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Izabel Campana

Não tenho medo de cara feia

M

as tenho pavor de cirurgia plástica. Não é medo comum, esse que se tem por aí, de entrar na faca. É um medo bem específico: de cirurgia plástica. Como todo medo que se preze, o meu também é irracional. Entre amigos e conhecidos, as cirurgias têm sido quase sempre um sucesso. Sem sequelas para a saúde e com resultados incríveis para aquilo a que se prestam, um upgrade na aparência. Mas exemplo algum tira o temor que sinto ao me imaginar passando por tal operação. Não tenho medo de médico, doença, dentista e afins. Com exceção dos curandeiros de todo tipo. Esses muito me assustam, mas por motivos que ora não vêm ao caso. Sendo assim, creio que se tivesse que me submeter a qualquer outro tipo de cirurgia, toparia numa boa. Na medida da boa em que se pode estar num momento desses, claro. Mas é aí que começa a diferença para as operações cosméticas. Dificilmente eu iria querer passar a noite em um hospital, quem dirá em uma UTI, se isso não fosse necessário. E por necessário eu digo: doença ou parto. Por isso repito sem dissimulação: admiro a coragem de quem vai ao encontro do bisturi por um desacordo com o espelho. Não é que eu não tenha queixas contra o meu próprio reflexo. Mas daí a planejar cortes e sucções em partes do meu corpo, aí não. Também tenho que admitir que, apesar de não ter medo, tenho uma certa suspeita com relação ao comparsa tradicional nessa empreitada. Não confio nos médicos. Não é que ache que vão cometer alguma afronta à ética ou atos de imprudência, imperícia e negligência, como se diz no mundo jurídico. Do que eu suspeito mesmo, sinceramente, é do senso estético dos doutores. Me explico. Nada contra os médicos. É simplesmente fato que senso estético é algo muito pessoal. Já diz o velho ditado: gosto não se discute. E encontrar alguém com gosto similar

ao seu tende a ser coisa rara. Então sugiro: relembre a matemática e faça um cálculo mental. Quantos cirurgiões plásticos, com habi-

se cADA cArA é umA cArA, que tAl AcorDAr com outrA? com um nAriz que não é meu, umA bocA que não é minhA

lidades comprovadas, com especialidade na parte do corpo que você pretende remodelar, dentro da faixa de preço que você pode pagar, na cidade em que você mora, provavelmente, têm um senso estético similar ao seu? Pois é. Agora outro problema. Como você testa o paladar do tal doutor? Em um restaurante, se você pede um prato e ele não te apetece, o máximo com que vai ter de arcar é a conta. Se for como eu, um pouco de mau humor, talvez. Agora imagine o humor ao descobrir que te deram um nariz bem passado, puxado demais no alho, frito em gordura velha? Haja estômago! E dar uma olhada em pacientes anteriores também não é boa saída. Cada cara é uma cara. Mas o que mais me preocupa ainda está por vir. É o terror de acordar irreconhecível. Se cada cara é uma cara, que tal acordar com outra? Com um nariz que não é meu, uma boca que não é minha. E não é só a face. Veja a minha barriga, por exemplo. Veio crescendo aos poucos, junto comigo, desde a mais tenra infância. Tem lá seus probleminhas de proporção com o resto do corpo, umas questões de celulite e estria, que assustam qualquer mulher. Mas já estou habituada a ela. E ela a mim. Já sabemos o que veste bem em nós duas, em que posição ficamos mais confortáveis. Enfim, a gente se conhece. Relendo tudo que escrevi aqui, talvez seja mesmo o apego a essa familiaridade o que me assusta nas drásticas mudanças de visual. Ou talvez seja só preguiça do trabalho todo que dá. Pesquisar médico, comprar pijama novo para o hospital, receber visitas e estar incapacitada de cortar o papo dos chatos porque você está cheia de pontos por todos os lados. É, pensando bem, deve ser mesmo preguiça.

izAbel cAMPAnA é advogada.

março de 2012 |

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Izabel Campana  

Crônica para Revista Ideias 125

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