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// expedinte // Corpo Editorial: Igor Anjos Sidney Summers Diagramação: Igor Anjos Ilustração: Bárbara Gesteira Enio Saldanha Flávia Araujo (Uma Pica Redentora | Os Dias Quentes se Arrastam Mornos III) Igor Anjos Contribuem nesta edição: Gabriel Revlon – Poemas Hilton Leal – Contos Mariana Paim – Poemas Patrício Freitas – Poemas Sidney Summers – Contos

Contato: revistaevoe@gmail.com Salvador - BA


// // editorial A revista evoé, como o próprio nome sugere, saudação dionisíaca, pretende um devorar orgiástico, perseguição ao staphylodromoi do engenho humano. Um “corpus constructo” romântico o suficiente para acreditar no poder da literatura, necessariamente imaturo para tentar ser revista literária. Coisa despretensiosa pretensão em demasia.

por

ter


// Igor Anjos //


S I D N E Y SUMMERS contos // // // // // // // //// // // //// // / / / / // // // ////


//uma pica redentora//

Transformar o rotineiro tédio em melodia. Talvez eu compusesse uma marcha fúnebre para os dias que me escorriam como a areia da ampulheta que não tenho. Dentre o que me falta... A ampulheta é o de menos. Apenas um sonho pueril inútil há muito deixado para trás, mas nunca esquecido por completo. Não sei onde tantos anseios e desejos não alcançados poderiam habitar numa criatura tão magra. Em que lugar do meu corpo eles se escondem? Entre meus devaneios percebi que estava mais magro, um pouco mais a cada dia, era inegável. A olhos vistos, o estomago famélico decompunha minha carne para me fazer viver protelando a inevitável morte por inanição, isto é, se eu não voltasse logo a fazer refeições normais. Não era a primeira vez que eu passava por isso. Minha refeição diária consistia numa barra de cereais, foi tudo o que tive nas duas ultimas semanas. Exatamente uma barra de cereal por dia, nada mais. Comê-la havia se tornado parte de um ritual. Eu mantinha uma expectativa enorme até a chegada do glorioso momento em que minhas papilas gustativas provariam algo mais que a saliva e o amargo da bílis. A noite, antes de apagar, eu saboreava aquele retângulo saboroso que me dava a força suficiente para cair na cama exausto e conseguir dormir. Eu sabia de cor todas as suas texturas e me tornei especialista em reconhecer as nuances de cada possibilidade de sabor. Foi nessa época, e não quando eu costumava tomar dezenas de blotters de LSD semanais, que eu descobri o verdadeiro significado de uma alucinação. A soma dos meus recursos, que obtinha vendendo aos poucos o que me sobrava, não ultrapassava a possibilidade de gasto maior que R$1,50


//evoé// diário. Uma bala de um centavo a mais e meu orçamento estaria fatalmente arruinado. Dessa vez eu tinha tempo. Mas nada mais além disso. O que o tornava mais uma coisa inútil dentre tantas inutilidades que me cercavam. Decidi aproveitar meu tempo dando voltas e mais voltas no supermercado, enchendo o carrinho de compras que eu não compraria, que eram apenas mais um sonho, e comendo uvas, ameixas e o que mais me ofertassem gratuitamente enquanto acreditassem que eu era um comprador. Valia a pena, a energia gasta nessa atividade era menor do que a saciedade alimentar obtida. E um pouco do tempo que eu tinha de sobra era gasto também. Não arriscava voltar ao mesmo mercado por, ao menos, uma semana. Houve um tempo em que eu tinha alguma grana de sobra. O tempo em que eu me chapava com LSD, MdMa, ecstasy, speed, DMT e qualquer outra droga sintética que me chegasse na mão. Eu as revendia pelo dobro ou triplo do preço do que as comprava e as consumia até o limite do suportável. Os três primeiros meses foram maravilhosos, lucros extraordinários e fáceis numa realidade paralela fantástica e constante. Depois tudo que consegui foi me tornar uma criatura histérica e neurótica que delirava todo o tempo e que não conseguia se comunicar com qualquer outro ser pensante que não outro drogado delirante. Uma via de acesso às verdades últimas, eu tinha certeza. Um louco qualquer, segundo todo o resto do mundo. No caminho de volta do mercado para casa, eu aproveitava a distancia da longa caminhada como um exercício físico. Encontrei uma pessoa com quem já dividi um emprego. No meu caso era um emprego, no dela... Era menos torturante, ela pagava uma pena alternativa por ter espancado sua vizinha idosa por um motivo banal, sem grande importância até para os mais impacientes. Tínhamos o mesmo cargo. Conversamos parte do caminho de volta, acompanhei-a até sua casa. Não havia nada de melhor para eu fazer. Achei justo desperdiçar umas horas do meu dia em um papo raso. Era mais atividade física, mais saúde para o corpo. Para o cérebro, nem tanto. O tempo havia sido duro com Hermínia. Não que ela fosse bela, talvez há uns quarenta anos quando seu corpo flácido fora rijo, quando sua 8


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//evoé// carne fora firme e sua boceta um lugar mais confortável para pôr a pica. Mas hoje... Uma múmia era mais atraente que ela. Não me surpreendi quando ela me puxou pelos braços para que eu entrasse. Até os arranhou com suas unhas longas e fora de moda, eram as garras afiadas de uma predadora que tentava devorar sua presa. Escapei. Mas aceitei o convite para almoçar “qualquer dia desses”. Não havia como negar uma proposta dessas... Despensa vazia, estômago vazio, bolso vazio e, em contrapartida, uma boceta vazia, com ânsia em ser preenchida, disposta a mudar o vácuo que me ocupava em todos os aspectos. Obviamente eu estaria de volta no dia seguinte. Bati na sua porta. Estava decidido que o sexo não aconteceria. Não aconteceria mesmo se eu quisesse. Ter uma ereção sem o auxilio de um bom filme pornô, ou uma das suas netas rebolando no mesmo cômodo, ou sem a ajuda da ciência, ou das drogas que alteram a libido e a percepção, era uma missão impossível. Eu já passei da idade de me lançar heroicamente numa batalha previamente perdida. Eu não tentaria foder aquele rabo mole e pelancudo mesmo que ela me ofertasse outra refeição no dia seguinte. Ela abriu a porta deixando escapar um forte cheiro exageradamente doce que exalava dos seus cabelos empapados e cremosos e que se misturava ao fino aroma de mofo do seu lar. Eu poderia servir como encanador, lavar seus pratos, consertar seu chuveiro, limpar sua pia, dar um jeito na descarga, qualquer coisa que não trocar o óleo da velha. Eu sabia que tudo tinha seu preço. Mas para Hermínia as coisas se passavam de um modo diferente. Nem bem eu tinha terminado a ultima garfada do nhoque, como ela chamava um montinho cozido de batata amassada misturado a farinha, ela abriu o zíper da sua roupa, que começava no pescoço e terminava pouco acima do joelho, num só golpe. Um preciso movimento samurai. Seu soutien era branco encardido e a sua calcinha era vermelha como o fogo que ela devia ter quando tinha uma vida sexual ativa, quando tinha um corpo atrativo em meados do século passado. Ela retira suas roupas intimas em vãs tentativas de sensualidade, devassa seus seios murchos que rolam sobre seu ventre amolecido como uma gelatina vencida. Expõe suas cicatrizes. Eram do tipo que qualquer homem teria medo de perguntar 10


//número 1// como foram conseguidas. Ela me olha nos olhos, insensível, sem respeito pelo meu pavor, e retira sua calcinha vermelha pouco a pouco antes de jogá-la para o alto. Foi o suficiente para tornar o ambiente ainda mais insuportável, pois da sua xereca se desprendia um ar de podridão que impregnava tudo. Com certeza ela guardara um peixe podre nas suas partes íntimas. Aquele era o preço de um dia eu ter me tornado homem, mais que o preço próprio da refeição. Não havia escapatória. Antes contrair uma DST fatal do que ter propalava a fama de veado. Tirei minha roupa exibindo minha pica mole acima do meu bago normal e meu bago imenso e deformado. Se ela se assustasse eu teria uma chance. Mas dona Hermínia estava sedenta. Tão sedenta de sexo quanto um guerreiro bárbaro estaria sedento de sangue durante uma batalha. Ela acariciava minha caceta mole com sua gengiva dura após colocar a dentadura no copo em que eu tomava suco em pó durante a refeição quando sua porta foi aberta com um estrondo. Mais tarde soube que meu salvador, ou nem tanto, se chamava Carlão. Carlão não queria saber de nada. Colocou sua pica para fora disposto a enrabar qualquer coisa que cruzasse a sua frente. Fiquei imaginando, depois, quantas bananeiras, cadelas e prostitutas ela havia violentado antes de chegar a casa da vovó Hermínia. Dessa vez ela conseguiu, eu havia sido preso por seus tentáculos pegajosos e não conseguia me mover. Carlão se aproximava em rota de colisão ao meu corpo nu. Dona Hermínia me agarrava com todas as forças, suas unhas bregas cravadas mais de um centímetro na minha carne. Para ela era uma questão de sobrevivência. Ela sabia o estrago que o Carlão era capaz de provocar até na mais folgada das bocetas. Eu gritei quando Carlão meteu em mim por trás. Um berro animalesco que deve ter sido ouvido por metade do globo terrestre. Eu nunca tinha dado o meu cu e estava sendo arrombado por uma tora de um cavalo maníaco e assassino. O sangue que jorrava do meu ânus deve ter feito manchas na parede das casas vizinhas. Ou as pintado com alguma coisa que se parecesse com isso que chamam de “arte contemporânea”. De qualquer forma vejo que Carlão foi o meu salvador. Com ele estimulando 11


//evoé// minha próstata, tive uma ereção espontânea e involuntária que me fez vingar meu rabo arregaçado com a atitude na boceta da velha. Eu a torturava com tapas na cara enrugada e desdentada e com uma piroca dura como rocha que martelava seu útero murcho enquanto um amontoado de peles que outrora foram chamados de seios chacoalhavam ao lado do seu corpo, ela urrava de dor e prazer. Entretanto, foi demais para a velha. Ela morreu, antes que eu gozasse, no exato momento que relembrava, sentindo um homem no corpo, o que era um orgasmo. Já Carlão... Molhou meus intestinos com sua papa branca e saiu sujo de merda sem dar uma palavra. Era um animal insaciável que bateria na porta de outra criatura carente e despejaria mais do seu infinito sêmen no interior de algum corpo. Do mesmo jeito, sem palavras. Imagino. Ninguém soube da história. Permaneço um homem de reputação ilibada.

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//os dias quentes se arrastam mornos III//

Tentei três socos na cara dele. Errei os três. Minha especialidade era cruzado, direto e cruzado; mas apostei no direto, cruzado e direto. Foi o tempo em que ele deixou que a mochila caísse no chão. Eu estava perto e ele era mais alto. A vantagem era minha. Passei por baixo do seu braço quando ele tentou me golpear e grudei nas costas dele. Se o tempo em que treinei boxe, muay thai e jiu-jitsu tiveram alguma utilidade, ela seria comprovada agora. Tiveram. Folguei um pouco os braços e deixei que ele se virasse. Ele obviamente tentou acertar minha cabeça. Me abaixei e o agarrei pelas pernas. Eu já havia visto o pequeno precipício atrás de nós. Caímos juntos. Fui convidado para posar numas fotografias artísticas. Sempre desconfio dessas coisas, mas aceitei. Tenho um bom coração. Em pouco tempo estávamos todos nus. O ar condicionado estava ligado, mas o calor se alastrava por tudo, todo o meu corpo. Os fotógrafos também tiraram a roupa. Alguns deles começaram a se beijar e a se masturbar. Jovens artistas(?)... Sempre libidinosos. Uma das fotógrafas tirou a roupa. Mas sequer consegui olhar. O homem que estava ao seu lado era ao menos três vezes maior que eu. Em altura e largura. Seu pau era três vezes maior que o meu também. Eu já estava alto de vinho. Talvez tivessem colocado algo mais na garrafa. Estava bom. Eu não tinha do que reclamar. Começamos com as fotos e eu fiquei de pau duro. Ela beijou meu pescoço. Sua boca brilhava como a luz refletida num rio. Um rio vermelho, de sangue, de


//evoé// menstruação. E tinha uma textura sedosa que aliviou a temperatura daquele forno. Peguei ela de jeito por trás. Não ouvi os clics. Os fotógrafos não deixaram de se masturbar. Mesmo assim não perderam nenhum lance. Eles deviam ter prática naquelas coisas. Tudo pela arte. Os ideais ampliam nossos limites. As fotos ficaram ótimas. Esses caras eram mesmo profissionais. E tudo parecia tão natural, como se não fossemos personagens que interpretávamos papeis bem estabelecidos previamente. Todas ali no computador à minha frente. Vesti a roupa e sai com a modelo. Fodemos de novo. Entre quatro paredes dessa vez. Não queria o risco de alguém enfiar o dedo médio na minha bunda. Ou coisas maiores, quem sabe? Voces que estão lendo e já participaram de uma orgia sabem do que estou falando. Passei semanas por ai. Mostrando as fotos quando as tinha em papel. Eram fotos de pureza e inocência. E a vida seguiu normal. Um trabalho de merda que enche o saco, mas que garante uma grana, salvadora quando chega. Umas bebedeiras com os amigos. Umas fodas gostosas, outras nem tanto. E a solidão que chegava de surpresa, às vezes. Os cães acasalam e ficam com os corpos grudados chafurdando em montes de excremento, as gatas gemem e berram debaixo de carros nas ruas. Até as plantinhas curtem uma sacanagem com os insetinhos que voam com as patinhas carregadas de pólen. Tudo é natural. A igreja censura, mas essa galera não é natural. Nem humana. A menina com quem fotografei se chama Carla. Ou talvez, se chame Débora. A filosofia deveria ter uma máxima assim: Sacanagem é bom e foder é gostoso. Era uma noite quente em que eu estava me masturbando. Café me dá insônia. Em compensação, a madrugada é o melhor período do dia para ler. Afinal, são silenciosas. Gozei e me limpei numa cueca suja que achei no chão. Knut Hamsun é um cara interessante. Aconselho a leitura dele a todos. Anotem esse nome ai. Pesquisem no Google e nas livrarias. Vale à pena. É um bom conselho. Não vem de graça. Não esqueça que voce pagou por essa porra de livro. Estava com ele, página 117 quando o telefone toca. “Vou matar voce” – me disse. “Tudo bem” – respondi e voltei à leitura. Deixei meu telefone sem som e programei para que também não vibrasse. Continuei a leitura e dormi. Ao acordar percebi 14


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//evoé// que estava atrasado para o trabalho. Eu já era cozinheiro nessa época. Enquanto dormia, meu telefone contabilizou 59 ligações não atendidas. Algum idiota havia perdido a noite tentando me ameaçar. Ou chupar minha piroca. As ligações continuaram e eu passei a me divertir com aquilo. Estava na hora do almoço e a voz me dizia, “Vou partir voce ao meio” e eu respondia, “Voce só vai comer o cachorro quente depois de abocanhar minha salsicha”. Outras vezes era mais sutil e delicada, normalmente à tarde, horizonte enferrujado, e falava “eu sei onde voce está” e eu respondia “pagando pra comer a sua mãe”. Não me surpreendia como alguém poderia ser idiota a esse ponto. O mundo ta cheio dessa gente. E a rotina continuou: os amigos, as fodas esporádicas, as fodas fixas, a cerveja e um pouco de solidão. Passaram-se meses, eu acostumado ao jogo. Numa quarta, manhã clara, eu tomava uma xícara de café preto sem açúcar. Não era dos piores. Tem gente que se diverte no boliche, outras consertam relógios. Eu tinha minhas ligações anônimas. Atendi mais uma. O cara estava na minha frente. Sua estratégia funcionou. Me ligava o dia inteiro até o dia em que cruzou comigo pela rua. Sujeito de sorte. Foram apenas alguns meses. Ele procurou algo na mochila. Corri em sua direção. Ouvi um grito distante. Ficamos suspensos no ar por alguns segundos. Até que caímos e nossas peles foram esfoladas devido ao choque e deslizamento no solo. A dele, mais que a minha. Tomei o cuidado de me proteger no corpo dele. No fim, o sujeito fica de pé e tenta mais um soco. Eu me jogo nas pernas dele e ele cai. Ficamos ali no chão, numa posição ridícula, grudados. Achei mesmo que ele queria chupar meu pau. Esse não é o jeito certo de pedir um boquete. Ele choraminga e me diz que comi sua mulher. Já comi tanta gente... Não faço idéia de quem é a mulher dele. Ele me fala de fotos. Choraminga de novo. Foi a Carla. Ou Débora. Ouço as sirenes se aproximando. Mais uma vez. O som é quase familiar, quase confortável.

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// Bรกrbara Gesteira //


H I L T O N L E A L contos / / / / // // //// // // //// // // // //// // // ////


//o velho//

- Seja doce, mas também tente ser firme. - o velho dizia - Na dúvida sobre ser firme ou doce, sempre prefira ser firme. Ele me dizia essas coisas entre uma baforada e outra do cachimbo de madeira enquanto apertava e enrolava uma madeixa do cabelo branco cada dia mais ralo. Os velhos são maus conselheiros, meu filho. Os pais são suspeitos aos olhos dos filhos. São sombras do passado sobre o futuro, e o passado é sempre muito cruel. A imaginação precisa ignorar um pouco o passado para se lançar em direção ao futuro. Por isso os velhos são maus conselheiros aos olhos dos jovens, por isso os jovens são estúpidos aos olhos do velho. O passado é feito de dores, o futuro é tecido com sonhos. Os velhos aprenderam a ser firmes, os jovens gostam de orgulhar-se de sua doçura. O velho já foi jovem e o jovem vai envelhecer. O passado e o futuro dançam abraçados a todo momento. Tente ser doce, mas seja firme também. Não fraqueje, não oscile, não se abra, mas, ao mesmo tempo, tente não ser cruel ou indiferente. Simule um outro você que seja sensível e mantenha-se, no entanto, guardado e imaculado para não envelhecer com a morte dos sonhos. Vida a vida dos outros, mas não espere muito dessa vida. Deixa sua doçura secreta, imaculada, guardada por dois serafins furiosos, e jamais deixe alguém passar por esses portões. Lá no fundo do vale deixe seu sonho. No mais seja firme e seja doce, mas


//evoé// não confunda nenhuma das duas coisas com o que você é realmente. Eu não entendia o que o velho me dizia. Aquilo parecia-me muito complicado e secreto. Eu gostava de conversar com o velho. Os outros meninos não gostavam. Diziam que o velho era chato, dramático ou louco. Eu não achava. Gostava de conversar com o velho. Mas naquele dia suas palavras me deram medo. Não dormi naquela noite. Soube que o velho tinha morrido alguns dias depois. Não fui ao enterro, mamãe não deixou. Nunca mais encontrei quem falasse comigo como o velho falava. De algum modo que ainda não compreendo sentia que algo nele se parecia comigo. Depois que o velho se foi nunca mais consegui perceber esse tipo de identificação com ninguém.

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//óleo quente, metafísica e ressurreição//

Eram dias em que eu andava cansado demais para concatenar especulações metafísicas. A patroa de mau humor há algum tempo andava me vigiando os bolsos e resmungando suspeitas sobre suspeitas, no trabalho todo dia o serviço aumentava e mesmo assim os boatos sobre demissões se renovavam a cada semana. O Ezequiel gostava de conversar enquanto carregava os pacotes de carvão para dentro do cilindro do filtro, onde o óleo da mamona passava por um processo de limpeza antes de se misturar com a soda cáustica. - A realidade existe ou é um sonho? Ezequiel interrompia o silêncio (quer dizer, o barulho) da fábrica com essas perguntas cretinas sem nenhuma razão específica. Às vezes eu precisava de alguns minutos antes de me dar conta do que ele estava falando. - Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. - Mas é uma questão crucial! Sabe, os budistas tibetanos dizem que se entoarmos o mantra correto na hora da morte... -Ezequiel, por favor! Sobreviver já é complicado demais sem essas suas perguntas. Pegue outro saco de carvão e vá colocar no cilindro, é a sua vez agora. Ele dava um risinho com o canto da boca e descia as escadas para


//evoé// colocar mais carvão no filtro. Estava convencido de que eu era um místico enrustido. Imbecil. Para mim ele era apenas mais um sujeito procurando por um bote salva vidas ao invés de aprender a nadar. Eu ficava na refinaria de olho na pressão do óleo quente. Isso sim era importante. Um colega nosso, o Prospício, perdeu o controle da pressão e um dos filtros estourou cobrindo o sujeito de óleo fervente. Pobre diabo. Nunca mais iria conseguir encontrar nada que quisesse trepar com ele sobre a face da terra. É isso que acontece com quem se distrai. A menos que você tenha um papai e uma mamãe fazendo linha de frente para você, é crucial nunca ficar desatento. Essa sim é uma lição que vale a pena ensinar. Preocupe-se com o próprio couro, a menos que alguém esteja fazendo isso por você. É o que diferencia os sobreviventes desses menininhos e menininhas encantadas, sonhando com marijuana, revolução, nirvana e amor eterno. O alarme da bomba de óleo tocou: era hora de folgar as prensas, separar as imensas placas de metal e raspar a borra quente que ficava presa nas lonas do filtro. A borra era uma espécie de lama endurecida, preta e quente, que raspávamos com uma espátula para dentro de uma imensa tigela que ficava embaixo dos filtros. Depois retirávamos tudo com uma pá para um carro de mão e jogávamos no lixo o material. Isso tudo era feito entre as 10:00 da noite e às 06:00 da manhã. Não tínhamos sonhos. Eu viva um dia de cada vez, e quando sobravam alguns trocados enchia a cara de cachaça vagabunda e ia dormir. Ezequiel ia a um puteiro e deixava tudo com as garotas que aceitavam as mixarias que ele podia pagar. Um dia Ezequiel não foi trabalhar. Fiquei preocupado. Eu sabia que faltar ao trabalho significava demissão. O patrão, um cearense tosco que se chamava Nero, não assinava nossas carteiras, não nos dava uniformes, e demitia por atraso, falta, corpo mole ou simplesmente por não ter ido com a cara do sujeito. Ezequiel não foi mais trabalhar e eu não o vi mais durante muito tempo. Um dia descobri que Ezequiel havia entrado para o MST. Continuava um sujeito esquisito, sem noção da estrutura prática da realidade, mas pelo menos agora ele estava usando isso a seu favor: montado em uma máquina partidária Ezequiel descobriu 24


//número 1// como transformar o deslumbramento idealista em um modo de ganhar dinheiro. Um dia meu dente, um dos últimos 5 que eu ainda possuía na parte superior da arcada, inflamou e eu fiquei com a cara inchada como se estivesse com uma bola de golfe na boca. Não fui trabalhar e me demitiram. A mulher foi embora na semana seguinte, um motorista de ônibus havia lhe oferecido condições mais interessantes de existência: achei muito razoável da parte dela. No meio de toda aquela crise, desempregado, sem mulher, banguelo, eu ficava em casa comendo arroz com ovo cozido durante a semana inteira: Uma vez por mês minha mãe conseguia um quilo de frango que eu dividia em minúsculas porções e por isso duravam uns 10 dias. Cheguei a pesar 7 quilos. Comecei a ler os livros que Ezequiel havia deixado comigo. Trigeirinho, Paiva Neto, Paulo Coelho, Osho, Kardec e todas essas coisas começaram a me parecer razoáveis. De repente minha miséria já não era assim tão miserável. Aliás, eu começava a me achar um sujeito muito melhor que a maioria. Passei a frequentar um centro espírita e rapidamente me integrei na coisa toda. Em face da minha situação de penúria uma das dirigentes do centro me auxiliava com uma sexta básica e algum trocado de vez em quando. Minha ex-mulher me visitava às vezes e eu lhe pregava imensos sermões metafísicos. Ela dividia minha cama comigo e depois voltava para o motorista. Eu me sentia culpado e passava o dia seguinte inteiro entoando mantras, mas na semana seguinte ela sempre voltava. Um dia ela apareceu grávida, disse que queria voltar e eu deixei. Claro que eu me separei um pouco depois. Mas o mais importante é que aquela criança mudou toda a lógica de meu raciocínio. O além não iria dar de comer aquela criança e nem eu conseguiria fazer isso se continuasse correndo atrás dele. Pensar desse modo fez toda diferença pra mim.

“Você não vê graça em nada”, ela me falava com uma expressão preocupada e professoral que em nada me ofendia “leva uma vida vazia, entediante e sem ânimo”. Seus olhos tão expressivos e tensos pareciam, de fato, enxergar minha alma melhor que eu mesmo. “simplesmente não posso continuar vivendo com uma pessoa que vive assim... sem paixão, 25


//evoé// sem sonhos.” Eu não tinha muita coisa a replicar frente ao que ela dizia. Provavelmente tinha razão. Eu mesmo, as vezes, pensava daquele jeito sobre mim. Contudo, nem sempre isso me parecia mal. Não via como poderia ser de outro jeito. A vida me parecia na maioria das vezes um biscoito de água e sal sem sal. Em raras e breves ocasiões havia mágica e em ocasiões mais raras ainda... paixão. Mas, olhando em contraste, essa falta de ânimo era algo muito confortável quando comparada com o desespero de meus anos de juventude. Mas é claro que para ela, que me olhava sob a perspectiva otimista da liberdade de escolha, eu poderia deixar tudo isso para traz e viver no “presente”, como se o presente fosse outra coisa que não uma montanha empilhada de passados. Em público, diante dos olhares inconvenientes, é comum sustentar algum tipo de confiança nas possibilidades do futuro, alguma forma de crença na capacidade de deixar o passado para trás, mas suponho que sobre os nossos travesseiros somos totalmente retrospectivos. Não só isso, como conceber que a mente pode ser outra coisa senão o resultado de uma síntese de passados? Cada um tenta fazer o melhor com o que tem, mas é tolice esperar que o resultado disso seja o mesmo para todo mundo. Tudo bem, acho que ela se importava e por isso se desdobrava tentando me convencer de que havia alguma coisa errada comigo. Provavelmente, cheguei a dizer isso algumas vezes, ela tinha razão, mas não sabia o que fazer a partir desse ponto. As pessoas esperam que você seja capaz de tornar-se algo novo porque elas mesmas esperam conseguir algo desse tipo, mas ninguém sabe como. Esse otimismo forçado é algo necessário, certamente não suportaríamos viver sabendo que a maioria das coisas não estão sobre nosso controle. Aliás, parece impossível admitir algo desse tipo o tempo todo. Ela sumiu e não fez falta, aliás, fiquei bem melhor, dado que já tinha aprendido a viver dia-a-dia ao invés da vida inteira.

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// Bรกrbara Gesteira //


G A B R I E L R E V L O N poemas // // // // // // // // // // // // / / / /


//a casa dos sonhos//

... A casa do sonhos fabricou uma verdade, A cabeça pensou, os olhos estavam fixos e a respiração devagar, Com uma seriedade de quem vive um luto, Batendo com o dedo na mesa em movimentos repetidos, Eis a mulher branca, pensando, pensando, pensando.. Os seus cabelos brancos, experientes, indecisos no vento, Seus pensamentos são mais juras do que certezas.... E a palavra entrega o jogo.... Que jogo, o da vida, o da verdade, o das palavras ? Sem saber ao certo o que fazer ela suspira... “ Tantos anos de vida, e uma realidade sofrida, Tanto gosto pra criar esses filhos, e o desgosto me assola.” O medo da solidão está ao seu meu lado. Tão velho quanto o mundo... E nos seus olhos as lagrimas chegam... um filho bruto e controlador, uma filha louca e presa por um crime... Triste realidade. Mas a esperança ainda assim embrulha o seu estomago junto com a angustia... Uma náusea querendo ser vomitada, expulsa do corpo já desgastado... Mas a casa dos sonhos não para...


//a ninfa do lácio//

... A Ninfa do Lácio chega com a primavera, Dourada e com tons avermelhados, é uma confusão aos meus sentidos. Sentidos unidos, perdidos, tácitos, quase que fixados. Seus tons são tímidos como um inicio de primavera, mas radiantes... Chega da uma febre no coração, Quantas formas, curvas, silêncio e sintonia, A terra está fértil e pronta nascer o novo, Os pássaros parecem que sentem o seu ar silencioso, Então chegam e cantam para que o amor brote das flores... O brilho chega intenso, parece que perdido no vento, a paixão e seus ardores, No silêncio arranca do amante não as palavras, mas o sentir do fundo da alma... Transpirando amores vermelhos, amores de primavera... No palco do desejo a atriz é ninfa, E a cena é vida entre os tons e ardores que no cheiro, no gosto e na pele querem saciar o desejo, Onde tudo se encontra, onde tudo se encanta, Para brilhar num instante ou numa vida inteira... ...A Ninfa do Lácio chega com a primavera.


//quase não acreditei//

Em palavras tão precisas... Não fosse a náusea que aqui dentro faz o que estava preso sair, estonteante Entre o bater de ponteiros tão precisos, No tempo imaterial aos olhos. Na possibilidade: de quem pondera, de quem delira, de quem quer ter, da vertigem, de uma ilusão... Quase não acreditei....


// Enio Saldanha //


M A R I A NA P A I M poema // // // // // // // // // / / / /


//sem tĂ­tulo//

A maneira de Baudelaire componho retratos figuro palavras e dilacero como paisagem Em volta de mim crescem muros e eu avisto o movimento moroso da poesia que faz-se nas esquinas da janela [grito!] enquanto a cidade em mim silencia o sono dos aflitos


// Bรกrbara Gesteira //


PAT R Ă? C I O F R E I T A S poemas // // // // // // // // // / / / /


//já não há desculpas//

Às vezes me convém ser cético (Mesmo acreditando em tudo) E não admitir temer o além. Às vezes é preciso dizer Que está tudo bem E velar a dor.


//entre samba e prantos//

O meu samba hoje É tecido em silencio Das lembranças e momentos Que me consomem por inteiro Forjando as batidas Em ritmos repicados De pandeiros e tamborins Vão chorando em lentidão Enquanto vejo minha alma, De olhos fechados no espelho Calmamente em desespero Só enxergo a solidão.


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evoé