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2013 Instituto de Ciências Sociais . Universidade de Lisboa

PORTUGAL e EUROPA Valores e atitudes na 1ª década do século XXI

Destaques Atitudes Sociais dos Portugueses

2


ÍNDICE MONITORIZAR A MUDANÇA NA EUROPA:

PÁG. 3

VALORES, ATITUDES E COMPORTAMENTOS

1. PARTICIPAÇÃO E MOBILIZAÇÃO

PÁG. 4

2. SATISFAÇÃO COM O PAÍS

PÁG. 5

3. BEM-ESTAR SOCIAL E PESSOAL

PÁG. 9

4. IDENTIDADE NACIONAL E RELIGIOSA

PÁG. 14

5. ATITUDES FACE À IMIGRAÇÃO

PÁG. 15

6. VALORES HUMANOS

PÁG. 18

SOBRE O EUROPEAN SOCIAL SURVEY

PÁG. 21

INFRAESTRUTURA EUROPEIA DE CONHECIMENTO

2


MONITORIZAR A MUDANÇA NA EUROPA: VALORES, ATITUDES E COMPORTAMENTOS

Os inquéritos do European Social Survey (ESS) incluem um variado conjunto de questões sobre valores, atitudes e comportamentos dos cidadãos. A estrutura dos inquéritos aplicados compreende duas partes distintas. Uma das partes consiste num conjunto de blocos temáticos permanentes, aplicados em todas as edições do ESS e de que fazem parte, por exemplo, perguntas sobre confiança, comportamentos políticos, atitudes face à imigração, religiosidade, orientações valorativas. A outra parte é habitualmente constituída por dois módulos temáticos, específicos, que visam o aprofundamento de alguns temas: em 2012/2013 os temas a inquirir são 'Compreensão e avaliação da democracia' e 'Bem-estar pessoal e social'.

Este documento dedica-se à análise de alguns indicadores selecionados dos módulos permanentes. A sua análise no tempo permite ver diferenças entre países, mas também tendências no tempo e responder a algumas perguntas. Serão os portugueses diferentes dos restantes europeus? E qual o efeito do tempo nas avaliações que os cidadãos fazem de diversos aspetos da sua vida pessoal e social? Neste trabalho selecionámos alguns indicadores que nos pareceram mais relevantes para fornecer uma imagem de Portugal no contexto Europeu. Para simplificar a leitura comparativa criámos dois grupos de países, um formado pelos países europeus do préalargamento (Alemanha, França, Reino Unido, Bélgica, Holanda e Espanha); outro formado pelos países nórdicos (Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia).

3


1

PARTICIPAÇÃO E MOBILIZAÇÃO

A ação política reflecte o grau de envolvimento dos cidadãos na sociedade civil relativamente às questões que a afetam. Níveis baixos de ação política podem significar perda de sentido de comunidade e de solidariedade social. O afastamento dos cidadãos e o seu reduzido envolvimento na política podem ter implicações na democracia, na integração social e no desenvolvimento geral do país. Na figura 1 evidencia-se, antes de mais, a falta de mobilização manifestada pelos portugueses. Note-se que este valor é constante, o que denota um alheamento muito expressivo dos cidadãos portugueses no que toca à sua intervenção cidadã, que se destaca ainda mais quando comparado com os valores obtidos nos outros dois grupos de países. Figura 1 AÇÃO POLÍTICA¹ Alta

7 6 5

(ponto médio da escala)

4 3 2 1

Baixa

1,1 1,3 ,4

1,0

1,4

1,0

1,4

,3

,2

1,0

1,4

,3

1,0

1,4

,2

0 2002

2004 Portugal

2006 UE pré-alargamento

2008

2010

Países nórdicos

Figura 2 INTERESSE NA POLÍTICA² Muito

4

3

2,6

2,6

2,6

2,6

2,6

2,4 2,1

2,4

2,4

2,5

2,4

1,9

2,0

1,9

1,9

2004

2006

2008

2010

(ponto médio da escala)

2

Nada

1 2002

4

Portugal

UE pré-alargamento

Países nórdicos


Este envolvimento dos cidadãos na vida política do país pode também ser medido pelo interesse declarado pela política. O padrão de resposta nos três grupos de países considerados é muito semelhante aos valores encontrados no que toca à ação política, sendo os inquiridos dos países nórdicos os que manifestam maior interesse e os inquiridos portugueses os que se mostram mais desinteressados. ¹ O índice consiste no somatório das respostas aos seguintes indicadores: contactou políticos ou o governo; trabalhou para partido ou movimento; trabalhou numa associação; usou emblema de campanha/movimento; assinou petição; participou em manifestação; boicotou produtos. (0-não, 1-sim) ² Escala: 1- Nada interessado; 4- Muito interessado

2

SATISFAÇÃO COM O PAÍS

O grau de satisfação manifestado relativamente a diversos aspetos da vida do país, fornece um conjunto extremamente rico de indicadores para a reflexão sobre a democracia e sobre o envolvimento dos respectivos cidadãos. O ESS inclui, desde o início, uma bateria de indicadores que permitem proceder a essa avaliação. Comecemos pelo mais abrangente: a satisfação com a democracia (figura 3). Para além de Portugal continuar a ser, comparando com os dois conjuntos de países, o que apresenta valores mais baixos de

satisfação com a democracia, um outro aspeto que também o distingue é o facto de a satisfação não surgir como uma atitude constante. Isto pode ser um indício de que os níveis de satisfação estão associados aos contextos políticos. O valor mais baixo regista-se em 2004, imediatamente antes das eleições legislativas de Fevereiro de 2005 que deram origem ao Governo de José Sócrates. A satisfação com a democracia recupera mas, em 2010, com os efeitos da crise já visíveis, regista-se um valor muito próximo ao de 2004. Figura 3

SATISFAÇÃO COM A DEMOCRACIA Extremamente 10 satisfeito 9 8 7 6 (ponto médio 5 da escala) 4 3 2 1 Extremamente 0 insatisfeito

6,4

6,5

6,7

6,7

6,7

5,2

5,3

5,2

5,3

5,0

4,6

3,4

2002

2004 Portugal

4,2

4,1

2006

2008

UE pré-alargamento

Países nórdicos

3,5

2010

5


Tiago Silva Nunes

sem tĂ­tulo, 2009


Apesar dos baixos níveis de satisfação com a democracia, principalmente em Portugal, a satisfação com o regime político é sempre superior à satisfação com um governo específico. E, enquanto nos países nórdicos parece haver uma separação mais clara entre satisfação com a democracia e satisfação com a actuação do governo (repare-se em particular nos dados de 2010), no caso português estes dois níveis de satisfação oscilam de forma muito semelhante.

A figura 5 mostra a correlação entre a satisfação declarada pelos cidadãos com o estado da educação e da saúde no seu país. Seguindo o padrão anteriormente identificado, Portugal revela os valores de satisfação mais baixos, seguindo-se os países europeus do préalargamento e, por fim, com os níveis mais elevados de satisfação, os países nórdicos. Contudo, é importante notar que é em Portugal que se regista o maior aumento de satisfação, quer com a educação, quer com a saúde, entre 2002 e 2010.

Figura 4 SATISFAÇÃO COM A ATUAÇÃO DO GOVERNO Extremamente 10 satisfeito 9 8 7 6 (ponto médio 5 da escala) 4 3 2 1 Extremamente 0 insatisfeito

5,3

5,2

4,0

4,2

5,4

5,4

4,1

4,1

4,3 3,8

3,6

3,5

3,3

2,5 2002

2,4

2004

2006

Portugal

2008

UE pré-alargamento

2010

Países nórdicos

Figura 5 SATISFAÇÃO COM A EDUCAÇÃO E A SAÚDE Extremamente satisfeito

10 9 Países nórdicos

8

UE-pré alargamento

7

2010 2008 2004 2006 2002

6

(ponto médio da escala)

5

Portugal

4 3

2010 2006 2004 e 2008 2002

2008 2010 2004 2002 2006

2 1

Extremamente insatisfeito

0 0

1

2

3

4

5 (ponto médio da escala)

6

7

8

9

10

Extremamente satisfeito

7


Tiago Silva Nunes

sem tĂ­tulo, 2009


3

BEM-ESTAR SOCIAL E PESSOAL

O European Social Survey tem usado sistematicamente, desde 2002, alguns indicadores importantes para avaliar o bem-estar pessoal subjetivo (e.g. confiança interpessoal, perceção de felicidade e de saúde, laços sociais) e o bem-estar social subjetivo (e.g. confiança nas instituições). Seguidamente apresentamos alguns resultados relativos às duas dimensões de bem-estar subjetivo. BEM-ESTAR SOCIAL

No que toca às instituições políticas, a ordenação dos países em termos de confiança declarada segue um padrão: os países nórdicos mais confiantes, seguindo-se os países do préalargamento e, por fim, Portugal, sendo este o caso onde se verificam maiores variações ao longo do tempo. Figura 6 CONFIANÇA NOS POLÍTICOS Toda a confiança

10 9 8 7 6

(ponto médio da escala)

5 4

4,9

4,7

4,8

4,9

4,9

3,7

3,6

3,5

3,6

3,4

2,5

2,3

2006

2008

3 2 Nenhuma confiança

2,8 2,1

1

2,0

0 2002

2004 Portugal

UE pré-alargamento

...

2010

Países nórdicos

EM PORTUGAL, OS CIDADÃOS DEPOSITAM MAIS CONFIANÇA NO PARLAMENTO NACIONAL DO QUE NA CLASSE POLÍTICA...

9


Figura 7 CONFIANÇA NO PARLAMENTO Toda a confiança

10 9 8 7

5,9

6 (ponto médio da escala)

5

4,6

4

4,4

3

5,7

5,9

4,4

4,5

3,7

3,8

6,0

5,9

4,7

4,3

3,5 2,9

2 Nenhuma confiança

1 0 2002

2004 Portugal

2006

2008

UE pré-alargamento

A confiança nas duas instituições políticas nacionais em análise mostra que os cidadãos depositam mais confiança no parlamento nacional (figura 7) do que na classe política (figura 6). Isto acontece quer em Portugal, quer nos dois grupos de países considerados, e é constante ao longo do tempo. Mantendo a tendência que já havíamos identificado anteriormente, verifica-se uma maior instabilidade das opiniões em Portugal, que atinge em 2010 o nível de confiança mais baixo desde 2002, quer nos políticos, quer no parlamento (instituição que regista a quebra mais

2010

Países nórdicos

acentuada, passando de um valor médio de 4.4 em 2002 para 2.9 em 2010). O grau de confiança no parlamento europeu (figura 8) reúne maior consenso. Apesar disso, podemos observar três tendências diferentes no tempo: nos países nórdicos a confiança tende sempre a aumentar (excepto entre 2002 e 2004 onde se manteve constante); nos países do pré-alargamento não se observam grandes variações; em Portugal observamse maiores variações, que acompanham, por exemplo, os níveis de satisfação com a democracia (figura 3).

Figura 8 CONFIANÇA NO PARLAMENTO EUROPEU Toda a confiança

10 9 8 7 6

(ponto médio da escala)

5 4

4,8 4,5

4,5 4,3

4,4

4,0

3

4,9

4,8 4,6 4,3

4,4

5,0 4,1

4,3 3,7

2 Nenhuma confiança

1 0 2002

10

2004 Portugal

2006 UE pré-alargamento

2008 Países nórdicos

2010


BEM-ESTAR PESSOAL

Relativamente à confiança interpessoal (figura 9), os resultados das 5 edições já realizadas do ESS mostram níveis de confiança diferentes entre países/grupos de países, registando Portugal os valores mais baixos e os países nórdicos os mais elevados. Contudo, é de notar a ausência de variação ao longo do tempo.

Figura 9 CONFIANÇA INTERPESSOAL³ Toda a confiança

10 9 8 7 6

(ponto médio da escala)

6,4

6,4

6,5

6,5

6,5

5,1

5,1

5,2

5,2

5,2

4,5

4,2

4,3

4,2

4,2

2002

2004

2006

2008

2010

5 4 3 2

Nenhuma confiança

1 0

Portugal

UE pré-alargamento

Países nórdicos

Também no que toca à perceção de felicidade (figura 10), Portugal é onde se registam os valores mais baixos. Contudo, não podemos falar de uma população infeliz, dado que os valores médios registados são sempre significativamente superiores ao valor médio da escala. Digamos antes, que os outros têm uma perceção de felicidade ainda maior do que nós. O convívio parece ser um aspeto importante para todos (figura 11). Contudo, e apesar das flutuações no tempo, são os portugueses quem mais convive com colegas, familiares ou amigos. Note-se que a pergunta mencionava claramente tratar-se de convívio fora do local de trabalho, ou do contacto familiar doméstico, diário.

³ Índice constituído a partir de três indicadores: a maior parte das pessoas é de confiança; a maioria das pessoas tenta ser honesta; a maior parte das vezes as pessoas ajudam-se: (0-10)

11


Figura 10 PERCEÇÃO DE FELICIDADE Extremamente 10 feliz 9

8,0

8 7,0

7

8,0

8,0

7,4

7,5 6,7

6,6

6,5

6,5

8,0

8,0 7,4

7,4

7,3

6 (ponto médio da escala)

5 4 3 2 1

Extremamente infeliz

0 2002

2004

2006

Portugal

UE pré-alargamento

2008

2010

Países nórdicos

...

A PERCEÇÃO DE FELICIDADE, PORTUGAL É ONDE SE REGISTAM OS VALORES MAIS BAIXOS...

Figura 11 CONVÍVIO COM COLEGAS, FAMILIARES OU AMIGOS Todos os dias

7 5,9

5,6

6

6,2 5,3

5,1

5,1

5,1

5,1

5,1

2002

2004

2006

2008

2010

5,4

5,3

5 (ponto médio da escala)

5,9 5,4

5,3

5,4

4 3 2

Nunca

1

Portugal

UE pré-alargamento

Países nórdicos

...

OS PORTUGUESES SÃO QUEM MAIS CONVIVE COM COLEGAS, FAMILIARES OU AMIGOS...

12

A perceção de saúde (figura 12) é uma avaliação estável, no tempo e entre países, mas sempre acima do ponto médio da escala. Portugal é o país onde se verificam os valores mais baixos, seguindo-se os países europeus pré-alargamento e, finalmente, os países nórdicos, aqueles onde os cidadãos avaliam a sua saúde de forma mais positiva.


Figura 12 PERCEÇÃO DE SAÚDE Muito boa 5 4 (ponto médio da escala)

3,8

4,0

3,8

3,4

4,0

3,8

3,4

4,0

3,8

4,0 3,5

3,5

3,4

4,0

3,8

3 2

Muito má 1 2002

2004 Portugal

2006 UE pré-alargamento

2008

2010

Países nórdicos

Um indicador importante para avaliar o bem-estar de uma população é o grau de segurança sentido. A vitimização declarada pode ser um indicador importante para aferir o grau de segurança percecionado. De acordo com os resultados (figura 13), a percentagem de inquiridos, ou seus familiares, que foram vítimas de furto ou roubo tem vindo a diminuir, embora seja em Portugal onde se verifica o decréscimo mais acentuado, passando de 23% em 2002 para menos de 14% em 2010.

...

A PERCEÇÃO DE SAÚDE. PORTUGAL É O PAÍS ONDE SE VERIFICAM OS VALORES MAIS BAIXOS...

Figura 13 VÍTIMA DE FURTO OU ROUBO NOS ÚLTIMOS 5 ANOS %

100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0

27 23 21

2002

18 21

2004 Portugal

28 13

19

25

2006 UE pré-alargamento

13

20

24

2008 Países nórdicos

14

18

24

2010

13


4

IDENTIDADE NACIONAL E RELIGIOSA

Para além das questões do módulo da Identidade inquiridas em todos os países, em Portugal o questionário inclui também um conjunto de perguntas que procura compreender o grau de identificação ou proximidade do entrevistado com o seu país, região, grupo religioso e com a União Europeia. Este conjunto de perguntas foi proposto pela equipa portuguesa e progressivamente adoptado por mais países. Para estas questões, foi adaptada uma escala visual, exemplificada na imagem. Como se pode verificar, a identificação mais forte é com o país, seguindo-se, em ordem decrescente de intensidade, a região, o grupo religioso e a União Europeia. Os níveis de identificação com cada um dos grupos considerados são bastante estáveis ao longo do tempo, sendo o grupo menos próximo, a União Europeia, aquele que regista maiores variações.

0

Eu

[País]

1

Eu

[País]

2

Eu

[País]

3

Eu

[País]

4

Eu

[País]

5

Eu

[País]

6

Eu

[País]

Diga-me, por favor, qual dos pares de círculos representa melhor o seu grau de identificação ou proximidade com [país].

Figura 14 DIMENSÕES DA IDENTIFICAÇÃO SOCIAL - PORTUGAL Grande identificação 6

5,0 5,0 5,0 5,0

5

4,7 4,7 4,9

4,8 3,9

4 (ponto médio da escala)

4,1 4,1 4,1

3,7 3,4 3,7 3,4

3 2

1 Nenhuma identificação 0 País

14

Região 2004

Grupo Religioso 2006

2008

2010

União Europeia


5

ATITUDES FACE À IMIGRAÇÃO

Comparativamente aos países europeus do pré-alargamento e, embora em menor escala, aos países nórdicos, a imigração é, em Portugal, um fenómeno relativamente recente. Contudo, a apreciação geral que os portugueses fazem das pessoas que vêm viver e trabalhar para Portugal não mudou nos últimos 8 anos. A figura 15 mostra o grau de rejeição de imigrantes percecionados como pertencendo a raça ou grupo étnico diferente da maioria e de imigrantes de países mais pobres fora da Europa. Podemos verificar que Portugal é o país que regista maior oposição ao acolhimento de pessoas com as características mencionadas. Figura 15 OPOSIÇÃO À IMIGRAÇÃO

4

Oposição à 4 imigração

3

2,9

2,8

2,9

(ponto médio da escala)

2,8 2,6

2,5

2,5

2,3

2,3

2,8 2,5

2,5 2,3

2,2

2,2

2 Abertura à imigração 1 2002

2004 Portugal

2006

2008

UE pré-alargamento

2010

Países nórdicos

4 Índice construído a partir dos seguintes indicadores: deixar vir pessoas de raça ou grupo étnico diferente da maioria; deixar vir pessoas de países mais pobres fora da Europa (1- deixar vir muitas pessoas; 4- não deixar vir ninguém)

?

SÃO OS IMIGRANTES PERCECIONADOS COMO UMA AMEAÇA?

E em que medida os cidadãos vêem os imigrantes como uma ameaça? Quer em Portugal, quer nos dois grupos de países, não há fortes perceções de ameaça económica relativamente aos imigrantes, uma vez que as médias andam à volta do ponto médio da escala (5). No que toca à sua influência na vida cultural, a perceção de que os imigrantes são um factor de empobrecimento é ainda menor. Em Portugal registam-se os valores mais elevados de rejeição de imigrantes e de perceção de ameaça associada a factores económicos ou culturais. A comparação dos dois tipos de ameaça, económica e cultural, registados em 2010 em todos os países participantes do ESS (figura 18), mostra que, excetuando nos casos da Rússia e da Suíça, a perceção de ameaça económica é superior à perceção de ameaça cultural.

15


Tiago Silva Nunes

sem tĂ­tulo, 2009


Figura 16 AMEAÇA ECONÓMICA Imigração má para a economia

10 9 8 7 6

(ponto médio da escala)

5

5,0 5,2

5,6 4,7

5,3

5,0

5,1 5,1

5,3

5,0 5,0 4,6

5,1

4,5

4,4

4 3 2 Imigração boa para a economia

1 0 2002

2004 Portugal

2006

2008

UE pré-alargamento

2010

Países nórdicos

Figura 17 AMEAÇA CULTURAL Imigração empobrece a vida cultural

10 9 8 7

(ponto médio da escala)

6 5 4

5,3

4,8

4,7

4,7 4,6

4,5

4,3 3,4

3,5

4,5

4,3 4,3

3,4

3,4

3,4

3 2 Imigração enriquece a vida cultural

1 0 2002

2004 Portugal

2006

2008

UE pré-alargamento

2010

Países nórdicos

Figura 18 AMEAÇA CULTURAL E ECONÓMICA EM 2010 Alta perceção de ameaça

10 9 8 7 6

(ponto médio da escala)

5 4 3 2

Baixa perceção de ameaça

1 0

Ameaça económica

Ameaça cultural

17


6

VALORES HUMANOS

Uma vez que a referência aos valores sociais é estruturante para que se possam compreender as motivações que guiam e justificam as opiniões, atitudes e comportamentos dos indivíduos, o ESS inclui uma versão de 21 itens da Escala de Valores Humanos de Shalom Schwartz. O modelo de valores humanos de Schwartz propõe uma tipologia de 10 tipos de valores. São eles: poder, realização, hedonismo, estimulação, auto-centração, universalismo, benevolência, tradição, conformidade e segurança. Estes 10 valores estão organizados em torno de duas dimensões básicas: uma que opõe

valores de auto-transcendência a valores de autopromoção; e uma segunda que opõe valores de abertura à mudança a valores de conservação. A primeira dimensão reflete o conflito entre a aceitação dos outros como iguais e a preocupação com o seu bem-estar versus a prossecução do sucesso individual e do domínio sobre os outros. A segunda dimensão reflete o conflito entre o desejo de autonomia intelectual, liberdade de ação e orientação para a mudança versus a obediência, a preservação das práticas tradicionais e a proteção do statu quo.

Figura 19 IMPORTÂNCIA ATRIBUÍDA AOS VALORES (2010)

Conservação Maior adesão

Abertura à Mudança

Autotranscendência

Autopromoção

1,0 ,74

0,5

,78

,41

,16

(ponto médio da escala)

,06

,01

0,0 -,10

-,13 -,28

-,34

-0,5

-,82

Menor adesão

-1,0 Portugal

...

UE pré-alargamento

-,85

Países nórdicos

PORTUGAL É O PAÍS ONDE HÁ MENOR ADESÃO AOS VALORES DA AUTO-TRANSCENDÊNCIA (UNIVERSALISMO E BENEVOLÊNCIA)...

18


Figura 20 PORTUGAL É O PAÍS ONDE HÁ MENOR ADESÃO AOS VALORES DA ABERTURA À MUDANÇA

...

IMPORTÂNCIA ATRIBUÍDA AOS VALORES

(HEDONISMO, ESTIMULAÇÃO E AUTO-CENTRAÇÃO)...

Portugal Maior adesão

1,0

(ponto médio da escala)

,14

,17

-,24

-,26

,15

,18

-,34

-,34

,41 ,16

0,0

-,34 -,52

Menor adesão

,48

,37

-0,5

De uma forma geral, os valores da autotranscendência são os que merecem o maior grau de adesão por parte dos cidadãos aqui representados. No seu inverso encontram-se os valores da autopromoção. Dito de outra forma, identificamos um padrão formado pelos valores da auto-transcendência e da conservação que rejeita os valores da abertura à mudança e da auto-promoção.

,55

,52 0,5

-,43

-,28

-,38

-,34

2008

2010

-1,0 2002

Conservação

2004

2006

Abertura à mudança

Auto-transcendência

Auto-promoção

UE pré-alargamento Maior adesão

1,0 ,65

,68

,72

,74

,74

0,5

Se compararmos Portugal com os dois grupos de países, constatamos que é o país onde há menor adesão aos valores da autotranscendência (universalismo e benevolência) e aos valores da abertura à mudança (hedonismo, estimulação e auto-centração), e onde a adesão aos valores da conservação (segurança, tradição e conformismo) e aos valores da auto-promoção (realização e poder) é mais generalizada. O padrão inverso encontra-se nos países nórdicos.

,06

(ponto médio da escala)

,05

,04

,06

-,10

-,13

-,13

-,13

-,13

-0,5

Menor adesão

-,75

-,76

-,78

-,80

-,82

2002

2004

2006

2008

2010

-1,0

Conservação

Abertura à mudança

Auto-transcendência

Auto-promoção

Países Nórdicos Maior adesão

Os resultados refletem ainda a estabilidade que caracteriza as orientações axiológicas. Entre 2002 e 2010 a ordenação dos valores, em termos de prioridades, permanece estável em Portugal, nos países europeus do pré-alargamento e nos países nórdicos.

,07

0,0

1,0 ,70

,70

,74

,74

-,02

-,02

-,04

-,04

-,04

-,05

,78

0,5

(ponto médio da escala)

0,0

-,05

-,05

,01

-,10

-0,5

Menor adesão

-1,0

Conservação

-,79

-,78

-,79

-,79

2002

2004

2006

2008

Abertura à mudança

Auto-transcendência

-,85 2010

Auto-promoção

19


Tiago Silva Nunes

sem tĂ­tulo, 2009


European Social Survey

SOBRE O EUROPEAN SOCIAL SURVEY INFRAESTRUTURA EUROPEIA DE CONHECIMENTO

O European Social Survey (ESS) é uma infraestrutura europeia de conhecimento, cujo processo de constituição numa European Research Insfrastructure Consortium se encontra em curso, sendo Portugal um dos futuros membros fundadores do ESS-ERIC. Esta infraestrutura tem por objetivo estudar as atitudes e valores sociais e políticos dos europeus numa perspetiva comparativa e longitudinal. Este projeto surgiu da conjugação de esforços de diversos organismos comunitários e nacionais, nomeadamente a Fundação Europeia para a Ciência e a Comissão Europeia. No caso de Portugal, o projecto é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), com o propósito de constituir

uma fonte de informação baseada em procedimentos metodológicos rigorosos. Os resultados da investigação baseada nestes dados têm apoiado a tomada de decisão a variados níveis e servido de referência para o debate académico e político. O ESS foi o primeiro projeto das Ciências Sociais a receber o prestigiado Prémio Descartes, pela excelência na investigação científica. Portugal participa neste projeto desde o seu início, em 2002. Informação sobre o projeto poderá ser consultada em www.atitudessociais.ics.ul.pt. Os dados recolhidos em todos os países participantes estão disponíveis, de forma integral e gratuita, em http://ess.nsd.uib.no/.

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O ESS já foi aplicado em mais de 30 países (incluindo países extracomunitários). Para garantir a comparabilidade dos dados dos diferentes países, são selecionadas amostras aleatórias, representativas do universo considerado. A recolha de dados é feita através de entrevistas estruturadas, que incluem um módulo permanente de questões sobre atitudes e práticas associadas a diferentes aspetos da vida social; e módulos rotativos, associados a temas específicos. Módulos Permanentes 2002

Imigração Cidadania, associativismo e democracia

2004

Família, trabalho e bem-estar Saúde e prestação de cuidados Moralidade económica

2006

Bem-estar pessoal e social Organização do percurso de vida

2008

Atitudes perante o Estado-Providência Discriminação com base na idade

2010

I. Exposição aos Media II. Participação e mobilização III. Satisfação com o país IV. Confiança V. Bem-estar, saúde e qualidade de vida VI. Identidade nacional, étnica e religiosa VII. Imigração VIII. Valores humanos

Confiança na justiça criminal Família, trabalho e bem-estar (2ªedição)

2012

Módulos Rotativos

Bem-estar pessoal e social (2ªedição) Compreensão e avaliação da democracia

Indicadores de qualidade O ESS distingue-se de outros inquéritos longitudinais e transnacionais devido às suas especificações técnicas e metodológicas. O ESS procura manter e melhorar a qualidade dos seus inquéritos em todas as etapas do processo, de forma a garantir a melhor comparabilidade dos dados. Para isso, todos os processos seguem procedimentos rigorosos, desde a tradução do questionário, à formulação dos materiais de apoio, à seleção da amostra, à condução do questionário e até ao depósito dos dados. O indicador mais visível deste rigor será a taxa de resposta. %

100 90 80 70

60,2

75,5

72,8

71,2

68,8

61,2

62,9

62,5

60

Figura 21 TAXAS DE RESPOSTA

67,1 59,2

50 40 30 20 10 0 2002

22

2004

2006

Portugal

Restantes países

2008

2010


Publicações

Em Portugal, o ESS tem originado várias publicações e comunicações, que organizam e refletem sobre os dados obtidos. As comunicações dos seminários de apresentação e discussão de resultados mais recentes (relativas aos módulos rotativos do ESS4 e do ESS5) podem ser consultadas em www.atitudessociais.ics.ul.pt. Além disso, foram já publicados na coleção Atitudes Sociais dos Portugueses três livros sobre os resultados do ESS. O livro Contextos e atitudes sociais na Europa analisa as homogeneidades, diversidades e mudanças sociais na Europa, em campos tão variados como as classes sociais, as estruturas familiares, a hierarquia dos valores sociais, as posições perante a imigração, as questões de género e as diferenças entre gerações. No livro Ética, estado e economia Luís de Sousa e colaboradores dedicam-se a temas relacionados com a moralidade económica, nomeadamente, o significado e os contextos de emergência dos comportamentos económicos desviantes, o impacto do 'capital social negativo' e a relação entre confiança e corrupção, a avaliação que os cidadão fazem dos funcionários públicos, entre outros. Tempos e transições de vida: Portugal ao espelho da Europa é um livro 'sobre a vida, sobre o seu curso e percursos, sobre as incertezas, as atitudes e aspirações das gerações e as suas transições entre fases do ciclo de vida' (Mário Leston Bandeira). Aos livros já publicados, juntar-se-á muito em breve um novo título, O estado-providência em Portugal e na Europa que analisará as opiniões dos europeus sobre as funções do estado social, confrontando opiniões e representações com indicadores institucionais. Procura-se, assim, compreender as atitudes dos cidadãos relativamente ao chamado 'modelo social europeu', em diversos domínios: segurança social, educação, envelhecimento, saúde, trabalho.

Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Fevereiro de 2013

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O European Social Survey em Portugal O European Social Survey (ESS) é uma infraestrutura europeia de conhecimento, cujo processo de constituição numa European Research Insfrastructure Consortium se encontra em curso, sendo Portugal um dos futuros membros fundadores do ESS-ERIC. Esta infraestrutura tem por objetivo estudar as atitudes e valores sociais e políticos dos europeus numa perspetiva comparativa e longitudinal. Este projeto surgiu da conjugação de esforços de diversos organismos comunitários e nacionais, nomeadamente a Fundação Europeia para a Ciência e a Comissão Europeia. No caso de Portugal, o projeto é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), com o propósito de constituir uma fonte de informação baseada em procedimentos metodológicos rigorosos. Portugal participa neste projeto desde o seu início, em 2002. Informação sobre o projeto poderá ser brevemente consultada em www.atitudessociais.ics.ul.pt. Os dados recolhidos em todos os países participantes estão disponíveis, de forma integral e gratuita, em http://ess.nsd.uib.no/. Comissão Executiva Jorge Vala (ICS-UL); Anália Torres (ISCSP-UTL); Alice Ramos (ICS-UL) Conselho Consultivo Instituto de Sociologia-Universidade do Porto; Centro de Estudos em Sociologia (CES-Univ. Coimbra); Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS/ISCTE-IUL); Centro de Investigação e Estudos em Sociologia (CIES/ISCTE-IUL); Centro de Estudos sobre Mudança Socioeconómica (Dinâmia/ISCTEIUL); Centro de Investigação em Sociologia Económica e das Organizações (SOCIUS/ISEG).

Instituições Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) Centro de Investigação e Estudos em Sociologia (CIES/ISCTE-IUL) Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP-UTL)

Design . João Pedro Silva

Fotografia . Tiago Silva Nunes

ES G O TA

D

O

Publicações (Imprensa de Ciências Sociais)

ICS Destaque 2 Portugal e Europa, valores e atitudes na 1ª década do séc. XXI - ASP  

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