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r$ 10,00 nº 124 www.revistaideias.com.br

fevereiro 2012

ano viii

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p o l Í t i c a , e c o n o m i a & c u lt u r a d o pa r a n á

zumbis, garibaldis e sacis na cidade do anticarnaval ruBens campana

o haiti está no brasil

pOlítica É um BOm negÓciO

os 17 candidatos à prefeitura

el celler De can rOca

a gastronomia está nas mãos deles

isaBela frança

em sociedade tudo se sabe


FOZ DO IGUAÇU.

Um destino maravilhoso, para viver momentos inesquecíveis.

Foz do Iguaçu é um dos mais belos cartões postais do Brasil. Com hotéis e resorts cinco e seis estrelas, fontes de águas termais, produtos de grifes famosas, gastronomia internacional, artesanato local com design moderno e sofisticado, Foz do Iguaçu se transforma, cada vez mais, num destino de qualidade para lazer, compras, eventos corporativos e ecoaventura. Sem falar nas Cataratas do Iguaçu, com sua exuberante biodiversidade, e a Itaipu, obra-prima da engenharia. Visite essa maravilha de destino. 0800 45 1516 | www.fozdoiguacudestinodomundo.com.br


Índice colunistas

seÇÕes

Luiz Fernando Pereira 12 o bar do ciccarino

editorial 05 curtas 06

rubens campana 26 o haiti no brasil

Frases 07

Fábio campana 34 Mais de mil palhaços no salão

gente Fina 08

ernani buchmann 45 em tempos de eça e Sapucaí

Prateleira 56

ensaio Fotográfico 46

Moda - Paola De orte 72

carlos alberto Pessôa 52 Meninos, eu vi!

isabela França 74

Luiz geraldo Mazza 53 a redação era um palco

cartas/expediente 80 Pryscila vieira 82

Marisa villela 54 caçadores de obras-primas Jussara voss 58 el celler de can roca

nesta ediÇÃo

Luiz carlos zanoni 62 o frango caipira e o La tâche

haja estômago! 14 Fábio campana

izabel campana 64 Sobre gatos e outros parágrafos

17 candidatos a prefeito 16 Pedro Lichtnow curitiba em obras 20 Pedro Lichtnow

andrea greca Krueger e Paula abbas 65 Luxus!

barão do rio branco 24 Fábio campana

Marcio renato dos Santos 69 nada exemplares

zumbis, garibaldis e Sacis 28 Fábio campana

Solda 70 helena

vai de bike? 38 Marisol vieira

antonio augusto Figueiredo basto 71 numa esquina ao entardecer

berçário de ciclistas 42 cláudia gabardo

renan Machado 73 o romance

o legionário do som 66 renan Machado

claudia Wasilewski 78 na sauna do clubão 16

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editorial F C

O

Jean-baPtiSte Debret

Brasil aguarda o fim do carnaval para começar a trabalhar. O que não cessa é a torrente de denúncias de corrupção. “O tempora! O mores!” dizia meu professor de latim no ginásio e repetíamos em coro. “Que tempos! Que costumes!”. Éramos felizes e não sabíamos. Naquela época a Nação andava indignada com os boatos sobre desvios de material na construção de Brasília e com a compra do porta-aviões Minas Gerais. Coisa pouca se verdadeira e se comparada com os escândalos de hoje. Mas se os ministros e os 22 mil assessores permitirem, é provável que o debate político se concentre nas eleições municipais deste ano. No Paraná, a joia da coroa é a prefeitura de Curitiba. O tucanato nativo, liderado por Beto Richa, que acaba de conquistar o poder no Estado, quer manter o aliado Luciano Ducci, do PSB, no comando. Do outro canto do ringue levanta-se o PT nativo, agora vitaminado pela ocupação de três ministérios importantes e cheio de vontade de tomar o governo estadual em 2014 com Gleisi Hoffmann. Sem candidato competitivo, o PT foi buscar no ex-tucano Gustavo Fruet o nome para lutar pela prefeitura da capital. Deixou-o na incubadora do PDT e escolheu Ângelo Vanhoni para ser o seu vice. Tudo o que pretende é acumular forças para a batalha pelo governo e para fortalecer a reeleição de Dilma Rousseff. Há outros candidatos. Ratinho Junior, do PSC, corre por fora e larga na frente, mas há dúvidas sobre a eficiência de seu equipamento para enfrentar as máquinas do Estado, do município e do governo federal. Outro que está na liça é o ex-prefeito Rafael Greca de Macedo, agora no PMDB de Roberto Requião, que procura manter espaço para seu proselitismo. Os observadores não acreditam que tenha chance de disputar o primeiro lugar, mas o que se espera de Greca é uma boa dose de irreverência, humor e a retórica que lhe deu notoriedade para o confronto com seus concorrentes que se mostram fracativos nesse campo. Enfim, 2012 servirá para testar os protagonistas de 2014 como apoiadores de candidatos. Por conta de seu câncer na laringe, Lula deve ter participação mais modesta na pré-campanha – período em que as candidaturas detectam o seu piso e o seu potencial para crescimento. Consta que Dilma Rousseff vai se empenhar, embora diga que não. O governador Beto Richa vai apostar todas as suas fichas em Curitiba para reeleger Ducci. A ministra Gleisi Hoffmann vai comparecer aos palanques de Fruet. Requião será o condottiere da campanha de Greca. Só Ratinho Junior subirá sozinho ao palanque. Ainda temos mais uma penca graúda de candidatos de todas as extrações. Mas estes não contam. Todos sabem que estão em campo para as negociações e que a disputa deverá polarizar entre Ducci e Fruet. E que o tom da campanha será o de sempre. Pau, pedra, guerra de babuínos, denúncias, escândalos, acusações. Haja estômago. fevereiro de 2012 |

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Curtas Brasiguaios sob tensão A iniciativa do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, de promover uma demarcação de terras no Departamento (Estado) de Alto Paraná acirrou um confl ito entre sem-terra locais e sojicultores “brasiguaios” perto da fronteira com o Brasil. Ambas as partes falam que o problema pode resultar em “derramamento de sangue”. Há cerca de dez dias, o governo enviou ao local soldados do Instituto Geográfico Militar para verificar se parte das terras hoje ocupadas por produtores brasileiros, conhecidos como “brasiguaios”, pertenceria ao Estado. Cientes da presença dos militares, semterra acampados há mais de um ano na região passaram a acompanhar as demarcações, o que provocou confrontos e deu início, segundo os “brasiguaios”, a uma onda de invasões de terra. Os brasileiros dizem ainda que as demarcações vêm sendo feitas sem ordem judicial.

VISTO PARA YOANI há visíveis mudanças na política externa. Dilma rousseff autorizou o itamaraty a conceder um visto de turista à blogueira Yoani Sanchez. a presidente atendeu a um pedido da própria Yoani, que lhe enviara uma carta por meio da embaixada brasileira em havana. crítica da ditadura dos irmãos Fidel e raúl castro, Yoani ganhou fama mundial por denunciar os abusos do regime cubano na web.

22 MIL CARGOS DE CONFIANÇA NO GOVERNO DILMA ROUSSEFF O governo da presidente Dilma Rousseff vai arcar este ano com folha de pessoal e encargos sociais acima de R$ 203 bilhões, além de contar com mais funcionários em cargos de confiança. Antes mesmo de fechar o primeiro ano de seu governo, em outubro, os chamados DAS (cargos de Direção e Assessoramento Superior) já somavam 22 mil, uma barreira que nunca havia sido alcançada. Desde o segundo ano do governo Luiz Inácio Lula da Silva, as funções comissionadas no Executivo federal só crescem. Em 2007, os DAS ganharam reajuste de até 139,75%, mas há pressão por novo aumento.

Em 2011, STF elevou em 41% os gastos com diárias

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o Pt de São Paulo transformou seu site na internet em vitrine da gaviões da Fiel. convida os interessados a comprar fantasias da escola de samba. no carnaval deste ano levará à avenida o enredo “Lula, o retrato de uma nação”. “Participe da maior festa popular do mundo, desfile na gaviões da Fiel!”, batuca o Pt. um link conduz os visitantes da página eletrônica do partido para uma galeria de fotos das fantasias à venda, sob o patrocínio de uma cervejaria. Dali, o cliente é enviado para um balcão de compras online. os preços são amargos. a fantasia “cangaceiras” custa a bagatela de r$ 3.220. coisa fina. Dá acesso ao carro abre-alas da escola.

Em 2011, ministros e servidores do STF elevaram os gastos com diárias em viagens em 41%. A despesa passou de R$ 707 mil para R$ 1 milhão aos cofres da viúva. No Executivo, as despesas com viagens caíram 35%. O Supremo alegou que a verba custeou deslocamentos de trabalho. Num deles, quatro ministros voaram em assentos de primeira classe para Washington, em maio.

Sem liberdade A ONG Repórteres Sem Fronteiras colocou o Brasil na 99ª posição de seu ranking da liberdade de imprensa 2011-2012 sobre as condições de trabalho dos jornalistas em 179 países. Com isso, o país caiu 41 posições em relação ao relatório de 2010, último a ser divulgado. O ranking é feito desde 2002. Segundo a organização, o Brasil é o país da América Latina que mais caiu no período.

58º 99º

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UM CARNAVAL PARA LULA

No peito e na coragem

Seios à mostra, ativistas ucranianas do grupo Femen protestaram seminuas em frente ao prédio do Parlamento em Sofia, capital da Bulgária, no dia 21 de janeiro. Nos cartazes, frases como “mulher não é saco de pancada” e “prisão para estupradores” criticam decisões recentes da Justiça búlgara em casos de violência doméstica que, segundo as feministas, são de inspiração machista e protegem os agressores.

Está mandando Dilma Rousseff deu o sinal sobre a nova posição de Gleisi Hoffmann no governo. Na frente de seus 38 ministros e de Michel Temer, Dilma mandou o seguinte recado: — Quando a Casa Civil pedir qualquer coisa, vocês têm que entender que sou eu pedindo. Imaginem a dor de cotovelo da tigrada ministerial.


Frases “O PT deve se convencer de que não tem um nome competitivo. Por isso vamos apoiar o Fruet”

“Aécio Neves” Fernando Henrique cardoso, ex-presidente da República, ao ser questionado por jornalistas da revista inglesa The Economist sobre quem seria o candidato natural do PSDB à sucessão de Dilma Rousseff.

Do deputado federal andré vargas ao justificar as articulações dentro do PT de Curitiba para apoiar a candidatura de Gustavo Fruet contra as pretensões de Florisvaldo Rosinha e Tadeu Veneri do próprio PT.

“O Vanhoni é o homem do PT para compor a chapa como vice do Fruet. Não há outro” Do vereador pedro paulo, do PT, sobre a escolha do vice de Gustavo Fruet.

“Não estou em campanha, campanha só em julho. Tenho muita obra para tocar”

“Meu irmão deu a vida pelo PT” bruno daniel, irmão de Celso Daniel, exprefeito de Santo André assassinado em 2002.

Do prefeito de Curitiba, luciano ducci, do PSB, candidato à reeleição.

“Vada a bordo, cazzo!” Sem dúvida, a frase do ano, dita pelo comandante do porto de Livorno, di Falco, para o capitão do navio Costa Concordia, Francesco Schettino, o primeiro a abandonar o barco quando este afundou por barbeiragem do próprio.

“Tropecei e caí no bote salva-vidas” Francesco schettino, capitão do Costa Concordia, explicando por que abandonou o navio que naufragou na Itália.

“Amo terapia” bradley cooper, eleito pela revista People o homem mais sexy de Hollywood, dizendo que não precisa, mas faz análise por que gosta.

“Não perco tempo tingindo o meu cabelo ou olhando as rugas” george clooney, ator americano, 50 anos.

“Menos é mais. Tem muita informação no mundo. Quero só as boas” Flávia alessandra, atriz

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gente

FINA

Um bípede sem plumas

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om um curriculum invejável nas áreas da administração, empreendedorismo e inovação, Marcos Mueller Schlemm mira as suas antenas ao novo, ao contemporâneo, para melhor pensar e dar contribuição a esse pobre país. Faz parte das poucas avis raras que se preocupam com o mundo como um todo, a pensar e trabalhar localmente nas esferas privadas e públicas. Formado numa das primeiras turmas do curso de administração da UFP, fez o mestrado na ADL – Management Education Institute em Boston e passou cinco anos e meio na USC – University of Southern California preparando o seu doutorado. Foi aluno e orientando do célebre professor brasileiro exilado nos USA, Guerreiro Ramos. Sempre deixou criativa contribuição por onde passou: na antiga Telepar, na Secretaria do Planejamento do Estado do Paraná, na Nutrimental, na Fiep e como professor na PUC. De sólida formação humanista que começou em casa dos seus pais, tem várias paixões: sua profissão como contribuição à comunidade, a música erudita com J.S.Bach ocupando lugar especialíssimo, a literatura & poesia, o cinema, o sol, o mar, a Toscana, Berlim, os bons vinhos e a boa mesa, as conversas inteligentes e, honni soit qui mal y pense, o chamado belo sexo.

Dico Kremer

Dico Kremer

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gente

Renan Machado

Garota do som

FINA

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aroa chata em Curitiba não é novidade. Mas Raissa não está nem aí. “Deixe que chova”, diz. Ela, Raissa, Fayet por parte da mãe, Adriane, e Scatrut do pai, Marcio, é musicista. Musicalmente bombardeada desde a infância. A MPB de Caetano e Gil do lado paterno e o britrock de Smiths e The Clash do materno. “Eu curtia de tudo. Descia para a Ilha do Mel, onde temos casa, ouvindo um rock e ao chegar lá meu pai rodava um vinil do Caetano.” Raissa flertava com a música descaradamente quando criança. “Eu deitava ao lado da caixa de som e cantava, imitando a voz da Elis, Aretha Franklin e tantas outras”. Mas foi com doze anos que decidiu, com convicção, ser artista. Com quinze, foi para os EUA. Ao voltar, com 16, saiu de casa. E entregou-se à música. Hoje desenvolve seu trabalho com o Arte & Manha. Prepara um disco, produzido por Xandão, guitarrista de O Rappa, que vive em Curitiba. “O disco, de ‘BrazilianFolk’, é uma grande mistura, que envolve groove, soul, algo de música latina e uma pegada com guitarras de Kill Bill, estilo Old West”, diz Raissa, enquanto a chuva engrossa. Renan Machado fevereiro de 2012 |

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gente

FINA

Primeira em Yale

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etícia Wouk Almino, 25, curitibana, filha da artista plástica

Bia Wouk e do diplomata e escritor João Almino, concluiu sua pós-graduação (master) em Yale – em primeiro lugar na turma. Seu nome foi incluído na relação dos 30 novos arquitetos mais promissores do mundo. A escolha é da revista Wallpaper, que a revista Piauí garante ser a “bíblia do design, moda e artes gráficas”, ao referir-se à escolha de Letícia. Na relação de Wallpaper, Letícia é o único nome brasileiro dentre esses ases da Arquitetura. Ela tem planos bem definidos: trabalhar na Europa e, quem sabe, um dia, no Brasil. Hoje, Letícia mora em Nova York e desde agosto de 2011 trabalha num dos mais cobiçados escritórios, o do americano Robert A. M. Stern, um dos referenciais mundiais da arquitetura pós-modernista. Fábio Campana

Arte tem anjo da guarda

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ma obra é concebida a partir da sensibilidade interior, de influências e personalidade. Muitas delas tocam a eternidade. Mas até mesmo o óleo sobre madeira de álamo da Mona Lisa é deteriorado pelos anos. A conservação é um trabalho que exige paciência, paciência, paciência. E talento, muito talento, e muito conhecimento. Tanta responsabilidade fica nas mãos de pessoas como Suely Deschermayer.

Em 2002, o Centro de Restauro e Recuperação foi instalado no Museu Oscar Niemeyer, o MON, e é dirigido por Suely, que além do restauro de obras, promove palestras e eventos como o Fórum Internacional de “Conservação do Moderno ao Contemporâneo”, que reuniu artistas de todo o Brasil e palestrantes renomados de outros países, como Itália e França. Renan Machado 10

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Renan Machado

Nascida em Irati, Suely é hoje coordenadora do setor de Museologia – Acervo e Conservação do Museu Oscar Niemeyer. Formada em Desenho pela Escola de Belas Artes do Paraná, teve o primeiro contato com o trabalho em acervos em 1978, quando estagiou no Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC), em Curitiba. Fez vários cursos de especialização e projetou o laboratório para conservação e restauração de obras de arte do Paraná.


gente

Lina Faria

Mestre Hélio

FINA

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élio de Freitas Puglielli é unanimidade entre seus ex-alunos da

Universidade Federal do Paraná. Em quarenta anos formou gerações de jornalistas pelo método inteligente. Isso significa que não ensinou apenas a técnica de escrever ou de informar. Ensinou a pensar, a refletir, e para tanto transmitiu tudo o que pode de seu extenso conhecimento. Hélio é enciclopédico. Há alunos que lembram com saudades das aulas magistrais que atraiam estudantes de outras classes e de outros cursos. Hélio injetou doses de filosofia, de crítica literária, de amor à música e à cultura nativa e fez muita gente compreender a história de nossa gente. Preparação incomum nos mestres, especialmente os destes últimos tempos. Mas Hélio foi, antes de tudo, um jornalista de texto claro, preciso, de leitura saborosa. Nenhum excesso, nenhuma palavra a mais. Preciso. Como é o próprio Hélio, que passou por tantas transformações na comunicação e rapidamente dominou todas, inclusive o desta época da internet. Prova de que a boa linguagem, mais que o meio, é fundamental. Fábio Campana fevereiro de 2012 |

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Luiz Fernando Pereira

O Bar do ciccarino

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ão sei se orgulhoso ou envergonhado, à exceção de um curto período, nunca tive o “meu Bar”. Aquele do dia a dia; de todos os dias. Mas com vergonha ou orgulho, a verdade é que sempre tive uma inveja danada dos frequentadores diários do mesmo Bar (não é por acaso, mas por deferência que grafo “Bar” sempre iniciando a maiúscula). Lá estão sempre os mesmos amigos e, inevitável, os chatos de sempre. Bar sem chato não é Bar. E há também os chatos amigos. Até porque, como dizia o Mario Quintana, há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e... os amigos, que são os nossos chatos prediletos. Com amigos e chatos, é realmente admirável a fidelidade devotada a determinados Bares. Como ia dizendo, à exceção de um curto período, nunca fui de frequentar Bar todos os dias. Muito menos o mesmo Bar. A exceção foi o Bar do Ciccarino - comandado pelo Vicente. À época eu trabalha com o grande Sérgio Toscano de Oliveira, no escritório do Professor Machado. Sérgio, este sim, era admiravelmente fiel aos Bares que frequentava (ponho no passado porque já não é mais o mesmo, andam dizendo). Com o Sérgio estive quase diariamente no Ciccarino. Isso durante o tal curto período da exceção (não tão curto quanto estou sugerindo). Para quem não conheceu o Ciccarino, devo esclarecer que era um Bar – e não um Boteco (também vai com maiúscula no início). E a diferença não é pequena. O Boteco (ou Buteco, como preferem alguns) é outra coisa. O legítimo Boteco, pé-sujo como tem de ser, deve necessariamente apresentar potes de conserva com rollmops atrás do balcão. O banheiro tem de ser sujo. O garçom desleixado. O Ciccarino definitivamente não era um Boteco. O Bar do Ciccarino inaugurou em Curitiba os Bares “metidos à besta”. Coisa fina. E não era só Bar. No ambiente de entrada, onde ficava o balcão, havia um belo armazém com tudo do bom e do melhor para comer e beber. Por falar em balcão, o Ciccarino tinha o melhor da cidade. Que balcão! E isso é mui-

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to importante. O verdadeiro frequentador de Bar (ou de Boteco) gosta mesmo é do balcão (fiquem de olho; quem prefere a mesa pode ser um falso frequentador de Bar). O Sérgio Toscano, por exemplo, não admitia sentarse à mesa. Não abria mão do balcão. E para o lado de dentro deste imenso balcão estava sempre lá o nosso Vicente Ciccarino. O comandante. Obrigo-me a dedicar parágrafo especial ao Vicente. Sem conhecer um pouco o Vicente é impossível compreender o Bar. Dizem que o dono de Bar deve ser simpático. Vicente não levava isso a sério. Na medida exata, ironizava, esculhambava, gozava de todo mundo. Vicente vendia fiado, mas era mais pelo prazer de cobrar os devedores publicamente. – Como é Fulano, quando vai acertar a conta, gritava o Vicente (eu mesmo fui vítima). Era isso que nós gostávamos do Vicente. O simpático é quase sempre um falsificador. Vicente era autêntico. Inteligente e vivido, Vicente, além de dono e gerente, era também o programador cultural. Sim o Ciccarino, sobretudo aos finais de semana, tinha uma programação cultural. Uma vez o Ciccarino trouxe a Curitiba o Miéle. Advirto aos mais novos que não falo aqui do Carlos Miele, estilista (o Vicente, aliás, não admitiria um estilista lá dentro). Falo, é claro, do Luís Carlos Miéle. Principal parceiro de

o ciccarino DeFinitivaMente não era uM boteco. o bar Do ciccarino inaugurou eM curitiba oS bareS “MetiDoS à beSta”. coiSa Fina

Ronaldo Bôscoli. Chegaram a dividir o mesmo apartamento, onde também morou João Gilberto. Ator, diretor, humorista, produtor dos melhores espetáculos cariocas, Miéle é, sobretudo, um showman. Eu estava viajando e acabei não indo no dia do Miéle. Logo na segunda-feira seguinte, balcão lotado, perguntei ao Vicente como tinha sido o show. Ao seu estilo, Vicente disse que tinha sido muito bom, mas que os curitibanos (que não entendiam da animação cultural carioca) não tinham entendido nada. Os clientes do balcão riram, como se Vicente brincasse. Ele não brincava, é claro. Este é o Vicente. Os ofendidos que procurassem um dono de Bar simpático. Vi cenas incríveis do Ciccarino. Uma noite o Nêgo Pessoa, assíduo no Bar, pegou o Pedro Longo pelo pescoço apenas em função de uma divergência em torno da questão indígena no Brasil. Retire esta opinião em favor dos índios, retire, gritava o Nêgo. Juliano Breda e Carlos Nasser (habitués no Ciccarino) são testemunhas. O Bar não abria aos domingos. Abriu uma vez para a festa infantil de aniversário da filha do Sérgio Toscano. Cheguei lá e havia uma mesa com vinte amigos do Sérgio, já bem embalados. Procurei as crianças. Isoladas em um canto, eram apenas três ou quatro. O Sérgio notou que estranhei a presença de poucas crianças em um aniversário infantil e foi logo anunciando: no próximo ano a festa da minha filha também será aqui e sem nenhuma criança! Nenhuma, deixou claro. Que eu saiba, foi a única festa infantil do Ciccarino. Um dia o Ciccarino fechou. Todo Bar que se preze fecha, cedo ou tarde. O Ziraldo uma vez disse que o carioca Antônios era o “único bar definitivo do país”. Fechou um tempo depois. Assim é para todo nós o Ciccarino. Definitivo. Ou infinito enquanto durou, para terminar citando Vinicius.

luiz Fernando pereira é advogado.


Maior aeroporto do Paraná e um dos principais do Brasil, o Aeroporto Internacional Afonso Pena é um dos orgulhos da cidade. Hoje, terceiro maior PIB do Estado, terceiro polo automobilístico e um dos 80 melhores lugares para se viver do Brasil*, o município não para de crescer, da mesma forma que o fluxo de passageiros e cargas do Aeroporto. Para atender a esse crescimento, em breve teremos a ampliação do terminal de passageiros, garantia de mais conforto e agilidade no atendimento. E há ainda a previsão de uma nova pista para ampliar a capacidade de pousos e decolagens. A Prefeitura também triplicou a frota de táxis disponíveis no Aeroporto, para a sua maior comodidade e segurança. Aliás, utilize sempre os táxis licenciados, caracterizados pela cor branca e faixas azuis.

Seja sempre bem-vindo, boa viagem e, por sua atenção, obrigado! * De acordo com Índice de Desenvolvimento Municipal divulgado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan)

MELHORIAS AEROPORTO AFONSO PENA

Aumento e padronização da frota de táxis

Nova pista com 3.400m

Ampliação do terminal de passageiros

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pOlítica

haja estômago! O debate político desce às cloacas na campanha eleitoral deste ano e, na verdade, tem como grande objetivo a eleição de 2014 F C

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em bem começou o ano eleitoral de 2012 e o debate toma o rumo das cloacas. Velho hábito do nosso subdesenvolvimento. Quando os políticos não têm argumentos, conjuram os espíritos. E como os argumentos andam raros ou são de pouco interesse para o distinto público, a tendência é que a campanha eleitoral evolua mesmo para a troca de insultos e de acusações. Nessa hora, os candidatos se agarram ao moralismo mais chinfrim e fazem da denúncia, mesmo que ela seja vazia e inócua, o seu principal instrumento. Há décadas a política paranaense é feita com esse ingrediente, muitas vezes sórdido, mas que tem funcionado como fermento das candidaturas. Na verdade, imita a tradição brasileira, tão pobre quanto a nossa desde a proclamação da República. A banda petista se arma de argumentos que à luz da razão seriam desprezíveis. Ou teriam outro significado. Vem aí um intenso bombardeio contra a outra banda, que será acusada o tempo todo de querer privatizar tudo que hoje é estatal, como se isso fosse uma atitude de lesa-pátria. A ideia da privatização foi demonizada e é jogada sobre o adversário como os babuínos jogam seus excrementos quando entram em guerra. Incrível é que esse discurso pega. Todo brasi-

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leiro tem um medo muito grande da diminuição do Estado porque acredita que isso pode reduzir seus privilégios. Engana-se. Esquece que foi graças à privatização, no já remoto governo de Fernando Henrique Cardoso, que a população adquiriu o direito de falar ao telefone e se viu livre de sustentar empresas estatais que conseguiam perder dinheiro fabricando aço ou aviões a jato, para não falar de bancos estaduais quebrados e de ferrovias que não tinham locomotivas, trilhos, cargas ou passageiros. Aqui, no Paraná, Requião elegeu-se governador por duas vezes ao prometer acabar com o pedágio das estradas. Há deputados eleitos porque prometiam lutar pela reabertura do Banestado. E candidatos que perderam votos porque eram acusados de defender a privatização de empresas como a Copel e a Sanepar. A cabeça dos paranaenses é estatólatra. Adora uma estatal onde um dia poderá pendurar o paletó numa cadeira e usufruir de uma sinecura. Sob a égide do PT, a prioridade passou a ser privatizar, ou seja, devolver ao Estado tudo o que possa e ampliá-lo o quanto for possível para engessar um eleitorado cativo conduzido por elites absolutamente identificadas e clientes do sistema. É o patrimonialismo brasileiro. As acusações contra a privatização sempre vêm acompanhadas de denúncias de corrupção. Faz sucesso o trocadilho “privataria tucana”, que

deu nome a um livro usado para a intensa contrapropaganda que procura desmoralizar todas as correntes que não são do PT ou não fazem parte de seu consórcio de 10 partidos. A mentira seria condenável, mas hoje é considerada um instrumento legítimo da politicagem petista.

a creDuliDaDe DO pOVO Genuínos espíritos democráticos possivelmente não queiram desistir da esperança de que a credulidade da plateia não será eterna. De qualquer forma, vale aventar a hipótese de que as pesquisas sobre a cabeça dos paranaenses tenha a ver com o desencanto pela política e pelos políticos, pois a acachapante maioria de 82% diz que não confia neles para nada. Nem para cuidar de um carrinho de pipoca. Mas os políticos têm o controle da máquina estatal ou de parte dela para manobrar, nomear, comissionar. É um espanto. Com 22 mil cargos de confiança, o Brasil ganha de lavada dos oito mil cargos de confiança dos Estados Unidos e dos quatro mil da França. Sem falar na Inglaterra, que tem apenas 300 servidores comissionados. Para quem não sabe, cargo comissionado é de nomeação direta do governante, sem concurso público. A famosa sinecura. A boca livre. Quanto custa essa farra de cargos comissionados aos cofres da viúva? Neste ano, R$ 200 bilhões. E lembrem 22 mil comissionados só no governo federal. Imagi-


ne se somarmos Poder Judiciário, Legislativo, governos estaduais e municipais. E, garantidamente, o Estado nacional não funciona melhor do que o da Inglaterra. Eficazes para atrair apoios e garantir fidelidade cega a governantes, cargos públicos sempre foram disputados a tapas. Neles, políticos tentam encaixar suas turmas, de olho no pleito seguinte. Nesse caldo, vale tudo, o que justifica o caos ideológico que não contribui para a definição do eleitor. E o leva a concluir que todos os políticos são iguais, ou seja, são portadores de todas as deficiências e vícios que se possa atribuir a alguém da espécie. É comum encontrar cidadãos que se dizem frustrados com a mudança de comportamento e de ideias do político que ajudou a eleger. Aos olhos de quem vota, é comum tropeçar em quem se diz democrata e crítico da esquerda e dos governos do PT e que se revelam admiradores do PT e de seus governos diante da primeira oferta. Hanna Arendt insistia na importância da verdade dos fatos como matéria-prima da política. Aqui, a sabedoria dos nativos diz que em política o que importa não é o fato, é a versão. Com a desfaçatez que os caracteriza, dizem que o que importa é a versão que consegue impor-se, no momento preciso, aos olhos da maioria, e não aquela que poderia ser a mais fiel ou a mais exata. Talvez seja exagerado pensar que de Hanna Arendt aos nossos dias a teoria política tenha dado um passo à frente. Não é difícil constatar, no entanto, que probidade intelectual não é um ingrediente costumeiro, nem em política, nem em assuntos conjugais, nem em qualquer outro campo da convivência humana.

O fator artístico  Os marqueteiros contratados a peso de ouro para turbinar candidaturas entendem que o mais importante é garantir que os fatos sejam interpretados da forma que lhes convém pelos meios de comunicação, pois o que vai decidir tudo, afinal, é a inclinação da maioria. Bem feitas as contas, a matéria-prima da política não são nem os fatos nem as suas várias versões possíveis, mas a reação dos setores interessados e da opinião pública em geral diante deles. Essas reações é que são, digamos, o ingrediente básico da política. É isso que torna o jogo político tão perigoso e tão pouco razoável. Para começar, os fatos não valem pela sua importância intrínseca, mas pela carga emocional que possam conter ou gerar, pois essa carga é que determina a reação popular. Há o fator pessoal ou artístico. Um bom ator ou um talentoso demagogo pode fazer explodir um pequeno incidente e incendiar com ele quartei-

rões inteiros, enquanto que os medíocres tudo o que conseguem é chutá-la pela sarjeta, como se fosse uma bola de meia. Estes atores eficientes em seu ofício sabem se aproveitar do fator conjuntural, que em princípio se resume ao estado de espírito dominante, naquele momento, entre a população. Esse fator, que é o que mais preocupava Hanna Arendt, resulta do acúmulo de sentimentos diversos, preconceitos e crenças, que às vezes a frustração e o medo exacerbam terrivelmente. Hitler, Stalin, Mussolini foram sem dúvida atores de gênio, mas boa parte de seu gênio consistiu em saber entender e explorar as frustrações e preconceitos populares que serviriam aos seus desígnios. Mesmo em níveis mais modestos, entretanto, as características da política e de sua inflamável matéria-prima produzem com frequência si-

Nessa hora, os candidatos se agarram ao moralismo mais chinfrim e fazem da denúncia o seu principal instrumento tuações paradoxais. É a história do rei nu, que as pessoas preferem não ver, não só por medo ou pela força do hábito, mas porque às vezes é melhor um rei nu do que nenhum, ou do que imperadores metidos em armaduras. Ora, nem os fatos nem a versão valem quando a opinião pública prefere encolher-se.

O que esperar?  A guerra por cargos entre o PT, o PMDB e os mais de 10 partidos do consórcio que elegeu Dilma Rousseff não deveria causar estranheza. Ao contrário, seria legítima. E os combatentes - conhecedores dos telhados de vidro dos integrantes da aliança – não precisariam usar e abusar do fogo amigo para conquistar espaços. Mas o jogo é bruto. A meia dúzia de ministros detonados por suspeita de corrupção, todos de partidos aliados, conhece bem a artilharia. Sabe ainda que quando o ministro é do PT, mesmo que as balas venham

do próprio PT, Dilma arma a blindagem, como no caso de Fernando Pimentel, sangrado pelos petistas de Minas, e mantido longe da arena de luta. Não raro, a proteção temporária ou definitiva é feita colocando-se na bandeja a cabeça de subalternos. Foi assim com o Dnit, antes da queda de Alfredo Nascimento, e agora, com a substituição no Dnocs, preservando Fernando Bezerra e seus inexplicáveis privilégios a Petrolina, seu curral eleitoral. Caiu também o chefe de gabinete do Ministério das Cidades, pasta em que Mario Negromonte, que nem o PP quer mais. Sem reforma ministerial à vista, a batalha agora é pelas estatais, Petrobras à frente. A divisão do bolo é tão difícil que para incluir um petista a mais – o ex-presidente do partido, José Eduardo Dutra – decidiu-se pela criação de uma nova diretoria. A Petrobras, terceira maior empresa de energia do mundo, funcionou até hoje sem uma diretoria coorporativa e não parece que lhe faça alguma falta. Mas, no país da boquinha, isso pouco importa. Pouco importa também se os recém-nomeados para o segundo escalão dos ministérios da Saúde, da Agricultura ou de Minas e Energia entendem alguma coisa do riscado. O que vale é a partilha, a satisfação dos donos de cada uma das sesmarias que, como sanguessugas, chupam tudo até a última gota. E o contribuinte paga a conta.

De olho em 2014  Na verdade, a disputa das prefeituras, do poder local, neste ano, é, para os estrategistas dos grandes partidos, um momento da grande guerra de 2014, quando estarão em jogo a Presidência da República, 1/3 do Senado, a Câmara Federal, os governos estaduais, as Assembleias Legislativas, e tudo o mais que acompanha o banquete do poder. E que não é pouco. Neste Brasil brasileiro, a economia funciona sob a tutela de um Estado que leva quase 40% do PIB para alimentar a máquina, o Ogro Filantrópico, que realimenta o sistema e promove a reprodução dos mesmos grupos no poder. Tenham eles o nome que tiverem, a sigla que representarem. Um sistema que não funciona sem corrupção. O sistema é bem conhecido e protegido de qualquer iniciativa de privatização. Mantêm-se estatizados nas empresas de “interesse nacional”, o capital e o controle acionário, privatizase o seu uso em benefício particular das pessoas e grupos que mandam no governo e, por consequência, mandam nelas. Nada explica melhor o horror que o PT tem da privatização legítima: ela impede a privatização que lhe interessa e que se chama desfrute privado do patrimônio público. Se uma empresa deixar de ser do governo, como é que vão continuar a tirar proveito dela? fevereiro de 2012 |

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pOlítica

há 17 candidatos a prefeito de curitiba Ou seja, muita gente descobriu que a política é um bom negócio P L

A

oito meses das eleições, a chapa esquenta em Curitiba. Dos 28 partidos com registros no Tribunal Regional Eleitoral, 12 afirmam ter pré-candidatos a prefeito. Mas até as pedras do Centro Cívico sabem que a maioria dessas pré-candidaturas é puro blefe. Não passam de balão de ensaio para composições vantajosas que nem

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sempre se consumam na mesa das negociações políticas. Há outros guichês abertos. Por enquanto, a lista dos candidatos é a que se segue: Luciano Ducci (PSB), Gustavo Fruet (PDT), Ratinho Júnior (PSC), Rafael Greca (PMDB), Fábio Camargo (PTB), Renata Bueno (PPS), Dr. Rosinha (PT), Ângelo Vanhoni (PT), Tadeu Veneri (PT), Roberto Acioli (PV), Dra. Clair Martins (PV), Paulo Salamuni (PV), Luiz Carlos Martins (PSD),

Ney Leprevost (PSD), Alzimara Barcelar (PPL), Bruno Meirinho (PSol) e Diego de Sturdze (PSTU). É muito provável que o cidadão curitibano não conheça todos esses pretendentes. Nem é preciso. A disputa real será entre aqueles que o distinto público conhece. Tudo o mais é figuração. PRB, PP, PSL, PTN, PCB, PR, DEM, PSDC, PRTB, PHS, PMN, PTC, PRP e PCdoB vão gravitar, com chapas de vereadores, nas co-


ligações mais fortes. PP, DEM e PR aspiram a indicação do vice, mas ficarão mais do que contentes com uma aliança negociada com um dos candidatos de ponta. “Estamos na temporada em que todos querem a janelinha do avião, se dizem irredutíveis quanto a participar das eleições, mas quando chegar maio, o processo vai afunilar em quatro ou cinco candidaturas. Nada mais do que isso”, diz um atento observador do baralho político que está em jogo desde as últimas eleições na capital paranaense.

maiOr eleitOr No jogo das pré-candidaturas é possível identificar quem está de mão cheia e quem está com o facão mais afiado. De um lado, o vitorioso governador Beto Richa, do PSDB, que aposta as suas fichas na reeleição de Luciano Ducci, do PSB, que se larga ao mar bem avaliado na condução do governo municipal e como fiel coadjuvante de Richa. Ascende naturalmente nas pesquisas eleitorais. “Vamos acompanhar o PSB com a candidatura de reeleição do prefeito Luciano Ducci. É nosso parceiro. Sempre esteve ao nosso lado, tem tocado todos os projetos, seguido a mesma linha de governo que iniciamos em Curitiba. É uma pessoa preparada e conhece todos os problemas da cidade. É competente, é funcionário público, conhece a estrutura da prefeitura, tem espírito de liderança. Tanto é que continua com o mesmo ritmo de investimentos e obras em Curitiba da nossa época e acredito que os investimentos foram até ampliados”, diz Beto Richa. Ducci, evidente, agradece o apoio do maior eleitor de Curitiba, mas desconversa sobre as eleições. “Estou bem animado é com gestão pública que estamos fazendo. Com todas as obras que estão para ser iniciadas e outras, em fase de conclusão. O processo eleitoral começa lá para o mês de julho”, disse, embora saiba que a disputa corre solta desde o fim da última eleição. Seu maior cacife, além do apoio de Richa, são as obras. Entre 2011 e 2012, Ducci espera entregar 1.525 obras de porte em todas as áreas e parte das grandes obras viárias da Copa do Mundo, vai fazer 500 km de asfalto e iniciar a obra do Metrô. Os investimentos em todas as obras superam R$ 4,5 bilhões. Não é de somenos. “Acho ótimo as pessoas perceberem que estamos transformando a cidade num grande canteiro de obras. Isso é a competên-

cia na condução da gestão que conseguiu recursos no governo estadual, no governo federal e investimentos internacionais. E também de recursos da própria prefeitura, que possibilitou esse canteiro de obras que vai transformar Curitiba”, completou.

DesarranJO Do outro lado da arena dos leões temos o jogo do PT, mais precisamente do grupo que se autodenomina “Construindo um Novo Brasil”. É a corrente majoritária no partido de Lula, capitaneada no Paraná pelo casal de ministros Paulo Bernardo, das Comunicações, e Gleisi Hoffmann, da Casa Civil. Em 2008, Gleisi fez somente 18% dos votos na eleição municipal de Curitiba. Dois anos depois, foi eleita senadora com 22% dos votos curitibanos. Desde 2010, o foco de Gleisi e Bernardo é a disputa da sucessão de Richa em 2014. E 2012, a eleição municipal, é o primeiro turno para o casal petista. Focados no projeto, o casal vai atropelar qualquer pretensão do segundo e terceiro times do petismo nativo. Nomes como Rosinha, Ângelo Vanhoni e Tadeu Veneri estão descartados. Gleisi e Bernardo acomodaram o ex-deputado tucano Gustavo Fruet no PDT para encarar a força de Richa, Ducci e aliados. De nada adianta as chorumelas de Rosinha e Veneri. Quanto a Vanhoni, é o balão do casal até junho, quando o PT vai consumar oficialmente o que já está acordado desde o ano que passou. Vai capitular aos interesses de Fruet. Mesmo que haja chiadeira dentro do PT. “Se o Gustavo (Fruet) pensa que está negociando com o PT, alguma coisa está errada nessa conversa. Em nome do PT, não há negociação. Temos um calendário produzido pelo diretório nacional e não vai ser um dirigente que vai se sobrepor ao partido. Seria uma situação surreal nós acharmos que pessoas individualmente são maiores que o processo coletivo”, disse Tadeu Veneri. Irritado, Veneri não esqueceu de cutucar a cúpula do PT, ou seja, o casal Gleisi e Paulo. “A cúpula tem o direito e a legitimidade de querer o que ela quiser, desde que ela passe pelos pressupostos internos partidários. Ela pode ter desejos e isso é legítimo. Mas daí a você ter esse desejo transformado em realidade tem um caminho chamado partido. E eu não abro mão de disputar internamente a candidatura”, completa. saia Justa Escalado pelo PT que manda, Fruet esqueceu rápido que pontuou grande

DeSDe 2010, o Foco De gLeiSi e bernarDo é a DiSPuta Da SuceSSão De richa eM 2014. e 2012, a eLeição MuniciPaL, é o PriMeiro turno Para o caSaL PetiSta fevereiro de 2012 |

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parte dos seus últimos oito anos em denunciar os escândalos petistas no governo que Gleisi e Bernardo representam na planície. No Congresso Nacional, sua performance na CPI do Mensalão foi tão emblemática quanto a alcunha praguejada a José Dirceu – “o chefe da quadrilha”, nas palavras de Fruet. O noviço brizolista desconversa e diz que em política é assim mesmo e cada capítulo da novela tem seu próprio enredo. Quanto à coerência, joga a responsabilidade para o distinto público. “Quem vai fazer esse julgamento é a população, mas em cima de princípios, de um diálogo e de muitos mais pontos de convergência. Com argumento, há uma compreensão. Evidente que a população vai marcar muito mais sua capacidade de indicar os caminhos para o futuro da cidade do que propriamente um debate ideológico e partidário”, disse em entrevista ao jornal Gazeta do Povo. “A eleição local tem outra característica. Ela é muito mais para discutir o futuro da mobilidade, da segurança, da saúde, que para debater questões que dominam a pauta no Congresso”, completou. Há divergências. Tem gente que não concorda com o “bom mocismo” do pedetista. “O Fruet saiu do PMDB porque não aceitou o apoio que demos do PT na disputa da prefeitura em 2004. No PSDB, ele passou a atacar o PT porque o partido fez parte do governo do PMDB no Paraná. Agora saiu do PSDB, entra no PDT e está de braços dados com o PT”, aponta o deputado federal João Arruda.

toDaS aS MoviMentaçõeS Daqui até Junho vão MoStrar o intereSSe DaS canDiDaturaS noS PrecioSoS MinutoS De caDa PartiDo no horário eLeitoraL gratuito 18

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na raia De fOra O PMDB, como se vê, rejeita Fruet e vai para disputa com o exdeputado e ex-prefeito Rafael Greca. “Greca fez uma administração com a cara do PMDB, voltado às pessoas, ao social, tem experiência, trânsito por todos os segmentos e projetos que possam resgatar a identidade de Curitiba. Desde os faróis do saber de Greca, a cidade não tem uma marca. O Greca será o candidato das oposições”, adianta o deputado federal João Arruda, que é sobrinho de Requião e por isso mesmo quando fala, fala pelo principal nome do partido em Curitiba. Arruda, Requião et caterva são entusiastas da candidatura de Greca, que promete injetar boa dose de inteligência e cultura num debate ralo. Longe das lamúrias petistas e das diferenças do PMDB com Fruet, o deputado federal Ratinho Júnior, do PSC, muito bem escudado nas pesquisas, reuniu 180 pré-can-

didatos a vereadores de Curitiba e mandou ver na disposição de disputar a prefeitura da capital do Paraná. “Não tenho medo de desafios. Nós, do PSC, somos independentes. E não vou ficar de joelhos diante de partido algum. A nossa política é de construção de pontes, sem agressão e com respeito”, afirmou Ratinho Júnior, que não comenta a traição que sofreu de Osmar Dias e do PDT, que assumiram com ele o compromisso de apoio nesta eleição em troca da adesão de Ratinho à candidatura de Osmar na eleição passada. Ratinho não reclama, mas argumenta que é da base do governo Dilma, e vê como desrespeito a escolha atropelada de Fruet. Seu pai, o comunicador Carlos Roberto Massa, mandou o seguinte recado. “O Ratinho sempre foi da base, Fruet nunca foi. Estão empatados tecnicamente. Ao escolher Fruet, o PT dá a ele uma independência para ir para o lado que quiser. Até hoje ele é da base, mas quando a base escolhe outro é sinal que a base não gosta de você. Se a base não gosta de você, por que você vai ser da base?”, questionou o Ratinho pai. Ratinho, o filho e pré-candidato, afirma que já estão sacramentadas as alianças com o PR e o PTdoB. Além disso, encaminha um bom diálogo com o PCdoB e com o PV. Neste momento, o deputado se dedica a costurar as alianças e trabalhar as candidaturas a vereador.

tirO curtO O PV namorou Fruet, fez até campanha para sua filiação, mas agora ensaia candidatura própria. A presidente, deputada Rosane Ferreira, sustenta que o PV tradicionalmente tem candidatura própria para dar maior visibilidade à legenda. Na lista dos verdes, três pré-candidatos: o vereador Paulo Salamuni, o deputado estadual Roberto Acioli e a ex-deputada federal, Dra. Clair da Flora Martins. “O PV organizará um plano de governo e existem as pré-candidaturas da Dra. Clair e do vereador Paulo Salamuni”, adianta Rosane, excluindo já a pré-candidatura de Acioli. Salamuni é amigo pessoal de Fruet e vai trabalhar por uma aliança com o PDT. Mas vai enfrentar a resistência da Dra. Clair, que sustenta que o PV não pode abrir mão de disputar a prefeitura de Curitiba. “Queremos que o PV seja protagonista nestas eleições municipais, como o foi nos últimos pleitos majoritários à Presidência da República, ao governo e na capital do Paraná. Já, no segundo turno, a história é outra,


porque o partido sempre sai fortalecido com candidatura própria”, argumenta Clair. Outro que corre por fora é o deputado estadual Fábio Camargo, que se define como um osso duro de roer. No encontro estadual do PTB realizado em dezembro em Curitiba, Camargo reafirmou sua pretensão de disputar a prefeitura. Mesmo diante das lideranças estaduais e nacionais inclinadas a apoiar Ducci, o deputado disse que é candidato. “Não vejo força que possa tirar essa minha candidatura. Podem existir várias fatalidades, mas terão de ser fatalidades pessoais. Mas dizer que eu não vou ser candidato por causa do partido, não”. Duas vezes vereador de Curitiba, prefeito interino em 2003 e candidato a prefeito em 2008, mandou mais um recado. “Se o partido apoiar o Ducci, eu entro com uma medida judicial e tudo será resolvido porque eu tenho a maioria do diretório. Eu sou osso duro de roer”,

nOViça reBelDe Há ainda a pré-candidatura da vereadora Renata Bueno, do PPS, que se notabilizou pelas refregas com seus pares na Câmara Municipal. Renata é filha do deputado federal Rubens Bueno, do bloco de oposição no governo federal, mas que faz parte do governo tucano de Beto Richa. Em relação ao desejo tucano – de apoio a Ducci -, Renata diz que uma coisa é participar dos governos de Richa e Ducci e outra coisa é a eleição deste ano. “A única coisa 100% definida é que teremos candidatura própria. Fizemos aliança com Beto Richa nas eleições de 2008 e estamos contribuindo com a administração municipal e temos secretários na administração Richa. Em 2012 inicia-se uma nova história que nós mesmos queremos construir”, sentencia. Renata, também conhecida como noviça rebelde entre os luas pretas instalados no Centro Cívico, não é a única que pretende começar nova história pessoal em 2012. No PSD, o radialista Luiz Carlos Martins já adiantou que está de olho na vaga da legenda para disputar a prefeitura de Curitiba. Além de Martins, o deputado estadual Ney Leprevost também quer disputar a prefeitura pelo novo partido. O PPL, Partido da Pátria Livre, ex-MR8, vai lançar a professora Alzimara Bacelar com a chapa completa de vereadores. O mesmo deve fazer o PSol, com Bruno Meirinho e o PSTU, com Diego de Sturdze. É tempO De tV Mas nem tudo se resume a nomes, candidatos e pretensões pesso-

ais neste vale da politicalha nativa. Todas as movimentações daqui até junho vão mostrar o interesse das candidaturas nos preciosos minutos de cada partido no horário eleitoral gratuito de rádio e televisão. A propaganda começa no dia 21 de agosto. A divisão do tempo é feita com base na representação dos partidos no Congresso Nacional. Ou seja, as maiores bancadas eleitas em 2010 na Câmara dos Deputados têm mais tempo de rádio e TV. Nas eleições municipais deste ano nas segundas, terças e sextas-feiras o horário eleitoral será destinado aos candidatos a prefeito das cidades, com duração de 30 minutos. Desse total, 20 minutos são divididos com base nas bancadas dos partidos na Câmara Federal. Os outros 10 minutos são divididos igualmente entre os candidatos e partidos. Além do PSB, Ducci deve ter apoio de pelo menos outros cinco partidos: PSDB, DEM, PP, PSDC e PRB. Isso dá 13 minutos e 33 segundos, ou quase metade do tempo disponível nos blocos da propaganda de rádio e TV. Já Fruet tem o tempo do PDT, 1minuto e 51 segundos, e pode ter apoio do PT, mais 4 minutos e 16 segundos, o que lhe dá 6 minutos e 7 segundos. Ratinho Júnior com o PR, PTdoB, PHS e PCdoB, teria pouco mais de 7 minutos e 20 segundos. O PMDB, em candidatura solo, tem 3 minutos e 52 segundos. O PPS, de Renata Bueno, tem 1 minuto e 18 segundos. E o PV pouco mais de 1 minuto e 23 segundos. Até lá, prepare-se. É muito provável que depois deste verão você passe a trombar com candidatos em todas as esquinas, em todas as festas, formaturas, quermesses. E quando chegar em casa, à noite, cansado de tudo isso, ligará a televisão e lá estarão eles, insistentes, a pedir o seu voto e a jurar que são os únicos honestos na face da terra. Feliz 2012.

até Lá, PrePare-Se. quanDo chegar eM caSa canSaDo De tuDo iSSo, Ligará a teLeviSão e Lá eStarão eLeS, inSiStenteS, a PeDir o Seu voto e a Jurar que São oS únicoS honeStoS na Face Da terra fevereiro de 2012 |

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infraestrutura

curitiba no ciclo das grandes obras Investimento de R$ 4,5 bilhões em grandes obras que vão mudar o perfil da cidade P L

ceSar bruStoLin/SMcS

C

uritiba entra em 2012 com grandes obras programadas para ano e o prefeito Luciano Ducci adianta que elas não atendem apenas a preparação da cidade para receber a Copa do Mundo, mas darão suporte à qualidade de vida dos curitibanos por muito tempo. As obras se destacam nas mais diversas áreas: mobilidade, saúde, abastecimento, lazer, meio ambiente, habitação e educação. Com recursos próprios e dos governos estadual e federal, além de investimentos externos, o impacto financeiro será superior a R$ 4,5 bilhões nos próximos quatro anos. O viaduto estaiado por sobre a Avenida das Torres, nove trincheiras, o ligeirão no eixo norte de transporte e a ampliação do terminal Santa Cândida, a implantação do Sistema Integrado de Mobilidade e o início do processo para a licitação das obras do Metrô Curitibano estão entre as ações de mobilidade urbana.

o prefeito de curitiba, Luciano Ducci, vistoria obras de pavimentação no bairro tatuquara.

saÚDe e meiO amBiente Na área da saúde Curitiba terá o Hospital do Idoso entre 10 equipamentos que serão entregues no primeiro semestre de 2012. Além do hospital, especializado em geriatria, gerontologia e clínica médica no bairro do Pinheirinho, serão mais 20

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Luiz coSta/SMcS

OBras ViÁrias “Das 10 grandes obras viárias em andamento, sete têm relação com a Copa. A localização do estádio da Copa ajuda. Muitas obras planejadas para a cidade em geral têm impacto na Copa. Veja a Rua 24 Horas, foi reformada e reaberta. Ela tem um perfil que pode atrair muita gente nos dias da Copa. O Anel Viário vai aliviar o trânsito no Centro, passa pelo Estádio da Copa e pelos estádios do Coritiba e do Paraná Clube. Temos um pacote de obras grandes em vias de licitação e que vamos iniciar neste ano”, disse Ducci.

Pavimentação da rua Julio Perneta, no São Franciso, obra que faz parte do anel viário.


Brunno Covello/SMCS

Novas calçadas, como na Rua Augusto Severo, fazem parte das obras do Anel Viário.

Com recursos próprios e dos governos estadual e federal, além de investimentos externos, o impacto financeiro será superior a R$ 4,5 bilhões nos próximos quatro anos

Luiz Costa/SMCS

duas unidades de atendimento e seis centrais de Raio X por toda a cidade.

Maurilio Cheli/SMCS

Parque da Imigração Japonesa, recuperação estratégica de uma antiga área de invasão.

Luciano Ducci vistoria as obras do residencial Moradias Iguaçu III, no Bairro Novo.

Parques  O Parque da Imigração Japonesa, em construção às margens do rio Iguaçu, será a 22ª unidade de lazer e recreação da cidade, que contará ainda com um centro de eventos. Construído no entorno dos lagos, contornando os 385 mil metros quadrados do parque, será construída uma pista de caminhada. A população poderá desfrutar ainda de outros equipamentos de esporte e lazer, como quadras esportivas. Às margens da Avenida das Torres, o novo parque será um cartão de visitas para quem chega à capital paranaense pelo aeroporto Afonso Pena, além de ser uma recuperação estratégica de uma antiga área de invasão que ficava às margens do rio Iguaçu. Programas sociais  Em 2012 a rede de Armazéns da Família de Curitiba vai ganhar mais duas unidades, na CIC e Umbará. Ainda no primeiro trimestre, a prefeitura vai inaugurar o Armazém da Família CIC/Barigui. Com investimentos de R$ 1,1 milhão, o Armazém vai atender mais de 20 mil moradores da Regional CIC. Para a metade de 2012 será entregue o 34º Armazém da Família de Curitiba, o do Umbará. Com mais esses dois armazéns, a prefeitura aumenta a oferta de alimentos de qualidade a baixo custo para a população. fevereiro de 2012 |

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IPPUC

Viaduto Estaiado, que passará por cima da Avenida das Torres e terá 129 metros de vão livre.

Jaelson Lucas/SMCS

Educação  Curitiba fechou o ano de 2011 com a maior frente de obras em creches dos últimos anos, com 18 unidades em construção e cinco em ampliação. As creches em construção ficam nos bairros Ganchinho, Sítio Cercado (três), Santa Cândida, Boa Vista (duas), Xaxim, Uberaba (três), CIC, São Miguel, Augusta, Tatuquara, Prado Velho, Parolin e Campo de Santana. As próximas creches a serem inauguradas serão no Sítio Cercado IV, com 200 vagas, no Sítio Cercado; o Moradias Corbélia, com 150 vagas, no São Miguel; e o Vila Tecnológica, com 200 vagas, no Sítio Cercado. Além disso, a partir de uma parceria da prefeitura com o Governo do Estado, os moradores dos bairros Tatuquara, Ganchinho e Uberaba ganharão três novas escolas estaduais. As obras terão investimentos de R$ 20 milhões. A primeira escola ficará na Vila Audi, no Uberaba, que está sendo reurbanizada pela Prefeitura, com novas creches e um Centro da Juventude. A segunda será erguida na Vila Osternack, no Ganchinho, onde a prefeitura investe na construção de três mil novas moradias. O Tatuquara ganhará a terceira escola estadual. Em constante expansão, o bairro abrigará a décima administração regional da Prefeitura, e ganhará Unidade de Saúde e terminal de ônibus, entre outras obras. Cada uma das novas escolas estaduais terá 14 salas de aula. O projeto segue o padrão do Governo do Estado. Curitiba tem 164 escolas estaduais que atendem estudantes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e dos três anos do ensino médio. Além das três novas unidades, o governo construirá 45 novas salas em dez escolas estaduais de Curitiba.

Obras da trincheira sob a Avenida Comendador Franco, que faz parte do binário Chile-Guabirotuba.

trutura de Curitiba para receber os jogos da Copa do Mundo e que ficarão de legado para a cidade em benefício dos curitibanos. O viaduto estaiado na Avenida das Torres com a Rua Francisco dos Santos, a trincheira da Rua Guabirotuba sob a Avenida das Torres, a reconstrução e ampliação do terminal Santa Cândida e a implantação do SIM (Sistema Integrado de Mobilidade). O novo viaduto terá 129 metros de vão livre, de um lado a outro da rodovia que faz parte do corredor Aeroporto-Rodoferroviária. Serão quatro pistas e ciclovias que ficarão suspensas por 21 cabos de aço ancorados num pilar de 74 metros de altura (equivalente a de um prédio de 24 andares). A obra será um marco arquitetônico que poderá ser visto de vários pontos de Curitiba e também do município vizinho de São José dos Pinhais. O Sistema Integrado de Mobilidade incluirá obras, equipamentos e softwares na gestão da

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Ricardo Almeida/SMCS

Copa do Mundo  São sete as obras de infraes-

A Linha Verde é uma das intervenções urbanas para a Copa.


A presidente Dilma Rousseff apontou o projeto curitibano como referência para a integração do transporte em todo o Brasil

Arnaldo Alves / AENotícias

Este ano a prefeitura dará início aos processos de licitação para construir o Metrô Curitibano - obra que será um novo marco no transporte da cidade. A presidente Dilma Rousseff já autorizou o repasse de R$ 1 bilhão, a fundo perdido, para a construção e apontou o projeto curitibano como referência para a integração do transporte em todo o Brasil. O governo federal também vai dispor ainda de R$ 750 milhões em financiamentos - dos quais R$ 300 milhões serão assumidos pelo Governo do Estado e R$ 450 milhões pelo município. Outros R$ 500 milhões serão obtidos através de parceria público-privada.

O horário especial para circulação de caminhões na Linha Verde Sul reduziu o tráfego destes em 43%, em média.

mobilidade em Curitiba. Um Centro Operacional vai fazer o monitoramento permanente das ruas da cidade que integram o Anel Viário. Com a operação da Central os motoristas também receberão informações através de painéis luminosos colocados em pontos estratégicos. Os primeiros painéis serão instalados nas ruas que compõem o Anel Viário, em implantação pela prefeitura.

Linha Verde e Metrô  Completam as intervenções urbanas para a Copa, a extensão da

Linha Verde Sul, no trecho entre o terminal Pinheirinho e a Isaac Ferreira da Cruz, que leva o ônibus biarticulado até o extremo sul da cidade; a requalificação do corredor da Avenida Marechal Floriano Peixoto até a divisa com São José dos Pinhais; a revitalização da Avenida Cândido de Abreu, que ganhará novas pistas para os veículos e um calçadão central para pedestres, estações de embarque e desembarque de passageiros e equipamentos públicos, e a requalificação da Rodoferroviária e seus acessos.

Linha Azul  A Linha Azul, primeira fase do Metrô Curitibano, ligará a CIC até a Rua das Flores no centro da cidade. Serão 13 estações no percurso. O metrô sairá do terminal CIC Sul em superfície, margeando a Linha Verde, no leito da BR 116. De lá, seguirá em direção ao terminal do Pinheirinho e passará a ser subterrâneo abaixo dos 14,2 quilômetros de canaletas que seguem até o centro da cidade. Multimodal: A pista exclusiva por onde hoje circulam os ônibus será transformada em um grande parque linear com áreas de circulação para pedestres e ciclistas. As canaletas serão transformadas em um grande espaço de convivência que contará com ciclovias. O Metrô Curitibano terá estacionamento para bicicletas nas 13 estações de embarque e desembarque do metrô. Com cerca de 120 metros de largura por 21,5 de comprimento, cada estação poderá ter 35 vagas para bicicletas, totalizando 455 vagas de estacionamento ao longo do trecho do metrô. Além das bicicletas, o Metrô terá estacionamento para carros e motos dentro das estações. fevereiro de 2012 |

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pOlítica

O ano em que adiaram o carnaval F C

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m 10 de fevereiro de 1912 morreu o Barão do Rio Branco. A repercussão foi imediata e grandiosa. E não se restringiu às manifestações oficiais. A adesão da população foi total. Nem o carnaval escapou do choque pela perda de quem em vida era considerado herói nacional. O sábado seguinte – 17 de fevereiro – seria o início do carnaval. Seria, porque foi transferido para os dias 6 a 10 de abril. Nunca antes ou depois alguém mereceu tamanha homenagem. A força do mito criado em torno de José Maria da Silva Paranhos Júnior, Juca Paranhos, como construtor da nacionalidade e sua identificação com certa ideia de Brasil é caso único de diplomata que se ergue como “fundador” da nacionalidade. Quando morreu o Barão do Rio Branco, o Brasil tinha quase 90 anos de vida independente. Fora governado por imperadores, regentes e presidentes. Ainda assim, Rio Branco adquiriu importância capital no imaginário como um dos formadores da nação brasileira. Nascido em 1845, Juca Paranhos alcançou notoriedade em 5 de fevereiro de 1895, com a divulgação do laudo do presente norte-americano, Glover Cleveland, favorável ao Brasil na arbitragem da disputa com a Argentina pelo território de Palmas. O Barão foi o advogado brasileiro. Daí em diante, Rio Branco definiu as fronteiras do Brasil em uma série de vitórias diplomáticas. Monarquista, foi feito chanceler sob a República, em 1902, por Rodrigues Alves, e permaneceu no governo de Hermes da Fonseca. Seu nome e sua capacidade eram incontestáveis. A única unanimidade brasileira. Rio Branco nunca deixou de ostentar o título recebido no império e assinava os documentos oficiais como Barão. Ninguém jamais o questionou. Todos sabiam de sua identificação aos interesses nacionais e que seria difícil substituí-lo para a tarefa de chanceler. É um caso único de fundador de uma Nação Americana que se consagrou no século XX. Aliás, quem são os fundadores da nacionalidade bra-

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o governo DeterMinou que aS coMeMoraçõeS não coMeçaSSeM no Dia 17 De Fevereiro, MaS FoSSeM tranSFeriDaS Para 6 De abriL, eM SinaL De reSPeito

sileira? José Bonifácio, o patriarca da Independência? Dom Pedro I ou o II? Caxias? Ou, antes de todos, Tiradentes, no século XVIII? O Barão inscreveu-se entre os fundadores naturalmente. O povo lamentou a sua morte de forma espontânea. O comércio fechou as portas, bem como os bancos e escritórios privados, além das repartições públicas. Os cinemas e os teatros não funcionaram naquele dia. E bailes e festas foram cancelados. Logo, o governo determinou que, em virtude do luto, as comemorações não começassem no dia 17 de fevereiro, conforme previsto no calendário, mas fossem transferidas para 6 de abril, em sinal de respeito. Mas apesar de todo o respeito aconteceu o inevitável neste Brasil brasileiro. A festa foi cancelada sem sucesso. O povo chorou a morte do barão mas também brincou o carnaval. Duas vezes. Em fevereiro e em abril. E uma das marchinhas mais cantadas naquele ano foi esta: “Com a morte do Barão/ tivemos dois carnavá/ Ai que bom, ai que gostoso/ Se morresse o Marechá” (no caso, o presidente, marechal Hermes da Fonseca).


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Rubens Campana

O Haiti no Brasil

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tema do recebimento de imigrantes desembarca no Brasil por uma via inesperada, com a chegada de alguns milhares de haitianos ao país. A situação de catástrofe naquela parte da ilha caribenha soma-se ao bom momento da economia brasileira, o que torna natural o interesse dos migrantes. Por aqui, no entanto, não estamos tão acostumados com essa ideia, e tanto governo quanto povo borbulham em propostas sobre o que fazer. Todos sabem que dizer que o Haiti é um lugar em crise é um eufemismo, mas vamos aos números: no país mais pobre da América Latina, a expectativa de vida é de dez anos a menos do que no Brasil, e a renda per capita haitiana, de US$ 1.123, é cerca de 10 vezes menor do que a brasileira. Em quase todos os lugares, a chegada de imigrantes desencadeia profundos temores, de maldições econômicas manifestadas no desemprego ao aumento da violência. Apesar de nossos medos tribais, não há nada a temer: restrições à imigração são, na frase do economista Bryan Caplan, uma solução em busca de um problema. Nos lugares onde os melhores estudos sobre imigração foram realizados, verifica-se que a contínua chegada de imigrantes incentiva a atividade de negócios e produz ainda mais empregos. Isso porque as economias não possuem um número fixo de empregos pré-determinados; ao contrário, cada novo trabalhador é um recurso que, em condições favoráveis de incentivos, produz riqueza para si e em colaboração com outros. Em seu estudo, os economistas Gianmarco Ottaviano, Giovanni Peri e Greg Wright argumentam ainda que, quanto mais fácil encontrar mão de obra imigrante barata em casa, menos provável que a produção se desloque para fora do país. Além disso, a análise de economias com mais imigrantes, como a dos Estados Unidos, mostra que os setores econômicos com grande exposição à imigração se saíram historicamente melhores no crescimento do emprego do que setores mais isolados, até mesmo para pessoas pouco qualificadas. As evidências não oferecem apoio para as populares ideias de que a imigração — ou globalização em geral — fere os interesses dos trabalhadores. A visão de que o imigrante é um parasita que apenas vai em busca de serviços públicos ine-

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uma análise da estrutura demográfica mostra que a chegada dessas pessoas é uma bênção para os tesouros nacionais xistentes em seu país de origem também não confere. Ao contrário de vampirizar sistemas de saúde e educação, o imigrante costuma estar, na maioria dos casos, dentro da faixa etária que mais contribui para a sustentação dos custos do aparato estatal de bem estar social. Programas de aposentadoria, seguridade social e saúde costumam ser as transferências mais caras feitas pelo governo, e, em todos os países, esses pagamentos vão quase completamente aos nativos. Os imigrantes geralmente chegam quando são jovens e saudáveis, fazendo parte da população economicamente ativa que, na prática, sustenta os programas destinados para crianças e velhos. Uma análise apropriada da estrutura demográfica mostra que a chegada dessas pessoas é uma bênção para os tesouros nacionais: mais imigrantes significam menos impostos. A chegada de imigrantes também não resulta em aumento da violência. Estudos indicam que, em várias cidades norte-americanas, o aumento da chegada de imigrantes está positivamente relacionado à queda da criminalidade. Algumas hipóteses sugerem que os imigrantes se mudam para áreas urbanas que, de outra forma, ficariam desocupadas, como antigos centros, dando nova vida a espaços que seriam propícios à atividade de criminosos. A soberania territorial — a concepção que liga a soberania com a posse de uma porção limitada da superfície da Terra — foi um desdobramento

tardio do feudalismo. Essa conclusão é previsível, pois foi o feudalismo que, pela primeira vez, vinculou deveres pessoais, e, por consequência, os direitos pessoais, à propriedade da terra. Ainda assim, no mundo pré-1914 não existiam grandes questões de imigração ou políticas específicas de barreiras. Na prática, não havia controles substantivos de fronteiras. Em vez disso, a livre circulação existia em um sentido real; não se faziam perguntas e nem mesmo documentos oficiais eram necessários para entrar ou sair de um país. Isso tudo muda com a Primeira Guerra Mundial, e, a partir de então, os estados parecem competir em capacidade de dedicar o tratamento mais desumano possível a estrangeiros em busca de refúgio no seu território. Os europeus estão liderando o caminho na tentativa de garantir que seus descendentes desfrutem as consequências da consanguinidade e da endogamia — além da estagnação econômica — através do que ficou conhecido como o “Forte Europa”. Quem manifesta o desejo de ajudar os haitianos não pode negligenciar a ferramenta econômica mais barata e mais poderosa à sua disposição. Essa ferramenta é a migração internacional. Em um lugar onde a renda real per capita caiu pela metade ao longo dos 40 anos anteriores ao terremoto, a extrema maioria dos haitianos que já saíram da pobreza o fez deixando Haiti. Para os que ficam, as remessas internacionais de parentes são historicamente muito mais importantes do que a ajuda externa ao Haiti, com o benefício de chegarem diretamente às mãos dos destinatários. O Haiti, com seus cerca de 10 milhões de habitantes, possui mais de meio milhão de pessoas vivendo em acampamentos desde o terremoto que destruiu Porto Príncipe. Para um país como o Brasil, com nossos 192 milhões, a chegada de 4.000 haitianos é inexpressiva. Na verdade, poderíamos receber muito mais. A opinião expressa nos artigos é exclusi­vamente do autor e não reflete a posição do Ministério das Relações Exteriores.

rubens campana é diplomata.


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cOmpOrtamentO

zumbis, garibaldis e sacis na cidade do anticarnaval Curitiba é conhecida no país como a cidade de um povo sisudo por natureza que não gosta de carnaval. Há até programas turísticos oferecidos para gente de todo o planeta que queira passar os dias da festa num lugar sem samba, suor e cerveja. E faz muito sucesso a turma do Psycho Carnival, o evento de rock que acontece em Curitiba durante todos os dias do feriado – e com direito a aparição dos zumbis –, O Zombie Walk (Caminhada dos Zumbies) uma multidão de pessoas fantasiadas de zumbis, com roupas pretas e encharcadas com sangue à base de groselha e catchup, perambula por algumas das ruas mais conhecidas da região central de Curitiba para assombrar os desavisados e expressar sua aversão ao ruído dos surdos e tamborins, pois prefere o das guitarras elétricas. F C F J L S

D

izem os esculápios da sociologia nativa que a nossa mescla de imigrantes de culturas sem carnaval e nossa formação nos cânones da contrarreforma não deixaram espaço para a alegria sem peias que transborda nas outras capitais brasileiras, especialmente do Rio de Janeiro para cima, onde prosperou o princípio do prazer contra o princípio do trabalho. Mas a sociologia não explica tudo. O fenômeno tem merecido teses universitárias de mestrado e doutorado há décadas. Algumas são até taxadas de preconceituosas, por atribuir aos imigrantes poloneses e demais eslavos essa aversão ao carnaval. Pois, pois, tamanha discussão ainda não conseguiu revelar a verdadeira origem da máxima que diz que “o curitibano é, antes de tudo, um triste”. fevereiro de 2012 |

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também há os esforçados que procuram resistir com alegria, mesmo que seja apenas em alguns domingos de janeiro com hora para começar e terminar Ou a frase do diretor de teatro Gerald Thomas, que afirmou que “Curitiba é uma cidade boa para se morrer”. Verdade que disse isso quando se dirigia para o aeroporto logo depois de receber estrondosa vaia no Teatro Guaíra, promovida por uma exigente plateia que não entendeu e não gostou de sua montagem teatral. Há também a vaia que o animador Chacrinha recebeu no mesmo teatro. Habituado aos aplausos e a provocar gargalhadas, Chacrinha gritou o seu mote “Teresinha” uma, duas, três vezes. Silêncio. Na quarta tentativa, uma vaia que até hoje ressoa do outro lado da praça, nas paredes do velho prédio da Universidade Federal do Paraná. Ou seja, curitibano, qualquer que seja a explicação, não é dado a alegrias e nem sai sassaricando atrás do primeiro trio elétrico. Tem pudor, digamos. Mas se essa é uma característica do humor nativo, também há os esforçados que procuram resistir com alegria, mesmo que seja apenas em alguns domingos de janeiro com hora para começar e terminar. Um trabalho da antropóloga Julia Basso Driessen “Garibaldis e Sacis, uma iniciação à alegria” é apontado por membros do bloco como o estudo mais qualificado sobre a manifestação de alegria que toma conta desse pedaço de Curitiba nos domingos pré-carnavalescos. Ora, pois, isso prova que sempre há os que destoam da regra geral. E para contrariar a proverbial sisudez de Curitiba, aqui surgiram manifestações muito próprias da cidade. Pessoas que se associaram espontaneamente e acabaram formando blocos de carnavalesfevereiro de 2012 |

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Entra e brinca quem quer, não é necessário fazer ficha de inscrição ou provar que é da turma cos que fazem sua própria música e brincam segundo o seu próprio compasso. Nada a ver com as chamadas escolas de samba que tentam, sem sucesso, reproduzir aqui o que é inimitável, o desfile das escolas do Rio de Janeiro. A comparação beira o grotesco. Trata-se do bloco Garibaldis e Sacis, que começa a brincar muito antes dos dias de carnaval. Seu ponto de encontro é a Praça Garibaldi e se estende até o bar do Saci, no Largo da Ordem, daí o nome do grupo. Um território de não mais de quinhentos metros que é ocupado nos dias que antecedem o carnaval desde o primeiro domingo de janeiro e faz a festa popular no centro histórico da cidade. A ideia do bloco é atribuída ao maranhense Itaércio Rocha, que se apresenta como “artista elástico”. Percebe-se que exerce liderança natural no núcleo que organiza a festa que surgiu em 1998 e está em sua 14ª edição. Aos domingos, das 15h às 20h30, o bloco percorre o trecho e termina a festa na frente do bar Brasileirinho, ponto de encontro de músicos, artistas e festeiros de todas as cataduras. O bloco é democrático. Entra e brinca quem quer, não é necessário fazer ficha de inscrição ou provar que é da turma. A cada domingo de pré-carnaval é sugerido um tema de fantasia e para a brincadeira. Vai dos superheróis dos quadrinhos e do cinema ao Bumba meu Boi. Vale tudo. Mas nada é obrigatório. Cada qual vai como quer. O importante é se alegrar, cantar e fazer o que der na telha atrás do carro de som. E seja o que Deus quiser. Quem vai canta, dança e toca o instrumento que tiver. Há marchinhas criadas pelo bloco, mas também são cantadas as de carnavais antigos, sambas-enredo e até funks durante o cortejo, que está mais para as tradições portuguesas do entrudo que para o carnaval dos lugares onde a contribuição da cultura trazida da África pelos escravos pegou.

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Zumbis Uma das primeiras Zombie Walks aconteceu em outubro de 2003 em Toronto, no Canadá, com apenas seis pessoas caracterizadas. Dois anos depois, a primeira caminhada em grande escala ocorreu em Vancouver, com um grande salto: foram 400 mortos-vivos. No Brasil, a primeira Zombie Walk foi realizada em Belém (PA), em 2006. Cidades como São Paulo, São Francisco, Montreal, Nova Iorque, Sydney, Baltimore e Seattle também organizam a caminhada. Os criadores da ideia são fãs de filmes de terror com zumbis, especialmente as produções do diretor George Romero, responsável pela trilogia composta por “Noite dos Mortos-Vivos” (1968), “Madrugada dos Mortos” (1978) e “Dia dos Mortos” (1985). No entanto, nos últimos anos a Zombie Walk começou a variar e também acabou ganhando a adesão de fãs da série de games e filmes “Resident Evil”. Assim, mortos-vivos saem de seus túmulos e comemoram o Carnaval no centro de Curitiba. No início era um pequeno grupo de pessoas que se contavam pelos dedos das mãos. No ano passado foram mais de mil, segundo avaliação do grupo, para a caminhada que começa na Boca Maldita e segue até as Ruínas de São Francisco, no Largo da Ordem. Zumbis vestidos de monstros, múmias, noivas ensanguentadas são as fantasias preferidas. Além das roupas inusitadas, caracteriza o grupo os gritos agonizantes dos zumbis. Eleita como dona da melhor fantasia da caminhada, quando representou a morte, a professora Angélica Cristina da Silva, de 27 anos, subiu o Largo da Ordem vestida de múmia, digna de um sarcófago. Na produção de sua fantasia, ela usou 30 rolos de gaze para curativos e uma máscara. Para facilitar, ela costurou previamente as gazes na roupa que usava por baixo e ficou pronta em menos de 40 minutos. Cristina, que participa pela terceira vez da Zombie Walk, comemora a programação diferente na cidade. “Sempre passo o Carnaval em Curitiba, mas antes não tinha nada para fazer. Agora tenho”, diz. Nas Ruínas de São Francisco, ponto de chegada dos zumbis, a programação seguiu com shows das bandas de rock que participam do Psycho Carnival.

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Fábio Campana

Mais de mil palhaços no salão

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anto riso, oh, quanta alegria”, a cantarolar o Marcos Mueller Schlemm notou que as canções do carnaval resistem ao tempo, embora tenham sido feitas para uma festa anual. Mas nem tudo sobrevive tão bem, reconhece Schlemm, que é um carnavalesco experimentado, com passagem pela Sapucaí, onde desfilou pela Estácio de Sá em estranha fantasia de xícara, no início da década de 90 do século passado. O Rei Momo, por exemplo, já não é visto nos bailes de carnaval, diz Schlemm. Nem aparece na televisão. Não há lugar para ele no desfile de escolas de samba. Hoje é mais fácil encontrar presidente, ministro, governador, prefeito, deputados, senadores, toda essa gente graúda do poder a esbaldar alegria e vulgaridade nas festas públicas. Os camarotes da Sapucaí ficam lotados de políticos que disputam espaço na mídia com as vedetes da televisão. Convenhamos: o gordo e suado Rei Momo, com a farsa de seu poder interino, tinha mais dignidade que os personagens reais da política atual. Eu já gostei do carnaval. Mas foi na época do rodo-metálico. O Carnaval parecia mais romântico e mais pecaminoso, com sua catarse sexual perfumada pelos lança-perfumes que agora estão proibidos. Pois, pois, agora o carnaval tem uma alegria postiça. De festa do povo passou a ser festa organizada pelo Estado. Segue o calendário oficial dos serviços de turismo do município e as conveniências de horário negociadas com a televisão. Em Curitiba essa

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de festa do povo passou a ser festa organizada pelo Estado

impostura tornou-se abominável. A absoluta maioria dos curitibanos abomina a festa patrocinada pelo erário para garantir o desfile de escolas de samba que são um pastiche do desfile do Rio de Janeiro. Nossa tradição cultural é outra. Tem mais a ver com a espontânea manifestação dos Zumbis que desfilam calados e soturnos pelas ruas para traduzir o estado de espírito dos nativos. Ou o bloco de Garibaldis e Sacis que reúne quem gosta da festa e faz sua própria música e seu próprio carnaval com humor e deboche. Pois essas iniciativas correm o risco da estatização e virar outro pastiche. Eu não suporto o rufar dos surdos e dos tamborins, a gritaria, o suor, a cerveja e o calor que produzem a murrinha insuportável. E não vejo graça em pecar coletivamente nessa suruba monumental. Mas devo ser tolerante. Respeito quem gosta. De minha parte, prefiro a Quaresma que convida à reflexão. Sem, é claro, os cilícios recomendados por Santo Afonso Maria de Ligório para domar os instintos e os maus impulsos. Há outras formas, mais poéticas e mais prazerosas, de lavar a alma das impurezas. Gosto da atmosfera da Quaresma que explode em roxo nas quaresmeiras da serra e nos instiga a voltar à poesia, aos livros. O barulho dos bárbaros cessa, há silêncio para ser preenchido pela música dos mestres e o amor é recompensado pelos ritos da civilização.

Fábio Campana é jornalista e escritor.


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transpOrte

Vai de bike? M V

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bicicleta virou tema político. A construção de algumas ciclofaixas na cidade, o movimento de grupos que atuam a favor da bicicleta como meio de transporte e especialistas emitem opinião em relação à prática cada vez mais comum nos países que pensam a cidade de modo mais inteligente e sustentável. Os curitibanos que passaram pelo centro da cidade na manhã do dia 23 de outubro depararam-se com algo diferente – uma das pistas das ruas Marechal Deodoro, XV de Novembro, Mariano Torres, Emiliano Perneta, Visconde de Nácar e André de Barros estava pintada de vermelho. São as mais novas Ciclofaixas de Lazer de Curitiba. Estas ciclofaixas funcionam apenas em um domingo por mês, das 8 às 16 horas. Durante tais períodos, os motoristas não devem transitar sobre a pista vermelha, preferencial para os ciclistas. Esta primeira etapa do Circuito das Ciclofaixas de Lazer, como é chamado o projeto pedagógico,tem quatro quilômetros de extensão e foi planejada e executada pela prefeitura. O controle das operações domingueiras é de responsabilidade da SMELJ (Secretaria Municipal do Esporte, Lazer e Juventude), e que por enquanto tem contado com o apoio da URBS (Urbanização de Curitiba) e da Diretran, visto que nestas operaç��es são mobilizados agentes de trânsito para orientar ciclistas e motoristas. Em novembro já começaram as obras de mais uma etapa do projeto, na Rua Marechal Floriano Peixoto (ao lado da canaleta do Expresso). Ela liga o Terminal do Carmo ao viaduto da Linha Verde, na antiga BR 116. São 4 km no sentido Bairro-Centro e mais 4 km no sentido Centro-Bairro. Segundo a prefeitura, neste ano a ciclofaixa será ampliada até a divisa com São José dos Pinhais, que será feita com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Copa. Tudo muito bonito, tudo muito legal, porém, no dia da inauguração das ciclofaixas já houve protestos. A reclamação geral era que a faixa pintada em apenas quatro quilômetros e com horário restritivo de circulação não foi pensada

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para quem usa a bicicleta como meio de transporte. “Pareceu-me insuficiente, ainda mais por serem poucos os bairros que têm essas ciclofaixas”, opina o analista de sistemas Roger Reghin, 38 anos, que é motorista. Quanto a isso a prefeitura já adianta que o circuito e os dias de funcionamento dessas vias serão estendidos já no início de 2012.

BicicletaDa Mas os protestos em questão partiram de uma turma de ciclistas ativistas – a Bicicletada. Conhecidos por defenderem a causa da bicicleta em Curitiba e em outras capitais, eles têm suas reclamações a respeito deste novo projeto e querem ser ouvidos. Mais do que isso, querem ser levados a sério. A Bicicletada é um movimento livre de organização horizontal, ou seja, sem líderes, inspirada na Critical Mass ou Massa Crítica, que tem por objetivo “situar o ciclista como parte da dinâmica da cidade”, de acordo com Guilherme Caldas, 38 anos, ilustrador e participante ativo do movimento. A frase “não estamos atrapalhando o trânsito, nós somos o trânsito” expressa bem sua filosofia. A Bicicletada reúne seus participantes uma vez ao mês em Curitiba, e eles percorrem um trajeto pela cidade como forma de divulgar a bike como meio de transporte. Outro objetivo deles é a luta pela criação de condições favoráveis a este modal. Por este motivo, eles se manifestaram contra a forma com que as ciclofaixas foram feitas. Mas não seria o caso de se comemorar uma vitória para os ciclistas? A Revista Ideias conversou com dois representantes ativos da Bicicletada para entender o motivo dos protestos. ciclOatiVistas Guilherme Caldas e Jorge Brand, mestre em filosofia e coordenador geral do Ciclo Iguaçu – Associação dos Ciclistas do Alto Iguaçu, afirmam que o grande problema das ciclofaixas, além do já comentado funcionamento limitado, é que os ciclistas não foram ouvidos no planejamento do projeto. Segundo eles, as associações contam com advogados, arquitetos, urbanistas e demais pessoas especialistas no tema transporte urbano que poderiam auxiliar e muito a prefeitura, o IPPUC e as secre-


Gustavo Willrich Gilson Camargo

Jorge Brand (Goura) e Guilherme Caldas, membros do Ciclo Iguaçu e da Bicicletada

tarias municipais no projeto. Jorge Brand, mais conhecido como Goura, explicou que a associação inclusive colocou-se à disposição dos responsáveis pelas obras para tornar as ciclofaixas mais adequadas. Mais do que isso, a associação pediu para participar do projeto. E de acordo com os representantes do Ciclo Iguaçu, a solicitação não foi atendida. Mas eles não se queixam totalmente da prefeitura, por exemplo. Dizem que o prefeito Luciano Ducci os ouviu e os atendeu sempre que possível. Contaram que em julho, a pedido da associação, ocorreu uma reunião entre eles, o prefeito, a URBS, o IPPUC, a Secretaria do Governo Municipal e a Secretaria Municipal de Esporte Lazer e Juventude (SMELJ). Na oportunidade foi mencionada a realização de uma ciclofaixa na Rua Cândido de Abreu, no Centro Cívico, trajeto considerado importante pelos ciclistas. Foi acordado também que a associação teria participação ativa no Plano Diretor Cicloviário. Os representantes do Ciclo Iguaçu consideram que quem melhor pode ajudar a prefeitura nesse aspecto são os próprios ciclistas e usuários da malha cicloviária, e estes estavam até desenvolvendo de maneira voluntária uma pesquisa embasada para entregar aos órgãos competentes como forma de colaborar com a realização das ciclofaixas. Entretanto, os mesmos alegam que na prática não tiveram acesso às decisões e

reuniões na SMELJ, e que as ciclofaixas foram feitas em trajeto diferente do combinado, sem consulta às associações ou ciclistas. Outra solicitação que informam não ter sido atendida é a campanha educativa de trânsito. Quando as ciclofaixas foram inauguradas, os participantes do Ciclo Iguaçu e da Bicicletada realizaram então uma manifestação pacífica para protestar contra, principalmente, a bicicleta ainda estar sendo encarada como uma forma de lazer e esporte na cidade. Ter sido pintado o lado esquerdo da rua, funcionar apenas uma vez ao mês, ter seu trajeto limitado e considerado pouco útil para o dia a dia de quem a necessita, fez com que os ciclistas saíssem às ruas e fossem até a frente da casa do prefeito expressar suas opiniões.

Na inauguração da Ciclofaixa, a Bicicletada protestou transitando fora da mesma, por orientação da própria prefeitura

POLÍTICA SUPRAPARTIDÁRIA  Críticas aos protestos foram feitas, na qual se dizia que no evento foi citado o nome de Gustavo Fruet e que a Bicicletada seria um movimento par-

A bicicleta é um vetor de melhoria da cidade. Cada bike é um carro a menos

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O que DeVe Vir pOr aí curitiba tem 120 quilômetros de ciclovias implantadas (22,5 km em construção em 2011); 4 km de ciclofaixas de Lazer e 43 km projetados, que incluem as obras do eixo aeroporto/rodoferroviária e do Metrô curitibano). De acordo com a prefeitura, a cidade deve ter uma infraestrutura cicloviária de mais de 400 km até a copa de 2014.

Já a urbs lançou edital de licitação para ocupação e exploração de seis bicicletários em diferentes pontos de curitiba: Parque São Lourenço, centro cívico, Santa quitéria, carmo, Pinheirinho e Jardim botânico. e em janeiro a Prefeitura fará a licitação para implantação de 20 novos paraciclos. o modelo dos estacionamentos públicos de bicicletas foi aprovado pela associação de ciclistas do alto iguaçu. o ippuc está projetando ainda a implantação de 10 quilômetros de infraestrutura cicloviária na avenida comendador Franco (avenida das torres). as obras integram o pacote de requalificação do corredor aeroporto/ rodoferroviária, financiado pelo Programa de aceleração do crescimento (Pac) da copa 2014. Fonte: Prefeitura Municipal de curitiba

melhOres ciDaDes para se peDalar 1. amsterdã, holanda: Só o fato de 40% dos deslocamentos da cidade serem feitos de bicicleta, já vale o posto de 1º lugar. Mas amsterdã possui muitas ciclovias, bicicletas públicas disponíveis para locação, galpões para bikes, sinais de trânsito e corredores nas vias públicas destinados apenas a bicicletas, o que colabora com a segurança dos ciclistas. 2. copenhagen, Dinamarca: uma das melhores cidades do mundo para se viver, a capital dinamarquesa também é uma das que tem mais programas urbanos a favor da bicicleta. cerca de 32% dos empregados vão de bike até o trabalho. as ciclovias são bem extensas, no geral, e muitas vezes separadas das pistas de tráfego principais, com sinalização própria. 3. bogotá, colômbia: na cidade sul-americana, os programas públicos pró-bicicleta não são tão vigorosos quanto os europeus, mas bogotá tem uma vantagem demográfica que a faz entrar nessa lista: apenas 13% da população possui carro. assim, a bicicleta passa a ser uma necessidade e, uma vez por semana, mais de 70 km de vias públicas são fechadas para o tráfego de automóveis, para que ciclistas, skatistas e corredores possam transitar pelas ruas com maior segurança. Fonte: askmen.com

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LuciLia guiMarãeS

a maior obra de ciclovia em construção no momento está na avenida Fredolin Wolf, com 7,6 km, nos bairros Santa Felicidade, São João e Pilarzinho. esta ciclovia compartilhada vai ser ligada à da avenida toaldo túlio.

tidário e com intenções políticas. Contra este argumento, Goura e Guilherme Caldas informaram à Revista Ideias que o nome do candidato não foi citado em nenhum momento no protesto, entretanto, o Ciclo Iguaçu tem entrado em contato com pré-candidatos à prefeitura de Curitiba para realizar entrevistas com os mesmos e registrar em vídeo tudo o que pensam sobre as bicicletas como meio de transporte. Gustavo Fruet foi o único que, até o momento, atendeu à associação. “Nós queremos que a causa da bicicleta em Curitiba seja uma política suprapartidária”, defende Goura. “A nossa causa necessita dos governantes para que seja concretizada. De nada adianta protestarmos se não levarmos soluções aos órgãos competentes. Precisamos fazer com que quem está no poder, independente de quem seja, entenda o quanto é importante investir – e acreditamos que financeiramente isso não represente uma quantia elevada – na cultura da bicicleta”. “A bicicleta é um vetor de melhoria da cidade. Cada bike é um carro a menos. E se a cidade der a estrutura, as pessoas vão utilizar, vão andar mais de bike se isso for mais seguro e viável”, completa Caldas.

transpOrte Ou lazer? O fato é que, certos ou errados, os ciclistas engajados deram uma pressionada na prefeitura e isso surtiu efeito. Ducci informou que em janeiro de 2012 as ciclofaixas funcionariam todos os domingos, e que a medida foi adiantada de abril para janeiro atendendo às solicitações. O prefeito diz que isto só não foi realizado em 2011 por

“não entenDeMoS que o circuito De Lazer SeJa aLgo contrário àS cicLoFaixaS De inFraeStrutura. é aLgo que Se coMPLeMenta” Maria Miranda, coordenadora de mobilidade urbana do iPPuc

causa do calendário de eventos, o que poderia coincidir com o passeio dos ciclistas e gerar problemas. Porém, de acordo com o IPPUC, não há como este Circuito Ciclofaixa de Lazer passar a ser permanente. “Uma coisa é este projeto pedagógico da prefeitura, onde é delimitado um espaço monitorado para ser utilizado em um dia e horário como forma de lazer. Outra coisa são as ciclofaixas utilitárias de infraestrutura para serem usadas todos os dias pelos ciclistas, que funcionam por si só e não necessitam de agentes de trânsito ou cones”, explica a coordenadora de mobilidade urbana do IPPUC, Maria Miranda. Por isso ela não acredita que exista a possibilidade de, com este projeto, atender às solicitações dos ciclistas do Alto Iguaçu, por exemplo. A coordenadora informou ainda que em novembro seria divulgada a licitação referente ao projeto de ciclofaixas em Curitiba, e que o mesmo deve iniciar-se neste ano. “De qualquer forma, nós não entendemos que o Circuito de Lazer seja algo contrário às ciclofaixas de infraestrutura. É algo que se complementa, então não entendemos os motivos das manifestações”. O IPPUC justifica que o trecho concluído ainda é pequeno, pois será analisada na prática a aceitação do Circuito Ciclofaixa e a partir dos resultados novas etapas serão realizadas. “Infelizmente não conseguimos ainda finalizar o projeto em sua totalidade, que seria de 15 km. Ele exige verbas, parcerias, equipe de assistência, etc. Por isso a SMELJ deve buscar parcerias na iniciativa privada neste ano para viabilizar que o Cir-


uM núMero ainDa Pequeno De curitibanoS cogita a PoSSibiLiDaDe De PeDaLar toDoS oS DiaS, cerca De 5% Da PoPuLação

arquivo PeSSoaL

um hÁBitO, uma cultura A grande questão é a mobilidade de Curitiba. Já se sabe que é uma das capitais com o maior número de carros por habitante (dois veículos a cada três pessoas), ou seja, o trânsito está cada vez pior. Quanto a isso a prefeitura obviamente tem tentado fazer algumas mudanças para melhorar o fluxo, com anéis viários, por exemplo, e proibindo estacionamento em algumas ruas do centro. Mas ainda se prega a cultura do carro, independente de quem seja o culpado. É fácil perceber que para o brasileiro ter carro é sinal de status e sinônimo de sucesso, crescimento. Em países de primeiro mundo isso já esta mudando há algum tempo (ver box). A outra opção para os curitibanos é o tão famoso transporte coletivo. Sim, temos uma boa estrutura disponível e inovações no assunto. Se comparada a outras cidades, Curitiba se destaca. Mas será que o que temos hoje é o suficiente para a população? Será que atende a demanda? O que não faltam são reclamações dos usuários, impreterivelmente. Ônibus lotados, atrasos, tarifa cara e falta de estrutura dos terminais, só para citar algumas. O que resta é andar a pé, o que é uma ótima e saudável opção (mas quando a distância do destino aumenta, torna-se inviável), e de bicicleta. Acontece que um número ainda pequeno de curitibanos cogita a possibilidade de pedalar todos os dias, cerca de 5% da população. Podem alegar que não é seguro pelo fato de não ter estrutura e ter que disputar espaço em meio aos carros, mas as ciclovias, mesmo

que compartilhadas com os pedestres, estão aí para serem usadas. Além disso, ciclistas experientes como o Caldas e o Goura dizem que se deve evitar ruas muito movimentadas e buscar rotas alternativas, com ruas paralelas que sejam mais seguras. “Tem tanta gente nova e saudável que está andando de carro ou de ônibus, perdendo tempo e dinheiro enquanto poderia estar pedalando. É melhor para a cidade e para você mesmo. Sabemos que existem pessoas que não podem andar de bike, como idosos e pessoas doentes, por exemplo. Mas o restante parece que se acomodou e aceita passivamente ficar parado no trânsito ou esperando o ônibus pra depois andar espremidos. Vai pedalar! Experimenta!”, sugerem os dois.

“Ando de ônibus todos os dias e acho rápido, seguro e confortável. Não sei se iria trabalhar de bike por causa da distância. Eu iria chegar cansada e teria que usar uma roupa para pedalar”

Louise Conte, analista de projetos

arquivo PeSSoaL

cuito Ciclofaixa de Lazer funcione todos os domingos”, confirma Maria. Mas quando questionada sobre as pesquisas de campo feitas pelo Instituto para a realização dos projetos, a coordenadora de mobilidade disse que para esta etapa de lazer não houve, tinha-se apenas uma solicitação antiga dos ciclistas para que houvesse uma via próxima à canaleta da Marechal, e que tal obra foi iniciativa da prefeitura. Ela informa que o IPPUC está envolvido com o Plano Diretor Cicloviário e que existe uma pesquisa de 2008 que identifica o perfil do ciclista de Curitiba, e a partir destas informações a malha cicloviária está sendo construída, seja com ciclovias, ciclofaixas ou Circuitos de Lazer. “Curitiba está num patamar desatualizado”, afirma o diretor da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, Marcos Bicalho dos Santos. Some-se a isso o fato de o Rio de Janeiro ter sido apontado no 18º Congresso Brasileiro de Transporte e Trânsito ocorrido em outubro como a cidade brasileira com o melhor indicador de mobilidade sustentável, desbancando justamente... Curitiba.

“Acho que essas ciclofaixas não vão pegar, as pessoas não vão usar tanto e isso vai acabar prejudicando o trânsito”

Diferenças e DefiniçÕes ciclOfaixa parte contígua à pista de rolamento destinada à circulação exclusiva de ciclos, sendo dela separada por pintura e/ou elementos delimitadores. ciclOVia pista própria destinada à circulação de ciclos, separada fisicamente do tráfego comum por desnível ou elementos delimitadores. (Fonte: Programa brasileiro de Mobilidade por bicicleta)

o arquiteto e especialista em gestão urbana pela PucPr, Fábio Duarte, acredita que as ciclovias que dividem espaço com os pedestres nas calçadas de curitiba estão erradas. cada um deve ter o seu espaço. entretanto, a coordenadora de mobilidade urbana do iPPuc responde que, por falta de estrutura, em muitos locais da cidade ou se fazia ciclovia compartilhada (com pedestres) ou não fazia. e que em muitos locais do mundo as ciclovias estão dispostas dessa forma.

se muDar, VOcÊ Vai usar? De acordo com o urbanista Fábio Duarte, é sim viável para curitiba a adaptação da cidade para comportar com segurança um número mais expressivo de ciclistas no futuro. “Se nova iorque, uma cidade muito maior, mais complexa, e com mais trânsito que curitiba, conseguiu tirar carros de ruas centrais, e colocar ciclovias ou ciclofaixas, não há nenhuma justificativa para curitiba não conseguir”, afirma. Maria Miranda, do iPPuc, concorda que não é impossível, mas não significa que seja fácil pelo fato da falta de espaço e de como a estrutura da cidade foi feita. “não podemos desapropriar vias, prejudicar comércios, residências e estacionamentos. tudo tem que ser feito com muita análise e cautela, e estamos trabalhando nisso”. Mas e se futuramente curitiba possuir uma grande e segura estrutura cicloviária, os cidadãos vão utilizá-la? “acho válido ter a bicicleta como meio de transporte. Pretendo comprar uma em breve, mas no meu bairro ainda não tem ciclovias. gostaria de acreditar que essas vias não vão atrapalhar o trânsito, mas talvez no começo, até os motoristas se acostumarem, podem haver transtornos”, acredita o motorista roger reghin. Já a analista de projetos Louise conte, 25 anos, prefere deixar a bicicleta para os momentos de lazer apenas. “ando de ônibus todos os dias e acho rápido, seguro e confortável. não sei se iria trabalhar de bike por causa da distância. eu iria chegar cansada e teria que usar uma roupa para pedalar”. o motoqueiro alexandre andrade tem dúvidas quanto à utilização e aceitação das ciclofaixas. “eu gosto de andar de bike, acho saudável, mas prefiro pedalar em parques, talvez pela falta de estrutura em outros pontos da cidade. Mas acho que essas ciclofaixas não vão pegar, as pessoas não vão usar tanto e isso vai acabar prejudicando o trânsito”, opina.

Alexandre Andrade, motoqueiro fevereiro de 2012 |

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perfil

Berçário de ciclistas Foi-se o tempo em que só andava de bicicleta quem aprendia sozinho a se equilibrar sobre duas rodas C G F R M

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o contrário do que possa pensar, quem cresceu brincando na rua em frente de casa e subindo em árvore, andar de bicicleta não é, necessariamente, uma habilidade que se desenvolve na infância, simplesmente à custa de olhar como os outros fazem e de alguns tombos. Essa não foi a regra para quem se tornou adulto e, por alguma razão, sem dominar a magrela. Também não o é para muitas crianças de hoje, com a agenda cheia de compromissos que roubam o tempo das brincadeiras típicas da infância e, além disso, confinadas ao espaço do-

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méstico. Inconformadas com a dificuldade do aprendizado tradicional e sem abandonar seu sonho, pessoas com esse perfil estão encontrando uma saída: recorrer a quem as ajude a superar seus medos e, finalmente, sair pedalando a própria bike. Foi o que fez a socióloga Silmara Quintino, de 46 anos, ao eleger o andar de bicicleta como a principal e a mais difícil das três grandes metas estabelecidas por ela para 2012. As outras duas são aprender a nadar e, por último, concluir seu projeto de doutorado. Para começar a cumpri-las, fez uma busca na internet e localizou a Park Bike, no bairro São Lourenço, empresa de cicloturismo que já promoveu mais de trezentos

passeios e também oferece um serviço inédito: é o único lugar, pelo menos no Brasil, a contar com um curso específico para quem, como Silmara, quer aprender a pilotar uma bicicleta. A socióloga mandou um e-mail para a escola no começo de janeiro e em seguida marcou as aulas, que serão encerradas tão logo domine a bike e esteja segura de suas habilidades. “Para mim isso representa muito mais do que dominar as técnicas de pilotagem. É sinônimo de equilíbrio na vida”, resume a socióloga, com duas tentativas frustradas de aprendizado na bagagem e que, nem por isso, inibiram sua vontade de sentir o gostinho de liberdade representado pelo ato simples e ainda distante


São quinze anos e cerca de 2,5 mil alunos habilitados por Américo, entre crianças – que constituem quase 70% do público do curso –, jovens, adultos e idosos de ambos os sexos

José Américo Reis Vieira ministra o único curso do país específico para se aprender a pilotar uma bicicleta.

de sair por aí sobre uma bicicleta. A primeira foi aos 20 anos na bicicleta do pai – quando ainda tinha algo da menina gordinha e desajeitada da infância e que, ao contrário dos meninos, não era incentivada pela família a pedalar. A segunda, aos 41, aconteceu com a ajuda de um ex-namorado. “Ele ficou com medo que eu me machucasse feio”, relembra. A ajuda efetiva veio por meio de José Américo Reis Vieira, um ciclista amazonense que disputou campeonatos durante 24 anos e que,

depois de conhecer muitos lugares interessantes por conta das competições e dos passeios Brasil afora, há trinta escolheu Curitiba para viver e fundar a sua Park Bike. Ele decidiu abrir o curso ao perceber que, como Silmara, muitas pessoas deixavam de conhecer locais turísticos por absoluta falta de domínio da bicicleta e davam a desculpa de que não aprenderam a pedalar por não gostar ou não querer. Em resumo, constatou que a ideia de se equilibrar sobre duas rodas era tão remota que muita gente

sequer aventava a possibilidade de explorar a natureza pedalando – o que é uma pena para quem vive em Curitiba. Sinônimo de respeito à natureza, a cidade é um convite para se percorrer de bicicleta. Por enquanto, ela tem duzentos quilômetros de ciclovias, quatro de ciclofaixas de lazer domingueiras, trinta parques e bosques e, em breve, contará com bicicletários e paraciclos – algo como oficinas e estacionamentos próprios para esse tipo de veículo não poluente e democrático. Para quem não sabe, existem modelos acessíveis a todos os bolsos. Com cerca de R$ 500,00 já dá para pensar em ter uma mas, orienta o instrutor, as melhores podem ser compradas a partir de R$ 1,3 mil. E lá se vão quinze anos e cerca de 2,5 mil alunos habilitados por Américo, entre crianças – que constituem quase 70% do público do curso -, jovens, adultos e idosos de ambos os sexos. “Já estou formando a segunda geração de ciclistas”, conta, referindo-se aos filhos dos seus primeiros alunos. E ele faz questão de dizer que não ensina. “São os alunos que querem aprender e, por isso, conseguem sem maiores problemas”, garante. O método é simples e rápido. Para garantir estabilidade ao aluno, o instrutor adaptou a bicicleta de treino com um tipo de guidão atrás do selim. Trata-se de uma invenção dele próprio. A função desse suporte, explica, é a mesma das rodinhas laterais existentes nas bicicletas infantis, removidas depois que a criança consegue se equilibrar sem apoio. Aos 64 anos, Américo corre praticamente ao lado do aluno sem demonstrar sinais de cansafevereiro de 2012 |

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A socióloga Silmara Quintino em aula: “Para mim isso representa muito mais do que dominar as técnicas de pilotagem. É sinônimo de equilíbrio na vida”.

ço e, quando necessário, segura essa estrutura para que o futuro ciclista recupere o equilíbrio e prossiga a marcha, “sempre olhando lá na frente e sem entrar em pânico”, conforme faz questão de frisar. “Sou o único homem que ganha para correr atrás das mulheres e os maridos não reclamam”, brinca o instrutor, que também tem alunos homens. O técnico administrativo Rodrigo Vinícius Perly, de 31 anos, é um deles. Perly, que já era ciclista, recorreu ao curso depois de ter sofrido um grave acidente de motocicleta que o deixou sem a perna esquerda. No final de 2011, sete anos depois do acidente, decidiu reaprender a se equilibrar na bicicleta e matriculou-se no curso. Sob a orientação de Américo, logo também começou a adaptar sua mountain bike, que ficou sem a pedaleira esquerda. A direita foi reforçada com a colocação de uma sapatilha, para aumentar a estabilidade do piloto. Satisfeito com o resultado e consciente da falta que a perna esquerda pode significar em trechos mais acidentados, ele se considera apto a participar de passeios em diversos tipos de terrenos. “Voltar a pedalar é muito especial para o corpo mas também para a cabeça”, resume ele. O treino prático do futuro ciclista é mesclado com dicas teóricas e, ao todo, não dura mais que dez horas. Muitas vezes acontece de o aluno pedalar um longo trecho e somente se dar conta de que já tem autonomia quando vê Américo longe, embaixo de uma árvore e

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aplaudindo. Foi o que aconteceu com a estudante Natalie de Oliveira, de 11 anos. Empenhada em aprender logo para “não pagar mico” para os amigos, fez o curso sob o olhar incentivador da mãe, Marisa Alves de Oliveira. Com a contabilista Zélia Glaci Muraro Dzierva, o domínio da bike também não demorou. Diferente de Natalie, porém, Zélia aprendeu a pedalar aos 49 anos, depois de já ser avó. “Eu fazia spinning em uma academia onde um grupo de amigos veio me convidar para um passeio de bicicleta. Quando eu justifiquei a negativa, uma colega trouxe o telefone da escola. Fiquei com aquele papelzinho na bolsa por uns quatro meses até decidir me matricular”, recorda Zélia, que se saiu bem logo nas primeiras aulas. Hoje, aos 56 anos, faz longos passeios ao lado do marido, Geraldo, que adora montar bicicletas, do filho Guilherme e do neto Rafael. Américo conta que, para a aprendizagem ser eficiente, o aluno define o calendário de aulas, que podem ser individuais ou compartilhadas por grupos de dois alunos. “Só não se negocia o uso do capacete, que é obrigatório”, avisa. Assim, quem mora perto e tem disponibilidade de tempo, pode retornar em vários dias seguidos. Mas quem vem de longe como a engenheira química Regina Lúcia Tinoco Lopes, a solução é concentrar o aprendizado. Mineira de Belo Horizonte, Regina também localizou o curso pela internet. Como precisava retornar o mais rápido possível para sua

cidade, optou pelo curso intensivo – aulas seguidas pela manhã e à tarde em dois dias, no final do ano passado. “O importante é respeitar o ritmo do aluno e nunca forçá-lo a pedalar além do que ele pode ou quer. Senão, ao invés de aprender, ele vai se desinteressar e, o que é pior, criar resistência. O resto é passar as dicas”, diz Américo. No livro de depoimentos à disposição de quem quiser compartilhar sua experiência sobre a aprendizagem colocado no balcão da Park Bike, Regina resumiu seu êxito em outros esportes ligados à natureza, como o rapel, e o bloqueio com a bicicleta que ela somente conseguiu vencer agora, aos 67 anos. Bemhumorada, propôs ao professor abrir uma franquia na capital mineira. Américo ainda não pensou no assunto. Nos seus planos está editar um livro em que pretende contar a experiência como instrutor e divulgador desse misto de esporte e lazer. Enquanto isso, com o seu trabalho que ele considera “uma satisfação remunerada”, continua incentivando a formação de novas gerações de ciclistas. Além das aulas e de organizar os passeios, ele também faz isso cada vez que, ao saber que alguém do grupo de cicloturismo espera um filho, entrega para o futuro papai ou mamãe um pequeno capacete – azul ou rosa, de acordo com o sexo do bebê. É para que a criança sinta o gostinho de estar sobre uma bike, ainda no cestinho que os pais, com certeza, instalarão na frente do guidão especialmente para carregá-la.


Ernani Buchmann

Em tempos de Eça e Sapucaí

E

is que, pelas circunstâncias da vida, fui obrigado a frequentar a escolinha do Detran. Lá me apresentei, para a sequência de comprovações necessárias a demonstrar que eu sou eu mesmo. Explico: você fica em uma fila, na calçada em frente ao prédio. Então um guarda confere seu nome na lista de inscritos que traz em uma prancheta, como se fosse um Joel Santana. Aberta a porteira, digo portão, sobe-se dois lances de escada e, surpresa, outra fila: agora para entrar na sala de aula. O instrutor manda você encostar o dedão no aparelho de comprovação biométrica e aparece seu escracho na tela. Pronto, você é você em carne e osso, digo, em tela. Aí basta assinar a lista de presença. Só falta que peçam reconhecimento de firma. Pior: ao final da primeira parte – existe um, vamos lá, recreio entre as duas aulas da noite, a ser aproveitado do outro lado da rua, onde funciona a apropriada lanchonete, bem instalada no porta-malas de um Kadett – os portões se fecham e todo o procedimento precisa ser feito outra vez. Guarda na porta, lista, dedão, assinatura. Muito bem, quem manda completar 20 pontos na carteira! Aprendi, nos cinco dias do cursinho, que um dos veículos precursores do automóvel foi a literia. Sim, caro leitor, a vetusta liteira de tantos textos e imagens de antanho virou, na apresentação do esforçado mestre, uma literia. Não fosse isso e o fato do professor, talvez Raimundo, ter afirmado que personalidade histriônica era própria de pessoas histéricas, confesso ter relembrado coisas que já havia esquecido desde outras encarnações. Além de haver aprendido outras que em meus tempos de primeira habilitação não faziam parte da grade curricular, digamos assim. Mas aprender nunca é demais, já dizia Eça pela boca do Conselheiro Acácio, no tempo das literias. Ainda mais que este ano se comemora os 100 anos de criação da UFPR. Gancho instalado, passo a demonstrar minha perplexidade pelo que leio em coluna de um dos nossos diários. Escreveu lá o colunista que determinada foto era

o tempo da ereção do prédio histórico da Universidade. Teria sido melhor o sujeito ter escrito “construção”, até para evitar a algum engraçadinho sugerir ter sido a centenária argamassa incrementada com propriedades do Viagra mesmo que tal artifício fosse desconhecido na época. Pois é. Como disse a pobre mulher vinda do interior, quando levada pelo filho a um shopping center, desde logo extasiada com a decoração de Natal que iluminava a fachada do prédio: — Veja, meu filho, o que é a natureza! Isso posto, já me animo a novo gancho, agora para comemorar o fato de haver sobrevivido a mais uma temporada natalina e novo-anina, se me entendem. Por não costumar sair de férias, fiquei preocupado com a possibilidade de

A escravidão já foi abolida há mais de 120 anos e hoje o humanismo está em voga.

estarem de barriga para cima todos os demais habitantes desta nem sempre agradável comuna. Telefono a um amigo meu, pessoa educada, porém inculta, como adiante se comprova. Ao perguntar se poderíamos marcar reunião para o início de janeiro, ele consentiu: — Pode vim quando quiser. A gente nunca fica sem tá aqui. São coisas do humanismo, como também já explico, contando outra história e engatando um terceiro e último gancho. Roberto Pinheiro foi um bom profissional de marketing. Criativo e expansivo, morreu sem realizar o sonho de voltar às grandes empresas em que tinha trabalhado, talvez porque as corporações prefiram pessoas discretas e opacas. Bob Pine, como era conhecido no Hemisfério Norte, contava uma história interessante. Ele havia trabalhado com Eron Alves, ex-vendedor que tinha inventado a galinha dos ovos de ouro. Eron vendia um carnê, que a pessoa pagava durante 12 ou 24 meses. Ao quitar as prestações, o sujeito passava a ter direito ao valor do crédito em roupas, vendidas em lojas do próprio Eron, a Erontex, pelo preço que ela, a empresa, estabelecia. Pinheiro quis saber do criador do método a sua fonte inspiradora. — Eu me baseei no humanismo, explicou candidamente Eron Alves. — Como assim, no humanismo? — É, o humanismo, essa coisa do ser humano sempre querer conquistar mais do que o outro. E que nos preparemos para o carnaval que já passa pela porta da minha Sapucaí. Este ano não será igual àquele que passou, dizia a velha marchinha. Acho que vou sair fantasiado de literia. O problema é encontrar quem queira se instalar embaixo do aparato para que eu saracoteie em cima. A escravidão já foi abolida há mais de 120 anos e hoje o humanismo está em voga.

ernani buchmann é escritor, advogado e publicitário. fevereiro de 2012 |

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ensaiO fOtOgrÁficO

reflexos de um olhar privilegiado D K

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palavra fotografia tem sua origem no grego e quer dizer escrever (ou desenhar) com a luz. Com toda a certeza Humberto Utrabo Jr. é um grande escritor (ou desenhista). Em vez de um lápis, uma caneta, um pincel, uma máquina de escrever, um computador, usa uma câmera fotográfica e a luz. Filho de Humberto Utrabo, que juntamente com a Fototécnica de José Kalkbrenner iniciou a fotografia publicitária em Curitiba nos idos de 60 do século passado, começou moço a mexer nos equipamentos e “brincar” no estúdio de seu pai. Experimentou as câ-

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meras nos seus diversos formatos, o estúdio, as tapadeiras, as luzes contínuas e dos flashes eletrônicos, os filmes, o P&B, o diapositivo, a câmera escura, o ampliador, as químicas, a revelação, as cópias e os diversos tipos de papel. A curiosidade, o empenho que dedicou a aprender tanto a técnica como a parte artística dessa atividade que é falsamente fácil teve em Júnior um aliado importante: o seu talento. E foi, então, substituindo seu pai nas fotos para o mundo da publicidade. Considero-o um dos mais completos profissionais nessa área. E os prêmios que recebeu só confirmam: Cannes, Clio Awards, Festival Iberoamericano, Prêmio revista Playboy. Em 2008

foi o fotógrafo brasileiro com mais prêmios na prestigiosa revista Archive. Foi considerado o nono fotógrafo mais criativo do mundo pela One Eyeland em 2011. Além de seu reconhecido trabalho como fotógrafo publicitário Júnior é apaixonado pelas formas do corpo humano. Com preferência aquelas do chamado belo sexo. E é a partir dele que constrói seu trabalho pessoal, aquele sem job. Não tem medo de experimentar. Trabalha com maestria as tonalidades, as sombras, o claro e o escuro. O ensaio que essa Ideias publica é uma amostra de seu bom gosto. O trabalho teve a colaboração da modelo Karol Greenhalgh e da produtora Patrícia Ribas.


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Carlos Alberto Pessôa

Meninos, eu vi!

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ão sei se sabe, escrevo de 2ª a 6ª curtíssimos textos para a Educativa FM-97.1. Que vão ar dois minutos antes da HORA DO BRASIL, as sete da noite. Por sugestão da direção procuro algo ao meu alcance na história do dia – nascimento, morte – e mando ver; batuco 13 mal traçadas linhas de 40 toques. Ou espaços. Que cabem perfeitamente em 61’. O nome do programinha. Que eu mesmo mando ao ar. Outro dia lá estava a torturar as efemérides, a bisbilhotar o 29 de janeiro, eis senão quando dou de cara com algo digno de nota, mas não ao pé da página: Nesta data se comemora com toda a pompa que a circunstância exige – caixa alta, negrito, revisor! – O DIA NACIONAL DA INCONTINÊNCIA URINÁRIA! (Se adivinhar o país que instituiu a inolvidável data ganhará viagem boca livre cinco estrelas! No P.S.: você conhecerá o incrível autor desta façanha.) Sim, você leu corretamente: O DIA NACIONAL DA INCONTINÊNCIA URINÁRIA!!! Que não é coisa nossa, como o samba, a mulata e outras bossas. Do que escapamos, hein? Pois o grandioso dia também não é internacional! Como o 1º de maio. Ou urbi et orbe! Como a data magna da cristandade. Fico a imaginar desfile em homenagem à incontinência urinária. Desfile de gala, a rigor já se vê: esquadrões a passar diante do palanque engalanado de urinóis a regar o asfalto, paralelepípedos. E arrancar uivos da massa ululante. Ela mesma ruidosamente incontinente. E os concursos, cara pálida? Do jato mais potente, do de maior alcance, do de maior brilho, do de olor mais forte, mais permanente, de fixador mais ultra, do de maior transparência, do de cor mais definida, do de maior originalidade, do mais curativo, do mais analgésico, do mais mágico, do de maior energia positiva, do mais bárbaro, do mais completo, do mais capaz de se transmutar, do mais louco, do mais incrível, do mais fantástico, do inimaginável! Ao infinito. Claro! Sem esquecer o monde cane! Tipo o mais doente, o mais feio, o mais fétido, o mais frágil, o de menor alcance, o incapaz de ultrapassar o calcanhar do – como direi? –

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do emitente proponente, o mais doloroso, o mais penoso, o mais triste, o mais teimoso, o mais temido, o mais esperado, o que vem de mais longe, o que nunca chega, o mais longo, o mais duradouro, o que não desfalece, o que perde o vinco, o ritmo, a classe, o que perde o pudor, o que não pede licença, o boçal, o cafajeste, o que é de briga, o que dá um boi pra não urinar e que dá uma boiada para não parar de urinar, o insone, o incerto, o menos controlável, o mais selvagem, o mais abrupto, o mais vertical, o de ogivas múltiplas, o de urgência urgentíssima, o expresso, o tipo bala, o devagar e nem sempre, o cômico, o triste, o engraçadinho, o assanhado, o que não respeita sequer as cunhadas, o despudorado, o apressado, o a jato, o atômico, o ultraleve, o mais pesado que o ar, o 14 bis, o que plana, o que decola, o que não plana nem boia, nem decola, nem arremete, o que não engravida e nem sai de cima, o que trai a pátria, o conjurado, o procurado pela polícia judiciária, o fugitivo do IML, o sentenciado, o trânsfuga, o de infinitas manhas protelatórias, o que só ameaça, o rei do cansaço, o bissexto, o tipo gota a gota, o tipo à golfadas, o com hora marcada, o disciplinado, o preguiçoso, ao infinito.

P.S.: O dia da incontinência urinária é criação portuguesa com certeza. P.S. do P.S.: Ah! Minha natural modéstia

não é coisa nossa, como o samba, a mulata e outras bossas. Do que escapamos, hein?

não me impedirá de revelar: fui capitão da equipe iratiense campeã da modalidade incontinência urinária na olimpíada de LA! Até hoje os récordes olímpico e mundial estão intactos. Mirzinho e eu paralisávamos o ponteiro de segundos do relógio no alto de prédio de 13 pavimentos lá em Irati. Um espanto! E nem tinha colocado stente na carótida... Quantos incêndios apagamos com nossos generosos jatos, nossos poderosos jatos! Éramos os bombeiros honorários da city; guardei as comendas. Bons tempos.

Carlos Alberto Pessôa é jornalista e escritor.


Luiz Geraldo Mazza

A redação era um palco

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iz a transição entre o jornalismo boêmio e o tido como profissional. Mas os artistas, aqueles que davam “show” na redação, eram bem mais técnicos do que nós. Um deles, o primeiro diagramador da imprensa paranaense, o argentino Benjamin Steiner, que já era a atração pela novidade do que fazia, de sua mesa emergia o layout de cada página, era autor das cenas teatrais mais chocantes. Num fim de tarde, talvez para afastar o tédio cinza, simulou um ataque apoplético: sufocava, engasgava-se, um redator que estudava medicina na Federal, diagnosticava “edema da glote”. Todos foram até ele e de repente como se estivesse se libertando daquilo que o afligia tirou lá de dentro da garganta minúscula, minimalista, calcinha feminina. Ela surpreendia pelas dimensões nanicas tanto que parecia até ser um genuíno lançamento do produto. A rotina do espírito. Benjamin diagrama o caderno de cultura e de repente começa a rir porque dois personagens se atracam em contendas literárias. Era uma polêmica entre pessoas que tomaram posição relativamente a uma cadeira na Filosofia da Católica. O editor era o crítico de literatura, um dos maiores do Brasil, Temístocles Linhares, que defendia o mestre Bruno Enei, especialista em arte clássica da Itália. A congregação entre liberais e integristas estava armada e o candidato à direita era o espanhol Castagnola. O dono do jornal era amigo dos dois times e me pediu, ao viajar, que impedisse o conflito. Expliquei ao Benjamin e ele, teatral como sempre, ergueu os braços e declarou “Agora faço que nem Sócrates, lavo as mãos”. Do mezanino, no Departamento Comercial, o Hélio Damato, observou: “Benjamin, quem lavou as mãos foi Pilatos!”. O diagramador, com ar espantado, replica: “vai querer me dizer que Sócrates não lavava

as mãos?”. Na docência ganhou o espanhol e Bruno Enei foi ensinar em Ponta Grossa na Universidade que surgia com um quadro de primeira.

Fantasia sempre  Havia uma emulação entre o pessoal da oficina, a sua chefia, e o diagramador que era um homem da redação. Numa noite, o Ronald Stresser, filho do dono do jornal, Adherbal Stresser, marcou encontro com uma bailarina, uma negra linda, altíssima, uma watusi. E como Ronald não chegava, fizemos a sala, cada hora um dançava uma com ela, Eduardo Rocha Virmond, eu, o pintor Loio Pérsio. Num momento o chefe de oficina viu aquilo e contou para o dono, na visão dele quase uma suruba. Dia seguinte é convocada às pressas uma reunião especialmente com os

Tínhamos um forte compromisso com o repente, uma compulsão para fazer graça

que faziam o suplemento literário, encartado, que saia aos domingos, secretariado pelo Virmond e escrito por toda redação: Valmor Marcelino, eu, Sylvio Back, Renê Dotti, Edy Franciosi, Glauco Flores de Sá Brito, Armando Ribeiro Pinto, gravuras de Loio, Viaro e Violeta Franco de Carvalho. Adherbal quis dar uma dura no grupo, disse que não era exemplo de bom comportamento, mas não admitia aquilo no jornal. E pediu explicações. Virmond, um tanto constrangido, explicou que tudo havia começado depois do balê do Mazza. A maneira como ele se referiu a um folguedo de redação dava a impressão de um show no mínimo do teatro de revista do Carlos Machado com plumas e paetês, coristas coxudas. O balê era entre eu e o Benjamin, como esgrimistas, uma régua em cada mão, em cima de duas das mesas da redação. A visão que o Virmond tinha dessas fantasias era como a nossa, necessária, imprescindível, o lado burlesco do nosso cotidiano. Fazer jornal o principal, o folguedo o acessório, todavia indispensável, pois éramos atores de um teatro, ator e público. Tínhamos um forte compromisso com o repente, uma compulsão para fazer graça. E tudo isso sem receber salário e tão somente “vales” de fim de semana. Há algo mais franciscano do que esse tipo de engajamento? E pela madrugada, lá íamos apanhar o jornal, como se fosse pão fresco, para ver como havia saído. Depois ou a boate ou os bares, mas pela manhã estávamos a postos de novo para um novo itinerário de fantasia, bem mais disso do que da realidade que tentávamos traduzir em reportagens, notícias e crônicas. O nosso jogo era o da arte, transfiguração da realidade.

luiz geraldo mazza é jornalista.

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Marisa Villela

Caçadores de obras-primas

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assados mais de 70 anos, é surpreendente como a II Guerra Mundial ainda apresenta faces pouco conhecidas. Quando se pensa que já leu e viu tudo, quando são bem conhecidas e lamentadas as atrocidades contra povos e homens, lá vem outro lado obscuro e inédito dessa mesma guerra inesgotável de histórias paralelas. Agora é a vez de mostrar um pequeno grupo que atuou entre os milhares de soldados aliados: os desconhecidos “Monument Men”. Artistas, arquitetos, diretores de museus, historiadores e especialistas em obras de arte são convocados às armas e vão para a Europa com a missão de tentar persuadir generais a preservar os monumentos históricos, alvos fáceis dos bombardeios. “Caçadores de Obras-Primas” é um livro fascinante. Conta a história de homens que acompanham os exércitos desde o desembarque na Normandia até o final da guerra, quando participam da restituição das obras de arte aos verdadeiros donos, espoliados pelo nazismo. Ao longo do livro, estão cálidos trechos da correspondência que esses homens escreviam às suas famílias, seus medos e suas esperanças de voltar para casa em breve, de rever o filho pequeno ou comprar uma casa na colina. Junto à destruição de cidades, em meio a centenas de mortos e muito sangue, os Homens-Monumentos emocionam o leitor com seus impressionantes esforços para localizar e proteger o patrimônio artístico da humanidade. Entre um bombardeio e outro, chafurdavam em valas, pegavam carona em caminhões de campanha, saíam da rota da batalha para verificar os estragos em uma pequena igreja medieval ou descobrir o destino de um retábulo de Van Eyck ou o sumiço de um quadro de Rembrandt. Impossível não se apaixonar por figuras como James Rorimer, especialista em arte medieval ou o Tenente George Stout, pio-

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neiro americano na conservação de obras de arte, que não media esforços nem distâncias para ajudar na hercúlea tarefa de salvar peças históricas. Ou ainda, o diligente trabalho de Rose Valland, que driblava os alemães ao catalogar as obras saqueadas dos museus franceses, e a emoção do jovem soldado judeu-alemão Harry Ettlinger (único vivo até hoje) que encontrou a coleção de ex-libris e gravuras do seu avô, escondida durante a ocupação nazista.

de La Gleize. Nem hoje nem nunca”, diziam. E ela lá ficou bem protegida até a libertação. O leitor, como num romance de suspense, fica cada vez mais e mais preso à narrativa. Mesmo sabendo como vai terminar essa guerra verdadeira, é inevitável prender a respiração quando se chega ao capítulo em que os Homens-Monumentos entram no território alemão. Desde a descoberta de várias minas entupidas de obras de arte históricas (com o esquife de Frederico, o Grande, as pinturas de Vermee, Rembrandt, Rafael, Da Vinci, Caravaggio, Cranach, Botticelli e tantos outros) até as tentativas de abortar a “Operação Nero”, determinada por Hitler, o leitor fica com pouco fôlego. A ordem de explodir tudo e destruir impiedosamente a arte mundial, do tipo “se os nazistas não podiam ficar com as obras de arte, então ninguém poderia”, é assustadora. Heróis? Sim, evidentemente. Graças aos Homens-Monumentos, hoje estão nas paredes dos museus as obras mais lindas já existentes no mundo ocidental. De valor inestimável, o salvamento de tesouros de arte foram momentos decisivos na história cultural da civilização. E o leitor, após fechar a última página dos “Caçadores de Obras Primas”, com certeza terá um novo olhar para as belas artes. E, quem sabe, vai suspirar aliviado e sorrir ao perceber que além de pinturas, tapeçarias e objetos, os Monument Men salvaram a alma da humanidade.

Robert M. Edsel.

Um momento tocante no livro é que, diante das brutalidades da guerra logo após a Batalha de Bulgue, na Bélgica, o escultor Walker Hancock teve delicadeza para negociar um esconderijo para a Madona de La Gleize, encontrada coberta de neve, junto aos escombros da igreja. Hancock compreendeu que a Madona era mais do que um patrimônio artístico para aqueles que restaram vivos. Ela era um símbolo de fé para os sobreviventes da pequena aldeia belga. “A Madona não vai sair

CAÇADORES DE OBRAS-PRIMAS (Robert M. Edsel, Ed. Rocco, 2011)

Marisa villela é jornalista e professora universitária.


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O mundo não é redondo Antonio Cescatto Ficção 384 páginas 15 x 21 cm

Ultralyrics

Marcos Prado Poesia 192 páginas 24,5 x 25 cm Inclui CD

Arquitetura do movimento moderno em Curitiba

24 quadros

Salvador Gnoato Arquitetura 144 páginas 22 x 21 cm

Luciana Cristo Nívea Miyakawa História 168 páginas 22 x 21 cm

Em preto e branco, o início da televisão em Curitiba

Rubens Meister, Vida e Arquitetura Marcelo Sutil Salvador Gnoato Arquitetura 95 páginas 22 x 20,5 cm

Maria Luiza Gonçalves Baracho História 112 páginas 22 x 21 cm

Joaquim - Dalton Trevisan (en)contra o paranismo Luiz Claudio Soares de Oliveira História e Crítica 216 páginas 22 x 21 cm

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Ai

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Modos & Modas

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liVrOs

Prateleira

200 anos de Dickens e as cartas de um amor proibido Por Fábio campana

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m 7 de fevereiro de 1812 nasceu em Portsmouth Charles John Huffan Dickens, o homem que construiu o romance contemporâneo com engenho, talento e compaixão. “Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, a idade da sabedoria e também da loucura (....); a primavera da esperança e o inverno do desespero”, escreveu no início de “História de duas cidades. Hoje, 200 anos depois de seu nascimento, sua obra está viva. Ninguém narrou como ele as misérias da revolução industrial e se compadeceu das crianças exploradas, nem apostou como Dickens na expectativa da felicidade. É hora de voltar a ler “David Copperfield”, “Grandes esperanças” e “Casa desolada”. Na Europa chega às livrarias um inédito interessantíssimo de Dickens, o melhor de seu epistolário amoroso com Maria Beadnell. São oito cartas que iluminam a história desse amor proibido. Há mais. Seu biógrafo, Peter Ackroyd, desnuda Dickens. Harold Bloom o considera um autor essencial e adianta o conteúdo de “O Cânone, romances e romancistas”.

Bem perto da praia Por Dico Kremer

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escritor norte-americano John Updike é mais conhecido no Brasil pela sua ficção. Analista feroz da classe média de seu país pode levar o epíteto de “Juquinha” pela maneira livre e constante com que trata o sexo. Em “Casais Trocados”, “O Centauro”, O Sabá das Feiticeiras” e os cinco volumes da série do “Coelho”, principalmente nestes, Updike ataca com a clava da ironia o puritanismo da sociedade onde vive. Mas, além de ficcionista, é poeta (cuja obra desconheço), ensaísta e crítico. Conheci este seu lado no livro “More Matter – Essays and Criticism” da Knopf. Depois li “ Bem Perto da Costa” da Cia das Letras. O autor fala sobre tudo: desde a luxúria aos Cantos de Salomão, de escritores à psoríase, de Dorys Day às garotas de Vargas, de fotografia ao singelo Jim (James Joyce). E escreve John updike sobre tudo isso com muita verve, bom humor e bem Perto da costa cia das Letras, 1991 sapiência. Quem o ler não vai se decepcionar. 213 páginas

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Fuentes e a grande novela latino-americana Por Dico Kremer

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hega às livrarias “La gran novela latinoamericana”, editado pela Alfaguara, um grande ensaio do mexicano Carlos Fuentes sobre os escritores mais importantes da América Latina. É, também, uma apologia do gênero e uma biografia literária do próprio Fuentes. “Este é um livro que fiz ao longo da vida, tem tudo a ver com as minhas leituras na juventude, tem a ver com amigos e escritores que me interessam. É muito pessoal. Não é um manual nem um dicionário. Há escritores que não foram incluídos, falo mais do México do que de outros países, mas fiz um livro como eu queria. Essa é a origem do livro e talvez seu destino.”


livros

Robert Walser Por Dico Kremer

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a imensa “História da Literatura Ocidental” de Otto Maria Carpeaux o nome do escritor suíço Rober Walser ocupa pouquíssimas linhas. Nasceu em Biel em 1878 e foi encontrado morto, no dia do Natal de 1956, caído na neve em um bosque onde tinha ido passear. Morava num hospício onde internara-se voluntariamente em 1929. Entre 1920 e 1950 seu trabalho foi esquecido. Personagem curiosa e escritor prolífico deixou obra – organizada em cinco volumes por C. Seelig, Genève 1953-1956 – para o futuro. Mas, em sua época, foi bem conhecido de outros escritores. Chamou sobre si a atenção de Max Brod, infiel testamenteiro de Franz Kafka, e de Walter Benjamin. Influenciou

nada menos que as prosas de Kafka, Robert Musil e Herman Hesse. Cheguei a ele via um livro de contos, “Selected Stories”, da editora do New York Review of Books. Miniaturista, detalhista, intimista, suas estórias parecem não ter “enredo”, giram em torno do aparentemente limitado e banal, do pequeno, do anti-heroico. Quando termina uma frase, a seguinte parece dar uma guinada, como se não soubesse por onde ir. Mas é grande prosador e, ao contrário de Kafka, deixa uma esperança em seus escritos. Vale a pena lê-lo. Em português temos “Jakob von Guten – Um Diário” (Cia da Letras), “O Ajudante” (ARX) e “Os Irmãos Tanner”, este em edição portuguesa da Relógio D’Água.

exposição

Louise Bourgeois e a matemática do desejo

“Os Caprichos” de Goya no MON

Por Marianna Camargo

Por Marianna Camargo

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ouise Bourgeois estudou matemática na Sorbonne, em Paris, em 1932. Porém, abandonou o curso e passou a frequentar diversas academias de arte até 1937, entre as quais Ranson, Julian, Calarossi e La Grande Chaumière. Foi aluna de André Lhote, Gromaire, Othon Friesz, Paul Colin e Fernand Léger, muito influenciada por este último, que revela sua vocação para a escultura. Em 1938 casa-se com o historiador de arte Robert Goldwater e passa a viver nos Estados Unidos, onde frequenta o Art Students’ League no ateliê de Vaclav Uylacil; nesse período é influenciada pelos cubistas, surrealistas e construtivistas. Em 1945 associa-se aos artistas da geração do expressionismo abstrato e a partir de 1946 mantém contato com Le Corbusier,

Joan Miró e Yves Tanguy. Louise Bourgeois fez arte conjugada com a literatura, a moda, o erotismo, o conflito e o desejo. A artista subverte os temas para questioná-los, como a arte deve ser. Louise Bourgeois nasceu em Paris em 25 de dezembro de 1911 e morreu em Nova York em 31 de maio de 2010.

Louise Bourgeois Séries autobiográficas Gravura em metal Museu da Gravura Cidade de Curitiba 1º andar, bloco A Até 19 de fevereiro de 2012

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série “Os Caprichos”, de Francisco Goya (17461828), está exposta no Museu Oscar Niemeyer (MON). São 80 gravuras que ele elaborou entre 1797 e 1799 a partir das técnicas de água-forte, água-tinta, ponta seca e buril. Salvador López Becerra, diretor do Instituto Cervantes de Curitiba, instituição parceira na realização da mostra, explica que essa coleção é uma sátira da sociedade espanhola de fins do século 18, especialmente da aristocracia e do clero, do sistema de valores, do imobilismo dos costumes e da superstição. “É com ‘Os Caprichos’ que Goya se consagra como o grande mestre da gravura”, afirma Becerra. Becerra lembra que os críticos afirmam que Goya é um dos precursores da arte moderna. “Desta forma, é óbvio comprovar como ‘Os

Caprichos’ influenciaram gerações de artistas de movimentos tão díspares como o romantismo francês, o impressionismo, o expressionismo alemão e o surrealismo”, afirma. Exposição “Os Caprichos”, de Goya. Em cartaz até 24 de abril de 2012 Museu Oscar Niemeyer: Rua Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico – Curitiba. Horário: 10h às 18 horas. De terça a domingo. Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (No primeiro domingo de cada mês a entrada é franca).

outubro de 2012 2011 | fevereiro

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JUAN MUNOZ

Jussara Voss

El Celler de Can Roca

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Jordi, Josep e Joan Roca. O caminho da gastronomia contemporânea está nas mãos deles.

s três irmãos Roca, Joan, Josep e Jordi colocaram o El Celler de Can Roca no pódio da lista mais reverenciada do momento na gastronomia: ocupam a segunda colocação na lista S.Pellegrino World’s 50 Best Restaurants 2011 da revista Restaurant –, que desde 2002 escolhe os destaques da gastronomia mundial e tem desbancado em termos de popularidade inclusive a pontuação do Michelin (aliás, o restaurante também ostenta as cobiçadas três estrelas do guia). Mas quem são e como alcançaram esse reconhecimento? É uma longa história. Aberto em 1986, o restaurante tocado pelos três catalães dá continuidade à atividade que começou com a avó e passou para os pais, que ainda estão à frente do restaurante da família, instalado ao lado do El Celler, em Girona. Cozinhar, então, aconteceu naturalmente, eles nem pensaram em fazer outra coisa. São pessoas simples, de-

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possíveis substitutos do chef Ferran Adrià, dizem em coro que “ninguém o substituirá”; mas que estão à altura dele, isso não deixam dúvidas

dicadas e que gostam do que fazem, estudaram e trabalharam muito e ainda trabalham, “são mais de 14 horas por dia no restaurante”, diz Jordi, o mais novo dos três irmãos. Rigor é palavra de ordem ali e a verdadeira pressão, explica ele, “é atender os clientes que precisam esperar mais tempo para nos visitar agora e vêm de mais longe, do que a qualificação que os guias e listas podem dar-nos. Nosso objetivo é fazer feliz quem nos visita”. Simples assim, nem tanto. Quando começaram não tinham muitos clientes nos primeiros anos, mas sabiam que precisavam continuar trabalhando. A cozinha deles é conhecida como “cozinha das emoções”, mas isso é apenas um rótulo, assim como a de René Redzepi é de “ingredientes locais”, a de Gran Achatz é “futurista”, a de Andoni Aduriz é “filosófica” e a de Heston Blumenthal “tecnológica”. O linguado “a la brasa a la manera meunière”, a versão moderna do steak tartare e da brandade de bacalhau citando apenas três


pratos emblemáticos, sem falar nas criações de Jordi, o pâtissier, que rompe todas as fronteiras, como levar um perfume ao prato, ou o prato ao perfume, são exemplos do que eles podem fazer. O linguado é grelhado, o molho vem ao lado, a flor da alcaparra dá um toque cítrico. Surpreendentemente saboroso, leve e fresco. A pele, servida em outro prato, estalava ao contato com a língua, que recebia as flores como prêmio. O ciclo das estações e a oferta de produtos dão o caminho na definição e troca dos menus oferecidos, contam. Incansável nas suas pesquisas gastronômicas, Jordi diz que gosta de pensar que nem tudo foi feito. “Existe muito para fazer. Os caminhos da cozinha são inescrutáveis”, exclama. Indagado sobre o trabalho com os aromas, o pâtissier disse que tudo começou em 2001 quando chegou ao restaurante uma caixa de bergamota. “Pensamos o que fazer com a fruta, um cítrico com um cheiro muito particular. Imediatamente relacionamos com o perfume Eternity, de Calvin Klein, juntamos outros ingredientes e criamos uma sobremesa, descobrindo novas possibilidades com essências”, explica Jordi. Mencionados como possíveis substitutos do chef Ferran Adrià, de quem são amigos, dizem em coro que “ninguém o substituirá”; mas que estão à altura dele, isso não deixam dúvidas, possuem um estilo diferente do mais famoso mago da cozinha, que fechou seu famoso restaurante no ano passado, porém

tão vanguardistas e espetaculares como ele. Se houvesse sucessão para o ElBulli, liderariam a lista, com certeza. “ElBulli é um restaurante único, assim como o trabalho de Ferran Adrià”, afirmam. A adega e a carta de vinhos do restaurante são uma atração à parte. Josep contou que os quartos deles quando crianças ficavam em cima e a sala da casa era embaixo no restaurante dos pais, eles não saíam de lá e o que atraia a atenção do menino eram as bebidas: quando cresceu formou-se em hotelaria e sommelier e é um pilar fundamental para a comida preparada pelos irmãos. Algumas vezes o vinho parecia que iria brilhar sozinho, daí entrava o prato e os dois se entendiam em sintonia. Olé! Como disse o jornalista Renato Machado “a loucura dos bocadillos que não se harmonizavam com vinho ficou para trás”, principalmente ali. O talento vem de longe. Provei, por acaso, um dos pratos mais representativos criados por eles, em outro restaurante que recebe consultoria do grupo, o foie gras com maçã caramelizada. Criado em 1996, a iguaria é uma interpretação de uma receita clássica da cozinha catalã “manzana de relleno”, originalmente feita com carne moída. Impressionante, se faziam isso naquela década, dá para imaginar do que são capazes de fazer agora, afirmo isso sentindo o meu perfume de limão trazido na mala, o Nüvol, inspirado num doce, é uma deliciosa recordação que pretendo guardar por muito tempo.

Algumas vezes o vinho parecia que iria brilhar sozinho, daí entrava o prato e os dois se entendiam em sintonia. Olé!

Ventresca de cordero con pimiento y tomate a la brasa Primeiro, senti o aroma dos legumes e do cordeiro assados na brasa, depois experimentei, ainda bem que tinha pão para raspar o prato, queria mais.

Higado de torcaz con cebolla Pombo, fígado, cebola, nozes, zimbro, curry, casca de laranja, ervas, uma combinação que exige talento, sem dúvidas. Sabores equilibrados e a genialidade dos irmãos aparecendo mais uma vez.

Cromatismo naranja A janela da cozinha do El Celler de Can Roca.

Bonsai com azeitonas.

Uma sobremesa perfumada. Tão bonita que nem precisava ser boa, mas era. fevereiro de 2012 |

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uma deliciosa recordação que pretendo guardar por muito tempo Bacalao en brandada Estofado de tripa, espuma de bacalao, sopa al aceite de oliva, escalonias con miel, tomillo ají. Contraste vegetal. O gosto era tão bom que eu nem me preocupei com a descrição “estofado de tripa”, ou seja, um guisado de tripa. Nunca comi nada igual. Noto que os pratos sempre trazem contrastes, quente e frio, doce e azedo, ou amargo, crocante, salgado, ácido, ou o quinto sabor, umami. Na cozinha, no restaurante e na mesa estão elementos que lembram as formas mais simples de cozinhar e a natureza: fumaça, pedra, madeira. Para acompanhar: vinho do Priorat, ou Priorato, a nova Espanha vinícola, sul da Catalunha despertando paixões e ganhando o mundo ao lado dos já festejados Rioja e Ribera del Duero. Encorpado, forte, elegante.

Foie gras y manzana El timbal de foie gras y manzana caramelizada con aceite de vainilla. En el timbal cubrimos un molde de sabarin con láminas de manzana Golden escaldada, rellenamos el timbal con foie gras escaldado com sal, pimienta, pedro ximenez, cerramos con la punta de manzana que nos queda fuera del molde y enfriamos. Cuando esta frío ponemos azúcar por encima y lo quemamos con un soplete para que se caramelice el azúcar y a la vez se tempere el foie gras, lo aliñamos con aceite de vainilla (aceite y vainas de vainilla maceradas un mínimo de 20 días). A primeira surpresa inesquecível dos irmãos Roca.

Adaptación de steak tartar con helado de mostaza 2009 Patatas souflé, tomate especiado, compota de alcaparras, encurtidos y limón, praliné de avellanas, salsa bearnesa de carne, pasa de oloroso, cebollino, pimienta sechuan, pimentón de la Vera y curry, bolitas de helado de mostaza y hojas de mostaza. Acho que nunca mais esqueço esse sabor e a textura da batata e das “bolitas de helado de mostaza”. Depois de muitos pratos, eu não tinha mais fome, é claro, mas não conseguia parar de comer. Um tempero para cada batata “suflada”, não sei o que será de mim agora. Foi o melhor steak tartar que já comi.

Postre láctico Dulce de leche, helado de leche de oveja, espuma de cuajada de oveja, yogurt de ove y nube. Um clássico da casa, fui avisada. Muitas texturas com o mesmo ingrediente. Suave e doce na medida, não dá vontade de parar de comer.

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Cochinillo ibérico en blanqueta al Riesling Terrina de mango y trufa de verano, remolacha, ajo, concentrado de naranja y pistilo al azafrán. A mão de Jordi entrou aqui para tentar reproduzir os aromas do Riesling. Trufas, beterraba, manga, alho. Vontade de lamber o prato, sério.


A caminho do paraíso

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hovia muito, chamei um táxi, nem pensar em andar pela cidade famosa por ter o mais antigo centro de estudos da cabala do mundo. Uma lástima. Hospedada em Girona, a menos de 100 quilômetros ao norte de Barcelona, senti não participar da festa na cidade e perder as comidas vendidas nas barraquinhas de rua, principalmente as castanhas portuguesas assadas pelas quais sou capaz de qualquer coisa. Era a semana do festival de São Narcísio, o patrono do local, homem austero e simples que não lembra em nada a figura mitológica representada pela beleza e orgulho. Depois do almoço no El Celler de Can Roca, o motivo da minha viagem à Espanha, pensei ser um sinal do padroeiro para eu tornar-me devota. Recebi uma santa graça, eu reconhecia. Meu destino de conhecer, finalmente, o restaurante que ocupa o segundo lugar na lista dos melhores do mundo do concorrido prêmio S. Pellegrino havia se concretizado. Ainda dentro do carro, vi o centro se afastando e tomando o rumo à periferia, mais alguns minutos depois numa rua estreita o motorista anunciava a minha chegada. Uma placa pequena indicava o lugar, mas nada ali dava pistas do que eu viveria. Desci do táxi e entrei por um corredor estreito, coberto de heras, que terminou num jardim com móveis estilosos em frente a uma casa do começo do século passado, na qual era possível ter pela grande janela uma ideia da cozinha, do lado oposto estava a sala de espera envidraçada do restaurante. Aberta a grande e pesada porta de madeira da entrada, sou surpreendida por outro corredor mais largo e inteiro branco, como um centro cirúrgico futurista com esculturas, luminárias e atendentes cordiais. Logo encontro o pâtissier Jordi Roca, o incumbido de mostrar as instalações da bem dividida e montada cozinha, que mais parece um laboratório, o toque caseiro fica por conta da churrasqueira à brasa, usada mais para a finalização de pratos. Visitei todos os setores e vi que não era a única a bisbilhotar o local, que alívio, um casal guiado por Joan, o irmão mais velho dos três e chef de cuisine, cruzou comigo. Após a vi-

sita, recebi os votos de uma boa estada e fui conduzida, por outro corredor bem estreito, ao salão oval desenhado em torno de uma ilha – um pequeno jardim com troncos finos e folhas secas –, estamos no outono europeu. Sou instalada numa posição estratégica, da minha mesa vejo os garçons desfilarem as criações dos irmãos Roca e algumas folhas caindo às lufadas de vento sopradas de leve. O ambiente é extremamente minimalista, porém acolhedor e requintado ao mesmo tempo. Propositalmente, o som ouvido era apenas dos talheres tocando nos pratos e vozes sussurrando pelo salão, sublime e importante silêncio, nenhuma música. Uma garoa fina completava o quadro, assim começou a sequência de pratos e desfile de sabores, texturas e formatos reveladores. Impossível não se emocionar. Fiquei pensando como seria a segunda refeição ali e o quanto da surpresa reservada aos primeiros encontros poderia repetir-se, mas, rapidamente voltei à imagem do banquete aberto com snacks, as pequenas porções, e um pouco dos sabores do mundo, lembrança das andanças dos Rocas e que me acompanharia por muito tempo na memória. Abre-se um globo de papel e lá estava o “comerse un mundo: Mexico, Perú, Líbano, Marruecos y Corea”. Depois disso, um bonsai trouxe azeitonas crocantes, um bombom veio com trufa, o brioche com marisco e outros pequenos petiscos mostravam as comidas tradicionais da região com roupagem contemporânea. Que eles dominam as técnicas modernas já não tinha dúvidas, que reinavam em criações surpreendentes era notório, que naquela casa os olhos eram contemplados era evidente, mas quando os pratos do menu de 11 serviços mais três sobremesas come-

çaram a ser servidos, acompanhados por uma seleção de vinhos de tirar o fôlego, era difícil não vibrar: estava diante de um banquete colossal, uma obra-prima. Eles são geniais. Conhecer a adega depois de horas de prazer e escutar as explicações do segundo irmão, o sommelier Josep, de como ela foi montada, completou a tarde passada no espaço no qual brilham os irmãos que tocam o El Celler. Tomar o caminho de volta ao hotel, visitar a cidade antiga murada, ver a magnífica catedral, mesmo que sem sair do automóvel, ainda chovia, foi realmente um bom final para a experiência vivida. Acho que fui convertida.

Jussara voss é jornalista. fevereiro de 2012 |

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Luiz Carlos Zanoni

O frango caipira e o La Tâche

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divulgação

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lguns reverenciam o atleta que venceu os 8.844 metros do Everest, outros a medalhista no salto em distância, o ganhador da São Silvestre, o Messi. Nós, fiéis devotos dos tintos e brancos, temos como uma das referências João Paulo Martins, esse lisboeta caladão, taciturno, já na meia idade, capaz de marcas olímpicas como a de provar três mil vinhos num período de poucos meses, proeza que, por gosto e profissão, repete todos os anos, desde 1993. Cabe-lhe editar o Vinhos de Portugal, um guia indispensável para quem quer se aventurar no largo oceano das taças lusitanas. Pois agora, vejam só, ali estava ele, meio encoberto pela bateria de copos, traçando placidamente um frango caipira trazido por Junior Durski de sua chácara em Prudentópolis. Nem em sonhos a ave anteviu tão glorioso destino, o de ser escoltada à mesa por representantes da alta nobreza da Borgonha, entre os quais um portentoso La Tâche DRC 1985. Servida com recheio de farofa de foie gras e trufas, ela honrou a raça, mostrou que o terroir de nossos quintais rende iguarias do maior quilate. Paulo Martins havia estado antes em São Paulo para conhecer o Tasca da Esquina, restaurante do chef português Vitor Sobral que reproduz, nos Jardins, o conceito da casa matriz em Lisboa. A esticada até Curitiba foi a convite do Guilherme Rodrigues, de quem é amigo. O pessoal caprichou nos vinhos para recebê-lo. E cobrou pedágio, exigindo suas preferências em Portugal. O crítico se fez de rogado, mas acabou cedendo. Recomendou com ênfase a safra 2009, ano em que as temperaturas moderadas possibilitaram caldos bem ajustados. Entre os melhores tintos dessa vindima já à venda no Brasil, o Quinta do Vale Meão, o Pintas, o Quinta do Vesúvio, o Monte d’Oiro Reserva e o Poeira. Ele acrescentou, de outras colheitas, o Barca Velha 2000, o Charme, o Tapada de Coelheiros Garrafeira e o Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa, to-

ali estava ele, meio encoberto pela bateria de copos, traçando placidamente um frango caipira trazido por Junior Durski de sua chácara em Prudentópolis

dos 2007, além do Quinta de Pancas Grande Escolha 2008. Também estão num excelente momento os brancos 2009 da uva Alvarinho, com especial menção aos dos produtores Anselmo Mendes e Soalheiro. Paulo Martins aprecia o casamento desses vinhos com os peixes crus da culinária japonesa, os sushis e sashimis. Fechando a lista, três Portos Vintages: Fonseca 2009, Warre’s 2009 e Quinta do Vesúvio 2007. Portugal ocupa o terceiro lugar nas exportações para o Brasil, em constante revezamento com a Itália, cujas vendas se fortalecem graças ao alto consumo dos xaroposos Lambruscos. Pressionados pela recessão europeia, os produtores lusos querem ampliar sua fatia em nosso mercado, com vinhos bem feitos e baratos. Paulo Martins aprova o caminho. Preço nem sempre define qualidade. “Uma caneta Mont Blanc, ele pergunta, escreve melhor do que uma vulgar esferográfica?”. E logo aduz que aí está em causa não o objeto, mas o comprador e seu poder aquisitivo. O almoço no restaurante Durski pendeu para Mont Blanc. As garrafas da Borgonha foram precedidas por um afinado conjunto de Chardonnays dessa mesma região, os tais brancos de alma tinta, Mersaults, Montrachets, vinhos de imensa complexidade. Os bordaleses ficaram para o fim. Com eles, três campeões, um Château Margaux, um Latour e um Haut-Brion nascidos em 1996. Os grandes tintos de Bordeaux tem o dom da permanência – seu denso sabor, os inconfundíveis aromas de couro, especiarias, frutas em geleia, aderem como imãs no painel da memória. Ao final, João Paulo Martins lembrou que os vinhos que acabara de provar também frequentam as mesas de Portugal, com uma ressalva. “Nunca assim, todos juntos”.

LUIZ CARLOS ZANONI  é jornalista e apreciador de vinhos.


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Izabel Campana

sobre gatos e outros parágrafos uando criança, tive um gato siamês. Coisa mais linda o bichinho. Mas não nos entendíamos, eu e o felino. Talvez porque eu o adorasse tanto. Talvez porque antes só tivesse criado cãezinhos. Fato é que as patinhas do gatinho debatiam-se contra meus abraços e eu saía toda arranhada de nossos rápidos encontros. São assim os gatos, não gostam de intimidades forçadas. Assim que terminei este texto percebi: que criaturas interessantes são os gatos! Mas só por um parágrafo. E quantos outros assuntos são assim, interesses que não rendem mais de uma frase, um parágrafo, meia dúzia de linhas. Tenho um caderninho cheio de ideias como essa, que não rendem conversa para mais do que uma viagem de elevador. Talvez seja para isso que as conversas de elevador tenham sido inventadas. Para dar cabo de dois coelhos com uma só cajadada: o silêncio desconfortável e os assuntos de um só parágrafo. Na universidade, entretanto, os assuntos de um só parágrafo sempre rendem ao menos um volume. O método do encompridamento dos assuntos é ótimo para dissertações e teses. Há verdadeiros doutores nisso. Verdade é que os assuntos de uma linha são tantos que foi criada uma ferramenta só para eles, o tal do Twitter. 140 palavras e basta! As conversas pelo miniblog são tão rápidas quanto meus encontros com o gatinho. Mas mesmo assim não se escapa das tais intimidades forçadas. E para isso há aquelas conversas que não servem só para elevador. Servem para quando damos de cara com um antigo conhecido de

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é aSSiM que SurgeM oS aSSuntoS De uM ParágraFo, uMa Linha, uM encontro, que PreencheM a viDa, oS SiLêncioS, oS eLevaDoreS

quem já não lembramos o nome e a procedência. Dá-lhe falar sobre o tempo, o trânsito, a política. Como me disse o Fábio Campana, que disso entende, a política pode ser resumida em menos de um parágrafo. Numa frase: Haja estômago. Com esse tipo de comentário, curto e espirituoso, esgueiramo-nos desses encontros com antigos conhecidos como gatinhos assustados. Como vai a família? E o trabalho, ainda está naquela empresa? Não diga! Mais um minuto de silêncio perturbador e pronto, entramos no assunto do trânsito, cada vez pior, onde esse mundo vai parar, são tantos carros. As pessoas não se preocupam com o planeta, mas também com os ônibus como estão. Outro segundo desconfortável e você embarca nos assuntos do já vou indo. Muito bom te ver, dê um beijo na família, tenho que ir pegar uma fila, tem coisa mais chata? E é assim que surgem os assuntos de um parágrafo, uma linha, um encontro, que preenchem a vida, os silêncios, os elevadores. Também preenchem os espaços entre dois conhecidos que não se conhecem mais. E quando não se tem assunto, podem preencher uma crônica.

izabel campana é advogada.


Andrea Greca Krueger Paula Abbas

Luxus!

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uxo. Palavra que deriva do latim luxus e, segundo dicionários, tem o significado intimamente ligado a coisas grandiosas como abundância, profusão, suntuosidade e esplendor. Fora do sentido semântico e pendendo um pouco mais para a vida em carne e osso, pode-se dizer que o luxo tangível, ou seja, em forma material (aquele que conseguimos ver... e cobiçar) foi “inventado” simplesmente para diferenciar indivíduos. Desde que o homo virou sapiens, o desejo de se destacar foi responsável por verdadeiras maravilhas e também tragédias escabrosas na história da humanidade.

O luxo antigo  No ano 40.000 a.C., os xamãs, primeiros líderes de que se tem notícia, se destacavam entre os reles mortais da tribo através de vestimentas elaboradas com ossos e plumas coloridas. O tratamento diferenciado resultava da crença de que eles eram seres dotados de poderes extramateriais, que incluíam, além da espiritualidade aguçada, capacidade de liderança - traço importante na hora de encabeçar a caça, essencial para a sobrevivência antes da agricultura. Tempos mais tarde, no Egito dos faraós, apenas as classes do topo da severa pirâmide social tinham acesso a bens como peças em ouro, prata e lápis lazúli. Governantes e sacerdotes eram os únicos que podiam carregar suas riquezas para a vida além-túmulo – o que incluía uma horda de pobres escravos, obrigados, quiçá, a partir antes da hora. Na Idade Média, artesãos se reuniam em oficinas, onde produziam todo tipo de iguaria com garantia de qualidade e procedência para satisfazer os sentidos dos nobres - um processo semelhante ao mercado de luxo como o conhecemos atualmente (pense em marcas como Hermès e Louis Vuitton). Nessa época, havia um tipo de roupa para cada classe social e a vida luxuosa não era vista com bons olhos. “Até o século 17, o luxo tinha um significado negativo de autoindulgência e privilegiação das satisfações carnais”, diz o britânico Christopher Berry, autor de The Idea of Luxury: A Conceptual and Historical Investigation. “O luxo tornou certas sociedades militarmente fracas, levando-as a contratar exércitos mercenários enquanto se dedicavam

a atividades econômicas de interesse restrito, em detrimento do bem público”. A visão sobre o luxo mudou bastante após esse período graças a eventos globalmente impactantes como a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa, e, consequentemente, os hábitos de consumo a ele relacionados também adquiriram uma nova figura. “A partir daí, o luxo passou a ser julgado favoravelmente como um incentivo, afirma Berry. “Ele representava a visão realista de que os seres humanos são motivados por seus desejos, e que ter a liberdade de buscar esses desejos era moralmente defensável”.

Num piscar de olhos, o tempo se converte no mais almejado dos luxos O luxo moderno  O início da chamada pósmodernidade tem como marco a queda do Muro de Berlim em 1989. Com o concreto e o arame farpado também tombaram velhos paradigmas: verdades consideradas absolutas deram espaço a novos desejos sociais que desafiavam o caquético establishment, conservador e preconceituoso. Como consequência de um mundo agora apto para se tornar a aldeia global prevista por McLuhan quarenta anos antes, o conceito de luxo passa a se desdobrar de diferentes formas e rapidamente. Você lembra, por exemplo, o que era luxo nos anos 90, a famigerada, egoística, individualista e malvada última década no século 20? Começava a insanidade hiperconsumista, as marcas tornavam-se os novos deuses e a ambição dos yuppies arrebatava sonhos de homens, que queriam ser como eles, e mulheres, que não desejavam exatamente tê-los como marido, mas que almejavam suas posições no mundo corporativo. “Casar? Que coisa mais ca-

reta!”, bradava a primeira geração de feministas em massa. O american dream ditava que o estilo de vida dos vencedores dirigia carros esporte e morava em apartamentos enormes. Tudo, claro, caríssimo.

Admirável luxus novo  O cenário começa a mudar na primeira década deste século, um período marcado pelo medo. Medo do terrorismo e da crise financeira. Medo da violência. Medo da Aids. Os noughties – como ficou conhecido o período entre 2000 e 2010, uma alusão irônica à palavra nought, sinônimo de zero/nada - não apenas comprimiram severamente a capacidade criativa dos jovens (tema para outra coluna: a Retrômania), mas também marcaram um tempo de mudança sem precedentes. Os mais radicais, como os ativistas do Adbusters, que organizam os movimentos #occupy, já declararam a morte do capitalismo enquanto outros tentam salvá-lo. Para os que estão no topo da pirâmide social há mais tempo, uma nova percepção do luxo emerge. A ostentação nunca esteve tão em baixa e fora de propósito. De repente, vemos algo que não se compra, uma “coisa” invisível que não tem forma, cheiro, marca ou cor no topo da lista de desejos dos endinheirados - e não apenas deles. Num piscar de olhos, o tempo se converte no mais almejado dos luxos. Ele, que não pode ser comprado, que não tem preço mas tem valor, é caríssimo como o lápis lazúli dos egípcios, as iguarias dos artesãos medievais e os apartamentos dos yuppies. Tão caro quanto a família, os amigos, um trabalho prazeroso, a liberdade, a saúde; quanto levar o filho à escola e desfrutar de uma boa noite de sono. Esse é o novo luxo, o luxo pós-crise, um luxo consciente e humano. O luxo simples, pois, na essência, ele sempre viveu na simplicidade. A humanidade só começou a resgatá-lo quando percebeu que estava afogando em um maremoto de ilusões. “A simplicidade é o último grau de sofisticação”. E quem somos nós para desdizer Da Vinci?

Andrea Greca Krueger é jornalista e professora. Paula Abbas é consultora jurídica e empresarial. fevereiro de 2012 |

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mÚsica

O legionário do som Fundador da Legião Urbana, o guitarrista curitibano Kadu Lambach vai lançar este ano um álbum instrumental com músicas de sua antiga banda T  F R M

A

aula de guitarra já se acabara, mas nem Kadu Lambach, nem seu aluno, Felipe, perceberam que batiam dezesseis horas no relógio sobre a prateleira da estante, escondido atrás de alguns discos. Concentração pura. Dona Mariselma ficaria orgulhosa e nostálgica ao presenciar a cena e lembrar-se do pequeno Kadu, que quase quatro décadas antes, aprendia com ela os primeiros dedilhados nas cordas do violão.“Vai lá Kadu, aquela pentatônica, lembra?”, diria ela. Kadu Lambach, músico profissional,é o nome artístico de Carlos Eduardo de Souza Lambach Júnior, que foi aprendiz de Dona Mariselma. Nos finais dos anos 60, Kadu vivia com a família no bairro Batel, em Curitiba. Enquanto Hendrix ateava fogo à sua guitarra, foi ali, na Rua Ângelo Sampaio, que com três anos de idade, Kadu deu os primeiros flertes, mesmo que inconscientes, com a música. “A música entrava pelos meus poros”, afirma. Explico por ele. Suzy Queirós, mãe de Kadu, era na época professora de piano. Chegou a lecionar na Escola de Belas Artes do Paraná, mas costumava dar aulas particulares em sua casa. Assim, Kadu absorvia o repertório erudito, de Mozart a Bach, como uma esponja. “A lembrança mais nítida que tenho dessa época é a de eu estar pendurado no piano da minha mãe, buscando sem sucesso alcançar as teclas”, diz, pescando na memória. Quando tomava classes com Dona Mariselma, Kadu tinha oito anos de idade. Alguns anos se passaram. Anos de dedicação e partituras seguidas à risca. Na adolescência fez suas primeiras apresentações ao público, no próprio ambiente do lar. “Eu ainda era meio envergonhado, mas quando me habituei com as pessoas me olhando enquanto tocava, achei o máximo”. O pai de Kadu, Carlos Eduardo, costumava promover confraternizações em sua casa e habitar os sonhos dos vizinhos com som de qualidade. “Meu pai organizava as rodas de samba e às vezes fal-

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tava alguém para o violão. Aí ele me acordava, de madrugada mesmo, para tocar. Eu ia de pijama, sonolento ainda”, ri-se Kadu ao lembrar. Foi nessa época, com seus doze anos, que iniciou o deslanchar na música. Os hormônios da idade à flor da pele, o som de Stones, Black Sabbath, Hendrix e Elton John e o assanhamento das menininhas, despertaram em Kadu a paixão pela guitarra. Com treze anos passou a ter aulas com Célio Malgueiro, considerado um mestre por formar vários bons guitarristas na capital

coMo guitarriSta Da Legião, KaDu chegou a Fazer quatro ou cinco ShoWS. MaS Sentia que aLgo não o agraDava paranaense. “Desde o início eu amei os solos de guitarra. Quando ouvia um, eu pensava: ‘é isso que eu quero fazer’”, afirma Kadu, convicto. O pai de Kadu Lambach era, no final dos anos 70, chefe do Escritório do Paraná, um órgão que equivale hoje a uma espécie de Secretaria de Estado. Pelas obrigações do cargo, acabou sendo transferido para Brasília e levou a família com ele. A capital federal, no meio do cerrado, era um lugar tedioso, sem atrativos ou entretenimento de qualquer tipo. “Não tinha nada para fazer lá. Eu, adolescente, queria me enturmar, fazer amigos. Foi então que, de fato, conheci a ‘tchurma’”.

O encontro, ao qual Kadu refere-se, aconteceu durante a Festa dos Estados, muito tradicional em Brasília. Esse evento reunia pessoas de todos os lugares do país, de todas as camadas sociais. Na festa, havia diversas barracas. Vendia-se, em cada uma delas, os quitutes típicos do estado que representava. Como seu pai era um funcionário do governo, Kadu foi escalado para ajudar na festa. Entre porções de pinhão e copaços de vinho tinto que vendiam na barraca, conheceu a sua “tchurma”. “Eu ajudava aqui e ali na barraca, quando vi eles chegando. Era o Renato Russo, o Dinho Ouro Preto e o resto da galera do rock de Brasília”. Não foi difícil a interação. “Eu já carregava o estilo rockeirinho e eles, naturalmente, perceberam isso. Chegavam toda hora na barraca onde eu estava. ‘Vamos lá na barraca do Paraná’, falavam. Eu trocava uma ideia com eles e descolava um vinho na faixa”. Foi graças à Festa dos Estados que Kadu ganhou o apelido: Paraná, Eduardo Paraná. Por ele, seria conhecido, posteriormente, como guitarrista e fundador da banda de rock brasileira Legião Urbana. Em Brasília, Kadu continuou a desenvolver sua música. Tocava com alguns amigos e fazia pequenas apresentações. Nessa mesma época, Renato Russo havia saído do Aborto Elétrico, uma banda de conceito do cenário brasiliense. Tornou-se, então, o “Trovador Solitário”, apelido concedido a ele pelo próprio Kadu. “O Renato andava pelas ruas com um violão, tocando músicas dele, sempre sozinho. Não tinha descrição melhor”. Na época, Kadu, aprimorado na guitarra, já fazia um som interessante, de qualidade. E foi ao fim de um concerto no Lago Norte, no qual apresentou-se, que recebeu o convite: “Quando eu desci do palco, o Renato Russo chegou em mim e disse: ‘Curti muito o seu som. Estou montando uma banda com aquele baterista (era o Marcelo Bonfá). Você quer tocar com a gente?’ Eu nem hesitei e disse sim. Ali estava a célula da Legião Urbana”. Os ensaios da banda, até então sem nome, aconteciam na 111 Sul, casa do Kadu. O primeiro show,


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não guardo Nenhum rancor ou mágoa. Eles seguiram o caminho deles e eu o meu. Aliás, fui eu quem incentivou o Dado a assumir a guitarra

De cima para baixo: com 3 anos, sentado no párachoque de um Fusca; aos 16 anos, sempre com o violão; Kadu, Renato e Bonfá no primeiro show da Legião, em Patos de Minas; Kadu em 2011. (Fotos: Arquivo Pessoal)

Renan Machado

junto da Plebe Rude, aconteceu na Festa do Milho, um evento da cidade de Patos de Minas. Nessa oportunidade, apresentavam-se já com um nome. “O batismo da banda se deu no quarto do Renato. Estávamos nós três e o Renato jogava I-ching. Ele se amarrava nessa coisa de esoterismo. De repente ele falou: ‘Temos esses dois nomes aqui. Qual vai ser?’ Um era Legião Urbana, o outro não me lembro, mas era tão bom quanto”, conta Kadu. Como guitarrista da Legião, Kadu chegou a fazer quatro ou cinco shows. Mas sentia que algo não o agradava. A banda começava a trilhar um caminho diferente. Ao trazer musicalidade para a banda, preocupar-se com a qualidade do som, afrontou alguns conceitos do rock que se fazia na época. “A turma do rock de Brasília preocupava-se com o estilo. A estética punk era uma ditadura. Bem na verdade eram grandes marqueteiros e isso não era para mim”. Kadu acabou cedendo à pressão: “Íamos nos apresentar e eu queria abrir com ‘O cachorro’, um instrumental nosso. Mas o Renato e o Bonfá não queriam. ‘Onde já se viu Legião Urbana abrir um show com instrumental’, diziam. Então eu resolvi: querem saber? Vou sair da banda”. Carlos Eduardo de Souza Lambach Junior, que fora Eduardo Paraná, tornou-se Kadu Lambach. Como músico independente, fez trabalhos no eixo Rio-São Paulo e cidades do interior do Brasil. Tempo depois, retornou à capital federal, onde se formou em Música, pela UnB (Universidade de Brasília). “Quando voltei a Brasília, eu tocava na noite com uma rapaziada, de forma paralela à fama da Legião. Era engraçado. Logo depois da entrada do Dado Villa-Lobos, a banda estourou no país inteiro”. Se questionado acerca do sucesso da banda posterior a sua saída, se guarda algum rancor, responde risonho: “Nenhum rancor ou mágoa. Eles seguiram o caminho deles e eu o meu. Por muito tempo o Renato foi meu conselheiro. Ele dizia: ‘Paraná, se a sua praia é o instrumental, faça. Mas toque o coração das pessoas com ele’. Aliás, fui eu quem incentivou o Dado a assumir a guitarra. Ele dizia que tocava mal, mas eu insistia: ‘Vai lá Dado, você é o cara’”. Hoje, Kadu reside em Curitiba, para onde voltou a fim de realizar um mestrado que nunca completou. Apresenta-se em vários locais da capital e leciona como professor particular. Desde 1983, quando deixou a Legião Urbana, Kadu gravou dois discos instrumentais: “Last Blues”, lançado em 1997, e “Microfonia”, gravado em 1999, e ainda não lançado, que conta com a participação do baixista norte-americano Stanley Clark. Para 2012, são duas suas promessas. “Desse ano não passa. Será lançado o ‘Expressivo’, meu terceiro disco, e o ‘KaduLambach – O legionário do som’, no qual vou gravar, após ganhar o aval da família Manfredini, grandes sucessos da Legião Urbana na pegada instrumental”, revela Kadu, em seu apartamento bem arejado, em meio a gritos de crianças, vindos da Praça Oswaldo Cruz.


Marcio Renato dos Santos

Nada exemplares

O

lho para frente, azul. Para cima, também. Fecho os olhos. Não sinto vontade de fazer nada, mas bebo um gole de água de coco. Há uma ilha no horizonte, logo ali, em meio ao mar, no litoral do Paraná. Estou aqui, na areia, sentado em uma cadeira, embaixo de um guarda-sol, e gostaria de esquecer que existe facebook, comentários, postagens, botão para curtir e fotos com citações. Cinco ml de protetor solar nos braços, nas pernas e nos pés, e outros ml para o rosto. Um gole de água de coco, outro de refrigerante ou cerveja. Fecho os olhos. Ainda não esqueci o facebook. Antes da internet, e do facebook, se popularizar, trabalhei em redações de jornal. Há quanto tempo? Não lembro. Mas, agora, ao beber água de coco na beira do mar, me dou conta de que atuei por um breve período como repórter policial. A ronda, como é chamada a rotina de perambular por delegacias em busca de notícias, evidenciou a minha incapacidade jornalística. Os fatos estavam lá, nos boletins de ocorrência. O que não havia era um repórter, e sim eu, o gauche no local inapropriado. Nas manhãs dos sábados, a primeira tarefa era seguir até o Instituto Médico Legal e contar, e analisar, a quantidade de crimes registrados da noite anterior até aquele momento. Eu pedia a lista de atestados de óbito e anotava, em um bloco de papel, os dez homicídios, os quinze latrocínios e os dezessete acidentes fatais do trânsito. — Ei, aqui não tem morto pro teu jornal. Quem enunciou a frase foi uma mulher com no mínimo duas décadas de vida a mais do

que eu. Ela disse, para mim, “Ei, aqui não tem morto pro teu jornal”, na primeira ou segunda manhã de sábado em que passei a fazer a ronda no IML. Aquela mulher, uma repórter veterana, acendeu e fumou um cigarro. Perguntou meu nome, quis saber se era a minha primeira vez ali. Policiais chegaram, a cumprimentaram e começaram a conversar com ela. Eles se afastaram de onde eu estava, olhavam para mim, trocavam palavras, gesticulando, e riam, a gargalhar. — O teu jornal quer morto ilustre, e aqui só tem treta. Menino, hoje você vai ficar sem notícia. Aqui, dentro do cartão-postal, é mais fácil, apesar dos 30ºC, a brisa refresca, o mar está a poucos passos, bebo mais um gole de água de coco, a cerveja acabou? E o jornalismo? Da editoria policial migrei para o caderno de agricultura, passei uma temporada no geral, um tempo no esporte, então pendurei as chuteiras, carpi o pé, deu pra mim. O número de suicídios, sobretudo de mulheres, era igual ou superior ao de assassinatos e outros crimes, mas os jornais não divulgavam essas informações. Por quê? Uns diziam que notícias a respeito de suicídios poderiam estimular o ato, outros argumentavam que uma lei proibia a divulgação. Bebo mais um gole de cerveja, outro de água de coco e, dentro da sacola, vejo um livro de contos do Enrique Vila-Matas. Suicídios exemplares. Foi o título da obra que me fez lembrar o meu fracasso no jornalismo e o universo da reportagem policial? Por que lembrei dessas coisas? Eu só queria relaxar, esquecer o facebook e o mundo. Bebo mais um gole de água de coco, outro de cerveja e não me incomodo com os efeitos desses 30ºC.

Marcio Renato dos Santos é escritor. fevereiro de 2012 |

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Solda

helena

hanna arendt, no papel de helena

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esde que fui expulso da Itália por haver escondido uma holandesa de bom tamanho no quarto que me fora cedido por algumas liras semanais eu não via Helena. Era um ano febril, de grandes desfalques e imensas recordações, mas pesar de tudo ainda se conseguia um bom martini no Ferruci. Na época da expulsão, duas dolorosas semanas antes, fui internado no Hospital de Estrangeiros, como convém a todo estrangeiro doente, com uma crise renal, de vital importância na ocasião. O Hospital de Estrangeiros nunca fora o local indicado para se cortejar enfermeiras, pois lá sempre houve uma disciplina muito rígida, desde que um árabe com cirrose fugira com a anestesista de plantão. Além das visitas de um médico baixinho de óculos, cujo nome, pela cara sardenta e gorda devia ser Rosco, já que todo baixinho com a cara sardenta e gorda na Itália descende dos Rosco, quando não dos Pupazzeto, eu era visitado por um compatriota hediondo com hepatite e por Helena, que me proporcionava ereções regulares quando tirava minha pressão, se é que eu a tinha.

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Como estrangeiro, estava ali de passagem, até que a crise renal permitisse que eu voltasse novamente às ruas para me encharcar desesperado com os martinis do Ferruci. Durante minha estadia naquele depósito de doentes sem pátria, desfrutei de tudo aquilo que Helena me podia oferecer: seu estoque de maçãs e biscoitos e seu corpo, um labirinto de paixões desenfreadas. O porte físico de Helena era de tal modo magistral que se assemelhava à Úrsula Andrews dos bons tempos! Tirando as queixas de falta de ar do cubano do 409, a rotina tomava conta do Hospital. O Sanchez, era esse o nome do cubano, era na verdade um molenga, internado com problemas auditivos. Não sabia distinguir rumba de samba-canção, mas quem é que ligava pra essas coisas quando o importante era tão somente a vida? Certa vez, não suportando a falta de ar, arremessou o rádio de pilhas contra o plantonista, um pobre coitado que se atrevera a executar “Granada” em arranjo para seringa de injeção. A vida se apresentava radiante naquela primavera, só perdendo o brilho quando Helena e eu éramos surpreendidos em colóquio no banheiro encardido da pobre ala na qual fui

obrigado a permanecer quando souberam que eu era do Terceiro Mundo. O tempo passava depressa quando as dores deixavam. Uma vez por dia um médico baixinho me obrigava a uma micção cautelosa num vidrinho manchado que eu sempre acreditei ser um frasco de menor valor, pois ninguém no mundo fabrica vidrinhos com a intenção de servirem como recipientes de urina doentia para exame. E lá com meus botões eu conversava, ora em italiano, ora em dialeto siciliano, não sem antes tagarelar pelos corredores do Hospital feito estrangeiro com problemas nos rins. Quando dei por mim, estava fora dos muros amarelados do Hospital, no Ferruci. (Prof. Thimpor é apedeuta, imbecil, metido a besta e acha que escrever é só juntar palavras.)

To be continued...

solda é escritor, humorista e cartunista.


Antonio Augusto Figueiredo Basto

Numa esquina ao entardecer uando o crepúsculo se aproximava caminhei, dilacerado e disperso pelo vazio que me aguardava, tomado pelo incômodo cansaço do algo já feito. O teatro da existência me desconcerta, a subserviência humilhante e crapulosa de meu personagem, servo resoluto, escravo penitente das ficções sociais exaspera. O rubor que me sobe pela face é a vergonha malsã da alma malcontida nos diques da sanidade, comprometida pela afrontosa obediência e temperamento estoico que lhe asfixiam as primitivas paixões, sufocando o grito, suprimindo o ódio, vigiando e refreando a ferocidade, deixando apenas uma dor resilente e soturna. Esse canalha de rosto inexpressivo e tonto, espectro de minha alma, dá náuseas, requinta ao vestir, medita ao falar, frequenta os salões, oculta o amor, incapaz de uma má palavra, não ousa ser cruel, é educado, refletido no gesto e na ação, uma disciplina que subjuga a paixão e me faz doer o corpo. Cercado de bestas servis, sua força os néscios convence e os idiotas a professam com bovina devoção, assim concilia a todos, mas na serena noite não se reconcilia comigo, então lhe digo: — Desgraçado, aonde vai tua alma? Teu sangue? Tua morte, tua loucura? Quem dera a loucura fosse teu epitáfio. A batalha agora não é na planície, mas nos píncaros do espírito. Defrontamo-nos, ele repleto de virtudes, avareza e pusilanimidade, sátiro de minha solidão e do sigilo do meu coração, desnuda-se, arqueja, respira penosamente, encarquilha, não suporta a imensidão da alma rubra de desejo, primitiva anseia por amor e crueldade, pelo ardente prazer, então se oculta como o sol entre plúmbeas nuvens, rei que não suporta os ventos e tempestades do espírito. Apareço, sou aquele a quem só resta o si-

lêncio da noite calma e escura como o negro mar, ali como náufrago desorientado afogo minhas ilusões e meu pensar. Enxergo o ridículo, a minúscula peça da engrenagem que prende e esmaga minha alma, não me sinto o curvo arco que dispara e escolhe a caça, mas

a alma, criatura ignorante das coisas desse mundo, reinará no alvorecer dos dias e contemplará com mesquinha satisfação as podridões do cadáver da razão

a aguda flecha cujo alvo é sempre determinado. Então rogo à senhora do meu destino: — Sai anjo da humilhação, tira a máscara da virtude, síntese de teu medo, sai e deixa vir a fera que dilacera meu peito, espuma de ira, geme de prazer, rompe os tendões que te prendem. Que Deus te abençoe, não seja Gabriel ou Miguel, que o sétimo inferno de Dante seja teu paraíso, Dulcinéia de Quixote, abandono do Sidartha, a luz de Borges, o retiro de Zaratustra. Lá encontrarás um colo tenro e macio da linda concubina que roubaste de Salomão e ela te dirá: -“És minha vida”, estático e inebriado de paixão, responderás:- “És minha alma”, a vida é finita, a alma eterna como o amor”. Mesmo figure apenas na frase de um poema essa fugacidade vale a eternidade, como a agonia do madeiro, os gemidos de Tereza, a maldição de João, a raiva de Elias, Byron em Veneza. Possuído de desmesurada volúpia, ópio de minha alma, não para, rasga os livros, esquece as palavras esse invisível punhal que carregas, cria teus livros, inventa teu idioma e que só ela te compreenda, se nenhum homem entender, melhor, Deus entenderá. Prometeu agonizante, venha o querubim e ponha a brasa do amor em minha boca, purifique a alma com o fogo da paixão e que meu espírito se abrase para não queimar. Quando não houver palavras, não haverá salvação, o herói será extinto, a alma criatura ignorante das coisas desse mundo reinará no alvorecer dos dias e contemplará com mesquinha satisfação as podridões do cadáver da razão.

antonio augusto figueiredo basto é advogado e escritor. fevereiro de 2012 |

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ÚLTIMAS DA MODA

por Paola De Orte

Mas o Carnaval nem começou E

, no circuito da moda, os designers já estão apresentando as coleções Pré-Inverno de 2012. E olha que, para o Hemisfério Norte, o Inverno de 2011 continua a reinar absoluto. A moda, às vezes, parece anacrônica, mas, aos curiosos, como do meu tipo, é inevitável o ímpeto de bisbilhotar coleções que, não apenas não dizem respeito à estação atual, mas, além disso, só devem chegar às lojas no segundo semestre deste ano.

Pré-Inverno A Lanvin uniu silhuetas marcantes a materiais inovadores, enquanto Alexander Wang continuou apostando em uma linha mais esportiva e despojada e Giorgio Armani investiu na androginia.

Lanvin

Alexander Wang

Pyramide Bag Na campanha publicitária para a Primavera de 2012, a Prada fez-nos o favor de apresentar sua nova bolsa, a Pyramide. Comportadinha em tamanho e em traços, o destaque fica para as cores.

Cobalto, esmeralda e amarelo pálido De repente, surgem cores que fazem você pensar: como eu não havia reparado nelas antes? A esmeralda, escolhida para o vestido Proenza Schouler; o amarelo pálido, no terno Emilio Pucci; e o cobalto, tanto no colar Kate Spade, na calça ASOS, quanto no casaco Stella McCartney, são exemplos de matizes que, de tão inesperadas, parecem ter sido criadas neste minuto, ainda que estejam aí desde o começo dos tempos.

Sapato plataforma Tudo bem que as plataformas já invadiram os verões brasileiros desde há tempos e não são nenhuma novidade, mas não é disso que estou falando! Dá uma olhada nesses modelos Chloé, Jean-Michel Cazabat e Topshop e me diz se eles não são uma loucura!

Giorgio Armani

As grandes surpresas, dignas de nota, no entanto, foram as coleções da Honor, que, apesar de tantas misturas de estampas, materiais e comprimentos, conseguiu alcançar o equilíbrio; da Erdem, cujo estilo, de tão delicado e meticuloso, tornou-se único; e da McQ, cujas silhuetas, contornos e alfaiatarias clássicos, de tão exatos, ainda que sóbrios, beiram o sublime.

Fedora À primeira vista, a ideia de um chapéu Fedora também parece tão passé, tão 2007. Mas não esses modelos gangsta, como o da Topshop, que vem aparecendo em blogs de streetwear.

Os “outros acessórios” (ou “os relegados”)

Honor

Erdem

McQ

Dior Couture por Patrick Demarchelier O recém-lançado livro Dior Couture traz imagens do fotógrafo de moda Patrick Demarchelier, responsável por algumas das fotos mais famosas vindas da maison francesa. O livro pode ser comprado na Amazon, que entrega no Brasil, e traz uma retrospectiva das maiores criações de haute couture da marca, desenhadas pelo próprio Christian Dior, mas também por seus sucessores, Yves Saint Laurent, Marc Bohan e John Galliano.

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No Brasil, a predileção pelos brincos é tanta que as moças parecem não saber sair de casa sem eles. Quantas vezes já não escutei “sem brinco, parece que estou nua!”. Ora, vamos deixar de besteira! Abandone os brincos alguns dias na semana, eles já fizeram o que podiam por você! A estação está para colares e anéis. Eles dão uma renovada (ufa!) e você pode deixar as argolas em casa descansando. Elas merecem, depois de tantos verões.


Renan Machado

O romance

uando o romance acabou, ela pensou em jogar-se da janela do prédio em que morava. Que sentido tudo faria agora? Há semanas não conseguia dormir direito e isso a exauria aos poucos. Bolsas azuladas formavamse sob seus olhos. Olhos verde-esmeralda, penetrantes e muito sinceros, que agora estavam vermelhos e inchados. Ele sempre dizia que as maiores histórias são contadas pelos olhos – lembrava-se ela, e se derramava em lágrimas. Nada mais seria como antes. O janelão do apartamento estava aberto e ela debruçava-se sobre o parapeito. Lembrou-se de dias felizes quando, ali mesmo naquela janela, pensava na tragédia que seria se ela despencasse por acidente do oitavo andar. Seu velório de caixão fechado estaria cheio: familiares, pai, mãe e muitos outros, dos quais ela lembrava-se apenas de vista, todos seus grandes amigos, com quem ela já não conversava, e inúmeros conhecidos, que sempre a chamavam para tomar um café e ela aceitava sem saber seus nomes. Se fora. No dia seguinte a vida continuaria e ela seria lembrada como uma mancha de sangue em um jardim.

Pensou em entrar para um curso universitário. Letras, medicina talvez ou quem sabeeducação física. Mas desistiu logo. Não tinha dinheiro nem competência. Ele sim poderia ter ido para uma faculdade. Seria exemplar e ficaria dia e noite enfurnado na biblioteca. Ele poderia ter sido muita coisa, para muita gente, mas ela o aprisionou, o escondeu para que ninguém mais o visse. Meu, meu e meu. Obsessão. Ao admirá-lo, optou por uma dedicação incondicional, isolou-se de tudo e

Todas as noites, lia a bíblia e buscava serenidade, mas seu pensamento corria para ele, a saudade insistia em oprimir seu peito

de todos e esperava pela loucura. Quantas vezes sua mãe a advertiu de que um romance não é tudo. Ela não ouvira essas palavras. Pobre diaba. Onde fui me meter... – lamentava. Só Deus sabe como sinto falta de viver aventuras ao lado dele. Tentou tornar-se uma religiosa, uma verdadeira mulher de Deus. Irmãs visitavam seu apartamento e oravam por ela. Ia à missa todos os domingos e se confessava com frequência. Todas as noites, lia a bíblia e buscava serenidade, mas seu pensamento corria para ele,a saudade insistia em oprimir seu peito. Não havia mais o que fazer. Isso precisava acabar ou seria sua ruína. Não preciso mais viver no passado, não posso. Fitava-o com um olhar fixo, de ódio, pena e paixão. Num impulso, o pegou em suas mãos e atirou-o na pia da cozinha. Embebeu-o com álcool etílico e acendeu um fósforo. Segurando a chama entre os dedos, deu uma última olhada para ele, aberto na página 263, soltou o palito e saiu pela porta sem olhar para trás.

renan machado é escritor.

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ISABELA FRANÇA

A Bela A

tleticana, geminiana, sensível, vaidosa, elegante, loira, olhos azuis já seriam adjetivos suficientes para que a psicanalista Sibele Miraglia tivesse uma legião de fãs de todas as tribos. Mais do que isso, ela ainda é uma das mais positivas e interessantes personalidades curitibanas entre os usuários ativos do Facebook. Diariamente posta na rede social e puxa comentários dos mais diversos, sempre favoráveis. Com a mesma elegância e cuidado que tem consigo, seu mural é recheado de dicas únicas que vão de charges, links de notícias e trechos de obras literárias a fotos de encontros familiares e cenas domésticas prosaicas. Tudo, porém, muito pertinente ao universo da rede. Pergunto a ela qual o segredo para ter tanta repercussão positiva e interação e ela responde apenas que gosta de comunicar-se e acha o Facebook um instrumento democrático ao permitir o contato direto com muita gente. “As frases e os livros, desde a infância, sempre foram uma boa companhia e por isso os chamo de ‘o inanimado com alma´”, justifica. Cuidadosa nas respostas e modesta, não admite que seu apurado senso estético lhe dá uma visão privilegiada. Conversa com a mesma desenvoltura com donas de casa e psicanalistas. Percebe-se que Sibele gosta das pessoas e do contato humano. Mas, bem mais do que gostar, ela sabe como falar com as pessoas. Num universo de intervenções tão variadas em que o feijão-com-arroz convive com o comercial, político, duvidoso, grosseiro, inadequado, preconceituoso e exibicionista, a sutileza de Sibele se destaca. Membro da Sociedade de Psicanálise de São Paulo, tem consultório em Curitiba, onde vive com o marido Bruno, engenheiro, e três filhos adolescentes. Aprecia as coisas boas da vida: amizades, literatura, poesia, viagens, artes plásticas, arquitetura, moda. Enfim, o que é belo. Muito mais belo que o universo que a cerca é o animus de Sibele, com alma. 74

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Cicatriz O cenógrafo Áldice Lopes mais do que assinou a exposição que conta a história do Palácio Iguaçu, inaugurada em sua reabertura, em janeiro. Além de definir e posicionar onde ficariam os painéis fotográficos e as vitrines com o acervo histórico tais como louças, talheres e outros objetos originais do palácio, Áldice ganhou 14 pontos no antebraço ao tentar aparar uma das cúpulas de vidro da mostra. Ao cair, a peça quebrou e os cacos atingiram o rapaz. Ainda assim, ele concluiu o trabalho.

Calendário Titton A artista plástica e poeta Elizabeth Titton entregou-se ao Corel Draw e criou mais um calendário inspirado nas obras de sua coleção In Natura, com as árvores e passarinhos em aço, recortados a laser, para ornamentar as mesas de boa linha em 2012. Acostumada a literalmente “pôr a mão na massa”, decidiu ela mesma diagramar o recheio impresso do calendário. O resultado foi sensacional. Formada pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná e mestre pela Universidade Federal do Paraná, Elizabeth é escultora e educadora. Suas esculturas, gravuras e desenhos, de formas aparentemente simples, são uma depuração do essencial. Utiliza vários materiais, entre eles o bronze, o alumínio, a madeira e a cerâmica. Com passeios pela mitologia universal e pelo universo indígena brasileira, em seus mais recentes trabalhos, Elizabeth reorganiza alguns temas sob novas formas, na busca da simplicidade da natureza.

Pinocchio

Depois de homenagear Voltaire, Dickens, Dostoiévski e Proust, a Montblanc lança uma série limitada de canetas batizadas com o nome do escritor italiano Carlo Collodi, autor de Pinocchio. Cada detalhe da edição é cuidadosamente desenhado para refletir a obra do autor. A matéria-prima da linha Collodi é uma resina marrom escuro e os coloridos personagens do livro, incluindo a voraz baleia, o leal grilo, a sombria raposa, o ardiloso gato e a fada-madrinha, estão estilizados na tampa. Um parafuso incrustado no clipe simboliza as juntas do marionete, enquanto um cone remete ao nariz de Pinocchio. O número da edição limitada e a assinatura de Collodi ornamentam o alto da tampa; e a pena de ouro champanhe 18K com a gravura do grilo completa a coleção que tem canetas-tinteiro, esferográficas e lapiseiras. A história de Carlo Collodi sobre o boneco de madeira tem encantado gerações.  Nascido Carlo Lorenzini, em 24 de novembro de 1826, em Florença, Itália, Collodi cresceu em circunstâncias modestas, mas teve a sorte de ter sua educação financiada pelos patrões de seus pais. Trabalhou como bibliotecário, tradutor, romancista, escritor político e passou um período no Exército antes de publicar seu próprio jornal satírico, Il Lampione, com o qual fazia dura oposição à ocupação austríaca. “As Aventuras de Pinocchio” foi publicada em 1883. As fabulosas peripécias do travesso boneco de madeira Pinocchio alcançaram dimensão internacional no século 20. Collodi morreu, em 1890, sem imaginar o sucesso mundial que sua obra faria. fevereiro de 2012 |

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ISABELA FRANÇA

Na estrada

Depois de viajar pela América do Sul e América do Norte, chegando ao Alasca, de motocicleta, o empresário e chefe de cozinha curitibano Beto Madalosso está preparando sua nova aventura sobre rodas. Desta vez, pela Europa. A moto já chegou, antes dele. De Miami, onde encerrou seu último desafio, a motocicleta foi despachada para Copenhague, na Dinamarca, onde Beto inicia o novo itinerário. Assim como nas demais viagens, Beto pretende traçar a rota no decorrer do percurso, definindo por onde passar e ficar. Uma coisa, porém, é previsível: no caminho pretende comer muito bem. Propósito, sem dúvida, mais fácil de cumprir que em terras norte-americanas.

Dose Dupla O fotógrafo Kraw Penas entrou 2012 com uma nova e grande família. Pai de Júlia e Henrique, em agosto, mês dos Pais, “ganhou” Pedro, um jovem de 15 anos, seu primogênito, que não conhecia. Foi um encontro emocionante e a nova família ficou pra lá de feliz. No final do ano soube que chegaria mais uma menina, fruto de seu segundo casamento com a bela Marilê Bravo. A mais nova integrante do clã Penas chegará no final do primeiro semestre.

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Cena rock Eles estão na casa dos 40, são profissionais, bemsucedidos, bem casados e bem bonitos. Dado Guimarães, Wilmar Cornélius, Beto Trombini e Beto Tarlé formam um quarteto de sucesso na cena musical local. São os Outsiders, que de outsiders nada têm. A começar pelas cônjuges e tietes de carteirinha Consuelo Guimarães, Elaine Cornélius, Evelise Trombini e Rafaela Prosdócimo Tarlé. Com ensaios e apresentações regulares, os quatro deram certo ao reunir a habilidade musical e o gosto pelo rock dos anos 80 e 90 e já têm calendário para 2012, para a alegria do público de amigos fiéis que encontrou porto - na aridez da techno & country music que toma conta da atualidade com as apresentações da banda em festas e bares de Curitiba. A banda com um ano de carreira estreou fora dos limites do Paraná no John Bull de Florianópolis, na temporada.


Venham

O Brasil está no centro de Madri, na Espanha. A estação de metrô Campo de Las Naciones, uma das mais movimentadas da capital espanhola, foi escolhida para receber o material da campanha publicitária “O Brasil te chama. Celebre a vida aqui”. Adesivos gigantes de praias, cachoeiras, matas e monumentos históricos convidam os europeus a conhecer o Brasil. A ação coincide com a realização do maior evento turístico da Espanha, a Feira Internacional de Turismo - Fitur. O Brasil participou da feira, em janeiro. O ministro do Turismo, Gastão Vieira, e o diretor da Embratur Marco Lomanto estiveram no estande brasileiro e receberam jornalistas, diplomatas, empresários e formadores de opinião num coquetel no Mercado San Miguel.

(Des)cortesia

Em um dos mais requisitados hotéis do mundo, na África do Sul, um casal curitibano sofreu um furto com requinte de ironia, em dezembro passado, nas férias de fim de ano. Após roubar uma quantia vultosa em dólares bem guardada numa mala com segredo, o espirituoso ladrão se deu ao trabalho de abrir o cofre do apartamento e deixar de lembrança às vítimas um analgésico. Recado para que não se sentissem culpados por não terem guardado a grana no lugar devido.

20 anos Francisco Gomide, professor doutor da UFPR, é unanimidade no meio acadêmico. Figura íntegra e de convicções, na casa dos 70 anos, vai desconcertar homens públicos paranaenses com uma afirmação que será publicada na terceira edição da revista científica do Instituto de Engenharia do Paraná, produzida pela jornalista Valéria Prochmann. Diz com todas as letras que jogou 20 anos de sua vida fora, referindo-se ao período em que ocupou cargos públicos. Gomide foi ministro das Minas e Energia, presidente da Itaipu, da Copel e da Excelsa.

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Claudia Wasilewski

Na sauna do clubão ue tal um passeio em uma sauna masculina? Eu fiz. Calma gente, não fui pessoalmente. Tenho queridos que amigos me contaram nos mínimos detalhes como é o espírito do tio da sauna. Ou como eles chamam “o véio sauna”. Isto é, um estilo de vida. A sauna, além de deixar pelado, desmascara. Não é diversão ou saúde. É vantagem. Para pequenas coisas. Bem pequenas. Foram encontrados 254 sabonetes em um armário. O que leva uma pessoa a usar 8 toalhas em um só dia? Vantagem, é claro. Por menor que seja. Penso que por isto o desodorante Très Marchand fica amarrado. No clubão também existem furtos. Desapareceu quase uma cesta básica colonial. Um queijo curado e um salame cracóvia. Ambos de excelente procedência. O pau quebrou. Faltou pouco para a agressão física. Houve obstrução da geladeira coletiva. Como assim? A geladeira é área comum. Mas o véio sauna não se deixa abater. Para que serve a justiça? Então... Relato à diretoria. Processo administrativo para investigar o furto do salame. Foi arquivado. Mas a justiça existe para ser utilizada. E quase rolou boletim de ocorrência e processo judicial. Mas tudo foi acertado. Com panos quentes, como se trata de uma sauna. Ainda bem que ninguém mexe nos armários. Aí sim é bacana. Tem vinho, azeite e até marisco. É o que dizem por aí. As provocações são totalmente diferentes. Começa com arremesso de cotonetes, evolui com talco na cara, para somente depois chegar na porrada. Achei bem cuti-cuti o duelo de cotonetes. É bom deixar para lá. Nem só de intrigas se vive por lá. Existem confraternizações. Opa! Um assador foi proibido de fazer churrasco pelado. Eram encontradas “coisas” no filé. Bem o que vocês estão pensando. Hoje coloco todos os filés sob suspeita. Segundo me contou o cozinheiro de plantão, até areia com salsa e cebolinha é bem-vinda. Camarão bem grandão e bacalhau são os favo-

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ritos por lá. Nisto fecho com os véios sauna. Tem que ser bom e bastante. Acompanhem a receita de bacalhau para um jantar na sauna: • 09 quilos de bacalhau (do bom) • 04 quilos de batatas • 36 ovos cozidos (credo!) • 05 litros de azeite de oliva • 10 cebolas • Tomates, pimentões, etc... • Muitos vidros de azeitonas • 05 quilos de arroz para acompanhar

As provocações são totalmente diferentes. Começa com arremesso de cotonetes, evolui com talco na cara, para somente depois chegar na porrada

Tudo isto detonado em apenas 17 minutos. Cronometrados pelo cozinheiro. Calculo que ficou feliz. É um elogio quando só sobram os caroços das azeitonas. Os tios cheios de apetite. Infelizmente nem tudo tem perfume de eucalipto. Tragédias também acontecem. Um senhor faleceu na espreguiçadeira. Será que feliz? Isto nunca saberemos. O que posso afirmar é que foi um reboliço danado. Foram acionados serviços de ambulância, SAMU e SIATE. Obviamente que não apareceram porque o homem estava morto. Só restava uma única e nefasta opção. Cancelar o jantar daquela noite. Assim se tentou. Porém, confraternizações são levadas bem a sério. De jeito nenhum. Esta hipótese nem poderia ser considerada. Sempre tem um jeito. Para que serve a sala de massagem com suas macas? Claro que para ali descansar o corpo de um grande companheiro. Com todo o respeito e tristeza que a ocasião merecia, foi feito o jantar. Afinal, o serviço funerário é burocrático e demora por horas. No verão os tios migram para a praia e grande número deles habitam em frente a minha janela. Um beijo para os tios e narradores que proporcionaram-me por duas vezes sentar e ouvir estas histórias e estórias deliciosas.

Claudia Wasilewski é empresária.


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Cartas

Escreva para cartas@revistaideias.com.br

ideias economia Nota dez, parabéns pelo belíssimo trabalho, o resultado não poderia ser outro. Trabalho sério e competente de toda a equipe do Governo! Bacana! Continuem assim! Moacyr Muito boa revista... Confesso que não conhecia... Newton Galvão Amigos Psdbistas, petistas e “neutros”, Não é só porque eu escrevi um artigo nessa edição da Revista Ideias que eu acho que ela deve ser lida. É também porque ela é expressão da competente convergência de ideias e ações do governo estadual e da iniciativa privada que a administração Beto Richa (Hauly na Fazenda) vem conseguindo implementar, para benefício da sociedade. Foi o que eu percebi quando pesquisei para escrever o artigo e, depois, lendo a revista toda. Não encontrei nada parecido nos outros estados. Muito legal. Grande abraço e um produtivo 2012! Angela Kulaif Terminei meu casamento de oito anos por causa de uma traição virtual. Começou pela internet e depois concretizou-se. Na verdade, a internet é mais uma maneira de fazer o que sempre se fez por outros meios, lamentável. Lucia Silva No Paraná, o índice é maior porque as pessoas são mais reclusas, ficam mais em casa. Mas para ser infiel hoje em dia basta querer, está fácil. João Simões

o paraná vai decolar Será que vai mesmo? Desde o início do governo nada mudou. Vamos ver o que será deste ano. Antonio Freitas

a estrada da vida

sorveteria gaÚcHo

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REDAÇÃO Marisol Vieira, Thais Kaniak COLUNISTAS Andrea Greca Krueger, Antonio Augusto Figueiredo Basto, Carlos Alberto Pessôa, Claudia Wasilewski, Ernani Buchmann, Isabela França, Izabel Campana, Jussara Voss, Luiz Carlos Zanoni, Luiz Fernando Pereira, Luiz Geraldo Mazza, Luiz Solda, Marcio Renato dos Santos, Marisa Villela, Paola De Orte, Paula Abbas, Pryscila Vieira, Renan Machado, Rubens Campana

FOTOS DA CAPA João Le Senechal (fundo e Nega Maluca) Rodrigo Juste Duarte (moça Zumbi)

Muito legal o perfil da Sorveteria Gaúcho. Bom texto “gastronômico” é aquele que te dá vontade de ir no lugar. Já senti o gosto da raspinha de limão, parabéns! Tatiana Ferraz

berlin

moda

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CHEFE DE REDAÇÃO Marianna Camargo

TRATAMENTO DE IMAGEM Carmen Lucia Solheid Kremer

Adorei a coluna das meninas da Berlin. Ótima escolha!! Cris França via Facebook

Adorei a matéria sobre o circo. Meu filho de cinco anos faz e é muito bom para o desenvolvimento emocional dele. Recomendo a todos. Flavia Pellegrini

EDITOR-CHEFE Fábio Campana

DIRETOR DE FOTOGRAFIA Dico Kremer

rubens campana

Quer trair? clica aQui

Publicação da Travessa dos Editores ISSN 1679-3501 Edição 124 – R$ 10,00 ideias@revistaideias.com.br revistaideias.com.br facebook.com/revistaideias twitter:@revistaideias

COLABORADORES Cláudia Gabardo, João Le Senechal, Pedro Lichtnow, Renan Machado, Rodrigo Juste Duarte

Muito bons os artigos de Rubens Campana. Não concordo com todos, porém todos os argumentos são reflexivos, com peso e inteligência. Paulo Ventura

O governo estadual está trazendo para o Paraná investimentos importantíssimos, abriu portas que estavam fechadas há anos. Agora é só saber administrar. Pedro Lourenço

REVISTA

As colunas de moda da Paola De Orte são ótimas. Revelam com senso de humor e pontos de vista peculiares assunto que não precisa ser sisudo. Maria Guimarães

ARTE E PRODUÇÃO GRÁFICA Luigi Camargo REVISÃO Márcia Campos CONSELHO EDITORIAL Aroldo Murá G. Haygert, Belmiro Valverde, Carlos Alberto Pessôa, Denise de Camargo, Fábio Campana, Lucas Leitão, Marianna Camargo, Paola De Orte, Rubens Campana PARA ANUNCIAR comercial@revistaideias.com.br PARA ASSINAR assinatura@revistaideias.com.br ONDE ENCONTRAR Banca do Batel Banca Boca Maldita Banca da Praça Espanha Fnac Shopping Barigui Revistaria do Maninho Revistaria Quiosque do Saber no Angeloni Banca Presentes Cotegipe no Mercado Municipal Livrarias Ghignone Banca Bom Jesus Revistaria Itália Banca Shopping Curitiba

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Você decide? Quem lê Ideias, sim. Em Curitiba, 20 mil pessoas leem a revista Ideias e decidem o destino da cidade. Seja uma delas: assine e decida. IDEIAS é a revista mensal que acompanha a vida paranaense em todos os seus aspectos — político, econômico e cultural — com grandes reportagens que antecipam o noticiário dos demais veículos locais, inclusive os diários.

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IDEIAS é formadora de opinião na região. Sua tiragem é de 18 mil exemplares e vai às bancas sempre no primeiro domingo do mês. A revista circula há nove anos, desde maio de 2003. Além da edição normal, IDEIAS publica edições especializadas em economia e negócios no Estado, com a mesma tiragem e distribuição. IDEIAS reúne um time de primeira linha. Jaime Lerner, Dalton Trevisan, Fábio Campana, Jussara Voss, Marianna Camargo, Luiz Geraldo Mazza, Paola De Orte, Luiz Fernando Pereira, Carlos Alberto Pessôa, Isabela França, Luiz Carlos Zanoni e Rogerio Distefano. As revelações do jornalismo paranaense produzem reportagens, entrevistas e demais conteúdos. E mais: coluna social de Isabela França, inovadora e em sintonia com a contemporaneidade — um dos destaques da revista. IDEIAS também abre espaço para ficção, humor, charge, ensaios fotográficos e crônicas.

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3 a 12 fevereiro Bosque da Uva Você não pode faltar!

10ª Feicom - Feira da Indústria, Comércio e Serviços de Colombo

Informações: 3656-8054 fevereiro de 2012 |

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O novo modelo da Renault educa, protege, transforma e preserva.

Mudar a direção pode mudar tudo.

A Renault aceitou o compromisso de construir uma sociedade sustentável e justa, com projetos como este, a Escola Árvore dos Sapatos, em São José dos Pinhais/PR, que oferece possibilidades de desenvolvimento para mais de 230 crianças.

www.renault.com.br/institutorenault

Mude a direção


IDEIAS 124