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r$ 10,00 nº 123 janeiro 2012

ano viii

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P o l Í T i C a , e C o n o M i a & C u lT u r a d o Pa r a n Á

www.revistaideias.com.br

O PARANá vAI DECOlAR Ambiente favorável aos negócios e incentivos do programa Paraná Competitivo trazem investimentos de R$ 8 bilhões ao Estado

ROgERIO DIStEFANO

A mulher inaugural

FUtEBOl

Atlético e Coritiba agora sob nova direção

INFIDElIDADE

quer trair? é muito fácil, basta clicar

ISABElA FRANÇA

em sociedade tudo se sabe


Até a votação foi uma maravilha: as Cataratas do Iguaçu deram um banho.

www.itaipu.gov.br


Maravilha da Natureza

Maravilha da Natureza

As Cataratas do Iguaçu foram eleitas uma das novas 7 Maravilhas da Natureza Natureza, no concurso que envolveu 440 das mais fantásticas atrações naturais de 200 países e territórios. Uma vitória que representa não só um reconhecimento à beleza dessas águas, mas também um impulso para o turismo da nossa região. Para a Itaipu, é um orgulho fazer parte dessa conquista. A você que nos apoiou, nosso muito obrigado.


Índice COLUNISTAS

SEÇÕES

rogerio Distefano 12 A mulher inaugural

editorial 05 Curtas 06

Luiz fernando Pereira 20 eu e a Coreia do Norte

frases 07

Luiz geraldo mazza 21 De olhos que me olham

gente fina 08

rubens Campana 22 triunfalismo e crescimento

Prateleira 52

ensaio fotográfico 38

moda - Paola De orte 62

Carlos Alberto Pessôa 26 Certo estava o garrincha

NESTA EDIÇÃO

isabela frança 64

Ana figueiredo 37 Canto escuro

Balacobaco 68

izabel Campana 44 vida besta

Pryscila vieira 74

Cartas/expediente 72

solda 45 quem é chato sempre aparece

o Paraná vai decolar 14 Arlindo Neves

Andrea greca Krueger e Paula Abbas 48 gentileza gera visibilidade

No breu da ignorância 18 fábio Campana o futebol não é para amadores 24 Antonio vera

fábio Campana 49 Ano do Dragão

infidelidade virtual 30 Thais Kaniak

ernani Buchmann 50 A voz do gravador

Circo – A estrada da vida 34 marcio renato dos santos

jussara voss 54 respeite as estações e aproveite o verão

Perfil – sorvetes gaúcho 46 marianna Camargo mestrado na tuiuti 51

Luiz Carlos Zanoni 55 Brinde ao sol

ensaio – simetria do não 57 marianna Camargo

marcio renato dos santos 56 Bloco do eu sozinho

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Editorial F C

O

PIB brasileiro superou o da Grã-Bretanha e agora é a sexta economia do planeta. A notícia foi comemorada nos arraiais do PT, PMDB, PDT e assemelhados que integram o consórcio que governa o Brasil com surtos de ufanismo só comparáveis aos das comemorações do futebol, na época em que éramos bons nesse esporte. Logo veio a ducha fria pela boca do próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, que não é bobo nem nada e tratou de relativizar a informação para não ser cobrado mais tarde como beócio apedeuta. Sim, o PIB brasileiro superou o da Inglaterra, mas em nada mudou a situação dos brasileiros, que continuam a viver como dantes. O ufanismo vulgar dos nativos não percebeu ou não quis perceber que a vida dos brasileiros ainda é a de cidadão de países muito atrasados e o Índice de Desenvolvimento Humano é constrangedor. Veja alguns dados comparativos. Eles dizem tudo. O PIB per capita anual na Inglaterra é de US$ 40 mil dólares. No Brasil, US$ 12 mil. Ou seja, 25%. O salário mínimo na Grã-Bretanha é de R$ 2.650, no Brasil é R$ 622,00. No IDH, o Brasil está em 84º lugar, a Inglaterra está 28º. Quer mais? Dados do IBGE revelam que mais de 1 milhão de crianças de 10 a 14 anos trabalhavam no Brasil em 2010. O número é equivalente a 6% das crianças nesta faixa de idade no país. Na região Nordeste, o índice é pior, chega a 10%. As atividades domésticas ou em propriedades agrícolas e familiares, de difícil fiscalização, são as que mais persistem no país. Na cabeça de um súdito da Rainha dados como esses indicam a barbárie. As contas públicas do primeiro ano do governo Dilma são menos brilhantes do que parecem. Chegou-se a novembro com quase toda a meta cumprida. Ótimo. Os problemas são: essa não é a melhor meta; o ajuste foi feito com aumento da arrecadação e da carga tributária; os gastos comprimidos foram os dos investimentos; alguns gastos continuam não sendo contabilizados. A comparação com os países europeus para mostrar que o quadro fiscal brasileiro é bem mais favorável do que países como a Inglaterra é equivocada. Eles estão em crise e pioraram muito os dados fiscais. A piora deles não torna o Brasil melhor, apenas relativamente melhor. O Brasil não está em crise e mesmo assim terminou o ano com um déficit de 2,36% do PIB no critério nominal. Os investimentos caíram de R$ 39,82 bilhões, em 2010, para R$ 38,75 bilhões, em 2011, uma redução de 2,7%. A queda é ainda maior quando se calcula que o orçamento permitia investimentos que não foram realizados. Já os gastos de pessoal e encargos sociais subiram 8%, de R$ 147 bilhões para R$ 160 bilhões. A carga tributária aumentou mais de um ponto percentual do PIB. A compressão das despesas pegou exatamente o que não deveria pegar: os recursos para investimentos. O Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) estima alta de 1,5 ponto, que elevará a carga a 36% do PIB. Para se ter uma ideia, em 1995, a carga tributária no Brasil era de 28,92%. Ou seja, o Estado está sempre tendo que aumentar o peso dos impostos para cobrir o seu aumento de gastos. Nossa renda per capita é baixa. Os investimentos caíram, mas a moçada solta foguetes e comemora como se tivéssemos realmente superado os padrões de vida e de produção da Grã-Bretanha. Tudo bem, dizem as almas parvas, este é o país do “me engana que eu gosto”. janeiro de 2012 |

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Curtas

217 MIL NOMES uma varredura determinada em 2010 pelo CNj (Conselho Nacional de justiça) na movimentação financeira de servidores e magistrados do judiciário está na origem da guerra deflagrada no mundo jurídico. o levantamento atingiu 216.800 pessoas e apontou que 3.438 delas realizaram movimentações suspeitas e foi usado para a Corregedoria do CNj determinar em 22 tribunais para apurar eventual enriquecimento ilícito. Associações de juízes e magistrados disseram que o CNj investigou eventual prática de crime, e não infração disciplinar administrativa, e pediram ao stf (supremo tribunal federal) a suspensão das investigações.

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O presidenciável tucano, senador Aécio Neves, não se ocupa apenas com a articulação de políticos para a sua campanha. Se aproxima de pessoas com as quais se identifica para solidificar suas bases de apoio. Acaba de abonar a ficha de inscrição no PSDB da psicóloga Mara Venina Bergerson, aqui de Curitiba. Ela esteve em Brasília com Aécio, que lhe rendeu todas as homenagens. Fique claro: Mara volta a se interessar e a atuar na política sem outra pretensão que não seja a de ajudar a candidatura de Aécio Neves. Não é candidata, nem poderia, pois não tem registro partidário em prazo legal.

UMA LÁGRIMA POR DANIEL PIZA Bela figura, intelectual consistente, o jornalista Daniel Piza morreu na noite do dia 30 de dezembro, após sofrer um acidente vascular cerebral (AvC) em gonçalves (mg), onde passava as festas de fim de ano com a família. Paulistano de 41 anos, Piza era colunista do jornal o estado de são Paulo, onde começou a carreira em 1991. escrevia aos domingos no Caderno 2 e, desde 2004, assinava também uma coluna sobre futebol.

Estas são as agências licitadas pelo governo estadual Saiu o resultado da licitação para a seleção das seis agências de publicidade que serão responsáveis, em 2012, pelas ações de comunicação do governo do Paraná. O resultado completo é o seguinte: Master, Heads, CCZ, Gpac, Opus e By Vivas. De acordo com o edital da concorrência, o governo deve destinar uma verba de até R$ 143 milhões para a sua publicidade em 2012, incluindo aí as estatais Copel, Sanepar, Compagás e outros órgãos da administração indireta.

O CALVÁRIO DOS JOVENS DO “TIGRE” Três jovens policiais do Grupo Tigre, a polícia de elite do Paraná responsável por termos zero sequestrados no Estado, viveram seu calvário, em pleno período natalino. Eles são os moços – todos formados em Direito e com 28 anos de idade – que acabaram, numa fatalidade, em atitude de legítima defesa, matando um sargento da Brigada Militar gaúcha, enquanto aprontavam-se para libertar dois paranaenses sequestrados em Gravataí, RS. O sargento, em roupas civis, atirara contra a viatura dos policias do “Tigre”. O revide causou a morte e os próprios policiais paranaenses chamaram a polícia local e entregaram, espontaneamente, as armas às autoridades gaúchas. Desde então, a vida dos três virou um calvário. O governador do RS, Tarso Genro, do PT, tentou tirar proveito político da situação e investiu contra os policiais do Paraná para abrir uma pendenga com o governador tucano Beto Richa. Agora, a questão está nas mãos da Justiça.

DivuLgAção

Por seis votos a três, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara Municipal de Curitiba que investigou as denúncias de irregularidades nos contratos de publicidade da Casa aprovou relatório que isenta o presidente licenciado, vereador João Cláudio Derosso (PSDB), de qualquer responsabilidade no caso. Segundo o relator, Denilson Pires (DEM), a CPI encontrou indícios de irregularidades, mas não conseguiu comprovar materialmente a responsabilidade de ninguém nas mesmas. Os vereadores Paulo Salamuni (PV) e Pedro Paulo (PT) apresentaram relatório paralelo, responsabilizando diretamente Derosso, e pedindo seu afastamento definitivo do cargo de presidente do Legislativo municipal.

UMA CURITIBANA NO STAFF DO AÉCIO

Arquivo

Pizza do Derosso

Problema é violência O maior problema do país na percepção do brasileiro é a violência, atrelada à falta de segurança, segundo pesquisa “Percepção sobre pobreza: causas e soluções”, divulgada no último dia 21 de dezembro pelo Ipea.

Esporte O Senado aprovou no dia 20 de dezembro projeto de lei que cria 24 cargos comissionados para o Ministério do Esporte. A proposta tinha parecer favorável da CCJ e segue para sanção de Dilma Rousseff. A previsão de gastos é de R$ 1,5 milhão.


Frases “Deixar prescrever o mensalão não seria um tiro no pé do Judiciário, seria um tiro no ouvido” De um ministro do Judiciário sobre o risco de a morosidade provocar a prescrição de crimes no processo do mensalão do PT, em julgamento no Supremo Tribunal Federal

“Respeito muito o Ratinho, mas, no momento, a candidatura do Gustavo (Fruet) é a mais viável”

“PT deve fazer ‘estágio na oposição’” Do senador aécio neves (PSDB-MG), que esteve em Curitiba no último dia 19 de dezembro, ao dizer que o PSDB tem a oportunidade de prestar “um favor ao PT” nas próximas eleições presidenciais

Ministra chefe da Casa Civil Gleisi Hoffmann do PT, que já fez sua opção

“A economia mundial está numa situação perigosa”

“A se crer nas notícias tuitadas, por obra de seu ‘Campo Majoritário’ o PT inviabilizou, daqui para frente, qualquer aliança com o PMDB-PR”

Da diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine lagarde, no dia 25 de dezembro

Senador roberto requião (PMDB), pelo twitter

“Fariseus” O ministro Paulo Bernardo desancou os políticos que acusaram a ele e a ministra Gleisi Hoffmann de usar aviões da empreiteira Tripoloni durante a campanha eleitoral. Este foi o adjetivo mais ameno para qualificá-los

“Hoje aprendemos a jogar futebol” O atacante neymar depois da derrota do Santos pelo Barcelona, que venceu por 4 a 0

Um “espetáculo dantesco” Sobre as entidades classistas de juízes, rebateu a corregedora-geral de Justiça, ministra eliana Calmon, no último dia 22 de dezembro, em relação às acusações de que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) esteja promovendo quebra de sigilo fiscal e bancário de mais de 200 mil juízes e servidores do Judiciário

“É como se tivesse ido para o céu e voltado”, diz rosana Freitas, representante do Ceará, vencedora do Miss Bumbum 2011

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gente

FINA

DiCo Kremer

Lucidez e sabedoria

C

onheci a senhora Aspásia Bastos Dias, de Uberlândia, MG, por volta de 1963. Foi quando tornei-me amigo do Magno Bastos Dias no velho Colégio Santa Maria da praça Santos Andrade. Magno era o primogênito de uma grande, no que esta palavra tem de mais abrangente, família. O senhor Mário Dias, o pai, gerente do Banco da América em Curitiba era interessado em cultura tendo frequentado em São Paulo uma roda de literatura onde, entre outros, pontificava Sérgio Milliet. Na casa não faltavam livros e a música era uma presença constante. Mamãe, como todos os filhos a chamavam, dava-lhes as primeiras noções musicais. Depois cada um partia para seu instrumento favorito: o violoncelo, o piano, o violão, o acordeão. Também eu, “adotado”, chamava-a (e continuo a chamá-la) Mamãe junto com a Elizabeth, a Martha, a Marina, o Paulo, o Luciano, a Patrícia. Essa senhora, com os seus 88 anos, continua lúcida, sábia, repara e comenta tudo com uma verve e um humor que faz inveja a muitos chamados modernos. Tenho o prazer e a honra de conviver com Mamãe (minha segunda Mãe) por quase cinquenta anos. Dico Kremer

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gente

lara, dez passos adiante

FINA

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Arquivo PessoAL

ara sfair é, antes de tudo, mulher bonita. Muito bonita. O que não a incomoda nem turva seus talentos maiores, que são a de quem domina as palavras, como o pai, Emir, e observa com rara sensibilidade as coisas e os viventes deste mundo. Qualidades que dela fazem ótima jornalista e interessante cronista. Sem contar os versos e os contos que guarda para si. Conversar com Lara é uma experiência agradável. Cheia de descobertas. Ela sempre tem ideias sobre realidades que ainda não percebemos e planos que sempre realiza. Mesmo que demorem a acontecer. É obstinada. Estabelece metas e persegue seus objetivos. Está prestes a voltar a ser empresária da mídia, para completar a história de jornal fundado pelo pai e do qual mantém uma parcela. Com certeza há de ser uma experiência nova, sintonizada com o futuro próximo, que Lara Sfair sempre parece estar alguns passos à frente dos demais. Fábio Campana

DivuLgAção

Presença A de ione

mo a liberdade, o teatro, a família e os amigos.” Eu a conheci em 1966 e ione Prado dizia o mesmo que diz hoje. Foi fiel às suas paixões. Bons tempos aqueles. Éramos, ou pensávamos que éramos, modernos, rebeldes, contestadores, belos e malditos. Ione continua a ser tudo isso. No palco, a atriz tem uma presença forte, inexplicável. Tomada pelo personagem, Ione se transfigura. Maravilhosa. Contracenar com ela era um drama para o nosso desengonçado amadorismo. O seu desempenho fazia de todos nós canastrões medíocres. Tanto que a única daquela turma que continuou nos palcos foi Ione Prado. Logo percebemos que não tínhamos o minimum minimorum do seu talento. E que devíamos ficar na plateia. Ela no palco, como faz até hoje de maneira perfeita. Atriz e cantora lírica determinada, disciplinada, acima dos comuns, nossa geração esconde uma ponta de orgulho e vaidade pela contemporaneidade com Ione Prado. F.C. janeiro de 2012 |

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gente

FINA

Um homem com qualidades

D.K.

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Dico Kremer

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dvogado, jornalista, publicitário, fazendeiro, enófilo, Luiz Carlos Cunha Zanoni esbanja talento em tudo o que faz. Depois de formado emoldurou o diploma de advogado e foi trabalhar no jornal O Estado do Paraná na Barão do Rio Branco. Dono de um texto criativo abiscoitou um cobiçado Prêmio Esso de Jornalismo em 1970 com a matéria “Assim é o Litoral” para a revista Panorama. Fotografias de Sérgio Sade. Depois de uma passagem pela filial curitibana da agência de publicidade Standard fundou, com Desidério Pansera e Gilberto Ricardo dos Santos, a famosa Múltipla Propaganda & Pesquisa. De lá saíram memoráveis peças publicitárias que marcaram época em Curitiba. Desde 1989 dedica-se à agricultura em uma fazenda que toca a quatro mãos com seu filho Juliano. Alguns anos e muitas viagens depois, curioso como �� dos hábitos alimentares dos vários povos que visitou, dedicou-se ao estudo dos vinhos e da gastronomia. Escreve artigos para a revista Gosto e para a Ideias focalizando, principalmente, o imenso mundo dos vinhos. Talentoso em tudo o que faz também o é como anfitrião.


O padre e a yoguine

gente

FINA

O

padre Gabriel Amorth certamente não conhece Noeli Naima Ennes Palai-Pilz. Ele é o exorcista-chefe do Vaticano, há 25 anos no cargo. Ela é respeitada yoguine que exerce seu trabalho e seus conhecimentos no mundo. O padre Gabriel, aos 85 anos, decidiu que a yoga é coisa do diabo. Quem conhece Noeli, que nestes dias passou por Curitiba para ver amigos, sabe que o padre está equivocado. A yoga de Noeli parece reter o tempo nesta mulher que domina a técnica que domina o corpo e a mente. E não há, aqui ou em Espanha, onde ela reside, quem duvide dos benefícios de seu trabalho. Se ela é uma amostra dos resultados, todos podem perceber desde logo que o padre provavelmente se sentiria melhor depois de algumas sessões.

Dico Kremer

Ah, para não esquecer, o padre Amorth indica outra porta para o Satanás. É a leitura de Harry Potter. Quanto a isto, não sei dizer, mas quanto a nossa yoguine Noeli Naima Ennes PalaiPilz, ponho a mão e tudo o mais no fogo. F.C.

A descobridora do Brasil

Arquivo pessoal

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arta Baeta é portuguesa. De Lisboa, mas com raízes no Porto. Tem apenas 23 anos e todos os sonhos do mundo. Um deles está a realizar. Descobrir o Brasil. Viajou mais de seis mil quilômetros pelo país adentro para fotografar todas as culturas, todas as experiências humanas neste vasto continente que a fascina. O resultado é um acervo com mais de cinco mil fotografias que agora ela vai selecionar para editar um álbum e fazer uma exposição itinerante do Oiapoque ao Chuí. O Dico Kremer, que viu uma amostra do seu trabalho, é o orientador da moça e aposta em seu sucesso. Neste momento, Marta Baeta está em Portugal, onde cursa a Universidade. Voltará no final do ano. Com o álbum pronto para as impressoras e para nossos olhos que querem vê-la e também as fotos. F.C.

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Rogerio Distefano

A mulher inaugural

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evia ter, quanto?, 22, 23, se tanto, mas era opulenta de corpo, coisa brasileira, das celebradas por Jorge Amado e Di Cavalcanti. Cor de cuia, como ainda se diz, no meu caso pelo tom da pele, não pelo preconceito, para situar a mistura bem brasileira. Cabelos bem pretos, escorridos, boca convidativa, corpo com cheiro de mato – foi quando descobri que esse perfume pode ser extraído da flora brasileira. Cheiro de mato e também de limpeza de cozinha nas mãos, a mistura da gordura, então animal, com o sabão, que não havia detergente naquele tempo. Eu vivia os 15, vigor da puberdade e dos humores juvenis transbordando de curiosidade e temor pelo desconhecido feminino. Mas não fugia da busca, que era complicada, tantos os artifícios com pais e mães que vigiavam as filhas de perto. Sexo era operação delicada, primeiro pela dificuldade, depois pelo risco da gravidez que perseguia e apanhava os afoitos. Sobrava-nos um amor esquizofrênico, dividido, ancilar, como Eça de Queiroz disse do romance entre classes diferentes. E desde já peço perdão por falar em classe, mas era marcada a diferença entre as médias e a baixa. Disse do amor esquizofrênico porque com as namoradas ele transitava do Polo Norte até as proximidades da linha do Equador. Não nos era dado sequer traçar uma imaginária linha de Tordesilhas. Mas operávamos como eficientes negociadores, ora portugueses, ora espanhóis, nos encontros do escuro do cinema. Era o ficar daquele tempo, hora e meia, duas horas, três

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Di CavalCanti, Mulheres

assim Como Começava, terminava. bastava-lhes um ato De generosiDaDe

nos épicos do cinema americano, mais curtos e infinitamente menos eficientes que os ficares da juventude do século XXI. Mas tenho que dizer que eram intensos, plenos de mistérios e descobertas. A iniciação se fazia no amor ancilar, e não avanço detalhes em respeito ao politicamente correto. Só tenho que dizer que não havia prostituição, dinheiro ou qualquer troca material envolvidas – nem tínhamos as moedas necessárias. Raramente trocávamos os nomes, informações ou detalhes. No caso delas – eu devia dizer “dela” – era a paciência da experiência, uma grande generosidade de se conceder ao menino inexperiente e sair do encontro quase instantâneo sem o menor toque em qualquer cordão da sensualidade. Assim como começava, terminava, não raro sem despedida, pois não sabíamos o que fazer nessa hora. Outro encontro não aconteceria, bastava-lhes um ato de generosidade. Lembro até hoje da primeira companhia, para usar a imagem da música com que o italiano Sergio Endrigo celebrava uma prostituta. Ou da mulher inaugural, como um ministro brasileiro, malandríssimo, referiu-se à ministra que seduzia: “Você não foi minha mulher inaugural, mas minha estreia no sentimento”. Minha mulher inaugural foi minha estreia em sensações maravilhosas, únicas.

RogeRio Distefano é advogado.


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ECONOMIA

O PARANÁ

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VAI DECOLAR A N

O

s detratores de carteirinha dirão que o ano de 2011 não foi tudo o que esperavam. E logo completarão seu arrazoado com índices de criminalidade, calçadas defeituosas, falta de ciclovias, trânsito congestionado, problemas de infraestrutura e outras mazelas herdadas da década infame que abriu este século com o Paraná sob o governo do clã Requião. A verdade é que há problemas crônicos em todas as áreas, mas depois de muito tempo o Paraná voltou a ser a terra da promissão, que proporciona ao seu povo esperanças de novo salto econômico e os benefícios decorrentes. Mais empregos, mais oportunidades, elevação real de salários, ampliação e qualificação dos serviços públicos essenciais. “O Paraná vai decolar”, diz o governador Beto Richa, que não esconde o entusiasmo com os investimentos produtivos que se deslocam para esta área do planeta depois de anos de governo que recusou a poupança externa privada em nome de um nacionalismo esclerosado e esclerosante que chegou a negar os avanços científicos na área da biotecnologia porque imaginava que fossem ardis do “imperialismo ianque”. Nem na Coreia do Norte acreditam nisso. Besteirol à parte e ufanismo bobo também, o certo é que o Paraná recebeu em 2011 R$ 8 bilhões em investimentos que vão gerar 12 mil e quinhentos empregos diretos. Sorte? Coincidência? Qualquer estudante de primeiro ano de Economia sabe que isso não existe. A verdade é que o novo governo criou novos incentivos, derrubou a legislação restritiva e criou novo ambiente de negócios no Paraná. Além dos protocolos firmados, há negociações do governo com outras 63 empresas e grupos econômicos interessados em iniciar ou ampliar suas atividades no Paraná. É dez vezes mais do que tudo o que aconteceu nos dez anos anteriores. Ideias ouviu o próprio governador Beto Richa sobre esta nova conjuntura:

Ideias – O senhor tem falado em novo ciclo de industrialização do Estado. Pode explicar melhor esta tendência? Beto Richa – Entre janeiro e agosto deste ano a produção industrial paranaense teve um acréscimo de 4,8% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com o IBGE, bem acima da média nacional, de 1,4%. Os novos investimentos, realizados ao longo deste ano, têm um período de maturação. Seus frutos começam a amadurecer entre 2012 e 2013. Pelos números já expostos, nosso salto de industrialização não é simplesmente uma convicção pessoal, mas uma

realidade irreversível. Um ciclo duradouro, que elevará os padrões de qualidade de vida da população e que vai ampliar substancialmente a capacidade de investimento do Estado, na medida em que teremos um aumento da arrecadação tributária. A industrialização é compatível com nossa vocação agrícola? Totalmente compatível. São setores que se complementam e que interagem em favor do dinamismo econômico. Nosso propósito é ampliar o grau de agroindustrialização, agregando valor ao produto. Mas claro que isso não é um ato de janeiro de 2012 |

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vontade própria. É preciso conciliar a oferta com as demandas do mercado internacional. O agronegócio se mantém como o motor da economia paranaense. Mas a diversificação da economia e a sofisticação da indústria são necessárias para que não nos perpetuemos como vendedores de commodities. A instalação das novas indústrias vai permitir que diversifiquemos a produção, ampliando a cadeia do setor automotivo, material de transporte, pneus, informática e outros segmentos.

O PARANÁ, HOJE, É UM DOS MELHORES LUGARES DA AMÉRICA LATINA PARA NOVAS OPORTUNIDADES DE NEGÓCIOS cação, infraestrutura, ciência e tecnologia. Tendo a inovação e a sustentabilidade como nossos nortes principais. Vejo o futuro paranaense ancorado no fortalecimento do agronegócio, na diversificação industrial e na sofisticação da prestação de serviços ligados à alta tecnologia.

O que significa concretamente o investimento da Renault no contexto da nova política de industrialização? É praticamente um divisor de águas. Vai elevar a participação da Renault no mercado nacional dos atuais 5% para 8% até 2016, consolidando o Paraná como segundo mais importante polo automotivo do País, além de gerar dois mil postos de trabalho. Sem dúvida é o início de um novo círculo virtuoso na economia paranaense. O Paraná Competitivo foi decisivo para a vinda da Renault e de outros investimentos já confirmados no Estado? O programa Paraná Competitivo foi muito relevante nas negociações. Mas a atração dos novos empreendimentos está associada a um conjunto de fatores inerentes a este novo momento vivido pelo Estado do Paraná. Disposição para o diálogo, segurança jurídica e projetos consistentes para a infraestrutura de transporte e a capacitação profissional estão entre eles. Sem o Paraná Competitivo não haveria como trazer tantas empresas, pois a guerra fiscal entre os estados ainda é uma realidade inexorável. Mas só com ele também não teríamos argumentos tão fortes para convencer os investidores de que o Paraná, hoje, é um dos melhores lugares da América Latina para novas oportunidades de negócios. O capital produtivo é extremamente seletivo nas suas escolhas, então era fundamental demonstrar a condição diferenciada e privilegiada do Estado. De tal forma que não ficássemos dependentes apenas de estímulos fiscais. É essencial, nesse processo, comprovar a competitividade da nossa economia e indicar que ela tem todas as condições de se tornar ainda mais competitiva já no médio prazo em face da concorrência internacional.

DIVULGAÇÃO

Uma crítica muito recorrente ao Paraná Competitivo e a programas de incentivos fiscais adotados por outros estados é que eles abusam na dilação do prazo de recolhimento de impostos, e até na isenção, prejudicando a arrecadação. Qual sua avaliação a respeito? Programas dessa natureza derivam de duas questões. Primeiro, a alta carga tributária do País, em torno de 36%, que nos tira competitividade. Então os estados, para se tornarem atraentes, buscam alternativas. E segundo, a guerra fiscal. Os estados competem entre si na atração de investimentos. Esse quadro geral se agrava com distorções federativas, em que alguns estados são privilegiados pelos repasses e transferências federais, em prejuízo de outros estados. Vejo disposição na presidente Dilma de equacionar a questão. Mas uma coisa é certa: o Paraná Competitivo se revelou um instrumento de política industrial extremamente eficiente, alargando a atividade econômica e diversificando os parques industriais. Os ganhos fiscais para o Estado são substantivos. Abre-se no horizonte próximo uma perspectiva consistente de alterar o perfil social e econômico paranaense.

A propósito das distorções federativas, qual a sua posição na questão do pré-sal? O pré-sal é riqueza nacional, precisa ser distribuída entre todos os estados e municípios brasileiros, com alguma compensação às regiões produtoras. É um direito do qual não abrimos mão. Mas não queremos e não vamos ficar dependentes desse recurso. Queremos a nossa parte como uma espécie de poupança extra para reinvesti-la em melhoria da edu-

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ORLANDO KISSNER / AENOTÍCIAS AENOTÍCIAS RICARDO ALMEIDA / AENOTÍCIAS ORLANDO KISSNER / AENOTÍCIAS RICARDO ALMEIDA / AENOTÍCIAS

MAIS INFRAESTRUTURA Uma das condições para receber novos investimentos é adequar o Paraná de forma que as novas plantas das indústrias possam se viabilizar, inclusive como grandes exportadoras. E isso não pode esperar. O governo abriu, no dia 29 de dezembro, concorrências públicas para obras de conservação em 8 mil quilômetros de rodovias, com investimento de R$ 290,7 milhões. São cinco editais que, somados às nove concorrências abertas um dia antes, constituem o maior programa de obras rodoviárias lançado até agora pelo governo. O investimento soma R$ 700,8 milhões e cobrirá toda a malha pavimentada do Paraná. Os cinco editais publicados abrangem 18 lotes de obras, que consistem em conservação rotineira de rodovias, a ser executada nos próximos dois anos. O prazo para apresentação de propostas vai até 6 ou 7 de fevereiro, conforme o edital, e a abertura será nos dias 17 e 24 de fevereiro. Um dia antes já haviam sido publicados nove editais, no valor global de R$ 410,1 milhões. Eles prevêem a conservação e recuperação de 2 mil quilômetros de rodovias, também no período 2012-2013. Essas obras serão realizadas nos trechos da malha rodoviária paranaense que estão em pior estado. Eles receberão, além da recuperação convencional, uma camada de microrrevestimento. As propostas relativas a esses editais serão abertas entre 8 e 16 de fevereiro. Com esses dois programas, o governo cobrirá com obras de recuperação e manutenção toda a malha pavimentada do Estado, garantindo melhores condições para o transporte de cargas e ampliando a segurança de todos os que trafegam pelas rodovias paranaenses. O governador Beto Richa destaca que as obras serão possíveis a partir de 2012 porque o governo dedicou o primeiro ano de administração a organizar as finanças estaduais, pagando dívidas de administrações anteriores e cortando despesas.

UMA DAS CONDIÇÕES PARA RECEBER NOVOS INVESTIMENTOS É ADEQUAR O PARANÁ DE FORMA QUE AS NOVAS PLANTAS DAS INDÚSTRIAS POSSAM SE VIABILIZAR, INCLUSIVE COMO GRANDES EXPORTADORAS “A austeridade nos gastos de custeio nos permitiu economizar pelo menos R$ 76 milhões neste ano. Com esta e outras medidas, pudemos direcionar o orçamento de 2012 para investimentos sociais e para obras de infraestrutura, que garantirão respostas muito positivas para as demandas da sociedade paranaense”, afirmou o governador. Há mais. Em comunicado ao mercado publicado no dia 28 de dezembro passado, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) anunciou que, em sua 99ª assembleia geral extraordinária, realizada na segunda-feira (26), foi aprovado o aumento do capital social da empresa em R$ 968.292.970,32. Com a operação, realizada sem emissão de ações, mediante a utilização de parte do saldo das reservas de lucros e do saldo das reservas de capital, o capital social da companhia passou a ser de R$ 1,8 bilhão. O aumento do capital atende ao artigo 199 da Lei das Sociedades Anônimas, que determina que “o saldo das reservas de lucros, exceto as para contingências, de incentivos fiscais e de lucros a realizar, não poderá ultrapassar o capital social. Atingindo esse limite, a assembleia deliberará sobre aplicação do excesso na integralização ou no aumento do capital social ou na distribuição de dividendos”. A última elevação do capital social da Sanepar havia sido realizada em 2002. janeiro de 2012 |

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POLÍTICA

No breu da ignorância F C

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s intelectuais brasileiros descobriram Max Weber em 1958, quando Raymundo Faoro publicou o seu livro “Os Donos do Poder”, uma visão weberiana da história deste Brasil brasileiro. Nem por isso a intelligentsia nativa soube ler as passagens mais instigantes ou mais didáticas de Faoro – e de Weber. Faoro surgiu na contramão dos esquemas de interpretação marxista hegemônicos naquela época e que ainda hoje predominam na academia. Lástima. Teríamos entendido que nem tudo se explica pela luta de classes. Perceberíamos um sistema de forças políticas a pairar acima das classes. Uma camada que mudou e se renovou, mas nunca representou a Nação. Prevaleceu, no entanto, a viciada interpretação da história como expressão da infraestrutura econômica. De D. João I a Getúlio Vargas e seguramente até estes dias de Dilma, numa viagem de seis séculos, uma estrutura político-social resistiu a todas as transformações fundamentais. Durante todo esse tempo, o patrimonialismo estatal se manteve, os olhos voltados para a especulação, o lucro e a aventura. A incapacidade de decifrar a natureza patrimonial do nosso Estado, herança recebida da metrópole, propiciou equivocadas interpretações da formação histórica do Brasil. Tanto em Portugal como no Brasil a “independência sobranceira do Estado” em relação à sociedade não seria uma exceção de certos períodos históricos, mas a constante da evolução dos dois povos. Para Faoro, “o poder – a soberania nominalmente popular – tem donos que não emanam da Nação, da sociedade, da plebe ignara e pobre. O chefe não é um delegado, mas um gestor de negócios e não mandatário. O Estado, pela cooptação sempre que possível, pela violência se necessário, resiste a todos os assaltos, reduzido, nos seus conflitos, à conquista dos membros graduados de seu estado-maior. E o povo, palavra e não realidade dos contestatários, o que quer ele? Este oscila entre o parasitismo, a mobilização das passeatas sem participação política e a nacionalização do poder {...} A lei,

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retórica e elegante, não o interessa. A eleição, mesmo formalmente livre, lhe reserva a escolha entre opções que ele não formulou”. A diferença entre classe e estamento reside no fato de a primeira ser determinada economicamente, enquanto o segundo é, antes de tudo, uma camada social: “os estamentos governam, as classes negociam”. Em “Os Donos do Poder”, Raymundo Faoro se preocupa com o estamento político: aquele em que os membros têm consciência de pertencer a um mesmo grupo – qualificado para o exercício do poder – e que se caracteriza pelo desejo de prestígio e honra social. O estamento é típico das sociedades em que a economia não é totalmente dominada pelo mercado, como a feudal e, no caso português, a patrimonial. Contudo, encontra-se também, de forma residual, nas sociedades capitalistas. Representa um freio conservador, voltado para si

“E O POVO, PALAVRA E NÃO REALIDADE DOS CONTESTATÁRIOS, O QUE QUER ELE? ESTE OSCILA ENTRE O PARASITISMO, A MOBILIZAÇÃO DAS PASSEATAS SEM PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E A NACIONALIZAÇÃO DO PODER”

mesmo e preocupado em assegurar as bases do poder: aliado ao Estado português, o estamento propiciou-lhe a organização política capaz de empreender a aventura ultramarina, que nunca poderia ter sido obra de particulares. A exploração sistemática dos cargos –“no país, os cargos são para os homens, e não os homens para os cargos”, dizia um ditado da época – também caracterizava o Estado patrimonial de estamento, cujo objetivo era a obtenção do máximo proveito possível. A Índia era então uma grande vinha a que os funcionários acorriam para suas abundantes vindimas. A nobreza ociosa e ostentatória nutria-se da economia dirigida pelo estamento. A corrupção grassava, e o cargo conferia nobreza: onde havia comércio, estabelecia-se um aparelho administrativo: “a administração segue a economia, organizando-a para proveito do rei, senhor e regente do tráfico”. Nem a cultura forneceu solução alternativa, sufocada pela carapaça administrativa. A máquina estatal permaneceu portuguesa. “Hipocritamente casta, duramente administrativa, aristocraticamente superior.” Pois, pois, o nacional-desenvolvimentismo de evocação popular ainda é a marca dos governos e dos governantes neste país abençoado por Deus e bonito por natureza. Talvez agora, mais de meio século depois de editado pela primeira vez, a obra de Faoro possa iluminar cabeças e apontar novos caminhos. Quando saiu “Os Donos do Poder” – e os intelectuais brasileiros souberam pela primeira vez da existência de Max Weber –, o presidente do Brasil era Juscelino Kubitschek, o qual passou à história como herói da democracia e do progresso. Tinha em seu governo um ministro da Justiça chamado Armando Falcão e apresentou como sucessor seu ministro da Guerra, o marechal Lott. JK viveu os efeitos de um período de grande prosperidade mundial e o Brasil se ampara em grandes equívocos. Mas tudo bem. Há porções da esquerda local que veneram a memória de Getúlio Vargas, um ditador tropical que torturou, matou, censurou e imitou Mussolini. A mesma esquerda que por aqui venera certo tipo de político bufão e autoritário.


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Luiz Fernando Pereira

Eu e a Coreia do Norte

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eu texto para a Revista Ideias já estava pronto. Neste momento surgiu a notícia da morte do Estimado Líder, como os norte-coreanos eram obri­gados a chamar o pitoresco Kim Jong Il (um cruzamento de Chico César com a Marlene Mattos, disse uma vez o Zé Simão). Mudei o tema do artigo. Achei que era o caso de contar minha brevíssima e inusitada história com a Coreia do Norte. Acho que não teria outra chance. Em 1997, fui ao Congresso Internacional da Juventude em Havana, por la solidariedad antimperialista la paz y la amistad, se não estou enganado sobre o slogan. Para mim aquilo era uma espécie de Disneylândia ideológica. Bancadas de comunistas de todos os lugares do mundo. Lá estavam também os norte-coreanos. Àquela altura o Estimado Líder estava no poder há apenas três anos, desde a morte do pai e fundador da dinastia comunista, Kim II Sung – o Grande Líder. Se for confirmada a sucessão dinástica, o país agora será comandado pelo neto do Grande Líder e filho mais novo do Estimado Líder, Kim Jong-un. Parece que ainda não está definido o epíteto obrigatório para o líder prodígio. Antes dos trinta anos, mesmo sem um epíteto definido, já é general de quatro-estrelas e vice-presidente da Comissão Central do Partido dos Trabalhadores – nome do partido comunista. Poucos sabem bem o que acontece pela Coreia do Norte – o país mais estatizado e fechado do mundo. Com certeza milhões passam fome, diz a ONU. O PIB da Coreia do Norte representa apenas 3,1% do PIB da Coreia do Sul (em 1965 a parte norte da península tinha um PIB três vezes superior ao PIB do sul). Achei importante mencionar esta informação para que ninguém duvide da extraordinária capacidade dos comunistas em produzir pobreza.

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Aliás, a própria Coreia do Norte é uma criação soviética, nos tempos de Stalin. O jornalista brasileiro Marcelo Abreu foi um dos primeiros e poucos da imprensa internacional a conseguir entrar no país sem se anunciar jornalista. Depois publicou o livro que li há algum tempo e acabo de recuperar. Há dez anos, quando Marcelo Abreu publicou o livro, viviam em Pyongyang, a capital, não mais do que noventa estrangeiros (chineses incluídos). Trata-se do país mais fechado do mundo. Naquela época só a Suécia, entre os europeus, tinha embaixada na capital coreana. O Brasil instalou uma embaixada por lá em 2009, sem que ninguém tenha entendido muito bem o porquê. O culto aos membros da dinastia comunista é espetacular. Kim II Sung (tal como Mao Tsé-Tung, um devasso na vida privada) fundou uma estranha teoria chamada juche– que se dispõe a explicar tudo (tão pretensioso e ridículo quanto o livro verde de Kadafi). Enfim, a Coreia do Norte é curiosíssima. Mas qual foi, afinal, o meu contato com a turma do Estimado Líder? O fato é curioso. Estava em Cuba com alguns amigos, muitos do PCdoB.

A juventude do PCdoB queria estabelecer contato político com a juventude comunista norte-coreana – então ligada à JR-8 (braço estudantil do finado MR-8). Outra coisa curiosa, convenhamos. Marcada a reunião, precisaram de alguém que falasse inglês. Fui chamado. Isso mesmo: fui o tradutor do (histórico?) encontro da juventude comunista brasileira com os comunistas da Coreia do Norte. Lembro pouco da longa discussão entre as duas delegações, mas o suficiente para me arrepender. Fosse hoje eu poderia ter feito algo parecido com o que fez Guido, o personagem de Benini em a Vida é Bela. Convocado a traduzir, Guido alterou o sentido das ordens do alemão nazista aos presos judeus. Poderia ter sido minha maior intervenção no comunismo internacional. Perdi a oportunidade. Fui apenas um fiel tradutor, pelo menos até onde foi possível compreender o inglês dos jovens norte-coreanos. Dias depois, no encerramento do Congresso, reuniram-se quinze mil jovens de mais de cem países no principal estádio de Havana. Coincidentemente a “bancada” brasileira estava ao lado da norte-coreana. Lá pelas tantas aparece Fidel, sem prévio anúncio. Aos poucos todos (o estádio inteiro) começam a gritar Fidel, Fidel. Todos não. Os norte-coreanos, isolados no estádio, gritavam Kim Jonk Il, Kim Jonk Il. Foi este aí, o Estimado Líder Kim Jonk Il, que ao morrer me fez mudar o tema do meu artigo.

luiz Fernando Pereira é advogado.


Luiz Geraldo Mazza

De olhos que me olham

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á o “olho” escultural de Oscar Niemeyer tão inquiridor, embora formal, como o “olho” metafórico, subjetivo, naquele peixe enorme encontrado na praia no final de uma suruba em “A Doce Vida” de Fellini; há o olho religioso no triângulo com sua especificidade de Velho Testamento, mistura de tantos livros igualmente sagrados, mas o que me perturba, na placidez do campo, é o “olho d’água”. Será que Curitiba ainda os têm, eles que eram tantos em qualquer terreno baldio ou mesmo em campos de futebol como havia no Cinco de Maio antes de aquele cenário ser tomado pela Praça Afonso Botelho tão ameaçada pelas obras da Arena da Baixada como os “olhos d’água”? Como nos versos de Virgílio, Curitiba teve seus ciclos e o desse acidente nada incomum era tão frequente quanto o predomínio de sapos no encanto da sua insalubridade, com seu coaxar distinto, alguns bem mais ritmados que baterias de escola de samba da praça. Talvez os “olhos d’água”, temendo a encampação pela Sanepar, sumiram, conquanto sobrevivam em alguns isolados, como tínhamos um deles na Chácara do Burguel, em que fazíamos a pelada do Arturzinho, bem atrás do gol dos fundos num campinho que visto de

cima lembrava um descuido de guerrilheiros. A generosidade da linfa que a todos confortava: um ritual quase religioso de centenas de peladeiros sugando aquele seio de mãe nutriz para recompor os líquidos do corpo.

SAPOS, UM EPÍlOgO Os sapos eram dominantes em Curitiba e no interior por causa disso faziam rima debochada “Curitibano, barriga de pântano”. E tudo tinha a ver porque a proliferação dos sapos decorria da ausência de drenagem e saneamento. Basta lembrar que o surgimento do Passeio Público se dá justamente numa operação gigante de drenagem com o rio Belém abastecendo o represamento, o que seria modificado no governo municipal de Ney Braga, em 1955-56, que trocou a água putrefata de origem industrial e doméstica pelo funcionamento de dois poços artesianos. Com os sapos, que eram tantos e poderiam servir à universidade nos cursos de medicina e veterinária, sumiram também os adornos naturais “olhos d’água”. Não faz muito tempo o governo municipal falou em “olhos d’água” a pretexto de um suposto projeto de proteção das cabeceiras do rio Belém na Barreirinha. Os políticos esquecem do que prometem: tanto Jaime Lerner, como seu seguidor, Cassio Taniguchi, prometeram em reuniões públicas que em breve

eu não careceria de viajar tão longe na bacia do Iguaçu ou em rios catarinenses para fisgar lambaris de rabo vermelho já que eu os apanharia tão perto no Belém com os seus compromissos ecológicos realizados. Lembro do meu primeiro contato com o “olho d’água” do Cinco de Maio: com reverência quase religiosa fiquei pasmo diante daquela vertente e tomado talvez por uma irradiação lírica poderia definir o líquido, não um qualquer, mas aquele, como não enquadrável na definição de insípido, inodoro, incolor o que, aliás, não se ajusta à água encanada que desmonta o tríplice conceito, a da Sanepar pode estar galardoada com o timbre da Organização Mundial de Saúde em sua certificação, mas não tem mistério, encanto, poesia, sonhos, enfim um porre literário, ficcional, do sumido, nostálgico e onírico “olho d’água”, a quem contemplo, exatamente assim, como um templo.

luiz Geraldo Mazza é jornalista.

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Rubens Campana

Triunfalismo e crescimento

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crescimento econômico do Brasil, aliado às crises norte-americana e europeia, reacende o discurso do triunfalismo nacionalista mais baixo. A feitiçaria com os números e estatísticas permite enganos ridículos: em Brasília, presenciei um sujeito afirmar, sem esconder algum orgulho, que “ninguém poderia imaginar que um dia veríamos os Estados Unidos com mais pobres do que o Brasil”. Ele referia-se aos mais de 40 milhões de pobres identificados pelo censo norte-americano, comparados aos cerca de 16 milhões de brasileiros assim classificados pelo IBGE. Esquecia-se meu interlocutor de detalhe importante: os estatísticos de lá não medem pobreza como os de cá. Nos EUA, os 46,2 milhões de pessoas consideradas pobres em 2011 possuíam renda familiar inferior a US$ 22,3 mil anuais. No Brasil, essa renda familiar, que seria equivalente a mais de R$ 3.400 mil reais mensais, colocaria uma família na faixa superior da classe B, se fossem seguidos os critérios do IBGE. O começo do ano propicia bom período para uma avaliação mais detida de nossa situação. De fato, o Brasil viveu bom momento de crescimento, a um ritmo de cerca de 4% ao ano nos últimos anos. O que interessa, no entanto, é saber se esse processo vai continuar, levando-nos a um produto per capita semelhante ao dos países mais avançados, ou se vamos repetir a experiência do período de 1950 a 1980, que nos levou do triunfalismo à Década Perdida. Coloquemos o crescimento brasileiro em perspectiva mais ampla. Em 1950, o produto per capita brasileiro era de cerca de 12% do produto per capita norte-americano. Isso é dizer que o trabalhador brasileiro médio produzia riqueza a um ritmo de 12% daquele de um trabalhador nos Estados Unidos. Em 1980, no auge dos efeitos do milagre, o abismo da renda per capita entre os dois países fecha-se um pouco, e nossa produtividade alcança 24% da dos Estados Unidos. A partir de então, nosso produto relativo caiu,

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chegando a 16% na década de 90. Desse ponto em diante, o Brasil volta a crescer de forma contínua, atingindo hoje algo em torno de 20% do produto per capita norte-americano. Sem dúvida um avanço importante, mas ainda modesto, em especial se dermos atenção à evolução histórica, ou em contraste ao discurso de alguns setores, que nos levariam a crer que já estamos perto do Primeiro Mundo e que os países ricos se encaminham ladeira abaixo para o Terceiro. Apesar do cenário não permitir os exageros mais cômicos do otimismo ufanista, é também verdade que a economia de mercado à brasileira trouxe prosperidade real nos últimos anos. Nossa versão peculiar de capitalismo produziu crescimento sem muitas das reformas estruturais que boa parte dos economistas nativos julgavam necessárias. Não reinventamos nossas leis trabalhistas ou alteramos a carga tributária. Na estrutura política, até o voto obrigatório resta intacto. Nossa economia tem sido explicada por Sérgio Lazzarini, pesquisador do Insper que chamou de “capitalismo de laços” o sistema que aqui vigora. Lazzarini é daqueles pesquisadores que mastigam números e também pensam com clareza. Utilizando o conceito de centralidade, seu recente livro vai fundo nas ligações entre BNDES, fundos de pensão das estatais e as grandes empresas privadas nacionais. Lazzarini atacou novamente em dezembro do ano passado, dessa vez participando de estudo que mostra que as empresas que usam doações de campanha para construir boas relações políticas são as que têm mais acesso aos empréstimos do BNDES. Criou até uma conta para medir a conexão: para cada deputado, governador, senador e presidente da República eleito com seu apoio, uma empresa recebe do BNDES em média US$ 28 milhões na forma de empréstimos ou por meio de financiamentos a projetos de infraestrutura dos quais participa. Seus estudos somam-se às volumosas evidências de que, no Brasil, houve notável acomodação de forças: ao invés das reformas estruturais, os interesses foram acomodados no interior dos governos. No final, o crescimento econômico é

usado como prova de que o modelo funciona. Mais uma vez, nos interessa saber se esse modelo – capitalismo inacabado, que ignorou reformas e é dominado pelos laços de amizade com o BNDES – pode nos levar a um produto per capita semelhante ao dos países ricos. E é nesse ponto que o otimismo tem sido fatal: as nossas taxas de crescimento são apresentadas como validação do sistema, enquanto o fato crucial é o de que o Brasil atravessa seu período de bônus demográfico. A população economicamente ativa supera largamente a de dependentes – idosos e crianças. Isso não irá se repetir: temos duas pessoas trabalhando para cada criança ou aposentado. Os países ricos já fizeram essa mesma transição e também são ricos porque aproveitaram o momento. Na Europa e nos Estados Unidos, a janela demográfica pela qual o Brasil passa hoje durou aproximadamente entre os anos de 1950 e 2000. Esse período, que em geral é de 30 a 40 anos, será mais curto na China, onde a política do filho único resultará em um bônus demográfico de curta duração: aproximadamente entre 1990 e 2015. Em outras palavras, a China corre sério risco de tornar-se velha antes de tornar-se rica. O mesmo risco corre o Brasil: a situação demográfica ainda pode dar fôlego à renovação institucional e ao crescimento ainda mais rápido, mas apenas se a acomodação for entendida como perniciosa no longo prazo. Caso o crescimento econômico turbinado pelo bônus demográfico seja entendido como validação do modelo atual, só iremos descobrir que o crescimento foi insuficiente quando for tarde demais: em 20 anos, estaremos demograficamente velhos. A opinião expressa nos artigos é exclusivamente do autor e não reflete a posição do Ministério das Relações Exteriores.

rubens campana é diplomata.


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FUTEBOL

O futebol não é para amadores A V

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futebol de competição, dos clubes de jogadores profissionais que disputam as séries superiores do campeonato brasileiro, costuma apresentar uma grave contradição. O esporte tornou-se espetáculo que mobiliza milhões em todo o mundo e exige qualidade para manter o interesse de torcedores. É um espetáculo caro, que exige profissionais caros, que envolve promoção e marketing. Mas os clubes costumam ser dirigidos por amadores. Muitas vezes por torcedores que não têm a mínima noção de como dirigir um empreendimento dessa magnitude. O resultado dessa combinação de amadorismo a dirigir profissionais tem dado resultados funestos. Mais ainda quando a gestão amadora mistura os caixas, as funções e os interesses privados com os do clube, o que sempre é possível quando os valores envolvidos são de grandeza dos grandes negócios, e os dirigentes escolhidos são de extrações desqualificadas para exercer o papel. Tanto o Coritiba quanto o Atlético Paranaense tiveram desastres em sua história causados por essa deformação. Mas há esperança de que essa fase de amadorismo tenha se encerrado no futebol paranaense. Os dois grandes clubes passam a ter como presidentes legítimos torcedores de seus clubes, mas os dois têm formação empresarial e financeira suficiente para integrar a direção de qualquer grande empreendimento econômico no mundo e em qualquer área. Os dois principais clubes do Estado terão, ao mesmo tempo, presidentes com visão empresarial do futebol. No Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, ex-diretor do Bamerindus e do HSBC. No Atlético, o retorno de Mário Celso Petraglia, empresário, industrial, especialista em finanças. Os dois acabam de ser eleitos presidentes, mas têm boa experiência de gestão de seus clubes. Vilson Andrade foi incorporado à direção do Coritiba como vice-presidente quando o clube caiu para a segunda divisão, estava com as finanças destruí-

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das e o estádio interditado. Hoje, o Coritiba voltou a ser um clube respeitável no futebol brasileiro, teve excelente desempenho no último campeonato e se prepara para construir novo estádio. As finanças, não é preciso dizer, passaram do caos à gestão eficiente. Mário Celso Petraglia assumiu o Clube Atlético Paranaense em 1995, após uma derrota humilhante para o rival Coritiba por 5 a 0. De clube endividado, à beira da falência, transformou-o em um dos principais clubes do futebol brasileiro.

OS DOIS PRINCIPAIS CLUBES DO ESTADO TERÃO, AO MESMO TEMPO, PRESIDENTES COM VISÃO EMPRESARIAL DO FUTEBOL Em dez anos de gestão, Petraglia construiu a Arena da Baixada, considerado o estádio mais moderno do país, o CT do Caju, centro de treinamento que é referência internacional, e em campo conquistou os títulos brasileiros das séries A e B, quatro títulos estaduais e a classificação do Atlético para três Libertadores. Pois bem, Petraglia deixou a presidência do Atlético nas mãos de sucessores que em três anos conseguiram deteriorar as finanças, endividar o clube, e derrubá-lo para a série B do campeonato nacional. Até o gramado do estádio, que era exemplo de qualidade, acabou durante a gestão

de Marcos Malucelli. Ou seja, os que substituíram Petraglia quase levaram o clube à situação desastrosa em que estava em 1995. Esta situação levou ao crescimento de um movimento espontâneo da torcida pela volta de Mário Celso Petraglia à direção do Atlético. Ele foi eleito por quase 70% dos votos no dia 15 de dezembro e promete reeditar os feitos de sua primeira gestão e adequar o clube às novas exigências do futebol mundial competitivo. Terá como interlocutor o novo presidente do Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, que assumiu o comando do clube e tem como meta, além de manter a qualidade do futebol, construir um novo estádio. Mas para isso o dirigente tem três opções: construir um novo estádio em outro local ou no próprio Alto da Glória, ou apenas reformar o Couto Pereira. Ribeiro admite que se o clube resolver construir um estádio mais moderno em outro local, a área onde está o Couto Pereira poderá servir como moeda de troca para o empreendimento. “Não temos nenhuma definição ainda. Uma das opções é fazer um novo estádio se houver uma área disponível. Neste caso, usaríamos o Couto Pereira como moeda de troca”, revelou. “A área onde está o Couto Pereira tem um valor imensurável. Porém, estamos estudando todas as possibilidades, inclusive de construir o novo estádio no próprio Alto da Glória”, emendou. A política de ceder o estádio para dar lugar a empreendimentos imobiliários foi adotada recentemente pelo Grêmio, que repassou a área do estádio Olímpico, em Porto Alegre, para a construtora OAS, que lhe dará em troca um novo estádio. Cogitou, em setembro deste ano, que a mesma empresa poderia também ser a parceira do Coxa para a construção de um novo estádio alviverde na área onde atualmente encontra-se o desativado Pinheirão, mas as negociações não evoluíram. Por outro lado, construção de um estádio no local onde está o Couto Pereira também se tornaria inviável, pois o clube teria que arcar com todas as despesas e ir contra a outro objetivo da


DIVULGAÇÃO

TANTO VILSON QUANTO PETRAGLIA SABEM CONTRATAR BONS PROFISSIONAIS PARA CUIDAR DAQUILO QUE ELES NÃO ENTENDEM

a terminar o setor da Mauá. Isso foi uma surpresa para mim, mas aconteceu pela boa campanha que tivemos. Porém, reformar o Couto Pereira não seria só isso e precisaríamos ter receita financeira. Hoje o Coritiba não tem”, finalizou Vilson Ribeiro de Andrade. Em situação pior está o Atlético, que desceu para a segunda divisão, mas que tem como vantagem a condição de um estádio moderno que será inteiramente reconstruído para sediar jogos da Copa do Mundo de 2014. Petraglia está a frente desse projeto. Ao mesmo tempo terá que cuidar do futebol. A torcida quer resultados dentro de campo. Imediatos. Mas isso tanto Andrade quanto Petraglia sabem providenciar. Com boa gestão financeira sabem contratar bons profissionais para cuidar daquilo que eles não entendem.

LINEU FILHO

diretoria recém-empossada: findar com as dívidas do clube, que hoje são de R$ 80 milhões. Por isso, Vilson Ribeiro de Andrade aposta que este é um projeto para ser cumprido ao longo do seu mandato de três anos. “Isso é para o futuro. Pode ser daqui um, dois ou até três anos. No Coritiba, é feito um esforço enorme nosso e da nossa torcida para conseguir as coisas. O Couto Pereira é um estádio antigo e vamos discutir para ver o que é o melhor para a realidade do clube”, disse. De qualquer forma, o Coritiba aposta na boa campanha dentro de campo para atrair investidores que queiram ajudá-lo a empreender no estádio. O presidente alviverde afirmou que foi procurado por futuros apoiadores interessados em ajudar o clube neste processo. “Fomos procurados por investidores que querem nos ajudar

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Carlos Alberto Pessôa

Certo estava o Garrincha

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essa altura da vida&do campeonato seria o último cabo de esquadra se ignorasse a importância do velho, do rude esporte bretão, nesse imenso pedaço dos tristes trópicos. Feliz ou infelizmente, sabemos jogar bola, sabemos jogar bola muito bem, somos potência futebolística, quase sempre somos favoritos em jogos, torneios, copas, campeonatos. Mais, melhor: criamos um estilo de jogar futebol, ainda inconfundível apesar da globalização, apesar das tendências à estandartização. Logo....

ENUMERAÇÃO • Para nosotros futebol é mais que esporte; • para nosotros futebol é quase tudo menos esporte; • para nosotros futebol é paixão descabelada; • é infernal mistura de amor&ódio; • de estratosféricas alegrias&abissais tristezas; • de doces surpresas&amaríssimas decepções; • de oh! quanto riso&oh! quanto choro! • de perplexidades&revelações; • de delírios&depressões;

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• de admiráveis fidelidades&não menos admiráveis leviandades; • de generosidades&mesquinharias; • de olímpicas parcialidades&raras, raríssimas, ferozes imparcialidades; • de grandezas&baixezas; • de esplendores&misérias; • de beaux gestes&cafajestes; • de sublime&patético; • de genialidade&idiotia; • de beleza&feiura; • de coragem&paura; • de bem&mal; • de bom&mau; • de justo&injusto; • de céu&inferno; • do que temos de melhor&pior. Oh! Nós! Ai de nós!

PORÉM, CONTUDO, TODAVIA No entanto, é preciso brincar. Esporte ou não, o futebol profissional no fundo, no fundo, é brincadeira. À sério, mas brincadeira. Apaixonante, apaixonada, mas brincadeira. Não percamos a esportiva. Ou o bom humor. Que é uma forma de esportividade. Brinquemos.

O ANTÍDOTO O melhor remédio contra a seriedade, o drama, o desespero – que nos empurram pro ódio, violência, morte – é a “recepção Garrincha”. No 16 de julho de 1950, a nossa Dunquerque futebolística, o Maracananzaço como dizem os uruguaios, Garrincha foi pescar. Na volta, deu de cara com a família, os amigos, o povoado em lágrimas. Desligado, perguntou o motivo antes de comentar: – Que bobagem; chorar por causa de futebol. Grande Mané! Grande Garrincha! P.S.: Sugiro a leitura de “O Brasil em campo”, discutível tradução do original Futebol (sic): The Brazilian Way Of Life, do jornalista inglês Alex Bellos, lançado em 2002 pela Jorge Zahar Editor, tradução de Jorge Viveiros de Castro. É simpática visão do Brasil e compreensiva análise da aculturação do velho e rude esporte bretão.

Carlos alberto Pessôa é jornalista e escritor.


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COMPORtAMENtO

Quer trair? Clica aqui “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”. A frase é do dramaturgo, jornalista e escritor Nelson Rodrigues. Nada mais ilustrativo para abordar a infidelidade T K

T

raição. O assunto continua tabu, mesmo quando se vive em um tempo de ofertas de traição por meio de sites especializados. Sim, isso existe, e a reportagem da Revista Ideias foi investigar como e por que isso acontece. De acordo com o dramaturgo, “tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém”. Interessa sim. Aos sites de infidelidade. Novidade nesta região, esses sites especializados chegaram ao Brasil em julho de 2011 e já têm milhares de adeptos. Um deles já tem mais de 381 mil usuários. Outro, mais de 150 mil. O site The Ohhtel foi lançado em janeiro de 2009 nos Estados Unidos depois de descobrirem que 40 milhões de americanos estavam em casamentos sem sexo. Quem conta é Laís Ranna, vice-presidente de operações no Brasil do Ohhtel.“Na maioria dos casos isso ocorre porque um dos parceiros perdeu o desejo de praticar o ato sexual com o parceiro atual. Isso coloca o parceiro que precisa dessa satisfação em uma posição difícil. Muitos deles amam o cônjuge, sentem-se felizes em estarem casados, mas ao mesmo tempo não querem um cotidiano sem sexo para o resto da vida”, afirma Laís. Ainda de acordo com Laís, o serviço tem mudado a vida de 2 milhões de pessoas nos EUA, Canadá, Argentina, Chile , Paraguai, Peru, Colômbia, México e agora no Brasil. Em breve, o site também será uma opção para italianos, franceses e espanhóis. Laís conta que a aceitação no país é excelente. “Os brasileiros entenderam que

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Unidos e Argentina. “Recebemos mais de 3 mil e-mails em 2010 de brasileiros nos perguntando quando seria nosso lançamento no Brasil”, conta. Laís relata que hoje o site é o maior serviço de infidelidade no Brasil e na América do Sul.

estamos apenas oferecendo uma maneira mais discreta para ter um caso. Eles podem conhecer outras pessoas casadas exatamente na mesma situação”, explica. Mesmo sem poder usar o serviço, o Brasil já era o terceiro do mundo em visitantes no site Ohhtel EUA. Só perdia para o próprio Estados

sÓ No PArANá o ohhteL.Com tem mAis De 20 miL usuários. CuritiBA está No toPo Do rANKiNg Com mAis De 15 miL usuários

CAPItAl MUNDIAl O Ohhtel considera São Paulo a capital mundial da infidelidade. O motivo para esse título é o crescimento do número de inscritos e o tempo que os usuários passam conectados no site. Segundo Laís, o número ultrapassa qualquer outra capital no Brasil e no mundo em que eles oferecem o serviço, no caso Nova Iorque, Buenos Aires e Santiago. PARANá Só no Paraná o Ohhtel.com tem mais de 20 mil usuários. Curitiba está no topo do ranking com mais de 15 mil usuários. Depois da capital vem Londrina com mais de 2 mil, seguida de Maringá com cerca de mil, Ponta Grossa com quase 800 e Foz do Iguaçu, fechando o top das cinco cidades do Estado, com cerca de 700 pessoas. No Paraná, 37% dos usuários são mulheres e 63% são homens. Em todo o Brasil, 33% dos membros são mulheres enquanto 67% são homens. A média de idade de usuários homens no Estado é de 41 anos. Já a idade média das mulheres é de 35. No panorama Brasil, a idade média dos homens é de 40 e a idade média das mulheres é de 33 anos. Em pesquisa que o site fez com usuários no Paraná, descobriu-se que a maioria das pessoas que têm amantes no Estado não está sem sexo no casamento — ao contrário do que acontece ao redor do mundo, onde a maioria das pessoas do Ohhtel está em casamentos sem sexo.


“Homens e mulheres no Paraná estão utilizando o nosso serviço para ter amantes e não estão em casamentos sem sexo. 63% dos homens têm relações sexuais com sua esposa pelo menos uma vez por semana e 62% das mulheres têm relações sexuais com seu marido pelo menos uma vez por semana”, afirma Laís. O estudo do site ainda aponta que apenas 52% dos homens e 47% das mulheres do Paraná que têm casos dizem ser católicos. Em outras regiões do mundo, os católicos têm um percentual maior de casos do que outros grupos religiosos. A razão número um para os homens ao serem questionados por que têm amantes é a necessidade de variedade. Já as mulheres responderam que querem mais romance. “Em

As PessoAs BusCAm esse tiPo De serviço Porque PreCisAm De ALgo A mAis em suA reLAção, Como umA AveNturA ou sexo

outras regiões ao redor do mundo é porque eles não fazem sexo suficiente em casa. No Paraná, parece que estão tendo o suficiente, mas que está faltando alguma coisa, como romance e variedade”, explica a vice-presidente de operações do site no Brasil. Homens (62%) e mulheres (60%) no Paraná fazem sexo com amantes em motéis. A segunda opção mais popular são os carros — 14% dos homens e 20% das mulheres fazem sexo em carro. Em terceiro lugar, com 13% dos homens e 12% das mulheres, aparece a casa do(a) amante. Laís conta que as pessoas que têm casos querem ficar casadas. Do contrário, elas simplesmente pediriam o divórcio. “Ao dar às pessoas um lugar para ter um caso dis-

foNte: AshLeY mADisoN

PERFIl DOS USUáRIOS NO PARANá: Homens

Mulheres

Idade: 42

Idade: 33

29% trabalham com finanças ou na indústria

39% são executivas

69% têm 2 ou 3 filhos

59% são casadas e têm, pelo menos, um filho

34% traem para sair da rotina

52% são casadas há sete anos ou mais

62% têm mais de um caso

36% traem por vingança

73% preferem mulheres mais novas, entre 20 e 30 anos

67% preferem homens mais velhos, entre 40 e 50 anos

A maioria deles encontra regularmente suas amantes em motéis.

A maioria delas encontra regularmente seus amantes em motéis.

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Leia a entrevista que a revista ideias fez com a terapeuta evilyn scardua sobre o tema: No ano passado, sites de infidelidade começaram a surgir no Brasil. Em menos de seis meses, um deles já tinha mais de 150 mil membros. No mundo, são mais de 11 milhões de usuários. Por que este tipo de ferramenta está atraindo as pessoas? Pessoas atraídas por estes sites já têm a propensão a trair. existem inúmeros outros sites de relacionamentos em que muitas pessoas comprometidas dizem ser solteiras. A diferença é que neste tipo de site a real intenção não é escondida.

PArA 2012, temos PLANos De iNiCiAr umA CAmPANhA De mArKetiNg forte No suL Do PAÍs, PArA AumeNtAr A quANtiDADe De PessoAs CADAstrADAs NA região creto, estamos ajudando a satisfazer as suas necessi dades sexuais ou emocionais, mantendo o casamento intacto”, afirma. De acordo com o site, 80% dos homens e 86% das mulheres que moram no Paraná e têm amantes nunca foram divorciados. Outro dado da pesquisa do site mostra que homens e mulheres no Estado têm vários amantes. 85% dos homens e 74% das mulheres no Ohhtel.com tiveram pelo menos um caso em algum momento de sua vida antes de se cadastrar no site.

ASHlEY MADISON O Ashley Madison é o primeiro e maior site de relacionamentos extraconjugais do mundo. Surgiu no Canadá em 2002 e hoje conta com mais de 11 milhões de pessoas cadastradas em 16 países. Há 10 anos, Noel Biderman, fundador e atual presidente do grupo, estava interessado em criar um site de relacionamento conven32

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Estes sites de infidelidade seriam facilitadores para trair com menos risco de ser descoberto? o risco sempre vai existir. os sites apenas facilitam a aproximação e o encontro. muitas traições começam na internet e são descobertas por meio da internet, já que redes sociais e sites de relacionamentos fazem parte do mundo moderno. Por que as pessoas traem? Pelos mais variados motivos. A traição pode ser consequência de descompasso afetivo entre o casal. Pode acontecer quando um dos dois está com quase toda a sua atenção voltada para algo externo ao relacionamento. se os dois parceiros têm interesses que os absorvem na mesma intensidade, nenhum problema. A situação se complica quando um dos parceiros quer atenção e o outro não está disponível. surgem mágoas e ressentimentos. A infidelidade pode funcionar como uma (falsa) saída para o parceiro(a) que se sente deixado de lado. também ocorre devido à necessidade do novo que muitas pessoas sentem e a autoafirmação. Dificuldades para lidar com frustrações diárias que fazem parte de qualquer relacionamento e a ideia que de que o parceiro(a) deve suprir todas carências ou necessidades do outro é um fator considerável. existem também pessoas que não têm fidelidade como valor no relacionamento. um dado interessante é de que em uma escala de valores, a fidelidade está entre os cinco primeiros para maioria dos homens e mulheres. traição significa insatisfação com o parceiro, insatisfação sexual (ou qualquer outro tipo de insatisfação), ou não necessariamente? insatisfação é, sem dúvida, um dos motivos que leva as pessoas a traírem. Agrava-se quando existe entre os parceiros a dificuldade em comunicar seus desejos. A pré-suposição de que o parceiro(a) sabe o que passa dentro do outro é uma ilusão. existem vários outros fatores de origem pessoal como “valores muito diferentes”, por exemplo. Adultério não é mais considerado crime desde 2005, mas continua sendo mal visto pela maioria das pessoas. Qual seria o valor ético e moral do adultério? o adultério é mal visto pela maioria das pessoas porque vai contra o modelo de relacionamento da nossa sociedade, que é a monogamia. tudo o que se afasta deste modelo, habitualmente, é rejeitado. A maioria dos parceiros tem fidelidade como valor e quando isto é ferido, naturalmente, a pessoa se sente lesada. traição virtual pode ser considerada infidelidade? Para a maioria das pessoas sim. mas isso depende do pacto de fidelidade que existe entre os parceiros. Para algumas pessoas, olhar para outro(a) já é traição. enquanto para outros precisa haver sexo. em alguns casos para ser considerado traição deve ter envolvimento emocional. Por isso é sempre bom que se estabeleça entre os parceiros um diálogo franco e aberto sobre o que cada um considera infidelidade. o que parece óbvio para um pode não significar absolutamente nada para o outro. Homens traem mais do que as mulheres? As diferenças entre os gêneros estão diminuindo, mas apesar de um grande número de mulheres admitirem trair ou já terem traído, os homens ainda traem mais. isso ainda é um fator cultural, já que a traição masculina é mais aceita pela sociedade. Dizem que homens traem por instinto e mulheres por vingança. verdade? Na verdade, isso é um aspecto totalmente cultural. Durante muito tempo os homens colocaram a responsabilidade do seu comportamento na natureza. o que ficou muito evidente durante 10 anos de experiência em terapia é que a maioria das mulheres busca ainda envolvimento afetivo. No trabalho que realizo procuro respeitar integralmente o modelo de mundo de cada um, a forma individual de perceber e fazer escolhas.


cional, como os que já existiam, até ler uma entrevista de um jornalista americano dizendo que 30% dos usuários cadastrados nesses sites de encontros já estavam em um relacionamento, ou seja, estavam a procura de um amante. Assim surgiu a ideia de criar um site exclusivamente para essas pessoas, mas que fosse mais sigiloso e seguro de usar. O site chegou ao Brasil no início de agosto de 2011 e já conta com mais de 150 mil membros. Eduardo Borges, representante do site no país, afirma que tem como meta tornar o Brasil o segundo maior do grupo, perdendo apenas para os EUA (exclusivamente pela grande quantidade de usuários de internet americanos). No Paraná já são mais de 20 mil usuários. É o estado com maior índice de infidelidade do Sul, seguido pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina. De acordo com Borges, as traições são lideradas pelos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. “Esse número reflete a ordem de lançamento do site no Brasil, mas temos planos de iniciar uma campanha de marketing forte no Sul do país agora no início de 2012 para aumentar bastante a quantidade de pessoas cadastradas na região”, afirma.   Segundo Borges, as pessoas buscam esse tipo de serviço porque precisam de algo a mais em sua relação, como uma aventura ou sexo. “Existem mulheres que se casam muito novas, amam seus maridos, mas nunca tiveram uma relação com um homem alto e forte, por exemplo. Então elas vão ao site, matam a curiosidade e voltam felizes ao casamento, sem deixar de amar o ma-

existem pessoas bacanas que estão a fim de sexo e te tratam muito bem, mas têm aqueles que tratam a mulher como objeto

rido. Outras estão casadas há anos, não fazem sexo há um bom tempo e não querem acabar com a relação. Elas usam o site como uma forma de suprir esse vazio sem abandonar os laços familiares”, exemplifica.

EXPERIÊNCIA  Luíza (nome fictício) é professora, tem 49 anos, é casada há 29 e tem filhos. Mora em Umuarama, no interior do Paraná. Cadastrou-se há três meses em um site de infidelidade por causa da solidão. Queria conhecer pessoas, mas nunca tinha entrado em um site de relacionamentos antes. “Interessei-me neste site por saber que era confidencial e seguro”, afirma. Luíza já tinha traído seu marido antes de começar a usar o serviço do site. Ela conta que busca relações fora do casamento porque gosta de sentir que pode encantar e seduzir. “Fico feliz em saber que aos 49 anos ainda sou uma mulher bonita e atraente”, confidencia. Ao contrário do que aponta a pesquisa feita no Estado, Luíza não tem sexo no casamento há dois anos e tem interesse em se divorciar, inclusive já está em processo de separação. O casamento de Luíza não é do tipo relação aberta. Seu marido não sabe das traições dela e ela não sabe se ele é infiel. “No site, assim como em todos os outros lugares, existem pessoas bacanas que estão a fim de sexo e te tratam muito bem, mas também têm aqueles que tratam a mulher como objeto mesmo. Quando entrei sabia que iria encontrar homens de todo tipo”, relata. A professora se relacionou com dois homens pessoal­mente, um de Curitiba e um de Londrina. Ela conta que até hoje eles conversam pela internet e por telefone. “Tenho um amigo de Madri com quem falo quase sempre. Também tenho um amigo de São Paulo que converso, conto a ele meus problemas. Minha experiência com o site de infidelidade é ótima”, expõe. Luíza afirma que em nenhum momento se arrependeu em trair porque nunca foi feliz no casamento. “Sei que não vou encontrar com o corpo o que preciso encontrar com a alma, mas novas experiências me trouxeram novas expectativas de vida. Sinto-me mais feliz hoje, pois sei que ainda estou viva”, finaliza. CURIOSIDADE  O site The Ohhtel fez um levantamento com 7.364 mulheres com a pergunta: “Onde você estará no dia 22 de dezembro”? Do total de participantes da pesquisa, 81% das mulheres inscritas no site já tinham uma data definida para celebrar o Natal com o amante e 87% das que responderam o questionário escolheram o dia 22 de dezembro. Para essas mulheres,

o dia 25 de dezembro foi o dia de comemorar o Natal em família, enquanto a celebração da data entre os amantes foi no dia 22. Ainda de acordo com o levantamento, 15% planejaram realizar o encontro durante o almoço e 64% delas planejaram encontrar seus amantes tendo como subterfúgio uma “reunião de trabalho”. Outras pretendiam investir ainda mais e dedicar o dia todo aos amantes, optando por tirar o dia todo de folga (21%). Segundo Laís Ranna, a vice-presidente de operações no Brasil do Ohhtel, isso é muito diferente do que em outras épocas do ano, nas quais mais de 70% das mulheres, normalmente, encontram com os amantes na hora do almoço. Entre outras desculpas havia ainda mais opções de “respostas” que, possivelmente, elas utilizaram como a de que pretendem ir às compras de última hora para o Natal, na noite do dia 22 de dezembro, logo após o trabalho. Os dados do levantamento apontam também que 77% das mulheres participantes da pesquisa devem ter reservado um quarto de motel para o dia 22 de dezembro. Já as demais mulheres disseram que ainda não sabiam como seria a comemoração porque os seus amantes mantiveram um mistério até a data para surpreendê-las. Quanto aos presentes, 92% delas deram presentes para o amante. A opção número um, delas para eles, era vestir uma lingerie sexy para recebê-los no dia 22. Quando perguntadas sobre que tipo de presentes os amantes costumam oferecer nesta época do ano, elas revelaram que eles costumam dar joias, um dia no SPA ou a tradicional lingerie.

No Paraná a primeira opção para os amantes se encontrarem é em motéis. A segunda opção são os carros e em terceiro lugar é a casa do(a) amante janeiro de 2012 |

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CUltURA

A estrada da vida Por muito tempo restrita a quem nascia em uma família itinerante, hoje a arte circense é acessível a qualquer pessoa e pode ser uma alternativa às academias, além de suas possibilidades terapêuticas M R  S F R M

fausto franco: aprimoramento constante para manter viva a chama da arte circense

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Mágico, o circo também pode ser terapêutico porque exige que a pessoa permaneça no tempo presente

F

austo Franco tem 34 anos e sobrevive há mais de uma década da arte e do fazer circense. Ele é o exemplo de nova geração que conhece os segredos do circo, apesar de não ser de uma tradicional família de artistas itinerantes. “De dez anos para cá, pessoas como eu, que não nasceram no circo, profissionalizaram-se nessa arte. Hoje, há cursos e oportunidades de aperfeiçoa­ mento”, diz o santista radicado em Curitiba. Ainda de calça curta, quando morava em São José dos Campos (SP), Fausto soltava pipa e brincava de bolinha de gude, quando colocou o pé no palco. Desde então, participou de dezenas de montagens. Migrou para Curitiba em 1998 para fazer o curso de Artes Cênicas na Faculdade de Artes do Paraná, instituição na qual também cursou especialização em ensino de teatro. No ano 2000, o mistério do circo seduziu Fausto. Ele fez um curso na escola Circoluz e, em seguida, passou a lecionar. De 2006 a 2010, foi professor na TripCirco. Realiza performances, malabares e acrobacias em festas de final de ano e em formaturas. Apesar da agenda cheia, consegue dormir oito horas toda noite, mantém

alimentação saudável, tem fôlego e imaginação para outras venturas. Ele foi contemplado com o Prêmio Funarte Petrobras Carequinha, que vai permitir renovar um número circense em parceria com a coreógrafa Raquel Karro. Em 2012, Fausto retornará ao Circo da Cidade, projeto da Fundação Cultural de Curitiba, que conta com a participação da Cia dos Palhaços, e resulta em aulas e apresentações no Alto Boqueirão. “Curitiba é uma cidade acolhedora. Fiz a minha vida por aqui, estabeleci laços e encontrei oportunidades para atuar”, diz Fausto, que gostou de O Palhaço, filme no qual Selton Mello atua e assina a direção. “O circo está no imaginário das pessoas, desde sempre. O enfrentamento do risco, do palhaço ou do acrobata, é algo que encanta. O circo é mágico”, afirma Fausto.

História extraordinária Stella Maris Bittencourt entra em cena no Teatro Fernanda Montenegro, dia 18 de dezembro. Eram quase 21 horas. No trapézio, a dois metros acima do palco, o seu corpo flui com leveza. Ela também faz outros movimentos no solo antes de voltar

para as coxias, após aplausos de centenas de pessoas da plateia. Curitiba, julho de 2011. Stella retorna à capital paranaense após temporadas em outras cidades. Advogada e livreira, proprietária do sebo Pico do Livro, em Matinhos, fazia caminhadas a céu aberto e exercícios físicos dentro de academias de ginástica. Mas nada trazia alívio para as dores que sentia no pescoço, ombro e em outras regiões do corpo. Ela é portadora de Ler/Dort, resultado do excesso de digitação que realizou em seus 45 anos. A vida começou a se transformar quando viu o anúncio de aula de circo, no Cenário Espaço Arte. Domingo, 18 de dezembro, 17 horas. Stella diz sentir um pouco de medo, faltam quatro horas para enfrentar o público. Em seguida, respira, sorri e conta que, após seis meses de aulas diá­ rias, já consegue controlar a ansiedade. “Para realizar as atividades de circo, você tem de estar no aqui e agora, no tempo presente”, afirma. Ela também diz se sentir segura para dar cambalhotas, fazer malabarismo e acrobacias aéreas. “O circo é arte, mas também é terapia.” A frase que Stella repete funciona como propaganda. A partir de seu exemplo, outras pessoas janeiro de 2012 |

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Giulia e Stella Maris Bittencourt, filha e mãe, encontraram na arte circense um modo de vida

passaram a fazer aulas de atividades circenses, inclusive as suas filhas, Luana, de 27 anos, e Giulia, de 13. “Antes, eu não desgrudava do computador. Agora, já consigo viver sem o facebook e o twitter. Estou menos ansiosa”, diz Giulia, que também modificou a sua postura, até no que diz respeito à vida. “Superei alguns temores e me sinto mais forte”, confessa.

E la nave va Stella subiu ao palco do Teatro Fernanda Montenegro durante a apresentação de final de ano do Cenário Espaço Arte, que funciona há um ano. Mais do que uma escola, trata-se, a exemplo do que o nome sugere, de um espaço das artes. As bailarinas Juliana Carletto e Luciana Varaschin deram as mãos para manter vivo um local onde houvesse, e de fato há, acesso ao aprendizado dos primeiros acordes de violão até o desenvolvimento da música e de outras manifestações, por exemplo, artes visuais e dramaturgia. Vernissage, título do espetáculo realizado na noite de 18 de dezembro, sinalizou de que maneira o Cenário Espaço Arte funciona. Fausto e Bruna Spoladore, 24 anos, entravam e saíam de cena entre um número e outro – antes ou após uma apresentação de dança ou circo. “No Cenário, os professores também estabelecem diálogo. Há troca. Porque, afinal, há pontos de contato entre todas as artes”, diz Bruna, formada em Dança pela Faculdade de Artes do Paraná, com mestrado defendido na Universidade Federal da Bahia. Bruna e Fausto, professores do Cenário, lecionam arte circense para crianças, de pelo menos sete anos, adolescentes e adultos. Os alunos, de acordo com Bruna, apresentam o perfil simi36

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lar ao de Stella. “São pessoas que buscam uma alternativa à academia tradicional, mas também há quem queira se superar, fisicamente, e desenvolver a capacidade de concentração”, completa Fausto. No caso do circo, admite Fausto, a pessoa nunca está pronta – “é necessário se aprimorar continuamente”. Stella sabe disso e pretende seguir com as aulas, diárias, até quando for possível. “Apesar e além da magia, a arte circense diz respeito à dedicação, uma vez que é importante conhecer a parte técnica”, afirma a advogada que, daqui para frente, quer seguir a vida em meio a cambalhotas, equilíbrio e outros desafios.

A magia do circo no Teatro Fernanda Montenegro

O circo está no imaginário das pessoas. O enfrentamento do risco é algo que encanta

Bruna Spoladore diz que há pontos de contato entre o circo e todas as outras artes


Ana Figueiredo

Canto escuro

L

ogo ao entrar a podridão tomou conta das minhas nem tão delicadas narinas, criei coragem para abrir os olhos, enquanto inalava aquele sopro quente contaminado de pecados e tristeza. Podia sentir o gosto daquele ambiente, atormentando minha bile. Escura e fria, a sala do apartamento parecia ser dona dos mais sombrios segredos. A cadeira escondida no canto empoeirado balançava sozinha, como se a morte estivesse ali, sentada, entoando um canção de ninar. Uma imortal assistindo nosso tempo passar – como quem conta as nuvens numa tarde de verão, sem início, sem fim e sem muitos objetivos… Abaixo da janela, estava ele. Ainda é novo, beirando quem sabe os 30 anos, sem muita história e, obviamente, sem nenhum futuro. Jogado sobre o que um dia fora um sofá e agora era um disforme amontoado de armações e almofadas

como quem conta as nuvens numa tarde de verão, sem início, sem fim e sem muitos objetivos… verdes. O rapaz estava calmo, acho que dormia, os longos cabelos castanhos grudavam no suor de sua testa. Pelo chão apenas restos: a pizza de ontem, mordida ao lado do tênis sujo, ao centro o tapete

de família devorado pelas traças e pelo descuido, espalhados sobre a capenga mesa de centro e pelo chão os piores restos; das fotos e cartas. Restos miseráveis que faziam questão de mostrar os amores perdidos e os amigos que o deixaram. Cada pequeno resto espelhava um erro, um abandono. Até as paredes, cobertas por diversas tintas e estampas, desprezavam a alma daquele pobre coitado e o encurralavam em sua amarga vida. Ao lado da porta de metal, morria uma planta qualquer, e um lençol vagabundo separava o antro dos demais cômodos do cortiço. Por Ana, que tem uma sala dessas escondida em algum lugar dentro de si.

ana figueiredo é escritora.

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ENSAIO FOTOGRÁFICO

Os olhos do jornal

JAVÃ TÁRSIS / SECRETARIA DE CULTURA DO PR

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A

trevo-me a dizer que Barbara Klemm é uma das maiores damas – no que a palavra tem de mais distinto e ilustre – do fotojornalismo europeu e internacional. Alemã de Münster, foi em Karlsruhe que começou a aproximar-se das técnicas de laboratório fotográfico na câmera escura de seu pai. Entre 1955 e 1958 trabalhou em um estúdio especializado em retratos. Aluna de Wolfgang Haut (1927-2001), este a convenceu a trabalhar como fotojornalista. Em 1959 foi contratada pelo jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung como laboratorista e a partir de 1970 fez parte da equipe editorial com foco em política e coberturas especiais. Até 2005, como editora de fotografia do jornal, foi os olhos do jornal. Não usa flash e a câmera está sempre a altura dos olhos. Ao lado do fotojornalismo é uma retratista hábil e inspirada. Seu livro

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“Künstlerporträts” – “Retratos de Artistas” é uma coleção de 200 fotos em P&B de vários artistas tiradas durante quarenta anos de trabalho. Entre os fotografados podemos ver Patricia Highsmith, Simone de Beauvoir, Andy Warhol, Friedrich Dürrenmatt, Rainer Werner Fassbinder, Joseph Beuys. Por quase trinta anos Barbara dedicou-se a documentar a vida na Alemanha dividida cruzando a fronteira entre o Leste e o Oeste. Edita, então, no ano de 1999 o seu livro “Unsere Jahre. Bilder aus Deutschland 1968 – 1998”, “Nossos Anos. Retratos da Alemanha 1968-1998”. Dentre os vários prêmios que conquistou destaco o “Dr. Erich Salomon Award”. Erich Salomon (18861944) foi um fotojornalista inventivo e diferenciado. Pioneiro, foi um dos primeiros profissionais a usar uma câmera pequena, a Leica. Tinha a alcunha de o “rei dos indiscretos” com as suas fotos dos grandes personagens da política internacional e da diplomacia.

Tive o prazer de conhecer Barbara Klemm na abertura da exposição de seu trabalho na Casa Andrade Muricy. Quem me apresentou foi o João Urban. Por precaução, levei a tiracolo meu amigo Marcos Schlemm que foi o tradutor oficial de nosso diálogo. Pessoa afável, verdadeira dama, artista impecável, profissional brilhante, disponibilizou fotografias de seu livro “Maurfall 1989” – “Queda do Muro 1989” para essa Ideias. A exposição “Zeitsprung” – “Salto no Tempo” traz fotografias de dois gigantes: Erich Salomon e Barbara Klemm. Para quem gosta da arte fotográfica recomendo uma atenta visita à Casa Andrade Muricy. Do lado esquerdo de quem entra, Erich Salomon, do lado direito, Barbara Klemm. Até o dia 11 de março de 2012, de terça a domingo. As informações para esse texto tirei da internet no site do Goethe Institut de um artigo da jornalista Ingrid Scheffer traduzido para o inglês.


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Vida besta

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espertou com uma sensação estranha. Tudo no mundo parecia artificial. De repente, estava ali, naquele falso cenário, sem razão de ser. Olha por onde passa. Pessoas caminham com cachorros e crianças pelas ruas, às compras de legumes e verduras, às idas ao banco e ao trabalho. Outros vêm e vão em carros, a pensar na vida, a ouvir música, a aguardar o verde dos semáforos. Ela ia também. Ia ao mercado, ao banco, ao trabalho. Ia à casa, à vida, ao mundo. Ia todos os dias. Mas hoje ia como se não fosse. Como se não fosse ela. Ia como se flutuasse no espaço em corpo que um dia fora seu. E flutuava por entre cães, mulheres, crianças e motoristas como num sonho. Um sonho estranho e cotidiano. E em meio a esse espetáculo da vida, com mulheres, crianças, motoristas e cães, sentiu-se tão só. Tão só como nunca esteve. Sentiu-se

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sem par. Postiça no cenário falso da vida. Agora via. Agora via que o mundo não passava de uma farsa. Que a vida nada mais era que o nada. E que tudo se resumia no tempo. Que a vida é o tempo entre a vida e a morte. E o tempo? É uma mentira. O tempo é desumano e ingrato. E o tempo não existe. Todos os dias ao trabalho, à casa, ao banco, às compras, à vida. O tempo se esvai no dia a dia da mediocridade inventada e escapa pelas mãos. De repente passaram por sua cabeça esses pensamentos novos, sobre a vida, a morte e o tempo. Por que ia ao trabalho? E à casa? Por que lavava a louça todos os dias num loop infinito como um rato de laboratório? Já não entendia mais nada. Já não entendia a razão de ser dessa vida besta de idas e vindas e tempo perdido no trânsito. No trabalho, respondia a e-mails e mais e-mails todos os dias. Atendia a telefonemas, cobrava prazos e metas. Tudo isso por quê, para quê? Mas não estava triste. Não. Sentia-se de certa

forma livre das tensões das contas, dos prazos e das metas. Pois agora acreditava que nada disso significava qualquer coisa. Nem o trabalho, nem a louça, nem os e-mails por responder. Ia morrer. Ia morrer um dia sem saber para quê teria sido a vida. Sem saber seu papel nesse mundo do qual não mais parecia fazer parte. E descansou. Apesar de todos esses sentimentos, não deixou nada por fazer. Voltou à casa e deu de comer ao cachorro. Ao fim do dia, após lavar os pratos do jantar, sentou para ver televisão. O telefone toca. É a amiga convidando a uma ida ao cinema. Lembrou de como riram da última vez. Foi ao quarto, calçou as sapatilhas vermelhas e saiu. Esqueceu os pensamentos estranhos. Era ela mesma de novo.

IZABEL CAMPANA é advogada.


Solda

Quem é Chato Sempre Aparece

E

u sou um chato, vocês todos são uns chatos; este livro é um livro chato; o chato é um animal político; o revisor deste livro é um chato de galochas; leitor é um troço chato paca; não há nada de novo sob a luz dos chatos; este chato para cima; o chato é uma caixinha de surpresas; há chatos que vêm para o bem, mas só pra chatear; gosto de chato não se discute; chato fechado pra balanço; não guardamos pacotes de chatos; conserve o chato em lugar fresco e seco, e chato; o importante é o chato; águas passadas não movem os chatos; chato é um chato; quem ama o chato, bonito lhe parece; proibido para chatos menores de 18 anos, bem chatos; à noite todos os chatos são mais chatos ainda; chato da Zona Franca; chato de casa não faz milagres; agite o chato antes de usar; o hábito faz o chato; chato que é bom já nasce chato; chato: preferência nacional. Ao sucesso com o chato; o chato não é tão chato quanto se pinta; chato escreve certo por linhas tortas, e chatas; aceita-se cartão de chato; de grão em grão o chato enche o saco; quem diz o que quer, ouve o que não quer, dito por um tremendo de um chato; pelos dedos se conhece os chatos; chato tarda, mas não falha; um chato sozinho não tece uma manhã; chatos? Melhor não tê-los; chatos, chatos: dou um boi pra não me tornar um chato e uma boiada pra me livrar dos chatos; não pise na grama dos chatos, nem no chato; cesteiro que faz um cesto é um chato, e o que é pior, um cesto chato; chato é nascer de cabeça chata; não dê comida aos chatos; é proibida a entrada de chatos ao serviço, que é bem chato. Até tu, Chatus? Quem desdenha quer comprar, e isso é muito chato; olhai os chatos do campo; o chato foi pro brejo; o chato é necessário, que chateação; quem é chato sempre aparece; mais vale um chato na mão do que dois voando; criança: não verás um país tão cheio de chatos.

É melhor tirar o chato da chuva; conversa pra chato dormir; lá onde o chato faz a curva; o bom chato não berra; depois da porta arrombada não adianta ficar chateado; casa de chato, espeto de chato; chato, chato como uma toupeira. Que me importa que o chato manque; luz baixa ao cruzar com um chato; chato de livraria; chato atrás da orelha; chato cabeça-de-bagre; chato faz da uma; depois de mim, os

chatos; não converse com o motorista chato; lotação: trinta e dois chatos sentados, um chateando o outro; saída de emergência para chatos; cuidado: cachorro de chato; ser amigo de chato é muito mais chato. Muito mais chato do que comer o pão que o chato amassou; em caso de incêndio, chamem os chatos; não aceitamos cheques de chatos; mantenha distância dos chatos. Papai, não seja chato, não corra; mulher de amigo meu pra mim é uma chata; há algo de chato no reino da Dinamarca; proteja a chatice das placas de sinalização; chato também é dar com os chatos n’água; seja breve, mas não seja chato; passo de chato; abraço de chato; abraço de tamanduá é chato; cuidado: chatos na pista; chatice não se põe na mesa; carga máxima: 8 chatos, chatíssimos. Quem semeia ventos, colhe chateação; a vida começa aos quarenta, mas é muito mais chata; não confie em ninguém que seja chato; o pão do chato cai sempre com a manteiga pra baixo; professora, oJuqinha tá me chateando; chato não morre, deixa de chatear; Deus salve a Rainha, e os chatos; chatos de todo o mundo, uní-vos!; quem dá aos chatos, empresta a Deus; mãe chata só tem uma; o pior chato é aquele que não quer ver que é um chato; em terra de cego quem tem um olho é um chato; o chato é o pior amigo do homem; vim, vi e me tornei um chato; quando ouço falar em chatos, levo logo as mãos à consciência. Dos chatos, o menor; o chato é o lobo do homem; há mais chatos entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã e chata filosofia; espelho, espelho meu, existe alguém mais chato do que eu? Solda (o maior chato do Bacacheri)

Solda é escritor, humorista e cartunista. janeiro de 2012 |

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PERFIL

O sorvete de um gaúcho e uma libanesa depois de um baile M C F A P F

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airro São Francisco. Praça do Redentor ao lado do Cemitério Municipal. Ali, em 1955, instalou-se uma família do Rio Grande do Sul, que fundou o Bar, Mercearia e Sorvetes Gaúcho. O que poderia ser mau agouro ou mau presságio pela localização ao lado do cemitério transformou-se na mais tradicional sorveteria curitibana. A praça do Redentor ficou conhecida como praça do Gaúcho, com pista de skate, bar, ban-

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ca, e do outro lado da rua o Bar do Pudim, onde trabalha o Miltinho, o nome mais chamado dos bares de então. A história começou assim: Adalberto Pinto dos Santos, da cidade de Itaqui, no Rio Grande do Sul, veio a Curitiba estudar engenharia química. Um dia foi a um baile e ali conheceu a libanesa naturalizada brasileira Nádia Serur. São dois pra lá, dois

pra cá, e entre um olhar e um passo de dança rolou uma química e Adalberto pediu a mão de Nadia. Casaram-se e tiveram quatro filhos. Airton, Leila, Adalberto e Marilis. Nádia, doceira de mão cheia, e Adalberto, engenheiro químico, resolveram então abrir um negócio de comida, mercearia e sorveteria. A química rolou de novo. “Será que ao lado do cemitério? Não é sinal de mau agouro?”, questionavam-se. Mas foram em frente e ali estão até hoje. O cemitério trouxe sorte ao negócio. Um dos dias de maior movimento é no feriado de Finados. O maquinário, da marca Carpegiani, é usado até hoje, o sorvete é preparado artesanalmente. E olha que tem até folha de hortelã da hortinha atrás da casa no milk shake de limão. Luxo


Airton Serur dos Santos, um dos herdeiros da sorveteria, mantém a tradição do sorvete artesanal

só. O mobiliário, os letreiros, os espelhos, o balcão e tudo mais é o mesmo de 1955. Virou só sorveteria em 1970. Airton, o filho mais velho e gerente da sorveteria, que hoje é comandada por ele e seus dois irmãos, Leila e Adalberto, depois da morte dos pais, diz que tem clientes que reclamam: “essa mesa é muito antiga Airton, troca aí”. Mas ele não se rende, acredita que o sucesso da sorveteria é justamente a tradição da casa. E está certo. Enquanto estava lá conversando com Airton, um senhor veio cumprimentá-lo. Depois ele me disse: “este senhor mora fora há quinze anos e toda vez que vem para Curitiba nos visita”. E nas duas horas que estive lá, vi esse movimento. Clientes antigos e novos, filas enormes e crianças correndo pelo salão. “Trabalhamos diariamente desde que abrimos, os únicos dias que fechamos são 25 e 31 de dezembro”, diz Airton. E olha que estamos falando de sorvete em Curitiba. Intrigada, questionei: e nos dias de frio, pois vamos combinar que é a maior parte deles, como faz? Ele me res-

ponde que curitibano gosta de sorvete no frio ou no calor. Concordo, pois também sou adepta. E qual a receita do sorvete, pergunto. Airton me dá uma resposta avessa a todos os cozinheiros que enfaticamente dizem que não podem revelar a receita. “Não tem segredo, é fruta, leite e pronto”. E pontua: “O negócio é achar o ponto certo”. Por isso ele, seus irmãos e a equipe ficam de olho em tudo o que é preparado ali. “Sorvete aqui não tem frescura: é bom, bonito e barato”, me fala na lata, com um acento gaúcho vindo do pai. Boa filosofia, além do mais comprovada: a bola é R$ 2,25. Difícil mesmo é escolher o sabor: são mais de 40, para todos os gostos: limão, manga, morango, coco, uva ou os clássicos chocolate, flocos, pistache e doce de leite. E tem os especiais para as crianças, como o blue ice, todo azul. Os sorvetes são feitos sem adição de conservantes ou gordura hidrogenada, apenas leite, creme de leite e a fruta ou sabor. “Têm dias que vêm mais de duas mil pessoas e trabalhamos com a mesma equipe. São dez pessoas atendendo 500 ou mais

de 2 mil. Reclamação tem, mas fazemos tudo artesanalmente aqui. Às vezes, demora um pouco, mas o processo é este quando se trabalha com um produto artesanal”, explica Airton. O sorvete de iogurte, criado em 1977, é um exemplo disso, demora três dias para ficar pronto. “Tem que ficar no ponto certo – reforça – se não, não fica bom”, diz o sorveteiro, que puxou o talento de sua mãe, doceira atenta ao detalhe fundamental. A sorveteria Gaúcho tem um gosto da vida quando pode ser um pouco mais lenta, mais aproveitada, mais apurada. Atenta aos detalhes, com gosto de raspinha de limão. O negócio familiar virou história, tradição. Faça chuva ou faça sol, o sorvete do Gaúcho está ali para nos lembrar disso. Pois não existe nada melhor que sorvete com hortelã da horta. Quem diria que Adalberto e Nádia iriam dar esse baile?

As máquinas da marca Carpegiani são usadas até hoje

As ervas vindas da horta da casa são usadas nos sorvetes

Clientes são fiéis desde 1955

Sorvetes Gaúcho Pça. do Redentor, 13 – São Francisco – Curitiba/PR Funciona das 12 às 20 horas diariamente, menos dias 25 e 31 de dezembro. Tel.: (41) 3223-5054.

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Andrea Greca Krueger Paula Abbas

Gentileza gera visibilidade

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omo já escreveu Carlos Drummond de Andrade, “quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente”. Agora temos doze meses novos em folha para buscar a tal felicidade. Ser feliz, afinal de contas, é o mais universal dos desejos humanos. Mas você sabe o que faz as pessoas felizes de verdade? Entre outubro e novembro de 2011, um cliente nos incumbiu de um projeto desafiador. Fomos à campo e abordamos dezenas de pessoas em Curitiba e outras tantas pela internet com a seguinte pergunta: o que faz você feliz? Fomos às ruas, entramos em casas, nos infiltramos em escritórios, praças, parques, lojas, escolas para saber o que faz mendigos e milionários, jovens e idosos, de todas as etnias, felizes. Parece simples, mas a felicidade é um tema mais complexo do que aparenta. É bem verdade que desde o início dos tempos diversas teorias foram escritas por Aristóteles, Freud, Dalai Lama, entre outros pensadores. Mas é fato também que os valores de uma sociedade estão em constante transformação. A intenção do nosso trabalho era decifrar o hoje e, principalmente, desvendar se na era do hiperconsumismo em que vivemos, onde as marcas são os novos deuses, o ato de comprar é realmente encarado como fonte de felicidade. Durante o processo, descobrimos que a felicidade resume-se, basicamente, a dois fatores: prazer e satisfação. Devido a seu caráter subjetivo, esse sentimento pode ser expressado de inúmeras formas. O que agrada uma pessoa, pode facilmente passar despercebido por outra. Mas entre tanta abstração, encontramos fatores comuns. Para os que possuem menor poder aquisitivo, por exemplo, a família é o motivo de maior ale-

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gria – principalmente as numerosas, que costumam morar no mesmo terreno, na mesma casa ou muito próximas. Compartilham entre si (com mais generosidade que os ricos) o que têm e o que são. No lar é onde encontram a segurança necessária para seguir em frente. Os jovens, por outro lado, buscam a realização no trabalho. Querem fazer o que gostam, ainda que a profissão que lhes dá prazer não garanta um futuro milionário. Já aqueles que têm satisfeitas as necessidades básicas de moradia, comida e educação – em geral adultos das classes A e B – buscam a felicidade em experiências como viajar e desfrutar os bons momentos da vida, além de tentar encontrar equilíbrio e paz de espírito. Para eles, o tempo emerge como um novo sinônimo para a palavra luxo.

BEM-VINDA, ERA DA REPUTAÇÃO Olhando ainda mais de perto, detectamos um fator comum interessante à maioria dos entrevistados: o grupo exerce forte poder sobre o estado de satisfação do indivíduo. A felicidade também mora no sentimento de pertencimento e de trocas afetivas e intelectuais. Uma grande questão surge como cerne no século 21 após um longo período de afirmação individualista. O “nós” dos anos 60 foi, nos anos 90, substituído pelo “eu”, que agora passa a ser o “todos”. A palavra de ordem é colaborar. Certamente trata-se de um legado das redes sociais, onde a relevância é reconhecida pela quantidade e qualidade de conteúdo compartilhado. Hoje, rico é aquele que mais dá e não aquele que mais tem – talvez porque toda a ajuda seja, no fundo, uma autoajuda. É fato, no entanto, que atitudes generosas são uma espécie de investimento a longo prazo: favorecem a imagem da pessoa e aumentam suas chances de receber auxílio no futuro. Assim como os indivíduos, as empresas começam a encarar esse novo momento de importantes mudanças no mundo corporativo. Hoje, devemos dar as boas-vindas a um novo tempo que se inicia, uma época em que surge um novo tipo de status, onde o ser triunfa sobre o ter.

Esse novo período, em que a marca vendedora precisa se transformar em marca vencedora, é conhecido como a “era da reputação”. Já não basta oferecer um bom produto, é preciso ser confiável, ético, humano e preocupado com as mazelas do mundo. Não estamos falando de grandes atos heroicos e altruístas para salvar o planeta, mas, sim, de pequenas gentilezas no cotidiano do cidadão comum. Com isso, observamos o surgimento de diversas campanhas de marketing voltadas à construção de uma boa reputação. A precursora deste movimento foi a vodka Absolut, que lançou em 2009 a campanha Give Kindness Not Cash (dê gentileza e não dinheiro), que incentivava bares, cafés e lojas a trocar o pagamento por um abraço, um beijo ou um sorriso. A marca de cosméticos Biotherm enviou kits de beleza anti-stress para tuiteiros que atravessavam um mau dia. A Brastemp viralizou o vídeo “O Dia em que um Sorriso Parou São Paulo”, no qual propôs, através de um anúncio no rádio, que o motorista sorrisse para o carro ao lado. O metrô de Londres também entrou na onda e lançou uma campanha incentivando os usuários a contar histórias bonitas que tenham presenciado durante o deslocamento no underground. Há uma infinidade de marcas criativas apostando no mote “gentileza gera gentileza” – que, no mundo dos negócios, pode ser substituído por “gentileza gera visibilidade”. No universo das corporações, felicidade é sinônimo de sucesso. Então, propomos que você pare e pense: sua empresa é feliz? Seus colaboradores estão satisfeitos? E seus clientes? Sua marca está sendo gentil com o mundo? Caso a resposta seja negativa, provavelmente tenha chegado a hora de rever algumas estratégias para ter um 2012 feliz de verdade. Feliz ano novo.

AndreA GrecA KrueGer é jornalista e professora. PAulA AbbAs é consultora jurídica e empresarial.


Fábio Campana

Ano do Dragão

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stamos vivendo 2012, ano do Dragão no horóscopo chinês. O que passou foi o ano do Coelho, bicho que se reproduz o tempo todo, irrequieto, glutão, um tanto obsceno e muito dado às falcatruas, segundo o mestre Chang-Hsiao-Tung, do século III da dinastia Han, que teve sua obra recém-traduzida pelo Dico Kremer, que não acredita em horóscopos, mas pesquisa e gosta das línguas orientais. Essa descrição do ano do Coelho, quando comparada à cena política brasileira nos últimos doze meses, dá credibilidade ao trabalho do mestre Tung. Seis ministros caíram feito macacos flagrados com a mão no jarro. Outro saiu destilando veneno como serpente por incompatibilidade com as maracutaias dos ratos palacianos. Foi um ano repleto de denúncias de corrupção. Mas o que nos reserva este ano do Dragão? Ora, o Dragão é um bicho que já não existe e há até quem diga que nunca existiu. Esse lagartão de Komodo só é dragão no nome. O nosso solta fogo pelas ventas, atemoriza os incautos, rapta princesas, mas quando domesticado, como informam os antigos registros chineses, tem grande serventia. Torna-se afetuoso e defensor de seu dono. Borges, em seu “O Livro dos Seres Imaginários”, ensina que o dragão chinês, o lung, é um dos quatro animais mágicos. Tem cornos, garras e escamas, e seu dorso é coberto de espinhos. Pois o mestre Tung nos diz que o dragão representa poder. 2012 corresponde ao chinês 4710, o Ano do Dragão, o quinto período no ciclo de 12 anos do zodíaco oriental. É um tempo de poder, dinheiro, negócios, fertilização e de muita espiritualidade. Bom para casar, ter filhos ou começar negócio novo. Ou tudo ao mesmo tempo. Ex-ministros defenestrados no ano do Coelho certamente iniciarão novos negócios em 2012. A impetuosidade, ânsia e zelo quase re-

o horóscopo chinês foi escrito para guiar o povo chinês quando ele nem sabia da existência de outro mundo fora da china

ligioso podem arder como o próprio fogo que o Dragão deita pela boca. A pessoa de dragão é fanática por tornar-se o mais responsável por uma missão. Vaidoso, o de dragão considera-se superior a todos os demais viventes de espécies ou signos. Costuma assumir a paternidade de obra alheia, como aconteceu com a política econômica. As mulheres nascidas no ano do Dragão são conhecidas pela sua voluptuosidade ao leito e habilidades de cama, mesa e banho. Não costumam obedecer à regra da monogamia e cumprem seu destino com grande deleite. As exceções sucumbem a crises de intensa depressão e têm o olhar triste sempre fixo no horizonte. Uma vantagem do horóscopo chinês é que desmente a profecia maia, baseada no calendário usado pelos povos pré-colombianos que viveram entre 700 e 500 antes da era Cristã. Diz ela que no sábado, 22 de dezembro de 2012, acontecerá estranha série de eventos terríveis, como colisão de meteoros e de planetas com a Terra. Será o caos. O fim de um ciclo. O fim do mundo. Coincidência ou não, o calendário maia também acaba em 2012. Voltemos ao horóscopo chinês. Ele nos diz que este será um ano de prosperidade, de ideias novas, de acontecimentos fantásticos. O problema é que o horóscopo chinês foi escrito para guiar o povo chinês quando ele nem sabia da existência de outro mundo fora da China. Eu, que não acredito em astrologia, horóscopos ou profecias que não sejam as minhas, mas gosto de investigar a superstição alheia, só tenho um medo, o de que neste país em que tudo acaba em pizza, carnaval ou farra, nosso ano do Dragão se transforme em Ano da Drag Queen.

Fábio Campana é jornalista e escritor.

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Ernani Buchmann

A voz do gravador

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itua-se o presente episódio na década de 60, época em que tudo em Curitiba passava pela Rua XV. Certa tarde, o radialista – às vezes também treinador de futebol – Borba Filho, então na Rádio Guairacá, vai cruzando por ali quando dá de cara com o diretor de futebol do Coritiba, circunspecto senhor hoje falecido. Bom no ofício, Borba quis saber as novidades do clube. O homem foi sincero, reflexo da forja antiga em que havia sido moldado. A notícia do dia era o seu próprio afastamento da função. Preferia dedicar-se à mulher, já estava aposentado, não tinha mais saúde para incômodos em clube de futebol. Borba Filho sabia não estar o dia cheio de assuntos quentes. Aliás, fora aquele, nada havia de novo. Pediu entrevista exclusiva. Iria até a casa do homem para que ele fizesse um balanço do trabalho desenvolvido no Coritiba, suas alegrias, mágoas, conselhos que daria aos interessados em assumir tais funções. No estúdio da rádio, pediu um gravador. O único que havia era de rolo, trambolho difícil de

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carregar. Na falta de coisa melhor, empacotou o dinossauro e foi à batalha. A senhora veio recebê-lo, indicou a sala para que esperasse até que se apresentasse o marido. Borba ficou admirando aquele universo inverossímil, cheio de bordados, bibelôs, móveis antigos, louças pintadas à mão.

Lá do fundo, das profundezas do antigo gravador, soturna, soLene, definitiva, veio ao mundo uma voz de Locutor

O velho chegou envergando roupão, chinelos e meias. A mulher trouxe bandeja com café e biscoitos. Ficaram bom tempo conversando, o jornalista a elogiar a casa com ares de museu, o casal sentado de mãos dadas em cena de cinema mudo. Sentindo que era hora, Borba Filho tratou de armar o apetrecho na mesa de centro. Afastou a bandeja, pediu tomada, instalou os rolos, bobinou a fita. Aí, antes de dar por iniciada a entrevista, lembrou-se de ouvir o que estava gravado, providência fundamental a todo profissional consciente do perigo de se perder matéria de arquivo. Pediu licença, aumentou o volume e soltou a fita. Lá do fundo, das profundezas do antigo gravador, soturna, solene, definitiva, veio ao mundo uma voz de locutor: - Atenção, testando: alô buceta, alô buceta, alô buceta!!!

ernani buchmann é escritor, advogado e publicitário.


MESTRADO

Vagas nos mestrados Há cinco vagas no mestrado de Psicologia Forense e 11 no mestrado de Psicologia Social Comunitária da Universidade Tuiuti

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sicologia Forense é o estudo da integração da Psicologia com a Lei: a Psicologia, que estuda o comportamento humano e, a lei, que estuda como as pessoas estabelecem regras que regem seu comportamento em sociedade. O tema forense refere-se a qualquer matéria que tenha um envolvimento com a lei, seja civil ou criminal. Psicologia Forense é definida pela pesquisa e aplicação de conhecimentos psicológicos ao sistema legal. Alguns temas estudados são: o abuso sexual, o comportamento antissocial, os estilos parentais e as implicações educacionais; a alienação parental, identificação de quadros psicopatológicos; as inter-relações da psicologia com a legislação da criança, do adolescente, da família, avaliando suas implicações e pertinência, tanto nos casos do direito civil como no penal. Corpo docente: Giovana Veloso Munhoz da Rocha, Maria da Graça Saldanha Padilha, Paula Inez Cunha Gomide, Plínio Marco de Toni, Yara Kuperstein Ingbermann. A Psicologia Comunitária é um campo teórico

e prático dedicado à prevenção dos problemas psicossociais e ao desenvolvimento humano integral por meio da participação dos sujei-

tos, assumidos como ativos. O curso tem como objetivo fornecer recursos para a atuação do psicólogo na área da saúde, da educação e do trabalho em contextos institucionais e comunitários para contribuir na formação de redes psicossociais e agentes comunitários que possam promover mudanças sociais participativas e desenvolvimento humano. Alguns temas estudados são: planejamento, implementação e análise de programas de prevenção e promoção de saúde ; estudos de serviços e suporte social; estudos das questões de gênero, exclusão e sofrimento social; pesquisa de práticas sociais criativas; violência, prevenção de doenças sexuais em jovens: rede relacional de usuários de internet; práticas de prevenção relacionadas às drogas; serviços de atendimento a adolescentes grávidas; reganho de peso em pacientes submetidos à cirurgia bariátrica; violência doméstica contra crianças e adolescentes”. Corpo docente: Denise de Camargo, Maria Cristina Antunes, Maria Sara de Lima, Marilene Zazula Beatriz, Roberta Kafrouni. Os interessados devem consultar o site www.utp.br/mpsi para fazer inscrição. janeiro de 2012 |

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Prateleira

lIvROS

“A Loteria”, o conto Por marisa villela

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epois que li “A Loteria”, da escritora americana Shirley Jackson, me encantei com essa literatura beirando ao gótico, que mostra a perversidade de uma pequena comunidade. Procurei saber se há mais livros, contos e crônicas, enfim, busquei a obra de Shirley Jackson. Não há quase nada. Ela escreveu histórias juvenis e mais alguns contos sobre o seu caos doméstico de ter marido e filhos na escola. Vieram após o vendaval causado pelo conto “A Loteria”, repudiado pela sociedade americana, proibido na África do Sul e nos meios sociais da época. Em 1948, data da publicação do conto na revista “The New Yorker”, Jackson encontrou a fama. Mas os livros que vieram depois, praticamente caíram no esquecimento. “A Loteria” é uma fascinante história que se passa em uma cidadezinha onde, uma vez ao ano, os 300 habitantes se reúnem para participar de um jogo. As famílias começam a chegar à praça principal aos poucos, crianças amontoam pedras nos cantos do jardim, o prefeito percebe que um ou outro não está lá, uma mulher justifica que o marido está de cama por isso trouxe o filho, tudo muito harmonioso e fraterno. Tudo muito cotidiano, até caseiro.

E aí começa a loteria. Não sem antes o prefeito reclamar da falta de verbas públicas para uma nova urna, que aquela caixa pintada de preto já era muito antiga, excessivamente usada “desde antes do homem mais velho da cidade ter nascido”, etc. E cada família retira pequenos papéis com os números. Desta vez, os Hutchinson ganharam a primeira rodada. Justamente a família de Tessie, que tinha esquecido de que era o dia. A mesma Tessie Hutchinson, que correu para participar da loteria e protestou que seu marido não teve outra chance quando ele se atrapalhou ao tirar o papel da urna. Novo sorteio. Agora, sim, a verdadeira loteria apenas entre os membros da família ganhadora. Tessie abriu seu pedacinho de papel e viu o círculo preto desenhado a mão. Era a escolhida naquele ano! A honra da primeira pedrada coube a Warner, o homem mais velho da cidade. Tessie morre apedrejada por todos os presentes, incluindo sua própria família. É, de fato, um final impensável. Como também é inesperada a atitude de Tessie, ao ser apedrejada, que grita que “não é justo”. Ela com certeza não morre clamando por misericórdia. Parece, sim, que ela reclama da injustiça de não deixarem seu marido escolher outro papelzinho da urna! Não é surpreendente? Shirley Jackson, mesmo sendo autora de um livro só, merece ser lida. Ficou famosa porque o conto “A Loteria” escancarou publicamente os costumes velados de uma sociedade que esconde seus pecados. Ou a sua hipocrisia.

Impasses do tempo presente

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ficção de Marcio Renato dos Santos diz respeito aos impasses do tempo presente, e isso pode ser conferido no livro “Você tem à disposição todas as cores, mas pode escolher o azul”, que traz apenas um conto, mas suficiente para destrinchar a proposta do autor. O conto é narrado em primeira pessoa, o que aproxima o leitor do imaginário do personagem que narra, mas a ficção também faz uma leitura crítica de nosso presente, onde só há espaço para individualismo. Eu, eu, eu. Tudo em favor do eu. Essa prosa mostra um sujeito que trabalha das oito às dezoito, e nunca saiu fora do trilho, até que acontece um acidente e ele precisa seguir, mas não sabe o que fazer. Para não ficar em pânico diante do fato de que está perdido, o

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personagem criado por Marcio anda e começa a falar, sozinho, o que se mistura com pensamento em uma prosa de alta velocidade. “Você tem à disposição todas as cores, mas pode escolher o azul”, foi lançado na passagem subterrânea do Terminal Hauer, em Curitiba, para acompanhar o projeto Melodia Urbana, de Marciel Conrado e Jonas Lopes, que pintaram o espaço - a partir de um edital da Fundação Cultural de Curitiba. O livro tem 16 páginas, tiragem de 1,3 mil exemplares e, agora, é uma raridade, pois foi distribuído gratuitamente na manhã do lançamento, dia 15 de dezembro de 2011. Em 2010, Marcio estreou na ficção com Minda-Au, livro de contos publicado pela editora Record. Desde junho de 2011 é colunista da Ideias.


livros

homenagem

Um Maigret inédito

Wilson Bueno e a estrada do tempo

Por Fábio Campana

Por Fábio Campana

Por Almir Feijó

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m livro extraordinário escrito por um homem extraordinário. Neste “A linha de sombra”, Joseph Conrad, escritor filho de poloneses exilados na Ucrânia que construiu sua literatura em inglês, língua que aprendeu e adotou depois de adulto, trata de assuntos que são recorrentes na própria vida do autor. Este livro fala sobre homens do mar, homens duros, diante de desafios que mostram a difícil tarefa de viver. Exalta a lealdade. “Dignos de meu imorredouro respeito”, escreve Conrad na introdução, sobre homens como aqueles de sua obra que se associam em fraterna união para encarar o desconhecido, o risco, a extrema dificuldade. Uma metáfora sobre a própria vida.

ara os leitores de George Simenon, este Maigret inédito. Este é o único romance em que Maigret resolve um crime durante sua aposentadoria. Simenon queria que esse fosse o último da série, pois desejava se dedicar inteiramente aos chamados “romans durs”, os romances “não Maigret”. Um certo inspetor Lauer, que é sobrinho de Maigret, está numa delicada situação profissional. Ele não foi capaz de evitar o assassinato de um homem que estava sob sua vigilância, Pepito, o chefe de um bar chamado “Floria”. Além disso, Lauer é o principal suspeito do crime, devido ao modo como entrou em pânico. Enquanto aproveita a sua aposentadoria às margens do Loire, Maigret recebe a visita de seu sobrinho que implora por sua ajuda. Ele concorda, mas encontra dificuldades com seus antigos colegas.

MÚSICA

Ouvir Bruckner Por Fábio Campana

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á controvérsias, como em tudo. Mas peço desculpas póstumas ao mestre Otto Maria Carpeaux, meu principal guia como ouvinte, apenas ouvinte, para concordar com o mestre Dico Kremer de que Anton Bruckner é o maior compositor na história da música depois de Gustav Mahler, afirmação que deixa os cultores de

Johannes Brahms possessos. Bruckner nasceu em Ansfelden em 1824 e morreu em Viena em 1896. Foi o legítimo continuador da tradição austríaco-germânica de composição em grande escala. Sua técnica de composição foi influenciada pela sua destreza como organista e consequentemente a improvisação formal. Sua sinfonia mais popular é a n° 4, em mi bemol maior. Mas são fantásticas a 7ª, a 8ª e a 9ª, esta inconclusa.

Salvador Dali, clock

A linha de sombra

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u aqui, mano, diante do seu caixão, tirando essa prosa com você, o carinha vem e me mata com uma facada no pescoço. Zasp! – silva o golpe sibilino. Não reclamo, não dói nem nada. O frio da lâmina, a solidão, o desencanto, todo esse carrossel que gira e gira neste momento, conheço na palma da mão – companheiros de viagem por oceanos de tempo. Vagas estrelas da Ursa, piscando, como quem se oferece lá de longe para o amor. Então, num átimo, dá-se o brilho ilógico - quinhentas, setecentas, mil e uma cachoeiras de luz. Mano, a noite está velha. De repente, tempo, matéria e espaço começam a perder sentido. Não há mais escuridão; só túneis fartamente iluminados. Mais alguns instantes e começarei a perder também a consciência e a inocência. Retornarei ao útero da Mãe. Menino, descobrirei o sexo. Violarei tabus e ritos. Serei duramente advertido pelo Pai. E, ao ingressar na mocidade, voltarei todas as manhãs para o único território do universo onde não há pecado: a infância. Desfaça essas mãos cruzadas, mano. Livre-se do terno preto. Vamos embora sem dizer adeus. Não há partidas nem regressos. Não há adeus. Apenas uma imprevisível estrada iluminada por incontáveis, fugazes instantes de vida – viagem pelo tempo que não há, rumo ao conhecimento do mundo. (‘Mano, a noite está velha’, de Wilson Bueno, Editora Planeta, foi escolhido, em dezembro, pela Associação Paulista de Críticos de Arte, como Melhor Romance de 2011. A ficção acima é uma homenagem a ele).

outubro janeiro de 2012 2011 |

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Jussara Voss

Respeite as estações e aproveite o verão

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espeitar as estações é o que os nossos avós faziam, e a natureza agradecia. Simples assim. Aqui, em terras férteis, parece que esquecemos disso. Mas foi pensar em comida de verão para, minutos depois, a minha lista de alimentos da temporada de calor ficar enorme. Até as massas, ideais para os meses frios, podem aparecer à mesa, desde que você coloque atum (de lata mesmo, mas de qualidade) num talharim já cozido e tempere com azeite, sal e pimenta, servindo a pasta com muito agrião. Aí sim. Para acompanhar, um bom vinho branco, como o Marquês de Alella, ou um espumante, melhor ainda se for champagne – pronto – já é suficiente para diversão em boa companhia. Outra combinação certeira: sorvete de uísque. E assim, falando em bebidas, foi que lembrei do Vinicius de Moraes, para quem nascemos desbalanceados, com uma dose a menos. A receita do gelado é assinada por Alex Atala e acompanha bem uma salada de frutas. Aprendi com o chef Christophe Besse a temperar papaias, melões, abacaxis, mangas, morangos e maçãs em pedaços com suco de laranja e limão e gengibre ralado e deixar marinando na geladeira por pelo menos duas horas. O resultado é inesquecível. Que falar dos figos maduros

da temporada, que vão tão bem com queijo. Enfarinhe pedaços grandes de camembert e frite-os numa frigideira com manteiga e um pouco de azeite, decorando uma salada de rúcula com pedaços da fruta espalhados ao lado. Tempere tudo com azeite, pimenta-do-reino moída na hora, flor de sal Maldon (que é um escândalo com seus cristais crocantes) e um bom aceto balsâmico (se tiver daqueles de 25 anos, não pense duas vezes: é de juntar água na boca só de pensar). É um trunfo dos mais simples da Roberta Sudbrack, que arrasa mesmo com a receita das lichias e foie gras em geleia de Tokaji. O prato me faz sonhar com elas todo fim de ano. E cogumelos, então? Coloque vários tipos numa vasilha, tempere com tomilho, azeite de oliva, sal e pimenta-do-reino moída na hora, leve para grelhar alguns minutos de um lado e do outro (use aquelas grelhas de assar frango em pedaços), tire do fogo e coloque numa frigideira com bastante manteiga derretida e clarificada (sem a espuma que sobe quando a derretemos), acrescente mais folhas de tomilho fresco, mais sal e pimenta. Abafe uns segundos com uma tampa. Pegue umas fatias de pão de qualidade, dê preferências às broas e não se arrependerá. A mineira Wäls Dubbel (cerveja envasada em garrafas de espumante e rolha, que tem dupla fermenta-

ção) será boa companhia. Não esqueça que a temporada de caranguejos vai terminar no dia 30 de janeiro e eles ficam divinos se cozidos ao bafo, com ervas frescas: você poderá servi-los até em casa, pois secos não farão sujeira nenhuma. Não sei por que, comecei a achar esta estação, com tudo o que oferece, um pouco curta para aplacar meus desejos.

Lichia com foie gras em geleia de Tokaji, por Roberta Sudbrack Retire a casca e as sementes de 16 lichias, tomando cuidado para que as metades se mantenham inteiras. Recheie cada porção de terrine de foie gras (no total 100g), preenchendo o espaço do caroço. Feche cada uma, cubra com filme de PVC e leve à geladeira por, no mínimo, duas horas, para que fiquem bem firmes. Amoleça 12g de gelatina em pó, sem sabor, em cinco colheres de sopa de água fria. Aqueça 300ml de vinho de sobremesa Tokaji e adicione a gelatina. Retire do fogo e misture bem até que toda a gelatina esteja dissolvida. Deixe na geladeira por aproximadamente 20 minutos ou até endurecer. Para servir, corte as lichias ao meio, para que o foie gras apareça. Corte a gelatina em pequenos cubos, coloque no prato como um leito para as lichias e sirva bem gelado. Do livro “Uma chef, um palácio”. Serve oito pessoas. Nota: Já fiz esta receita usando outros vinhos doces de sobremesa e é uma opção mais econômica. Tenho autorização dos chefs para a publicação das receitas testadas.

Sorvete de uísque, por Alex Atala

JUSSARA VoSS

Bata 12 gemas peneiradas com 200g de açúcar até esbranquiçar. Ferva 500ml de leite e 500ml de creme de leite. Adicione o creme e o leite às gemas batidas mexendo sempre. Volte ao fogo e deixe cozinhar sem ferver até ficar levemente cremoso. Retire do fogo, passe por uma peneira e adicione o 200 ml de uísque de boa qualidade. Resfrie e leve para uma máquina de sorvete.

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Jussara voss é jornalista.


Luiz Carlos Zanoni

Brinde ao sol

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omo sabidamente beira a indigência a oferta de tintos e brancos em nossos balneários e em outros pontos de veraneio, melhor se prevenir, pegar a estrada levando na bagagem um estoque básico de garrafas para o doce e merecido far niente típico de janeiro. A ideia, claro, é que as taças estejam em sintonia não apenas com a culinária da estação, as saladas e frutos do mar, mas, também, com o ambiente em que serão servidas, praia, piscina, termômetro nos 35 graus, sandálias, biquínis e bermudões. Ajustam-se aí, qual uma luva, os brancos de leves texturas, frescos e nervosos no paladar, assim como bons espumantes e rosados. Nos últimos verões reinaram os vinhos das uvas Chardonnay e Sauvignon Blanc, ótimos em geral, mas que tal desta vez tentar algo diferente, trocar as manjadíssimas cepas francesas pelas menos conhecidas, porém surpreendentes Bical, Alvarinho, Loureiro, Maria Gomes, Roupeiro, Encruzado, Verdelho ou Antão Vaz? São, todas, variedades portuguesas, matrizes de brancos deliciosos que não pesam nem na taça, nem no bolso. Portugal tem um patrimônio de variedades viníferas nativas sem rival. Os vinhos do Porto e os tintos de mesa nos são familiares, já os brancos nem tanto. Sou pelos das regiões ao Norte, especialmente Bairrada, Dão e Minho, lugares onde o clima mais fresco contribui para o equilibrado amadurecimento das vinhas. O Minho é especial. Saem daí tanto os acessíveis e populares vinhos verdes como o Alvarinho, o mais nobre dos brancos portu-

gueses. Prove o Muros de Melgaço, do enólogo Anselmo Mendes, o Soalheiro ou o Palácio da Bacalhoa. Nada ficam a dever aos grandes da França. São consistentes, com nariz a damasco, lima, amêndoas, frutas secas, longo final. O Varanda do Conde, associação de Alvarinho e Trajadura, é uma versão mais ligeira, com ótima relação ônus & bônus. E passando à Bairrada e ao Douro, dois clássicos, o Vinha Formal, de Luis Pato, elaborado apenas com a Bical, e o Redoma Reserva, de Dick Niepoort, mescla das uvas Arinto, Viosinho, Rabigato e Codega, este já eleito por seguidas vezes o melhor vinho branco lusitano. Mas férias pedem também espumantes, e aqui, Champagne à parte, a Serra Gaúcha é estupenda parceira. Um campeão, o Cave

férias pedem também espumantes, e aqui, Champagne à parte, a Serra Gaúcha é estupenda parceira

Geisse, na versão Nature ou Terroir. A vinícola foi fundada em 1976 em Bento Gonçalves pelo enólogo chileno Mario Geisse, que hoje, 35 anos passados, continua lá, obcecado pelo desafio de a cada safra fazer um vinho melhor. Em igual nível de qualidade, os espumantes no estilo brut da Valduga, Miolo, Chandon, Vallontano, Salton, Aurora e Pizzato. Versáteis, os espumantes vão bem a todo momento, na refeição ou fora dela. Já dos tintos não se pode dizer o mesmo. Dureza encarar um potente Malbec na beira da piscina, sol a pino. Acalmem-se, porém, os adoradores dos tintos. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, um bom rosado é a saída, vinhos em estilo flex, que combinam a intensidade de sabor ao caráter aromático e refrescante. Bom exemplo das virtudes da categoria é o Gran Feudo da Bodegas Chivite, espanhol de Navarra, 100% Garnacha. Prefira os de safras recentes e sirva-os geladinhos. Sugestão final para o kit de férias: uma garrafa de vinho do Porto branco, extra seco, algumas latas de Schweeps ou de água tônica, melhor se for a da Antárctica, e limões sicilianos. Aí, num copo longo, um quarto do Porto, tônica até quase a borda, gelo à vontade. Acrescente duas fatias do limão e saboreie a vida.

LUIZ CARLOS ZANONI  é jornalista e apreciador de vinhos. janeiro de 2012 |

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Marcio Renato dos Santos

Bloco do eu sozinho

F

az meia década que não viajo em véspera ou durante feriados. O motivo? No último dia de 2007, ou seria de 2008?, tive uma ideia: seguir para o litoral do Paraná. Esqueci que outras muitas pessoas também iriam percorrer o mesmo trajeto naquele momento. Mas faria, tanto que fiz, o possível para pular sete ondas na passagem do ano com roupas brancas. Aqueles 111 quilômetros nunca, até então, demoraram tanto para serem vencidos. Foram treze horas. De avião, eu teria atravessado o Atlântico. Mas saí de Curitiba dentro de um carro em busca do mar paranaense a ouvir um mesmo CD, que quase derreteu. A temperatura do motor se desregulou diante daquele vai não vai; a fila de automóveis estava, literalmente, devagar quase parando. Choveu na passagem do ano, choveu no dia seguinte, choveu na viagem de volta, realizada nos previsíveis 90 minutos. Em Curitiba, em meio à garoa, a promessa: jamais, em nenhuma hipótese, sair da cidade nos recessos. Agora, em janeiro, veja só, não há filas nem congestionamento – Curitiba é outra. É nessa cidade, a de janeiro, e a dos feriados prolongados, que sigo quase a flutuar. Um amigo curitibano passa férias nessa cidade. Ele troca a casa por um hotel, compra postais e os envia para colegas e vizinhos.

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A necessidade de manter o cartão com débito, a geladeira com queijos e o estoque na adega inviabilizam percorrer Curitiba nos dias úteis. O fim de semana é insuficiente para circular até na rua onde se vive. Curitiba tem curvas, sons, túneis e aromas quase secretos. Apenas quando desisti de sair da cidade tive acesso, por exemplo, ao carnaval curitibano. Durante temporadas ouvi vaias às festas momescas locais e, como um teletubbie, repeti apupos. Até que fui lá, vi, ouvi e senti. Em 2009 choveu, ano passado também, mas em 2010 foram sete horas na Cândido. O carnavalesco curitibano é, antes de tudo, um forte. Afinal, a entrada das escolas é em uma curva, onde também há uma lombada capaz de desequilibrar carro alegórico. São 372 passos da entrada da Assembleia até o prédio da Prefeitura, onde termina o desfile. Se o tempo para entrar e logo sair de cena é pouco, a força da bateria e a presença do elenco de cada escola podem alterar a percepção do tique-taque dos relógios, e transformam aquele trecho de uma avenida em universo paralelo onde quase tudo pode ser possível. E se a Embaixadores da Alegria desfilasse com um samba-enredo sobre os livros do Wilson Bueno? A Mocidade Azul poderia fazer uma homenagem a Jamil Snege. Os Acadêmicos da Realeza com as bandas de rock da cidade?

A minha fantasia de carnaval curitibano é que todas as escolas se apropriem das obras dos prosadores que atuaram e atuam na cidade para construir os enredos, os carros alegóricos e tudo o mais. Enquanto isso não acontece, vou no embalo daquilo que há. Mas, durante o desfile, nem todos seguem como eu, com as duas mãos dentro dos bolsos da calça ou da bermuda. Há quem rasgue a fantasia cotidiana para se apresentar de Backyardigan, Marcelo Camelo, Panicat, Gradisca ou, rá, ié-ié, glu-glu, de Serginho Mallandro. O carnaval de rua em Curitiba começa e acaba no domingo, mas na manhã seguinte retorno à Cândido de Abreu e, sozinho, contorno arquibancadas para ver como muito se transforma quando a batida do cartão-ponto é suspensa. Um bruxo recomenda que, no que diz respeito a mulheres e loterias, é preciso insistir; afinal, um dia elas podem ceder. Se os mistérios e segredos de Curitiba não se revelam nos dias e horários úteis, faço o que o bruxo sugere: insisto, principalmente no silêncio dos recessos, em janeiro e no carnaval.

Marcio renato dos santos é escritor.


Simetria do n達o

novembro janeiro de 2012 2011 |

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Fotos e texto Marianna Camargo Arte Guilherme Zamoner

Meus olhos são sinais através dos muros

Simetria do não

Os olhos que não encontro São seus Seu sorriso, sua pele, seu caminho Espelho a raiz do seu sonho

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entre a noite e o vento

são as esquinas, essas espirais do medo

invento uma língua

refaço a cartografia da memória

um país que não existe

escrevo para não existir mais

roubo tua imagem miro os seus olhos, seu sorriso, sua pele

As fotos-colagens foram tiradas nas ruas de Madri, na Espanha, em setembro de 2011

janeiro de 2012 |

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apresentam:

Cursos e espetáculos

8 a 28 JAN oficinademusica.org.br

Boa música nunca foi tão popular. Programe-se.

realização:

apoio:

patrocínio: janeiro de 2012 |

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ÚLTIMAS DA MODA

por Paola De orte

Hot pant no biquíni

Verão não é só moda praia

De qualquer maneira, parece-me que, se devo fazer algum comentário acerca de biquínis, o elogio deveria ser com relação a este novo design gracinha que tem sido apresentado nas últimas coleções do ramo: super 50’s, cujas calcinhas são de cós alto e cujos sutiãs têm melhor sustentação, esses modelos ganharam meu coração. A Salinas desfilou vários do gênero na temporada Primavera/Verão 2012 da Fashion Rio, assim como Cia. Marítima, Lenny e Rosa Chá (foto a esquerda).

V

erão não é só biquíni cortininha, havaianas e shorts desfiado. Não, o verão é estação generosa, cheia de ensejos para a criatividade. Ao contrário do que afirma a típica frase do típico curitibano (“eu prefiro o Inverno, porque as pessoas se vestem melhor e ficam mais chiques”, o que não é verdade, já que as botas de bico fino, as blusas de gola rolê e as calças molecotton são os únicos itens a imperar no Inverno curitibano desde 1994), é no Verão que os fashionistas mostram a que vieram. É uma arte escolher cores que não se restringem ao preto, não mostrar nem perna demais nem perna de menos e lidar com o suadouro. Existe um ramo da Moda Verão, no entanto, que sempre foi assunto intrigante para mim: a Moda Praia. Todas as vezes que vejo comentários sobre de desfiles de biquínis, minha primeira reação é: “Jura que mudou tudo isso desde o ano passado? Ninguém diria”. Tenho a impressão de estar vendo sempre a mesma coleção, e aquela conversa de “esse ano a moda é estampa de bolinha” ou “esse ano o hype é a listinha” não convence. Moda é algo maior, que (eca!). vai além do microcosmo dos padrões escolhidos para estampar tecido de lycra (eca!).

Algumas marcas não tão conhecidas do grande público têm investido nesta tendência de biquínis maiores e mais elegantes. Entre elas estão Dibikini, Jo de Mer, Clube Bossa, Adriana Degreas, Triya e Beach Couture.

André Bittencourt e André Cherri

renata Piza Agência fotosite

Salinas

Fora do mainstream

Cia. Marítima

Uma moça reacionária Confesso que a razão para a preferência por tais modelos, maiores e mais comportados, deve ser meu ímpeto conservador ultramontano, que me impede de achar normal ver mulheres a andarem semi-nuas, sem pudor algum, só porque nos encontramos em território salgado e de umidade elevada.

Lenny

Cores

Lenny

O color block continua! O ponto de exclamação reflete todo meu regozijo com relação ao assunto. As cores mudaram sutilmente, mas nada que mude o espírito do color blocking: blocos de cores inesperadas dispostas harmoniosamente.

Paris-Bombaim A melhor novidade surgida dos últimos desfiles prêt-à-porter foi a coleção Pré-inverno Paris – Bombaim da Chanel. Karl Lagerfeld montou passarela para convidados especiais que se deleitavam com jantar preparado à moda da ocasião e apresentou a nova coleção da marca, inspirada na Índia, mas com características típicas da maison francesa. surpreendente, criativo, distinto, sem abandonar a tradição: tudo o que se pode querer da Chanel.

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Aliás, dentre as cores mais desfiladas nas últimas coleções Primavera/Verão de Milão, Paris, Nova Iorque e Londres, estão: rosa framboesa, chocolate, ciano, ervilha (split pea) e os pastéis bege, nude, rosa algodão doce (!), lavanda, verde menta (seafoam green) e robin egg blue.

Sequin

Franjas

Brilho, muito brilho! Os paetês vêm e voltam, e cá estão eles de volta, a arrebatar multidões, até que tenham se multiplicado a ponto de ninguém mais aguentar vê-los. Por enquanto, dá para se divertir com esses tecidos que se encontram em uma linha tênue entre o kitsch e o cafona. Quem souber identificar essa linha está autorizado a embarcar na trend.

O que combina mais com a onda paetês do que a onda franjas? As franjas, os paetês, os vestidos de um ombro só: são todos membros de uma facção de modismos que vão e vêm e quando você menos espera e os estilistas estão mais sem criatividade, eles aparecem de volta. Isso não é uma crítica: franjas e paetês, na medida certa, podem ser interessantes. Mas eles são o que são: apelações meio manjadas.

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Vestido de paetês da Topshop

IMAXTREE.COM AND MATTEO VOLTA

Chanel Pré-inverno 2012

Vestidos com franjas da Gucci

Robin egg blue? Robin é o nome anglófilo para a espécie de pássaro Turdus migratorius. Os ovos dessa espécie são azulados, o que deu origem ao nome da cor mencionada: azul-ovo-de-tordo.


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ISABELA FRANÇA

Boa causa A

Diego Pisante

divulgação

curitibana Mirella Prosdócimo, idealizadora da campanha “Esta Vaga não é Sua nem por Um Minuto!”, foi a estrela do jantar Golfesperança, promovido no Graciosa Country Club, na primeira semana de dezembro. Flávia Malucelli, diretora da Academia Paranaense de Direito Ambiental, fez questão de cumprimentar Mirella Prosdócimo e Rafaela de Aguirra Pilagallo, fundadora e presidente do Instituto Golfesperança. O jantar oferecido pelas diretorias Social e de Responsabilidade Social do Graciosa Country Club teve como finalidade captar recursos para o projeto 100% voluntário da escola gratuita para pessoas com deficiência intelectual.

Concorrência Em preparação para a chegada da forte concorrência, a direção do Shopping Crystal aproveitou o período das festas para investir na reformulação da fachada. A mudança que deu traços mais contemporâneos ao shopping da Avenida Batel faz parte de um projeto de revitalização arquitetônica promovido pelo grupo BR Malls, que administra o espaço desde o ano passado. Mas para encarar a briga por consumidores que vai se acirrar com a inauguração do Pátio Batel - prevista para este ano, com lojas como Louis Vuitton e Tiffany & CO. -, o Crystal terá de criar identidade e buscar um nicho alternativo no mercado local. 64

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O Brasil é aqui A corretora de imóveis curitibana Denise Gomm Santos, associada da Elite de Miami, nunca trabalhou tanto como em 2011. Dezembro passado, mês em que tradicionalmente vinha ao Brasil visitar familiares, optou por ficar em Miami recepcionando seus clientes brasileiros. A grande parte deles inaugurando seus imóveis para a primeira temporada na casa própria em terras do Tio Sam. Denise intermediou mais de uma dezena de negociações imobiliárias para curitibanos na Flórida, só no segundo semestre de 2011. A perspectiva é que o mercado continue aquecido. A grande procura é por apartamentos em condomínios para férias e lazer, mas há muita gente buscando unidades em flats e hotéis como investimento para locação. Para esta segunda opção o públicoalvo é o mesmo: brasileiros.


Sinos O

arquiteto Eduardo Mourão trouxe para Curitiba os meninos e meninas do Coral do Instituto Mirtillo Trombini, de Morretes, que encantam todos os anos com uma bela apresentação de Natal no casarão sede do instituto, no litoral paranaense. O coral apresentou-se na festa de Natal da loja Studio Casa para amigos e clientes do arquiteto. A trilha sonora com tradicionais músicas em homenagem ao bom velhinho, mesclada com o cancioneiro tradicional do Paraná agradou. O evento arrecadou latas de leite em pó para o Lar Antonia. Rita Mourão foi abraçar o cunhado Eduardo, com Adriane Gallego e Fabiana Mendonça.

500 reais O presidente do UFC - Ultimate Fighting Championship, Dana White, falou, em entrevista à revista Alpha, que Anderson Silva está prestes a se aposentar e ficar para a história como o maior lutador de todos os tempos, além de milionário. “Ele é provavelmente o maior lutador da história. Está sem perder e é campeão desde 2006”, teria dito Dana. O homem que decide o futuro dos lutadores acredita que com duas lutas, Anderson Silva deveria guardar as chuteiras e encher os bolsos. Para garantir a imagem de ídolo, todavia, deveria rever o valor de pensão alimentícia pago ao filho curitibano de 14 anos – vergonhosos R$ 500. “Não há de te fazer falta 500 platas”, como diria o impagável personagem Gardelón, do Jô Soares.

Hummmm Maria Letícia Rose Pessoa e as filhas Maria Júlia Pessoa Hoffmann e Ana Letícia Pessoa Bley assinam alguns dos mais desejados doces da atualidade. São elas que, pessoalmente, cuidam das receitas e confeitos da Hum Cup Cakes. Além dos tradicionais cup cakes, minibolos e brownies, o trio produz deliciosos whoopies – duas finas massinhas de bolo recheadas com confeitos de dar água na boca. Só em dezembro, entregaram cup cakes e brownies para casamentos, festas de quinze anos e mais de 10 eventos de final de ano. janeiro de 2012 |

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ISABELA FRANÇA

Flor de laranjeira Patrícia Fernandes Luiz casou-se no dia 10 de dezembro com Thiago Stoll Coelho. A festa, no Mirante Barigui, teve a assinatura dos noivos. Patrícia é designer – trabalha com a família na Artestil Eventos, na locação de mobiliário para eventos – e cuidou pessoalmente da escolha dos móveis para a ambientação da festa. Thiago é chefe de cozinha – assina os congelados Stoll – e foi para o fogão durante uma semana para preparar o menu de culinária árabe para o almoço que reuniu 120 pessoas. A festa foi produzida pela Araç�� Eventos.

Nova banca Os advogados Sandra e Thiago Turra acabam de abrir as portas de um novo escritório de advocacia que tem tudo para tornar-se referência em relações de consumo, contratos e consultoria nesta área. Sandra Turra, mãe de Thiago, é referência nacional quando o assunto é Direito do Consumidor. Por muitos anos, seu nome foi sinônimo de Procon no Paraná. E sua atuação corretíssima e ousada foi modelo para muitos outros estados. Em novo momento de sua carreira, Sandra decidiu abrir a banca Ferrari e Turra, ao lado de seu primogênito Thiago, que pretende atuar na área cível e empresarial. O nome forte da mãe deverá alavancar o escritório na área de consultoria a grandes empresas. 66

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Mais uma Loizane Milani inaugurou, no dia 6 de dezembro, mais uma loja de móveis Todeschini, em Curitiba. Desta vez, na Rua Augusto Stresser, no Juvevê. Com 500 metros quadrados, o showroom apresenta seis ambientes projetados com móveis da nova coleção da marca paranaense. Jucenei e Marli Monteiro foram cumprimentar Loizane.


gersoN LimA

Xô,

evil eye

Luz C

A designer Elizabeth Bianco, gerente comercial da Ideally Iluminação, abriu as portas da loja instalada

omo de costume, a marca de sandálias Havaianas lança dois novos modelos

em duas amplas casas modernistas no Batel para arquitetos, designers e decoradores para comemorar o encerramento da Campanha de Fidelização de 2011 da

especiais para celebrar a chegada

Ideally. Os profissionais parceiros foram premiados com

do Ano Novo. Inspiradas nos

uma viagem para Fernando de Noronha e presentes

votos de paz, sucesso, saúde, amor,

tecnológicos. O evento, que está em sua segunda edição,

as sandálias mais democráticas

foi encerrado com a apresentação do Grupo Santo

do mundo propõem proteção das energias negativas dos pés à cabeça e com muita energia. O modelo feminino é branco e o masculino é azul marinho. Acompanhando os dois modelos, vem um pingente com uma mini Havaianas e um Olho Grego.

Improviso, conduzido pelo humorista Marco Zenni.

Palco A

bailarina e coreógrafa Mariana Feitosa está finalizando os detalhes do projeto Jazz Central que trará a Curitiba, em abril deste ano, o coreógrafo norte-americano Brian Thomas. A novidade é que o projeto de 2012 foi aprovado pelo Ministério da Cultura e terá patrocínios captados pela Lei Rouanet, que prevê dedução de parte dos valores investidos no Imposto de Renda. Com isso, os workshops oferecerão como contrapartida aulas com o coreógrafo de Michael Jackson a crianças carentes assistidas por projetos de assistência social voltados à dança.

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BALACOBACO

por Thais Kaniak

Diego Pisante

Itália para as pequenas D

o berço da tradição cultural e artística europeia, a grife italiana Monnalisa chegou a Curitiba. A marca é líder mundial em roupas e acessórios infantis para meninas e agora tem sua primeira concept store na capital paranaense. Priscila Cadore Nobre, franqueada da marca em Curitiba, recebeu os convidados vips do fashion show ao lado do italiano Christian Simoni, CEO da Monnalisa, no lançamento da grife.

Diego Pisante

O evento contou com a presença da atriz e bailarina Cláudia Raia, que foi a mestre de cerimônia da noite, e de sua filha Sofia, que abriu e fechou o desfile da marca.

Michele Mroz, Patrícia Cadore, Erika Strelhow, Priscila Cadore Nobre, Melissa Soares da Costa e Sule Nateou, equipe Monnalisa

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| janeiro de 2012

Diego Pisante

Priscila Cadore Nobre, franqueada da Monnalisa em Curitiba, e Cláudia Raia

Diego Pisante

Ricardo Guerra, hair stylist, e Priscila Cadore Nobre, franqueada da Monnalisa em Curitiba

Tatiana Schroden, atendimento e coordenadora de projetos da IMAX Eventos; Melissa Buest, maquiadora; Christian Simoni, CEO da Monnalisa, Debora Mateus, stylist; Letícia Lopes, consultora de marketing, Ireni Ferreira, diretora da IMAX Eventos; Cláudia Raia e Sofia e as modelos mirins


thais@revistaideias.com.br

Larissa, régua e compasso Na infância, Larissa ikeda era mestre no lego. Admirava seu talento para montar qualquer coisa que fosse naquele universo de peças coloridas dos mais diversos tamanhos. Eu não tinha paciência nenhuma para aquilo. Nem para cubo mágico ou quebra-cabeças, passatempos que ela dominava com uma facilidade incrível. Foi ali que começaram a apontar características que a transformariam em uma profissional bem-sucedida. Arquiteta, claro. Não poderia ser diferente. No meio da pilha de projetos, encontrou outro interesse. A cenografia. Fez uma pósgraduação e passou a fazer cenários para uma companhia de teatro local. Até que ficou sabendo de um processo seletivo na área de cenografia no Projac, da Central Globo de Produção. E é lá que Larissa está hoje. No maior núcleo televisivo da América Latina.

Arquivo PessoAL

Experiências ótimas e aprendizado diário. É assim que ela define este seu momento profissional em terras cariocas. O Rio de Janeiro continua lindo e Larissa traça seu caminho pelo mundo com régua e compasso. Aquele abraço!

Há cerca de três anos, a publicitária Berta Lia varaschin começou a produzir peças de papelaria para ela mesmo usar. Blocos, agendas e cadernos decorados com estampas exclusivas. Queria uma opção personalizada que não encontrava no país. As amigas começaram a fazer encomendas e, quando Berta notou, já estava com uma clientela. Daí foi um pulo para abrir sua loja, a Papelícia. O nome vem da junção de “papel” e “delícia”. Suas delícias em papel conquistaram tanto público que no começo de dezembro inaugurou o novo endereço da loja e também passou a vender pela internet.

Linha de cadernos personalizados

Berta Lia Varaschin, da Papelícia, com uma de suas criações: as sapatilhas da marca “Oh, Dorothy!”

Diego PisANte

Cupcakes, de fabricação própria, também fazem parte das delícias da loja Diego PisANte

Diego PisANte

Exclusividade é uma delícia

Berta Lia Varaschin com Marta Krug janeiro de 2012 |

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por Thais Kaniak

Mais cultura na cidade

Finalmente os curitibanos têm uma Livraria Cultura na cidade. A abertura da loja em dezembro foi um sucesso. As pessoas fizeram fila para esperar as portas se abrirem. No Facebook e Twitter deu para ler e sentir a felicidade e carinho dos nativos com a chegada da Livraria. A loja esteve movimentada durante todo o dia da inauguração. Quase cinco mil visitantes. Agora é só dar um pulo e se deliciar com tudo o que a Livraria Cultura tem para oferecer.

Fabio Herz, Pedro Herz, Sergio Herz

Andrea Costa, gerente de Marketing, Pedro Herz e Paola Noguchi, superintendente do shopping

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fotos Patricia Lion

BALACOBACO


Ser harleyro

S

er um harleyro, de acordo com Roger Wolf Pedroso, diretor da The One Harley-Davidson, é estar sempre em contato com os amigos, é ter uma nova família, onde um quer ajudar ao outro. É ir a uma loja da HarleyDavidson aos sábados, desfrutar um bom café da manhã e ter a possibilidade de conhecer e trocar experiências, muitas vezes com pessoas que nunca imaginou. “Somos todos iguais, não nos comparamos pela roupa ou credo, temos uma única paixão: a Harley-Davidson.” Roger comenta que sua paixão pela Harley-Davidson é de longa data. Desde sua adolescência admirava e sempre sonhou em ter uma, porém, no passado o valor de uma Harley-Davidson, na palavra correta, “era para poucos”. “Um dia, vi uma moto linda com pneus faixa branca e muitos detalhes em cromado. Foi amor à primeira vista. Era uma Harley-Davidson modelo Deluxe. Sem pensar, vendi minha BMW e troquei pela moto dos meus sonhos e falo com propriedade: foi o melhor investimento da minha vida.” Agora a Harley não é apenas um hobby para Roger. É também negócio. Inaugurou no último mês a concessionária exclusiva da Harley-Davidson em Curitiba, que traz 18 modelos de motos modelos 2012, peças e roupas originais da marca. Um deslumbre para os harleyros nativos de plantão.

Roger Wolf Pedroso (diretor da The One Sérgio Goloubeff (diretor da The One Harley-Davidson) e sua esposa Corinna Harley-Davidson), Luciano Ducci Beatriz Voswinckel Pedroso (prefeito de Curitiba) e Roger Wolf Pedroso (diretor da The One Harley-Davidson)

Hans Jurgen Klaus Voswinckel, Luciano Roger Wolf Pedroso (diretor da The One Ducci, Longino Morawski, Roger Wolf Harley-Davidson) e Sérgio Goloubeff Pedroso e Sérgio Goloubeff (diretor da The One Harley-Davidson)

Paz na Terra aos homens de boa vontade. Isto é, paz para muito poucos (Millôr Fernandes)

Rosi e Belisa Guelmann. Mãe e filha. Decoradora e arquiteta. Elas prometem movimentar as reuniões de condomínio com a RG Arquitetura e Design. As duas acabam de lançar no mercado o Retrofit Master, um upgrade do já conhecido retrofit, que moderniza prédios ao atualizar fachada, áreas de acesso comum e instalações elétricas e hidráulicas. Com o Retrofit Master, aumentam o número de suítes em imóveis antigos ou do litoral com uma pequena adaptação.

arquivo pessoal

Experiência e inovação A grande vantagem é que ele não interfere na parte interna dos apartamentos, apenas deixa a estrutura disponível para receber mais suítes. Fica a critério de cada um a mudança e ainda pode valorizar em até 30% o imóvel. Rosi e Belisa garantem que o trabalho em família não pode ser diferente de um escritório convencional. Respeito pela opinião dos profissionais vem em primeiro lugar. Conciliam experiência e inovação. Já tiveram o privilégio de trabalhar para os atores Glória Menezes e Tarcísio Meira com projetos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Agora mãe e filha esperam atualizar visual e funcional dos edifícios de Curitiba e de cidades de todo o Brasil. janeiro de 2012 |

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Cartas

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a noVa Cara da PolÍCia Agradeço ao jornalista Fábio Campana pelo espaço dado à PC na edição de dezembro da Revista Ideias. O cargo de delegado-geral em destaque. Marcus Michelotto, delegado-geral da Polícia Civil Parabéns por destacar o trabalho do delegado-geral da Polícia Civil Marcus Michelotto. Homem simples, lutador, visão de águia, trata a segurança com pulso forte, porém, nunca esquece o lado social das pessoas pobres. Desde os delegados Adauto Abreu de Oliveira e Ricardo Noronha (injustiçado por uma CPI que não provou nada) não víamos um delegado com um perfil tão positivo. Podemos divergir no campo ideológico, mas nunca jamais no profissional. Que Deus lhe dê vida longa na Chefia da Polícia Civil. José Diniz O delegado-geral da Polícia Civil Marcus Michelotto é preparado, está no cargo certo. Poucas pessoas neste país têm a sensibilidade que ele tem para tratar de Segurança Pública. Tem sensibilidade aguçada e, por isso, é referência de conhecimento de segurança pública. Ser capa de uma revista conceituada, reforça o que sabemos. Michelotto tem uma história idônea na Polícia Civil do Paraná, além da postura ética e profissional que ocupa o de delegado-geral. Parabéns delegado Michelotto. Sucesso. Deputado Fabio Camargo

reViSTa ideiaS A Revista IDEIAS está de parabéns. A cada edição, o periódico revela mais e mais a autêntica expressão da alta cultura paranaense. Sua equipe de colunistas altamente gabaritada conjuga profundidade de conteúdo, clareza e objetividade na exposição, precisão na forma e sobretudo atualidade na escolha dos artigos publicados. Aurélio Ribeiro de Souza Carioca radicado em Curitiba, leitor voraz de IDEIAS.

Sol, Suor e lÁGriMaS

Todos nós, leitores, jornalistas, proprietários de imóveis no litoral do nosso Estado, deveríamos reclamar, comentar mais o abandono, o descaso por conta dos prefeitos desses balneários. Não é possível que tenhamos que aguentar todas as temporadas, ruas esburacadas, águas poluídas, precariedade em todos os sentidos. Lucia

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Todo ano é a mesma coisa, não aprendemos nunca. Estradas cheias porque todos nós queremos ir ao mesmo lugar, ao mesmo tempo. Praias lotadas e sempre sujas, filas nos postos de saúde e pronto-socorros, afogamentos, atropelamentos e assaltos. Mas o que é assalto? Cincão na lata de cerveja que custa dois no supermercado? Ou a mão armada do valor do IPTU para 2012? É sempre a mesma coisa. Em 2012 não vai ser diferente. A. Carlos

o BooM iMoBiliÁrio

MaCiSTe no inFerno Muito boa a crônica. Nem precisa descer pra praia. Mulheres com voz de homem e masculinizadas encontra em qualquer lugar. A mulher charmosa, magra e sedutora que habita nossos desejos desapareceu. Marcelo

Publicação da Travessa dos Editores ISSN 1679-3501 Edição 123 – R$ 10,00 ideias@revistaideias.com.br revistaideias.com.br facebook.com/revistaideias twitter:@revistaideias EDITOR-CHEFE Fábio Campana CHEFE DE REDAÇÃO Marianna Camargo REDAÇÃO Marisol Vieira, Thais Kaniak COLUNISTAS Ana Figueiredo, Andrea Greca Krueger, Carlos Alberto Pessôa, Ernani Buchmann, Isabela França, Izabel Campana, Jussara Voss, Luiz Carlos Zanoni, Luiz Fernando Pereira, Luiz Geraldo Mazza, Luiz Solda, Marcio Renato dos Santos, Paola De Orte, Paula Abbas, Pryscila Vieira, Rogerio Distefano, Rubens Campana COLABORADORES Ana Paula Franco, Antonio Vera, Arlindo Neves, Guilherme Zamoner, Marcio Renato dos Santos, Renan Machado DIRETOR DE FOTOGRAFIA Dico Kremer TRATAMENTO DE IMAGEM Carmen Lucia Solheid Kremer FOTO DA CAPA walpapers.net

Karen, gostaria de te parabenizar pela matéria. Imparcial, bem elaborada e com ótimas fontes. Maria Emília Staczuck

a Vez do CineMa ParanaenSe

o Grande eleiTor Não sei não! E esse papo de que o PMDB viria a apoiar o Ducci? Se não no primeiro, mas no segundo turno, se houver. Os partidos não tem ideais e princípios. É só interesse de algumas pessoas. Por isso nada é impossível. Só aguardando prá ver. Agora é muito cedo. Só notícia plantada. Antonio

REVISTA

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Katiane Cabral e Luigi Camargo REVISÃO Márcia Campos CONSELHO EDITORIAL Aroldo Murá G. Haygert, Belmiro Valverde, Carlos Alberto Pessôa, Denise de Camargo, Fábio Campana, Lucas Leitão, Marianna Camargo, Paola De Orte, Rubens Campana PARA ANUNCIAR comercial@revistaideias.com.br PARA ASSINAR assinatura@revistaideias.com.br

A matéria sobre o cinema local ficou muito boa. Legal saber como anda a produção nessa área. Além disso, a diagramação ficou ótima. Fernando Novaes Excelente matéria da jornalista Raffaela Ortis, na Revista Ideias. Com entrevistas de Eduardo Baggio, Aly Muritiba, Adriano Esturilho, Bruno de Oliveira, Diego Florentino, Fábio Allon Dos Santos, Rafael Urban e Guilherme Greca. Guilherme Greca

ONDE ENCONTRAR Banca do Batel Banca Boca Maldita Banca da Praça Espanha Fnac Shopping Barigui Revistaria do Maninho Revistaria Quiosque do Saber no Angeloni Banca Presentes Cotegipe no Mercado Municipal Livrarias Ghignone Banca Bom Jesus Revistaria Itália Banca Shopping Curitiba

Rua Desembargador Hugo Simas, 1570 CEP 80520-250 / CURITIBA-PR Tel.: [41] 3079 9997 travessadoseditores.com.br


Você decide? Quem lê Ideias, sim. Em Curitiba, 20 mil pessoas leem a revista Ideias e decidem o destino da cidade. Seja uma delas: assine e decida. IDEIAS é a revista mensal que acompanha a vida paranaense em todos os seus aspectos — político, econômico e cultural — com grandes reportagens que antecipam o noticiário dos demais veículos locais, inclusive os diários.

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IDEIAS é formadora de opinião na região. Sua tiragem é de 18 mil exemplares e vai às bancas sempre no primeiro domingo do mês. A revista circula há nove anos, desde maio de 2003. Além da edição normal, IDEIAS publica edições especializadas em economia e negócios no Estado, com a mesma tiragem e distribuição. IDEIAS reúne um time de primeira linha. Jaime Lerner, Dalton Trevisan, Fábio Campana, Jussara Voss, Marianna Camargo, Luiz Geraldo Mazza, Paola De Orte, Luiz Fernando Pereira, Carlos Alberto Pessôa, Isabela França, Luiz Carlos Zanoni e Rogerio Distefano. As revelações do jornalismo paranaense produzem reportagens, entrevistas e demais conteúdos. E mais: coluna social de Isabela França, inovadora e em sintonia com a contemporaneidade — um dos destaques da revista. IDEIAS tamb��m abre espaço para ficção, humor, charge, ensaios fotográficos e crônicas.

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O tempo passa, Colombo se transforma e sua vida muda junto. Para melhor.

Desde 2005, os colombenses tem vivenciado uma grande transformação: mais de 300km de ruas asfaltadas, novos postos de saúde, redução da criminalidade e diversos investimentos em educação, estrututra, geração de empregos e serviços. É o trabalho da prefeitura transformando a cidade em um lugar cada vez melhor para todos.

A Prefeitura trabalha e a transformação acontece.

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O novo modelo da Renault educa, protege, transforma e preserva.

Mudar a direção pode mudar tudo.

A Renault aceitou o compromisso de construir uma sociedade sustentável e justa, com projetos como este, a Escola Árvore dos Sapatos, em São José dos Pinhais/PR, que oferece possibilidades de desenvolvimento para mais de 230 crianças.

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