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CULTURA // TENDÊNCIAS URBANAS #05 JUL.2012 www.IDIOTMAG.com

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Este mês, a capa da Idiot ficou a cargo do ilustrador João Brandão. Vejam tudo na página 38!


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Mariana Ribeiro

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Entrei naquele quarto, branco, cor da saúde, que todos querem e estavas lá tu, amarrada a uma cama que dizias conhecer, sem te quererem deixar sair. Não entendi nada, como continuo sem entender, mas não fiquei impressionada. Estavas lá tu, que nem criança, a contorceres-te, sem saliva na boca e a prometeres me “notinhas” para te tirar dali. Eu não te tirei, como ninguém te tirou, sem saber o que fazer ou o que era melhor fazer. Continuo sem saber. Bastou me cinco minutos naquela sala para o mundo desabar. Será que algum dia voltaremos a ter uma conversa lúcida, como tantas tínhamos? Eras a minha preferida, tu sabes disso, a minha metade que me amava independentemente de se eu era um bom ou mau carácter. Continuas a ser a minha, a minha que me agarra e que me ama incondicionalmente. Algum dia voltaremos a ter uma conversa lúcida, com todos os teus exageros, os dramas das doenças e todos os abraços longos e apertados? Agora sei que sim, em parte. A lucidez é uma característica, que, quando nos falta, pode ser a maior filha da puta que existe. O corpo dói, a alma também, mas tu, no teu devaneio, não o sabias, nem como, nem porquê, tinhas ido lá parar. E eu fiquei por ali, sem nada saber, a sofrer por mim e por ti. Agora digo-te a ti: podemos conversar, sempre que tu quiseres. Eu não te vou faltar, mesmo quando a filha da puta dessa tal lucidez nos faltar às duas, eu estarei por aqui, como sempre estiveste tu aqui. E assim vamos caminhar, tu mais devagar, mas não te deixando, por motivo nenhum do mundo, deixar-te ficar para trás. E vamos felizes, lúcidas ou não. CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 5


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fotografias ® Melanie Antunes // Vista da torre dos Clérigos

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“AO INVÉS DE PRESSUPOR QUE CONHECEMOS MELHOR O PORTO DO QUE QUALQUER VISITANTE, DEVEMOS APRENDER COM ELES E CONHECER A FACETA TURÍSTICA DA INVICTA.” Com as férias de verão pela frente e o calor a apertar chega a altura de escolher o destino de férias. Passamos algumas horas na net a ver guias de viagem e sites de turismo, ou a ver os álbuns das últimas férias dos nossos amigos. Juntamos um grupinho, projetamos o acontecimento, escolhemos o sítio, as datas e quando chega a hora de fazer contas à vida… “Upps! Parece que este verão não vai haver férias para ninguém”. A crise chegou a todo o lado e quando não é a família a apertar, é o saldo da conta que teima em não crescer, devido ao fraco alimento que lhe fornece o trabalho mal pago. Portanto, é melhor meter na cabeça que este verão vai ser passado na Invicta e arredores, enquanto os amigos enchem o mural do Facebook com fotografias de “eu no Algarve super moreno” e de “Olha para mim tão cool em Ibiza”. Depressões a parte, este verão vai ser o momento ideal para descobrir e experienciar esta cidade tão bela. Aliás, uma vez que o Porto foi eleito o melhor destino europeu de 2012, pela European Consumers Choice, não há razão nenhuma para querer sair deste sítio onde tudo parece acontecer. Além da previsão do aumento do número de turistas para este verão, o que promete várias experiências multiculturais, é preciso

ter em conta que uma grande parte dos portuenses não conhece a sua cidade do ponto de vista turístico. Enquanto habitantes sabem do que é que ela dispõe, mas no que diz respeito à oferta cultural, histórica e de lazer, é-lhes, na maioria dos casos, desconhecida. Para poupar tempo e dinheiro aos seus leitores a IDIOT MAG vagueou pela cidade e arredores, escolhendo os melhores sítios, as melhores atividades, tudo aquilo que merece ser feito nestas férias. EXPERIENCIAR A CIDADE Em 2011, o Aeroporto de Sá Carneiro recebeu seis milhões de passageiros. Logo, é fácil ter uma ideia do número de turistas que passa pelo Porto, não esquecendo que este tem tendência a aumentar, devido às inúmeras referências à cidade, que têm surgido na imprensa internacional. Ao invés de pressupor que conhecemos melhor o Porto do que qualquer visitante, devemos aprender com eles e conhecer a faceta turística da Invicta. Ao pensar no fluxo turístico desta cidade, a primeira imagem que nos vem à cabeça são as margens do rio Douro, onde se encontram as Caves do Vinho do Porto. Ao contrário do que se possa pensar, a visita às caves é muito barata (cerca de 3€) e permite-nos provar um cálice de vinho CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 9


do Porto ruby e outro branco, no final. Durante a visita um guia conta a história do vinho do Porto e explica como é confeccionado a bebida, enquanto passeamos por corredores de tonéis onde o cheiro a vinho abunda. Por mais alguns euros é, ainda, possível aliar apetitosos chocolates às provas, testando o melhor casamento entre o doce e o vinho. Para quem não tiver mesmo nenhum interesse em visitar as caves, pode sempre comprar vinho do Porto e trufas de chocolate e convidar alguns amigos para uma prova em casa. A ideia de que o vinho do Porto é uma bebida para uma faixa etária mais avançada já passou à história, até porque existem novas gamas como o Porto Branco e o Porto Rosé, que são óptimas para utilizar em cocktails. À entrada das caves, encontra-se o Cais de Gaia, um local óptimo para passear, relaxar e até mesmo para dar um passeio de barco pelas sete pontes sobre o rio Douro. Do outro lado margem, encontra-se a Ribeira, famosa entre as camadas mais jovens pelas noites do “baldes”, onde qualquer bebida branca é servida em grandes quantidades e a preço de saldos. No entanto, a Ribeira é também um local óptimo durante um dia de sol, seja para disfrutar de um fino gelado numa esplanada, ou para petiscar algumas iguarias. O Porto é uma cidade de belas vistas e em qualquer esquina consegue-se uma boa fotografia, seja num dos vários miradouros da cidade, seja de um pormenor de uma casa velha na zona histórica. Um dos melhores locais para observar a cidade é a inconfundível Torre dos Clérigos. Apesar de fazer parte da vida de qualquer portuense e de ser o ex-libris da cidade, poucos ousaram subir os seus 240 degraus. Por cerca de 2€ é possível subir a torre e tirar fotografias incríveis sobre a cidade, vista de vários pontos. De outros locais como a Serra

do Pilar, as Fontainhas, e o Passeio das Virtudes, também se avistam belas imagens. Para os amantes da fotografia a experiência ideal é juntar um grupo de amigos, definir uma área da cidade e fazerem um safari fotográfico. A ideia é capturar imagens daquilo que mais vos saltar à vista e tentar fazê-lo da forma mais original possível. No final, juntam-se para mostrar e comparar as imagens e de certeza que vão verificar que apesar de serem retratos do mesmo local, todos eles são diferentes. Esta atividade também se pode realizar individualmente e pode concretizar-se em diferentes dias, em locais diferentes da cidade. Se é possível fazer um safari em plena cidade, porque não fazer também uma caça ao tesouro? Existe uma atividade chamada Geo Caching, cujo número de praticantes tem aumentado em larga escala, que consiste numa caça ao tesouro, seguindo pistas e coordenadas geográficas. Os “tesouros” encontram-se dispersos por toda a cidade, em locais escondidos e por vezes de difícil acesso. Estes consistem num papel, onde os “caçadores de tesouros” que o encontrarem devem escrever o seu nome. Por vezes, devem deixar, também, algum objeto em troca do que se encontra na caixa no momento em que a abriram. Restam, ainda, duas sugestões de experiências, sendo que a primeira consiste em alguns cursos de verão que acontecem na Faculdade de Belas-Artes, na Faculdade de Letras e na Universidade Católica. A ideia de passar o verão fechado numa sala de aula parece aterrorizante, mas o que sugerimos são cursos com um conteúdo mais alternativo, que podem ser encarados como uma espécie de passatempo. Em Belas-Artes podem tirar um curso intensivo de aguarela ou de pintura a óleo, assim como iniciar-se na arte da tapeçaria

“A CIDADE NÃO VIVE APENAS DE LUGARES FECHADOS, ALIÁS, BASTA CAMINHAR PELA RUA GALERIAS PARIS, PASSAR EM FRENTE AO CAFÉ PIOLHO OU AO TÚNEL DE CEUTA, PARA PERCEBER QUE A ATIVIDADE NOTURNA FERMENTA-SE A CÉU ABERTO.”

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Caves do Vinho do Porto, Cais de Gaia

tradicional ou na joalharia. Já na Católica podem disfrutar de cursos mais ligados ao cinema ou à música. Em Letras sugerimos o curso intensivo de francês, que decorre durante o mês de julho, isto porque o inglês começa a ficar um pouco démodé. Por último, não nos poderíamos esquecer de referir o Festival Marés Vivas, que acontece na Praia do Cabedelo (Vila Nova de Gaia), de 18 a 21 de julho. Franz Ferdinand, Garbage, The Cult, Kaiser Chiefs, Billy Idol, Gogol Bordello, Anastacia e The Hives são alguns dos nomes que vão subir ao palco. Para os festivaleiros que não vão poder partir em aventura para outros destinos, podem sempre montar a tenda neste certame, para não ficarem a pensar num Sudoeste ou num Paredes de Coura.

ALIMENTO PARA O CORPO E PARA A ALMA Um dos pontos fortes desta cidade é, sem dúvida, a comida. Desde petiscos, até aos doces, passando pelo prato principal, o Porto tem iguarias que tentam qualquer um. Francesinha, tripas à moda do Porto, amêijoas à bolhão pato, bucho, iscas de bacalhau... Uma tonelada de calorias prontas a serem devoradas. A Francesinha do Bufete Fase, os ovos recheados do Pajú, os cachorros da República dos Cachorros, as bifanas do Conga e o bucho do Buraquinho são do melhor e mais típico que se pode comer no Porto. Para quem prefere sabores mais internacionais, estes também se podem encontrar na cidade. Há cerca de dois anos surgiu a febre do sushi no Porto, que agora se transformou CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 11


A bela da Francesinha

em epidemia. Há imensos restaurantes, desde os mais caros e requintados como o Goshò, até aos buffets mais em conta, mas também com qualidade, como o Sakura, o Sushiana ou o Temaki DeLuxe. O sushi, mais do que um gosto ou um vício, tornou-se uma moda e hoje em dia toda a gente come, toda a gente diz que gosta, mesmo que não perceba nada daquilo, mas também não é por isso que vamos deixar de o comer. A cozinha italiana é também uma aposta que começa a ressurgir no Porto, com restaurantes como a Forneria de São Pedro ou a Trattoria Romana. As tapas (cozinha espanhola), os kebabs (cozinha israelita), o chop suey (cozinha chinesa) e o tandoori de galinha (cozinha indiana) também podem ser saboreados em vários pontos da cidade. Para os mais gulosos também não faltam es-

colhas. Destacamos os éclairs da Leitaria da Quinta do Paço, o bolo de chocolate da Arcádia, os croissants da Boulangerie de Paris, para quem gosta deles folhados, ou os da Henrique Carvalho (em Matosinhos) para quem gosta deles com a massa meia crua. Existem, ainda, os tão em voga cupcakes e os scones que acompanham muito bem o chá, tal como acontece no Verde Tília e na Rota dos Chás. Para os que preferem o café a acompanhar a doçaria, aconselha-se uma ida ao Moustache. Para expulsar as calorias acumuladas durante esta degustação nada melhor do que aproveitar e dar um passeio pela Rua Miguel Bombarda, entrando no universo artístico da cidade. A escolha é diversificada desde as pintura e os desenhos de Alcino Soutinho, Mafalda Mendonça e João Cutileiro, na Galeria AP Arte, até à fotografia de Inês D’Orey, na Limbo, passan-

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do pelos trabalhos de Noriaki Hayashi, elaborados através da técnica de cianotipo (utilização da luz do sol), que se encontram expostos na galeria Serpente. Para além das emblemáticas galerias de Miguel Bombarda, existe, ainda, o Centro Comercial, onde se encontram lojas que deslumbram qualquer um, como a Vertigo e os seus infindáveis artigos alusivos a ícones cinematográficos, musicais e artísticos. Para além do centro da cidade, a Invicta continua a respirar arte, em locais como Serralves, a Casa da Música e o espaço 604 R/C.

“O PORTO ESTÁ CHEIO DE LUGARES ICÓNICOS, SEJAM ELES HISTÓRICOS OU ARTÍSTICOS”

Elétrico

PLACES O Porto está cheio de lugares icónicos, sejam eles históricos ou artísticos. Numa sociedade cujas engrenagens se movem à velocidade da luz é imperativo saber quais os lugares onde podemos relaxar. Os espaços culturais e de lazer multiplicam-se a cada esquina. Na Baixa do Porto, onde atualmente tudo acontece e parece fazer sentido, encontram-se locais que destoam da tipicidade portuense, tais como o Tuareg e o Breyner 85. Outros como o 3C, a Casa do Livro, o Cafeína Wine & Tappas e o Candelabro, prometem mais vinho e ambience. O grau de diversão aumenta pela noite dentro, assim como a oferta: Gare, Pitch, Tendinha, Creme, Hard Club, são apenas algumas sugestões. A cidade não vive apenas de lugares fechados, aliás, basta caminhar pela Rua Galerias Paris, passar em frente ao Café Piolho ou ao Túnel de Ceuta, para perceber que a atividade noturna fermenta-se a céu aberto. Quando o tempo o permite, as massas deslocam-se até à Praia do Molhe ou ao Cais da Ribeira. Com o calor a chegar e o início da silly season, no passado dia 21 de junho, surgem oportunidades para disfrutar de uma passeio no Palácio de Cristal, no Jardim Botânico do Porto, ou em qualquer praia. Sendo o Porto uma cidade costeira, não faltam locais para apanhar CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 13


banhos de sol e de água salgada. No entanto, as melhores praias encontram-se nos concelhos vizinhos. Em Vila Nova de Gaia, dizem os experts (por experts entenda-se a equipa da IDIOT MAG), que a Praia da Granja e a Praia de Miramar são as mais apetecíveis, seguidas pelas Praias de Salgueiros, do Sindicato e de Lavadores. Já em Matosinhos, a Praia do Aterro é das mais concorridas, mas também se aconselham as Praias de Leça da Palmeira, da Memória, de Pedras do Corgo, dos Beijinhos, da Aguda e de Matosinhos. Para os que temem a força do mar e preferem as ondas domadas, existem duas piscinas onde podem tirar partido da água salgada, sem as preocupações que um banho no mar acarreta. A Piscina das Marés de Leça de Palmeira é um belíssimo local, projetado pelo arquiteto Siza Vieira, onde os tanques de água se enquadram na paisagem rochosa, tendo o mar como plano de fundo. Um pouco mais longe, em Espinho, encontra-se a Piscina Solário Atlântico, que possui pranchas para saltos. Se além dos prazeres de um banho refrescante o mote for a diversão ao máximo, o Parque Aquático de Amarante pode ser uma boa opção.

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O melhor é entrar no espírito Tuga, madrugar, encher a lancheira com minis, rissóis e sandes de panados e rumar à cidade do Tâmega. ESCAPADELAS À medida que as férias vão avançando o leque de escolhas vai reduzindo. O Porto está mais do que explorado e o regresso às aulas e/ou ao trabalho ainda está longe. A solução é dar escapadelas até às cidade ou regiões mais próximas do Porto, de preferência utilizando o comboio, o autocarro, ou até mesmo o metro, que viaja até à Póvoa de Varzim, passando por Vila do Conde. A norte da Invicta encontram-se Braga e Viana do Castelo, onde a escolha de locais históricos e de oferta noturna é suficientemente diversificada. Depois das duas cidades nortenhas e antes da fronteira com Espanha, encontram-se alguns locais balneares, como Caminha e Moledo, com paisagens que justificam o sacrifício de molhar os pés na água fria. Uma vez em Braga, é de aproveitar e dar um salto à Capital Europeia da Cultura, também conhecida como a cidade rival da anterior: Guimarães. História, cultura e tradição é o que se encontra pelas ruas vimarenses.


A região do Douro possui uma oferta, também ela rica em história e tradição. Contudo, as suas mais valias passam pelas paisagens de cortar a respiração, a gastronomia divinal e os vinhos irresistíveis. Por terras durienses o tempo passa a metade da velocidade, só para que o visitante possa disfrutar da calma, do ar puro e da simpatia das suas gentes por mais tempo. Se durante as férias passadas no Porto o que faltou foi o espírito de verão, com tenda, praia e diversão, Aveiro pode ser o melhor destino. Para além da concentração noturna de pessoas na Praça do Peixe e por outras ruas do centro histórico da cidade (bem ao estilo da Invicta), existem praias de categoria, bem próximas da cidade, seja a famosa Barra ou a paradisíaca Mira. Além dos parques de campismo das redondezas, a cidade dispõe já de alojamentos low cost, como os hostels.

Apresentadas as provas suficientes, conclui-se que não há razão nenhuma para dramatizar uma estadia permanente na Invicta, este verão. A forma mais lógica de acabar este artigo seria com o cliché “vá para fora cá dentro”, algo que não vou hesitar em fazer, pois um dia alguém me disse “se os clichés existem é para serem usados”. Portanto, este verão não invente, “vá para fora cá dentro”! Melanie Antunes CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 15


Caipicompany

Caipicompany // Exposição “Fragmentos”, alunos ESAD 16 // www.IDIOTMAG.com


Programa CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 17


Caipicompany // Skate “DRE’AD”, comemorativo dos 30 anos do desaparecimento de Bob Marley

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Na rua e W de Wilson // Exposição de Joalharia de autor do Espaço Continuação

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Tendinha dos ClĂŠrigos // Os Cadernos do UZO de Tiago Vaz

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Max // Público na actuação de Flora Neves

Caipicompany // Inês, Bernardo, Flora e Sandrinha CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 21


Flora Neves

IAndré Ventura // Ilustração

Oporthouse

IAndré Fonseca Carvalho // Ilustração

Na Rua e Oporthouse // Exposição de fotografia de Sérgio Correia 22 // www.IDIOTMAG.com


Oporthouse: Inês Peres // Ilustração

Oporthouse: João Brandão // Ilustração CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 23


Sergio Correia // Fotografia na rua e no Oporhouse

Youth One // Mostra de Graffiti na rua 24 // www.IDIOTMAG.com


Na rua: Mostra de Graffiti por Youth One // Dedicated Porto Desafiamos este artista a criar ao vivo durante a noite à frente da Caipicompany a capa da Idiot Mag de Agosto. Este foi o resultado. Obrigado Youth!

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Exposição Luio Onassis

Vejam o photoreport completo em: www.facebook.com/idiotmag CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 27


Rui Guimar達es @ Atelier 28 // www.IDIOTMAG.com


DESIGNER DO PORTO QUE TRABALHA PARA A CIDADE E É APAIXONADO POR ELA, RUI GUIMARÃES É MAIS DO QUE ISTO: UM ARTISTA, PERCURSOR DAS TENDÊNCIAS QUE O APAIXONAM E, PARA NÓS, UM DOS NOSSOS PREFERIDOS. NO SEU ATELIER, BEM JUNTO AO RIO DOURO, O PESSOAL DA IDIOT Foi das primeiras turmas de design? e os meus colegas, como o António FOI VER O QUE POR LÁ SE Eu Modesto, não sei se conhecem, que é FAZIA NUM DIA BEM PAS- essencialmente ilustrador e também estudou comigo. Também o SADO E NUMA CONVERSA professor Eduardo Aires, por exemplo. O nosso INFORMAL. ACOMPANHEM: curso foi o do segundo ano de impleFormou-se em que ano? [risos] 86. 87. 88?

mentação e o curso era uma porcaria de primeira! Muito mal estruturado, os professores eram essencialmente pintores, escultores, não tinham preparação nenhuma de design, tínhamos muita disciplina teórica de arte. Saímos, na minha opinião, extremamente mal preparados para a profissão, de tal forma que eu tenho impressão que isso ainda é uma lacuna que existe hoje em dia nos cursos de design gráfico, que é a (falta de) preparação para a realidade comercial da profissão. Ou seja, podem ter aulas teóricas de tipografia, sobre como resolver problemas práticos de trabalho, história do design, etc. mas há uma componente muito, muito importante que escapa a muita gente, que isto que nós fazemos, esta nossa profissão, é um serviço. E portanto tem todos os problemas que vêm atrás, essencialmente comerciais; é preciso lidar com clientes, cativá-los. Não vamos estar à espera que a qualidade do nosso trabalho vá buscar clientes, porque isso é uma utopia. CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 29


“AO ENTRAR NO ATELIER DO JOÃO MACHADO, VEJO UM MAC, UM DOS PRIMEIROS MAC’S, UM 2, AQUELAS CAIXINHAS PEQUENINAS, A PRETO E BRANCO E PENSEI: ESPECTACULAR!” Quando se formou o que é que fez, começou a trabalhar por conta própria ou para algum patrão? Eu já trabalhava antes de me formar, em design e ilustração. Havia muita pouca gente a trabalhar nessa altura em design. Trabalhei em têxtil, fiz logótipos, fui fazendo alguns trabalhos e cada vez fui crescendo mais. Uma das minhas ambições era ser ilustrador, eu sempre quis ser ilustrador. A minha paixão de infância era a banda desenhada, que ainda cheguei a fazer quando era miúdo e ate ganhei uns prémios! Mas no entanto não havia mercado… Quando me formei, a par dos trabalhos que ia fazendo, comecei a trabalhar para a editora Areal. Depois comecei a trabalhar, já como designer de edição e como ilustrador para a ASA. Nós estamos a falar de coisas de há 25 anos, caraças, (risos) é impressionante! E da ASA, comecei nessa altura a ter clientes mais importantes, nomeadamente fundações, como a Associação dos Jovens Empresários, a Fundação da Juventude, etc. Entretanto fui convidado para trabalhar com o escultor João Machado. Foi uma coisa giríssima! Aprendi muito com ele, é um tipo impecável, um verdadeiro artista, com a sua idade e a sua imagem, que já vem de longa data e continua a ser muito conceituado lá fora. Já quando eu trabalhava com ele, tinha uma imagem no exterior que ninguém tinha. Era convidado várias vezes para ir ao Japão, aos Estados Unidos, para exposições, eventos,

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era mesmo muito conhecido. Foi uma altura muito engraçada porque foi uma viragem. Quando comecei a estudar, trabalhávamos com fotocópias, quando acabei de estudar começaram a aparecer os computadores e quando, ao entrar no atelier do João Machado, vejo um Mac, um dos primeiros Mac’s, um 2, aquelas caixinhas pequeninas, a preto e branco e pensei: “espectacular! É agora que vou começar a trabalhar com computadores!”. O João não sabia trabalhar com aquilo, ele utilizava-o para escrever texto, o computador vinha com meia dúzia de fontes e quando precisava de escrever qualquer coisa, imprimia na laser - já havia laser na altura- e depois tirava fotocópia e pintava por cima, etc. Era também um período muito engraçado nesse aspecto, porque eu conhecia as potencialidades do Mac. Comecei a puxar por ele, eu também não sabia muito bem, mas acabámos por nos puxar um ao outro. Comprava as revistas e aprendia como é que se trabalhava com o Freehand, o que se podia fazer, e o resultado é que nos fomos tornando digitais. Quando lá cheguei, o trabalho do João era feito à mão e quando saí, já fazíamos muita coisa no computador, em vectorial, apesar de que ele também gostava muito de fazer estudos de cor nos primeiros programas, que já nem existem, como o Pixel, uns programinhas que faziam uns dégradés, etc e aquilo era uma alegria, ficávamos todos felizes. Estávamos a descobrir um mundo novo que hoje não tem nada de novo.


Cartaz para Universidade do Porto

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“ANTES DO COMPUTADOR ESTÁVAMOS SOZINHOS A TRABALHAR, COM POUCA INFORMAÇÃO, MAS O NOSSO TRABALHO ERA ESPONTÂNEO, ERA A NOSSA CRIATIVIDADE.” O que pensa da ascensão da internet e tecnologia no desenvolvimento do trabalho criativo? Uma coisa é a ferramenta, outra coisa é o trabalho. O computador como ferramenta multiplicou as possibilidades de uma forma fantástica. O computador, ao mesmo tempo, tornou acessível a parte técnica a toda a gente. E ainda por cima - é um problema muito chato -, a Internet permitiu, digamos, o canibalismo do trabalho. Eu estou farto de ver miúdos que quando lhes encomendam um trabalho, a primeira coisa que fazem é ir a Internet ver o que é que há do género e depois praticamente copiam. Ou seja, digamos que antes do computador estávamos sozinhos a trabalhar, com pouca informação, mas o nosso trabalho era espontâneo, era a nossa criatividade. Hoje em dia, temos montes de informação, mas vemos muito pouca gente a ter espontaneidade no trabalho e é essa espontaneidade que faz o verdadeiro artista, é, ou seja, a sua própria criatividade. Esta vulgarização do design é muito negativa, no entanto o computador não deixa de ser uma ferramenta excepcional e de maneira nenhuma deve impedir a nossa criatividade. O computador não refreia a criatividade - nada nos impede de pegar no lápis - é mais uma ferramenta, mas é a mais poderosa de todas. Claro que as pessoas começam a ver que o trabalho mainstream começa a ser demasiado frio, demasiado mecânico e a tendência é dar um aspecto manual as coisas. Agora

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começamos, felizmente, a voltar a ver as pessoas a digitalizar, ou seja, design, digitaliza, imprime. Uma ferramenta como o lápis é apenas mais uma maneira de chegarmos aquilo que a nossa cabeça nos diz. Eu acho que em termos de qualidade geral do trabalho o factor mais negativo nem sequer é o computador em si, ou as ferramentas como o Illustrator ou Photoshop, mas a Internet como fonte de inspiração, o acesso ao trabalho dos outros, a globalização da inspiração que produz este canibalismo terrível que mata a originalidade do trabalho. Por outro lado, nunca se viu tanto trabalho de boa qualidade. O problema é: qual é o original? Qual foi o conceito original, o que é que o autor realmente pensou? Sabemos de historias de gente conhecida que faz trabalhos e pensamos “ai que bonito, isto está espectaular”, e depois vai-se ver e é rigorosamente igual a um que estava na Austrália ou em Barcelona. Nesse aspecto o computador, como provedor da Internet e dos meios de comunicação, não é mau, mas lá esta, contribui para a vulgarização da profissão e para a quebra da identidade. Começamos a ver os trabalhos e o design começa a ser regido por tendências, como a moda. Não é que nós saibamos bem de onde é que elas vêm, mas o facto de existirem tendências já explica que não haja espontaneidade na profissão. Claro que artistas hão-de existir sempre e há de existir sempre a necessidade do design.


“HÁ O CLIENTE QUE GOSTA DO PRATEADO. O CLIENTE QUE GOSTA DO DOURADO E ISSO FAZ COM QUE A QUALIDADE SEJA MUITO SUBJECTIVA” Hoje em dia quer-se mais design barato do que bom design? É. É e não é. O problema é que design barato há aos montes. Quando temos que pagar pão, não olhamos ao preço do pão. Portugal tem infelizmente um excesso de oferta de designers. Só no Porto, se pensarmos que há quatro ou cinco escolas, não sei, mas devem ser à volta disso. Onde é que todos esses designers vão arranjar trabalho no Norte que não tem procura? Ou seja, o design sofre um fenómeno de molde em termos de procura da juventude da profissão e isso não é obrigatoriamente uma coisa boa, porque veio saturar o mercado e além de mais não pode haver assim tantos bons designers! Quer dizer,

muitos deles foram parar ao curso por alguma razão que não a vocação, por assim dizer. No entanto não deixam de vir fazer número. O cliente tem muito por onde escolher e cada vez mais os preços começam a esmagar, porque há um excesso de oferta e realmente essa história da qualidade faz com que não nós possamos esquecer que o primeiro julgamento de um trabalho de um designer, infelizmente, da parte de um leigo, é uma questão estética. E como nos sabemos, gostos não se discutem, portanto não podemos afirmar que A é que é bom e que B é que é mau. Há o cliente que gosta do prateado e o cliente que gosta do dourado e isso faz com que a qualidade seja muito subjectiva.

“Tea Chalet”, projecto em desenvolvimento CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 33


Hoje em dia quem tem como cliente? Os meus clientes mais importantes são o Futebol Clube do Porto, a Universidade do Porto, pelouros da Câmara do Porto, como a APOLO, a SRU ou os museus. Neste momento estou a fazer muita coisa para a Associação Têxtil de Portugal, para uma exposição em Santo Tirso, a fazer uns guias e uns livros. Também trabalho para uma gasolineira portuguesa (N.R. Galp), para editoras e um banco de Lisboa. Neste momento os clientes estão a reduzir, porque não há dinheiro.

Capas da Revista Alumi da UP

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Como é ser um designer independente? Independente ou dependente é tudo a mesma coisa, porque mesmo que sejas um assalariado o teu patrão tem que ter trabalho. Ou seja, a segurança para um designer independente ou para um assalariado não existe, não existe segurança em nada, porque um assalariado está dependente de que haja trabalho para poder ter emprego. Claro que se ficar no desemprego tem o apoio do Estado, está mais protegido. Mas claro, eu prefiro mil vezes ser um freelancer do que um assalariado, porque giro a minha vida e tenho a minha liberdade; em contrapartida a minha responsabilidade é maior. Sei que ao fim do mês tenho que pagar salários e tenho que fazer contas. Isto está sempre a mudar. Já tive pessoas a trabalhar comigo, já fomos três, já fomos dois, agora somos um e meio. Brevemente terei que arranjar outra pessoa para trabalhar a tempo inteiro. Odeio contabilidade, fico nervoso só com os papéis, por isso também tenho há muitos anos alguém para se preocupar com isso, a única coisa com que me preocupo nesse campo é com os orçamentos e, portanto, é menos uma dor de cabeça.


Ainda não há muito conhecimento do design que se faz em Portugal? O que eu costumo dizer é que o design é estrela apenas no meio. Realmente podemos ter eventos como a experimentadesign, por exemplo, que de certeza que tem o seu público, agora se perguntarmos a alguém quem é José Saramago, toda a gente sabe. Se perguntarmos a alguém quem era o Medina ou um pintor mais conhecido, uma grande percentagem de pessoas saberão. Agora, acharmos que muita gente está a par, sequer, do que é a profissão ou quem são os nomes, ou quem nós consideramos “os nomes”, praticamente ninguém sabe. Somos estrelas entre nos próprios.

BENESASSUM TAM ICLOSSPATTERPRA OMNISEPTAETQUO. VAD BRUTUSBRUTAEQUALQ IS UO BENESASSUMPTAMICLO S SPATTERRA. OMNISEPTAETQUOVAD BRUTUSBRUTAEQUALQ IS UO

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E o futuro, com a crise? Temos que separar as coisas. Como disse, o design tem um enorme futuro. O design não é só gráfico, o design, a disciplina do design é universal, aplica-se a tudo. Um arquitecto é um designer, ou seja, o design não vai desaparecer, já o design gráfico poderá mudar por virtudes do futuro ou pelo que as tecnologias irão trazer. Mas não deixaremos de existir, tenho a certeza, a menos que haja uma bomba atómica algures, a actividade de design continuará indefinidamente enquanto estivermos num mundo capitalista e consumista e com as necessidades de comunicação que temos. Mas, na minha opinião, o design vai vulgarizar-se e vai perder aquele glamour que herdou de antigamente, de ser uma actividade artística. Vai se tornar uma profissão quase como qualquer outra, o que não implica que não existirão sempre, como em todas as profissões, nomes que se destacam no meio. 36 // www.IDIOTMAG.com


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A CIÊNCIA DAS ROLDANAS M+P(PX3)= EXP

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JUVENTUDE INVESTIGADORA EM MARCHA

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Em marcha e sempre em frente

A RADIOASTRONOMIA EM PORTUGAL PIP PIP PIP...

ÁTOMOS VISÍVEIS Minúsculo em ponto grande

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UNIVERSIDADES EM ESTADO DE LOUCURA Os Teoremas de Schalck chegam ao ensino

A CIÊNCIA DAS ROLDANAS M+P(PX3)= EXP

O design é arte ou não é arte? Isso é uma pergunta muito inteligente. E sim, é arte, sem dúvida. Tudo o que implica criar é arte. Agora há diferentes níveis de liberdade de criação, por exemplo, um pintor tem uma tela e tem a completa liberdade de fazer o que quiser. Um designer é um artista prisioneiro, somos artistas em que a nossa prisão é a nossa obrigação. Ou seja temos uma obrigação, o trabalho que estamos a fazer tem um designo, uma função. De resto temos toda a liberdade criativa, desde que respeitemos a nossa obrigação, que é a função, aquilo que eu chamo de designo da honra, temos toda a liberdade. Eu não entendo sequer, como é que dizem que o design é um processo técnico, que não é arte. Não é possível dizer isso. Quando eu tiro coisas da minha cabeça, quando eu invento, é arte. Agora, a questão é que pode ser fraca arte! Daqui a bocado estamos a discutir o que faz de uma coisa obra de arte ou não. É como termos dois quadros à nossa frente e dizer: “este é uma porcaria, aquele não”, mas foram os dois pintados a óleo, são os dois um retrato, provavelmente da

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mesma senhora, mas um é uma obra de arte e o outro não é. Os gostos são gostos e há uma coisa que cada vez mais nós descobrimos: a cultura é que faz o gosto. E um designer é um agente para essa cultura, ou seja, quando nós trabalhamos, principalmente no mundo empresarial, temos que ter consciência que nos estamos a dirigir para alguém e temos que fazer um esforço para perceber quem é esse alguém. Captar a linguagem e a estética dessa pessoa para tentarmos fazer algo que lhe agrade. Aquela velha história de que nós é que temos de educar o cliente é uma treta porque isso é a mesma coisa que dizer que o que nós fazemos e o nosso conceito estético é que é o bom. Ou seja , é como eu disse antes, há os que gostam de prateado e os que gostam de dourado, ninguém me convence que há uma verdade para o bonito ou para o feio. Os olhos de quem vê é que conta. Como designer, digo: temos que ser polivalentes e fazer o nosso melhor segundo a nossa linguagem estética e acertar consoante o receptor. Pode haver métodos e técnicas, mas não existem verdades estéticas. Nuno Dias // Mariana Ribeiro CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 37


“Mente Sã”, mix media, colagem digital 38 // www.IDIOTMAG.com


“Comandante”, tinta da china

“Out”, colagem digital

João Brandão é um nortenho nascido na cidade do Porto, onde trabalha como ilustrador. As suas ilustrações exploram o lado figurativo, imaginativo e narrativo, as texturas, as cores as colagens a pintura e o desenho são fundamentais no seu processo criativo e assumem um papel determinante na abordagem do seu trabalho. Frequentou o curso de Artes Digitais e Multimédia na ESAD (Escola Superior de Artes e Design) em Matosinhos. As suas referências vão desde autores contemporâneos à folk art americana a imagens vintage, fotografias antigas e aspectos gráficos e históricos da cidade do Porto. Trabalha a ilustração tentando alcançar a sua melhor harmonia e composição. Actualmente trabalha como freelancer editorial com a Agência – Who e para o jornal Diário de Notícias. Links: www.joaobrandao.com www.facebook.com/jbportfolio

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ALAN FITZPATRICK, O BRITÂNICO QUE BRINCA COM A PISTA DE DANÇA FALOU CONNOSCO POR TELEFONE PARA NOS CONTAR COMO É O DIA-A-DIA DESTE SENHOR DA DRUMCOJoão Cabral DE. LEIAM: Como é pertencer a uma família tão grande como Drumcode? É uma óptima experiência. Todos os artistas na Drumcode se dão muito bem e complementam-se uns aos outros. É sempre muito divertido tocar gigs juntos e ouvir a música nova de todos. Respeitamo-nos uns aos outros e todos nós somos artistas e produtores. Como é que te sentes quando tocas para um público portugês? Todas as vezes que toquei em Portugal foram incríveis. O público é sempre muito energético Quem é Alan Fitzpatrick? Sou um DJ e produtor de Southampton, no Rei- e muito educado no que diz respeito ao tecnho no Unido. Tenho vindo a produzir música desde e conhece as faixas. São um dos melhores pú2008 e editei principalmente pela Drumcode - blicos do mundo. incluindo o meu álbum de estreia “Shadows In Para finalizar a entrevista, conte-nos sobre os The Dark” e muitos EPs - assim como a minha seus projetos futuros. própria label, 8 Sided Dice, que está quase com Tenho alguns projectos previstos para este 50 lançamentos. Podem saber mais sobre mim ano. Nas produções originais o próximo pasem www.alanfitzpatrickmusic.com so será um EP em colaboração com um amigo Fala-nos sobre o teu novo EP para a famosa label meu chamado Jon Gurd que sairá em 8 Dice do Adam Beyer, a Drumcode? DC91 Alan Fitzpatri- Sided. Em Maio sairá o meu primeiro viril pela Drumcode Ltd chamado Eyes Wide Open. Tamck - Life Through Different Eyes. Tenho de dizer que foi um lançamento muito bém estou a planear colaborar com Gary Beck importante para mim. Eu tentei fazer algo um e Joseph Capriati para o final do ano. Haverá pouco diferente com este EP e corri alguns ris- também alguns remixes feitos por mim ao loncos também usando os vocais, mas parece ter go dos próximos meses. Primeiro, um remix de valido a pena. Foi também meu primeiro núme- um clássico Cari Lekebusch, chamado Steady ro, um solo no Beatport e todo o feedback tem Motion e depois um remix para Ben Sims de uma faixa de seu álbum recente da Drumcode. sido fantástico. 40 // IDIOTMAG www.IDIOTMAG.com


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NO PRÓXIMO DIA 20 DE JULHO, NO ÂMBITO DA CAPITAL EUROPEIA DA JUVENTUDE 2012, A CIDADE DE BRAGA E OS SEUS PARCEIROS APR ESENTAM UM EVENTO OFICIAL CIRCO LOCO . PARA A REALIZAÇÃO DO MESMO FOI DISPONIBILI ZADO UM ESPAÇO PRIVILEGIADO AO AR LIVRE, JUN TO À RODOVIA. ESTE EVENTO TERÁ INÍCIO ÁS 16H E CONTARÁ COM A PRESENÇA DE ANIMAÇÃO CIR CENSE, ENTRE OUTRAS SURPRESAS. ASSIM SEN DO, RESTA CONVIDAR-VOS A FAZEREM PARTE DA CELEBRAÇÃO DA JUVENTUDE AO SOM DOS ARTISTAS CIRCO LOCO!

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SEM MARCHA –ATRÁS

Nasceu de uma brincadeira há quatro anos e foi buscar o nome à música “Sem Marcha-atrás” dos já extintos Donna Maria, porque a autora é fã da letra desta melodia. Se inicialmente o blogue era um diário de bordo, actualmente é um blogue inspirador e de inspiração onde uma imagem vale mais que mil palavras. Recomenda-se as rubricas semanais: o “Dia do Senhor” para alegrar as meninas ou o “Have yourself a fashionable weekend” com alguns itens de moda e preferida da autora “Saturday inspiration” com uma série de imagens a partir de um tema. Ainda que seja um hobby, o blogue conta com adeptos fiéis e está para durar, afinal “o tempo é um carro novo sem marcha-atrás”. Catarina Lima http://semmarcha-atras.blogspot.pt/ www.facebook.com/pages/Sem-Marcha-atrás

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COISAS DA BARICA A Bárbara sonhou e a obra nasceu. Confrontada com a falta de trabalho, em Novembro de 2011, os dias passaram a ter mais horas e a Bárbara sentiu que se a cabeça acompanhasse a duração do tempo de um dia, não iria aguentar muito tempo. Assim, uma vez que já tinha realizado alguns workshops para crianças, amadureceu a ideia e decidiu montar uma oficina em casa onde experimenta transformar ideias em produtos. Em Abril de 2012, nasce oficialmente “As Coisas da Barica”. A escolha do nome foi a tarefa mais fácil: nasceu da alcunha amorosa com que foi baptizada pela sua cara metade. Quando lhe pedimos para definir o seu trabalho, a Bárbara não hesita: “As Coisas da Barica” são coisas do coração... são coisas das suas mãos, cabeça e da sua alma! “As Coisas da Barica” são objectos ternurentos e coloridos para miúdos e graúdos, são cor e alegria. São coisas boas e doces. São para usar, para ver, para ter, para decorar, para comer. “As Coisas da Barica” também são coisas para aprender, são workshops para crianças e oficinas divertidas. É um projecto contínuo e intemporal. Somada uma vida sempre ligada à infância e rodeada de crianças ao talento para os trabalhos manuais, não era díficil de adivinhar o sucesso deste projecto. Trabalha, essencialmente, para as crianças porque são o público para o qual a Bárbara mais gosta de produzir, de inventar, de criar e o produto final parece sempre mais bonito num tamanho XXS do que num XXL! Especial é também a ajuda do filho, o Guga, que ajuda e dá ideias, sugere novidades e critica o que acha que não está bem, conhece todos os trabalhos da mãe e é tipo um responsável em miniatura. A reacção do público tem sido boa e carinhosa. Feliz com a forma como este projecto nasceu e da forma como se está a desenvolver e a amadurecer, Bárbara garante que “As Coisas da Barica” vieram para ficar, crescer e criar raízes. Vieram para participar e para dinamizar espaços, momentos e actividades. Perspectivas são algumas, bem guardadinhas na caixinha da Barica. Catarina Lima http://www.facebook.com/coisasdabarica

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O VERÃO CHEGOU E COM ELE VEM AS FÉRIAS, A VONTADE DE VESTIR BEM E ESTAR NA MODA. CONTUDO ESTAR NA MODA E SABER O QUE NOS FICA BEM NEM SEMPRE É FÁCIL. AQUI FICA UMA AJUDINHA: Esta estação, os estampados florais, animais, e étnicos foram fortemente reinventados por designers de todo o mundo. Mas, cuidado! Os motivos mais pequenos aumentam, por isso para as meninas mais volumosas escolham um estampado com motivos maiores Etro

Sonia Rykiel

Jimmy Choo

Clover Canion

Colour Block, uma tendência deste verão que consiste na conjugação de duas ou mais cores em blocos. Podem arriscar à vontade, uma das regras desta tendência é, não haver regras, conjugar rosa com amarelo ou verde com laranja e uma terceira nos acessórios para as mais destemidas e para as mais tímidas duas cores fortes com uma cor neutra.

Continuamos a falar de cor, os tons suaves como as cores de pele, beje e creme passam pelo sol, com ou sem transparências em diferentes tecidos e texturas. A única atenção é com a cor da tez, um tom muito aproximado da cor da nossa pele faz com que haja uma fusão da pele com a peça, logo não há destaque nem para a peça nem Roland Mouret para quem a usa.

Phillip Lim

Espero que ajude, até a próxima!!

Ana Anderson 44 // www.IDIOTMAG.com


Mais uma vez na baixa! Mas desta vez a idiotice é a dobrar… Este casal de namorados chamou à atenção pela sua cumplicidade e carinho que se notava ao longe. No entanto havia uma serie de influências dispares. Ele veste uma camisa axadrezada e calça os Oxford cinzentos de influência britânica evidentes. Por outro lado, ela, na sua simplicidade invoca um estilo francês com repas retas e de cabelo apanhado, vestido curto e de botins pretos. No fundo roupa é só roupa, mas com certeza haverá alguma verdade na associação dos relacionamentos com a forma como nos apresentamos, às vezes, pela diferença, outras, pela semelhança.

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“EM TODOS OS TEMPOS, A IMORALIDADE ENCONTROU NA RELIGIÃO TANTO APOIO QUANTO A MORALIDADE.” Sigmund Freud 46 // www.IDIOTMAG.com


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*aviso antes de ler, a pedido do editor, nesta crónica pululam obscenidades e relatos para maiores de 18… tabuísmos… “caçada [kasáda]. s. f. (Do part. pas. do v. caçar). 1.Acção de caçar, de perseguir animais para os capturar vivos ou mortos. ≈ CAÇA 2.Conjunto de animais assim capturados. 3.Excursão, em que geralmente participam muitas pessoas, organizada com o objectivo de caçar. (…) 4.Busca, procura; perseguição.(…) dar caçada, esgrimir com a espada ou o sabre. (…) sedução [sidusãw]. s. f. (Do lat. seductio, -õnis). 1.Acção de corromper ou de induzir ao mal; acto ou efeito de seduzir. 2.Facto de uma pessoa seduzir outra, de a induzir a manter relações íntimas. 3.Acção de atrair, conquistar, seduzir alguém. ≈ ATRACÇÃO, ENCANTAMENTO, ENCANTO, FASCINAÇÃO, FASCÍNIO. Cena de sedução. Estratégias de sedução. “Agia como a ave que dança, num giro de encanto e sedução, em volta do seu peixe.” (J. DE MELO, Gente Feliz, p.251). (…) sedutor1, a [sidutór]. adj. (Do lat. seductor, -oris). 1.Que seduz. 2.Que engana com astúcia, que alícia para mau fim. (…) 4. Que fascina graças à sua beleza, aos seus encantos ou recorrendo a meios para agradar. É um homem jovem, bonito e sedutor. “Mas não se deixava escravizar pelo amor, misteriosa e invulnerável, ocultando renitentemente o passado, por isso, era mais sedutora que todas as outras.” (SENNA FERNANDES, Nam Van, Contos de Macau, p.154)(…) 6. Que agrada, que tenta ≈ ALICIANTE, TENTADOR. (…) sedutor2, a [sidutór]. adj. (Do lat. seductor, -oris). (…) 2.Pessoa que induz outra a envolver-se em práticas intímas por meio de promessas tentadoras.(…)” in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa, Verbo, 2001 O último mês de Patrícia tinha tido mais acontecimentos inesperados dos que os já esperados na vida desta aventureira rapariga, entre-cortado com muitas saídas para o campo, físicas e virtuais, estava envolto numa aura rural e fresca, cheia de novidades. Primeiro, ao trabalho… Patrícia já tinha ganho alguns clientes habituais, mas nunca esperaria que aquele que a tinha apanhado numa noite de Domin-

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go, enquanto bebia uma cerveja e esperava os telefonemas caírem, se tornasse num habitual cliente, certinho sempre, às segundas, quartas e sextas. E que com tanto sexo falado (bem mais gemido e sussurrado), viesse tanta partilha e conversa boa. R., de tanta timidez na voz e arfar tão recatado, cruzou a linha que não se poderia cruzar, e transformou-se em algo mais, que obviamente continua a pagar os 0.69e por minuto. Patrícia é profissional. Depois, V. e as suas cartas, ela que já a tinha seduzido com olhares, corpo e mente, fê-la tremer, e enquanto lia desfazia cerejas na boca, sentindo-se a pulsar com o mesmo sumo fresco. V. tornava o seu corpo em veraneio, em campo de férias da imaginação das duas, num jogo claro, limpo, em que cada uma puxava à vez o lugar de sedutora e de seduzida. R., nas primeiras ligações, ao contrário das taras mais kinky que o seu perfil na net normalmente invocava, tinha sido bastante doméstico, queria imaginá-la de avental, a fazer bolos e com mãos cobertas de farinha, enquanto a apanhava na banca e a comia por trás. Punha-a sempre num lugar de mãezinha, numa imaginação de casal, e desde o primeiro momento que tinha de adivinhar o lugar certinho onde as suas mãos caiam. Quando percebeu a sua regularidade, Patrícia começou a vestir-se para a ocasião, e chegado o telefonema, já ela estava de vestido camiseiro, sem soutien, sem roupa interior, e de quando em quando de avental, pronta a ser possuída, e para aumentar o enquadramento punha o computador na cozinha. Os encontros sexuais eram preenchidos pelo evocar de cheiro a bolachas acabadas de fazer, de refogados, de flores, e com tanto detalhe completado por ambos, que os 45 minutos de cada dia marcado se começaram a tornar prazenteiros para quem menos contava com isso. Patrícia começou a ansiar pelas segundas, quartas e sextas. Duas semanas depois, R. surpreende, a casa não cheirava a campo, mas a sangue, e Patrícia tinha que descrever o esfolar de um coelho que ele tinha acabado de caçar, enquanto R. a lambia selvaticamente. O que até então era doce e domado transformou-se num relato a dois brutal. E Patrícia masturbou-se como nunca no trabalho se tinha masturbado. Quando terminaram, não resistiu a perguntar o porquê da mudança do menu: a época de caça da lebre tinha começado e R., nesse fim de semana, tinha vindo carregado de caçada. Não o sabia caçador e não sabia sequer se isso lhe agradava, mas trabalho é trabalho, conhaque ou sopa e salada, neste caso, é sopa e salada. A voz de R. estava mais confiante, e aliviado e satisfeito começou a contar-lhe. O que lhe agradava era a perseguição, o seguir das trilhas e cheirar o animal, fazer pontaria e quando disparava e acertava, com o ladrar dos cães de banda sonora, era como foder uma mulher. Patrícia afligia-se com dualidades e neste mês, como nunca, via-se presa em demasiadas. Os limites de trabalho e prazer, profissionalismo e envolvimento, equidade e poder, o corpo escrito de uma mulher e a


voz rouca de um macho jovem, o ser presa ou predadora ou o seduzir e deixar-se ir, R. e V. e a violência de ambos os arrebatamentos. E a história da caça e da caçada, lembrava-lhe um homem que lhe tinha partido o coração. Patrícia, ria-se da noção de se fazer de difícil, conhecia-se como determinada e quando Z. lhe tinha dito que seduzir era como caçar e que se tinha que transformar na presa fugidia para lhe espicaçar o interesse, arrepende-se de não ter aberto o olho para paixão tão quadrada. Também com outros, que só a conheciam como predadora, perdia o interesse ao fim de dois ou três jogos. Este binómio presa-predador, ou o jogo da caçada, não lhe cabia bem no que toca a sedução. Nem saía à caça às manadas, nem se sentia animal, muito menos querer-se morta ou necrófila. Acima de tudo era uma metáfora deselegante. Em vez de buscas, procuras e perseguições, preferia encontros, instantes, sincronias, com trocas justas de olhares e quereres e com a maturidade de ambos os lados de quem sabe o que quer. Com V. tudo era fruta colhida, os beijos dela cerejas na boca de Patrícia, a mão dela semeava desejo entre pernas quando abria sulco. Mais que caçadora, Patrícia sentia-se recoletora, a provar e deliciar-se com o que a vida e mundo lhe iam apresentando em frente. Estranhava o ser muito mais fácil delinear um caminho sem insistência quando sedutora e seduzida eram mulheres, ou talvez fosse só algo da história de Patrícia e V. Caça trazia-lhe moléstia e fadiga, e parecia-lhe sempre que essas energias teriam momentos seguintes onde melhor seriam aplicadas. A selvajaria que fosse na cama, não na conquista. Instinto por instinto, primeiro o refinamento. Podia ser também uma questão de educação emocional, um dos amores da sua vida, um homem bem senhor, ria-se infindavelmente das figuras de quem andava ao encalço e de quem se fingia inacessível, muitas vezes juntos gozavam com a figura das ninfas das fábulas que se deixam cair na praia para serem apanhadas pelos pescadores. Com R., voltamos aos bolos, e nos últimos telefonemas já era ele quem usava o avental e Patrícia quem o comia por trás. Patrícia ensina-lhe agora os prazeres anais e delicia-se com esta sedução no fim de cada telefonema com promessas tentadoras a fazerem ambos desejar arritmicamente a ligação seguinte. Com V., as cartas multiplicam-se, assim como os beijos a cada raro encontro. E Patrícia, continua a pensar… dar caçada, só se for a esgrimir o sabre ou a devoradora entre lençóis. Seduzir é outra forma de criar laços, encantar, fascinar e usem-se os artifícios para criar ligações. Misteriosos, invulneráveis, acessíveis, fáceis ou distantes, homens, mulheres e todos os outros, estamos cada dia mais crescidos para sabermos o que desejamos e irmos, não ao encalço doutros, mas a abrir braços para o que nos é aliciante.

Chegado o verão é altura de por a review a mexer: escolhamos um vibrador! Já que é tempo de praia, de mar e de muita onda apresento: o Ocean. Com corpo vibratório 100% de silicone, totalmente impermeável, em rosa bébé ou ultramarino, este pequeno brinquedo, em vez de impressionar pelo tamanho, promete agitar muitas águas com a versatilidade, funcionalidade e claro, algo que não falta em nenhum produto Funfactory, design e qualidade exímios. Além disso esta linha é ecológica. Começo pela versatilidade: é um vibrador de dupla estimulação, vulgo rabbit, de tamanho médio/ pequeno (14cm de comprimento e 3.8cm de diâmetro), e extremidade, dirigida na maioria dos rabbits apenas ao clitóris, neste permite por não estar curvada sobre o fuste inserível, empregar para fazer estimulação anal e de perínio, não atrapalhando, quando rapaz use em rapariga, o uso da lingua e as maravilhas do cunnilingus com um ajundante a motor. Como em todos os Funfactory, através da pressão dos botões da base temos acesso a sete níveis de intensidade diferente, (a mais forte bem intensa), e três diferentes ritmos de vibração. O design é refinado e as duas extremidades acabam em duas espirais, uma bem enroladinha para encaixar no ponto G, de uma linha que vem da base passando para desenho a suavidade que se sente no toque deste brinquedo de silicone tratada como seda. Não usa pilhas e é recarregável, sendo o carregador magnético (coqueluche dos gadgets de ultima geração), e a duração da bateria extra longa promete horas de prazer. Completamentamente submergível, de um corpo só, permite usar em terreno seco e alto mar, o que juntamente com o design discreto, o torna a companhia perfeita para as viagens do verão. Mas há mais, acompanhando as ultimas trends sexuais, tem o tamanho e forma certa para as primeiras experiências de pegging, com as suas curvas a estimularem a próstata e o períneo ao mesmo tempo. Como podem ver, é a companhia que anda ausente nestas noites quentes e o terceiro elemento em falta na vossa relação. Encontram-se estes e outros úteis acessórios em reuniões d’A Maleta Vermelha, através de Carmo da Maleta. “OCEAN CLICK’N’CHARGE” – 44.95€ e “CARREGADOR MAGNÉTICO CLICK ‘N’ CHARGE” – 5.98€

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Para muitos jovens, raparigas e rapazes por esse país fora, ser LGBT ainda é uma realidade difícil, um caminho cheio percalços, insultos e amarguras. Muitas/os de nós migrámos para as cidades, cortámos laços familiares e pessoais, perdemos crenças, deixámos para trás a sombra do que fomos para nos tornarmos no que queríamos ser: pessoas completas, em busca da felicidade, à procura de um arco-íris de diversidade e sem olhares cheios de julgamentos. E, “somewhere over the rainbow”, encontrámos uma luz, um credo, incertezas prenhas de esperança, amizades puras como diamantes, um novo caminho, um novo dia. Claro que tropeçámos muitas vezes, mas esse é o fado de quem se propõe caminhar e mudar, de quem se sente inquieto. O registo de casos de agressões e discriminação no seio da família e na escola é algo muito difícil de conseguir obter: trata-se de uma realidade invisível, silenciada e dolorosa para as vítimas, enquanto frequentemente os opressores são protegidos e encorajados. Mas chegam alguns dados às associações, relatos informais aqui e ali, de quem não só se sente só como muitas vezes está literalmente sozinho, sem outros laços para além da esperança. Os números reais, esses, nunca saberemos. Claro que algo está a mudar. Sabemos que a homofobia já é em muitos contextos algo visto como vergonhoso, negativo. Dificilmente se ouvem, nas cidades, insultos publicamente. Já se conseguiu empurrar o preconceito para um canto e muitas vezes ele já foi mesmo silenciado. E muitas/os de nós também já ganharam uma consciência diferente, de que são eles que estão errados. Muita gente está do nosso lado, a lei está do nosso lado, assim como grandes figuras públicas, como Navi Pillay, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, 50////www.IDIOTMAG.com IDIOTMAG 50

ou Hillary Clinton e Barack Obama, que dispensam apresentações, muitas e muitos cidadãos anónimos! Ninguém pode ser beneficiado nem prejudicado em função da sua orientação sexual, diz a nossa Constituição, numa referência que é rara neste tipo de textos no contexto internacional. Os crimes de ódio também já incluem esta ressalva, tal como existia já em relação à xenofobia e ao racismo, porque agredir e insultar um dos nossos é insultar todos nós e alimentar a violência. Há uma campanha que utiliza o mote “It gets better”, para dar alento e coragem a todos esses jovens que ainda sofrem por serem LGBT. Gostava de ver esse movimento por cá, que não sacudíssemos a água e a responsabilidade do capote para cima das próprias vítimas, fazendo delas o único motor de mudança. Gostava de ver uma juventude em marcha pelos seus direitos, mas também pelos direitos das/dos outras/os, para lhes dizer que isto vai melhorar e que podem contar connosco! As associações LGBT podem desempenhar um papel importante, de apoio, aconselhamento, informação e/ou encaminhamento. É possível aqui desenvolver trabalho voluntário, assim como participar em atividades, de caráter lúdico, social, cultural ou político. Telmo Fernandes Contactos úteis (para usar e abusar): Porto Arco-Íris/Associação ILGA Portugal: porto@ilga-portugal.pt / 927 567 666 / ilga-portugal.pt Linha LGBT – 218 873 922 / 969 239 229 Associação rede ex aequo (associação de jovens LGBT) geral@rea.pt / porto@rea.pt (grupo local do Porto) / 968 781 841 *Título do filme de Pedro Costa (2006)


fotografia ® www.minus18.org.au “Another Perspective” CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 51


“RELIGIOUS WARS ARE BASICALLY PEOPLE KILLING EACH OTHER OVER WHO HAS THE BETTER IMAGINARY FRIEND.” Napoleon Bonaparte

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Slut Walk Porto 2012 fotografia ® André Henriques 54 //// www.IDIOTMAG.com IDIOTMAG 54


Slut Walk Seattle fotografia ® Schreient

Toronto, Janeiro de 2011. Um agente da Polícia, numa comunicação para estudantes na Universidade de York, alerta, cheio de si, as alunas que para não serem violadas devem usar decotes mais subidos e saias mais compridas. Pede-lhes que parem de se vestir como putas (sluts), expressa assim um pensamento que alimenta a chamada rape-culture, ou cultura de violação, em Portugal, tantas vezes ouvida no chavão “ela estava mesmo a pedi-las!”. Quantos de nós não ouviram isto? Ou “se não quisesses que te acontecesse, não devias ter ido sozinha para aquela zona”; ou “vê lá como vais vestida, para não pareceres uma puta”; ou “ vê lá o que te acontece quando te pões assim bêbada” ou tantos outros comentários do mesmo tipo. Abril de 2011, 3000 mil pessoas saem à rua, com cartazes que dizem “não é não”, orgulhosamente reclamando para si o nome Slut, autonomeando-se putas, vadias, galdérias, fáceis. Nos três meses seguintes, 75 cidades no mundo juntam-se ao protesto.

Slut Walk Londres fotografia ® Garry Knight CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 55


Yodobashi - isto faz-me chorar

Slut Walk Manchester fotografia ® Man Alive!

Nasce um movimento global, que traz homens e mulheres para a rua unidos pelo signo do feminismo. As reinvidicações são as mesmas, a não agressão, uma nova consciência de respeito, o direito à ocupação do espaço público por parte das mulheres, a educação dos possíveis agressores e o término da cultura de medo das vítimas. Porque havemos de ser ensinadas a comportar-nos de forma própria e que próprio é esse que tem um duplo padrão dependendo do género a que se aplica? Porque continua, em alguns círculos, a parecer mal que uma mulher beba uns copos, que saia sozinha, que se deite com quem deseja (e que deseje muitos), que se sente de pernas abertas, que traga roupa provocante... Acaso são chamados de putas os rapazes de t-shirts justas? E aqueles que com o calor desnudam o peito e se passeiam de pelos iridiscentes, estão eles a submeter os outros a exposição indecente? Porque acreditar que é determinado com-

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Slut Walk Londres fotografia ® Garry Knight

portamento, roupa ou forma de estar que leva a agressões, porque privar uns seres de liberdade de expressão (seja em que forma for) e de liberdade de circulação, em vez de ensinar outros a não se comportarem de forma violenta? Não será altura de ensinar a não agredir em vez de a não ser agredida (até porque este ensinamento parte de uma falsa premissa)? As agressões ocorrrem seja qual o comportamento for, não se enganem. No mesmo ano, Lisboa e Porto juntaram umas centenas e saíram com o mesmo lema: “Não importa quem és, onde trabalhas, como te identificas ou o que vestes. Ninguém tem o direito de tocar o teu corpo sem o teu consentimento”. Mais um ano passa e 30 de Junho e 1 de Julho, em Lisboa e no Porto, as galdérias voltam à rua para pedir mais do mesmo: fim da discriminação contra as mulheres, da violência sexual e da violência doméstica, do tratamento das vítimas como cul-


“TRAZ MÃES QUE QUEREM QUE AS FILHAS OU FILHOS QUANDO CRESCEREM SE POSSAM MOVIMENTAR POR ONDE E COMO QUEREM”

padas pela percepção de que os crimes são “naturais” diante do comportamento, ou da fondura do decote, daquelas que supostamente provocam os violadores. O movimento Slutwalk com a irreverência com que subvela, enche as ruas com mais gente do que qualquer outra manifestação feminista desde os anos 90. Une homens, mulheres, travestis, trans, lésbicas e gays. Parte da exigência de que os direitos não podem ser violados de nenhuma forma, seja lá quem ou como for a vítima. Traz jovens para a rua demonstrando como estão fartos que ainda se repitam situações que já deveriam ser inaceitáveis. Traz mães que querem que as filhas ou filhos, quando crescerem, se possam movimentar por onde e como querem, sem que isso seja desculpa para um imbecil as agredir. Propõe uma educação para a não violência, para o respeito e principalmente para a aceitação do outro e das suas formas de expressão e comportamentos.

nesta pagina: Slut Walk Porto 2012 fotografia ® André Henriques

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SLUT, galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil Em Janeiro de 2011 um polícia afirmou em Toronto que as mulheres devem evitar vestir-se de forma provocante se não quiserem ser violadas. Um ano depois, Portugal junta-se pela segunda vez à vaga de indignação que esta afirmação causou um pouco por todo o mundo, através da SLUTwalk Porto e da SLUTwalk Lisboa. A SlutWalk tem como base a recusa da culpabilização das vítimas de violência sexual e de género; a recusa da vergonha pela afirmação da auto-determinação sexual de cada pessoa; a recusa dos moralismos sobre as várias expressões de sexualidade e não-sexualidade existentes, desde que exercidas com o consenso de todas as pessoas envolvidas. Uma SLUT (galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil) é qualquer pessoa que pretende afirmar o direito ao seu próprio corpo, o direito à(s) sua(s) sexualidade(s) (ou ausência dela(s)), o direito a vestir-se como bem entende, o direito a expressar-se livre e responsavelmente – e que, por isso, é insultada, agredida, discriminada, atacada. Não existe um comportamento típico da SLUT. A SlutWalk pretende reclamar as palavras usadas para insultar, magoar e discriminar todas essas pessoas, reclamar o direito à não-moralização de quem é “fácil”, “difícil” ou “assim-assim” – e à violência de género associada. Temos a noção de que nem todas as pessoas se encontram em posição de poder reclamar esta e outras palavras. Temos a noção de que nem todas as pessoas são agredidas com estas palavras em específico. Ainda assim, defendemos que a recuperação de palavras agressoras é uma estratégia válida e possível, a par de outras – e que deve ser desenvolvida em conjunto com as lutas de quem não o pode ou deseja fazer. A SlutWalk não pretende falar por todas as mulheres, ou por todas as pessoas. As diferentes experiências de etnia, estatuto sócio-económico, cultura, religião, configuração corporal e de gé58 // www.IDIOTMAG.com

nero, etc, não se prestam a isso. Mas, ainda assim, a experiência de se ser chamada galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca ou fácil está bastante disseminada em Portugal, e faz parte de uma dinâmica mais abrangente de discriminação e opressão patriarcal. As pessoas envolvidas na SlutWalk são feministas – mulheres, trans, homens, genderqueer, entre outras identidades. O feminismo não trata apenas de ‘direitos das mulheres’, trata da dignidade humana para todas as pessoas, independentemente do seu sexo ou género. É essa dignidade que é violada quando se culpam as vítimas de violência sexual e de género, quando se atacam pessoas por aquilo que elas fazem com o seu próprio corpo, tempo, roupa, palavras e atitudes. Convém, no entanto, não esquecer que as mulheres são ainda as mais claramente visadas pela violência de género: em 2011, mais de meia centena de mulheres foram vítimas de homicídio ou tentativa de homicídio por parte de companheirxs ou esposxs (dados da UMAR) e 40% das mulheres com mais de 60 anos também é alvo de abusos (dados da Univ. do Minho). O corpo de qualquer pessoa deve ser propriedade da própria pessoa. Recusamos a existência de proprietários de primeira (geralmente, homens), de segunda (geralmente, mulheres) e de terceira (geralmente, pessoas trans). Se SLUT – galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil – é uma pessoa que decide sobre o seu corpo, sobre a sua sexualidade, e que procura prazer (nas suas várias formas), então, somos SLUTs, sim! Não queremos piropos sexistas, não queremos paternalismo, não queremos violência sexual. Dizemos não, por mais cidadania. Dizemos não, por mais democracia. Dizemos não, pela possibilidade de todas as pessoas poderem habitar os espaços públicos e privados em igual segurança, com igual respeito. Dizemos não à dominação patriarcal do espaço físico onde as mulheres se movimentam. Dizemos não, por mais liberdade.


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Se ponho um decote… Não é Não! Se pus aquelas calças de que tanto gostas… Não é Não! Se visto calções ou mini-saia … Não é Não! Se uso burqa… Não é Não! Se tenho as mamas à mostra … Não é Não! Se durmo com quem me apetece… Não é Não! Se sou virgem… Não é Não! Se tenho mais de 60 anos … Não é Não! Se passo naquela rua… Não é Não! Se vamos para os copos… Não é Não! Se me sinto vulnerável… Não é Não! Se sou deficiente… Não é Não! Se saio com xs maiores galdérixs…Não é Não! Se ontem dormi contigo… Não é Não! Se sou trabalhadora sexual… Não é Não! Se és meu chefe… Não é Não! Se somos casadxs, companheirxs, namoradxs… Não é Não! Se sou tua paciente… Não é Não! Se sou tua parente… Não é Não! Se sou imigrante ilegal… Não é Não! Se tenho relações poliamorosas… Não é Não!

Se sou empregada de hotel… Não é Não! Se tens dúvidas se aquilo foi um sim, então… Não é Não! Se és padre, imã, rabi ou pujari… Não é Não! Se beijo outra mulher no meio da rua… Não é Não! Se a pessoa com quem estou agora gosta de sexo a três… Não é Não! Se sou brasileira, cabo-verdiana, angolana ou de outro país que sofreu colonização… Não é Não! Se tenho mamas e pila… Não é Não! Se disse sim e já não me apetece… Não é Não! Se sou empregada doméstica… Não é Não! Se adoro ver pornografia… Não é Não! Se ando à boleia… Não é Não! Se estamos numa festa swing, numa sex party ou numa cena BDSM… Não é Não! Se já abrimos o preservativo… Não é Não! NÃO é sempre NÃO. Quando é SIM, não há ambiguidades ou dúvidas porque sabemos o que queremos e sabemos ser clarxs.

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O que usar para uma SlutWalk? Uma das perguntas mais feitas ao movimento, nos murais das redes sociais, boca-a-boca ou em telefonemas de membros da imprensa, é “existe dress code?”. Nas marchas por todo o mundo houve mulheres com as mais diferentes vestes, de pijamas a mini vestidos, com cartazes escritos em várias linguas com a mesma frase “isto era o que vestia quando fui violada”. O problema da roupa acaba por se tornar central quando um insulto de puta, vadia, galdéria é socialmente jutificado pelos trajes com que se anda. Mas o importante é que, nua, nuo, semi-vestido, ou completamente tapado/a, apareças e te juntes à próxima marcha na tua cidade.

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Já vem da tradição de movimentos LGBT a apropriação de insultos para lhes dar um novo significado, positivo e com poder. O mesmo foi feito com os termos queer e gay. O uso da palavra Galdéria / Slut causa controvérsia e rejeição por parte de algumas mulheres que não se querem assim autonomear. Ao se reclamar o uso desta, parodia-se a mesma moral que usa a palavra como insulto, retira-se-lhe a força e traz-se à baila novas discussões sobre a liberdade sexual, a facilidade como classificamos de fácil uma mulher com comportamentos sexuais autodeterminados, como classificamos como anormal quem não se identifica com ne-

GALDÉRIA, PUTA, DESAVERGONHADA, VÁDIA, FÁCIL, DESCARADA BADALHOCA: PORQUE É QUE EU ME QUERO IDENTIFICAR COM ESTAS DENOMINAÇÕES? nhum género e, por muito que me espanta que isto ainda aconteça, consideramos ofensiva a orientação sexual de outrem. Encaixa na forma de protesto inteligente que os últimos tempos nos tem habituado, que ironiza os velhos modos desta sociedade que já não responde aos desejos e anseios dos individuos que a compõem. Além disso, devo-vos dizer: galdéria agrada-me especialmente pelo uso ligado a uma ideia de liberdade, lembro-me de a minha mãe me dizer que andava a “galderar” muito, quando em adolescente não parava em casa. Parece-me urgente reflectirmos por este direito ao passeio, passagem e proveito de e por onde quisermos.

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Marcha das Galdérias no Porto À hora do pic nic apenas uns quantos se juntaram, dificilmente antes das 20h30 estavamos mais de três dezenas de pessoas. No entanto, trouxeram-se mantas e comida, cartazes e cartões, marcadores, roupa. À medida que a hora avançava mais e mais gente chegava, pintavam-se caras, braços e peitos, desnudavam-se partes de corpos e cada vez mais frases surgiam. Aos que se aproximavam davam-se cópias do manifesto, explicava-se, conversava-se e de todas as vezes e, com gente de todas as idades, se sentia solidariedade e simpatia com a causa. Já passava das 22h e fez-se a contagem da gente que seguia: 67. Mais duas activistas aproximavam-se e com 69 pessoas, homens, mulheres e genderqueer, tomámos as ruas do Porto. Alegria, festa e muita força para lutar por um futuro com mais equidade para todos, da Praça dos Leões à Praça de Ceuta, passando pela Praça Guilherme Gomes Fernandes, Galerias, Cândido dos Reis. Gritava-se bem sonoramente: “Submissas nos querem, Galdérias nos terão!” , “Hei, machista, o meu orgasmo é uma delícia!”, “Não é não!” entre outros ditos. Chegados à Praça de Ceuta, festejou-se a ocupação e leu-se o manifesto. Em festa e a prontos a mudar o mundo, subiu-se até à José Falcão, Carlos Alberto e terminou-se em alarido com mais uma leitura do manifesto e muitos gritos de guerra, no coreto da Cordoaria. Quem nos viu passar, em toda a Marcha, quis saber. E assim, de pouco em pouco, se marcha para tornar a sociedade um lugar com mais e mais espaço para todos, liberdades garantidas e respeito pela diferença e autodeterminação. Porque quando digo que o meu corpo só a mim me pertence, estou a lutar pelo teu também. Carmo Pereira

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Quando se fala em fotografia, Lígia vai sendo um dos nomes mais sonantes que nos presenteia com as suas melhores visões de tudo o que a rodeia. Lígia põe um toque muito especial em tudo o que faz. Além da sua personalidade extremamente meiga, quer fazer da fotografia um universo cada vez mais próprio, mais especial e sobretudo mais mágico, como ela própria o é. Fica aqui a conversa e uma amostra do seu trabalho. Mariana Ribeiro 66 // www.IDIOTMAG.com


Como cresceu este teu interesse na arte tão digna da fotografia? Desde muito cedo tive contacto imediato com as câmaras analógicas do meu pai. A primeira câmara com a qual “comuniquei” foi uma Zenit bastante pesada, naquela altura, para os meus franzinos braços. Adorava o peso do metal nas minhas mãos e de colecionar fotografias como bugigangas velhas. Lembro-me de passar bastante tempo a desfolhar os álbuns de fotografias do meu pai, ainda a preto e branco. Ele pintava-as com uns finos pinceis e umas tintas próprias. Achava isso algo maravilhoso. A paixão começou aí, na vontade súbita de carregar no obturador e congelar momentos.

O que te atrai mais neste mundo são as visões gerais ou o pormenor na sua essência mais pura? O que me atrai irresistivelmente é tudo aquilo que me faz embriagar os sentidos. Gosto de estar atenta e mergulhar no mundo de ouvidos tapados para conseguir apenas “ouvir o olhar”. Ele relata-me as buscas incessantes por um universo que existe e sobrevive através da sensibilidade dos mais atentos, dos que o querem ver mais de perto, aqui e agora. Assim, torna-se difícil definir se é o pormenor ou as visões gerais, pois tudo é movimento, tudo é o Olhar. CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 67


A tua formação passa pela arte ou fotografia? Nenhuma das duas. Formei-me em Gestão de Recursos Humanos, sinceramente sem saber bem aquilo que “um dia” gostaria de ser. São decisões difíceis, ter de optar, escolher e depois talvez remediar o que já está feito. O meu desvio foi grande até à fotografia. Recordo como se fosse hoje, o faltar às aulas para ir fotografar com uma amiga, os fins-de-semana eram dedicados a passeios, muitos deles solitários. Sim, porque quando se fotografa, muitas das vezes, só existimos nós e o mundo à nossa frente. E ele é imenso, como um horizonte indefinido onde cada um de nós é o motor da acção. Mas houve uma pessoa que fez com que eu abraçasse este meu sonho. Até hoje nunca lhe disse isto… É uma pessoa que conheci, ainda frequentava eu o curso de Recursos Humanos. Era fotógrafo, mais velho, bastante observador e irradiava algo maravilhosamente bom sempre que falávamos sobre fotografia. Uma pessoa que, assim como eu, um dia percebeu que havia algo mais para além de ser gestor de contabilidade. E assim foi, deixou tudo para trás e lançou-se sozinho na estrada. Passou tempos difíceis, sentiu-se só, deixou de ter uma vida confortavelmente controlada e hoje é um dos nossos melhores fotógrafos de foto-reportagem. Parece uma historinha “ah que giro, isto ficava bem aqui”, mas sinto-a verdadeiramente como o meu ponto de viragem. Não vou revelar o nome pois, talvez agora, depois de o escrever, talvez lhe explique a importância que teve na minha vida, no meu olhar e na pessoa que sou hoje. Depois de terminar o curso estagiei um ano no estúdio de fotografia Jorge Santos Imagem. Basicamente, além da fotografia, comecei a editar trabalhos de moda e publicidade, o que fez com que ficasse bastante adepta da edição, da criação do imaginário e da luz!

Como és como pessoa? Essa personalidade é transposta para o teu trabalho? Considero-me pequena, sempre a crescer a cada dia que passa. A evolução e dedicação faz-nos querer sempre mais e mais. Às vezes frágil, pois sinto o peso insustentável da existência de novos desafios. Mas quando olho para trás costumo pensar: “já fiz tanta coisa porque não mais esta?”. Sei hoje que sou afortunada pois tenho pessoas que caminham do meu lado que muito me ensinaram/ensinam e encorajam. Nunca me deixam desistir. A elas fica aqui a minha vénia. “Sou um anónimo com ânimo para mudar o mundo” porque acredito que o sorriso é a distância mais curta entre duas pessoas, e é nele que eu me vingo quando fotografo. Tento transportá-lo comigo sempre que vou fotografar. Como alguém já me disse “Não entendo o mundo e nem a mim mesmo, mas pretendo melhorá-los antes do fim.”

“É IMPOSSÍVEL DISCRIMINAR AQUILO QUE MAIS GOSTO QUANDO O OLHAR É A JANELA PARA O MUNDO.”

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O que te da mais gozo fotografar? Eu gosto essencialmente de fotografar, é impossível discriminar aquilo que mais gosto quando o olhar é a janela para o mundo. Qual foi na tua opinião a tua fotografia mais forte? Outra pergunta difícil… São tantos os retalhos, os momentos, os impactos, as lágrimas, os lugares, as pessoas. Prefiro sugerir-me distante de uma escolha. Se a tivesse mesmo, mesmo de fazer, estaria a enganar-me. És contactada várias vezes para photoreports e afins, gostas do que fazes? Sim, vão-me contactando para diferentes trabalhos. Reportagens, making off’s, books e depois tenho os meus trabalhos pessoais. Se adoro o que faço? Só tenho a agradecer todos os dias por estar a fazer aquilo que me preenche, o caminho é meu, nosso e a estrada é longa!


Para mais informações e contactos: facebook: ligia claro photography email: ligiaclaro@gmail.com CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 69


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Estava outro dia a sair da Faculdade de Letras do Porto, aquela arena de literatos plantada entre a magnífica vista do Douro e a robustez da rotunda da Boavista, a ouvir o “Show must go on” dos Queen, quando me deparei com o cartaz do “Doente Imaginário” de Molière, com encenação do Rogério de Carvalho, em cena no Teatro Nacional de São João. Tratei, então, de arranjar bilhetes para ir uns dias depois em boa companhia. Assim aconteceu, e dia 14 do mês passado eu assistia a esta comédia deliciosa, maravilhosamente encenada, interpretada com uma magia que nos faz voar, voar como pássaros-sonho pelas sensibilidades da Filosofia e as gargalhadas da Peripécia. Curiosamente, já no fim, fiquei negativamente co-

livros são de confiança, lá as fotografias e o cinema são espontâneos, lá o conhecimento é transbordante, a sabedoria bem inalada e expirada à boca de cena, na esquerda alta, na orquestra, lá há tudo porque tudo se consome a nosso favor em recursos inesgotáveis de energia, lá só não há pessoas a assistir, a aplaudir com dignos “Bravos!”, a sair transtornados e enfeitiçados pela peça com a qual tivemos a sensação que fizemos amor. Sou apenas um Idiota que não quer julgar, mas que sentiu a vossa falta nos aplausos e naquele calor que a sala desperta… Não deixemos a nossa cidade ser o projecto da decadência por si mesma, não deixemos um tumor de ignorância envenenar a nossa vida idiota.

movido: a Sala de Teatro estava vazia, grandiosa mas velha, esquecida por todos nós. Que raio de idiotas somos, que nos esquecemos do Teatro? Que tipo de idiotas somos, quando cobrimos de solidão e pó as salas de espectáculo das nossas cidades? Recentemente, li no Facebook de alguém uma frase mais ou menos assim: A qualidade de um país mede-se pela cultura do seu povo. E que espécie de idiotas somos nós, quando quebramos a exigência dos interesses a favor do admirável mundo das aparências e da anorexia nervosa do vazio? Que estirpe adormecida de idiotas somos, quando perdemos o sotaque dos palcos? Lá as notícias são verdade, lá os

Já basta ter no Porto um Rui Rio a representar a Cultura para que as coisas não funcionem bem à nascença. Mas não abortemos o pouco que ele nos dá. Não desempreguemos centenas de actores, encenadores, cenógrafos, coristas, figurantes, técnicos… todos eles artesãos de sonhos para partilhar connosco. Ir ao Teatro é essencial para um crescimento da nossa qualidade de vida, que todos os dias se mancha com dinheiro e destruição dos valores culturais. Ouço uma voz aqui em casa: “Bem vindos ao Teatro, façam o favor de desligar os telemóveis…”. É o início duma peça. A sala está escura e, ao fundo num palco, ouve-se: “Show must go on!” Rui de Noronha Ozorio CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 71


À hora a que escrevo, ainda não sei qual o destino da selecção portuguesa de Futebol no Euro 2012. Sei, apenas, que já chegámos às meias-finais, depois de algum sofrimento no jogo contra uns checos que, na parte final do jogo, se iam arrastando no relvado. Independentemente do que venha a acontecer a partir de agora, já fomos longe. E já muitas vozes mais cépticas quanto ao garantido fracasso da selecção se terão calado, para se voltarem a ouvir mal Portugal tropece, o que pode acontecer e faz parte do jogo. É assim o aficionado tuga: exigente, mas descrente. E sempre com uma opinião muito volátil. É capaz de se esquecer de ir trabalhar para ver jogar a equipa das “quinas”. Se a bola entra, salta desenfreadamente; se não entra, “pois, está bom de ver, os gajos só sabem jogar nos clubes que lhes pagam salários milionários!”. Se Portugal ganha, esquecemo-nos da crise, enquanto seguimos o jogo milimetricamente, de cerveja na mão. Se Portugal perde, “valha-nos Deus, que estes tipos ganham dinheiro que se fartam e não jogam nada!”, e até a cerveja morre na mão. Esquece-se o torcedor tuga que as coisas não são tão simples quanto as pintam. Vejamos: mas por que diabo é que um país pequeno, que rodopia na cauda da Europa em quase todos os índices da União Europeia, haveria de ser uma grande potência do futebol? Por que razão temos nós o direito de exigir, sendo o país de calaceiros que somos, que Portugal seja campeão europeu de futebol, quando não somos campeões de coisa nenhuma em qualquer dos itens por onde se mede a nossa pujança como país? O torcedor tuga exige de mais e dá de menos, por muito que seja generoso na hora de festejar o golo, como o seria se fosse o caso de Portugal ganhar o Europeu, porque, aí, hossanas nas alturas, que é como quem diz, mais um suplemento 72 // www.IDIOTMAG.com


de alma para vencer a descrença. Mas só aí. Até lá, vamos vivendo de forma bipolar, entre o amor e o ódio. Não sei porquê, mas acho que tudo isto revela, para além do mais, uma pontinha de inveja bem portuguesa. No fundo, no fundo, todos – quase todos – têm uma certa inveja dos rapazes da bola. Não direi dos seus penteados de ornamento, mas do que eles ganham, dos carros que têm e até das namoradas que o dinheiro que gastam a rodos lhes atira para os braços. Só isso explica, por exemplo, a relação de amor-ódio que os portugueses revelam contra Cristiano Ronaldo e José Mourinho. Comecemos pelo segundo. José Mourinho é português e – dizem - o melhor treinador do mundo. Treina uma equipa recheada de portugueses. Tem atitude. É um bom português. Mas nem assim convence os mais cépticos torcedores da bola. Sob o pretexto de que o Barcelona está para Madrid como FCPorto está para Lisboa, farto-me de ver portugueses a torcer para que Mourinho não seja bem sucedido quando defronta o Barcelona.. E não só os portistas – são também muitos benfiquistas que não lhe perdoam o ter passado pela Luz sem títulos e ter passado pelo Dragão a ganhar o que havia para ganhar. À falta de melhor e de mais motivos, dizem que o homem é arrogante e pretensioso. E é. Mas eu se fosse “o Mourinho” de alguma coisa, talvez também o fosse, nem que apenas porque precisava de me defender de críticos tão azedos ou pelo facto de ser um português que consegue sobreviver na alta roda do futebol, cheio de pergaminhos. Se há pessoas que podem ser um bocadinho arrogantes e pretensiosas, José Mourinho será seguramente uma delas. Passemos a Cristiano Ronaldo. Dificilmente se poderá encontrar um caso maior de sucesso genuíno. O pobre moço veio dos confins da Madeira,

oriundo de gente humilde, tem 27 anos, está cheio de dinheiro, tem carros bons que se farta e as mulheres que lhe apetece. Ainda assim, soube gerir o êxito e confesso que fico danado quando ouço o torcedor tuga da cultura média censurar o facto de o rapaz não alinhar muito bem frases em português. Esquece-se a rapaziada que Ronaldo não teve tempo para estudar, mas cumpriu bem a sua missão. Apesar de ser o melhor do mundo (é, não é?), trabalha como um mouro, chega aos treinos a horas, treina intensamente e, no fim, ainda fica mais um tempo a afinar os livres. Pois bem: ao invés de darem importância a tudo isto, preferem sublinhar o penteado estranho do rapaz, a maluqueira da irmã ou os calções de licra da D. Dolores, a mãe extremosa que o deu ao mundo e permitiu que tivéssemos o nosso ídolo. Durante este europeu, já ouvi todos os insultos possíveis a Ronaldo. Que o filho da puta só joga bem quando lhe pagam bem, que na Selecção não acerta uma, que não aguenta o peso de ser capitão, que o Messi é que é, enfim, que do filho da D. Dolores não se podia esperar mais, que o que lhe interessa é ir cedo para casa acelerar nas bombas e ir para a cama com uma gajas. Ou gajos. Porque, em rigor, até gay já ouvi chamar-lhe por estes dias. Sim, eu sei que agora o moço está no pousio. Enfardou dois golaços à Holanda e um à República Checa e voltou a ser aplaudido, ainda que presuma que não estão esquecidas as bolas ao poste e que deviam ter entrado. Se o gajo fosse mesmo bom, tinha-as metido dentro, dirão alguns, os mais cépticos dos torcedores tugas. Esperemos pelos próximos dias para saber se a rapaziada vai sair da Ucrânia como heróis ou como mercenários. Mas já não precisamos de esperar para saber que somos torcedores idiotas. Coutinho Ribeiro CULTURA E TENDÊNCIAS URBANAS // 73


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Produção: Nuno Dias // João Cabral Idiocracy Design® Chefe de Redacção: Mariana Ribeiro Textos: Mariana Ribeiro Coutinho Ribeiro Rui de Noronha Ozório Melanie Antunes Catarina Lima Carmo Pereira Telmo Fernandes Ana Anderson André Queirós Patrícia (Pseudónimo) Nuno Dias João Cabral Design: Nuno Dias João Cabral Ilustração: João Brandão Capa: João Brandão Todos os conteúdos gráficos são da responsabilidade de: IDIOCRACY, Gabinete de Design ® www.idiocracydesign.com mag@idiocracydesign.com Info@Idiocracydesign.com

Cada redactor tem a liberdade de adoptar, ou não, o novo acordo ortográfico Agradecimentos: Andrea Jardim; Elias Marques; José Bartolo; ESAD Matosinhos , Patricia Bandeira, Caipicompany, Youth One, Tendinha dos Clérigos, Oporthouse

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Idiot Mag JUL.12