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IDIOT I DO IT

CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 1


3 OS IDIOTAS 8 IDIOT Aniversário

6 EDITORIAL Feliz Aniversário Idiot 10 ROTEIRO

16 ATUALIDADE É Tempo de Sambar 36 PHOTOREPORT Idiot Art @ Gare

24 ENTREVISTA Coletivo Idiot 48 VESTE IDIOT Editorial de Moda

64 IDIOT @ PORTO 80 ELETRÓNICA Nuno Di Rosso

76 MÚSICA Veste a tua música 84 IDIOT DE RUA

86 VER, OUVIR, LER 94 TABU? A Alcova da Patrícia 106 HOMO’GENEO Homoculturizar 114 LA FOUINOGRAPHE 124 PROVOC’ARTE Use Your Mask

88 IDIOTAS AO PALCO Os Desabafos de Henrique Cimento 100 INTERVENÇÃO Pussy Riot 108 INTERVENÇÃO Poliamor 120 ILUSTRADOR LEITOR Duarte Pinto da Silva 126 O ANTI-IDIOTA Ministério da Cultura

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Direcção: Nuno Dias // João Cabral Gestão e Marketing: Pedro Urzal Pimenta Textos: Ana Anderson Bernardo Alves Catarina Ramalho Carmo Pereira Flora Neves João Cabral Marisa Martins Melanie Antunes Nuno Dias Nuno Di Rosso Patrícia (Pseudónimo) Rui de Noronha Ozório Telmo Fernandes Tiago Moura Tish Design: Nuno Dias // João Cabral IDIOT, Gabinete de Design® Capa: Las Kats Studio Ilustração: Las Kats Studio Fotografia: Aline Fournier Lígia Claro Spyrart Video: Mariana Oliveira Rita Laranjeira Todos os conteúdos gráficos são da responsabilidade de: Coletivo IDIOT ® www.idiocracydesign.com Info@Idiocracydesign.com Cada redactor tem a liberdade de adoptar, ou não, o novo acordo ortográfico

Agradecimentos: Anjos Urbanos Urbanos, Catarina Albano, Nuno Carneiro, Ines Peres, Vânia Sousa, Wailers, João Paulo Cabral, Rafi, REFER. ESAD, Maria Eduardo Loureiro

(*) NENHUMA ÁRVORE FOI SACRIFICADA NA IMPRESSÃO DESTA MAGAZINE!

www.IDIOTMAG.com MAG@IDIOCRACYDESIGN.COM

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Nuno Dias

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FELIZ ANIVERSÁRIO IDIOT NASCEMOS NO ANO DA CRISE, TRANSFORMÁMO-LO NO ANO DO DESAFIO E AGORA INICIAMOS O ANO DA CRIATIVIDADE. APROVEITAMOS O TÃO EMOCIONANTE PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DA IDIOT MAG PARA DIZERMOS AO MUNDO: “A IDIOT MAG CRESCEU E É AGORA A IDIOT”. QUE MESMO CONTINUANDO COM A SUA EXTREMA MAS CARINHOSA IDIOTICE CRESCEU, AMADURECEU E SABE O QUE QUER, SABE O QUE É E, MAIS IMPORTANTE QUE ISSO, SABE O PAPEL QUE TEM, QUE DEVE TER, E QUE TERÁ NA SOCIEDADE. O ESCAPE À REALIDADE TRANSFORMOU-SE E É AGORA O REFÚGIO, UM LOCAL DE EXPLORAÇÃO DE PENSAMENTOS ABSTRATOS QUE DEPRESSA SE TORNAM REALIDADE. É AGORA ESPAÇO - NÃO SÓ VIRTUAL - DE CRIAÇÃO DE IDEIAS. SAÍMOS DO ESPAÇO VIRTUAL E COBRIMOS, LITERALMENTE, AS PAREDES DA CIDADE COM CULTURA. NO EDITORIAL ANTERIOR AGRADECI A TODOS OS QUE CONHECEMOS E DE QUEM FALÁMOS DURANTE ESTE ANO. E CLARO, NÃO ME IA ESQUECER DE QUEM, TODOS OS MESES FAZ COM QUE ESTA IDIOT SEJA UMA REALIDADE. AO JOÃO E À MARIANA, CLARO, PORQUE SOMOS OS PAIS E MÃE DESTA IDIOT, À MELANIE QUE, COMO PASSOS COELHO PEDIU HÁ UNS MESES, ESTE MÊS NOS DEIXA E VAI PARA OS EMIRADOS, SENDO ESTES, COM UMA PROFUNDA PENA NOSSA, OS SEUS ÚLTIMOS ARTIGOS (ESPEREMOS QUE APENAS POR ENQUANTO!). À CARMINHO, AO RUI, À FLORA, À ANA CATARINA, AO TIAGO, À TISH, AO TELMO, À INA, À ANA, AO NUNO, AO PEDRO, À MARISA, AO BERNARDO E À MOLI. ACABANDO OS AGRADECIMENTOS, TEMOS QUE REFERIR QUE, ESTE MÊS, NA EDIÇÃO DE ANIVERSÁRIO DECIDIMOS CONVIDAR LAS KATS DE CATARINA ALVES E CATARINA ALVES - ATELIER DE DESIGN NOSSO VIZINHO E COMPANHEIRAS DE GUERRA - PARA NOS DEDICAREM UMA CAPA E, DAREM A PARTIDA PARA O ANO DA CRIATIVIDADE. SE NÃO AS CONHECES, NÃO TE PREOCUPES, PORQUE BREVEMENTE VAMOS FALAR-TE DELAS. SENDO O MÊS DOS IDIOTAS, A MELANIE DECIDIU ENTREVISTAR OS IDIOTAS. O PHOTOREPORT É À IDIOT ART, ÚLTIMA EXPOSIÇÃO DA IDIOT, DESTA VEZ NO GARE PORTO E NA CENTENÁRIA ESTAÇÃO DE S. BENTO, ONDE O HAZUL E OS ALUNOS DA ESAD MATOSINHOS NOS DERAM UMA GRANDE LIÇÃO DE ARTE URBANA. O IDIOT MAG @ SOFREU UMA REVIRAVOLTA E CONVIDÁMOS PED, CÁ EM ERASMUS, PARA NOS FALAR DA NOSSA CIDADE, O PORTO. NA MÚSICA, ENTREVISTÁMOS O DJ NUNO DI ROSSO, ELE MESMO, UM DOS IDIOTAS DOS NOSSOS REDATORES; A LÍGIA FOTOGRAFOU O EDITORIAL DE MODA DA IDIOT NA NOSSA INVICTA E CONVIDÁMOS UM LEITOR ASSÍDUO A “EXPOR” NAS NOSSAS PAREDES VIRTUAIS. E CLARO, O ANTI IDIOTA É O “MINISTÉRIO DA CULTURA”. P.S.: PARA OS MAIS ATENTOS, A IDIOT ESTE MÊS SAIU MAIS TARDE PORQUE FOI UMA EDIÇÃO ALARGADA E FIZEMOS QUESTÃO DE FAZER O EDITORIAL DE MODA DA IDIOT COM A LÍGIA CLARO, CATARINA ALBANO, INÊS PERES, VÂNIA SOUSA, RITA LARANJEIRA, NUNO CARNEIRO E OS ANJOS URBANOS. FOI, PORTANTO, DIFÍCIL CONCILIAR UMA DATA. MAS COMO NADA É IMPOSSÍVEL CÁ ESTÁ, MAIS UMA VEZ, A MELHOR REVISTA DO MUNDO.

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IDIOT // O ANIVERSÁRIO DA CRIATIVIDADE CONTRA AS EXPETATIVAS, A IDIOT CRESCEU DE UMA PUBLICAÇÃO ONLINE PARA UMA COMUNIDADE ATIVA DE PROMOÇÃO E DIVULGAÇÃO CULTURAL, DENTRO DA CIDADE DO PORTO. NESTE PRIMEIRO ANO QUE ENCERRA DE EXISTÊNCIA, A IDIOT DIVULGOU E DEU A CONHECER O TRABALHO DE VÁRIOS DESIGNERS, ARTISTAS PLÁSTICOS, FOTÓGRAFOS, MÚSICOS, ILUSTRADORES, ENTRE OUTROS, ORGANIZOU EVENTOS DE FOTOGRAFIA, MULTIMÉDIA, MODA, LITERATURA, ESCULTURA E, MAIS IMPORTANTE, OCUPOU O ESPAÇO DA CIDADE COM A PROMESSA QUE A ARTE CONTINUARÁ A EXISTIR E A FAZER-SE SENTIR. E NO AUTODENOMINADO «ANO DA CRIATIVIDADE», A IDIOT IRÁ CONTINUAR A CRESCER: COM NOVAS EXPOSIÇÕES E PROJETOS CRIATIVOS, NOVAS OPORTUNIDADES DE DIVULGAÇÃO E UM NOVO DEGRAU NA CONSTRUÇÃO DA NOSSA MARCA – UMA LINHA DE ROUPA, CRIADA EM PARCERIA COM OS DIFERENTES ARTISTAS COLABORADORES DA REVISTA. MAS ANTES DISSO, A IDIOT VAI ORGANIZAR O SEU PRIMEIRO ANIVERSÁRIO NA ESAD, NO PRÓXIMO DIA 1 DE MARÇO, QUE CONTARÁ COM EXPOSIÇÕES DE DOIS ARTISTAS QUE NOS ACOMPANHARAM DESDE DO INÍCIO – MESK E TÂMARA ALVES – A ENTREGA DO PRÉMIO O GRANDE IDIOTA 2012, A EXIBIÇÃO DE UM DOCUMENTÁRIO SOBRE O NOSSO PERCURSO ATÉ AO PRESENTE E, PORQUE TAMBÉM É DIA DE FESTA, E COMO O NOSSO ANO FOI FEITO DE COR, SÓ NESTA TARDE, IREMOS ORGANIZAR UMA GUERRA DE TINTAS DE PÓ DA ÍNDIA, HOLLY GULAL POWDER. NO CURTO ESPAÇO DE DOZE MESES, A IDEIA DE SE FAZER ARTE, EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS, TORNOU-SE UMA ESPÉCIE DE UTOPIA, ONDE OS APOIOS SÃO ESCASSOS E OS CORTES CADA VEZ MAIS SEVEROS. A CULTURA DO NOSSO PAÍS TORNOU-SE NUM CONCEITO IDIOTA E A IDIOT DESEJA CONTINUAR A AFIRMAR-SE COMO A VOZ DESSES QUE, TAL COMO NÓS, ACREDITAM QUE A ARTE É A IDENTIDADE DE UMA NAÇÃO.

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PRIMEIRO ANIVERSÁRIO

ENTRADA LIVRE

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3 fevereiro // domingo Evgeny Bozhanov é um dos mais extraordinários pianistas da nova geração, centrado nas grandes obras do Classicismo e Romantismo. 18h // 17€ Casa da Música

10 fevereiro // domingo A Orquestra Sinfónica apresenta um concerto com o requinte do carnaval veneziano, repleto de fantasia Horários: 18:00 Preços: 11€ Casa da Música

18 fevereiro // 2ª feira Viagem Pelo Corpo Humano - Teatro Musical Infantil Exponor Auditório A1

11 fevereiro // 2ª feira Carnaval é no Gare com Ben Klock Horários 23:45

19 fevereiro // 3ª feira Adega São Nicolau é uma casa na ribeira, com ambiente acolhedor e onde se come muito bem. As especialidades são: Carapauzinhos com arroz de tomate; Arroz de línguas de bacalhau ou polvo; Tripas à moda do Porto entre outros

25 fevereiro // 2ª feira 33ª Edição do FANTASPORTO’2013 Horários: 21:15 Bilhete para a sessão de pré abertura: 8€ Teatro Rivoli

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4 de fevereiro // 2ª feira À segunda é dia para ir ao cinema mais barato! Sugestão: Django Unchained // Drama, Western, acção de Quentin Tarantino UCI Arrábida

12 fevereiro // 3ª feira ir ao Porto Ginginha e não beber um cálice desse licor é como ir a Roma e não ver o Papa. Para petiscar, há também codornizes, rissóis de leitão e bifanas cozinhadas pela D. Manuela, de terça a domingo, na Rua da Estação

20 fevereiro // 4ª feira Repleto de obras de arte em exposição, com as Jam Session e música ao vivo, o Baixaria Bar na rua do Almada é o sítio onde estar!

26 fevereiro // 3ª feira Orquestra Jazz de Matosinhos // Cine-Concerto Ciclo Jazz Sonae Horários 21:30 Casa da Música

5 fevereiro // 3ª feira Uma noite em casa de Amália Horários: 21:30 Preço: 10€ a 30€ Coliseu do Porto

13 fevereiro // 4ª feira Sigur Rós regressam aos palcos. Horários: 21:00 Preços: 23€ a 35€ Coliseu do Porto

21 fevereiro // 5ª feira A digressão de Steve Harris começa em Portugal, com o projecto a solo, British Lion Hard Club

27 fevereiro // 4ª feira As quartas são académicas, (Café Concerto) no Armazém do Chá


6 de fevereiro // 4ª feira Oficina de Dança -Teatro (Teatro - Físico) com Andrea Gabilondo Horários: 19:00/20:30 Preço: Mensalidade de 35€ Contagiarte

14 janeiro // 5ª feira Galeria: RAW, Palco: João Dinis, Cubo: Trikk + IVVVO + Back Bone Plano B

22 fevereiro // 6ª feira One Eyed Jacks Label Night // Altered Natives (UK) + Photonz Horários 23:00 Plano B

28 fevereiro // 5ª feira Diego El Cigala, um gigante do flamenco, vai estar na Casa da Música Horários 21:00 Preços: 30€

7 fevereiro // 5ª feira O Fátima Serro Trio promete oferecer aos apreciadores de jazz uma noite recheada de boa música e improviso Clube 3C

15 fevereiro // 6ª feira Com mais de trinta anos de carreira, os GNR vão estar no Coliseu do Porto Horários: 22:00 Preços: 15€ a 25€

23 fevereiro // sábado Paco Osuna // Two Years of Clubbing Sessions Gare

1 março // sexta Warehouse #5 - Maya Jane Coles + Magazino, Rui Trintaeum ( powered by 31Stereosound ) Gare

9 fevereiro // sábado L!VE Production apresenta Joseph Capriati no 3º Aniversário Electronic Movement Horários: 23:45 Com guest 12€, sem 15€ Gare

8 fevereiro // 6ª feira Technasia Horários: 23:45 Indústria Club

17 fevereiro // domingo Hoje é dia de conhecer a cidade de uma forma original. A Vieguini Scooters aluga bicicletas e scooters e organiza passeios aos que querem partir à descoberta // scooters: 18,5€ dia, Bicicleta: 13,5€ o dia. Rua Nova da Alfândega

16 fevereiro // sábado Com álbum novo a caminho, os Crystal Castles vêm a Portugal no próximo dia 16 de Fevereiro, no Hard Club Horários: 21:00 Preços: 27€

24 fevereiro // domingo O Zázá é um café bar com refeições ligeiras, desde sandwiches a petiscos bem à portuguesa. A sangria de Alvarinho vai bem com o ambiente descontraído. Rua Ramalho Ortigão 43

2 março // sábado Os Ska-P atravessam a fronteira no sábado, dia 2 de Março de 2013, para um espectáculo único no nosso País a ter lugar no Hard Club Preços: 20€ CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 11


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Melanie Antunes

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É JÁ NO DIA 9 DE FEVEREIRO QUE COMEÇA A FOLIA DO CARNAVAL. NO FIM-DE-SEMANA QUE ANTECEDE A “TERÇA-FEIRA GORDA”, MULTIPLICAM-SE AS FESTAS POR TODO O PAÍS. NO ENTANTO, É NA MADRUGADA DO DIA 12 DE FEVEREIRO QUE O ESPÍRITO CARNAVALESCO ESTÁ MAIS ACESO DO QUE NUNCA. OS DISFARCES, AS CORES E AS DANÇAS MARCAM A NOITE. AS VESTIMENTAS SÃO CADA VEZ MAIS CURTAS E AS FESTAS SÃO IMPARÁVEIS. NO CARNAVAL TUDO É PERMITIDO, POIS É O ÚNICO DIA NO ANO EM QUE “NINGUÉM LEVA A MAL”, TAL COMO DIZ O VELHO DITADO.

Fotografia © http://www. lidemultimidia.com.br/ CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 17


Desde meados do século XX que o Carnaval adquiriu uma abordagem muito mais carnal e sexual, em vários países. Por alguma razão o governo brasileiro distribuiu cerca de 70 milhões de preservativos durante as comemorações do Carnaval de 2012. No entanto, a conotação carnal desta festividade remonta já à Idade Média, através do Cristianismo. O Carnaval era o último dia em que um cristão podia comer carne, antes de iniciar os 40 dias de jejum, que correspondiam à Quaresma. Durante a Idade Média o Carnaval era também uma manifestação da cultura folclórica, na qual se baseiam vários rituais comemorativos que envolvem determinado tipo de figuras mascaradas, tal como ainda acontece na Suíça, no sul da Alemanha e em algumas regiões da Áustria. Contudo, as origens do Carnaval remontam à Grécia antiga, sendo inicialmente uma festa para agradecer aos deuses a fertilidade dos solos e as boas colheitas. Já durante o Império Romano, o Carnaval era marcado por festividades que incluíam um cortejo pelas ruas, comandado por um rei eleito pelos participantes. Foi em Itália que os desfiles de Carnaval e os bailes de máscaras ganharam mais notoriedade. Durante o Renascimento, Veneza detinha o Carnaval mais famoso, sendo que atualmente continua a ser um dos melhores locais para comemorar a data. No entanto, a lista das comemorações carnavalescas é longa e não faltam boas opções para assinalar a data, pelo mundo inteiro. Alguns países celebram o Carnaval em datas diferentes, como é o caso do Canadá. Em Toronto, o Carnaval acontece no verão, uma vez que é baseado no Caribana, festividades tradicionais das Caraíbas. Além disso, os fatos carnavalescos não estão pre18 // www.IDIOTMAG.com

parados para o inverno do Canadá. Já em Québec, entre o final de janeiro e o início de fevereiro, decorre um dos maiores Carnaval de inverno (Québec Winter Carnival), durante o qual são feitas esculturas de gelo. No Uruguai, o Carnaval tem a particularidade de durar mais de 40 dias, começando normalmente no final de janeiro e decorrendo até meados de março. As festividades são influenciadas pelo estilo europeu, sendo possível assistir a desfiles de Carnaval. Muitos países contêm tradições bem diferentes da imagem típica de Carnaval, associada ao Rio de Janeiro e aos desfiles das escolas de samba. Por exemplo, na Dinamarca, a data é celebrada através de uma espécie de Halloween Nórdico, durante o qual as crianças se disfarçam e percorrem as casas da vizinhança em busca de uma doçura ou de uma travessura. Na Bélgica, o Carnaval de Binche é o mais conhecido e contém os Gilles, personagens tradicionais que saem à rua e atiram laranjas vermelhas à multidão. Outra figura do Carnaval belga é o Blanc-Moussis, disfarce composto por um vestido branco e um nariz vermelho comprido, personagem comum em Stavelot. Este género de disfarces compostos por máscaras com influências medievais e populares é também comum no Carnaval suábio-almeão (Alemanha, Suíça e Áustria) e na Hungria. Em Mohács, celebra-se o Busójárás, durante o qual as ruas são percorridas por locais vestidos com costumes de lã e máscaras assustadoras. Os participantes realizam um ritual de enterro que simboliza o final do inverno. Em Portugal, também existem personagens típicas do Carnaval. Em Lazarim (Lamego) em Podence (Macedo de Cavaleiros), os caretos são figuras


Gilles, Carnaval de Binche.

que percorrem as ruas da povoação, com máscaras assustadoras e chocalhos atados aos pés. O vestuário difere entre as duas povoações, sendo o mais comum um fato às riscas, com capuz, de cores garridas, feitos de colchas com franjas compridas de lã vermelha, verde e amarela. À semelhança da Hungria, no nordeste transmontano também se realiza um cortejo fúnebre designado de Enterro do Entrudo. Existem várias tradições carnavalescas portuguesas, que diferem consoante a região. Em Torres Vedras, acontece o “Carnaval mais português do país”, tal como é conhecido. Já em Elvas, decorre o chamado Carnaval Internacional de Elvas. O Carnaval de Canas de Senhorim é um dos mais antigos de Portugal, contando com cerca de 400 anos de tradições. Um dos carnavais mais badalados de Portugal é o de Ovar, onde decorre um desfile que prima pelo rigor e pela originalidade. Na madrugada de terça-feira, o centro da vila enche-se de foliões, que ali chegam dos mais

variados pontos do país, para festejarem com muita música e muito álcool à mistura. Devido à sua proximidade da cidade, é um dos locais prediletos para os portuenses passarem o Carnaval. A viagem de ida e volta até Ovar é feita de comboio, partindo desde a estação de Campanhã, na segunda-feira à noite. Durante o percurso, que dura entre 25 a 45 minutos, os mascarados

Idiotas no metro até ao Carnaval de Ovar CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 19


fazem a festa cantando e brincando com os passageiros que desconhecem. O regresso é feito na terça-feira de manhã, nos primeiros comboios que partem em direção ao Porto. Nos arquipélagos, o Carnaval adquire certas particularidades. Nos Açores, dançam-se os bailinhos de Carnaval, inseridos na maior manifestação de teatro popular, que acontece em Portugal. Na Madeira, a Praça do Município é invadida por concertos e as ruas são percorridas por um desfile de carnaval repleto de escolas de samba. Estarreja, Loures, Sesimbra, Loulé, Sines também são destinos de eleição para passar o Carnaval. Durante os Descobrimentos, o povo português levou as suas tradições, incluindo o Carnaval, para outros países como Cabo Verde e a Índia. No primeiro, a data é assinalada nas nove ilhas do arquipélago, sendo a de São Vicente o destino predileto, uma vez que o Carnaval do Mindelo é dos mais animados e coloridos que existe em todo o continente africano. Em Goa (Índia), as comemorações são conhecidas como “Intruz” (com origem na palavra portuguesa “Entrudo”). A cidade de Panaji acolhe as maiores celebrações, que incluem desfiles, música e bailes de máscaras. Os bailes popularizados pelas celebrações carnavalescas, um pouco por todo o mundo, surgiram pela primeira vez em Veneza (Itália), durante o século XIX e embora as comemorações tenham sido restringidas durante o domínio austríaco, a partir de 1798 essas tradições foram reavivadas durante o século XX. Atualmente os bailes de máscaras decorrem em vários países, mas a Grécia e a França foram dos primeiros a ser influenciados. Em Itália, destacam-se ainda o Carnaval de Viareggio, famoso pelo desfile onde são caricaturadas várias figuras populares e o Carnaval 20 // www.IDIOTMAG.com

de Ivrea, conhecido pela Batalha das Laranjas, que recorda as guerras travadas durante a Idade Média. Outro Carnaval igualmente famoso é o de Nova Orleães (EUA), onde se desenrola o Mardi Gras. As ruas e as varandas enchem-se de pessoas mascaradas ou não, com colares de contas coloridas ao pescoço, dançando e convivendo. A exposição corporal é algo comum durante estas festividades. No entanto, é o Carnaval brasileiro que prima pela nudez. O Carnaval é a festa predileta dos brasileiros, especialmente no Rio de Janeiro, onde as escolas de samba preparam a sua atuação e os seus fatos com quase um ano de antecedência. O calor, as cores e a multidão avassaladora apoderam-se do sambódromo para um desfile que dura horas. O Carnaval da cidade carioca está no livro do Guinness como o maior carnaval do mundo. A sua fama chegou a todos os continentes e influenciou rituais carnavalescos nos países mais longínquos como, por exemplo, o Japão, onde se desenrolam comemorações tipicamente brasileiras com escolas de samba, no bairro Taitö, em Tóquio. Durante a festa mais importante para o povo brasileiro, que decorre em pleno verão, o país para completamente. O Carnaval é assunto do dia e quando chega a hora de escolher a festa, a oferta é variada. Tiago Fernandes é um antigo aluno do IPAM, no Porto, que fez Erasmus no Brasil, em 2009. Apesar de o Rio de Janeiro ter sido a sua casa durante os seis meses de estadia, Florianópolis foi a cidade escolhida para passar o Carnaval. O ambiente é mais calmo, mas também não faltam festas um pouco por todo o lado. O receio surge sempre em eventos desta dimensão, principalmente “pelas histórias que se ouvem, nas quais as favelas descem para a festa e já se sabe que há sempre


problemas quando os líderes saem de lá”, explica Tiago Fernandes. “Tive medo de balas perdidas, mas soube que não aconteceu nada e, de todas as maneiras, optámos por ir a festas privadas”, concluiu. Diversão é a palavra de ordem no Carnaval, portanto, todas as paragens desta festa brasileira acabam por ser um festão. Para além das festas privadas e dos bailes na rua, fazem-se imensos churrascos entre amigos e desconhecidos. “Um churrasco é a melhor maneira de conviver com pessoas, mesmo não conhecendo o anfitrião, somos sempre bem-vindos. A intenção é que seja único!”, explica Tiago Fernandes. Na maioria das vezes, a festa acaba à beira-mar com um luau, uma rodinha, música, bebidas e muita diversão.

Carnaval... a festa da euforia, da diversão e do faz-de-conta. O dia em que as saias são mais curtas, a blusa é mais transparente e as barreiras são menores. Não há tabus, leis ou regras que não possam ser quebrados nesse dia, pois tudo é perdoado em nome da diversão. A única ofensa no dia de Carnaval é, sem dúvida, ficar em casa sem o festejar. A escolha é variada e para todos os bolsos, desde o Carnaval mais tradicional em Trás-os-Montes, até às festas mais badaladas como em Ovar ou Torres Vedras, por exemplo. Para os mais afortunados, ainda vão a tempo de comprar um bilhete de avião para a Madeira, para Veneza, para Nova Orleães (EUA) ou para o Brasil. Isto porque no Carnaval só se leva a mal quem não se divertir!

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“Mostrar ao mundo toda a arte que anda por aí” Entrevista ao coletivo Idiot

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Há um ano atrás nascia uma revista dedicada à arte e à cultura urbana, que viria a abalar o Porto. Depressa a publicação online se materializou e passou a englobar iniciativas culturais em vários espaços da cidade. Na sua génese estiveram três idiotas, João Cabral, Nuno Dias e Mariana Ribeiro, aos quais se juntaram artistas, jornalistas, designers, fotógrafos e músicos, que em conjunto fizeram a Idiot crescer. Para 2013 esperam-se muitos outros sucessos, que incluem a publicação impressa da revista, uma linha de roupa e a criação da segunda Idiot em terra de “nuestros hermanos”. Os idiotas tomaram conta da cidade Invicta e agora pretendem conquistar o mundo. Mel Antunes

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Nuno, Mariana e João na Queima das Fitas

Qual foi o primeiro “Idiota” a lembrar-se deste projeto? Nuno Dias – Quando saímos da faculdade abrimos um gabinete de design, o Idiocracy. Queríamos conseguir marcar a diferença de alguma maneira, porque todos os anos milhares de alunos de design acabam a licenciatura, portanto, tínhamos de ser diferentes de algumas maneira. Em conversa com a Mariana Ribeiro, no Piolho, depois de beber um shot de tequila no Mais Velho, surgiu-nos a ideia de fazermos uma newsletter para mostrar os nossos trabalhos, enquanto gabinete de design. No entanto, não tínhamos muitos trabalhos, logo tínhamos de arranjar uma solução. No terceiro ano tivemos uma disciplina, Teoria do Design, na qual aprendemos a auto-publicação. Então, surgiu-nos a ideia de fazermos uma auto-publicação na qual pudéssemos falar do que quiséssemos, sem restrições editoriais, pois os editores seríamos nós. Então, surgiu a ideia de fazer uma revista. 26 // www.IDIOTMAG.com

Em que consiste o conceito “idiota”? João Cabral – O “idiota” é um criador de ideias. Para nós é uma forma de viver, pois fazemos tudo com base neste conceito. Promovemos a cultura, a arte e o talento artístico que andam por aí. Tal como nós criamos o nosso projeto e crescemos no meio desta crise, queremos ajudar toda a gente que está à nossa volta, todos os jovens e amigos, com os seus projetos, para que estes cresçam também connosco. Nós apoiamo-nos neles e eles apoiam-se em nós. Ser idiota é estar orientado para uma atitude proactiva na sociedade. Não tiveram medo que a conotação negativa da palavra idiota fizesse com o os projetos fossem mal interpretados? JC – Isso até é bom, pois dá-nos mais força para mostrar que a palavra idiota não é má. Através das nossas ações conseguimos demonstrar que ser idiota é bom. É ser um criador de ideias, é divulgar e promover toda a idiotice que existe. ND – A própria contradição chama a atenção das pessoas: “Quem é que são estes idiotas que se autointitulam idiotas?”.


“O QUE INTERESSA É A PROMOÇÃO E A DIVULGAÇÃO DA ARTE, DA CULTURA (...)”

Continuaram amigos desde que se conheceram, mas quando é que souberam que queriam mesmo trabalhar juntos? ND – Acho que isso foi acontecendo gradualmente. JC – Eu conheci o Nuno, trabalhamos juntos no Tomate, Get It e depois no Mau Mau. Nunca tínhamos andado juntos na escola. Tivemos uma ou duas disciplinas juntas no [Colégio] CEBES, no 10º e no 11º ano. Acabamos o 12º ano e eu fiz um curso de produção gráfica e multimédia na Alquimia da Cor. Decidi entrar Como é que o Nuno e o João se conhe- na ESAD, mas só no último ano de faculceram? Foi nos tempos da ESAD (Escola dade é que fomos da mesma turma. Superior de Artes de Design)? ND – Foi no segundo ano. No terceiro JC – Não. Já conheço o Nuno há muitos ano fiquei numa turma de noite, mas anos. Conheci o Nuno no Tomate! depois mudaste para a minha turma. ND – Não, não foi no Tomate! Eu lembroJC – No final do curso não tínhamos -me quando conheci o João. Foi na altura nada para fazer, como muitas pessodo IRC, mas quando o conheci pessoalas que acabam o curso e normalmente mente foi em casa de uns amigos. Estasó fazem estágios curriculares, sem va lá um gajo na varanda com um colete conseguir emprego. Decidimos comeazul gigante, com um cabelo enorme e çar um gabinete de design os dois. eu pensei: “Quem é este cromo?!”. Procurámos escritórios na Baixa, enJC – E eu pensei: “Quem é este caga tacos?”. contramos este, no Centro Comercial de Cedofeita, que era o melhor em termos de qualidade-preço. Começámos o conceito “idiota” e, mais tarde, com a Mariana, criamos a revista.

// vê aqui as Idiot Art

http://idiotmag.wordpress.com/idiot-art-2/

Idiot Art no “Gare Day & Night” fotografia © Spyrart CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 27


Por serem jovens e pelo tom descontraído e, por vezes, interventivo, do vosso trabalho, alguma vez sentiram que não eram levados a sério? JC – Nós próprios encaramos este projeto com brincadeira e seriedade, ao mesmo tempo. A responsabilidade está lá e o trabalho é todo feito, mas nada precisa de ser tão sério. Nós puxamos mais para a brincadeira apesar disto ser sério. ND – Mas acho que já aconteceu, ter pessoas a achar que somos muitos jovens para o que estamos a fazer. JC – Sinceramente não dou importância a isso. O facto de a Idiot ter ganho mais notoriedade do que os vossos restantes projetos alguma vez vos incomodou ou aproveitaram isso para se centrarem mais nessa linha editorial? ND – O editorial sempre foi a minha parte preferida do design e criando uma revista claro que tínhamos de fazer o máximo que pudéssemos. Aliás, a cada edição vai sempre melhorando. No início houve a separação entre o gabinete de design

Na Idiot: Mesk, Nuno e João 28 // www.IDIOTMAG.com

e a revista, mas agora é tudo “Idiot”. JC – Primeiro começou com o gabinete e agora também temos a revista. Eu acho que isso faz parte do crescimento do projeto. Nós também não sabíamos como é que isto funcionava. Tínhamos o site da revista que não era tão “bom” como o do gabinete, mas começamos a ver que esta estava a crescer muito mais e que, no final de contas, a nossa arma mais forte seria a revista e não o gabinete. Fomo-nos moldando para essa transformação. No início íamos registar a empresa como gabinete de design mas agora já registamos como revista. Todo este processo faz parte do crescimento e ajuda-nos a descobrir como funciona o meio. ND – Uma revista é completamente diferente de um gabinete de design e acho que lhe ganhamos-lhe o gosto. Mesmo tendo formação em design acho que o que gostávamos os dois de fazer no futuro era continuar com a idiot mag. Lidamos com muitas mais pessoas, com conteúdos atuais... JC – É muito mais dinâmico.


“(...) SOMOS ASSIM, IRREVERENTES, PROVOCADORES.”

A equipa da Idiot é composta por amigos e outras pessoas, cuja maioria vocês já conheciam. Existe um ambiente muito familiar. JC – Sim há muito esse ambiente familiar. Mesmo as pessoas que entram para a equipa e que nós não conhecemos começam a pertencer a essa família. Isto nunca foi como uma empresa em que tu vais trabalhar das 9h às 18h. A própria revista em si é descontraída. É o tal ambiente de brincadeira do qual estávamos a falar há um bocado. ND – Acaba por o trabalho não ser encarado como trabalho. Ultimamente João e Nuno a não temos tido tempo livre, mas penexperimentasamos sempre que estamos a fazer o rem as novas roupas da Idiot que gostamos.

O tom descontraído, provocador e desafiante da Idiot foi intencional ou foram os colaboradores que vieram a acrescentar essas características? JC – Essa parte surgiu logo desde o início, porque nós também somos assim, irreverentes, provocadores. ND – Quisemos mostrar desde o início que esta era uma revista descontraída. JC – E uma revista sem tabus. Onde ninguém pode dizer que isto ou que aquilo é mau. Isto é o que nós queremos que a revista seja. A revista é nossa, ninguém a paga, ninguém a financia, ninguém apoia a revista com dinheiro, portanto a revista é nossa e fazemos dela o que queremos.

// vê aqui todas as Idiot Mag

http://idiotmag.wordpress.com/magazines-3/

Idiot Mag fotografia @ Ligia Claro CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 29


a preparar esta edi巽達o: Nuno, Rui, Bruno, Flora e Jo達o

a preparar uma Idiot Art: Jo達o e Nuno

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O que diferencia a Idiot de todas as outras revistas portuguesas do género? JC – A Idiot não é igual a nenhuma outra revista que existe neste momento. O que diferencia a idiot mag é o próprio conceito de “idiota”, que não inclui apenas a revista. O que interessa é a promoção e a divulgação da arte, da cultura, que hoje em dia quase não existe. Tiram os subsídios à Casa da Música, tiram a Praça da Alegria daqui do norte... Fazem uma série de coisas negativos. Nós fazemos o contrário. Promovemos e divulgamos a cultura através da revista e através das exposições na própria cidade. Esta é a diferença desta revista perante as outras. Há mais publicações deste género, mas são só revistas, com entrevistas, artigos, etc. Nós temos um conceito, exposições e artistas que estão connosco, como o Hazul, o Mesk, a Tamara, a Inês Pérez, os VHS#17, a Patrícia Bandeira, e mais alguns, que convidamos para que connosco possam vir a crescer. ND – A linguagem da revista também é diferente, é muito mais próxima. Acaba por ser uma revista muito mais próxima do leitor. JC – Ficamos com uma boa relação com os artistas que tivemos até agora e com eles vamos continuar a crescer. Eles próprios também se autointitulam idiotas. Todos nós fazemos parte desta revista. No caso das outras publicações compra-se uma revista, com a idiot mag todos somos a revista. De certeza que está nos vossos planos ter uma revista impressa. Para quando podemos esperar uma publicação em papel? JC – A primeira revista impressa vai ser... ND – Não digas! JC – Pronto, não vou dizer quando, mas posso dizer que vai ser para breve. ND – E a revista traduzida em inglês, já perguntaste isso? Não, tu é espreitaste e leste isso nos meus apontamentos! (risos) ND – A revista vai começar a ser traduzida em inglês a partir do número zero e vai estar disponível brevemente. Até porque vemos através das estatísticas que temos muito público estrangeiro. JC – Já tínhamos desde o início e cada vez há

Jeff e João

mais público estrangeiro. Eles não percebem nada de português, mas cada vez gostam mais das imagens e dizem que a revista está cada vez melhor. Aliás, os colaboradores que temos no estrangeiros dizem exatamente isso, que a revista é linda, mas que têm pena de não entenderem nada. Por falar em colaboradores, continuam a ter muitos pedidos de colaboração? JC – Imensos. ND – Quase todos os dias. JC – Há muitos que nem respondemos, porque temos tanta coisa para fazer que não conseguimos responder a todos. Neste momento não conseguimos dar resposta a tantos pedidos. Seria impossível inserir todas as pessoas que falam connosco no projeto. Até porque o resultado seria uma revista com demasiadas páginas. JC – Pois. Cada vez tem mais páginas a revista, o que não pode ser viável, até porque quando for impressa terá um número fixo de páginas. ND – A primeira revista tem 40 páginas. A última tem 88. JC – O número de páginas tem de estar definido quando formos imprimir. Entretanto também haverá possibilidade dessas pessoas que vos contactam saírem numa publicação. A vez chegará a todos. JC – Claro! Há muitas pessoas às quais não respondemos logo, mas em determinada altura do campeonato achamos que os seus trabalhos encaixam bem. Nessa altura entramos em contacto com as pessoas. CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 31


Em que é que consiste “O Grande Idiota”? ND – “O Grande Idiota” é o primeiro concurso da idiot mag onde queremos promover a arte. No final do ano decidimos fazer um concurso na área do design gráfico, da ilustração, da fotografia, do vídeo e da literatura. Vamos premiar a ideia mais idiota. Dentro de cada uma das áreas vamos escolher duas pessoas como vencedores dessa categoria. Depois será feita uma triagem para o primeiro prémio. O “Grande Idiota” vai ganhar um tablet de 7 polegadas. JC – As pessoas apresentam os seus trabalhos e vão ter a oportunidade destes serem expostos na ESAD e de saírem na idiot mag. O mais idiota ainda ganha um prémio. Estamos a puxar por todos os artistas, dentro e fora do Porto e do país. Já nos perguntaram se as fotografias podem ser analógicas e não há problema nenhum nisso. Também já nos perguntaram se é preciso ter um curso para concorrer e a resposta é não. Qualquer pessoa pode concorrer. Precisa simplesmente de ter boas ideias, de querer mostrá-las e de ter vontade de trabalhar. Também temos visto que muita gente não tem vontade. Queixam-se todos, mas não fazem nada por eles próprios. ND – Ter o trabalho exposto numa escola de design e numa revista é sempre bom para alguém da área das artes. Acham que existe muito talento desaproveitado e desconhecido na sociedade atual? JC – Há talento desaproveitado, mas também há muito pouca vontade das pessoas. Nota-se bem a diferença entre quem tem vontade de trabalhar e quem não a tem. No entanto, estamos aqui para aproveitar esse talento e para mostrá-lo ao mundo. A falta de apoio às artes é algo que vos desmotiva ou que, pelo contrário, vos dá mais força para remar contra a maré? JC – Sim, isso ainda nos dá mais vontade de remar contra a maré. Não apoiam a arte, mas nós sozinhos conseguimos construir isto tudo e mostrar ao mundo toda a arte que anda por aí. ND – Gostamos sempre de um bom desafio. Não é um problema se não há apoios, pois nós somos o nosso próprio apoio. Tirem uma fotografia à cidade e vão ver como vai estar daqui a dois anos. 32 // www.IDIOTMAG.com

Falaram na possibilidade dos artistas exporem os seus trabalhos na revista, mas também os podem ter em exposições como, por exemplo, na idiot art. JC – Exatamente. Os melhores artistas do concurso “O Grande Idiota” vão acabar por trabalhar connosco, mesmo que não sejam vencedores. Se o trabalho for bom e tiver qualidade vamos convidá-los para outras exposições e para participarem na revista.


Instalação dos Idiotas no Get Set Art Festival 2012 a convite dos VHS#17 fotografia © Adriano Ramos

// Ver o vídeo

http://www.youtube.com/watch?v=JwOsQiFZDNM

Nas três edições da idiot art fizeram parcerias com bares, discotecas, restaurantes, artistas e até um centro comercial. Acham que o sucesso das iniciativas artísticas passam pelo estabelecimento dessas parcerias? JC – Eu acho que é fundamental. Nós crescemos tanto e em tão pouco tempo pelo trabalho e por essas parcerias. Ajudou muito ter as parcerias e o apoio dos amigos. Ir para vários

sítios, expor em restaurantes, em bares, no Centro Comercial de Cedofeita, em discotecas. ND – Aprendemos muito mais a fazer coisas em sítios diferentes do que aprenderíamos se estivéssemos sempre no mesmo espaço. JC – Ao longo deste percurso vamos também aprendendo as dificuldades e a saber fazer as coisas bem. ND – A cada iniciativa tudo vai correndo melhor. CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 33


Já passou um ano deste a primeira edição da idiot mag. Durante esses doze meses qual foi o momento em que souberam que esta revista era para durar? ND – Acho que foi antes de lançarmos a revista. JC – A partir do dia 3 de fevereiro [de 2012] soubemos que isto era um projeto para a vida. A vontade que temos agora é a vontade que tínhamos, ou ainda maior. E já compartilham essa vontade com outras pessoas. JC – Já não somos só nós. Já é um grupo muito maior. Já é um bando de idiotas. JC – Sim! (risos)

Cartaz de uma Idiot Art 34 // www.IDIOTMAG.com


E qual foi o momento mais importante para a revista durante esses 12 meses? JC – À medida que fomos crescendo houve muitos momentos importantes e muitos momentos decisivos. Há sempre passos a dar. Mas tens que destacar pelo menos um. ND – A última que aconteceu foi a entrevista na Praça da Alegria. Foi engraçado vermos tanta gente a partilhar essa entrevista. JC – Acho que são todos os momentos. Primeiro criamos a revista e depois foram as exposições. Demos uma entrevista ao Porto Canal. Foi a primeira vez que estivemos na televisão. Fizemos outras exposições, na rua e com música ao vivo. Participamos com o Gare no “Day & Night”, com a vista linda do Jardim das Virtudes, o que também foi um passo enorme. A partir daí já tivemos contactos com mais artistas e começamos a perceber como funcionava a nossa ligação com eles. Depois convidaram-nos para o Get Set. Nunca tínhamos entrado num festival como artistas. Por fim, foi a Praça da Alegria. As revistas a saírem todos os meses,

estando cada uma melhor do que a outra também foi um passo enorme. Todos os passos são importantes. A ambição dos “idiotas” pretendem fazer chegar a revista e todas as iniciativas do coletivo até onde? JC – Brevemente esta revista será impressa e depois disso teremos mais alguns meses para estruturá-la e tê-la bem definida. Em seguida partimos para Barcelona para abrir a segunda idiot mag. Voltaremos ao Porto uma vez por mês, para fazer o alinhamento e a paginação da revista. ND – Temos mais coisas pensadas para o futuro, mas para já não as podemos revelar. JC – Este ano vai ser o ano da criatividade. ND – Outra novidade é o editorial deste mês, onde estão as primeiras peças de roupa da marca Idiot. JC – Vamos ter uma linha de roupa e este mês estamos a apresentar as primeiras peças: t-shirts, tops e caveadas. E vamos ter uma linha de roupa ilustrada por todos os artistas que já ilustraram a revista. Portanto, sonhos temos muitos e sonhos com data são objetivos!

ação de promoção Idiot Art Ana, Mariana, Moli, Flora e João fotografia © Ligia Claro CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 35


fotografia: SPYRART

Foi no passado dia 19 de janeiro que a Idiot Art, as exposições da nossa Idiot se mudaram para a Rua da Madeira. Em semana de alerta vermelho, conseguimos um alerta Hazul e mais de 200 alunos da ESAD Matosinhos, cobriram as paredes laterais da centenária Estação de São Bento com os seus autorretratos. A fachada do Gare Porto, espaço tão entranhado na cultura musical da cidade, ficou a cargo de Hazul Luzah, que criou certamente,

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uma entrada para uma nova dimensão. No espaço Traçadinho, a tarde foi completada com atuações de bandas ao vivo e dj’s. Fica o agradecimento à REFER e à CP, que tão prontamente apoiaram o projeto, e aos Elias, Sérgio e Emanuel, da ESAD, sem os quais esta IDIOT ART não seria possível. Preparem-se agora que as paredes do Gare Porto serão as nossas telas e quando menos esperarem um grande artista terá interpretado uma delas.

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Banda Versus

“This Wall Is Mine””, paredes da estação CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 39


“Tempestade” Hazul

“This Wall Is Mine”, Traçadinho 40 // www.IDIOTMAG.com


Hazul Luzah nas latas entrada Gare Porto CULTURA E TENDĂŠNCIAS URBANAS // 41


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“This Wall Is Mine””, paredes da estação CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 43


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“This Wall Is Mine””, paredes da estação CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 45


“UM POVO SEM CULTURA É UM POVO SEM IDENTIDADE.”

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“Portal Hazul” fotografia © Lígia Claro

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E SE EXISTISSE UMA MARCA DE ROUPA QUE SE ADAPTASSE TANTO A TI, COMO À TUA CIDADE E AO TEU ESTILO DE VIDA?

Roupa: Idiot // Fotografia: Lígia Claro // Ilustração: Mesk, Tamara Alves // Cabelos: Anjos Urbanos // Maquilhagem: Catarina Albano // Vídeo: Rita Laranjeira // Modelos: Inês Peres, Nuno Carneiro, Vânia Soura // Cenário: Hazul 48 // www.IDIOTMAG.com


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1 / tshirt Idiot, caveada Mesk // 2 / caveada Mesk, top Tamara Alves // 3 / camisola Idiot, caveada Mesk

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1 / caveada Mesk, top Tamara Alves // 2 / caveada Mesk // 3 / tshirt Idiot

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1 / blusão e tshirt Idiot // caveada Mesk, top Tamara Alves

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1 / camisola Idiot

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1 / blus達o e tshirt Idiot // 2 e 3 / caveada Mesk, tshirt Idiot 58 // www.IDIOTMAG.com


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1 / tshirt Idiot // 2 / camisola Idiot, caveada Mesk // 3 / caveada Mesk

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texto:Ped fotografia: SPYRART

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Ribeira e Estação de S.Bento 66 // www.IDIOTMAG.com


PETER GEORGE TWYMAN VIVEU NO PORTO 10 MESES, COMEÇANDO EM SETEMBRO DE 2008, COMO PARTE DO SEU CURSO EM ALEMÃO E PORTUGUÊS, NA UNIVERSIDADE DE MANCHESTER. COMO PARTE DO PROGRAMA ERASMUS, ELE INGRESSOU NA FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO E PARTILHOU CASA COM OUTROS 23 ESTUDANTES ESTRANGEIROS. Antes de aterrar, conhecia muito pouco sobre o Porto e tendo passado um mês, antes de chegar, em Lisboa, fui assolado com a completa e total diferença entre as duas cidades. Para mim, que tinha desembarcado de um cinzento verão inglês, Lisboa desenhou-se como um paraíso de mármore, onde vagueávamos sob o sol abrasador e bebíamos nas apertadas ruas boémias do Bairro Alto. Quando, enfim, cheguei ao Porto, um mês

mais tarde, tinha-me tornado um completo devoto da cidade de Lisboa. E enquanto estava sentado no Piolho, observando os edifícios e o pavimento do mesmo tom de cinzento, começou a chover e o meu coração afundou. É costume dizer-se que olhamos para o Passado com uma compreensão perfeita de todos os seus pormenores, mas estão errados. Tenho quase certeza que a minha memória me pega uma partida,

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pois, na minha mente, começou a chover naquele dia de setembro e só parou em março. Gradualmente, comecei a explorar a cidade, a conhecer as pequenas e grafitadas ruas e becos da Ribeira, os pequenos cafés da Baixa, e as atrações periféricas de Matosinhos e da Foz. Nós frequentávamos o Contagiarte, as Galerias de Paris, a noite académica da Ribeira e, claro, o Piolho, mas não me conseguia distanciar do sentimento que era tudo muito desconexo. Que o Porto era uma cidade desconexa. Tornava-se cada vez mais difícil encontrar o meu lugar

Casa da Música 68 // www.IDIOTMAG.com


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na cidade, pois parecia que o Porto existia anacronicamente em relação ao resto do mundo. À medida que o Verão se aproximava, apercebi-me, repentinamente, a razão do Porto se impor como o ambiente urbano estranho que é: a cidade é um conjunto de peças que não encaixam, mas que juntas criam uma atmosfera incomparável e particular. É única do seu próprio modo. E embora tenha demorado meses a perceber isto, quando aconteceu a cidade ganhou outra vida. Deixara de ser uma cidade espalhada por uma

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Passeio Alegre

encosta, recostada nos dias de glória do seu vinho; era uma cidade que criava ondas e picos de “cool” sem nunca sentir a necessidade de contar a ninguém. Não existe um único horizonte urbano que possua a mesma beleza e impacto da cidade do Porto vista de Vila Nova de Gaia, ou da dos Aliados vista da Praça da Liberdade. E apesar da grandiosidade da maioria dos edifícios e das paisagens urbanas do Porto, encontrar por acaso uma pequena galeria ao lado de um Mini Preço em ruínas, na Rua Miguel Bombarda, ou uma coleção

fotografia © SPYRART

Restaurante dos Jardins do Palácio de Cristal CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 71


de apartamentos empoleirados na encosta do Bairro Inês era igualmente gratificante para o viajante em mim. O Porto havia encontrado uma maneira de penetrar o meu coração, não por ofuscar a minha mente ou corromper os meus sentidos com mármore e praças, mas por oferecer subtilmente as suas graças e talentos e rapidamente virar costas, como se não se importasse se eu desse pela sua presença ou não. O Porto tem uma confiança tranquila no seu “cool factor” e no seu futuro e eu deixei a cidade com essa mesma silenciosa segurança que os próximos estudantes a chegar iriam descobrir o verdadeiro coração da cidade. 72 // www.IDIOTMAG.com

em cima Rua 31 de Janeiro, em baixo Rua da Assunção


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ESTE ESPAร‡O

PODE SER SEU!

IDIOT MAG // IDIOT ART // IDIOT DESIGN www.idiotmag.com Rua de Cedofeita, 455, 5ยบ sala 49, Porto mag @idiocracydesign.com 74 // www.IDIOTMAG.com


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Dois amigos. Um sonho em comum. João e Pedro sempre quiseram ter uma marca de roupa. Sabiam de antemão o quanto agressivo é o mercado. Mas eles queriam vingar, e também sabiam que para isso, ou investiam muito em marketing ou acrescentariam algo de novo ao vestuário. É daí que surge esta ideia tão inovadora, e juntos fundam a EarBox. Roupa que dá música. E porquê algo relacionado com música? Primeiro, porque passavam uma boa parte do seu tempo a ouvir música em casa, mas repararam que nunca levavam a

sua música para a rua. A isto junta-se o facto de acharem os headphones desconfortáveis. Então pensaram na possibilidade de integrar um sistema áudio em sweats de capuz. E assim foi. A EarBox foi lançada no SW10 com o intuito de vender as primeiras peças e sobretudo apurar o interesse deste target pelo produto. O resultado não poderia ser melhor. Adesão e feed-back mais do que positivo. A EarBox conta com 4 embaixadores oficiais, como é o caso de: Allen Halloween, dB, Susana Luzir e Robô. Conta também alguns youtubers, são eles : Gillio, Nurb e Conguito. A ideia dos embaixadores surgiu logo no início. Sempre quiseram ter artistas, músicos, desportistas com eles. É sabido que o facto de estes usarem roupa EarBox, faz com que os seus seguidores se sintam tentados a usar a mesma marca que eles usam. Mas acima de 76 // www.IDIOTMAG.com

tudo procuraram embaixadores com o intuito de criar identidade para a marca. No caso dos youtubers, a legião de fãs é muito mais intensa. Se um youtuber usar EarBox então a probabilidade desses fãs quererem comprar é ainda maior. Se inicialmente as expectativas dos fundadores estavam relacionadas com o factor inovação, o que é certo é que hoje os motivos de venda vão muito para além disso. Neste momento a “crew” EarBox cresce a olhos vistos e são cada vez mais os clientes fideliza-

dos. Quem compra um produto EarBox, muitas vezes acaba por comprar outros. E fidelizar é talvez a maior preocupação da marca. Fidelizar clientes com a máxima satisfação possível. Para já a EarBox quer afirmar-se no mercado português. Procurar que a venda e a proximidade ao cliente sejam cada vez mais estreitas. É importante tentar criar um modelo de negócio que fique muito perto da perfeição. E é para isso que eles trabalham, sem nunca se esquecerem do grande objectivo chamado internacionalização, ou se desviarem do sonho de que a melhor hoodie do mundo seja portuguesa... Marisa Martins


PUBLICIDADE fotografia © Susana Luzir

http://www.earboxwear.com/ https://www.facebook.com/EarBoxWear CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 77


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SENDO ESTE MÊS, O MÊS DE ANIVERSÁRIO DA IDIOT, DECIDIMOS ENTREVISTAR PARA A SECÇÃO “ELE”, O NOSSO REDATOR MAIS CONECTADO À 1ª ARTE: NUNO DI ROSSO, UM APAIXONADO POR MÚSICA QUE DESDE MIÚDO QUERIA FAZER RÁDIO. Bernardo Alves

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// facebook

http://www.facebook.com/nunodirosso

// mix cloud

http://www.mixcloud.com/nunodirosso


Conta-nos quem és, e como começaste a tua carreira? Sou o Nuno, um apaixonado por música que desde miúdo queria fazer rádio. Apanhei com a explosão da música electrónica no nosso país em cheio na cara, Isto foi em 93 ou 94. Já antes animava com outros amigos as nossas míticas festas para doze ou treze marmanjos de buço por fazer, recorrendo a mesas de mistura para instrumentos, muitos adaptadores e leitores de cd’s caseiros, que rodavam as colecções de toda a gente. Mas quando ouvi pela primeira vez um dj a trabalhar à séria, pensei que aquela era uma coisa que gostaria de fazer. Fui continuando a fazê-lo com amigos e para amigos, mas com uma intenção diferente e com outros meios. Mesas melhores e pratos, primeiro um pioneer com tracção por correia e um pitch que ía do -3% ao +4%, pois estava um pouco desregulado. Depois vieram os technics 1210, o aperfeiçoar, a zanga com o techno, depois com o house, as experiências com música mais abstracta, o perder a vergonha e começar a tocar em pequenos bares, o fugir à zona de conforto e ser atirado aos leões nos after-hours da Dub em Lisboa. Depois chegam as residências no Garage, na Indústria, e o tocar um pouco por todo o país. Depois vim viver para o norte, estive por cima, estive por baixo, quase desisti, mas achei que não teria muito sucesso como gigolo e voltei a investir tudo no djing. Comprei uma capa numa revista da especialidade e apareci de manga caviada numa série de gigs.

Produção, tencionas começar...? Já fiz algumas coisas e até editei dois temas que fiz com um bom amigo meu, o Félix Da Cat, que está hoje radicado em Berlim. Estou a re-organizar-me para começar a fazê-lo sozinho, agora que tenho mais tempo para isso e que voltei a ter aquela vontade para o fazer. Na tua opinião, qual é o estado da dance scene portuguesa, e o que farias para a melhorar? Penso que a dance scene portuguesa está hoje de melhor saúde do que há uns anos. A poeira assentou, a coisa compartimentou-se, os clubes especializaram-se e criaram-se as bases para termos verdadeiros circuitos, com clubes e bares virados para música mais ou menos minoritária espalhados por todo o país. Isto, graças à carolice de muita gente, que embora não ganhe fortunas a fazer isto, vai arriscando o pescoço pelo amor à causa. É claro que já não temos aquelas mordomias que fizeram desta uma profissão desejada por tantos. Os cachets principescos, os hotéis de luxo e as viagens aéreas dentro do país acabaram para quase toda a gente, porque hoje há quase uma fé inabalável, uma verdade quase absoluta, que o zé da esquina consegue fazer o mesmo que tu só com o i.phone e um cabo mini jack - rca.

Quais os teus planos para 2013, “o ano da criatividade”? Para este ano espero conseguir levar o projecto Traçadinho a bom porto, passar horas sem fim a tentar fazer uma música de jeito, continuar a Que equipamento costumas usar nas tuas actuações? fazer o meu programa na RUM e levar a minha Uso o traktor, computador e o que me dispo- música ao maior numero de pessoas possível, nibilizarem por essas cabines fora. Prefiro uns sem perder a minha identidade no processo. leitores de cds simples, os 2000 da pioneer são razoáveis, mas toco muitas vezes com pra- Onde podemos encontrar-te? tos e gostava que houvessem condições para Podem encontrar-me todas as sextas feiras rodar mais vezes algumas das preciosidades às 22 na RUM, onde continuo em antena com que tenho encostadas lá em casa. É que com a Connected. Faz em março três anos que cochegada do digital a maior parte das cabines meçou esta aventura, e cada vez gosto mais deixaram de ter todas as condições para tocar de o fazer. Na rede estou no Facebook, no vinil. Gosto de adicionar alguns efeitos e lo- Mixcloud, na página da RUM, onde tenho o ops subtis, por isso às vezes uso um controla- arquivo completo de todas as emissões, com dor para facilitar as coisas, se bem que tenho o alinhamento de praticamente todas, no muita prática com o pad do computador. Já me Soundcloud, apesar de não estar particularchamaram mestre do rato, mas não gostei da mente activo nessa plataforma, e claro, pelas alcunha e mandei espancar o engraçadinho. cabines de Portugal, com particular enfoque em Lisboa e Porto. CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 81


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Esta é a Heidi, uma rapariga muito simpática da Finlândia. Encontrei-a na Rua Assunção, mesmo ao lado da Torre dos Clérigos, na língua de Sua Majestade pusemo-nos as duas na conversa como se não fizesse frio e quase atropeladas por um elétrico. Fiquei a saber que a Heidi é responsável pelo departamento de moda feminina da recente marca Laene Scandinavia, de fabrico português. O casaco sem costuras é um dos exemplos do que a marca propõe, feito cá. Ana Anderson

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www.thecoffeeshopseries.com CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 85


Ligamos a televisão e já não aguentamos noticiários deprimentes nem escândalos financeiros. Escândalo por escândalo, preferimos o escândalo “ficcional” da nova série de culto da Fox protagonizada por Kerry Washington e produzida pela ABC. É viciante. A série gira em torno de uma ex- funcionária da Casa Branca, Olivia Pope, apaixonada pelo presidente Fitzgerald Grant III (Tony Goldwyn). Olivia resolve qualquer crise, desde um escândalo político a uma crise diplomática ou uns arrufos domésticos. “She fixes, she solves”. Não há nada que escape a esta mu-

lher cuja personagem é baseada na ex - assessora do governo de Bush, também actual produtora executiva da série. A Fox já está a transmitir a segunda temporada. Já (ou)vimos dizer que vêm aí surpresas “chocantes”. Scandal é criada por Shonda Rhimes, responsável também por Anatomia de Grey. No cinema, não deixem de ver “Life of Pi”. Se já não o apanham no cinema, amanhem-se. Baseado no romance homónimo de Yann Martel, que venceu um Booker Prize (a Idiot já o leu e recomenda), o filme é realizado pelo mestre Ang Lee (O segredo de BrokeBack Mountain, O tigre e o dragão) e conta a história de sobrevivência de um jovem indiano. Filho de uma família que administra um jardim zoológico, Pi aceita o hinduísmo, o budismo e o cristianismo com a mesma fé e dedicação. Quando a sua família decide mudar para o Canadá, o navio naufraga e Pi e a sua crença em Deus são postos à prova no mar, durante 227 dias num bote salva vidas partilhado por um tigre de bengala. Os críticos classificam o filme com 2 estrelas, mas os idiotas não querem saber. texto: Tish

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Não nos cansamos de ouvir good kid, m. A.A. d City, o melhor álbum (do género) de 2012, do californiano Kendrick Lamar. Para quem curte hip hop, este não pode faltar na colecção. Para quem nada noutras praias, aconselhamos na mesma a ouvir. É impossível ficar indiferente a temas como “Bitch dont kill my vibe”, “Backstreet Freestyle” ou “Good Kid”. Fixe fixe era vermos este rapper prodígio ao vivo. Lamar incendeia os palcos por onde passa e nós gostamos disso.

Retomámos a paixão pelo sr Haruki Marukami e fomos repescar à prateleira de 2006 Kafka à beira-mar. O livro narra a história de duas estranhas personagens, enigmáticas e misteriosas. Kafka Tamura, um jovem que foge de casa os 15 anos e Nakata, um idoso que faz da procura de gatos desaparecidos o seu modo de vida. Neste romance há gatos que falam e prostitutas que citam Hegel. Para ler ou reler este talento vindo do Japão e trazido até nós pela Casa das Letras. “Sou livre. Fecho os olhos e penso com toda a minha força na minha nova condição (…) Tudo o que sei é que estou completamente sozinho. Desterrado numa terra desconhecida, como um explorador solitário sem bússola nem mapa”. CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 87


DESABAFOS DO HENRIQUE CIMENTO

Rui De Noronha Ozorio

Quinta-feira, 10 de Janeiro. Fim da Tarde a roçar as 19 horas. A estas horas a noite já não é criança e apenas este frio bem gelado se mantém acordado desde o dia anterior, numa atitude de irreverência de quem veio para ficar. Faço-me acompanhar pelo Bruno Manso que vem fotografar num registo bem idiota, como manda a etiqueta e a desregra desta revista. Estamos na Rua Álvares Cabral à porta do “Contagiarte”. Viemos ver o ensaio geral de “Os desabafos do Henrique Cimento”, uma Criação Madafakaconcept produzida por Beatriz Frutuoso e Ismael Calliano, também ele autor do brilhante texto que mais adiante tive o prazer de ouvir. O actor era o Tiago Araújo

fotografia © Inês Simão

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que, aviso, aplaudo de pé! O espectáculo começou. Sala negra sem vida. De repente, a luz começa a desenhar um telefone vermelho, duas portas, uma cadeira e um cadeirão com uma caixa por baixo. Nessa caixa, apenas coexistiam tabaco, mortalhas, filtros e erva – bendita a hora que a natureza propicia a sua grandeza. Na verdade, estamos numa “prisão” feita de três paredes e um vidro inexistente, mas compacto e impenetrável. No fundo somos nós, o público, que nos estamos a ver noutro corpo, noutra atitude mas com as mesmas perguntas, a mesma força de saber quem somos, como enriquecemos, como ficam as contas bancárias gordas e a


alma tão vazia. Quanto dinheiro isso vale? Henrique Cimento é cada um de nós naquela personagem do Tiago. O Tiago chega a nós com variadíssimos estados de espírito, aponta-nos o dedo, grita-nos sobre a evolução da sociedade na qual somos derradeiros culpados, mostra-nos pelo espelho o quão espectadores da vida somos, o quão ainda podemos sonhar, lutar pelo que se acredita. O texto tão aglutinador, emocionante, num monólogo dialogante entre nós e a personagem e entre nós e nós mesmos, vai decorrendo ou escorrendo como poesia, poesia que fala alto e acorda, poesia de imagens que vão criando cenários onde o povo grita, onde o Nós se senta à mesa de café, acende um cigarro e tira aquela passa bem travada e a expele com força de desabafo. Hoje pede-se que eu faça uma crítica ao que vi naquele espaço. Pois ali eu entrei por osmose noutra dimensão, numa dimensão que mexe contigo porque fala de ti e di-lo com todas as letras todos os teus estados de espírito, toda a tua conduta e maneira de estar na vida. Saí daquele espaço com a sensação de soco no estômago e encantado ao mesmo tempo.

O cenário era simples. De facto não era preciso mais nada. Eis a prova de que não é só o dinheiro que promove bons espectáculos e este tinha, sem dúvida, mais direito a estar num São João ou Num Carlos Alberto do que qualquer Ricardo Pais que por aí exista a fazer teatro. Tenho pena que neste país não se dê valor a jovens que criam coisas tão bonitas como este Henrique Cimento, Henrique Cimento das Ideias, Henrique Cimento do Olhar, Henrique Cimento do Grito, do grito que quer sair da caverna platónica das sombras. O Teatro, quando feito assim, é a maior raíz de educação, o maior espelho de acção que se pode ter em sociedade. Estes jovens artistas promovem o mais nobre dos serviços públicos e, no entanto, o que é que os públicos fazem em troca? O que o Estado faz para animar a malta? Com Certeza que nada desta vida, sabes o que é nada desta vida? É nada desta vida! Eles voltam com o Henrique Cimento em Fevereiro, por isso estejam atentos à página de facebook (http:// www.facebook.com/pages/Madafaka-Concept/) , quem não viu: aconselho vivamente… até porque este Henrique é um MADAFAKA igual a nós!

fotografias © Bruno Manso

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*aviso antes de ler, a pedido do editor, nesta crónica pululam obscenidades e relatos para maiores de 18… tabuísmos… “lista [lísta] . s. f. (Do fr. liste). Cf. listra. 1. P.Us. Tira estreita e comprida de papel ou pano. 2. Risca, faixa de cor diferente da do conjunto onde está inserida. ≈ LISTRA. (…) 3. Zootec. Risca de pêlos, de certos animais, muito mais escuros do que os da pelagem em geral. ≈ LISTRA. (…) 5. Esteira, rasto de embarcação. ≈ LISTÃO. 6. Relação de nomes de coisas ou pessoas geralmente posto por escrito uns após os outros e por uma certa ordem. ≈ ROL. (…) Estar, constar na +; fazer parte da +; fazer, elaborar uma +; pôr na +; tirar da +; acrescentar à; engrossar a +; afixar a +; sair a +; vir à cabeça da +. lista civil, conjunto de verbas com que são dotados pela nação um chefe de estado ou um monarca. lista de espera, relação de nomes de pessoas que aguardam um determinado serviço. (…) lista de verificação, relação de operações obrigatórias para observar e garantir o bom funcionamento de um avião antes de iniciar uma viagem.(…) lista oficial, relação dos nomes dos candidatos que se propõem a votação, seja uma entidade particular ou pública. (…) 7. Relação oficial dos prémios de uma lotaria. (…) 8. Relação dos pratos que se podem servir num restaurante com a indicação do preço. ≈ EMENTA. (…) 9. Relação dos candidatos que se apresentam conjuntamente a uma eleição, com o mesmo programa. (…) 10. Enumeração, série. (…) à lista, loc. adv., à escolha. (…) em lista de espera, à espera de vez.(…).” in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa, Verbo, 2001 No longo rol das suas coisas preferidas, Patrícia incluía o que a permitia ter o rol na sua origem. Tinha, assumidamente, um vício por listas. Talvez por se sentir tantas vezes em cor diferente de onde se inseria, ou por reconhecer na sua pelagem de animal selvagem um certo traço de doninha sempre em busca do amor, cheia de musas e inspirações, à Pépe le Pew. Ou talvez por ser um dos primeiros sinais dos traços que desde cedo se revelaram, quando as 14 e 15 anos fazia listas dos rapazes por quem estava enamorada por ordem constantemente alterável. As suas listas não seguiam ordens de importância, nem acessos prioritários, eram apenas controladas por outras listas, listas alfabéticas de letras, listas de tempo e datas precisas. As listas permitiam-lhe organizar conhecimento, e sempre se tinham ligado ao afectivo e emocional, campo onde experimentava as mais diferentes teorias e riscava da lista práticas e experiências. Havia a lista daquilo por que queria passar, de todas as curiosidades para matar e outra de umas quantas para repetir. Essa era a lista de onde se tiravam palavras. Caía o A de anal no primeiro namorado, o B de bondage quando outro entrava para a lista, o S e o D uns anos mais tarde, seguidos e de marcas deixadas, o Peg94 // www.IDIOTMAG.com

ging na visão do rapaz de quatro por ela sodomizado, com uma intensidade que só a vivência do D anterior lhe poderia ter permitido. Sossega, quieto, um mordo na orelha, um ligeiro puxar de cabelos, a mão no queixo com barba e o vais ver que vais gostar sussurado, enquanto ele se deixava, calado, minha puta, penetrar, lenta e saborosamente como se o Strap-on fosse tão ela também, naquele e em todos os outros momentos. O G de gender-bending quando a encostou de pernas abertas e a possuiu com o mesmo instrumento, feito extensão, ainda meio preso pelos boxers e com as calças de ganga caídas nos joelhos. O F de foder e o A de Amar, misturados na mesma pessoa naquele segredo com que depois de tratada com a violência maior do alívio que era se encontrarem corpo a corpo, se enroscavam em concha, ainda a tremerem nos braços um do outro, ainda em movimentos sincopados de quem se sentia mais que com outro dentro, dentro dele também, num terminar a que apenas eram obrigados pelo cansaço. O O onde o outro parava depois de a ter feito vir apenas com a sua boca, por uma exigência dela que nunca o queria satisfeito. Até o C de chorar, o homem bébé de formas curvas que soltava lágrimas de prazer a cada encontro, surpreendido por uma intensidade que nunca tinha encontrado. O B, escondido pelo saco cama no meio da sala e da gente, um lábio mordido depois de lha ter batido tão bem até se vir. Um dos alfabetos, o de práticas, onde ainda faltavam tantas letras e que a cada vez se descobriam mais para repetir. A lista dos lugares, onde faltava o mais batido, os dois c’s repetidos e desejados com tantos amantes que nunca se concretizavam, o capot do carro, de luzes abertas e um frio leve do metal onde tanto queria ser fodida. O E…levador cumprido, a Cama banalizada, a Mesa tantas outras vezes quanto o Lavabo, as várias Varandas e Janelas testadas. A lista das Taras com já tantos vistos: A, B, D,S,M,V,E,P,S,D,T… O V de virtual com que arriscava tudo por pôr um C de demasiado coração no Caso que não iria a lado nenhum. E o abecedário com que jogava ao stop vendo as poucas letras que faltavam na meia centena de amantes que lhe tinha calhado, um X, um I, um G, um K, um O, um U, contraposto pelas que mais pontos lhe davam. Também as numéricas contavam, guiadas por um continuo tempo, os que a tinham possuído, os que por ela tinham passado, os poucos que a tinham magoado e os ainda menos que tinha amado. O recente abecedário de dor de um B a Z, com um C bem marcado. As ementas provadas, onde o preço era apenas o prazer mútuo proporcionado e a série enumerada, onde a cada um correspondia um nome e um tempo específico, num vai vem entre pratos exóticos e doses do dia. E aqueles que à cabeça em segredos e partilhas eram afixados. E as listas de espera, provadas pelo francês que não eram de fiar ou guardar, deixando para o destino os que es-


perando vez se iriam realizar. As oficialidades e os que toda a gente sabia e as listas secretas, guardadas em caixas e com ambições intermináveis. E nos momentos em que pensava parar, as listas e todas as relações de conhecimento, lembrava-se que nem a lotaria pode ser prevista nem o amor, por isso ao invés de se guardar e desejar e criando mais listas, reclamando mais relações e conhecimentos, numa enumeração que ninguém sabia onde ía parar, à procura dos numeros da sorte que mais tarde iria verificar. Como tudo o resto apenas se apontava depois de experienciar e esperava-se que os fados encurtassem umas e aumentassem outras, à deriva no mar, feita embarcação, norteada pelas viagens onde se cruzavam os outros e o prazer. Trazendo e procurando consciente apenas uma lista, a de verificação, sabendo-se antes de qualquer partida segura para voar. Parar em voo alto, só se, sem ela dar conta, houvesse alguém a apanhar. ilustração André Ventura

Da vossa, cheia de escolhas e esperando surpresas por cumprir,

Fevereiro é o mês do amor, dos namorados, de trocas de prendas e celebrações íntimas. Jóias contam-se em número alto entre as prendas mais desejadas. E diz-se que mulher que se preze não dispensa umas pérolas… Com toque de distinção e classe, estas algemas, que lembram os laços inquebráveis e da mesma forma tão delicados com que nos prendemos ao nosso mais que tudo, tornam-se na prenda perfeita. São um adereço, podendo mesmo ser desmontadas em duas charmosas pulseiras, e um convite a uma noite bem passada. E com um imaginário recente cheio de histórias de dominío e bondage, por causa do Sr. Grey e do best seller de verão, fazem-se propostas irrecusá-

veis… Que tal fazer as coisas com mais estilo e encanto? Sem tanto clichée e mais imaginação? Levem-nas a jantar, à companhia e às algemas, a sair para um local mais recatado e criem o vosso momento memorável, lembrado e chamado à baila de cada vez que ela de novo de pérolas se enfeitar! Experimentem o toque suave das pérolas e da fina corrente que as acompanha entre os pulsos e a pele do ser amado. Escolham o negro ou branco em contraste com a tonalidade e subtilezas de quem as vai usar, e deliciem-se, de li ca da men te, de mo ra da men te, com um querer estar presa e enamorada. Encontram-se estes e outros úteis acessórios em reuniões de enxoval para o ócio adulto, através de Carmo Gê Pereira. “Algemas de Pérolas Plaisir Nacré” (pérolas brancas ou negras) – 26,95€

http://www.facebook.com/carmoGepereira

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oops! i didn’t know we couldn’t talk about sex! – da (segunda) terceira vaga do feminismo Tiago Moura

«GIRLS CAN WEAR JEANS, CUT THEIR HAIR SHORT, WEAR SHIRTS AND BOOTS, ‘CAUSE IT’S OK TO BE A BOY. BUT FOR A BOY TO LOOK LIKE A GIRL IS DEGRADING, BECAUSE YOU THINK THAT BEING A GIRL IS DEGRADING. BUT SECRETLY YOU’D LOVE TO KNOW WHAT IT’S LIKE. WOULDN’T YOU? WHAT IT FEELS LIKE FOR A GIRL.» (BIRKIN, ANDREW, 1993 – THE CEMENT GARDEN.) 100 //// www.IDIOTMAG.com IDIOTMAG 100


Clout Magazine

Durante a atuação das Spice Girls na Cerimónia de Encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres 2012, a realização captou imagens do atual presidente da câmara de Londres, Boris Johnson, a dançar ao som do refrão de uma música que pede que apimentemos as nossas vidas. A sincronia do universo político com o mundo da pop vivida em atmosfera olímpica veio dias depois do vice-presidente russo Dmitri Rogozin ter declarado que, «com a idade, todas as velhas putas (a falta do asterisco é propositada) se acham no direito

de dar palestras. Particularmente, em tournées mundiais e concertos.» A afirmação que o diplomata russo tinha (e tem, ainda) na sua conta pessoal do Twitter (@DRogozin) é dirigida a Madonna, que num dos seus concertos mostrou o seu apoio à causa da banda punk-rock russa Pussy Riot. A banda, que se encontra detida desde março de 2012 após realizar um protesto disfarçado de concerto dentro de uma igreja ortodoxa, tem recebido mensagens de apoio de outros artistas, como os Red Hot Chilli Peppers, Björk, Sting e Peaches, que apelam à sua libertação.

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“I am God”

A banda russa entretanto foi condenada a dois anos de prisão por hooliganismo e Madonna foi processada por 10 milhões de euros, por falar a favor dos direitos LGBT, durante um dos seus concertos em Moscovo. Por sua vez, o regresso (momentâneo) das Spice Girls não causou qualquer repercussão negativa na esfera política ocidental. Pode parecer rebuscado convocar o regresso de uma girlband extinta dos anos 90 para a discussão, mas a verdade é que, durante a sua curta existência, as Spice Girls influenciaram, de um modo ou outro, o pensamento feminino/feminista do século XX e XXI.

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Excluir desta discussão a banda britânica é ignorar o impacto que a sua imagem e mensagem tiveram na ideologia feminista anglo-americana do final de século. A subida de posição económica do sexo feminino, durante a década de 90, deu à luz uma nova mulher e, em 1996, as Spice Girls cunharam o slogan Girl Power, que viria a emoldurar essa mesma atitude e postura reivindicativa. A sua imagem irreverente, divertida e familiar revolucionou as esperanças e desejos do jovem sexo feminino e as cinco integrantes da banda lideraram, por um breve instante, uma espécie de movimento, que seria reconhecido até por Nelson Mandela. O que diferencia então o caso das Spice Girls da situação vivida pelas Pussy Riot, ou até mesmo por Madonna, em 2012? A razão mais evidente poderá ser o tempo, na medida em que, hoje em dia, vive-se em consequência dos anos 90 e das suas imagens. Atualmente, a mulher é por si só um enorme mercado económico e o modo como ela é representada e comercializada, nos meios de comunicação, é um reflexo da maneira como o quinteto britânico conquistou os media. Os anos 90 foram categóricos em cimentar certos padrões de beleza e em catalogar o que se entende como sendo comportamentos femininos apropriados. A globalização dos meios de comunicação social e a revolução da internet foram ferramentas-chave no processo de glorificação de uma imagem da mulher, da qual ainda hoje é difícil escapar. Hoje em dia, a mulher perdeu o controle sobre a sua própria imagem. Quando se vive na era digital e qualquer imperfeição física pode ser escondida com um pouco de Pho-


toshop, tudo o que não cabe dentro desse modelo não deve ser exposto a medo de confrontar as massas com o diferente. O fato de vivermos também numa época em que grande parte da população produz conteúdos na internet - vídeos, fotos, textos - é também uma ferramenta na perpetuação destes problemas. Num momento cultural em que os media são governados por mensagens de aceitação e de igualdade é impressionante o alarmante ritmo crescente de casos de intolerância a opiniões ou formas que fogem ao convencional, em sítios como o Youtube e o Facebook. E ninguém parece sofrer mais com estas mudanças do que a mulher, que cada vez mais sente uma pressão para vestir as últimas tendências (na altura da redação deste artigo a cor bordô e o

padrão militar eram as principais apostas no mundo da moda para o outono/ inverno), para tonificar os músculos e acabar com a celulite e para não opinar sobre o que não lhe compete opinar. Mesmo quando o assunto é o seu próprio corpo. Durante a campanha eleitoral norte-americana de 2012, o candidato republicano Mitt Romney refutava o direito ao aborto - mesmo em situações extremas de violação - e ao uso de contracetivos como pontos-chave da sua candidatura. Resumidamente, o que isto significa é que, quase vinte anos depois, a mensagem de revolução feminina/feminista das Spice Girls torna-se novamente pertinente. Talvez não disfarçada por uma batida açucarada e roupas de marca, mas existe novamente uma necessidade de conquistar algum nível de autonomia e independência. CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 103


Nas primeiras semanas de janeiro, o mundo acordou escandalizado com a história de uma jovem indiana que fora brutalmente violada por seis indivíduos, num autocarro, na Índia. A tragédia deixou a descoberto também a revolta, até então silenciosa, de todo um género, num país onde a violação não é vista como um crime severamente punível. As inúmeras manifestações e protestos sublinham não só a perda do direito da mulher sobre o seu próprio corpo, mas também sobre a sua imagem e voz. Não só na Índia, mas em todo o mundo. Nadezdha, Yekaterina e Maria, as três membros integrantes das Pussy Riot, encontram-se encarceradas por terem vociferado uma opinião, em forma de música e, no rescaldo do seu julgamento, Free Pussy Riot! tornou-se mais do que um pedido de corrigir a injustiça, mas um novo chavão de revolta para milhões de mulheres, que se sentem castradas da sua própria liberdade de expressão. Será possível afirmar-se que as Pussy Riot surgem então como uma versão dos nossos tempos das Spice Girls? Possível é tudo, como publicitaria uma certa marca de produtos desportivos, mas o que podemos idilicamente adivinhar é que o caso real da banda russa inspire o mesmo número de jovens a agir contra os modelos socioculturais a que estão resignados, que as Spice Girls lideraram, na década de 90, em todo o mundo. Girl Power! 104 // www.IDIOTMAG.com


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Telmo Fernandes

Para o universo LGBT (lésbico, gay, bissexual e transgénero), o ano começa bem nalguns pontos do mundo e bem mal noutros, demonstrando que estamos longe de consensos no que diz respeito à perceção destes direitos como princípios humanos universais. Em Portugal, uma nova lei anti-discriminação inclui finalmente a identidade de género, protegendo, por exemplo, pessoas transexuais nos seus contextos de vida. Nos EUA, o presidente reeleito Barack Obama exprime a sua vontade em abraçar os irmãos gays e lésbicas na demanda pela igualdade, comparando a sua luta, no discurso inaugural de tomada de posse, com a luta contra o racismo e pelos direitos das mulheres. Por outro lado, em vários países do leste europeu, incluindo a Hungria, Rússia, Lituânia, ou em países africanos como o Uganda, leis anti-gay continuam a ser discutidas e aprovadas, legitimando a violência exercida diariamente contra um número incalculável de homens e mulheres. Qual a relação disto com aquilo que entendemos por cultura (ou as suas múltiplas formas de expressão)? Bem, por um lado, são inúmeros os exemplos de veículos culturais especificamente LGBT ou queer - publicações, filmes (incluindo ciclos e festivais de cinema), literatura, teatro, performance, dança, artes plásticas em geral – que ajudam, por um lado, a desconstruir imagens e representações heteronormativas e restritivas em termos de expressão de género, e, por outro, a conferir visibilidade a inúmeras identidades que nunca tiveram oportunidade de ser olhadas de uma forma crítica e estética. Neste caso, não se trata somente de alargar “democraticamente” o olhar da arte e da cultura, fazendo tábua rasa de fronteiras estabelecidas segundo o eixo orientação sexual + identidade de género, mas de efetivamente construir novos olhares (incluindo, portanto, novas ‘ferramentas’ e estratégias, novos materiais e paletas) para realidades que sempre estiveram na sombra e criando, eventualmente, novas possibilidades, como a emergência de identidades recompos-

tas, cruzadas, miscigenadas e absolutamente inéditas. É aqui que o amplexo queer, enquanto fluidez crítica e identitária, faz sentido (mais até do que o identitário LGBT, segundo muitos um tanto ou quanto fixo e subsidiário da mesma raiz normativa a que muito bem se opõe). Aqui, e em mais lado nenhum, talvez. É esse, efetivamente, o potencial máximo da cultura: o de permitir criar (a partir de um património, sem dúvida), de romper, de gerar implosões e novos universos. Mas a cultura é um veículo de massas. Abrange tudo e tod@s em todas as sociedades. E como tal, e tendo em conta o seu papel enquanto eixo em torno do qual as próprias relações sociais de estruturam e recriam continuamente, é fundamental percecionar uma arte, uma estética e uma cultura que, ainda que ‘mainstream’ (e fazendo, quiçá, parte de currículos escolares e dos “novos” cânones da História da arte), esteja livre desses empecilhos que são a heteronormatividade, a homofobia e o regime discriminatório dos papéis e expressões de género. Dito isto, impõe-se, no nosso país, uma revisão profunda de procedimentos e materiais, desde manuais escolares a regulamentos de concursos artísticos, passando por critérios de seleção e apoio a iniciativas culturais de todo o tipo. Para que muitas destas coisas aconteçam, é imprescindível contar com uma cidadania ativa, crítica e informada. O projeto Porto Arco-Íris, da Associação ILGA Portugal, organiza, nos dias 16 e 17 de fevereiro, uma formação de voluntári@s (gratuita!), que vai ter lugar no Pólo das Indústrias Criativas da UPTEC (Praça Coronel Pacheco, nº2, Porto). O voluntariado pode incluir muitos tipos de colaboração, valorizando-se também competência e aptidões culturais e artísticas. Basta contactar porto@ilga-portugal.pt ou 927567666. Telmo Fernandes

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Carmo Pereira

AMORES NO MÊS DO AMOR

A IDEIA RADICAL DE QUE SE PODE AMAR MAIS DO QUE UMA PESSOA. PALAVRA COMPLEXA, DA ETIMOLOGIA À DEFINIÇÃO. FORMADA PELO GREGO POLI, MUITOS, AGREGADA AO LATIM AMOR, QUEBRANDO UMA PRIMEIRA BARREIRA LOGO NA SUA FORMAÇÃO.

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É acima de tudo não-monogamia consensual, pode ser uma forma de estar, ou um estado relacional, sendo a participação (ou o desejo e visão de uma futura) em relações de curto ou longo termo com diferentes parceiros, incluindo diferentes graus de envolvimento romântico, afectivo e, ou sexual, um predicado principal. Outro dos atributos, qualidade inerente a uma relação poliamorosa, é a transparência, conhecimento de causa e consentimento entre todos os envolvidos. Com a verdade obrigatoriamente em cima da mesa, poliamoria torna-se o antónimo perfeito de traição. Juntam-se, sob este signo, umas quantas constelações diferentes, de relações em grupo, redes de relacionamentos interconectados, a acordos geométricos, com relações em quadra, triângulo, N ou V. Fácil fazer as contas, contam-se os vértices e unem-se os pontos.

Com um espectro relacional que vai de uma recentemente chamada poli-normatividade, onde casais se ligam a outras pessoas, com definição de parceiros primários e secundários, presença de conjuntos de regras em relação a novas relações, poder de veto a novos parceiros por parte dos parceiros antigos e, ou poli-fidelidade ( “envolve múltiplas relações românticas com contacto sexual restrito a parceiros específicos do grupo.” vide Wikipédia), até uma forma de estar atenta ao outro, sem regras nem restrições, com um poder não-central e horizontal, configurando-se apenas num número de pessoas que se amam e amam outras desejando, conseguindo e preservando o estar junto de cada relação.

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“Desactivados” 110 // www.IDIOTMAG.com


Não é poli-queca, nem promiscuidade, embora na vida de muitos poli, assim como na vida de muitos monógamos, haja espaço para a alegria da promiscuidade e para o, se assim o vivermos, saudável foder por foder.

AFECTIVIDADE E TRANSPARÊNCIA E, COMO O NOME INDICA, AMOR. O mito da incompletude sem encontrar a sua metade amor, embora bonito e de das mais variadas maneiras feito empanturrar em nós desde pequenos qual patos cujos fígados vão dar primeiras qualidades de foie-gras, sempre me pareceu demasiado castrante. A ideia que apenas um outro ser nos pode completar, de que só amas verdadeiramente um de cada vez, como se de uma fila de sentimentos se tratasse, que existem várias formas de amar, uma para família, outra para amigos e outra, de uma para um, biblicamente enunciada, sexualizada e que o grande garante e validação é a tão prezada exclusividade parece-me, acima de tudo, mesquinhez.

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E se é válido olharmos para os nossos corações como casas, com quartos destinados a cada qual e decorados a esse rigor, também é válido vermo-los como jardins e florestas, espaços de liberdade e sem limites, onde o nosso amor pode ser tão infinito quanto as pessoas a quem o dedicamos, sem precisar de gavetas hierárquicas para famílias, amantes ou amigos. Para mim encontrar este conceito foi um alívio, começando por abrir mais as pals e mostrar mais mundo que anda por aí, e acabando com o sentimento de isolamento que sentia quando em vez de uma metade queria uma tribo. Em Portugal temos uma comunidade de apoio, o PolyPortugal, com textos muito menos enviesados do que este aqui, e a nível internacional, uma série de blogs, sites, podcasts que discutem das questões práticas, à teoria e activismo da comunidade. A projecção mediática, embora parcelada e incompleta, sofreu um boom nos últimos anos, com espaços de discussão e reconhecimento da existência da categoria das revistas de fim de semana aos programas da tarde, uma websérie deliciosa chamada “Botolovers” e já vai na segunda temporada o primeiro reality show poly: “Married and dating”. Nos filmes, desde há muito nos habituamos a ver, de Jules e Jim aos Sonhadores, ao Vicky Cristina Barcelona, e em pano de fundo como no Kinsey. De livros a bíblia é o livro Ethical Slut e o romance mais marcante (sci-fy) é Um estranho numa terra estranha, de Robert A. Heinlein. E se a questão é o ciúme, o grande 112 // www.IDIOTMAG.com

bicho mau que o ciúme é, essa questão toca-nos a todos, monogâmicos e poliamoros, havendo até um estudo recente, de Conley da Universidade de Michigan, que comprova as relações poliamorosas tão satisfatórias como as monogâmicas, havendo até uma menor presença do ciúme. Mas estudos à parte, o importante é sentir e amar, muito. Por isso, com o 14 de Fevereiro à porta e tenha que número tiver o vosso par, singular ou plural, celebrem, da maneira extática que mais vos aprouver, o dia do Amor.


Devo - Happy Guy http://youtu.be/RkAxbHrwtpI http://youtu.be/RkAxbHrwtpI http://youtu.be/RkAxbHrwtpI http://youtu.be/RkAxbHrwtpI http://youtu.be/RkAxbHrwtpI http://youtu.be/RkAxbHrwtpI

Lovage - Stroker Ace

clica na imagem para ouvir Lulina - Música da Categoria Amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor https://soundcloud.com/lulilandia/m-sica-da-categoria-amor

http://youtu.be/cKiXYveusc0 http://youtu.be/cKiXYveusc0 http://youtu.be/cKiXYveusc0 http://youtu.be/cKiXYveusc0 http://youtu.be/cKiXYveusc0 http://youtu.be/cKiXYveusc0

http://youtu.be/kussPZDNQyY http://youtu.be/kussPZDNQyY http://youtu.be/kussPZDNQyY http://youtu.be/kussPZDNQyY http://youtu.be/kussPZDNQyY http://youtu.be/kussPZDNQyY http://youtu.be/kussPZDNQyY

Rick James - 1,2,3 (U, Her and Me)

Abdominal Open Relationship

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The French Song - Joan Stereo Total -L’amour a Trois Jett and The Blackhearts http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo http://youtu.be/-yq36khPmYU http://youtu.be/LzHUbTohLWo

Lying Together Frenh Kiwi Juice

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Alt-J - Tessellate http://youtu.be/Qg6BwvDcANg http://youtu.be/Qg6BwvDcANg http://youtu.be/Qg6BwvDcANg http://youtu.be/Qg6BwvDcANg http://youtu.be/Qg6BwvDcANg http://youtu.be/Qg6BwvDcANg

The Monks Love in Stereo

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Jefferson Airplane - Triad

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http://youtu.be/1Aej9wmoQ7M http://youtu.be/1Aej9wmoQ7M http://youtu.be/1Aej9wmoQ7M http://youtu.be/1Aej9wmoQ7M http://youtu.be/1Aej9wmoQ7M http://youtu.be/1Aej9wmoQ7M

Just Be Good To Me The SOS Band

Peaches - I U She

http://youtu.be/khj9jyNvhpQ http://youtu.be/khj9jyNvhpQ http://youtu.be/khj9jyNvhpQ http://youtu.be/khj9jyNvhpQ http://youtu.be/khj9jyNvhpQ http://youtu.be/khj9jyNvhpQ

http://youtu.be/vS1xzQK92sM http://youtu.be/vS1xzQK92sM http://youtu.be/vS1xzQK92sM http://youtu.be/vS1xzQK92sM http://youtu.be/vS1xzQK92sM http://youtu.be/vS1xzQK92sM

Iris Dement & John Prine Let’s Invite Them Over

Peaches - 2 guys 4 every girl

http://youtu.be/vws3JhPNYd8 http://youtu.be/vws3JhPNYd8 http://youtu.be/vws3JhPNYd8 http://youtu.be/vws3JhPNYd8 http://youtu.be/vws3JhPNYd8 http://youtu.be/vws3JhPNYd8

http://youtu.be/Zm1h23phvj8 http://youtu.be/Zm1h23phvj8 http://youtu.be/Zm1h23phvj8 http://youtu.be/Zm1h23phvj8 http://youtu.be/Zm1h23phvj8 http://youtu.be/Zm1h23phvj8

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Aline Fournier

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Trio Saint-Exupéry http://www.antoinedesaintexupery.com/le-trio-saint-exupéry CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 115


S QUE EVE 10 ANO R B M E Á R OS. FA S PALCOS SUÍÇ O E R R O C R E P JACKO GUITARTODIDACTA, ARTISTA, AU M FÚRIA NTOR, É CO A C E TA IS RAS R AS SUAS LET TA N A C LE E QUE O PELO . APAIXONAD EM FRANCÊS A CATIÉ UMA PESSO ‘’LIVE’’, JACKO PALCO. LUZES DE UM S A B O S E T N VA A, SÓ ANSFORMAD R T A O S S E P UMA S. E PARA VOCÊ E UNICAMENT .ch/artist/jacko http://www.mx3

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Beatrice Berrut www.beatriceberrut.com

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DUARTE PINTO DA SILVA

Fala-nos do teu trajecto enquanto artista. Toda a minha vida desenhei. Desde que me lembro, pegar num lápis é, até os dias de hoje, a coisa que me é mais natural. Esteja onde estiver, se não estiver ocupado, estou a desenhar. Dito isto, o meu percurso contradiz um bocado esta naturalidade. No secundário fui para Humanidades e acabei até por fazer um semestre em Direito na Universidade Lusíada do Porto antes de me aperceber que não era essa a minha vocação de todo. Decidi então cancelar a minha matrícula e inscrevi-me no curso de Som e Imagem na Universidade Católica do Porto, que considerei ser um curso abrangente e ser o ideal para mim na altura, e por sempre ter tido um grande interesse em Animação 2d. Decidi explorar isso. Estou agora no meu último ano, e só agora é que consegui perceber claramente o que queria e quais eram os meus objectivos, o que resultou uma vez mais numa mudança de interesses dentro das áreas que me eram possíveis dentro do curso. Quero mesmo é ilustração e banda-desenhada. 120 // www.IDIOTMAG.com

Nesta edição a Idiot Mag esteve à conversa com um artista leitor. Duarte é, desde que se conhece por gente, um apaixonado por banda desenhada. Numa curta entrevista fomos saber um pouco mais sobre o seu trajecto, descobrir os seus gostos mais vincados, quais os seus projectos a curto e medio prazo e onde vai buscar inspiração para as suas ilustrações.

Desvenda-nos um pouco algo dos teus gostos mais vincados Sou completamente doido por banda desenhada, cresci a copiar os desenhos que via nos livros que comprava, perdia (e perco) horas a ler e reler as mesmas histórias vezes sem fim, a absorver cada detalhe, cada linha, e tentar reproduzi-las na perfeição. Se devo o meu talento a algo, devo sem dúvida à banda desenhada. Adoro ler, leio sempre que posso e tenho tempo, principalmente fantasia ( Guerra dos Tronos, Senhor dos Anéis, etc.) e acima de tudo adoro ilustração. Passo horas à procura de ilustradores em sites como o Behance, Deviantart, Pinterest. Finalmente, adoro jogos de vídeo, é um hobby que me faz muitas vezes perder muitas horas de trabalho, mas não consigo evitar, torna-se um vício, seja qual for o jogo. E projectos a curto e médio prazo? Neste momento, a curto prazo, estou a produzir um jogo Arcade em 2d com influências de banda desenhada, algo muito dentro do género do jogo para a mega drive “Comix Zone” como trabalho de final de curso e estou a escrever argumentos para uma banda desenhada online interactiva, que vai dar a oportunidade aos leitores de escolherem o rumo da história. A longo prazo, gostava de aproveitar o que aprendi de animação e fazer uma série de curtas humorísticas, ideia que desenvolvi em conjunto com uma amiga, e que penso ter grande potencial. Marisa Martins


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Em que te inspiras quando crias as tuas ilustrações? Retiro inspiração literalmente de quase tudo, tanto é que carrego sempre comigo um caderno, caso alguma coisa me venha à cabeça e precise de anotar ou desenhar para ficar assente como algo que quero fazer. Inspiro-me bastante também nos trabalhos de alguns dos meus artistas preferidos, como Jean Giraud/ Moebius, John Romita Jr, Adi Granov, Fernando Vicente, Tony Viramontes e Adam Hughes. 122 // www.IDIOTMAG.com

Qual é a tua opinião sobre o projecto e conceito Idiot? Considero um projecto bastante interventivo, que acompanha um estado mental que penso ser necessário nos dias que correm. Transmite ( pelo menos a nível pessoal) a ideia de que não é suficiente queixarmo-nos da situação em que vivemos e que devemos agir. Acho que é esse o ponto-chave. Acho que é admirável a motivação em informar-nos como leitores de que a cidade do Porto não está tão estagnada como se diz estar, e acho que consegue, com sucesso, manter o nível de interesse de edição para edição. Já leio a revista faz quase um ano e adoro a maneira informal como tratam o leitor, é uma revista “straight to the point”, que consegue misturar temas da actualidade, informação e cultura com uma audácia invulgar. Finalmente, acho de prezar a qualidade dos artistas que têm sido destacados, nacionais ou internacionais, e dou os meus sinceros parabéns à revista, por conseguir manter o nível de qualidade de mês para mês.


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“Gia Condo” de Andrea Mary Marshall.

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Rui de Noronha Ozório Fevereiro é um mês caricato pela simbologia que o seu nome lhe traz, como também pelas festividades que por ele passam. Será que já nos demos ao trabalho de saber a origem dos nomes? Por certo que sim, mas quanto a esta genealogia etimológica dos meses nunca me tinha acontecido. Ora bem, Fevereiro terá o seu berço em Februus, deus da morte na cultura mitológica etrusca. De início ele tinha 29 dias, mas como em tudo a política transforma, passou a ter menos um dia, dia esse a oferecer a Julho, mês importantíssimo nascido do Imperador romano Júlio César. Vendo bem, estamos perante uma Identidade breve que deve ser aproveitada. E a pensar nisso, nessa líbido de viver, oferece o destino a este mês o Carnaval e o Dia dos Namorados. Mas é o Carnaval a data que me importa aqui lembrar. O Carnaval é uma festividade que nos aparece em nome das vontades viciosas. A sua origem vem de Carnis Valles (prazeres da carne) e, hoje em dia, são bailes de máscaras onde podemos ser quem quisermos. Até na arte isto acontece. Lembrei-me agora das 13 “Gia Condo” de Andrea Mary Marshall que retratam a Mona Lisa de Da Vinci, mas com o dobro dos materiais e do tamanho, e a inspiradora e bela influência de artistas geniosos como Duchamp, Dali ou Warhol. São treze telas que vestem a original de máscaras diferentes, como se Gioconda estivesse, de repente, numa sala de espelhos que a deformam mas embelezam ao mesmo tempo. Que bom nos podermos ver a interpretar papéis nossos que estão a dormir durante o resto do ano mas que, neste espaço de três dias, despertam com vigor, vontade e verdadeiro sentido de teatro. Estamos num palco, onde podemos realizar todos os sonhos e esquecermos as rotinas enfa-

donhas que nos atiram a toda a objectividade e à crueldade impiedosa dos relógios, dos dias, das manhãs, dos horários católicos e dos bons costumes. Estamos nos dias em que devemos pintar a cara, em que nos devemos entregar à libertinagem e aos prazeres, à boémia e ao erotismo mais pictórico, às cores e a cada arrepio da nossa pele suada de dançar, de inebriar, à sede e à extravagância. Parece coisa boa, o carnaval, não parece? Pois vos digo que podemos ter essas sensações todas as semanas de todos os anos, enquanto houver gente que faz arte. A arte é isso mesmo, um Carnaval, uma predisposição a interpretar numa imagem, num poema, num palco ou numa tela de cinema uma representação de tudo o que vemos à nossa volta, dentro de nós, circundando como auréola cadente e constante a vida tal qual a gostaríamos de sentir. A sensação que tenho, quando saio à rua para passear e encontro autênticas obras de arte nos muros urbanos, é simplesmente um orgasmo de cor, e alguma pitada de inveja por não ter sido abençoado pela concretização das ideias em desenho, mesmo tendo um Pai aguarelista, aliás um belíssimo representante das belas artes! Igual sensação tenho quando entro numa galeria ali na Miguel Bombarda e dou de caras com exposições magníficas de jovens artistas, ou quando vou a serões de poesia, Ao teatro, aos fados, aos cafés filosóficos do Tomás Carneiro, ao cinema, entre tantas outras actividades que promovem a arte e o pensamento tal qual eu os entendo: como um Carnaval onde cada um usa a sua máscara, o seu espelho tão real porque distorcido. Por isso, aqui deixo um conselho amigo… Aproveita a vida, Idiota adormecido! Invade as ruas com todas as cores e não te esqueças: USE YOUR MASK. CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 125


Nuno Di Rosso

MINISTÉRIO DA CULTURA?

A EXISTÊNCIA DA SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA NO NOSSO PAÍS ESTÁ INTIMAMENTE LIGADA A DOIS FENÓMENOS DISTINTOS: A CRISE, POR UM LADO, E A CHEGADA AO PODER DE PARTIDOS POLÍTICOS DE ORIENTAÇÃO CENTRO/DIREITA, POR OUTRO. No tempo da outra senhora, nem existia uma secretaria. No início do Estado Novo, António de Oliveira Salazar queria, de certa forma, imitar outros regimes vigentes no velho continente, incentivando a criação de uma cultura nacionalista, que contasse com a participação e o entusiasmo de artistas respeitados. Cottinelli Telmo, António Ferro, Cassiano Branco, Keil do Amaral, António Pedro, Almada Negreiros ou Duarte Pacheco, foram alguns dos nomes que deram forma a uma estética nacionalista, muito característica, em que se exultava a portugalidade das coisas. No final da década de 40, e depois da fase do namoro, aparece, como quase sempre, o desencanto. Se, por um lado, os artistas que faziam parte do núcleo duro deixaram de estar de corpo e alma com o regime, sendo cada vez mais reprimidos pela censura, por outro, é o ditador que vai deixando de olhar para a cultura e arte como objecto de propaganda, e progressivamente esta vai desparecendo, sendo praticamente extinto todo e qualquer apoio à cultura com o início da guerra colonial. É assim, com a política cultural dependente do Ministério da Educação, com os resultados que conhecemos, ou seja, a 126 // www.IDIOTMAG.com

cultura do Fado, Fátima e Futebol, que chegamos à Revolução de Abril. Em 1976 é criada pela primeira vez a Secretaria de Estado da Cultura e mantém-se assim até 1983, quando Mário Soares decide transformar a Secretaria em Ministério. Em 1985 Cavaco e Silva decide que já tivemos cultura que chegue, que não precisamos de um ministério, e entrega a Secretaria com desdém a personalidades com as quais tem dívidas, mas que não gosta particularmente. É o caso de Teresa Gouveia, talvez por ter sido casada com Alexandre O’Neill, e depois o de Santana Lopes, provavelmente por ser um grande bebé chorão carente de protagonismo. Com a chegada dos socialistas e Guterres ao poder, dá-se o principado de Manuel Maria Carrilho como Ministro da Cultura, e as melhorias são visíveis. É certo que Lisboa, Capital Europeia da Cultura em 1994, deu um grande impulso à produção cultural. Esta evolução está também associada à chegada de um novo evento de primeiro plano internacional, a exposição mundial de 1998, que no horizonte trazia esperança a todos. Dá-se o renascer do cinema português, o regresso do público ao teatro, o apoio à arte e à cultura torna-se quase uma moda e aparece a lei do mecenato. Durante 16 anos habituamo-nos a ouvir que este ou aquele é o próximo Ministro da Cultura, e torna-se quase obrigatório comentar que se, por exemplo, Isabel Pires de Lima é uma mulher da literatura, irá


beneficiar os seus pares. Nestes dezasseis anos dá-se uma instrumentalização do ministério por parte de uns, uma crescente forma de impor o corporativismo cultural por parte de outros, resultando numa evidente subsidiodependência por parte da classe artística. Quando toma posse, esta espécie de primeiro-ministro de nome Passos Coelho, anuncia uma redução no executivo, criando super-ministérios que agrupam muitas pastas, e despromovendo, mais uma vez, a cultura a secretaria de estado, chamando mais um escritor para a liderar, Francisco José Viegas. O homem fez o que pôde com o que tinha, mas parece-me que estava mais motivado para restaurar edifícios históricos e erigir barragens, do que dar cultura ao povo. E depois de sucessivos pedidos de demissão de directores de teatros e museus, de ameaças de extinção da RTP2, de cancelamentos de exposições compradas no estrangeiro à última da hora, e outras peripécias, pediu para sair em outubro passado, por motivos de saúde. Com a chegada de Jorge Barreto Xavier, novo Secretário de Estado da Cultura, espera-se que seja impulsionado o acesso à cultura. A sua experiência profissional, com uma carreira praticamente dedicada à gestão e organização cultural em instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian ou o Centro Cultural de Belém, pode ser um factor positivo. Na página do governo português, o secretário de estado propõe-se a fazer muita coisa com muito pouco, com ênfase no muito pouco, pois o orçamento para este ano é semelhante ao do ano passado. Uma das premissas do actual secretário de estado é que se apoie quem tem melhores resultados de bilheteira e receptividade do público, coisa que se compreende perfeitamente, mas que se receia também. Ainda no Natal passado o Centro Dramático de Évora cancelou os espectáculos dos bonecos de Santo Aleixo. Parece-me que estes bonecos eram, em parte, um dos trun-

fos do CENDREV, no que respeita ao simpático número que recebiam anualmente da DGArtes. Espectáculos repletos de público e convites de toda a parte para apresentar espectáculos destas típicas marionetas do Alentejo. No entanto, os cortes orçamentais fizeram com que o CENDREV recebesse “apenas” 195 mil dos 315 mil euros previstos. Assim sendo, foi necessário cessar contratos com metade da companhia (6), para que pudessem receber subsídios de desemprego, e acaba-se com o espectáculo que mais dá, porque é o que não queremos fazer. Compreende-se que estes bonecos não representem a sofisticação intelectual desmedida que alguns artistas almejam, mas não são propriamente as anedotas do Fernando Rocha. Se os directores de teatros e museus começarem a fazer chantagens deste género irão fazer com que os espectáculos com aceitação do público e com bons resultados de bilheteira sejam apenas o Tony Carreira no Pavilhão Atlântico, as produções do Filipe La Féria e as exposições de cascatas sanjoaninas na associação das Fontainhas. E serão estas que o secretário de estado apoiará. Enquanto o caminho não está claro, e até prova em contrário, consideramos a secretaria de estado da cultura uma anti-idiota, simplesmente porque conseguiu estagnar a produção cultural no nosso país em nome de uma restruturação. Encerrada para obras, portanto. Enquanto decorrem os trabalhos não vamos ficar de braços cruzados, porque sem arte não existe identidade. Todos os que têm responsabilidade nesta área devem enriquecer a nossa cultura, sem esperar qualquer tipo de benefício especial em troca, excepto, como é óbvio, o fruto justo de qualquer tipo de trabalho, o que neste caso, são as receitas de bilheteira, um ou outro patrocínio ou mecenato, e até um pequeno subsídio. A dependência mina a criatividade, e não é isso que queremos para os nossos artistas. CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 127


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Idiot Mag 1 ANO FEV.13