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4 folha da rua larga

março – abril de 2015

história baú da rua larga

Porto do Rio de Janeiro: do trapiche à Operação Porto Maravilha Uma história de escravos, imigrantes e da família real portuguesa Augusto Malta

A chegada em 1808 de D. João VI com sua família, empregados e funcionários da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro causou grande reviravolta no porto da cidade. Pelo menos 15 mil pessoas desembarcaram nos modestos trapiches e cais existentes. No mesmo ano, D. João concedeu aos ingleses o direito de baldeação para outros portos, a colocação de carga nos armazéns em terra e o direito de uso dos antigos trapiches. Terrenos foram demarcados na Gamboa e Saco de Alferes, permitindo a construção de novos prédios, arrendamentos para terceiros e a estiva de mercadorias. O movimento de mercadorias foi grande: aço, cobre, ferro em barras ou em manufaturas, carvão de pedra, breu, enxofre e outros sulfatos, alcatrão, piche, óleo, bebidas alcoólicas, pipas de azeite, caixas com velas e sabão, farinha, couros, surrões de lã, sal, peixe e carne salgada, figos, presuntos, manteiga, cebola e alho em réstias, taboado, móveis e seges. O Porto do Rio, no final do século XIX, com suas unidades espalhadas pela região do Paço Imperial

A Praça Mauá no ano de 1910

às praias das Palmeiras e São Cristóvão, concentrava nessa orla as Docas da Alfândega e do Mercado, construídas de 1853 a 1877; as Docas D. Pedro II, edificadas entre 1871 e 1876; o dique da Saúde, destinado ao conserto de navios; a Estação Marítima da Gamboa, construída pela Central do Brasil entre 1879 e 1880. Existiam ainda cais privados, silos e pelo menos 60 trapiches da Prainha a São Cristóvão. O tráfego de passageiros era intenso em junho de 1860: a Real Cia. de Paquetes a Vapor com o Magdalena saía para

Southampton com escala na Bahia, Pernambuco, São Vicente e Lisboa; o Mersey saía para o Rio da Prata; a L’Union des Chargeurs, linha regular de paquetes entre o Rio e Havre, contava com o Cliper Victoria saindo para o Havre no dia 15, recebendo carga para Antuérpia. Nas ruas de São Pedro, Hospício, Saúde, Alfândega e São Bento, passageiros, comissários e exportadores podiam comprar passagem e despachar mercadorias para o brigue Maria Isabel, de propriedade dos Breves, que sairia com destino a Mangaratiba; no patacho

Valente com miudezas rumo ao Pernambuco, ou embarcar para Santos no Vapor Pirahy, do barão de mesmo nome. Com o término da escravidão e a crescente procura por mão de obra, o Porto passou a receber grande número de imigrantes. Na Ilha das Flores foi construída uma hospedaria para 3.500 imigrantes, que ali, após o desembarque, eram remanejados para as fazendas. De 1887 até 1966 funcionou, recebendo grande número de portugueses, polacos, italianos, espanhóis e alemães. De 1883 a 1890, passaram pela Ilha das Flores cerca de 140 mil

imigrantes. A imigração movimentava o Porto e as colônias cresciam com a chegada de novos braços. Somente para Petrópolis (RJ), em 1837, desembarcaram do navio Justine 235 famílias de alemães, e, no ano de 1845, um total de 2.111 pessoas chegaram em 13 navios, como o Virginie, Marie, Leopold, Curieux, Jeune Leon, etc. As colônias do sul do Brasil – Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul – receberam milhares de imigrantes, principalmente alemães e italianos. O primeiro embarque de estrangeiros imigrantes foi efetuado pelo navio Argus, em 1823, do porto de Amsterdã para o Rio de Janeiro. O Brasil movimentou, no ano passado, por via marítima, um total de 969 milhões de toneladas de cargas, das quais 349 milhões em portos organizados e 620 milhões em terminais de uso privado. Segundo a Píer Mauá, empresa que administra as atividades da antiga Estação Marítima de Passageiros, o Terminal de Cruzeiros será também um vigoroso polo de gastronomia, lazer e negócios para a cidade. Somente nas temporadas, nos últimos dez

anos, passaram pelo terminal pelo menos três milhões de turistas, que desembarcaram e fizeram turismo na Cidade Maravilhosa. O Porto do Rio de Janeiro registrou a chegada da família imperial, de escravos e imigrantes em seus precários trapiches. Transportou passageiros e levou mercadorias para o mundo. D. João VI, um homem pacato que devorava frangos, segundo seus melhores críticos, teve o empenho de dar-lhe uma estrutura para um novo Brasil. A estiva pesada, os chapas, os marinheiros de todas as nacionalidades, o samba, as prostitutas de seu entorno e a antiga Estação Marítima acolheram com espírito carioca todos que aqui adentraram a Baía de Guanabara. Atualmente, a Cia. Docas do Rio de Janeiro administra a importação e exportação de produtos, o Píer Mauá recebe os grandes cruzeiros de turistas, e o Porto Maravilha faz renascer a cidade em sua volta, trazendo glamour, história, cultura e novos rumos para a Região Portuária.

aloysio clemente breves pesquisador de história soubreves@yahoo.com.br

Folha da Rua Larga Ed.50