antunes

Consultor: Weiber Castro

Impressão:

Expressão Gráfica

Catalogação


Patrocinio

Apoio


Para o meu inesquecível e amado irmão

Rogério Antunes (Lola, Capote, Gersinho)


Agradecimentos

Minha mãe D. Alzira, Paula Fernandes, Weiber Castro, Everardo Lopes, Vagner Fernandes, Davi, Professor Jurandir‌


Pedra Negra, uma estação, muitas historias Itapiúna é um lugar de aparência modesta no qual, entre serra e sertão, se guardam surpresas improváveis. Nem todo mundo costuma saber em que ponto do mapa ela se situa e, por conta disso, parece preservar ares de uma certa irrealidade ou até mesmo fábula, como se existisse perfeitamente no mundo físico mas somente poucos iniciados (seus habitantes) tivessem tomado conhecimento do fato. Se os lugares só existem, de certo modo, para quem está neles e quando se está neles, desaparecendo como se nunca tivessem existido ao deixá-los, salvo na memória, talvez a ideia não esteja de todo errada. Embora o desconhecimento alheio possa não incomodar, a queixa da maioria pode recair, isso sim, sobre a mudança de nome (da cidade, é claro): para muitos, ela sempre teria se chamado


Castro (do latim castrum, fortaleza), ou, no mínimo, teria permanecido Itaúna (pedra negra, em tupi), que na imaginação coletiva tem muito mais a ver com estação de trem do que a toponímia vinda em seguida (Itapiúna, pequena pedra negra, em tupi, também traduzido por caminho de pedras): é que a cidade se desenvolveu, antes de tudo, graças à linha férrea a cruzar seu terreno, e sua famosa e movimentada parada de trens ainda é lembrada, tanto pelos que chegavam quanto pelos que partiam, como a “estação da Itaúna”, a que deixou saudades. A linha férrea em boa parte responsável pelo desenvolvimento local, a propósito, nos leva a tomar a liberdade de termos a fantasia segundo a qual cidades à beira de ferrovias são quase infinitas, por prosseguirem nos trilhos até onde se alcança o final (aqui, também em sentido metafórico): se seguirmos os trilhos até o ponto mais distante, talvez iremos nos deparar com o porto do Camocim, com uma antiga gare para o escoamento do algodão proveniente do interior do estado, dando-nos a impressão de que, para além dos trilhos, não resta senão o rio, o mar, as distâncias líquidas e a fluidez dos trilhos. À noite, a orla marítima onde fica o porto do Camocim atrai o olhar para seus extensos lampadários sobre a murada ao longo da praia. Todos têm estilo art déco, anos 1930, uma atmosfera calma que nos joga, como as ondas, diretamente ao encontro dessa época e nos faz lembrar pessoas que nos eram próximas e viveram nela, como os que estiveram conosco em Pedra Negra, ou Itapiúna, e não estão mais entre nós. – O tempo não faz tanto barulho quanto o trem, vuco-vuco, nem nos avisa a respeito da chegada na próxima estação.

O tempo, afinal, é parada forçada, é o esquecimento numa plataforma enquanto esperamos o que já estava para chegar, é a saída abrupta que pouco se importa se já estamos ou não acomodados em nossos devidos lugares... Ora, sequer temos aqui algum lugar reservado. Não, a vida não é uma garantida poltrona reclinável com bela paisagem e ar climatizado como tantas vezes nos querem fazer crer neste mundo. O bilhete contendo nome e número de assento marcado não passa de torpe enganação: é mero por enquanto, apenas o momento de duração de um percurso. Vida, mesmo, é muito mais o desconforto em pé e empurrões rotineiros; é ter o espírito preparado para lidar com o que não se conhece; é a paisagem cambiante lá fora, que se avista com custo; é o embarque inapelável que se faz urgente. E, como na vida real, não temos um lugar reservado: a aventura é o próprio mundo. Neste livro, portanto, sintamo-nos convidados a viajar por Itapiúna, ponto geográfico no qual, para muitos, um dia tudo começou: o final da linha que passa ali, e que já passou na antiga Itaúna, não é mesmo o porto do Camocim, mas o infinito. Quem sabe onde começa a linha do trem? Quem sabe onde começa a nossa vida? – Passageiros de um mistério, venhamos a passar de estação em estação, pelos lugares e histórias que temos em comum. Ou, como se dizia na época quando a estação vivia todo seu fausto, entre chegadas e partidas:

Senhores passageiros, desejamos a todos uma boa viagem!


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Origens e Desenvolvimentos Um passeio pela nossa história

Originado de uma fazenda chamada Castro, nas proximidades de rio de mesmo nome, o núcleo urbano hoje chamado Itapiúna começou a ganhar forma com a passagem da Estrada de Ferro de Baturité, da Rede Viação Cearense (RVC) dentro dos seus limites, e a inauguração da sua estação, em junho de 1891, que recebeu muitos peregrinos a caminho do Canindé. De acordo com Dorian Sampaio Filho em História dos municípios do Ceará (Fortaleza: RBS Gráfica e Editora LTDA., 2003, p. 151), o Decreto nº. 1.156, de 4 de dezembro de 1933, elevou a localidade de Castro à categoria de distrito pertencente ao município de Baturité, e somente em 1957, pela Lei nº. 3.599, de 20 de maio, Itapiúna se fez município, assumindo seu primeiro prefeito, José Bezerra Campelo, em 24 de junho desse mesmo ano [outros documentos afirmam ter sido no dia anterior], motivo pelo qual se comemora a festa do município na referida data. Distando 110 km da capital e contando com três distritos além da sua sede municipal (Itans, Caio Prado e Palmatória), to-

dos distribuídos em uma área de 562 km², na região do Maciço de Baturité, Itapiúna tem uma trajetória histórica marcada por alguns prósperos ciclos econômicos (o ciclo do algodão, por exemplo) e flagrante declínio (a desativação de sua estação, dentre outros), com momentos de muita dramaticidade (saques e levantes populares).

Trajetória política: uma contínua disputa entre locais e “forasteiros” Após o mandato inicial de José Bezerra, que inaugurou as primeiras obras da cidade, a família Campelo passou a alternar o poder com os Antunes até meados da década de 1970, quando Itapiúna passou a ser administrada por perfis bem distintos dos seus predecessores: Nos anos 1970 a força econômica e política dos Antunes e dos Campelos começou a desmoronar. Nesta época, Itapiúna deixou de ser rota de passagem dos romeiros em direção a Canindé, perdendo importância econômica. Mas não era somente isso: o Sertão do Ceará passava por rápidas transformações: a produção de algodão entrou em crise (até quase desaparecer em muitas regiões), as grandes fazendas perdiam força, muitos trabalhadores eram expulsos das terras onde moravam, em alguns casos, há décadas. Ao mesmo tempo, surgiam políticos novos, ligados à cidade, “homens de gravata”, formados em universidades, que ganhavam simpatia dos pobres no Sertão pelo saber e autoridade que possuíam [...] A cidade foi remodelada e melhorada. Itapiúna perdia, assim, suas características de vila rural, passando a ter pela primeira vez uma cara de cidade. (SOUSA, Jurandi; PEREIRA, Ruy Gondim - organizadores. Vozes, sonhos e esperanças entre pedras. Fortaleza: LC Gráfica e Editora, 2010, p. 9-10).

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A esse tempo, das administrações iniciais aos novos perfis, isto é, dos Antunes e Campelos a José Gonçalves Monteiro e Joaquim Clementino (estes últimos não nascidos em Itapiúna), a cidade já podia contar com energia elétrica, saneamento básico, matadouro, pavimentação e escolas, além da construção de muitos prédios públicos como o aguardado Hospital Valdemar Alcântara, o Centro Comunitário e o Fórum Municipal.

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A partir da década de 1980, enquanto o núcleo urbano ainda se desenvolvia, na área rural se intensifica um cenário de conflitos, ligados a movimentos populares que passaram a ser apoiados pela igreja católica. A luta pela reforma agrária, debatida em assembleias e passeatas pela paróquia do município, desembocou em conflitos pela posse de terra e na consequente criação de assentamentos. As lideranças eclesiásticas também desempenharam papel importante na mobilização social que redundou no episódio dos saques aos depósitos públicos de alimentos, quando da ocasião de secas severas. Ainda de acordo com Jurandi Sousa e Ruy Gondim Pereira: Nos anos 80 e 90, temos registro de um saque ocorrido em 1988, dois em 1990, um em 1993 e um em 1997. Todos eles contaram, de alguma maneira, com a participação de lideranças da Igreja ou do Sindicato [dos trabalhadores rurais], incentivando e tentando organizar os trabalhadores para a ação [...] No senso comum o saque pode até ser comparado a roubo. Mas as coisas não são assim. Primeiro, o saque é ato coletivo e estava baseado em uma noção de justiça que “permitia” que em situações de ameaça à vida, determinadas regras que protegem a propriedade fossem temporariamente quebradas para que as pessoas pobres não sofressem com


a fome. Para os saqueadores, a ação radical que eles promoviam era um castigo contra as autoridades que deixavam eles ao deus-dará. Segundo, não sendo roubo, os saqueadores não agiam às escondidas [...] Defendiam a noção de que a vida, a sobrevivência, é mais importante que a propriedade, ou melhor, do acúmulo de alimentos e riqueza em meio à miséria de muitos. (SOUSA, Jurandi; PEREIRA, Ruy Gondim - organizadores. Vozes, sonhos e esperanças entre pedras. Fortaleza: LC Gráfica e Editora, 2010, p. 14).

Com o declínio de tais mobilizações em virtude de brigas internas, acusações e pressões vindas de outras esferas da própria igreja católica, os movimentos articulados em torno da paróquia foram perdendo força. Do mesmo modo, os grupos políticos da situação foram se enfraquecendo, dando espaço a novas lideranças (a exemplo do promotor de justiça e professor universitário Pedro Uchôa de Albuquerque) e a novos agentes, como o Sindicato dos Funcionários Públicos Municipais. Com a proposta de priorizar oportunidades para os cidadãos locais e o discurso contra os “forasteiros”, isto é, seus predecessores na política, Pedro Uchôa (ele mesmo não nascido em Itapiúna) elegeu-se prefeito do município em 1996, renuncinando ao cargo a favor do vice, o qual seria reeleito em seguida. O poder seria alternado em 2004 com Felisberto Clementino, irmão de Joaquim, o qual, após ser igualmente reeleito, foi seguido do comerciante Wauston Cavalcante, a evidenciar uma contínua alternação de poderes entre cidadãos de fora e cidadãos oriundos do município. Independente dessa disputa, os itapiunenses prosseguem à espreita de projetos que englobem o município como um todo e alcancem outros espaços além das circunstâncias das suas administrações, na esperança de atingir o bem comum, na cidade e no campo:

Barra de Santo Antônio, Varjota, Touro, Queixada, Rodeador, Lages, Poço da Tábua, Cupira, Vila Nova, Malícia, Boa Vista, Travessia, Lagoas do Juazeiro, Massapê, Canafístula, Canto Verde, Poço do Meio, Barra dos Frazões, Poço Comprido, Volta do Batista, São José, Umarizeiras, Vai-Quem-Quer, Macambira, Vituriana, Bico da Arara, Marrecas, Barra Nova, Garrote, Cajuás, Onofre, Tatajuba, Riacho da Várzea, Mutamba, Maracajá, Poço Redondo, Santos Dumont, Jardim, Nova Olinda, Monte Alegre, Curupaiti, Cachoeira, Cal, Boa Vista, Serrote Preto...

Ciclos econômicos: da estação ao algodão No começo do século XX, o município em desenvolvimento conheceu o período áureo da sua história, tanto por conta da economia movimentada com a passagem de romeiros por seu território quanto pela produção de algodão das suas fazendas, somada à atividade da pecuária e da extração da cera de carnaúba. Mesmo com rigorosas secas esporádicas afligindo a população, tudo retomava seu curso com o retorno do inverno, e a vida seguia adiante. De acordo com o itapiunense Edmundo Araújo Freitas, que conheceu de perto esse período como gerente da Usina Antunes – uma das mais importantes no desenvolvimento da cidade –, ninguém poderia acreditar que toda a pujança da economia local estaria com os dias contados: O município chegou a contar com três usinas para processamento do algodão: a de Idelfonso Colares, a de Valdemar Antunes (em Itapiúna) e a dos irmãos Oliveira, no Caio Prado. Muita gente chegou a enriquecer com o algodão, mesmo os agricultores, e quem não era rico vivia relativamente bem. Era um lugar muito

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produtivo, e assim permaneceu até a chegada da praga do bicudo, parasita provavelmente trazido de outros países para acabar com as plantações brasileiras e que se alastrou por toda a parte. Isso foi motivo de muito pesar, pois nosso algodão – e aqui destaco também o produzido em Itapiúna – tinha ótima aceitação no mercado. Ele era chamado mocó, de fibra longa e, após colhido no campo, era vendido para as usinas para o beneficiamento, transformado em lã (o caroço, por sua vez, era transformado em óleo de cozinha). Em seguida, a matéria-prima era vendida não só para Fortaleza, como também para o exterior, a fim de ser usado na indústria têxtil.

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Além do fim da atividade algodoeira, que resistiu por um tempo após a chegada da praga do bicudo, outro motivo de declínio da economia do município foi a construção de estradas asfaltadas até o Canindé. Tal fato contribuiu para o desprestígio da cidade como ponto de apoio essencial para os romeiros que vinham de longe, de trem, e desciam na estação local a fim de se dirigirem, em linhas de ônbius que já os aguardavam, até uma das Mecas sertanejas. Prossegue Edmundo:

A linha férrea foi outro elemento essencial no desenvolvimento do município, e cujo declínio também esteve diretamente ligado ao estancamento da economia local. (Dizem que, inicialmente, a ferrovia iria passar em Itans, mas alguns fazendeiros de lá não aceitaram a ideia. O Tenente José Joaquim, por sua vez, responsável pela fundação da vila do Castro, intercedeu para que a ferrovia cruzasse suas terras, razão pela qual Itans não se desenvolveu, embora fosse um lugar mais antigo do que a atual Itapiúna). Muitas pessoas lucravam com o comércio surgido ao redor da estação de trem, e Itapiúna chegou a contar com cinco hotéis para absorver tão intenso tráfego de pessoas. Entretanto, ao construírem estradas rodoviáriavs ligando Quixadá, Quixeramobim e Fortaleza a Canindé, Itapiúna ficou isolada no seu papel de centro receptor de


romeiros, além do fato de que as autoridades locais, a esse tempo, não cuidaram de construir uma rodovia até o Canindé. Com a desativação da estrada de ferro que viria logo a seguir, nosso município conheceu a verdadeira face de seu declínio.

Uma riqueza escondida embaixo da terra Quanto às atividades econômicas desenvolvidas atualmente em Itapiúna, além da agricultura (sobretudo milho, feijão e hortaliças), do comércio e da pecuária, a ativividade mineradora é alvo de atenção. Ela começou a ser conhecida na cidade graças a um projeto para inclusão social de pessoas com necessidades especiais na década de 1990, implementado pela Prefeitura Municipal em parceria com o Governo do Estado e mantido por mais de quinze anos. Com a formação dessa mão de obra especializada, que posteriormente passou a englobar outros jovens da cidade, criou-se uma associação de lapidadores existente até hoje, a qual reúne cerca de quinze pessoas oriundas das escolas de aprendizado inicial. À frente desse grupo, Marcelo Freitas de Aquino, 47 anos, foi um dos primeiros itapiunenses a se dedicarem ao ofício do artesanato feito em pedra. Ele começou a atuar nesse mister junto com dois irmãos surdo-mudos na escolinha da prefeitura, voltando-se tanto ao setor de decoração (produzia objetos como cinzeiros e bibelôs) quanto de confecção de joias semipreciosas usando o quartzo-rosa (a mais tradicional na cidade, encontrada em maior abundância), o cristal e a turmalina preta. Marcelo, que abriu recentemente uma loja no centro de Itapiúna para dar maior visibilidade ao trabalho dos artesãos, explica:

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A ideia de montar a associação dos lapidadores veio em 2006, com o objetivo de absorver a mão de obra já existente na cidade. Temos um galpão e toda a maquinaria necessária, e cada artesão tem um espaço reservado para seu próprio ateliê. De início, vendíamos diretamente para as joalherias da capital, que transformavam as pedras lapidadas em brincos, cordões e anéis, mas optamos por fazer cursos de aperfeiçoamento e hoje todo o processo de confecção das joias já é realizado dentro da associação, da pedra bruta ao produto final, o que nos permite maior margem de lucro.

No balcão da loja, ele exibe joias coloridas e objetos de decoração feitos em turmalina preta, quartzo-branco, quartzo-rosa e feldspato (roxo): segundo conta, muitas coleções já foram inspiradas em elementos locais, como detalhes do design da ponte de ferro do Caio Prado e até mesmo da fachada e do altar-mor da igreja de Itans, com seus arabescos doirados em estilo barroco-sertanejo. As encomendas costumam chegar com indicações do que deve ser criado ou os clientes deixam livre a imaginação dos artesãos, os quais, nesse último caso, costumam ficar atentos às tendências: com a informação de que a igreja de Itans será restaurada, por exemplo, eles pretendem relançar a coleção inspirada no altar do templo. O processo de produção é relativamente simples, mas exige muita dedicação. As pedras (quartzo-rosa, cristal, turmalina e feldspato) chegam à associação em estado bruto, compradas de pessoas que as extraem em várias partes do município. Por sua vez, o citrino e o topázio são proveninentes de cidades vizinhas, como Quixadá e Quixeramobim. Para a execução do processo de lapidação ao produto pronto, existem as seguintes fases: serragem, facetamento, lixa, polimento e arte-final.

Quanto à atividade de extração de minérios desenvolvida no município, Marcelo é cético no tocante aos benefícios diretos para a comunidade. Para ele, essa exploração começou a ser feita por pessoas de fora, geralmente estrangeiros, e com o objetivo expresso de exportação. Conforme ressalta, nada era feito por pessoas daqui nem para pessoas daqui: Em Itapiúna, a primeira mina aberta foi na localidade do Rodeador, para a extração do feldspato, usado na área industrial, na fabricação de pisos. Com o tempo, foram sendo descobertos outros minérios nesse mesmo local, como o cristal, a turmalina e o quartzo-rosa, e mais pessoas foram atraídas para lá, sempre oriundas de outros estados ou países, que exportavam tudo (há minas menores na localidade do Touro, Massapê e Itans). Por conta disso, essa atividade não teve nenhum impacto na economia local: quem pôde obter algum benefício, mesmo, ainda que indireto, foram os artesãos.

Trabalhando atualmente com seus irmãos e irmãs (dez, ao todo) com artesanato feito em pedra, Marcelo tenta chamar a atenção da população não apenas para a arte produzida no município, mas também para o que afirma ser um elemento propulsor do desenvolvimento local: “A mineração deveria receber muito mais atenção, pois existem cidades inteiras cujo desenvolvimento gira em torno dessa atividade. Temos todo esse potencial ainda não explorado em Itapiúna, e que poderia ser uma grande saída para nossa economia”, enfatiza, certo de que a maior riqueza local ainda permanecerá, por muito tempo, escondida.

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Palavras Que Curam

Integrantes de uma antiga tradição sertaneja, os rezadores são personagens aparentemente comuns no cotidiano dos distritos e povoados itapiunenses. Não se distinguem dos outros por nenhum sinal aparente, e, em regra, entraram em contato muito cedo com um mundo mágico onde as palavras possuem força sobrenatural, a começar do próprio ambiente familiar e de livros de orações passados de geração a geração. Por algum motivo, não costumam revelar o nome dessas obras, e, se indagados sobre o poder de curar, são rápidos em esclarecer que quem cura, mesmo, é o poder divino, sendo eles apenas o canal. Nascida em 1956 em Lagoas do Juazeiro, terra de poetas e cantadores, Antônia Laudeci Germano Ferreira se interessou pelo universo das “benzedeiras” e rezadores aos 10 anos, atraída pela curiosidade de observar seu pai a ler constantemente um pequeno livro de orações que havia pertencido a um homem chamado Saturno, conhecido por sua habilidade em curar. Embora já soubesse ler, foi proibida de se aproximar do conteúdo da obra por conta da pouca idade, mas, mesmo assim, acabou por descobrir o esconderijo do livro proibido, guardado junto a um outro, do qual nunca tinha ouvido falar e que lhe pareceu ainda mais enigmático: tratava-se do livro de São Cipriano.

A esse tempo, Laudeci só conhecia romances como Luz da serra, “a história de uma moça muito judiada”, como ainda hoje recorda, e foi com certo espanto que descobriu as leituras do pai: um universo cheio de palavras misteriosas, evocando imagens e poderes desconhecidos. No primeiro livro encontrado, ela se deparou com orações para curar quebranto [vômito], “uiado” [mau olhado, inveja] e “vento caído” [diarreia]. Às escondidas, leu, aprendeu de tudo um pouco e logo se ofereceu para curar uma égua adoentada do seu avô, que tanto se mostrou assustado ao vê-la dominar o conteúdo do livro quanto receou vê-la transformada em benzedeira já em tenra idade, por julgar que as pessoas não a deixariam mais em paz quando descobrissem seu dom. Mesmo com a falta de incentivo, Laudeci não se abateu. Começou a decorar as rezas e iniciou a leitura do segundo livro, este bem volumoso, e cujo conteúdo deixou-a bastante atônita. Diferentemente do anterior, eram ensinadas coisas ainda mais insólitas, como livrar-se de maldições ao desenterrar tesouros. Ela rememora: O livro pertencia a um amigo de meu pai, e que foi provavelmente o construtor da casa onde moro hoje [a Fazenda Ferreira, outrora propriedade de Letícia Ribeiro]. Meu pai gostou do livro mas logo deixou de lado, por ter muita reza ruim e referências estranhas. Um dia, lembro bem, deparei uma oração para desencantar dinheiro: caso encontrasse uma botija e quisesse arrancá-la facilmente, sem o risco de o dinheiro sumir no caso do aparecimento de um redemoinho, a pessoa deveria dizer a reza em voz alta. Li aquilo e fiquei muito assustada, por fazer menção a uma figura das trevas. A partir daí, parei imediatamente a leitura e nunca mais peguei nesse livro.

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Pouco após o assombro inicial com as rezas de São Cipriano, chegou à porta da fazenda a esposa do dono do livro, requerindo-o de volta. Curiosamente, isso iria dar à obra um destino um tanto esquisito. Prossegue Laudeci:

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Minha mãe pensava que era o próprio dono que estava pedindo de volta, e concordou com a devolução. Por engano, acabou entregando, junto, o livro de orações de meu pai, que ficou preocupado com o sumiço. Quando minha mãe foi pedir o livrinho de volta à mulher, ela se deparou com uma fogueira, e a outra logo explicou tratar-se do livro de São Cipriano, que decidira queimar a fim de que o marido parasse de fazer orações para arrumar amantes. De noite, o dono do livro, que não sabia ainda que o livro havia sido destruído, foi à casa do meu pai pedir a devolução, e minha mãe teve de contar sobre o ocorrido, acrescentando outra dura verdade: dada a ira da outra, até mesmo o livrinho do meu pai também foi lançado ao fogo. E assim todos ficaram desolados com o desfecho da história. Por sorte, eu já tinha decorado todas as rezas boas, e ainda hoje guardo tudo na memória.

Rodeada pelas varandas da sua casa com vista para a Serra Azul, em terreno onde cuida de gansos, galinhas, um boi chamado Felipe e um cabrito de nome Filó (a cabra Lili, por sua vez, foi doada por danificar os pertences da casa), Laudeci lembra sem dificuldades o momento da sua estreia como rezadeira, há muitos anos, ali mesmo em Lagoas do Juazeiro: Uma mulher acorreu à nossa casa pedindo para que meu pai rezasse no filho dela, adoentado. Como meu pai não estava, me apressei em dizer que eu também sabia rezar. Ela se espantou e

perguntou como isso era possível, pois eu só tinha dez anos de idade, e expliquei a ela que quem tinha me ensinado foi Jesus e o livro do papai. Ela consentiu e rezei contra quebrante e vento caído, voltando dias depois para agradecer a cura do filho. Desse dia para cá, não faltou mais [gente pedindo ajuda], e pode ser qualquer hora do dia ou da noite, estou sempre pronta para rezar.

Aproveitando a deixa para explicar melhor sobre seu universo, ela prossegue: O quebrante, “uiado” e vento caído atacam principalmente as crianças, mas também os adultos e até mesmo os bichos. Se, por exemplo, a criança começa a aparentar sinais de esmorecimento, sem conseguir dormir à noite, já está com mau olhado. Tem que mandar rezar. Costumo fazer a oração com três folhas de pinhão roxo, que é sempre bom manter em casa, por ser o melhor remédio contra mau olhado. Quando as folhas começam a cair, é sinal de que o pinhão está filtrando as energias ruins. E tem também outra coisa importante: se a pessoa que precisar de reza for do sexo masculino, é melhor que ele recorra a uma benzedeira. Se for do sexo feminino, deve procurar um rezador. Para ensinar a reza a alguém, a lógica é a mesma: o conhecimento deve ser passando de homem para mulher e vice-versa, a fim de não quebrar as forças da corrente.

Por esse motivo, quando alguma mulher das redondezas pede que Laudeci a ensine como rezar, precisa mandar um parente do sexo masculino em seu lugar, para que, em seguida, repasse os ensinamentos. Segundo Laudeci, respeitando tal dinâmica qualquer pessoa pode aprender e se tornar rezador, curando por


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meio dos poderes divinos, pois, como diz uma oração, “Quando Deus andou no mundo, de tudo ele curou”: Nossa Senhora foi ao Monte das OliveiraBuscar água do mar, azeite para lâmpadaRamo verde para curar... [diz o nome do enfermo de uiado, quebrante e vento caído] Com os poderes de Deus pai, Com os poderes de Deus filho, Com os poderes do Divino Espírito Santo, Eu te curo [repete o nome] De uiado, quebrante e vento caído

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Quando Deus andou no mundo de tudo ele curou Uiado, quebrante e vento caído Ele retirou com os poderes de Deus pai, Com os poderes de Deus filho, Com os poderes do Divino Espírito Santo Eu retiro uiado, quebrante e vento caído de [repete o nome] Bendita seja a luz do dia Bendito seja quem nos guia Bendito seja o filho de Deus e da Virgem Maria Assim como Deus separou a noite do dia Eu te separo, [repete o nome], de uiado, quebrante e vento caído Em nome de Jesus seja retirado para as ondas do mar sem fim [...] Ao final dessas palavras, reza-se um pai-nosso e uma ave-maria, repetindo a oração, ao todo, por três vezes. Se algum erro for cometido ao proferir o pai-nosso, acredita-se que o causador do mal ao enfermo é homem. Se, ao contrário, o erro recair durante a ave-maria, o responsável é do sexo oposto. A oração pode ser acompanhada de um galho com três folhas de pinhão roxo (alusão ao ramo citado na reza), envolvendo o enfermo com movimentos que vão da cabeça aos pés. Segundo Laudeci, qualquer planta pode ser usada, mas, para ela, a mais eficaz é realmente o pinhão: se, das três folhas utilizadas, só uma delas murchar, é sinal de que o enfermo padecia de um único problema. Se, no entanto, as três fenecerem ao mesmo

tempo, é sinal de que mais males o afetavam. Ao final da oração, deve-se queimar o ramo de pinhão, mas, se não houver essa possibilidade, deve-se apenas colocá-lo no lixo, porém evitando a todo custo que o enfermo passe por perto. “Por fim, só não se deve esquecer que quem cura, mesmo, é Deus!”, arremata a benzedeira da Fazenda Ferreira. Assim como Laudeci, outro habitante de Lagoas do Juazeiro cujos poderes de cura são bastante solicitados é Teodoro (“presente de Deus”, em grego) Alves de Oliveira, agricultor que também se interessou pelo universo mágico dos rezadores diante de necessidade do próprio ambiente familiar: ao atingir idade avançada, sua mãe acreditou ter a reza diminuída em força, e repassou os ensinamentos para Teodoro poder rezar nela própria. Isto acabou por levá-lo a estender o favor para os conhecidos das redondezas, os quais, ainda hoje, acorrem à sua porta em busca de auxílio. Além das rezas contra a tríade quebrante, mau olhado e vento caído, ele também sabe rezar para curar o que chama de “vermelho” [gangrena] ou outras complicações de saúde: Eu digo logo se o problema tem jeito ou não, e isso é fácil de saber: reza-se oito vezes na mesma pessoa e a última tentativa é a nona. Se a doença resistir por nove vezes, não adianta insistir. Se a pessoa não for curada nas primeiras rezas e, pelo menos, apresentar melhoras até a nona, ela deve ser levada ao médico, pois existe cura.

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Teodoro também garante ter habilidade no tocante a problemas mais espirituais do que físicos, e curados apenas com os poderes de Deus e pinhão roxo, a exemplo do que chama de “má sombra”, a qual, segundo explica, pode se manifestar quando alguém atravessa uma encruzilhada e esquece de se benzer: A partir desse momento, a sombra de alguém que já morreu, e de uma morte violenta a qual o obrigou a ficar vagando pelo mundo, por não ter tido uma preparação, passa a acompanhar o caminhante. Então é preciso rezar, pois cada pessoa tem a própria sombra e a sombra da própria sombra. Se aparecer uma terceira, é a de alguém que não está mais entre nós – é a má.

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Desse modo, Teodoro também recomenda não sair de casa no que chama de “hora fechada”, isto é, meio-dia ou meia-noite, que é quando se abre o canal de comunicação entre o mundo dos vivos e o dos mortos.


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Itans

Um novo capítulo da história

Remontando ao período colonial brasileiro, a história oficial de Itans (ligada primordialmente à Vila do Aquiraz) começa com uma doação de sesmaria ao capitão João de Freitas de Araújo, conforme atestam osg5 registros do Arquivo Público do Estado do Ceará (ver anexos). Contando com três léguas de terra nas ilhargas dos rios Cangati e Choró, as terras foram concedidas pelo capitão-mor e governador das armas da capitania do Ceará Grande, Luiz Quaresma Dourado, em 17 de maio de 1753. Distrito mais próximo da sede do município de Itapiúna, Itans se revela hoje ao visitante por uma larga praça de aparência jesuítica, onde se destaca a fachada do seu templo – construído ainda no século XVIII – a evocar momentos decisivos do passado. Segundo Francisco Andrade Barroso em Igrejas do Ceará, o templo foi testemunha de um famoso acontecimento da nossa história. Ali, em 3 de novembro de 1824, Antônio Bezerra de Souza Menezes, Comandante das Armas da Confederação do Equador, foi cercado e preso pelo Coronel Manuel Felipe Castelo Branco.

Ainda de acordo com Barroso, ao vencer os imperialistas na Serra da Uruburetama Menezes viu seu exército diminuir drasticamente na Serra de Baturité, e, ao abandonar este lugar para alcançar seu chefe Tristão Gonçalves no Vale do Jaguaribe, caiu em desgraça ao ser capturado pelas tropas inimigas. Além da ligação com este fato histórico, há documentos referentes a casamentos realizados na igreja de Itans desde meados de 1770, quando era filial da Matriz de Aquiraz. Situado na travessia do Rio Choró pela estrada real para Monte-Mor-o-Novo, o lugarejo também integrou o município de Baturité, não tendo conhecido nenhuma evolução, e, atualmente, é parte do município de Itapiúna. Para grande parte dos habitantes de Itans, a falta de progresso está intimamente ligada a uma lenda antiga, passada de uma geração a outra. Conforme dizem, há muitos anos, um peregrino que viajava para pagar promessa em Canindé passara pelo vilarejo e, ao pedir água a uma moradora e mantimentos para continuar sua viagem, não fora atendido. Em contrapartida, ele lançou uma maldição sobre o lugar: ali nunca ninguém iria conhecer riqueza alguma. A outra versão da história é que não se tratava de um peregrino, mas de um chefe da companhia de trens. Coincidência ou não, quando da construção da linha férrea para escoamento de algodão do interior para a capital, Itans ficou isolada da área onde o trem deveria passar. E, dessa forma, Itapiúna (sede de município de mesmo nome) ganhou uma estação ferroviária bastante movimentada, garantindo a economia local.

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Nos seus tempos áureos, a igreja de Itans possuía até mesmo um alpendre lateral, como era costume nas antigas igrejas e capelas portuguesas. O forro, hoje inexistente, tinha pinturas ao estilo barroco-rococó, e o altar do templo era ornamentado de imagens valiosas, com destaque para a Nossa Senhora da Conceição (que ainda se encontra lá), outrora adornada com brincos e colar de ouro. Para alguns itapiunenses, as joias não passavam de pedras d’água; para outros, porém, eram joias verdadeiras, criminosamente trocadas durante uma procissão, quando um pároco local levou a imagem até outro lugarejo próximo.

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Hoje quase totalmente transfigurada pelas sucessivas reformas, dilapidada por algumas más administrações eclesiásticas, a Igreja da Conceição de Itans ainda se mantém de pé e é motivo de orgulho para os habitantes, apesar de todo o descaso. Quanto às joias da santa, talvez jamais saibamos a verdade, mas podemos nos considerar verdadeiramente roubados, todos nós, sempre que nossa história desaparece sem podermos fazer algo ou quando já é tarde demais... Com o objetivo de resgatar a tempo esse precioso monumento, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) pretende, finalmente, devolver à igreja suas feições originais. À frente do projeto, José Ramiro Teles Beserra, ex-superintendente e atual técnico arquiteto da instituição, acredita que isso será possível muito em breve.

Interessado por arquitetura colonial cearense desde o início da graduação, Ramiro ficou impressionado ao saber da existência da igreja de Itans, bem como de sua ligação à freguesia de Aquiraz, situada a muitos quilômetros dali, junto ao litoral. O fato acendeu seu instinto de investigação, resultando no ensaio Itans, primor dos setecentos nos sertões, seu trabalho de conclusão de curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Ceará (UFC), orientado por Romeu Duarte, outro ex-superintendente do IPHAN. No ensaio, Ramiro supõe que o templo da área rural de Itapiúna foi construído por um jesuíta natural do antigo reino da Boêmia, atual República Tcheca.Os motivos com que foram pintados o forro da capela, assim como o emblema do frontispício, foram inspirados num lema ligado a um polonês de nome Stanislaus Papczynski, instituidor da ordem dos marianos. A composição da fachada, por sua vez, remete a capelas da República Tcheca, conforme comprova mediante fotografias e gravuras de capelas desse país. Em meio a todas essas descobertas, o primeiro encontro entre Ramiro e o templo, entretanto, foi comovente por motivos distintos. Afirma o arquiteto: Apesar de muito especial em termos artísticos e arquitetônicos, a igreja passou na década de 1990 por uma reforma bastante equivocada, sem nenhuma consulta a especialistas, sofrendo uma reforma que constituiu verdadeiro crime: o forro barroco da capela-mor foi retirado, algumas partes foram demolidas e o alpendre, um dos únicos em seu gênero no Ceará, foi desfigurado. Na primeira vez em que estive lá, em 2003, nove anos após a reforma, pude ver como o templo já não possuía suas características originais, causando-me muito pesar.


Ainda nos anos de faculdade, Ramiro debruçou-se com afinco nos estudos sobre a capela. Esse envolvimento crescente o levaria, mais tarde, por volta do ano de 2008, a apresentar seu trabalho de conclusão de curso em edital da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará voltado para o restauro de patrimônio histórico, no qual foi aprovado como primeiro colocado. Explica Ramiro: O valor do prêmio não permitia uma reforma completa, mas, ainda assim, daria para reparar boa parte do que havia sido feito de errado na reforma precedente. Entretanto, o edital demandava uma contrapartida da prefeitura municipal de Itapiúna, no valor de vinte por cento do total do projeto. Como tal valor nunca foi repassado pela prefeitura, o prêmio simplesmente foi perdido, e nenhuma parte da reforma pôde ser realizada. De todo modo, pelo menos a igreja foi tombada a nível municipal, o que também era uma exigência do edital do concurso.

Impossibilitada a restauração, Ramiro não desistiu. Em 2012, como integrante do quadro de servidores do IPHAN, reacendeu-se nele a ideia de ver a capela como ela de fato merecia, dada sua importância: Começamos a trabalhar internamente para verificarmos de que modo seria possível viabilizar isso, até que, por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), foi possível um novo projeto de restauração. No caso em questão, trava-se de um termo de ajustamento de conduta de arqueologia; o IPHAN é legalmente responsável pela gestão do patrimônio arqueológico no Brasil e todas as grandes obras necessitam de licenciamento arqueológi-

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co, isto é, prévia pesquisa a respeito dos locais onde se vão criar os empreendimentos. Algumas empresas, entretanto, implantam-se sem executar os estudos arqueológicos, causando danos ao patrimônio e, assim, acabam sendo penalizadas com medidas compensatórias pelo Instituto, através das TACs. Essas medidas, por sua vez, são aplicadas nos mais diversos âmbitos do patrimonio cultural: inventários do patrimônio imaterial, publicações, oficinas de educação patrimonial, escavação do próprio sítio arqueológico impactado e, às vezes, restauros de edificações notáveis. Desse modo, como medida compensatória de um desses TACs, assinado em 2014, nós incluímos a igreja de Itans, que deverá ser restaurada e passar por uma escavação arqueológica.

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Já com os documentos referentes a um termo de compromisso entre a paróquia de Itapiúna e o IPHAN, bem como audiência pública realizada entre Instituto e comunidade, os próximos passos estarão ligados à restauração da capela. Segundo o arquiteto, ainda em 2015 as obras deverão estar concluídas, trazendo-a finalmente às suas características originais e tornando palpável, assim, o sonho de toda uma comunidade – que deve, mais do que nunca, cuidar em preservar o próprio legado.


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A Itapiúna literária Prosa

Da prosa ao verso, Itapiúna conta com gerações de escritores e cordelistas, alguns com obras publicadas e outros ainda inéditos, alguns naturais do município e outros radicados, bem como um nome famoso que escreveu com certa frequência sobre a cidade, como é o caso de Rachel de Queiroz, que em parte viveu na Fazenda Não me Deixes, a poucos quilômetros dos limites do município, em Daniel de Queiroz. A primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras menciona Itapiúna em três dos seus romances (O quinze, Cem crônicas escolhidas e Dôra, Doralina), embora utilizando os nomes anteriores da cidade, isto é, Castro e Itaúna, a depender do ano de publicação de cada título. Em O quinze, sua obra de estreia e um dos marcos da literatura brasileira, a autora narra a saga dos retirantes da seca em uma marcha assombrosamente realista e crua, assinalando sua dramática passagem pela cidade:

Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas. – Mãezinha, cadê a janta? – Cala a boca, menino! já vem! – Vem lá o quê!... Angustiado, Chico Bento apalpava os bolsos... nem um triste vintém azinhavrado... Lembrou-se da rede nova, grande e de listas que comprara em Quixadá por conta do vale de Vicente. Tinha sido para a viagem. Mas antes dormir no chão do que ver os meninos chorando, com a barriga roncando de fome. Estavam já na estrada do Castro. E se arrancharam debaixo dum velho pau-branco seco, nu e retorcido, a bem dizer ao tempo, porque aqueles cepos apontados para o céu não tinham nada de abrigo. O vaqueiro saiu com a rede, resoluto: – Vou ali naquela bodega, ver se dou um jeito... Voltou mais tarde, sem a rede, trazendo uma rapadura e um litro de farinha: – Tá aqui. O homem disse que a rede estava velha, só deu isso, e ainda por cima se fazendo de compadecido... Faminta, a meninada avançou; e até Mocinha, sempre mais ou menos calada e indiferente, estendeu a mão com avidez. Contudo, que representava aquilo para tanta gente?

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Horas depois, os meninos gemiam: – Mãe, tou com fome de novo... – Vai dormir, dianho! Parece que tá espritado! Soca um quarto de rapadura no bucho e ainda fala em fome! Vai dormir! E Cordulina deu o exemplo, deitando-se com o Duquinha na tipóia muito velha e remendada. A redinha estalou, gemendo. Cordulina se ajeitou, macia, e ficou quieta, as pernas de fora, dando ao menino o peito rechupado. Chico Bento estirou-se no chão. Logo, porém, uma pedra aguda lhe machucou as costelas.

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Chico Bento também já não estava no rancho. Vagueava à toa, diante das bodegas, à frente das casas, enganando a fome e enganando a lembrança que lhe vinha, constante e impertinente, da meninada chorando, do Duquinha gemendo: “Tô tum fome! dá tumê!” Parou. Num quintalejo, um homem tirava o leite a uma vaquinha magra. Chico Bento estendeu o olhar faminto para a lata onde o leite subia, branco e fofo como um capucho... E a mão servil, acostumada à sujeição do trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido... mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante. A vergonha da atitude nova o cobriu todo; o gesto esboçado se retraiu, passadas nervosas o afastaram.

Ele ergueu-se, limpou uma cama na terra, deitou-se de novo. – Ah! minha rede! Ô chão duro dos diabos! E que fome! Levantou-se, bebeu um gole na cabaça. A água fria, batendo no estômago limpo, deu-lhe uma pancada dolorosa. E novamente estendido de ilharga, inutilmente procurou dormir. A rede de Cordulina que tentava um balanço para enganar o menino – pobrezinho! o peito estava seco como uma sola velha! – gemia, estalando mais, nos rasgões. E o intestino vazio se enroscava como uma cobra faminta, e em roncos surdos resfolegava furioso: rum, rum, rum... De manhã cedo, Mocinha foi ao Castro, ver se arranjava algum serviço, uma lavagem de roupa, qualquer coisa que lhe desse para ganhar uns vinténs.

Sentiu a cara ardendo e um engasgo angustioso na garganta. Mas dentro da sua turbação lhe zunia ainda aos ouvidos: “Mãe, dá tumê...” E o homenzinho ficou, espichando os peitos secos de sua vaca, sem ter a menor idéia daquela miséria que passara tão perto, e fugira, quase correndo [...] (QUEIROZ, Rachel de. O quinze. Rio de Janeiro: Ed. Siciliano, 1993, 64ª. ed., p. 46-49).

Na sequência, a autora mostra o cotidiano da personagem Mocinha em meio à movimentada estação de trem do Castro (onde consegue trabalho e se separa dos demais retirantes), reconstruindo para os leitores de hoje toda a atmosfera de uma época (ressalte-se que a referida estação não existe mais, pois foi demolida):


Mocinha chegou animada, a bem dizer risonha: – Tem lá uma mulher que carece de uma moça mode ajudar na cozinha e vender na Estação. Cordulina interrompeu o remendo que cosia, interessada: – Quem é? Mocinha esticou o beiço, num gesto vago: – Sei direito não... Parece que se chama Eugênia... Cordulina dobrou o pano, enfiando nele a agulha, pensativa: – E tu não tem pena de ficar aqui, mais esses estranhos? A moça encolheu os ombros: – Assim... Quem não tem pai nem mãe, como eu, pra todo o mundo é estranho... Defronte da casa de Sinhá Eugênia, Mocinha se despediu de seu povo. Cordulina a abraçou chorando, de lábios fechados, para abafar os soluços que lhe sacudiam as costas. Chico Bento deu-lhe a mão, com o gesto desafetuoso e mole de sertanejo, e lhe bateu levemente no ombro. A rapariga levantou o Duquinha: – Adeus, meu bem! Tome a bênção de sua tia! O pequeno a agarrou pelo pescoço, prevendo qualquer nova surpresa dolorosa. Ela, chorando, beijava-lhe as falripas arruivadas do cabelo, a pequena testa encardida.

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– Adeus, meu filhinho! Bruscamente, Cordulina o arrebatou e o prendeu aos amarradilhos da cangalha; o menino tornou o choro, e ficou quase um minuto, roxo e duro, o rosto num esgar de desespero. Aflita, a mãe o sacudia, gritando: – Duca! Duca! Afinal o pequeno tornou; e Chico Bento tangeu a burra. O grupo principiou a andar; comovido e desolado; e até se sumir na curva, Mocinha, de pé na calçada, viu o pequenino vulto no meio da carga, torcendo-se, estendendo por entre as mangas largas da camisa encarnada os bracinhos escuros, tisnados pelo sol, gritando lamentosamente:

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– Titia! Titia! Eu téo você! Sinhá Eugênia comentou, entrando: – Credo! que desespero! Mocinha enxugou pela derradeira vez os olhos úmidos: – Foi porque eu ajudei a criar ele... Dias depois, indo e vindo, na cozinha enfumaçada, Sinhá Eugênia, furiosa, lamentava sua xícara florada, e descompunha Mocinha: – Essa sem-vergonha só quer é namorar! Vive de dente de fora pros homens e não liga pra nada! Por causa dessa peste roubaram o meu casal de pires! Mocinha, sentada no pilão, escutava pacientemente. Que lhe importava uma descompostura a mais, da velha? Vivia agora tão feliz!

Passava quase todo o dia na Estação, alegre como uma feira, cheia de gente como uma missa... A Estação enxameando de guarda-freios, de bagageiros, de passageiros alegres, que rodeavam formigando a sua mesa, na ansiedade de chegar bem depressa, de receber de suas mãos a xícara cheia de café, embora requentado e engulhento. E dentro daquele enlevo, cuidava pouco no serviço. Parava, o bule no ar, ouvindo graças dos fregueses, apesar dos berros de Sinhá Eugênia: – Olha o café, criatura! Larga de ouvir tanta prosa, cuida nas mãos! Ela então se virava espantada, aturdida, ainda com um meio riso lhe descobrindo a pontinha quebrada de um dente: – Inhora? (QUEIROZ, Rachel de. O quinze. Rio de Janeiro: Ed. Siciliano, 1993, 64ª. ed., p. 49-52).

Já no livro Cem crônicas escolhidas, a escritora narra uma pequena história na qual menciona a cidade correspondente à atual Itapiúna, intitulada O caso da menina da estrada do Canindé, cuja trama se desenvolve também no ano de 1915 e aborda a mesma temática do seu romance de estreia: “Em tempo de seca sempre acontecem coisas; com o flagelo, parece que os homens perdem o temor de tudo: quem nunca tinha feito mal a nada, vira besta-fera, porque a fome é má conselheira e miséria não tem pena de ninguém” (p. 42-43). E começa sua narrativa: “Na estrada que vai para o Canindé, a oito léguas do lugar outrora chamado Castro, mas que hoje se


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chama Itaúna, morava um homem viúvo com a sua filha de doze anos [...]” (QUEIROZ, Rachel de. Cem crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Ed. Siciliano, 1994, 6ª ed., p.43). Com a mesma força contundente do realismo característico da autora, a crônica escancara a tragédia que ronda as vítimas do drama da seca.

Novidade é que já não havia parada no almoço da Itaúna, agora vinha um carro-restaurante engatado no trem, mas tão cheio de homem bebendo cerveja e conversando alto que uma senhora sozinha não se aventurava lá. Comi frutas, banana-seca, bolo de milho que uma mulherzinha vendia enrolado em folha de bananeira, num tabuleiro coberto com uma toalha muito alva.

No caso, ela mostra um trabalhador que, com a seca, vende todos os seus pertences a fim de buscar melhores condições de vida; porém, ao sair para liquidar compromissos no Castro, deixa a filha em casa, a qual prefere dormir sozinha a pernoitar na casa de um vizinho, a quem seu pai a recomendara. O vizinho, por sua vez, decide invadir a casa para roubar o dinheiro do outro e, ao ser surpreendido pela jovem em pleno ato, resolve matá-la.

Lá estava a estrada dos romeiros que iam para o Canindé. Lá se passou a grande ponte do Choró que meu avô tinha trabalhado nela – e quando menina eu pensava quais vigas de ferro, quais pedaços daquele grande esqueleto tinham sido feitos pelo avô – e sentia orgulho, era como se aquela ponte fosse um pouco de herança minha.

Para tal, sugere-lhe escolher o meio com que irá morrer. Ela, então, prefere morrer enforcada, para não ver o próprio sangue. O criminoso arma uma forca na sala e, ao experimentá-la a fim de verificar se serviria na moça, acabou se desequilibrando e morrendo, ele mesmo, enforcado. No romance Dôra, Doralina, por sua vez, Rachel descreve a viagem de trem da protagonista, passando por Itaúna e, também, do que parece ser a bela ponte de ferro do Caio Prado: O mundo todo muda, mas aquela linha de trem não muda nunca. Cada estação era a mesma invariável dos meus tempos de menina. Olha a banana-seca do Siqueira! Olha as mariolas! No Baturité os cestos de laranja e tangerina, as miniaturas de cesta de uva, a igreja do Putiú muito branca junto ao rio, a serra verde no fundo.

(QUEIROZ, Rachel. Dôra,Doralina. Ed. Siciliano, 9ª Edição, 1992).

Dos escritores nascidos em Itapiúna, cada um atua em gêneros bastante diferentes. O mais antigo, José Jeovah Mendes, dedicou-se ao ensaio documental, enquanto Ana Maura Tavares especializou-se em literatura infantil e Renato Barros de Castro escreve livros de ficção (contos, romance) e não ficção (biografia e livro-reportagem), tendo uma predileção pela crônica (sobretudo de viagem). Nascido em 1955 na Fazenda Jucás, Jeovah Mendes é bisneto de Matias Ferreira Mendes Maciel, parente do líder revolucionário da Guerra de Canudos, Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro. Ainda jovem, Jeovah ingressou na vida sacerdotal, permanecendo na Escola Apostólica de Baturité, ligada aos padres jesuítas, da qual se desligou para dar entrada em um convento franciscano no Canindé. Essas experiências tiveram profunda implicância em sua fluente obra, a qual ressalta momentos dramáticos e sombrios da história humana, com destaque para os jogos de poder e os mistérios da religião.


Estudioso da historiografia universal, Jeovah se interessa por temas como as escrituras hebraicas, do Tamulde à Cabala, tendo iniciado sua atividade na escrita em 1978, com o ensaio No rastro de sangue do terrorismo internacional, onde trata de tema quase profético, dada sua repercussão nas décadas seguintes. Mais tarde, vieram Os piores assassinos e hereges da história: de Caim a Saddam Hussein (1997), Curiosidades da Bíblia e da história: De Adão a nossos dias (1999) e Dos porões sombrios do Vaticano – 30 papas que envergonharam a humanidade (2006). Também são obras do autor, dentre outras: Os grandes mártires do cristianismo – de Estêvão a Luther King, Os piores traidores da história – De Judas aos delatores de Lampião, e Homens e fatos que a Bíblia nem sempre menciona. Nascida em 1981, a escritora Ana Maura Tavares dos Anjos também é originária de Itapiúna e escreve especialmente prosa, embora também se enverede pela poesia. Com formação em pedagogia e psicologia, sua experiência em educação de crianças levou-a ao universo da literatura infantil, lançando seu primeiro livro (As aventuras do boneco Peteleco) em 2010, obra vencedora do edital de seleção da Secretaria da Educação do Governo do Estado do Ceará (SEDUC). Em seu livro de estreia, a autora aborda as dificuldades dos deficientes físicos, na comovente história de um boneco com necessidades especiais. No ano seguinte, também pela SEDUC, Ana Maura lança a coletânea de poesias Sinsalabim, poesia para mim. Em 2014, vem a coleção De casa para a escola, contendo quatro livros educativos sobre os valores e responsabilidades (a exemplo de regras,

disciplina e limites) que, segundo a autora, estão sendo transferidos dos pais para os professores, ocasionando muitos problemas ligados ao aprendizado. Com os títulos Teco, o tatuzinho; Miga, a minhoca teimosa; Balaio de gatos e Um robô no conserto, as obras foram lançadas pela Editora IPDH (Fortaleza), e convidam a uma reflexão sobre o real papel da família e dos educadores na formação das crianças. Com projetos de novos livros infantis, Ana Maura já comemora o sucesso junto ao público, recebendo cartas de muitas crianças de todo o interior cearense. E dá sua fórmula: acreditando em si mesmo, tudo é possível. Também nascido em Itapiúna (1982), Renato Barros de Castro estreou na literatura assinando Cherlanyo Barros, com a coletânea de contos Dulcineia em Hollywood (2006), a qual inclui muitas histórias inspiradas diretamente em pessoas nascidas em sua terra natal: As noivas de Virgílio; Joaquim Bonequeiro; A bodega do Juarez; Desilusão; O rádio e Zequiel e a Burrega. No ano de 2008, Renato se afasta da ficção e publica o livro-reportagem Lustosa da Costa, uma biografia (2008), seguido do romance Inventário das sombras (2009), este ambientado na cidade da Cracóvia, na Polônia, mas inspirado tanto nas lendas dessa cidade medieval como nas viagens que fez de carroça, na infância, a caminho de Lagoas do Juazeiro, onde costumava escutar “causos” que o deixavam intrigado, na fazenda de Letícia Ribeiro (atual Fazenda Ferreira), bem como nas viagens entre o interior do estado e a capital, onde passou a morar a fim de se formar em Comunicação Social (Jornalismo), o que viria a se concretizar em 2009.

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Embora Inventário das sombras tenha sido o primeiro livro do autor, no ano 2000, o trabalho seria mantido por muitos anos guardado, vindo à tona somente ao ser inscrito, muito tempo depois, em um concurso da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (SECULT), do qual foi vencedor. A obra teve apresentação de Ana Miranda, a aclamada autora de Boca do inferno e A última Quimera, ambos publicados pela Companhia das Letras.

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Em 2011, Renato volta-se novamente para a não ficção, e publica o livro de crônicas Geografia afetiva, vencedor do Prêmio Milton Dias. Dividido em duas partes, o livro traz textos sobre o Brasil e alguns países da Europa, a exemplo de Portugal, Polônia, França e Bélgica. Quanto ao Brasil, há textos sobre o patrimônio histórico local, de sítios pré-históricos no Piauí a cidades do interior do estado do Ceará, onde sobressaem personagens curiosos e anônimos, muitos destes originários de Itapiúna: Apresentação; As cunhãs, muito prazer; Itans, a história esquecida; Um perfil de mulher; Inaudita revanche e Uma vida em silêncio. Em 2014, o autor itapiunense publica mais um livro-reportagem: Do lampião ao foco de luz – a chegada da medicina moderna ao Aracati, e, no ano seguinte, lança mais um livro de crônicas: Viagem a um Brasil insólito e outras destinações, vencedor do IX Edital de Incentivo às Artes do Governo do Estado do Ceará. Com muitos relatos de viagem abordando regiões brasileiras e países como Croácia, Itália, Inglaterra, Suíça e Grécia, a parte referente ao Ceará traz os seguintes textos apresentando Itapiúna como cenário: Farejando o destino; O espetáculo camaleônico da vida; Itans polonesa e As muitas vidas de Dodal.

Renato viveu na Bahia como marchand de tableaux e intérprete. Atuou na imprensa fortalezense como articulista do jornal O Estado e repórter do jornal O Povo, além de passagens pelo rádio e tv. É redator e colunista da revista Costumes, do Grupo S. Luiz, desde 2010. Tem publicações em periódicos e livros estrangeiros, a exemplo de Palavra em mutação (Porto, Portugal) e Plac Bohaterów Getta (Cracóvia, Polônia). Atualmente servidor público da Universidade Federal do Ceará (UFC), Renato também é autor do volume de contos O mistério de Frida Zeiden, ainda inédito, e continua se dedicando a escrever crônicas de viagem, dessa vez abordando países ou regiões brasileiras não citados nas obras anteriores.


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A Itapiúna literária Verso

Segundo a professora Alaíde Bezerra Lopes: Durante todo esse tempo [de atividade profissional] suas horas vagas foram dedicadas ao estudo da poesia matuta, pois Luiz desde estudante gostava de provocar os colegas através de quadras, às vezes picantes, às vezes inocentes. Ele começou a desenvolver sua capacidade poética pela solicitação das pessoas que, durante os sábados de aleluia, sempre queimavam um Judas de capim, e sendo ele o testamenteiro do Judas Iscariotes aumentava assim

Além da quixadaense de coração nascida em Fortaleza “por acidente” que escreveu sobre a Itaúna, cordelistas e poetas hoje habitantes de Itapiúna também são naturais de Quixadá, tendo se mudado posteriormente para a cidade estendida às margens do Rio Castro, hoje represado. É o caso de Luiz Bezerra e Raimundo Rodeval Cunha Mateus, nascidos, respectivamente, na Fazenda Bom Princípio (em 1923) e na Fazenda Daniel de Queiroz (1952).

a desenvoltura de versejar. A tendência poética nascera consigo e se encaminhara pela escolha da poesia típica sertaneja, e através dela nasce a crítica e a sátira da música moderna, da engenhosa promessa dos politiqueiros e da ganância de falsos religiosos. Sua poesia ressalta com muita frequência a maneira do caboclo nordestino com seu linguajar, sua expressão maliciosa de analisar as coisas. São estes os motivos como o autêntico caboclo analisa e critica as calamitosas versões que dia a dia atingem o espírito do matuto

Autor de Desabafo nordestino, obra em dois volumes, Luiz Bezerra mudou-se com os pais aos 12 anos para a Vila de Cangaty, atual distrito de Caio Prado, onde estudou com “as Vianas”. Mais tarde, foi caixeiro-viajante, seresteiro boêmio, coletor de impostos em Baturité, inspetor de trânsito em Fortaleza e funcionário público da Secretaria da Agricultura da Prefeitura de Itapiúna. Como classificador de produtos agrícolas especializado em algodão, trabalhou na Usina Antunes até 1976. Em seguida, atuou como construtor de obras, na mesma prefeitura, até a aposentadoria.

preservador da natureza e do próprio sentimento de curiosidade. (BEZERRA, Luiz. Desabafo nordestino II. Fortaleza: 1994, p.6).

Tendo em comum com Luiz Bezerra o fato de também ter começado a fazer versos como testamenteiro de Judas Iscariotes nas festas da Semana Santa, e partilhando com Rachel de Queiroz as origens geográficas, Raimundo Rodeval Cunha Mateus nasceu em 1952 e conheceu a autora de O quinze ainda em seus tempos de menino, por seu genitor ser funcionário da fazenda do pai da escritora, Daniel de Queiroz e, posteriormente, trabalhar para Roberto, irmão de Rachel.

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Das lembranças do sertão, Rodeval se recorda nitidamente da imagem da escritora balançando-se em sua rede de varandas em companhia de um livro, respondendo a quem lhe perguntasse por que uma mulher já formada estava sempre envolvida com leituras: “O homem é sempre um analfabeto”. A assertiva, que cuidou de guardar desde o momento em que a ouviu, estaria sempre presente na memória de Rodeval, que aprendeu a ler com a mãe, Francisca Cunha Mateus, a qual trazia cordéis semanalmente das feiras de Quixadá e colocava o filho para ler à luz de uma lamparina, transformando-o em leitor oficial da casa aos 6 anos de idade. Conforme ainda hoje afirma, Rodeval correu o risco de ser adotado por Rachel de Queiroz, que visitava a Fazenda Não me Deixes na época das férias, mas como a família não o entregou à adoção da literata ele se mudou, mais tarde, para o distrito de Palmatória, e, muitos anos depois, para Itapiúna, onde se casou e, ainda hoje, trabalha como funcionário público. Em Itapiúna, Rodeval é um dos representantes de uma das mais antigas tradições literárias do Nordeste brasileiro, o cordel, que, mesmo diante de todos os avanços da tecnologia, ainda subsiste. Remontando à Idade Média, quando os trovadores divulgavam nas praças europeias canções e romances de cavalaria (como as que retratavam Carlos Magno e os doze pares de França), velhas histórias foram trazidas para o Brasil através dos colonos portugueses nos séculos XVI e XVII, e nessa nova terra, extensão de Portugal, a cultura do cordel iria continuar a florescer.

Em seu estilo fluente, Rodeval nos apresenta a história da nossa cidade (a exemplo do cordel Itapiúna: 50 anos de história) de suas origens aos dias atuais, mostrando todo seu panorama sócio-político, com destaque para o episódio da emancipação:

[...] O cordão umbilical Em 57 foi cortado Pai e mãe Baturité Hoje faz parte do passado 57 mês de abril O clima não foi hostil Fomos sim emancipados Foi uma grande festa Maior a satisfação Vendo a nossa Itaúna Tomar outra direção Os frutos ainda estão chegando Itapiúna caminhando Para sua redenção Rufino e Manoel Barros Filhos deste sertão Convidaram Chico Martins Para uma reunião Zequinha Campelo convidado E no momento marcado Começou a discussão


A pauta da reunião Tinha uma finalidade Era para transformar Itaúna em cidade Zequinha Campelo não queria Veja então a ironia O que houve de verdade Quando a reunião terminou Era grande a satisfação Itaúna libertada Veio a primeira eleição Zequinha foi apontado Pelo povo aclamado Prefeito em primeira mão A seguir, Rodeval elenca uma série de nomes e famílias que a seu ver ajudaram no desenvolvimento da cidade, em tom de epopeia: Falar nos filhos ilustres Muito eu irei demorar Quem foi João Antunes É bom você recordar Foi nosso dileto prefeito Homem simples sem defeito Já foi no céu morar [...] Humberto Barros, você conhece E conhece muito bem

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Foi nosso vice-prefeito Lembrar sempre convém José Rita estou lembrado Andava sempre montado No seu jeguinho Vem-vem [...] Valdemar Antunes Freitas Governou nossa cidade Foi prefeito duas vezes Administrou com lealdade Hoje no céu está morando Para Itapiúna olhando Lá da sagrada eternidade [...]

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Luiza e seu irmão Nonato Costa O seu esposo Franciné Itapiúna lhes entrega a Virgem de Nazaré E a nossa Mãe Imaculada Hoja na sagrada morada Ao lado de São José [...] Tenente José Joaquim Este muito trabalhou Veio lá do Rio Grande E uma fazenda comprou Este sim é destacado Foi um cidadão honrado Itapiúna lhe adotou [...]

Patriolino Aguiar E Manuel Quixabeira Firmino Antunes e Cosmo Leite Uma seleção de primeira Boticário Manuel Caldas Hoje em rodas de calçada Lembramos o Noel Aroeira [...] Capitão João de Freitas Alexandrina Moreira Firmino Antunes e Jerônimo Vieram de outra ribeira Mas aqui se instalaram Por Itapiúna lutaram Quiçá uma vida inteira [...] Em outros trabalhos, Rodeval nos revela os desafios das gentes do sertão (O sofrimento do sertanejo, A escola que eu tenho, O matuto e o doutor), e faz um alerta para os problemas que afligem a população menos favorecida economicamente (O bacana, Hanseníase), reafirmando dessa forma o caráter engajado dos seus versos. Sua crítica social se manifesta em muitas composições, especialmente no folheto O Brasil em pedaços. Em O sofrimento do sertanejo, de modo comovente, ele nos faz perceber que “o sertão é o mundo”, lugar onde o mais fraco é explorado sem muitas vez-


es sequer ter consciência disso. Sua escrita representa, pois, a voz popular pela força da tradição, aparente em versos como estes: Sertão que você nasceu Ou mesmo lhe adotou Fez tudo por você E você nunca notou Está na hora de agradecer Venha também conhecer A semente que brotou Apesar de ter adotado um cordelista de destaque como Rodeval, o distrito de Palmatória também acolheu outro versejador, o agricultor Raimundo Marcos da Cruz (o “Raimundo Mulato”), 64 anos, que afirma não saber nem se lembrar exatamente onde nasceu, dando uma pista sobre o inusitado da sua personalidade e do tom picaresco de seus versos: “Dizem que foi num lugar chamado Garrote, mas sempre vivi, mesmo, aqui na Palmatória”. Raimundo, que por volta dos 20 anos passou a acompanhar os repentistas a se apresentarem em seu povoado, arriscando ele mesmo alguns versos improvisados, não possui obra escrita, mas apenas o que conseguiu guardar na memória, e que vem se perdendo a cada dia. Inspirando-se em motivos do cotidiano local e tendo como herói e anti-herói o próprio sertanejo, seus versos bem-humorados (e alguns bastante ambíguos, de declarado conteúdo sexual) eram por vezes declamados (nunca acompanhados de melodia)

em momentos de boemia pelos bares da Palmatória ou em casa de amigos que solicitavam a alegria dos seus “causos” em verso, que divertiam adultos de todas as idades. – Em um deles, por exemplo, ele tratou da morte do próprio pai, sem que o pai sequer houvesse morrido. Em outro, ele presta seu inusitado hino à aguardente, a predileta dos seus companheiros de bar: Nunca pensei de um dia conversar com a aguardente Mas como eu estava dormindo E nela liga nas corrente’ Bati um papo sadi’ E foi aí que descobri Que ela não faz mal a gente Dormindo eu falei para ela Para ela me responder: Por que é que você arde, é tão ruim de se beber? Mas nas praças ou nos desertos, Se você não estiver perto A gente só fala em você? Ela respondeu para mim: É porque dou mais coragem Para quem é esmorecido Se alguém me acochar Pode perder o sentido E depois sair cambaleando E deixar meu sabor sobrando Na minha caixa de vidro

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Eu moro nas prateleiras Tenho direito e razão Sou bonita, sou gostosa, E tenho força que nem Sansão E me orgulho em ser boa Derrubo qualquer pessoa Sem murro nem empurrão

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Então perguntei para a cachaça: Apois cachaça eu te pergunto Mas não sei se tenho razão Eu sei que és convidada para qualquer repartição Tu és tão forte e valente, Tem matado tanta gente, E nunca foste à prisão? Ela respondeu para mim: Sou filha da cana doce Nasci para não ter mais fim Começou meu nascimento numa planta de capim Tenho milhares de anos Nos alambiques que tem Eu nunca matei ninguém Alguém é que morre por mim Peguei na mão da cachaça e falei com ela: Cachaça sou teu amigo Nasci para te defender

És meu chá, és meu café, és minha água de beber Eu corro cinquenta léguas Atrás de um fi’ de uma égua Que fale mal de você! Embora a arte de Raimundo Mulato tenha surgido junto aos repentistas, suas habilidades, mesmo, eram o humor e o verso, pois não sabia cantar ou tocar nenhum instrumento musical. Como no exemplo anterior, o desafio não se dava com outro versejador, mas com o próprio elemento a lhe servir de tema, levando-nos a admirar sua capacidade criativa e a lamentar sua atual inatividade artística, a qual se deve, segundo ele, ao desinteresse dos conterrâneos pelo seu trabalho, além de dificuldades de memória decorrentes do avanço da idade. De todo modo, antes que tudo acabe, ele se apressa em resumir, em uma frase, seu conceito tanto da vida quanto da arte: “Sem gracejo, nada presta”! Também natural de Itapiúna, Francisco Bezerra Campelo, filho do primeiro prefeito da cidade, é mais um dos nossos poetas. Professor e historiador formado pela Universidade Federal do Ceará em 1987, seus versos diferem dos de seus conterrâneos tanto pela forma como pela temática: saem de cena os modos de falar sertanejo e entram referências biográficas a personagens da história como Che Guevara, Fidel Castro e Karl Marx. Depois da publicação do seu primeiro livro de poemas, Dois tempos, abraçando a lírica sem deixar de lado a crítica social, Francisco


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publicou, em 2006, a coletânea Sonho libertário, poemas biográficos: vidas e histórias (Fortaleza: Editora Poder Local, 2006), a qual traz prefácio de Antônio Augusto Vasconcelos Fontenele: [...] Seus poemas permitem ao leitor entrar em contato direto com a história de grandes homens e mulheres imbuídos de espírito revolucionário na luta pela transformação de suas realidades [...] Esse poeta, com sua linguagem transparente, permite conhecer personagens do Ceará, do Brasil e do mundo através da poesia” (p. 11).

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Das gerações mais jovens de versejadores, Francisco Neto de Araújo, nascido na localidade de Barra do Santo Antônio em 1983, é um dos mais novos representantes da literatura de cordel em Itapiúna. Após iniciar sua atividade artística aos 15 anos de idade, buscando inspiração no próprio sertão, logo passou a escrever sobre histórias de amor (ao estilo de Pavão misterioso), além de muitas outras onde episódios cômicos estavam sempre presentes. Inicialmente, Neto Araújo publicou seus trabalhos no Jornal Alforria, periódico da ONG Comunicação e Cultura dirigido por João Paulo Vituriano e muito popular em Itapiúna quando da sua circulação (anos de 2001 e 2002). O Alforria foi a voz de muitos estudantes e, esperado ansiosamente pelos moradores da cidade a cada edição, impôs-se como um veículo onde muitos jovens locais puderam, pela primeira vez, se expressar e mostrar seus talentos escritos: embora originalmente um jornal escolar, o periódico ganhou as ruas e se tornou uma referência para os leitores da cidade.

Quanto aos trabalhos de maior destaque entre os cordéis de Neto Araújo, destaca-se Origem de Itapiúna, no qual o autor explica, em versos, sobre como surgiu o município, além de duas outras histórias, estas fictícias, cujos títulos remetem diretamente a um universo à la Ariano Suassuna, desvelando o sabor de todo um mundo sertanejo de raízes medievais: Casamento forçado e O romance de Florismundo e Berbela, que trata da história da filha de um coronel que perdeu a fala ao ser encantada pelo feitiço de uma bruxa. Assim, o pai da moça profere a seguinte promessa: quem conseguir fazer Berbela falar, ganha sua mão em casamento. Sabedor dessa garantia, o malandro Florismundo Sabichão decide-se a conquistar o prêmio, vivendo muitas aventuras com seu comparsa Tripa de Barão nas estradas a caminho da fazenda. E somente com a ajuda de um pássaro mágico o herói consegue concretizar seus intentos: Todo mundo ali chorava Com tamanha emoção Foi na hora que Berbela Abraçou o Sabichão E nessa hora ali O povo pôde sentir O que era uma paixão Florismundo Sabichão Pegou a moça Berbela E levou pra caravana Cheia de pedra amarela


O passarinho abençoou Sabichão se emocionou Com a cena tão singela E foram pra lua de mel Cheio de muita alegria O Coroné ficou chorando Mas ele sempre queria Ouvir sua filha falando E vendo ela se casando Justo com quem merecia Muitos anos se passaram E uma filha nasceu Com o nome Florisbela Que muita alegria deu Cresceu com todo carinho Isso foi do passarinho O presente que recebeu Vou encerrando essa história De muito amor e paixão Florismundo e Berbela Foi a mais perfeita união Mostrando que o sentimento Enfrenta qualquer tormento Tendo amor no coração

Com toda essa criatividade e vigor, o cordel em Itapiúna parece mesmo estar em boas mãos: embora os leitores de Neto Araújo sejam formados, em sua maioria, por pessoas de mais idade, dado o caráter tradicional do gênero, ele também tem a oportunidade de apresentar seus trabalhos aos estudantes, em ocasiões de eventos culturais na cidade ou exibições artísticas nas escolas locais. Assim, ele acredita que o cordel tem tudo para se perpetuar, e torce para que venham por aí muitas outras boas histórias, bem como leitores: seja da velha ou da nova geração.

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Festividades O calendário de festividades anuais de Itapiúna é enriquecido por eventos religiosos e cívicos, dos quais se destacam a Festa do Município, comemorada com shows musicais e fogos de artifício a cada 23 de junho, e a tradicional Festa da Padroeira, a qual se inicia oficialmente com o levantamento da bandeira, a 28 de dezembro, e é precedida por uma novena a se estender até a noite do dia 7 do mesmo mês, quando são realizadas uma procissão e o leilão da paróquia na praça principal, na ocasião cercada por parque de diversões e animadas barracas, entretendo os itapiunenses até a realização de uma das maiores festas dançantes da cidade. Além dos eventos principais, a cidade também conta com feiras literárias promovidas pelas escolas locais e uma inusitada competição chamada “corrida de jumentos”, ocorrida durante a Semana Santa (e que não é unanimidade), além do Desfile do 7 de Setembro, que voltou a despontar, há alguns anos, como uma das mais brilhantes festas do município. Tradicionalmente, os desfiles do 7 de Setembro, em Itapiúna, eram conhecidos pela alta organização e pelo clima de espetáculo, realidade mantida por muitas décadas. Com o tempo, isso foi caindo no esquecimento, até que, por volta de 2013, a festa voltou a recuperar o fôlego, com desfile em um único dia e participação de bandas de música dos municípios vizinhos (a de Itapiúna, por

sua vez, havia sido extinta, e o município participou com uma única banda de fanfarra). No ano seguinte, o Desfile do 7 de Setembro passou a ocorrer em dois dias distintos, para facilitar o transporte dos alunos das escolas dos distritos à sede do município, e contou com um número maior de fanfarras municipais. Foram quatro, ao todo: a da Escola Demócrito Rocha, de Itapiúna, a da Escola João Batista de Aguiar, de Itans, a do Centro Educacional Rural, de Palmatória, e uma quarta, da Escola César Cals, do Caio Prado. Além delas, também participaram grupos musicais de outros municípios. Em geral, o desfile parte da Prefeitura Municipal com o primeiro pelotão formado pelos funcionários da Secretaria de Educação, seguidos por uma banda de fanfarra principal (a Inovare Fênix, do Demócrito Rocha). Os blocos se alternam entre as diferentes escolas do município, das localidades e dos distritos e as bandas secundárias. Todas se distinguem entre si pelas cores dos seus fardamentos, pela contagiante desenvoltura das suas balizas e pelas cores das suas boinas e chapéus emplumados, acompanhando seus respectivos centros educacionais. As escolas estaduais, como a Franklin Távora, também participam com bandas de fanfarra e cavalaria, e, assim, conferem um ar épico ao evento. A trajetória encerra-se na praça principal depois de passar pela Avenida São Cristóvão e outros pontos da cidade, a se exibir em todo o fausto aos moradores. De acordo com Lázaro Wylker Soares, 25 anos, responsável por reger a primeira fanfarra do município (a da Escola Demócrito Rocha), o revivamento dos desfiles tem uma grande importância para a cultura do município, e, em especial, para a música,

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pois as escolas estão passando a investir muito em compra de instrumentos de percussão, com o objetivo de sobressaírem e se aprimorarem a cada ano, sobretudo porque a quantidade de participantes é crescente. Outro ponto de destaque é que, para participar das bandinhas, os alunos têm que obter uma determinada média nas notas escolares em todo o período letivo, o que acaba gerando uma melhora no desempenho. Os alunos se interessam bastante e cria-se uma grande expectativa em relação ao evento, gerando, até mesmo, uma saudável rivalidade entre as escolas municipais, pois cada uma tenta dar o seu melhor no dia do desfile. Ao mesmo tempo, cria-se uma certa aliança entre os centros de educação, isto é, uma conexão, pois, nessa época, as escolas ficam mais unidas por ensaiarem juntas; cria-se um clima amistoso entre as pessoas, gerando também uma troca de aprendizado.

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Estas são as palavras do maestro, para quem os desfiles do 7 de Setembro são fundamentais à permanência da tradição da fanfarra em Itapiúna: afinal, fora da época do desfile cívico, somente a Inovare Fênix permanece atuando, enquanto as demais aguardam a ocasião de revelar, após a dedicação de mais um ano inteiro de trabalho, um talento que merece, com razão, ser mantido e lembrado.


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Folia de reis, um itinerário mágico Às nove e trinta eles começam a chegar, quase solenes, embora com visível expectativa. Pode parecer uma noite qualquer, mas sabem muito bem o que está por vir, e assim reúnem-se à frente da casa paroquial, a poucos passos da Capela de São Francisco com o local da cruz a demarcar a antiga estrada para o Canindé, e, muito em breve, outros assomam trazendo sanfonas, violas e pandeiros. O burburinho começa e logo se espalha; em poucos instantes, a algazarra já toma conta de toda a calçada. Como em um truque de mágica, retiram das sacolas de plástico altas coroas de papel laminado e fitas em amarelo, azul e rosa, todas confeccionadas por eles mesmos, além de túnicas multicolores e máscaras de pano. Cada um se apodera do adereço que mais agradar, e também é de livre escolha o papel a requerer para si, isto é, súdito ou rei mago. Com certa pressa para vencer o adiantado da hora, o cortejo parte (um dos reis magos leva o Menino-Deus à frente) em direção a casas específicas de Itapiúna, diferindo dos reisados “de porta” antigos pelos mais variados motivos. – Com o aumento da violência na cidade, ninguém mais se arrisca a caminhar tão

tarde na rua, e o reisado que antes saía de madrugada, hoje, se estende no máximo até perto da meia-noite. O elemento surpresa, por sua vez, também já não existe. Se outrora as pessoas eram surpreendias em seus lares pela cantoria inesperada à porta, hoje a Paróquia da Conceição envia um comunicado aos fiéis avisando dia e hora da passagem do cortejo, agradecendo de antemão a contribuição destinada à igreja. Apesar de parecer estranho para alguns, isso se dá por um motivo de logística, evitando-se passar em numerosas residências que não costumam acolher os passantes. Os destinatários do comunicado da paróquia, portanto, são escolhidos por um critério bastante simples, ou seja, visita-se a casa daqueles que têm o hábito de, a cada ano, chegar à porta e acolher o reisado ao ouvirem o tradicional refrão: Ô de casa! Ô de fora!, manjerona é quem está aí Ô de casa! Ô de fora!, manjerona é quem está aí É o cravo, é a rosa, é a flor do bugari É o cravo, é a rosa, é a flor do bugari Esta casa está bem feita Por dentro, por fora não Esta casa está bem feita Por dentro, por fora não Por dentro, cravos e rosas Por fora manjericão

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Por dentro, cravos e rosas Por fora manjericão Viemos em vossa casa Em figura de raposa Viemos em vossa casa Em figura de raposa Em figura de raposa Queremos alguma coisa Em figura de raposa Queremos alguma coisa

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A própria entonação das estrofes, hoje, também difere da tradicional, que mesmo depois de ter ficado de lado costumava ser utilizada na ocasião de o cortejo se aproximar dos balcões de ferro do casarão de José Bezerra Campelo, o Zequinha, primeiro prefeito de Itapiúna, o qual fazia questão, quando em vida, de serem os refrões entoados à moda antiga. Essa disputa entre novo e pretérito, a propósito, não parece mesmo por acaso no que diz respeito ao reisado “de porta” celebrado atualmente na cidade: também chama a atenção a participação quase exclusiva de jovens (em boa parte integrantes da Pastoral da Juventude, onde tomaram conhecimento sobre essa tradição popular), com raras aparições de pessoas mais velhas ou de idosos.

À frente do reisado “de porta” de Itapiúna desde a década de 1970, Francisca Valdízia de Freitas é em boa parte responsável pela manutenção dessa tradição na sede do município. (Antes dela, um mestre de bumba-meu-boi conhecido como Seu Renato se encarregava da tarefa, acrescentando os personagens do folguedo tradicional). Por ter tomado conhecimento do reisado ainda muito cedo em sua localidade (o povoado de Lagoas do Juazeiro, onde a festa de reis durava todo o mês de janeiro e apenas pessoas do sexo masculino podiam participar), Valdízia testemunhou a magia da folia de reis passando por ruas arenosas e fazendas da sua infância, quando os participantes também eram acompanhados de personagens do bumba-meu-boi, como os caretas mascarados, a pintinha e a temida figura da velha, que com seu implacável chicote assombrou a infância de muitos sertanejos. Também poetisa, Valdízia é a única mulher a escrever cordel no município, e sempre está pronta para compor versos engajados ou com temática religiosa em eventos da paróquia. Graças à sua desenvoltura, as estrofes tradicionais do reisado de “porta” em Itapiúna ganharam um sabor local, pois ela dá asas à imaginação criando rimas no exato momento em que chega diante das portas das casas junto aos participantes do folguedo. Logo após os primeiros Ô de casa! Ô de fora!, ela emenda outros de autoria própria: Os reis magos viajaram com destino a Belém Foram visitar Maria, e o menino também


E enquanto o dono da casa acende a luz para começa a arrumar os itens da sua colaboração aos visitantes, estes voltam aos versos convencionais, da tradição: Entre copos e garrafas Ouvi a chave retinir Um arrastar de chinelo Vi a porta se abrir Ao se deparar com o cortejo, o dono da casa costuma esboçar largo sorriso, e por um momento queda-se a ouvir mais algumas estrofes admirando o próprio colorido dos paramentos dos seus visitantes, até que um dos representantes dos reis magos aproxima-se e lhe apresenta uma imagem do Menino-Deus. Em seguida, o dono da casa faz em silêncio sua prece, geralmente tocando o santo, e, ao entregar sua colaboração (mantimentos ou dinheiro, em regra), pode ouvir algumas estrofes improvisadas da autoria de Valdízia: Obrigado companheiro pela colaboração Deus te dê muita saúde, paz e amor no coração Ou esta variante: Obrigado companheiro pela colaboração Deus te dê muita saúde, paz, amor e união Às vezes, apesar de receber o comunicado da paróquia sobre o dia e horário do reisado, muitos proprietários de casas não acordam. Quando isso acontece e o séquito já se prepara para ir

embora, são proferidos os versos a seguir (da tradição): Ó senhor dono da casa, abra a porta, acenda a luz! Ó senhor dono da casa, abra a porta, acenda a luz! Abra a porta, acenda a luz, Pelo amor de Jesus! Ou esta variante, de autoria de Valdízia, caso algum parente do visitado tenha nome que possa rimar com a última palavra da estrofe inicial: Ó senhor dono da casa, abra a porta e venha aqui, Se o senhor não vier logo Levaremos a Lili!

Igualmente parte da tradição, embora em geral ignorada por motivos óbvios, é a praga rogada aos donos que não abrem suas portas no momento de o cortejo se despedir de mãos vazias. Valdízia conta que, nos tempos dos reisados “de porta” realizados quando o Padre Eudásio estava à frente da Paróquia da Conceição, este era veementemente contra o costume de proferir as maldições. Se alguém discordasse, ele pedia que a pessoa o fizesse em companhia de um outro grupo, não ligado à igreja. Valdízia, por sua vez, também pensa como o eclesiástico e sempre preferiu passar longe da ideia, e por um motivo bem curioso. Quando estudante universitária em Sobral, ela acompanhou um reisado o qual passou diante da casa de um dos seus professores de matemática, e que não abriu a porta mesmo sob a insistência de estrofes (tradicionais) como esta:

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Vim em vossa porta Pus a mão na fechadura E você não nos recebeu Coração de pedra dura! Assim dito, uma participante do grupo atreveu-se a rogar a praga, acompanhada por mais algumas vozes do cortejo: Vou te rogar uma praga Vou pedir a Deus que pegue De um lado, tu manquejes E de outro, tu alejes...

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Logo na manhã seguinte após a maldição, todos tiveram de encarar um fato estarrecedor: o professor, que pode não ter atendido os visitantes por pretender viajar muito cedo ao Recife, colidiu seu carro com um trem, tragédia que o deixou com várias sequelas, em cadeira de rodas. No hospital, aqueles que haviam participado do reisado foram visitá-lo e, tocada pela culpa, a aluna responsável pela ideia de rogar a praga foi se desculpar, inconsolada, ficando atônita ao ouvir o professor lhe dizer que não acreditava mesmo nessas coisas, ligando a desgraça a apenas uma incrível coincidência. Por razões como esta, a fatídica brincadeira também é evitada no reisado “de porta” de Itapiúna, embora por vezes a algazarra passe dos limites dada a idade festiva dos seus participantes. De todo modo, é curioso notar o engajamento desses jovens. Conforme nos levam a acreditar, no que depender deles, a tradição será mantida.

Para a professora Mirelle Maria de Freitas Bezerra, sobrinha de Valdízia, o interesse pelo reisado foi influência da tia. Quanto à manutenção da tradição do folguedo em Itapiúna, Mirelle acredita que esta não depende apenas da juventude, mas também do interesse da própria paróquia (por haver uma ligação direta com a realização da folia de reis, na cidade). Assim como os reis visitaram Jesus, nós visitamos as pessoas. A diferença é que os reis levaram presentes, enquanto nós estamos buscando. Aqui [em Itapiúna], o reisado [de porta] passou um tempo parado. Ele retornou, pela igreja, em 2006, e de início atraiu poucos jovens. A partir do momento em que o padre convidou a Pastoral da Juventude, e isso foi recentemente, passamos a ver pessoas de pouca idade (15, 17 anos) descobrindo o reisado, bem como convidando outras pessoas da mesma idade para participar também. Estas são as palavras da jovem Mirelle, a prova viva de que o esforço de Valdízia para manter a tradição local tem tudo para ser levado adiante, tal simbolizasse uma geração entregando a outra o dever da permanência: Ô de casa! Ô de fora!, manjerona é quem está aí É o cravo, é a rosa, é a flor do bugari...


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Alicerces da história Detentora de alguns poucos prédios históricos como o casarão do Francisco Horácio (de bela fachada com motivos a lembrar os estuques do frontispício do Convento de Santo Alexandre, em Belém do Pará), bem como o casarão abalcoado de Zequinha Campelo, e que foi testemunho de muitas reuniões políticas em seus corredores e jardim de inverno, Itapiúna conta também com dois prédios a se destacar no que se refere à arquitetura religiosa: a Igreja de São Francisco, chamada por muitos de “igrejinha”, e a Igreja Matriz, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Conforme Isabel Cristina da Silva Barros, 28 anos, graduada em história pela Faculdade de Ciências e Letras do Sertão Central (FECLESC), um dos campi da UECE no interior do estado, a construção dessas duas igrejas teve um papel fundamental no desenvolvimento urbano. De acordo com ela, a igreja mais antiga da sede municipal (a “igrejinha”) foi construída por volta da década de 1930 ou 1940 em terreno doado pelo Tenente José Joaquim, sendo dedicada, originalmente, à Senhora da Conceição. Posteriormente, o templo foi alargado por Rufino de Sousa Barros (que acrescentou seu santo de devoção, São Vicente de

Paulo), mas, mesmo assim, o espaço era pequeno para receber os habitantes e os romeiros de fora. Localizada a poucos passos da primeira estação de trem de Itapiúna, acredita-se ter a capela passado a ser conhecida por Igreja de São Francisco por conta do santo de devoção dos pagadores de promessa que ali acorriam com frequência, ao descerem dos trens e esperarem os ônibus a conduzi-los até o Canindé. Além da questão do espaço físico diminuto (levando à celebração de missas campais), outros motivos para a construção de uma nova igreja, segundo revela o livro de tombo da secretaria paroquial, foi a proximidade da linha férrea e o barulho do centro da cidade. Assim, em sítio elevado, deu-se início à empreitada da construção da atual Igreja Matriz, na qual os moradores participaram ativamente desde seus alicerces (a pedra fundamental foi colocada por volta de 1945), como mostra o trabalho de pesquisa da história oral desenvolvida por Isabel Cristina, reunido na monografia Entre a história e a memória: um olhar sobre as duas igrejas de Itapiúna - CE (1960-1980). Afirma a historiadora: O meu objetivo principal era investigar a questão da formação das cidades a partir de instituições ligadas ao poder político, como as câmaras municipais, mas com as leituras fui percebendo que as igrejas eram um elemento primordial no início da vida das cidades, principalmente no interior do Ceará, e direcionei minha pesquisa para isso. Uma vila que não tivesse uma paróquia, por exemplo, jamais seria considerada como em desenvolvimento. Sem igreja, não há cidade, pois ela é uma base do processo de organização social, responsável até mesmo por colher os primeiros registros documentais, como os são os de batismo.

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A escolha por focar seus estudos na cidade natal não foi mesmo por acaso. Como ressalta: Acredito que o historiador deve lançar seu olhar, antes de tudo, para o lugar onde mora, pois seu trabalho tem que ser útil. Por esse motivo, escolhi as igrejas de Itapiúna como meu foco de pesquisa, investigando as influências políticas da época e o papel de seus habitantes como elemento construtor da história: afinal, a intervenção das pessoas nesse processo foi flagrante durante minha pesquisa. Conversei com uma senhora que afirmou carregar ela mesma muitos dos primeiros tijolos do templo, enquanto seu marido realizou projeção de filmes para reunir recursos para a obra, a qual está sempre em transformação e é fruto direto do esforço dos moradores da cidade.

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Vila de Cangaty, mais um Itinerário Ferroviário

Conhecida por sua emocionante Missa do Vaqueiro, a ocorrer anualmente a cada 19 de março, dia do seu patrono São José, a antiga Vila de Cangaty atrai agricultores de toda a região nesta data, incluindo entre suas preces a esperança de um bom inverno e a proteção para suas lavouras. Na ocasião, os habitantes locais saem para a missa de guarda-chuva à mão, certos de que a chuva irá cair naquele dia (indicando, para eles, a aproximação de uma boa quadra invernosa no ano corrente), enquanto da igreja local ressoam os versos de uma típica canção: São José, a vós nosso amor/sede nosso bom protetor/aumentai o nosso fervor... Se a água não vier, o tempo nublado pode indicar um sinal, e nem mesmo o sol forte ofusca a esperança guardada na alma sertaneja, afinal, lá de cima, mais cedo ou mais tarde o padroeiro

há de zelar por nós, o campo voltará a ficar verde e tornará a ser abundante a colheita. Localizada a um braço da estrada que leva ao Quixadá e tendo sua própria toponímia remetendo a elementos do meio líquido (no caso, um peixe de água doce), a Vila de Cangaty passou a ser chamada de Caio Prado na década de 1940 em homenagem ao bacharel em Direito e presidente da província do Ceará e de Alagoas, Antônio Caio da Silva Prado, nascido em 1853 no estado de São Paulo. Terra com tradição de pessoas com perfil político, Caio Prado integra um dos três distritos itapiunenses e, não raro, alguns dos seus moradores trazem à tona discussões sobre uma possível elevação do povoado à condição de cidade independente, ideia baseada em razões históricas: em seu passado, o lugar foi tornado município por força de lei posteriormente revogada. De acordo com as pesquisas do memorialista e observador hidrológico Luís Everardo Bezerra Lopes, sobrinho do poeta Luiz Bezerra, o distrito de Caio Prado teve sua origem em uma fazenda chamada Cangaty, abrangendo uma área de doze quilômetros. Com a Lei Estadual nº. 3.599, de 20 de maio de 1957, o distrito foi desmembrado do município de Baturité e incorporado ao de Itapiúna.

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Além das particularidades apresentadas, Caio Prado também é famoso por possuir uma das maiores obras de engenharia já construídas no Ceará: a extensa ponte de ferro sobre o Rio Choró, a qual integra a ferrovia que ligava Fortaleza ao Crato e remete, com a precisão das suas formas simétricas, a antigas construções inglesas.

deram lugar a trens de passageiro mais modernos, os quais operaram até o final da década de 1970 e, a partir daí, saíram de cena para a atuação exclusiva dos trens de carga, transportando pedra, cimento, combustíveis, e, claro, colocando um ponto final em toda uma época que, para muitos, deixou lembranças de um saudoso romantismo.

Ainda de acordo com as pesquisas de Luís Everardo Bezerra Lopes:

Além de Caio Prado e Itans, cuja história sempre requer capítulo à parte, Itapiúna possui ainda um terceiro distrito, ponto de apoio para os romeiros que seguiam ao Canindé. Trata-se de Palmatória, lugar modesto e assim apresentado em trabalho de autoria de Itamara Pereira de Matos, Aulenice Alves da Silva, Ana Lúcia Bernardino Freitas, Conceição Aquino Lima e Janaína Borges, em folheto intitulado Itapiúna:

A Ponte Metálica da antiga Rede de Viação Cearense (RVC) foi construída no ano de 1891 na administração do engenheiro-chefe, dr.

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E. A. Lassange Cunha, sendo seu primeiro engenheiro o dr. Lúcio Amaral. A conclusão da obra se deu no ano seguinte (1892). No início do século XX, o Coronel Clementino de Holanda, proprietário da Fazenda Cangaty, mandou fixar uma passarela paralela aos tril-

Sabino Leitão foi o primeiro habitante desta terra (doada por D.

hos: um sólido tablado que viabilizava o trânsito de cavaleiros e

Pedro II) ao seu filho, Francisco Leitão. A família Leitão foi a re-

animais de grande utilidade à população, sobretudo no período in-

sponsável pela fundação da capela de São Félix. Hoje, esta igreja

vernoso, e que foi retirado posteriormente pela Rede Ferroviária

conserva ainda no interior de suas instalações o sepulcro do patri-

Federal Sociedade Anônima (Refesa).

arca daquela família, a qual até os dias de hoje reside no distrito e contribuiu fortemente para o seu desenvolvimento. A origem do

Não muito longe da linha férrea a cruzar o interior do distrito, fica a caixa d’água da antiga Rede de Viação Cearense, construída no ano de 1890, e cujo objetivo era abastecer as antigas locomotivas, as chamadas marias-fumaças, bombeando água do atual Rio Choró. Desativadas no começo do século XX, as locomotivas

nome Palmatória deu-se pela grande quantidade de uma planta rasteira característica daquela região, que assim se denominava.


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Uma Sanfona, Muitas Histórias

Toda manhã de domingo os vizinhos são acordados pelas notas da sua sanfona, a ressoar, alegres, a partir do seu trailer outrora apelidado de Riso da noite. Principal morador da Travessa Quixabeira, que guardou o ar interiorano ao escapar do asfalto a cobrir o pavimento romano da cidade, Lulu Maciel começou a tocar por pura diversão e, mais tarde, para atrair e entreter os clientes do seu pequeno bar hoje chamado Trailer do Lulu, para onde os apreciadores de um bom forró pé-de-serra acorrem cedo ou tarde. Batizado de Luiz Gonzaga Maciel (xará do Rei do Baião) e nascido em 1929, Lulu é natural da Serra dos Cajuás (do lado pertencente ao município de Capistrano), onde foi vendedor ambulante de tecidos, comerciante de algodão e agricultor, cultivando feijão e milho a fim de transportar e comercializar em Itapiúna, para onde se mudou na década de 1970. Interessado por música ainda jovem, aos 25 anos de idade ele se tornou pandeirista do sanfoneiro Chico Justino, de Pesqueiro, a quem passou a acompanhar pelas localidades da sua terra natal para animar festas e casamentos. “Foi a partir dessas viagens e apresentações que comecei a me interessar de verdade pelo mundo da música, e o Zequinha Campelo, a quem conheci em Itapiúna, me convenceu a comprar minha primeira sanfona, e que foi vendida por ele mesmo”, relembra Maciel.

De posse de instrumento próprio, Lulu continuou a tocar em festas do Capistrano e de outros municípios. Passou também a animar carnavais de Fortaleza, do Baturité e apresentações circenses como as do Circo do Garrido e do Artur Brandão, e criou a trilha sonora para palhaços e acrobatas, aumentando a atmosfera de suspense na plateia. Após deixar o picadeiro, ele se lançou a voos ainda mais altos, ao participar de cursos para compositor na Ordem dos Músicos de Fortaleza e começando a compor e a cantar suas próprias músicas (ainda não gravadas), dentre as quais se destacam Saudade de Milhã, Chora violão e Quebrei minha jura, quebrei. Além de sanfoneiro, compositor e cantor, Luiz Maciel continuou as atividades no comércio. Montou, então, um armarinho no centro de Itapiúna, ao qual se seguiu a construção de um trailer onde aos poucos se foram agrupando inúmeros músicos, profissionais ou amadores. Não à toa, ainda hoje o “Forró do Lulu” reúne, aos domingos, um grupo de sanfoneiros da nova e velha guarda itapiunense para beber e tocar: Tuca do Acordeon, José Maciel (irmão de Lulu), Raimundo Roque e Antônio Roque, Sales da Marizeira, Valdeci, Antônio Soares e Franciné Mundico. Hoje, aos 86 anos, Lulu é pai da jovem Maria José Maciel, 21 anos, também sanfoneira, tecladista, trianglista e zabumbeira desde os tempos de debutante. Afirma Maciel: Percebi que ela tinha inclinação para a música quando, ajudando no comércio durante as manhãs de domingo quando ocorriam os encontros musicais, ela me pedia para treinar a sanfona, e eu mesmo fui ensinando. Ela aprendeu rápido, gostei muito de ter alguém da família que se interessasse por isso, principalmente porque, dos cinco filhos homens que tive, nenhum apresentou vontade de aprender a tocar, mesmo eu incentivando e tendo comprado uma sanfona para eles.

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Única mulher sanfoneira a integrar o grupo do “Forró do Lulu”, Maria José foi muito bem aceita e passou a tocar em bandas musicais, a exemplo da Linda sereia do mar, montada pelo próprio Lulu, o qual é autor, hoje, de mais de 60 composições. A julgar pela sua disposição, é provável que ainda venha muito mais: “A sanfona, para mim, me deu muita alegria, foi um meio de vida e ainda hoje participa da minha vida diariamente, relembrando acontecimentos bons e ajudando a esquecer os ruins”, ressalta Maciel, para quem a alegria de viver não pode mesmo parar.

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Outro sanfoneiro de destaque em Itapiúna é Silvério Ferreira Neto, 80 anos, o qual sobressai não apenas pela carreira musical que conta com inúmeros discos gravados, mas também por um trabalho considerado ainda hoje motivo de admiração: homem de visão aguçada, ele foi o responsável pela empreitada corajosa de inaugurar o primeiro cinema da cidade. Natural da localidade de Poço da Tábua, Silvério começou na música por volta dos 16 anos, atuando como pandeirista do irmão sanfoneiro Raimundo Mundola, que gravou Promessa de São Francisco. Quando o irmão deixou a cidade para seguir um circo, Silvério estava começando a aprender a tocar sanfona, e, logo mais, engatou uma parceria com um cantor e tocador de banjo de nome José Augusto Santos, o Bozó, filho adotivo do repentista Aderaldo Ferreira de Araújo, o lendário cego Aderaldo. Silvério, entretanto, não sabia que o surgimento da dupla iria levá-lo muito além dos palcos improvisados em festas de São João e casamentos das redondezas. Isso estava ligado, em verdade, a uma aventura muito mais ousada e improvável: com o cansaço advindo das festas demoradas que o obrigavam a tocar até alta madrugada, ele foi incentivado pelo próprio parceiro na música a dedicar-se a um ramo menos cansativo e, ao mesmo tempo, atraente por ser inexplorado.

Tratava-se do fabuloso mundo do cinema, do qual José Augusto havia tomado conhecimento, segundo Silvério, por operar os equipamentos do cinema ambulante do Aderaldo, que tocava para a plateia fascinada ante a projeção de filmes mudos em preto e branco. Montar um cinema ambulante não era tarefa nada fácil naqueles tempos, começando pelo fato de ser essencial ter transporte próprio. Antes mesmo de vencer essa barreira com a aquisição de uma pickup Willys, porém, Silvério começou a comprar uma máquina de projeção (uma IEC 16mm) e outros equipamentos, já contando com um operador em audiovisual, Lincoln Vieira de Castro, responsável, mais tarde, pela instalação na cidade dos amplificadores a fazer o reclame dos filmes em cartaz. Quanto ao ex-companheiro de sanfona, por sua vez, coube-lhe deixar o cinema com tudo preparado para funcionar. A noite de estreia causou a sensação esperada. Enquanto muitos não conseguiam acreditar que a cidade havia ganhado um cinema de verdade, outros esperavam ansiosamente o momento com a mesma incredulidade. Ainda hoje, Silvério se recorda com riqueza de detalhes de um dos momentos que marcaram não só a sua vida, mas a do cotidiano de toda uma cidade: O local escolhido para a primeira projeção foi uma sala de aula da escola Demócrito Rocha, ao lado da Usina Antunes, que nos fornecia energia elétrica até um pouco além da hora costumeira de os motores serem desligados. Na ocasião, exibimos Tarzan e a mulher leopardo para uma sala lotada, arrebanhada pela publicidade boca a boca e também pelos chamados eventuais feitos no nosso amplificador.

Assim rememora Silvério, que logo cuidou de fazer exibições pelos distritos itapiunenses, lançando-se de vez à aventura do cinema itinerante – mais tarde, seu cinema chegaria a ter uma


sede própria em Itapiúna e, para as exibições em viagens, estendidas a inúmeros pontos do Ceará, ele iria adquirir seu próprio gerador de energia elétrica, acompanhado por uma trupe formada por um cozinheiro ocasional que virava vigilante durante as projeções, de um vendedor de ingressos e de um projetista. Com filmes tanto em cores quanto em preto e branco alugados à Distribuidora de Filmes Ltda., na Avenida Barão do Rio Branco, a ótima recepção do público conterrâneo levou Silvério a investir em títulos que atraíssem os espectadores, a exemplo de Coração de luto, sobre a vida do compositor Teixeirinha, e O ébrio, sobre Vicente Celestino, seus maiores sucessos de bilheteria. Do mesmo modo, para agradar o público, o revezamento de gêneros era respeitado a contento: aos de bang-bang (onde sobressaía o personagem Django) e karatê se seguiam os de drama mais açucarados, e assim o cinema ia passando a fazer parte do cotidiano da cidade como um momento em que a nem sempre agradável repetição do dia a dia era suspensa por momentos de intensa emoção através da tela mágica. Tal como a rotina como sanfoneiro, entretanto, a vida de Silvério no cinema ambulante também começaria a pesar, não apenas pelas dificuldades advindas de ser obrigado a dormir e a comer em estalagens e restaurantes nem sempre convidativos em lugares distantes, mas também por uma pressão externa, causada pela repetição dos títulos das películas a serem alugadas e pelo avanço da tecnologia: com a popularização dos televisores e, mais tarde, com a chegada do videocassete, a magia do cinema ambulante foi perdendo sua força, e, para muitos, sua própria razão de ser. Depois de fazer a última projeção do seu cinema, na Serra da Ibiapaba, com A morte comanda o cangaço, faroeste filmado em

Quixadá, Silvério considerou cumprida sua missão e, em virtude da sua personalidade inquieta, deu asas a novas ideias, voltando sua atenção para cuidar de uma fazenda. Atualmente, Silvério continua mantendo estúdio próprio montado por ele mesmo, onde grava baiões, sambas, choros, marchas e xotes, a maioria com temáticas nostálgicas ou de apelo religioso, a exemplo de O milagre de Nossa Senhora das Dores e Escadaria. Depois de lançar oito cds (o primeiro, Recordando os velhos tempos, foi há dez anos), ele se prepara para um novo álbum, ainda sem título, mas com todo o sentimento de quem não apenas sabe ver bem as coisas, como também é capaz de trazer os sonhos ao mais palpável do mundo físico.

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Os campinas repentistas

Em poucas famílias se percebe uma unidade espiritual tão visível quanto na de Luís Antônio Germano, ou melhor, Luís Campina, nascido em 1927 em Lagoas do Juazeiro e repentista há mais de quatro décadas. Filho de Antônio Francisco Germano e Maria Germano, também naturais de Lagoas, quando criança ele quis ser praça, soldado, mas, logo ao descobrir sobre a hierarquia existente no Exército, achou melhor desistir da profissão e, por ter o costume de admirar os cantadores de sua localidade ou outros parentes que compunham versos (a exemplo do avô), decidiu-se pela atividade artística, ainda aos 10 anos de idade. Embora sua mãe o tenha incentivado, o pai não aceitou muito bem a inclinação para a cantoria, por julgar “coisa de malandro”, como explica o repentista: Comprei meu primeiro violão por oitenta mil-réis, mesmo contra a vontade de meu pai. Já cheguei em casa ouvindo as reclamações dele, que não queria deixar o violão entrar na residência, até que a mamãe falou: “Meu filho, entre, que eu acho bonito”! A esse tempo, um compadre lá de casa começou a me desafiar, dizendo que eu não dava para o versejo. Então falei que ia comprar paletó, chapéu e sapato bom, e que eu iria cantar mesmo sem ser cantador. Muito tempo depois, quando as pessoas reconheceram o meu trabalho, ele acabou por me dar razão, e, por ironia, ainda acabei me casando com a filha dele, que conheci numa cantoria feita por mim, com quem vivo até hoje.

Pouco depois de comprar a primeira viola, Luís passou a percorrer as residências de Lagoas do Juazeiro (frequentava sobretudo as casas de Raimundo Firmino, Firmino Alves e Gonzaga Bento), onde fazia versos de improviso, e, à medida que sua fama crescia e se estendia para além da terra natal, fazendeiros de localidades mais distantes começaram a convidá-lo para animar terços de São João, novenas, noivados e leilões nas regiões de Baturité, Quixadá e Vale do Jaguaribe, dentre outras. Desse modo, ele percorria lugares de nomes pitorescos como Bananeira, Jordão, Gameleira, Barra da Palha, Fundões, Balança, Lameirão, Barra do Leão, Vargem da Abelha, Jacaré, Russim, Vargem da Onça, Vargem Queimada, Jucá, Lagoa Grande, Tamanca, Passagem Funda, Furnas, Aroeiras, Sereno... Nas visitas às famílias abastadas (a maioria proprietária de fazendas de gado ou algodão), as colaborações recebidas por seu trabalho lhe permitiam andar sempre na moda, com um par de sandálias maria-bonita novinho, o inseparável chapéu, camisas à americana com suspensórios e calças sempre muito bem engomadas. – Os tecidos eram comprados na loja do Firmo, em prédio posteriormente pertencente ao Francisco Horácio, que igualmente viria a comercializar produtos têxteis ali, na atual Rua Rufino Barros, em Itapiúna. Luís também fazia questão de andar perfumado de Parisiana e Casablanca (fragrâncias que marcaram toda uma época), sempre usando emblemáticos anéis e cordões de ouro. Não demorou muito, além dos gastos com a aparência pôde passar a investir na compra de ovinos e caprinos, constituindo o próprio rebanho de

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ovelhas. E se o pagamento dos ouvintes não vinha como desejado, havia jeito de mudar a situação, por meio de versos satíricos: Eu já cantei esse romance Mas cantei na Bananeira Lá eu cantei de graça No sorriso, na moleza Se hoje eu cantar de novo Desgraço a cabeça inteira

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Se eu disser que pagou de brincadeira Não é brincadeira não Esse aqui me pagando Eu estou com precisão Eu quero comprar uma rede Pois estou dormindo no chão Quem pagou com atenção Pagou porque gosta de pagar Agora falta aquele E falta aquele acolá Mas Campina está com pena Do restinho que ficou lá... Mesmo se dedicando à vida artística, Luís continuou a trabalhar na plantação da família (embora, de vez em quando, pagasse algum dos seus irmãos para cuidar da sua parte no roçado). O pai, por sua vez, foi aos poucos aceitando suas aptidões para a cantoria, e deu-lhe permissão para viajar a fim de participar,

com toda a desenvoltura, em festivais de programas da Rádio Assunção, em Fortaleza. (Ressalte-se que não apenas o talento de Luís o faria conhecido, mas também suas aptidões para rezador e para a arte da quiromancia, a respeito da qual ele garante: “A palma da mão é como um livro”). Mais tarde, doze anos depois de Luís ter começado a cantar, seu pai teve de aceitar também a entrada de mais um filho para esse universo, João, que viria a fazer um profícuo dueto com o irmão Luís, a ponto de torná-los conhecidos como “Os irmãos Campina” ou “Os Campinas fora da gaiola”, que alegraram muitas famílias e fizeram, com sua passagem nestes e noutros sertões, a vida do homem do campo um pouco menos dorida. Filho de Luís Campina, Antônio Germano Neto faz parte da mais nova geração de repentistas da família. Nascido em 1954 em Lagoas do Juazeiro, Antônio é poeta e professor, mister que o deixa visivelmente orgulhoso, e, no seu caso, por um motivo bastante peculiar. Analfabeto até os 30 anos de idade (por não haver escolas de ensino fundamental em sua localidade, segundo conta), ele casou-se muito cedo e somente depois de constituir família resolveu recuperar o tempo perdido. “Não foi uma decisão fácil. As pessoas diziam que eu ia ser um bobo na escola, pois papagaio velho não aprende a falar”, rememora. Mesmo ridicularizado, ele decidiu seguir em frente: “Aprendi a ler, a escrever, a contar e a ser gente, pois nem sempre o ser humano é gente. Ele tem que aprender a ser gente para viver em meio à sociedade”, ressalta. Assim, aos 30 anos ele ingressou no antigo Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), programa de alfabetização de adultos.


Depois de oito anos de estudo, Antônio participou de um concurso da Prefitura Municipal para trabalhar com alfabetização de crianças, em uma época na qual Lagoas já havia ganhado uma escola de ensino fundamental, e foi aprovado: A partir daí é que comecei a ensinar e a aprender ao mesmo tempo, e posso dizer que também aprendi a ensinar. Comecei a produzir várias dinâmicas para a sala de aula, que eu mesmo compunha, levando a viola para dar aula. No começo, também fui muito criticado, pois as pessoas diziam que as crianças não iriam aprender nada com aquela cantoria.

Antônio Campina rememora que, com apoio da direção da escola, passou a criar seu próprio método de ensino, a saber: Para aprender a ler Você precisa conhecer Como são as vogais Do a até o z

E agora diferente Conheça o B a bá Se você não conhece Precisa soletrar [...] Como professor do ensino fundamental, Antônio também ficou conhecido por voltar-se para a localidade de origem com um olhar ainda mais aguçado, despertando nos alunos um cuidado maior para com o ambiente em que viviam. Ele passou, então, a catalogar a história local (e até mesmo a criar um mapa de Lagoas do Juazeiro), conforme relata: Esse lugar se chama Lagoas porque temos aqui a Lagoa do Mel, a Lagoa dos Bois, a Lagoa do Seu Rufino, a Lagoa dos Campinas, a Lagoa do Arroz, a Lagoa do Tanque, a Lagoa do Caminho e a Lagoa do Cercado. Lagoas era uma região pequena, com poucos moradores que viviam da pesca, da caça, da roça e que foram se povoando a partir de três famílias iniciais: Germano, Freitas e Tristão. A seguir, vieram os Alves, os Barros, e o lugar foi aumentando...

A,b,c,d, E,f,g,h, I,j,l, M, n,o, p, q, R, s, t, u, V, x, z

Tendo levado a viola para dentro da sala de aula, Campina é rápido em explicar sua inclinação para a música:

É assim que a gente aprende É assim que a gente aprende A ler e escrever

Estas são as palavras do poeta, que resume com maestria a saga dos seus ancestrais:

Essa tradição da família vem do avô do meu pai, Xavier Germano, violeiro que morava no Rio Grande do Norte. Aqui no Ceará, meu pai começou a cantar, já estava na veia, o irmão dele o acompanhou por muito tempo e, além disso, muitas outras pessoas da família também se interessaram.

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Os Campinas são poetas Descentes nordestinos Desde os tempos de menino Passando em passagem direta Mesmo na linha secreta Eu preciso lhe falar Você pode me escutar Que eu canto satisfeito Que campina desse jeito Só existe no Ceará!

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Anexos

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Zequinha | 59/62-71/72

Valdemar Antunes | 63/66-73/76

Joãozinho | 67/70

Zé Nilton | 77/82-89/92

Dr. Joaquim | 83/88-93/96

Junior Lopes | 1997/2000-01/04


Junior Lopes | 1997/2000-01/04

Wauston | 2013/2016

1ª parlamentar | 67/70

1ª Parlamentar

Pedro Uchôa & Junior Lopes

Comemoração. 1ª eleição

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Vista Aerea 83

Matadouro

Ambulância

Antiga praça São Cristovão

Posse 2ª eleição

Igreja Matriz


Viaduto João Rosa

Maestro Jairo.Banda.N.S.Conceição

1969

1969

Inauguração HM

Jornal

129


130

Tribunal do Juri

Igreja Itans 1942

3.15 doc

3.15 Doc

3.15 Doc

3.15 Doc


3.15 Doc

3.15 doc

Inauguração Luz

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RELAÇÃO DE VEREADORES, PRFEITOS E VICE-PREFEITOS LEGISLATURA PERÍODO

LEGISLATURA PERÍODO

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NOME 1. Edmundo Araújo Freitas 2. Francisco Edvaldo de Oliveira 3. Isaías Pimentel de Oliveira 1959 a 1962 4. Pompílio de Assis Pereira 5. José Pereira Matos 6. Manuel Francelino de Oliveira Filho 7. Silvério Ferreira Neto 1959 José Pereira Matos 1960 Isaías Pimentel de Oliveira 1961 Silvério Ferreira Neto 1959 a 1962 José Bezerra Campelo Edmilson Silveira Viana

CARGO Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador 1º Presidente 2º Presidente 3º Presidente 1º Prefeito Vice-prefeito

NOME 1. Edmundo Araújo Freitas 2. José Cordeiro Lima 3. Pedro Oliveira Lima 4. José Augusto de Araújo 1967 a 1970 5. José Evanildo Cunha 6. José aria Fernandes e Silva 7. Francisco de Assis Rodrigues 1 67 Jose Maria Fernandes e Silva 1 6 José Cordeiro Lima 1967 a 1970 João Antunes Pereira Filho Oscar Carlos de Oliveira

LEGISLATURA PERÍODO

LEGISLATURA PERÍODO

NOME 1. Edmundo Araújo Freitas 2. José Cordeiro Lima 3. Luiz Lima Lopes 4. José Augusto de Araújo 1963 a 1966 5. Francisco Ferreira de Castro 6. José Maria de Oliveira 7. Manuel Oliveira Lima 8. Francisco de Assis Rodrigues 1963 Edmundo Araújo Freitas 1965 José Cordeiro Lima 1963 a 1966 Valdemar Antunes Freitas Francisco Martins Filho

CARGO Vereador Vereador Vereador Vereador Faleceu Vereador Vereador substituto 4º Presidente 5º Presidente 2º Prefeito Vice-prefeito

ª

1971 a 197

NOME 1. Edmundo Araújo Freitas 2. Osvaldo Gon alves de Carvalho 3. Pedro Oliveira Lima 4. Elie er Fernandes de ene es 5. José Evanildo Cunha 6. José aria Fernandes e Silva 7. Francisco de Assis Rodrigues Jose vanildo Cunha Jose e erra Cam elo José Au usto de Ara o

CARGO Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador 6 Presidente 7 Presidente 3 Pre eito Vice-pre eito

CARGO Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador 7 Presidente 4 Pre eito Vice-pre eito


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LEGISLATURA PERÍODO

NOME 1. Antônio Felix de Sousa 2. João do Carmo da Silva 3. José Estelita de Aquino 4. Francisco Tadeu Paz Araújo 1973 a 1976 5. Antônio Gondim Sobrinho 6. José aria Fernandes e Silva 7. José Au usto de Araújo 1 73 Antonio Félix de Sousa 1 75 Antonio Gondim Sobrinho 1973 a 1976 Valdemar Antunes Freitas Humberto de Sousa Barros

LEGISLATURA PERÍODO

1977 a 19 6ª 1 77 1 7 1977 a 19

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7.

NOME Antônio Felix de Sousa João do Carmo da Silva Raimundo atista eite Francisco Tadeu Paz Araújo arciso Guedes de Almeida ilton Oliveira ima Raimundo ima opes aimundo ima o es o o do armo da Sil a osé Gon al es onteiro osé Au usto de Ara o

CARGO Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador 8 Presidente Presidente 5 Pre eito Vice-pre eito

CARGO Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Presidente 10 Presidente 6 Pre eito Vice-pre eito

LEGISLATURA PERÍODO

NOME CARGO 1. Carlos Alberto Bezerra Vereador 2. João do Carmo da Silva Vereador 3. Oscar Moreira Dantas Vereador 4. Odilon de Oliveira Vereador 1983 a 1988 5. Narciso Guedes de Almeida Vereador 6. Francisco das C a as d ima Freitas Vereador 7. Cosme Rodri ues Viana Vereador 1 83 Francisco das Chagas de Lima Freitas 11 Presidente 1 85 Oscar Moreira Dantas 12 Presidente 1 87 João do Carmo da Silva 13 Presidente 1983 a 1988 Joaquim Clementino Ferreira 7 Pre eito Raimundo Lima Lopes Vice-pre eito

LEGISLATURA PERÍODO

1989 a 199

1 8 1 0 1989 a 199

NOME CARGO Carlos Alberto Bezerra Vereador João do Carmo da Silva Vereador Oscar Moreira Dantas Vereador Odilon de Oliveira Vereador Narciso Guedes de Almeida Vereador Francisco das C a as d ima Freitas Vereador Raimundo Martins Neto Vereador Francisco Evaldo eite Pereira Vereador . Marcilio C sar Teixeira de Azevedo Vereador 10. Francisco Sales Vidal Vereador 11. Claudionor Fernandes Fil o Vereador Francisco das Chagas de Lima Freitas 14 Presidente Oscar Moreira Dantas 15 Presidente Jos on alves Monteiro 8 Pre eito Francisco Mard nio Salmito d lmeida Vice-pre eito

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8.

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LEGISLATURA PERÍODO

LEGISLATURA PERÍODO

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NOME Carlos Alberto Bezerra João do Carmo da Silva Oscar Moreira Dantas Dárdano Nunes de Melo Francisco Antônio Dias Francisco F lix Carneiro Francisco Flavio de Menezes Mauricio Bernardino de Sousa . Raimundo opes Junior 10. Francisco Sales Vidal 11. Claudionor Fernandes Fil o 1 3 Carlos Alberto Bezerra 1 5 Claudionor Fernandes Filho 1993 a 1996 Joaquim Clementino Ferreira Luiz Rodrigues Bezerra

1. 2. 3. 4. 5. 6. 1993 a 1996 7. 8.

LEGISLATURA PERÍODO

1 ª

199

1 Jan/ 1 199

CARGO Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador 18 Presidente 1 Presidente Pre eito Vice-pre eito

NOME CARGO Carlos Alberto Bezerra Vereador Claudia Re ane Almeida Maciel Vereadora Oscar Moreira Dantas Vereador Francisco Válber Freitas Matos Vereador Francisco Antônio Dias Vereador Francisco Áureo Cordeiro Vereador a Maria Aurineide Gon alves Ribeiro Vereadora Marcilio C sar Teixeira de Azevedo Vereador . Odilon de Oliveira Substituo 10. Francisco Sales Vidal Vereador 11. Antonio de Matos Sobrin o Vereador Fran is o ilberto Leite Barros In memorium 7 Claudia Re ane Almeida a iel 20 Presidente ev/1 Fran is o ilberto Leite Barros 21 Presidente a 2000 s ar oreira antas 22 Presidente a Raimundo Lo es J nior 10 Pre eito Vice-pre eito 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8.

11ª

CARGO Vereador Vereador Vereador Renunciou em 10/2004 5. Francisco Antônio Dias Vereador 2001 a 2004 6. Francisco Áureo Cordeiro Vereador 7. Maria Aurineide Gon al es Ribeiro Vereadora 8. Francisco Alberto eite Barros Vereador . Mauricio Bernardino de Sousa Vereador 10. Edimar Martins da Cun a Substituta 11. Antônio de Matos Sobrin o Vereador 12. Cláudio C sar Mendes Mesquita Assumiu em 06/10/2004 Francisco Sales Vidal In memoria Francisco Áureo Cordeiro 23 Presidente Raimundo Lopes Júnior 11 Pre eito Pedro Uchoa de Albuquerque Filho Vice-pre eito

LEGISLATURA PERÍODO

12ª

200

a 200

200 200 200

a 200 a 200 a 200

1. 2. 3. 4.

NOME Carlos Alberto Bezerra Francisco Roque Pereira Oscar Moreira Dantas Francisco Emilio Campelo Freitas

NOME CARGO 1. Carlos Alberto Bezerra – perdeu o mandato em a osto de 2008 – por decisão da usti a Eleitoral – assumindo Vereador Francisco Alberto eite Barros – recorreu e oi reconduzido. Perdeu em de initi o em dezembro/2008 2. Francisco Roque Pereira Vereador 3. Francisco Moreira ima Vereador 4. Cláudio C sar Mendes Mesquita Vereador 5. Francisco Antônio Dias Vereador 6. Francisco Áureo Cordeiro Vereador 7. Mauricio Bernardino de Sousa Vereador 8. Edimar Martins da Cun a Vereadora . Antônio de Matos Sobrin o Vereador Cl udio C sar endes esqui a 24 Presidente Cl udio C sar endes esqui a Felisber o Clemen ino Ferreira 12 Pre eito Jos onald Sousa arinho Vice-Pre eito


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LEGISLATURA PERÍODO

13ª

NOME CARGO Claudionor Fernandes Filho Vereador David Ferreira Távora Vereador Edimar Martins da Cunha Faleceu em 04/04/2009, assumindo Vereadora Francisco Antônio Dias Francisco Alberto Leite Barros Filho Vereador 2009 a 2012 Francisco Áureo Cordeiro Perdeu o mandato por decisão da Justiça Vereador Eleitoral em Junho de 2012 – Assumindo o suplente Valdeci Araújo Freitas Francisco Moreira Lima – Tirou licença para assumir car o de Secretario em abril a outubro de 2010 – assumindo nesse Vereador per odo Valdeci Araújo Freitas Francisco Ro ue Pereira Vereador Mauricio Bernardino de Sousa Vereador Paulo Roberto Soares Vereador 2009 a 2012 Mauricio Bernardino de Sousa 25 Presidente 2009 a 2012 Felisberto Clementino Ferreira 12 Pre eito Atila Martins de Medeiros Vice-Pre eito

LEGISLATURA PERÍODO

1 ª

NOME Antônio Valberto Freitas Claudia Maria Freitas da Silva Eri a Medeiros Mendes Francisco Alberto Leite Barros Filho Francisco Ro ue Pereira 2013 a 201 Jos Airton Gomes de Oliveira Jos Edinardo Be erra Mendes Marcio Jos Araújo de Sou a Mauricio Bernardino de Sousa Paulo Roberto Soares Valdeci Araújo Freitas 2013 a 201 Mauricio Bernardino de Sousa 201 A 201 Claudia Maria Freitas da Silva 2013 a 201 ui Ca alcante de Freitas a ael Sil eira o es

CARGO Vereador Vereadora Vereadora Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador Vereador 26 Presidente 27 Presidente 13 Pre eito Vice-Pre eito

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CURRÍCULO Jacques Martins Antunes O fotógrafo é um dos vencedores do Prêmio Nacional de Fotografia sobre Aleitamento Materno (1984) e do Salão de Abril (1988). Participou da exposição RETRATOS DO POVO BRASILEIRO, coletiva realizada no MASP em São Paulo. Em 2005, foi contemplado com o prêmio do edital de fotografia da Secult, com o projeto “Patrimônio Arquitetônico de Viçosa – Educando Pela Fotografia”, edição de um CD multimídia sobre a história do município de Viçosa do Ceará, tombado pelo Iphan como patrimônio mundial. Em 2006, a convite da Universidade de Coimbra, abriu em Portugal, com a mostra fotográfica “ De Mar a Mar - Olhares Sobre A Jangada”, uma coletânea sobre os universos da jangada. Parte do Ano Alencarino, um conjunto de ações da Universidade de Coimbra em homenagem ao escritor cearense José de Alencar. Ainda em 2006, foi agraciado com o prêmio do edital das artes da FUNCET apresentando como produto final um DVD com imagens, música e textos sobre circos. Lançou em 2009 o livro “CIRCO – ETERNO TRÁFEGO DE VIDA E SONHO”, composto de textos e fotografias, resultado de pesquisa realizada durante

03 anos nos Circos de pequeno e médio porte que circulam pelos bairros de Fortaleza. Participou da Publicação da Secretaria da Cultura MEMÓRIAS DO CAMINHO, registro das manifestações culturais das macro regiões Regiões do Estado do Ceará. Em 2010 participou da publicação “BEM VINDO AO REINO DO LOURO E DA PEIXADA”, um painel de histórias e fotografias sobre a famosa peixada do açude Lima Campos no município de Icó/Ce, editada pelo IPHAN sob a Coordenação do Programa Monumenta. Fotógrafo do Projeto PATRIMÔNIO PARA TODOS, realizado em 2013 pela Escola de Artes e Ofícios Thomáz Pompeu em Fortaleza e mais 08 cidades, tendo como produto uma exposição e uma publicação literária Jacques Martins Antunes/CNPJ-10.478.386/0001-03 / Fone: (85) 99985.1929 * jaxantunes@gmail.com

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